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quinta-feira, 10 de abril de 2014

A problemática dos agrotóxicos

Tive acesso a esse texto do Lutzenberger em um livrinho "Manual de ecologia do jardim ao poder". O texto é de 1985, e como o autor trabalhou inicialmente representando "defensivos agrícolas" sabe do que está falando. Já sabemos que nossos alimentos estão lotados de agrotóxicos, mas sabemos muitas vezes através de um senso comum pouco embasado. Sabemos que monocultura com adubos químicos e venenos estão tornando solos estéreis, mas pouco é dito e aprofundado sobre a questão nos meios de comunicação.

Então, segue o texto, chocante e um tanto revoltante, na íntegra. Acredito que nesses 30 anos as mudanças ocorridas foram no sentido de aumentar ainda mais a dependência dos agricultores, o que para minha alma anárquica é um tanto desanimador, mas como a informação e ponto crucial do empoderamento lá vai:
(texto "roubartilhado" da Fundação Gaia, desse link aqui.)

A PROBLEMÁTICA DOS AGROTÓXICOS
José A. Lutzenberger, maio 1985

Como surgiu e proliferou a agroquímica? Interessante é notar que ela não foi desencadeada por pressão da agricultura. A grande indústria agroquímica que impõe seu paradigma à agricultura moderna é resultado do esforço bélico das duas grandes guerras mundiais, 1914-18 e 1939-45.

A primeira deu origem aos adubos nitrogenados solúveis de síntese. A Alemanha, isolada do salitre do Chile pelo bloqueio dos aliados para a fabricação, em grande escala, de explosivos, viu-se obrigada a fixar o nitrogênio do ar pelo processo Haber Bosch. Depois da guerra, as grandes instalações de síntese do amoníaco levaram a indústria química a procurar novos mercados. A agricultura se apresentou como mercado ideal.

Da mesma maneira, ao terminar a segunda das guerras mundiais, a agricultura surge, novamente, como mercado para desenvolvimentos que apareceram com intenções destrutivas, não construtivas.

A serviço do Ministério da Guerra, químicos das forças armadas americanas trabalhavam febrilmente na procura de substâncias que pudessem ser aplicadas de avião para destruir as colheitas dos inimigos. Outro grupo, igualmente interessado na devastação, antecipou-se a eles. Quando a primeira bomba atômica explodiu no Japão, no verão de 1945, viajava em direção ao Japão um barco americano com uma carga de fitocidas, então declarados como LN 8, LN 14, suficiente para destruir 30% das colheitas. Com a explosão das bombas, o Japão capitulou e o barco voltou. Mais tarde, na Guerra do Vietnã, estes mesmos venenos, com outros nomes, tais como "Agente Laranja" e agentes de outras cores, serviram para a destruição de dezenas de milhares de quilômetros quadrados de floresta e de colheitas. Da mesma maneira que os físicos que fizeram a bomba, para não ter que abolir as estruturas burocráticas das quais agora dependiam, propuseram o "uso pacífico" da energia nuclear, os químicos que conceberam aquela forma de guerra química, passaram a oferecer à agricultura seus venenos, agora chamados de herbecidas, do grupo ácido fenoxiacético, o 2, 4-D e o 2, 4, 5-T MCPA e outros.

Na Alemanha, entre os gases de guerra, concebidos para matar gente em massa, estavam certos derivados do ácido fosfórico. Felizmente, não foram usados em combate. Cada lado tinha medo demais dos venenos do outro. Após a guerra, existindo grandes estoques e grandes capacidades de produção, os químicos lembraram-se que o que mata gente também mata inseto. Surgiram e foram promovidos assim os inseticidas do grupo do Parathion.

Também o DDT, que só foi usado para matar insetos, surgiu na guerra. As tropas americanas, no Pacífico, sofriam muito com a malária. O dicloro-difenil-tricloroetil, conhecido há mais tempo, mas cujas qualidades inseticidas acabavam de ser descobertas, passou a ser produzido em grande escala e usado com total abandono, aplicava-se de avião em paisagens inteiras, tratava-se as pessoas com enxurradas de DDT. Depois da guerra, mais uma vez, a agricultura serviu para dar vazão aos enormes estoques sobrantes e para manter funcionando as grandes capacidades de produção que foram montadas.

O negócio dos pesticidas transformou –se num dos melhores e mais fáceis. Tão fácil quanto o negócio dos entorpecentes. Quanto mais se vendia, mais crescia a demanda. A situação atual se assemelha a uma conspiração muito bem bolada. Os mesmos grandes complexos industriais que induziram o agricultor a que desequilibrasse ou destruísse a microvida do solo com os sais solúveis concentrados, que são os adubos minerais sintéticos, oferecem, então, os "remédios" para curar os sintomas dos desequilíbrios causados. Estes remédios causam novos estragos e desequilíbrios, novos "remédios" são oferecidos e assim por diante.

Com o uso intensivo dos adubos químicos, a agricultura enveredou por um caminho inicialmente fácil e fascinante, pois era simples e trazia aumentos espetaculares de produtividade. Mas, a longo prazo, este caminho, como agora já se vislumbra, é um caminho suicida.

