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terça-feira, 11 de setembro de 2018

O que eu realmente quero pro meu filho?

Como algo tão abstrato é também tão palpável. E é de fato meio assustador deixar guiar a vida pelo o que nem conheço bem, e sequer sou capaz de definir: felicidade.

Enquanto caminhava pela areia quente da praia, em um dos horários de almoço, nos quais eu não almoçava para ter tempo de refletir, me perguntava o que eu quero proporcionar pro meu filho. Ele tem apenas dois anos, mas eu já devaneei demais. Já pensei que sinto tanta falta de saber algum instrumento que preciso garantir à ele educação musical, ele corre bem e é bastante atlético, e pensei que devemos aproveitar esse dom - inscrevi na aula de natação, e já pensei que ele vai usufruir muito de uma boa eloquência... Como passar esses conhecimentos que nem mesmo eu adquiri?

E nisso fui pensando, se precisava voltar pra São Paulo onde se tem boas aulas com especialistas de qualquer coisa, se precisava de mais dinheiro pra pagar uma boa escola. E fui pensando, se precisava de garantir uma boa herança para ele ter tranquilidade e fui pensando no que eu gostaria que ele fosse. Fiz então o exercício de me imaginar conversando com um Gabriel adulto, como eu gostaria de vê-lo... Me surpreendi!

O que eu gostaria de ver não era exatamente um homem rico, casado, com filhos, talentoso, reconhecido, culto, viajado, vencedor, não... Essas coisas não me pareceram essencialmente importante. O que eu quero mesmo, mesmo mesmíssimo, é olhar no rosto dele e encontrar um olhar vivo e brilhante, eu quero reconhecer no sorriso dele a felicidade! "uma consciência plenamente satisfeita" como diz o Houaiss!

E como é isso de ser feliz? Como construir esse caminho? Tem aula de felicidade? Quanto custa? O que posso eu fazer para prover isso? Na minha cabeça fiz alguns discursos, para cada idade uma linguagem! Mas, nenhum discurso me pareceu suficientemente bom para convencer alguém à ser feliz.

As escolhas!

Dei-me conta de que ele teria que fazer escolhas, e eu não quero ter controle sobre as escolhas dele, mas eu quero que ele escolha sempre por ser feliz. Se não posso ensinar isso em discursos, devo ensinar com meu próprio exemplo. Foi então que eu me vi na vida dele, ou melhor, vi ele na minha. Um ambiente de trabalho hostil e desumano, sem tempo pra educar e se divertir com o filho amado, oprimida e subjugada. Como eu poderei olhar nos olhos do meu filho, daqui 20 anos e dizer pra ele fazer as escolhas que eu não fiz, quando poderia ter feito? Fraca, hipócrita, infeliz e cheia de remorso, que porra de mãe, de mulher é essa?

Nietzsche: A minha felicidade, porém,
deveria justificar a própria existência
Eu precisei da maternidade para entender qual o sentido, o propósito da vida. Viver a felicidade! E isso só dá pra ser aqui e agora. Não existe o menor sentido em esperar, não é num suposto paraíso que seremos feliz, nem depois de aposentar. A felicidade precisa ser vivida aqui e agora. E eu não sei exatamente o que fazer para alcançar e manter esse estado de espírito, eu não sei, mas eu sinto, intuo, farejo e vou seguindo as pistas. Já percebi que não está no poder de consumo, já percebi que a relação com as pessoas tem um impacto bastante importante, nesse estado de espírito. Não é exatamente fácil e confortável, não é compreensível, explicável e nem tem como racionalizar. Pode parecer egoísta e irresponsável, mas a verdade é que o tempo vai passando, a juventude já virou passado, eu sou uma pessoa adulta e serei idosa, e vou morrer. O que vem depois é impossível de se garantir com certeza e eu realmente não quero arriscar de passar toda uma existência esperando uma felicidade num além mundo... Eu quero ser feliz aqui e agora, e acho que isso é o melhor que pode acontecer comigo e com todos os seres vivos que convivem comigo. 





terça-feira, 2 de dezembro de 2014

A vida e as coisas.

