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quarta-feira, 4 de junho de 2014

A cachorra da pick up

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Sinto que no Cassino a relação humano-cachorro é especial,
parece que a sensibilidade dessa relação é mais comum e geral.
Em São Paulo, sinto ser a minoria de pessoas que se interessariam por uma conversa sobre essa relação.
A maioria acharia isso coisa de gente esquisita, ou simplesmente um tema chato de mais.
Aqui se fala de cachorro, com desconhecidos, os cães de rua tem nome, e é comum ver alguém conversando com um cachorro.

Fiquei muito feliz ontem por ver a Mel na caçamba da pick up do vizinho novamente.
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Sua história é um pouco triste.
A primeira vez que a vi seu pelo reluzia, e ela andava contente para todo lugar que o vizinho ia, quando ele chegava, abria a caçamba e ela descia ao lado dele.

Poucas coisas agradam mais aos cachorros que moram comigo do que macumbas.
Quando eles as encontram a festa é completa, 3 em 1, derrubam a vela, comem do arroz e se esfregam na galinha.
Eu tenho essa mania inconveniente de deixá-los sair sem coleira, como modo de tranquilizar minha consciência, me convencer de que vivem conosco por opção.
Eu sei que eles não tem opção de verdade, não depois de terem sido educados, criados, doutrinados nos limites de uma casa comendo ração, e tudo o mais.
De todo modo, fico mais tranquila deixando-os para que se quiserem possam correr para longe e nunca mais voltar.

Então, como os nossos cães, a Mel também estava voltando para casa fedendo a carniça. O vizinho comentou comigo, numa das poucas conversas que tivemos:
- Bah, eu não sei o que é, mas a Mel tá com um cheiro esquisito, parece que carniça.
- Ah é, o Jacques e o Gurila também. Acho que é por causa da macumba.
Ele desconversou e logo entrou em sua casa.

A Mel começou a ficar pela rua, seus pelos começaram a cair, parecia com sarna.
Latia sem razão, parecendo esquizofrênica.
O caso é que o vizinho é evangélico, nunca mais falou comigo.
Pode ser a "pressa" da rotina, ou o habito extremamente individualista que impera nesses tempos.
A Mel pode ter sido simplesmente largada de escanteio devido a chegada da filha do casal.

Ou realmente o fato de eu ter citado a palavra macumba num diálogo pode ter sido cataclísmico para Mel.
E eu senti por isso.
Até que ver ela novamente na pick up me elevou o moral.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

O cachorro mais sábio que o presidente.

Ah como eu amo cães! Eu sempre amei por amar, por gostar da companhia, de tocar o pelo, de não haver cobranças ou julgamento. Com meu namorado passei a reparar nos jeitos e manias dos animais, é meio que humanizá-los, mas é muito legal e filosófico.
Um dos cães que moram comigo usa algumas táticas para demonstrar suas necessidades. E desde que trocamos o pote de ração deles por um de metal, ele descobriu que lamber o pote vazio faz barulho pra caramba.

Assim, sempre que está com fome ele vai até o pote e começa a barulheira. Até que eu, ou o namorado, deixamos o que estamos fazendo e tomamos a decisão de atender a demanda do amigo. Inspirada nas manifestações costumo brincar que o Gurila agora protesta. Antes de pôr a ração eu afago sua orelha e digo "seu vândalo", em tom sarcástico.

Mas, e se eu não quisesse "obedecê-lo"? E se o barulho me incomodasse, se eu dissesse que essa ação dele é muito mau educada e radical, é uma violência. Se eu quisesse que ele protestasse de outra forma, de uma forma que não me atrapalhasse? Ele poderia muito bem se sentar pacificamente em frente o pote de ração e esperar por horas até o momento da alimentação!

Bem, nesse caso, toda vez que ele lambesse o pote eu iria até ele e xingaria, brigaria, gritaria, oprimiria, poderia prendê-lo no banheiro até que eu decidisse que era hora dele comer. Afinal eu tenho o poder de tomar essa decisão. E desse modo ele iria parar de fazer protesto barulhento, temendo a repressão.

Penso que isso se assemelha aos protestos e manifestações e como estes tem dividido sem razão a população. Tudo bem protestar, desde que seja de branco, com identificação, moças vestidas de saia bem comportada, cartazes com normas ABNT, limite sonoro, respeitando horário de silêncio. Depois que não adiantar, ai poderiam se dizer palavrões. E mesmo que não adiante, como não tem adiantado, como não houve resposta no caso do Instituto Royal, onde ativistas tentaram contato com a empresa, mandaram notícia pro ministério, fizeram manifestação pacífica, rezaram, choraram, empinaram pipa e nada, nenhuma posição da OSCIP (Organização da Sociedade Civil de INTERESSE PÚBLICO financiada pela FUNEP), nem assim se justifica a realização de "atentados terroristas".

Afinal arrancar olhos de cachorro para "pesquisa" tudo bem, mas invadir uma propriedade privada, estourar cadeados, isso não, jamais! Assinar contrato com empresas estrangeiras para entregar trilhões, enquanto pescadores que já não contam com acesso à saúde, educação, cultura podem ter sua atividade comprometida tudo bem, mas tombar carro, jamais! Sumir com pedreiro, uma vez que preto e pobre não faz diferença, tudo bem, mas tampar o rosto em protesto, jamais, cadê sua dignidade, rapaz?!

Os defensores de protestos pacíficos baseiam-se em Gandhi o entusiasta da não-violência. Bem, bem, para início de conversa, olha a Índia. Essa independência não foi assim "uma brastemp". E segundo que, enquanto Gandhi fazia suas admiráveis intervenções haviam protestos populares, não tão pacíficos assim. Porque, é claro, sobram motivos para revolta, eu fico impressionada é de alguém nunca querer quebrar nada, basta ler qualquer livro que traga um mínimo de crítica social para vc sentir vontade de explodir! Por favor leia, sobre justiça ambiental que é atual.

Uma pessoa que admiro muito falou "eles não podem quebrar as coisas, eu não sei qual é desses mascarados, se são pagos pelo governo, se são bandidos que desceram do morro, eu não sei". Como se houvesse algo muito misterioso no ar... eu levantei a lebre "não podem ser manifestantes, que simplesmente se cansaram de não ter resposta nunca, que sentiram a necessidade de ser mais "enfático"?" E aí Estado, não seria mais fácil servir a ração? Isso é se reestruturar para atender interesses sociais, invés de economicistas?

Acho que tem algo muito crucial a ser dito. Ouço pessoas criticarem "eco-terroristas", "feminazis", "ditadura gay", "talibikers" como se representantes desses ideais, que inevitavelmente cobram alguma mudança, fossem loucos, radicais, raivosos, mas será que não está havendo uma resistência muito grande ao "novo". Uma resistência radical, cega, que se agarra no seguro status quo, e critica qualquer medida real de mudança. Será que não é o momento de pensar "essa galera está tão raivosa a ponto de quebrar bancos, invadir institutos, ao ponto de enfiar imagens sacras no próprio cu, deve haver algo que os incomoda muito e que consequentemente deve ser mudado", ao invés de pensar "que vândalo maldito, destruindo tudo, deve ser escorraçado". Não seria melhor servir a ração invés de reprimir o pedido?

Fonte da notícia aqui.
Será que teremos que atear fogo ao próprio corpo (como protestam os monges), não para ser ouvido e ver alguma mudança, mas para pelo menos não haver críticas ao modo "violento" de se expressar, e em defesa à coisas e propriedade privada.