O desequilíbrio ou destruição da microvida do solo pelo abandono da adubação orgânica e alimentação direta da planta com os sais solúveis, assim como o uso intensivo dos herbicidas, tem como consequência o aumento da suscetibilidade às pragas e enfermidades. Surgem então os inseticidas, acaricidas, nematicidas, fungicidas e outros biocidas. Estes, por sua vez, levados ao solo pela chuva, contribuem para uma destruição ainda maior da microvida. Os organismos maiores do solo, como a minhoca, talvez o melhor aliado que o agricultor possa ter, desaparecem por completo de nossas lavouras, hortas e pomares modernos. Agindo diretamente sobre a planta, os pesticidas, venenos que são, contribuem ainda para desequilibrar o metabolismo da planta. Tudo isto aumenta ainda mais a suscetibilidade às pragas e doenças. Portanto, uso ainda mais intensivo dos venenos, sempre produzidos pelo mesmo complexo de indústrias. Para combater, então, as doenças causadas pelo envenenamento generalizado do ambiente e dos alimentos, as mesmas grandes fábricas oferecem os fármacos modernos...

E tudo se torna sempre mais caro. O agricultor, antes autárquico, que produzia com insumos obtidos em sua própria terra ou comunidade, tornou-se simples apêndice da grande indústria química e de maquinarias. A situação da agricultura americana, tão invejada pela sua grande produtividade, é significativa. A quase totalidade dos agricultores pequenos e médios, hoje altamente capitalizados, totalmente dependentes de insumos industriais, encontra-se em situação de insolvência. Por mais que se esforcem, não conseguem mais ganhar o suficiente para pagar os juros dos empréstimos. Voltou, inclusive, um estrago muito grave que parecia resolvido na década de 40, com os grandes programas de conservação do solo. Hoje, a erosão volta a campear na agricultura americana, comprometendo o futuro alimentar da nação.

A indústria química conseguiu impor seu paradigma na agricultura, na pesquisa e no fomento agrícola e dominou as escolas de agronomia. Ela impôs um tipo de pensamento reducionista, uma visão bitolada que simplifica as coisas, mas que acaba destruindo equilíbrios que podem manter uma agricultura sã. A praga e as enfermidades das plantas são apresentadas como inimigos arbitrários, implacáveis, cegos, que atacam quando menos se espera e que devem, portando, ser exterminados ou, quando isto se torna impossível, ser combatidos da maneira mais violenta e fácil possível. O camponês tradicional e o agricultor orgânico moderno sabem que a praga é sintoma, não causa do problema. Com um manejo adequado do solo, adubação orgânica, adubação mineral insolúvel, adubação verde, consorciações, rotação de cultivos, cultivares resistentes e outras medidas que fortificam as plantas, eles mantém baixa a incidência de pragas e moléstias das plantas. O paradigma da indústria química não leva em conta estes fatores. Combate sintomas e não procura as causas.

Típico deste paradigma é o proceder dos "técnicos" da Campanha Nacional de Erradicação do Cancro Cítrico, que agora assolam a região citrícola do Rio Grande do Sul. Sua tarefa é simples – erradicar. Quando visitam um viveiro de árvores cítricas só procuram constatar os sintomas da doença. Quando os encontram, demolem e queimam todo o viveiro, mais todas as plantas cítricas dentro de um determinado raio, que era de 1000m, mas que já diminuiu para 50m, devido aos protestos dos viveristas. Se não encontram nada, seguem para outra. Não dialogam nem com o agricultor, muito menos com as condições locais de solo, de ambiente, de métodos agrícolas. Nunca perguntam ao agricultor como ele preparou seu solo, como adubou, que tipos de adubo aplicou, se usou herbicidas ou outros venenos. Entretanto, quem faz estas observações, nota logo que há relação entre as ocorrências ou intensidade da moléstia e as condições de solo, adubação, de matéria orgânica no solo, de rotação, de tratamento com herbicidas ou outros venenos, de afinidade de enxerto, etc. É claro que o programa de erradicação jamais conseguirá erradicar a bactéria associada aos sintomas do cancro cítrico, mas o programa já quase exterminou a citricultura no Estado do Paraná e se prepara para exterminá-la no Rio Grande do Sul.

Dentro desta visão, a agricultura, que deveria ser o principal dos fatores de saúde do homem, é hoje um dos principais fatores de poluição. Uma das formas insidiosas de poluição. O leigo vê a fumaça que sai das chaminés, dos escapes dos carros, vê a sujeira lançada nos rios. Mas, quando compramos uma linda maça na fruteira da esquina, mal sabemos que esta fruta recebeu mais de trinta banhos de veneno no pomar e, quando entrou no frigorífico, foi mergulhada em um caldo de mais outro veneno. Alguns dos venenos são sistêmicos. Quer dizer, eles penetram a circulam na seiva da planta para melhor atingir os insetos que se alimentam sugando a seiva. Não adianta lavar a fruta.

É claro que a indústria química sabe que está lidando com fogo e a população começa a preocupar-se. Para acalmar o público assustado e proteger a si própria de possíveis problemas, ela complementa seu paradigma de uso de venenos com uma série de conceitos pseudocientíficos e jurídicos e usa toda uma nomenclatura especial.