Quanto menos assisto televisão menos capaz de assisti-la me torno. E isso seria um motivo de orgulho se conseguisse transpor os momentos sociais em que todos olham para TV. Não consigo. Então fico no meio das pessoas tentando me passar por torta frita. O bom do locus social que me encontro é que o sofá é confortável, a sala tem ar condicionado, a refeição é farta, o ruim é que parece que nada do que penso e sinto faz sentido. Muito embora cada vez me torno mais convicta da  minha coerência.

Por alguma razão a rede globo resolveu pregar acerca da depredação dos ônibus. Seria tudo bem se a matéria do fantástico não começasse com dois adolescentes assassinados por policiais durante um baile funk (possivelmente único momento de lazer de jovens da periferia). E então o repórter me diz em tom de horror "jovens queimaram um ônibus, porque acreditam que policiais tenham matado dois traficantes". Bem, que tenham sido assassinados por policiais, isso é uma suspeita, mas que eram traficantes não resta dúvida. O julgamento já foi feito, várias vezes embora nenhum juiz tenha participado. Foram julgados e condenados a pena de morte executada de imediato sem advogado de defesa, pelos policiais. E novamente julgados pelo repórter.

Mas, ao que parece esse não é o problema! O problema, e o drama todo reside no ônibus queimado. Sim, caros amigos, o ônibus. Essa é a vítima principal da ocorrência, o foco de nossa atenção e compaixão, o motivo de nossa revolta, nós membros da classe média.

Ainda estou um tanto incomodada com essa reportagem, e olha que faz semanas. Imaginem que entrevistaram uma funcionária da empresa de ônibus. E ela disse o valor do ônibus. Pois, uma informação séria tem que ter números. E eu não me lembro o valor porque estava pensando "Por que o senhor atirou em mim?". Imagens de horror de um ônibus vazio vagando pela noite eram exibidas, enquanto o motorista narrava o medo que sente de ser abordado. Outra voz disse que estava num ônibus que foi queimado "Eles mandaram a gente sair - desce, desce". Outro número foi exibido, que também não tenho certeza, mas acredito que era algo como: desde o início do ano 45 ônibus foram queimados. Nessa hora meu estomago embrulhou e calculei que seriam 90 assassinados nas periferias da cidade, 3 salas de aula inteiras. Se extrapolarmos o caso narrado para os demais.

Desses jovens nenhum tem nome. Nenhum tem mãe sendo entrevistada. Nenhum tem voz. Possivelmente não saberíamos de suas mortes, não haveria notícia se não fosse pelo pobre e querido ônibus queimado. A preocupação é com o patrimônio. O ônibus de 3 reais a passagem. A coisa que atropela a vida até no lúdico, na narrativa.

A colega do meu lado, confortavelmente deitada em seu sofá, fica assustada. "nossa, que absurdo, depois reclamam do preço da passagem". Meu coração bate forte, como falar sem gritar sacudindo-a pelos braços? "dois adolescentes foram assassinados" e vem a resposta 'eram traficantes' como se isso justificasse. Como se fosse legítimo assassinar todo e qualquer suspeito de tráfico que more na periferia. O coração continua batendo forte, meu inconformismo dificulta meu raciocínio, sinto o namorado me cutucar, de novo, cada vez mais forte. Devo me calar? Não posso, parece que seria trair a mim mesma, parece o mínimo que posso fazer por toda injustiça é me posicionar numa conversa informal. Na dúvida me permito um último e fugaz argumento, digo então rapidamente: "esse não é o papel da polícia". E então volto a posição torta frita, ignorando todo o resto, olhos parados fingindo ver tv, por dentro um turbilhão.

Estou condicionada, depois de 28 anos adestrada, a colocar o individual acima do coletivo. - Eu não mereço ser estuprada! E as outras? - Me incomoda sobremaneira o cutucão, esqueço dos jovens na periferia. Nas conversas individuais com o namorado sempre concordamos com o absurdo da injusta luta de classe, mas num momento como esse ele me cutuca, me oprime, me abandona, controla o que posso ou não dizer? Não confia que eu consigo conversar sem destruir vínculos familiares? Eu consigo? E de modo covarde, que dissesse "bem tenho uma opinião sobre isso, mas o mais adequado seria cada um guardar sua opinião para si", ai então também seria julgado.

Característico de mim mesma rumino, rumino, e rumino sobre isso. Controle. Não quero que ele me controle, mas isso não seria controla-lo? Proibi-lo de me cutucar: uma advertência agora, dá próxima é suspensão. Não. Só posso controlar a mim mesma, o que sinto e faço com o que me afeta. Não existe a menor possibilidade de controlar ao próximo, não quero isso, sou incapaz disso. Gostaria de não receber um discreto 'fica quieta' de quem gostaria de receber explicito apoio. Mas, a verdade é que acima de tudo não quero que ninguém me obedeça, que seja menos livre só para me satisfazer. Só cabe a mim decidir o que fazer com as próximas cutucadas. E decido que irei ignorar, não é bem um 'foda-se' é mais como um 'puxa, seja lá o que eu quiser dizer preciso moderar o tom para que ninguém se ofenda', e então seguir dizendo. Afinal, foi uma luta muito grande para que as mulheres tivessem voz, e me calar seria uma verdadeira traição.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

A árdua e interminável luta íntima contra preconceitos

Não me canso de admirar como a destruição de preconceitos é lenta, exige esforço, disposição e principalmente atenção! Mas é uma destruição bonita de se acompanhar.

Imagine que fiquei sabendo de um curso de "conversation" na universidade, ministrado por uma legitima americana. Topei na hora. E minha maior surpresa foi ver uma jovem engajada trazendo temas interessantes e extremamente críticos! Como a manipulação da mídia, construção de estereótipos, aliás indico um vídeo chocante (a conversation about race).

E não é que com essa história de copa, um amigo lança o comentário: "futebol é a única coisa que dá dinheiro e os americanos não estão envolvidos". Putz é mesmo, eu pensei como se essa fosse uma constatação muito genial. Sem me questionar o que eu entendia por "os americanos" eu fui. Oh yeah, eu fiz isso. Compartilhei o comentário na conversation. Na frente da americana e de todos os outros estudantes. Estupidamente abri minha boca e lancei essa observação rasa. E só comecei a me questionar "qual é o problema" depois que a professora imitou um barulho de bateria. Do tipo circense, depois de uma intervenção do palhaço.

Como eu posso ter dito isso a uma americana, que está no Brasil, e como eu é uma crítica ferrenha do consumismo, da coisificação e namora a revolução? E porque eu fiquei tão surpresa com o posicionamento crítico dela, pensando que isso seria contraditório vindo de uma americana? Carregada de preconceitos, eu me vi. De alguma forma na minha cabeça eu associei capitalismo e EUA de um modo simplificado, generalizado, superficial. Tanto que normalmente não me dou conta de que "os americanos" envolve uma gama extremamente complexa de seres humanos, dos quais certamente uma grande e significativa porção é crítica ferrenha do capitalismo selvagem, e uns outros tantos são anarquistas. Eu já sabia disso, já tinha reparado nisso, mas ainda assim não consegui flagrar prontamente. E fiz uma vítima do meu preconceito.

Acho que esse é o processo de destruição de preconceitos para construção de conceitos mais justos, profundos, complexos. Primeiro temos que nos abrir, isso é, simplesmente não pensar "o que esse idiota está falando, defendendo esse bando de vagabundos" ou no meu caso "que estúpida a reação dela, a verdade dói mesmo". Morei em São Paulo. Não achava graça em piadas de "baianos" (termo que inclui todos os imigrantes da enorme região norte e nordeste), mas eu ri da mulher tentando falar "youtube". E eu me achava muito boa pessoa.