Inicialmente, quando a consciência ecológica era pouca, os venenos eram apresentados com o termo genérico "pesticidas". A idéia era simples, combate às pestes. Em inglês, a palavra "pest" é usada em linguagem coloquial para designar "bichos indesejáveis". Cedo, no Brasil, passaram a usar o termo "defensivos". Uma palavra menos agressiva, que inspira mais confiança e não tem conotações negativas. Acontece que os produtos oferecidos pela indústria química para o combate de pragas e moléstias das plantas, com raríssimas exceções, são biocidas. Eles o são deliberadamente. A intenção é matar organismos considerados indesejáveis. Seria mais lógico que estes biocidas fossem designados com a palavra "agressivos" ou simplesmente, se quisermos ser honestos, de "venenos". Quando um agricultor orgânico faz determinados tratamentos com substâncias não tóxicas para fortalecer a planta, como quando usa soro de leite, iogurte, biofertilizantes, extratos de algas, fermentos e outros, diminuindo a incidência de pragas e enfermidades, não porque matem os agentes patogênicos e os parasitas, mas porque deixam a planta com mais resistência, então sim, deveríamos usar a palavra "defensivo". Por isso, agrônomos conscientes lançaram a palavra "agrotóxicos" para designar os biocidas da agroquímica. Não se trata de querer agredir a indústria, trata-se de precisão de linguagem. Esta palavra está agora consagrada na lei dos agrotóxicos de já mais de uma dúzia de estados da Federação.

Uma vez que é inegável que, ao aplicar agrotóxicos na lavoura, sobram resíduos no alimento, a indústria arroga-se o conceito de "dose de ingestão diária admissível", ADI (admissible daily intake). Para cada um de seus venenos, ela afirma que o organismo humano pode ingerir, inalar ou absorver pela pele, certa quantidade diária, sem que isto tenha conseqüências para sua saúde. Em se tratando dos venenos fulminantes e persistentes em questão, não deixa de ser um conceito temeroso. Se aceitarmos este conceito, teremos que insistir que todos os nossos alimentos sejam constantemente e exaustivamente analisados e retirados imediatamente do mercado caso haja transgressão. Todos sabemos que nada disso acontece na prática cotidiana. Os escândalos só acontecem quando ambientalistas preocupados conseguem que sejam feitas algumas análises ou quando levam a público resultados oficiais que permanecem engavetados. Os administradores públicos sempre procuram negar a gravidade do que foi encontrado. Só quando a pressão popular é grande consegue-se ação oficial.

A ADI, através de cálculos envolvidos, é derivada de outro conceito, aparentemente científico, na realidade extremamente rudimentar e grosseiro. Trata-se da medida de toxicidade chamada LD50, a dose letal 50%. Para achar este valor para um determinado veneno, submete-se uma certa população de cobaias a doses crescentes do tóxico. Quando a metade da população morre, supõe-se que este é o limite de letalidade. Assim, uma LD50 de 8 significa que 8 miligramas de um veneno por quilo de peso de cobaia viva foram necessários para começar a matar as pobres criaturas. Milhões de animais são torturados à morte todos os anos nos laboratórios da indústria. Quanto mais baixa a LD50, mais tóxica é a substância. Nesta visão, um agrotóxico com LD50 –10 é cem vezes mais perigoso que outro com LD50-1000. Trata-se, mais uma vez, de raciocínio extremamente reducionista. Um argumento muito usado pelos defensores dos agrotóxicos é a afirmação de Paracelsus de que veneno é questão de dose. Gostam de apresentar o exemplo do sal de cozinha. Um pouco de sal é indispensável à saúde, mas se eu comer 100 gramas de sal, morro de desidratação. O mesmo raciocínio se aplica à água. Ela é indispensável à vida, mas podemos morrer afogados. De fato, este raciocínio se justifica sempre que ele for aplicado a substâncias que normalmente fazem parte dos processos metabólicos dos seres vivos: sal, água, ácido clorídrico, amônia, ácido sulfúrico e outros, nitratos, uréia, etc. Mas este raciocínio não se aplica a biocidas, quer eles sejam naturais ou artificiais. O veneno da cascavel sempre faz mal, por pequena que seja a dose. Se a dose for muito pequena, o estrago pode ser pequeno e superável, mas não deixa de ser um estrago.

Uma alfinetada causa um estrago muito pequeno, não se compara com um golpe de adaga, mas não deixa de ser um estrago. E o que acontece quando levamos diariamente uma nova alfinetada, especialmente se for sempre no mesmo lugar? A coisa poderá tornar-se muito grave. Mais um detalhe, de uma alfinetada no traseiro podemos rir; no olho, é outra coisa. Assim, o LD50 não leva em conta os efeitos crônicos. O que acontece após anos de ingestão diária de quantidades muito pequenas de um determinado veneno? Como ficam o fígado, o sistema renal, o sistema imunológico e outros?