Aqui em Rio Grande, estamos recebendo imenso contingente de imigrantes. Em sua maioria vindo de situação precária (suposição minha). Nesse momento, um pouco mais madura, identifico o baita preconceito que eles sofrem e isso me incomoda muito. Mas, mesmo assim...

(A professora americana nos pediu para criar um blog, só pra treinar o inglês. Empolgada com as analises de música que ela faz, tive uma ideia, fazer o mesmo só que ao contrário. Explicar, ao menos tentar, nossas músicas com crítica social no idioma do Império. Eis que surge num inglês medonhamente macarrônico, mas cheio de boas intenções A Subversive Brazil. A última música que pus foi Admirável Gado Novo.)

Mas, mesmo assim, mesmo depois de me reconhecer cheia de preconceitos e me identificar como defensora dos migrantes, você não acredita. Num é que eu passei direto e reto pelo trecho "É duro tanto ter que caminhar"? Estou acostumada a ver tudo: filmes, músicas, programas, notícias, voltadas para minha classe social, ainda que não para o meu gênero, mas isso não é problema pois fui adestrada a me encontrar em "os homens". Empolgada por ter me visto no livro admirável mundo novo nem me dei conta de que a música, praticamente homônima não era para "mim".

Só me dei conta e voltei para acrescentar um comentário na postagem quando já passava da metade da leitura de Vinhas da Ira, um livro muito envolvente, sobre uma família americana expulsa do campo por tratores e pés de algodão, que migra de modo muuuito (corajoso e) precário para Califórnia, como se não bastasse todo drama e dificuldade elas terão que enfrentar esse sombrio e cruel monstro chamado preconceito. O livro (nobel) inspira tamanha simpatia por esse grupo de pessoas - pobres, sem educação formal, com assassino ex-presidiário, mãe solteira. Nos envolve de modo a sentir as dores na pele, não é como viver, mas é próximo disso, dependendo da sensibilidade do leitor, muito próximo. Pensei em todos os imigrantes que conheci na minha adolescência paulista e com muito pesar, sinto vergonha em reconhecer que de alguma forma sempre me julguei superior a eles, minha "amizade" foi dada como caridade.

Nesse instante eu lembro da senhora falando "iutubiu" e me sinto extremamente idiota. Como paulista posso dizer que seria interessante, muito interessante, todos nós que nascemos e fomos criadas no estado mais """rico""" do país conferíssemos se não existe um morro de prepotência sob nossos pés. Donos do sotaque (e cultura e aparência e modelo econômico e roupas) adequado/ideal. Não, aquele vídeo não choca pela ignorância de uma mulher que não consegue dizer o nome de um site num idioma estrangeiro. Aquele vídeo choca pela risada do filho do patrão. Eu sei que estou desenterrando o tal do vídeo, mas sinto latente essa ordem estabelecida que põe o sotaque nordestino subserviente. Associando à ignorância e à valores desonrosos. Pois são nessas situações que eles aparecem nas novelas. Sinto como fui idiota em achar que estava bem o vídeo, por mostrar uma interação rara, eu achei legal da parte dele reconhecer a existência da pessoa que limpa suas sujeiras.

Fico triste por reconhecer tanta ignorância e preconceito em mim. E sei (e torço) que se daqui a 10 anos voltar a ler esse texto vou reconhecer uma dúzia de preconceitos e crueldades, torço para reconhece-los pois isso significa um passo para superá-los.