Propor uma ingestão diária admissível para venenos como os agrotóxicos clorados, fosforados, os carbamatos, os mercuriais, as triazinas, os derivados do ácido fenoxiacético, já passa de temeridade, é cinismo. Mas tem sentido para a indústria química. É uma espécie de seguro para eles, não para nós agricultores e consumidores. Nas concentrações propostas, torna-se impossível provar a relação causa-efeito. Se eu atropelar alguém com meu carro, não resta dúvida quanto a quem causou os ferimentos, só se discutirá se houve dolo ou culpa ou se, talvez, foi impossível evitar o acidente por descuido do próprio pedestre. Entretanto, se alguém estiver morrendo de câncer porque ingeriu durante anos quantidades muito pequenas de uma substância cancerígena, ou quando outro sofre de doença infecciosa porque está com o sistema imulógico destruído por carbamatos, torna-se impossível provar que a culpa é do respectivo agrotóxico. Os altos executivos da indústria química dormem tranqüilos. Nos casos em que se verificam resíduos acima das doses supostamente aceitáveis, eles sempre põem a culpa no agricultor, alegam "mau uso". Acontece também que, quando as práticas correntes na agricultura, o chamado "uso adequado", significam resíduos acima dos inicialmente aceitos, eleva-se simplesmente os índices. Esta política tem sido muito comum na Europa e nos Estados Unidos.
 
Além de não levar em conta os efeitos crônicos da ingestão continua de pequenas doses, a LD50 não leva em conta os efeitos sinergísticos, isto é, os efeitos de interação dos venenos uns com os outros. Os testes de determinação da LD50 são feitos para uma substância por vez. Mas o organismo humano, no mundo em que vivemos, se vê confrontado com substâncias as mais diversas ao mesmo tempo. Temos uma infinidade de formas de poluição do ar, da água, dos alimentos, dos objetos que tocamos, até das roupas que usamos. É sabido que quando mais de um veneno age ao mesmo tempo, o efeito é muitas vezes superior, e muito superior à simples soma dos efeitos de cada um. Quase sempre os venenos se potenciam mutuamente. Digamos que o veneno A tem um efeito 5 e o veneno B tem um efeito 6. Ambos juntos poderão ter não um efeito 5+6=11, mas 5x6=30. E se forem muitos venenos? A ADI não considera este aspecto.

Também não considera os efeitos genéticos, isto é, os efeitos mutagênicos, cancerígenos e teratogênicos. É sabido que estes efeitos são desencadeados a nível molecular. Uma só molécula de substância cancerígena, um só foton de radiação ionizante, um só vírus, podem desencadear o câncer ou a mutação. Portanto, a ADI para substâncias suspeitas de poderem desencadear efeitos genéticos deveria ser zero. Mas a indústria química apresenta ADI até para a Dioxina, o superveneno, o veneno mais absurdo que o homem já produziu, e que estava presente no Agente Laranja. Jornalistas japoneses me mostraram fotos de crianças nascidas com deformações indescritíveis no Vietnã. Continuam nascendo. As deformações são mais horríveis que as da Talidomida. Aliás, a Talidomida deve ter uma LD50 acima de 1000. Dentro dos conceitos da agroquímica, seria menos perigosa que o sal de cozinha.

Quanto aos efeitos ecológicos dos agrotóxicos, na maioria dos casos, só se fica sabendo depois dos estragos. Os efeitos cumulativos dos clorados, especialmente do DDT, só se tornaram conhecidos depois que biólogos atentos constataram os desastres. Quando Rachel Carson escreveu seu livro "Primavera Silenciosa", chamando a atenção para os problemas ecológicos dos venenos aplicados na agricultura, ela foi violentamente vilipendiada e insultada pela indústria.

Isto nos leva a mais um aspecto importante de toda esta loucura. A indústria química, e não só no campo dos agrotóxicos, insiste que tem o direito de introduzir no ambiente qualquer substância que ela desenvolva, enquanto não for provado que há perigo. Mas esta prova ela não procura encontrar. Ao contrário, inicialmente ela combate os que a procuram. Deveria ser exatamente o contrário. Enquanto houver um resquício de dúvida sobre possíveis perigos, a substância não deveria ser introduzida no ambiente. Em vez de continuar fazendo bons negócios, enquanto a sociedade não provar os perigos, a indústria deveria ser obrigada a provar que não há perigo, antes que se lhe permita vender.

Na prática agrícola, no campo, o que hoje acontece é um dos maiores escândalos da sociedade industrial moderna. Nunca tantos venenos, venenos tão fulminantes, alguns persistentes, outros fulminantes e persistentes ao mesmo tempo, foram colocados em mãos de tanta gente tão despreparada para lidar com eles.

A grande maioria dos agricultores não tinha e continua não tendo noção dos perigos que enfrenta com os agrotóxicos. Especialmente grave é a situação dos bóias-frias nos latifúndios, cuja única alternativa, em geral, não passa de escolha entre morrer de fome ou morrer envenenado.

A indústria costuma defender-se com o argumento do "uso adequado" ou "correto" e insiste em que todos os problemas que se constatam, se devem sempre ao "mau uso". A culpa está sempre com a vítima. Quando os problemas se agravam e se multiplicam, ela, às vezes, promove cursinhos ou campanhas de "uso correto dos defensivos". Para isso procura sempre envolver a administração pública - Agricultura ou Saúde - para deixar com ela a responsabilidade e parte dos custos. Mas ela continua manipulando o agricultor, também as donas de casa, no caso dos venenos contra baratas, com publicidade insidiosa e desinformativa, que não alerta para os perigos e promove um uso desnecessário e até prejudicial. Jamais ela esclarece sobre as alternativas não tóxicas. Muito pelo contrário, combate os que promovem a agricultura orgânica.