Você, que escreve, fala, canta, interpreta, dança, pinta, contra o preconceito, seu trabalho não é em vão. Me sinto muito, muito agradecida pela existência daqueles que (em oposição aos que constroem e nutrem) destroem preconceitos e salvam Almas. Nesse caso em particular, muito obrigada Zé Ramalho e John Steinbeck, e me desculpem por suas obras ainda serem consideradas transformadoras...
"Vinham famintos e ferozes, tinham a esperança de encontrar um lar, e só encontraram ódio. Okies... os proprietários odiavam-nos porque sabiam que eram covardes e que os Okies corajosos, e que eram bem nutridos e que os Okies passavam fome. E talvez os proprietários tivessem ouvido seus avós contarem como era fácil a alguém roubar terras a um homem fraco quando esse alguém era feroz e faminto e estava armado. Os proprietários odiavam-nos. E os donos das casas comerciais das cidades odiavam-nos também, pois que eles não tinham dinheiro para gastar. Não há caminho mais curto para se obter o desprezo de um negociante. Os homens das cidades, pequenos banqueiros, odiavam os Okies porque eles nada lhes deixavam ganhar. Eles nada possuíam. E os trabalhadores odiavam os Okies porque um homem esfomeado tem que trabalhar, e quando precisa trabalhar e não tem onde trabalhar, automaticamente trabalha por um salário menor, e aí todos têm que trabalhar por salários menores."

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Julguemos a opressão

A Lei Maria da Penha está aí, para defender as mulheres agredidas. Mas, as mulheres violentadas muitas vezes não denunciam. Qual seria o problema? Seria o medo da retaliação, a dependência econômica, emocional? Porque elas agem assim?

Soube num seminário, existe um certo conflito ideológico no feminismo. Deveríamos defender o direito a não se prostituir - considerando que essa decisão seja tomada como uma medida extrema, na qual as prostitutas preferiam estar atuando em outra área - ou deveríamos lutar pelo direito de se prostituir - levando em consideração que essa seja uma decisão consciente, e que essa é uma profissão tão digna quanto qualquer outra? Então nos perguntamos Porque as mulheres se prostituem?

Os estupros acontecem, e muitos consideram que andar desacompanhada seja a causa. Ou usar roupas "provocantes", beber na festa da turma. Enfim, várias atitudes das mulheres provocariam os estupros.

A mulher não deve engravidar se não quiser ter filhos. Caso ocorra uma gravidez acidental então temos calorosos debates pró e contra a decisão do aborto.

Ser ou não mãe também é uma pauta que dá ibope e gera longas discussões. Trabalhar fora ou não.

É sempre sobre nós! Nosso comportamento é pauta de debate. E sempre tem alguma revista, algum comentarista, todos tem uma opinião, um palpite de como deveria ser o comportamento feminino.

Uma mulher agredida, fisicamente, já está numa situação terrivelmente delicada, e é constantemente pressionada à denunciar e à não denunciar. Mas, será que existe pressão sobre o homem? Traçar o perfil dos que agridem e investir em campanhas de conscientização, em revistas, cartazes, televisão?

Afinal, porque se utiliza de serviços sexuais? Porque os homens procuram por isso? É uma atitude nobre, de elevada moral? Não seria o pagamento a compensação por um estupro? A compra do consentimento? A aceitação do consumo do corpo feminino como mercadoria?

Porque os homens estupram? Nesse ponto eu tenho uma sugestão. Deles é cobrado isso. Anúncios provocantes aumentam a libido masculina a todo instante. Estão sempre sendo excitados.

Ainda, toda criança abortada tem um pai. O homens abortam aos milhares, eles abortam muito mais, abortam crianças vivas.

Existem milhões de matérias voltadas ao público feminino, em site, revista, programa de televisão, sobre como fazer unha, como se depilar, limpar a pele, se maquiar, o que comer, quanto pesar, qual o cabelo adequado, como trepar, etc. Mas é muuuito raro ver um programa de televisão dando dicas de como fazer a barba, um programa doméstico apresentado por homem, onde se ensina a se comportar, o que dizer, o que pensar, o que vestir, como agradar a esposa, se deve ou não depilar o peito, isso simplesmente não é pauta. As dicas direcionadas à eles referem-se sobre como agir no emprego, isso em mídias muito específicas. As revistas voltadas ao público masculino trazem notícias, informações, mulheres nuas.