Quando a Sociedade se defende, prepara legislação, insiste na obrigatoriedade de receita assinada por agrônomo não vinculado com a indústria química, esta combate abertamente as medidas. Assim, quando o parlamento estadual do Rio Grande do Sul aprovou por unanimidade uma lei estadual de controle de venenos, a indústria entrou na Justiça Estadual. Perdeu e foi ao Tribunal Supremo, para argüir da inconstitucionalidade das leis estaduais, que já são 14. Ela conseguiu pressionar o Governo anterior a apresentar no Congresso um projeto de lei federal que esvaziaria as leis estaduais. Felizmente, o novo Governo já retirou o projeto, que não chegou a ser votado, pois foi bloqueado por alguns deputados conscientes. Agora, ela já iniciou pressão sobre o novo Ministro da Agricultura para que prepare projeto de lei favorável a ela.

Não somente os agricultores são mantidos na ignorância e tornam-se assim as primeiras vítimas, os médicos que tratam das vítimas, são mantidos na ignorância quanto aos aspectos toxicológicos dos novos produtos, dados que só a indústria conhece, e que, como vimos, ela própria só pode conhecer parcialmente, uma vez que os testes toxicológicos são conduzidos com enfoque reducionista, um veneno por vez. Não levam em conta a complexidade e envolvência da situação real. Por isso são comuns tratamentos inadequados. O médico confunde os sintomas. Até agora, não conheço trabalho eficiente da agroquímica no sentido de informar os médicos quanto aos problemas toxicológicos dos venenos agrícolas. Mas as mesmas firmas transnacionais, quando fabricam também medicamentos, mantém verdadeiros exércitos de "visitantes" para manipular os médicos no sentido de receitar seus fármacos aos seus pacientes.

O processo de democratização e descentralização ora desencadeado neste país, que, esperamos, venha a ampliar-se, obriga-nos, todos, a conscientizar-nos deste imenso escândalo para que haja pressão sobre os administradores da coisa pública que só costumam agir sob pressão. Sempre que possível, precisa também ser acionada a Justiça.
 

segunda-feira, 10 de março de 2014

Sociedade em crise e vislumbres de novas possibilidades

Não é mais questão de política, de como regular o mercado, para que ele se auto-regule, trata-se de gerir os recursos que temos. E não digo apenas de recursos materiais, como terra fértil, metais, vento, senão também recursos mais sutis, como a criatividade humana, a tecnologia potencial, e até os sentimentos nobres. Convenhamos, sentimentos nobres são sistematicamente desincentivado.

Porque temos empregos? Com tantas máquinas. Pensa, a maioria dos empregos são tediosos e totalmente inúteis. Para transferir a placa de meu carro, falei com aproximadamente 15 pessoas, essas me atenderam diretamente, no balcão do detran, na vistoria, para fazer a placa, no banco, e se não precisássemos de placas, ou melhor, se não precisássemos de carros, por meio de um transporte público eficiente? Quantos empregos seriam/são desnecessários! E não é ruim não ter emprego, essas pessoas passam a maior parte do seu dia fazendo uma atividade chata pra caramba, como passar lápis sobre uma etiqueta colada no chassi! Esse camarada com tempo livre poderia compor canções tão lindas como as que jamais iremos ouvir. Se o governo britânico não tivesse (como não tem atualmente) investido em cultura Jonh Lennon teria passado toda sua vida empilhando caixas, e nós jamais cantaríamos e nos inspiraríamos com Imagine. Emprego não é bom, é uma bosta, trabalhar no que realmente gosta (sem depender do salário) é bom. Criar emprego é a pior medida política que pode-se usar de propaganda eleitoral. Temos que pensar em diminuir empregos, aumentar distribuição e tempo livre.

Mas, porque as pessoas buscam emprego feito loucas? Pq mesmo o mais humilde dos seres humanos, o dotado de zero ganância precisa de emprego? Por causa do dinheiro! Não do dinheiro em si, mas do passaporte para condições mínimas de vida. Alimentação, remédio, informação, conhecimento, cultura, atividade social, transporte. Não precisamos de dinheiro, ninguém precisa de dinheiro, mas precisamos e muito do acesso à bens que só nos oferecem mediante a essa troca inescrupulosa. Passa tempo. Nessas férias fui a uma praia e haviam várias pranchas de remar, elas ficavam em pé, paradas, porque eram alugadas, e quando não havia dinheiro para alugá-las, elas ficavam paradas e alguém desejoso de brincar, ficava passando vontade, entediado, mais pobres não podem nem chegar perto de uma.

Jacques Fresco conta que na crise de 30 "Foi difícil entender o motivo porque milhões de pessoas estavam sem trabalho, sem teto e prestes a morrer de fome, enquanto todas as fábricas estavam ali, os recursos não tinham mudado." Nesse momento começou a entender e questionar e entender e criticar as "regras do jogo" econômico. Viveu também a segunda guerra mundial "onde as nações se revezavam na destruição mutua e sistemática. Calculei que toda destruição e todos os recursos desperdiçados na guerra poderiam facilmente ter provido todas as necessidades humanas no planeta."