Dizer que é o que dá ibope eu acho muito controverso. Seria como garantir que as mulheres naturalmente se interessam por futilidades e precisam de um "manual de instrução" de como viver, enquanto que os homens são mais ávidos por informações "úteis" e já sabem como se comportar não precisando ninguém para lhes dizer. Bom, meu n-amostral é relativamente pequeno, mas eu diria que não existe essa relação, mesmo nesse cenário, em que somos constantemente e mais arduamente incentivadas a sermos fúteis, não posso dizer que as mulheres são mais superficiais. O que vejo é que elas sentem essa pressão. A impressão que tenho é que são elas as mais inseguras e deprimidas, e não penso que seja por uma natureza mais sensível. Aliás, eu nem acredito nessa distinção biológica de sensibilidade, basta ver os inúmeros poetas, autores, compositores masculinos sensíveis. Me desculpem, mas o carinho, amor, sensibilidade, altruísmo não é exclusividade nossa.

E reconheço nesse ponto o comportamento masculino vira pauta de julgamento. Existe um senso comum de que é necessário ser bruto, rude para não ser taxado de gay. Mesmo que isso seja demodé, e ninguém assuma publicamente essa posição, ainda permanece no ar essa sugestão. Acontece que um ser rude e insensível não encontra problemas em bater na esposa, estuprar, assediar e abusar dos serviços sexuais.


sábado, 14 de setembro de 2013

A doença que não existia


-         -  Entendo, entendo… - o médico então respirou fundo, tentando prolongar ao máximo a pausa que antecede o complicado diagnóstico - Bem, eu fico muito contente que tenhas conseguido exprimir seus sentimentos assim, tão serenamente. Parabéns, são sentimentos difíceis de lidar.

Pelos sintomas que o senhor descreveu, acredito que trata-se de uma hipersensibilidade, mais precisamente a Síndrome do Coração Ultra Puro, SCUP.  Acredita-se que não seja uma doença moderna, mesmo porque muitos escritores e compositores antigos, possivelmente, sofriam desse mal. Mas, seu diagnóstico e tratamento são recentes.

Eu costumo separar os tratamentos usuais em três linhas: a Fuga, o Enfrentamento, e a Entrega. Não pode-se dizer que um seja mais eficiente que outro, pois os resultados variam muito conforme o perfil do paciente. Existe ainda a possibilidade de fazer a combinação destes. Bem, eu vou te explicar em que consiste cada um e juntos encontraremos o mais adequado para iniciarmos seu tratamento.

Na fuga, como o nome diz, o sujeito foge do que lhe aflige. O modo mais óbvio, mas também muito controverso, é pelo suicídio. No início de minha carreira eu julgava que esse método fosse muito apropriado, pois além de imediato, no caso das ações bem sucedidas, ele não abre brechas para futuras crises, e me parecia resolver o problema por completo, apesar de drástico, claro. Mas, recentes pesquisadores da linha espiritualista, afirmam que esse método é na verdade muito danoso, pois segundo eles, apesar de morto, a consciência continua a desempenhar suas funções. E por ser uma medida extrema, causa traumas irreversíveis, na pessoa. Por essa razão, embora eu não acredite 100%, é melhor usar a precaução, e nesse caso, não recomendo mais esse método, embora tenham alguns pacientes que preferem arriscar, não sei se é o seu perfil. Aconselho que antes de optar por esse método tente outros.

Uma viagem, por exemplo! Podes conhecer sociedades que vivam de modo sutilmente diferente, que você julgue mais justo. Eu não posso te indicar com certeza um local, mas tem um caso de um paciente que descobriu uma vila nos Andes, ele me mandou algumas cartas, descrevendo o convívio social harmônico e agradável que existia no local. Viveu lá muito feliz por cinco anos, mas, ano passado, uma mineradora indiana se instalou e em poucos meses arrasou com o capital social da comunidade, ele me escreveu que em meio a miséria, a exploração, a poluição e a injustiça não conseguiria viver, avisou-me que usaria do suicídio. Receio que não tenha lido minha resposta, nunca mais me deu notícias. Mas, bem, isso não impede que você encontre uma vilinha assim! Acredite, essas comunidades não costumam ser expostas em revistas ou jornais. Ou você pode simplesmente se isolar, num sítio, com produção autossuficiente! Esse modo tem dado resultados exelentes!

A fuga pode ainda, dar-se por meio da alienação associada à obsessão. Onde o paciente deixa de se informar sobre tudo o que acontece com a sociedade, e foca-se exclusivamente em algo que lhe interesse. Ou por meio da imaginação, onde se cria uma outra realidade paralela, mais agradável. O uso de entorpecentes pode facilitar consideravelmente esse método, existem inclusive drogas legalizadas com essa função. Pode-se usar também histórias de ficção para iniciar a criação. Existem diversos adeptos desse modo que publicam em blogs histórias sobre suas criações, então você pode se inserir no mundo de outra pessoa! Muitos dizem de alienígenas infiltrados, espíritos obsessores, os mais diversos mundos!

Enfim, a fuga é um método bom, mas exige alguma coragem, pois é menos eficaz quando se mantém a rotina do trabalho, que impede a fuga completa. Sempre se está sujeito a alguma notícia desagradável, ou o simples fato continuar de vendo o que já lhe foi objeto de questionamento e rejeição pode ocasionar crises infindáveis.

O enfrentamento é muito bonito, eu admiro bastante esse método, mesmo porque ainda tenho alguma esperança, afinal, ninguém é de ferro, não é?! Ele funciona para quem está disposto a seguir entrando no que chamamos de “toca do coelho”. Ir até o fundo das mazelas sociais, não é um mergulho fácil, pois acredite essas pequenas coisas que o senhor afirmou que te incomodam, são apenas o que está na superfície, a pontinha do iceberg, digamos assim. Mas, por mais contraditório que seja, muitas pessoas se sentem melhor quando param de se debater na superfície para iniciar um mergulho rumo ao fundo, à causa primária! A ideia é conhecer para combater.

Então, durante seu mergulho elas vão buscando maneiras de modificar o que as incomoda. Pela minha experiência, a maioria sente que repassar a informação, é uma forma de trazer à superfície o que estaria escondido no fundo, e assim, agregar mais “mergulhadores”. Muitas começam a escrever livros, dar aulas, fazer palestras, compor músicas, pintar, encenar, pichar.

Outras concluem que a solução tem que ser uma intervenção mais direta, organizam grupos, que alguns chamam “terrorista”, porque aliás, esse é um detalhe importante desse método, ele comumente leva à revolta.

Nem sempre as pessoas se sentem exatamente mais feliz adotando esse método, mas costumam relatar que passam a ver um propósito em suas vidas.

Por fim, a Entrega! Normalmente, as pessoas que não buscam aconselhamento médico acabam usando esse tipo de tratamento. Mas, quando não é bem realizado, com acompanhamento de um especialista, costuma ter ciclos inesgotáveis de crises.

O seu sucesso está diretamente relacionado à dessensibilização. Para isso existem diversas técnicas, que envolvem uso de medicamentos, sessões de tortura, suaves, como choque, solitária, que são opcionais, mas eu aconselho pois os resultados costumam ser melhores. Outra técnica fundamental é a visualização constante de cenas de violências, casos de injustiça e opressão, por isso se aconselha a sintonização constante em programas de TV, rádio e leituras de jornal, em especial da página policial. Até que essas situações parem de lhe causar incomodo. Você vai ver, no início vai identificar claramente a retratação de relações doentias na novela, opressão, mas com o tempo a injustiça vai se tornar mais nebulosa, até ficar totalmente imperceptível!