Seguiu observando criticamente as medidas governamentais economicistas e "desenvolvimentistas" e depois de muito ler (aparentemente muito e sobre tudo, religião, sociedade, poder, comportamento humano, economia), pensar, propor, dialogar, viajar, trabalhar, se envolver em projetos diversos, ele passou a identificar as raízes do problema e idealizar suas soluções. Chegou então a essa bela possibilidade chamada Projeto Venus. Venus é a cidade da Florida em que se encontra seu centro de pesquisa, mas é um nome muito curioso, e feliz, pois diversas linhas místicas mantem a tradição de dar à "Deus" um aspecto feminino (não é mulher, o feminino existe em diversos graus nos homens também), o qual estaria mais voltado a generosidade, constância, cooperação, as sociedades matriarcais que houveram não tinham uma natureza guerreira e opressora. Mas enfim, sigamos!

E porque existe o dinheiro? Seria para controlar o acesso a recursos limitados. ok, mas não somos capazes de pensar em outras formas de lidar com esses recursos? Porque temos que limitar moradia, transporte, saúde? Esses "recursos" são limitados? Uau, pois quando eu entro num supermercado não me parece, muitos autores que estudam a "geopolítica da fome" concordam que produzimos alimento suficiente para 12 bilhões de seres humanos, somos em 7, dos quais 12,5% passa fome (fonte). Será mesmo o dinheiro uma maneira inteligente de gerir recursos? Quantos médicos se formam por ano, o conhecimento é um recurso limitado? Meu amigo economista resolve todos os problemas em 2 segundos, aumenta o preço daqui, investe ali, fiscaliza acolá... bem, convenhamos, esperar que o capitalismo traga abundância a todos é muita ingenuidade, não?! A escassez e a miséria é interessante para a manutenção do satus quo, será que se todos tivessem acesso garantido à saúde, alimentação, lazer e moradia se submeteriam a empregos desumanos e degradantes? A pobreza é um baita negócio nesse atual sistema, pode-se pagar 500 reais de aluguel numa casa com 3 dormitórios nas favelas do Rio:

"Segundo o Data Popular, as favelas geram por ano cerca 63 bilhões de reais. Por isso vale a pena mostrar a favela como um lugar formidável [sobre uma matéria do Fantástico que mostrava as maravilhas do morro]. Os recursos não permanecem nas favelasO ciclo da economia gira em torno das grandes redes. Vale a pena colocar uma Besni, um Itaú e uma Casas Bahia em uma favela: em alguns estados o governo oferece como contrapartida isenção de imposto para as empresas - uma espécie de insalubridade, a mão de obra é barata, o povo paga as contas em dia, mesmo com a geladeira, adquirida por pressão no intervalo da novela, que anunciava a redução do IPI, vazia."

A vida e a qualidade de vida deixou a muito tempo de ser prioridade. Mesmo a informação, dada por jornalistas, não busca a verdade e sua difusão, busca o lucro, acumular dinheiro a patrões bastante distantes da realidade que são noticiadas. O mesmo com os avanços tecnológicos e na área da saúde, será interessante economicamente desenvolver a cura do câncer, ou meios de evitá-lo? No meio acadêmico até, vi esses dias que um estudo que buscava relacionar transgênico com câncer foi terrivelmente criticado, principalmente por cientistas que trabalhavam em projetos de patentes de transgênicos, ganhado certamente muito dinheiro.

O universo do pensamento é livre, podemos idealizar o que quisermos: e se não houvesse dinheiro? Você pensa que ficariam todos os seres humanos ociosos, se comendo, e sei lá eu fazendo o que mais? A única coisa que te motiva é ganhar dinheiro? E se vc não precisasse, não há nada que te interessa? Desenho, filosofia, música, engenhocas, corpo humano, nada? Imagine que vc pudesse entrar em um supermercado e pegar o que quisesse para se alimentar, para vestir, totalmente livre. Nossas férias e fim de semana são poucos "produtivos", pois gastamos toda nossa energia no emprego.

O mundo está um caos, inteiro e completo. Nosso ambiente cada vez mais poluído e degradado, desculpe, mas não se iluda pensando que se todos reciclassem, se todos poupassem, se todos... pq não vai acontecer, enquanto as inovações forem disputadas a tapa por grandes corporações desejosas de mais lucro, cada tecnologia que aparece não é para o bem comum, cada politica que se cria também não, todas as inovações são para aumentar os lucros, ou não recebem investimentos (vide Tesla que morreu pobre investindo tudo o que tinha no desenvolvimento de energia gratuita e powers) e nessa onda também se focam as medidas sociais (o ciência sem fronteiras tem parceria com grandes empresas e o objetivo não é melhorar a qualidade de vida de forma holística, não é que o conhecimento adquirido seja aplicado na melhora da vida dos que necessitam, através de inovações de ponta, basta ver o foco dos cursos e as empresas parceiras, é uma medida de criar mão de obra qualificada para aumentar os lucros, e esses lucros são importantes pois geram emprego... e novamente não há investimento em emancipação, capital social e empoderamento popular). Você pensa que é livre mas não é. E nem será enquanto tiver que pagar as contas, e sem "pagar as contas" vc não se transporta, não come, não se cura, nem se mantém saudável, não se comunica. E é possível mudar isso, afinal os recursos existem, as pessoas existem, elas tem criatividade para tecnologias, o que pode deixar de existir é o que regula o acesso a tudo isso, o dinheiro. E, quando deixar não haverá exclusão, não haverá diferença entre brancos e negros, homem e mulher, artista ou engenheiro, quer dizer haverá diferença, mas nenhum será excluído, todos poderão entrar na mesma loja e terão as mesmas possibilidades, as diferenças serão internas, como aptidão, interesse, etc. mas não serão diferenças qualificadoras "melhor ou pior".

É claro que haverão problemas e limitações, pois tudo é dinâmico, e talvez esse modelo possa deixar de servir em algum momento, como, convenhamos, o modelo atual não serve mais...

Vale a pena assistir ao documentário Paraíso ou Esquecimento, estamos em um momento importante. Muitos renomados ecologistas (Odum - O Declínio Próspero) e economistas (Meadows - Os Limites do Crescimento) acreditam ser nossa fase atual um ponto crítico, ou seguimos com a lógica atual (ainda que maquiada de medidas "freio de mão" como reciclagem, protocolo de kioto e blablabla) explorando, extraindo, poluindo, concentrando e lucrando, ou aproveitamos que ainda temos energia não renovável o suficiente e construímos uma nova sociedade sustentável, pautada em outro paradigma, que não o economicismo tradicional calcado na competição e acumulação. Nos livros defendem que essa é uma escolha que deve ser tomada, e quanto mais rápido mais próspero será o "declínio" da atual economia e civilização (como é nesse momento), não tomar essa decisão implica em esgotarmos as possibilidades de escolha e interferência nesse declínio, que é inevitável.

segunda-feira, 3 de março de 2014

Ecologia da evolução de mim mesma e como fiz as pazes comigo

Tenho repetido e me convencido da certeza absoluta de que esses anos de mestrado me transformaram, total, profunda e radicalmente!

De fato, foram leituras, aulas e trabalhos intensos, conceitos novos, e para mim uma forma de ver a história totalmente nova. Bem, sabe, meus pais sentem falta dos belos tempos da ditadura, e com muito custo me mantiveram num dos colégios mais caros da cidade, desenhado para atender as demandas da elite local. E eu sentia que não me encaixava muito bem aí. Mas, não identificava exatamente o que tanto me incomodava. Passei a ser crítica das aparências e ter asco de patricinhas, enquanto ao mesmo tempo internalizava conceitos trôpegos de que "ser contra o sistema" é coisa de idiota que busca uma desculpa para justificar sua vadiagem, que a dignidade do ser humano está no quanto este trabalha (e trabalho aqui no sentido de atividade profissional remunerada), que o objetivo máximo é acumular bens, que a pobreza existe devido a malevolência de pessoas irresponsáveis, acomodadas, ingratas e aproveitadoras por aí a fora.

Assim, quando me apresentaram algumas leituras sociais fiquei maravilhada, textos tão lindos e tão revoltantes desnudavam uma injustiça histórica, na qual eu meio sem certeza me posicionava do lado do opressor ou de modo míope e parcial do lado do oprimido, mas sem fundamento e sem que a decisão fosse realmente minha. Bem, não foi só isso que me levou a uma mudança de paradigma. Mas, o fato é que essa que eu percebia como uma "nova Keith" (pós mestrado) passou a sentir pela "Keith antiga", e vez por outra eu pensava nas conversas que não tive, nas pessoas de quem não me aproximei, e nas que posso ter influenciado, nos opressores que defendi, nas opressões que incitei e participei (ainda que no discurso da opinião leviana). Eu também lembrava de mim com momentos intensos e profundos de melancolia, ousaria dizer depressão, o que agora julgo ser devido a contradição de ter a ideia de um bem espiritual em conflito com o social, do tipo: "ame seu próximo como a ti mesmo" vs "bandido bom é bandido morto".

Na semana retrasada, passei por uma "intervenção" na FURG, era da matéria de "arqueologia do capitalismo". Foi uma vivência muito intensa. Inicialmente se escolhia um nome aleatoriamente numa caixinha, a menina me disse:
- Vc vai ter que achar essa pessoa.
Eu sorri extremamente empolgada com o jogo, fiz comentários de alegria e a menina séria não deu muita trela e se afastou.
A primeira salinha estava forrada de saco de lixo preto, era escura, abafada com cheiro de polietileno (sei lá), com uma voz narrando seus momentos de tortura, uma tv com imagens preto e branco, fiquei com medo de ver alguma cena forte, olhei furtivamente para tela, enquanto tentava entender o que estava acontecendo, eram exibidas imagens dos locais de tortura, vazios. Incomodada, preferi não procurar o rapaz do papel por lá. Eu me senti mesmo com medo, não sei dizer exatamente, tive medo de ter que ficar mais tempo naquele lugar horrível. Saí rápido.
Logo na outra sala havia um projetor, com fotos, nome, idade, ocupação e data de desaparecimento, graças a ditadura militar. Meu medo, que era um embrulho no estomago virou um nó na garganta. Me obriguei a esperar pela foto do rapaz. Estudante, 32 anos. Senti um pouco de raiva por terem me envolvido em algo que eu nunca quis de verdade saber. Depois lembrei do black bloc e de como eu gostaria de estar nas manifestações de rua hoje, e como de alguma forma eu estava naquela época e naquele  papel poderia estar o meu nome. E então senti uma afinidade com os jovens das fotos projetadas.
Na próxima sala era um quarto vazio, arrumadinho com livros e máquina de escrever. Nesse momento senti vergonha de todas as vezes que pensei e falei algo pró-ditadura, mesmo por ter sido desinformada, sob influência. Senti culpa. E mais uma vez, culpei uma "Keith antiga", que me defendi para mim mesma, "não existe mais".

Até que esse fim de semana, terminei meu segundo diário! Desde 2007 tenho escrito com certa constância. E nesse processo emocionante de troca de diário acabei juntando coragem e dando uma lida no início do primeiro. Tive um pouco de medo de quem eu veria naquelas páginas, mas me entreguei a essa leitura.

O que notei é que em realidade não se tratava de uma completa imbecil. E fiquei bastante surpresa em ler constatações que me impressionaram, com a consonância com a posição que assumo hoje. Digamos que tratava-se de uma anarquista em potencial. As leituras indicadas no mestrado me salvaram de um ciclo vicioso, elevaram meu patamar de discussão, me dotaram de argumentos, mas de algum modo eu já estava nesse caminho. Só estava um pouco embolada em um labirinto, dando voltas na montanha sem mudar de altitude.

Parece tudo cada vez mais dinâmico, e já sinto como se estivesse completando mais uma volta, nessa mesma altura, me adaptado ao novo angulo de visão, e começo a me aborrecer com a monotonia da paisagem. Mas, onde estará a trilha para subir mais um pouquinho? Talvez esteja eu apressada demais.

Enfim, deixando minha filosofia barata um pouco mais palpável, apesar de eu ter consciência de estar me sentindo mais livre, plena e feliz agora eu não era totalmente desprezível, "antes". E descrevo no diários dias bastante agradáveis, e sentimentos bastante puros e justos! Claro que eu controlo e manipulo o que escrever no diário, e ideias suicidas (que penso em juntar "material" para um post exclusivo) costumavam ser calculadamente escondidas, bem como alguns julgamentos alheios mais "cruéis". Mas, o fato é que estou em processo de me entender mais que me julgar, e fazer as pazes comigo mesma.

 Decidi me "expor" dessa forma, principalmente porque reparei essa situação num querido amigo. Que mudou fisicamente, e vive repetindo como ele era isso e aquilo. Eu concordava e ajudava na tiração de sarro (alias tirar sarro por muito tempo foi um inconveniente hobbie meu). Mas, depois de me dar conta de que na verdade ele era o que deu base para ele ser, mudei meu discurso, ainda sem saber muito o que dizer, comentei:
- ah, vamos lá não era tão ruim assim...
foi um comentário perdido, na roda de amigos, dentre tantos consensuais que não deixaram de apontar, com um certo prazer, as "falhas" do "antigo" amigo. Ainda vou melhorar esse discurso e na próxima oportunidade convencê-lo, e a mim mesma, de que somos um e nosso passado integra o que somos no presente, ainda temos o que aprimorar, e julgar e "xingar" nosso suposto passado pode nos fazer temer a implacabilidade do julgamento do eu futuro. E principalmente, essa evolução linear é ilusória, nosso aprimoramento é bem mais complexo, e o eu antigo alcançava reflexões que superam as do eu atual e futuro, ele vive em nós, apenas selecionamos quais partes dele gostaríamos de carregar, e paulatinamente abandonamos as que julgamos não nos servir!

Seria uma seleção natural de qualidades minuciosamente identificadas no eu atual, somada a identificação de características consideradas por eu mesma desagradáveis e o trabalho diário (esse sim referente a "cuidado ou esmero empregado na feitura de uma obra") do cultivo das qualidades somadas ao contorno das características desagradáveis. Informação e experiências auxiliam na identificação e seleção do que cultivar e o que polir! Como o que a "Natureza" faz com a Vida, selecionando, adaptando, excluindo, criando, buscando a complexidade. E nesse caso, sustento que (como comigo), a evolução não teria sido oriunda de mutações ao acaso jogadas a esmo e que teriam repercussão dependendo unicamente do sucesso reprodutivo, mas orientada pela seleção rigorosa de um Inteligência que direciona os sistemas à complexidade.

Tal configuração complexa teria permitido a manifestação da consciência e alguns teorizam que


uma das vantagens evolutivas conferidas a nós pela consciência é a flexibilidade, sensibilidade e criatividade(Searle)

sendo nossa evolução um caminhar ao aperfeiçoamento dessas três características. Isso corrobora a sensação que tenho de ter evoluído especialmente nos últimos dois anos, pois foi o período em que assisti um aprimoramento substancial na minha flexibilidade, sensibilidade (em especial) e criatividade (essa última menos intensa).