Os resultados mais comuns variam entre dois padrões distintos, a apatia e a normalização. No caso da apatia o sujeito deixa de sentir. Ele não sente mais a angústia que o senhor me descreveu, mas também não sente mais compaixão, não sente amor, não sente tristeza, nem felicidade, não sente nada. Os seres humanos, inclusive ele próprio, passam a ser encarados como máquinas. Alguns conseguem se destacar na carreira por essas características, mas muitos tão pouco se importam com isso.

Já no caso da normalização, a pessoa torna-se “um sujeito normal”. Ela passa a apresentar o mesmo padrão de comportamento e sentimento retratado nas novelas. Ela é totalmente reabsorvida pelo sistema. Volta a ter gosto pelo consumismo sem nem se importar com as condições de produção. Ela só leva em consideração o que é mostrado na televisão. E quando algum programa mostra uma situação de opressão ela encara com a mesma superficialidade com que a matéria é exibida. Logo se interessando pelos produtos mostrados pela propaganda. Muitos pacientes, inclusive, movidos pelo consumismo, e ânsia de status passam a reproduzir os quadros de opressão e injustiça que antes lhe afetavam tanto!

Eu considero esse método o de maior sucesso. É o que apresenta menor caso de regressão, eu não consigo entender como é o que tem pior adoção. Acho que é porque os pacientes sentem tanto asco pela sociedade atual que no fundo não querem fazer parte dela, mas é como eu digo, você muda sua concepção. Aí consiste o maior sucesso, ele atua na causa!

Que método o senhor se afinou mais, e quer eu explique melhor? 


quinta-feira, 25 de julho de 2013

Facebook me educa

Aquele senhor admirável já dizia "ninguém educa ninguém, as pessoas se educam juntas"! Ou algo do tipo. Para mim isso é extremamente perceptível no facebook!

Sim, eu sei, tem muita postagem inútil e desanimadora. E por isso alguns criticam ferozmente essa poderosíssima ferramenta. Eu tento defender como posso, nem sempre obtenho sucesso.

Desnecessário dizer que essa revolução (transformação de maneira repentina, visto que brasileiro de classe média protestando é algo incomum) não existiria não fosse essa rede. Não haveria como realizar o chamamento nem a divulgação de imagens, filmes e relatos.

Por minha parte, curti umas páginas feminista que estão me mostrando preconceitos que eu tinha e ignorava!

Foi a sensação que tive ao ler o relato de uma pessoa transexual, que depois de 15 anos da cirurgia mudou seus documentos, certidão de nascimento, RG, CPF, título de eleitor, etc, e foi se candidatar a uma vaga (num cargo baixo) na rede Carrefour.

Tudo certo, pediram que abrisse uma conta no banco, e trouxesse outros documentos como histórico escolar. Feito isso, ela retorna com o histórico, único documento que havia deixado de alterar.

A contratante olha, pede licença, sai por uns minutos, e retorna com a notícia "olha, me desculpe, não há mais essa vaga". Meio confusa, nossa protagonista retorna pra casa. No dia seguinte sua sobrinha te liga e diz. Tia, aqui no jornal de hoje eles ainda estão convocando para vaga que tu tinhas te candidatado!

Eu não sei quanto a você, mas eu tive a oportunidade de viver numa família majoritariamente conservadora e reacionária, e assim era a escola que me alfabetizou. Sempre fui levada a crer que as pessoas são o que são e fazem o que fazem por opção. E como parece ser assim comigo, é muito fácil aplicar essa regra a todos os outros seres humanos, ainda mais por que eu não veria problemas em contratar uma pessoa transexual para trabalhar comigo. Bem, hoje penso que isso é absolutamente ingênuo e romântico.

Pensar que eu só me prostituiria se quisesse, não significa que seja assim com todas as outras pessoas. É uma conclusão baseada em um "n" amostral muito reduzido. Ainda que seja assim com tooodas as minhas coleguinhas, o grupo social, a classe, continua sendo a mesma, o que é muito restrito.

O interessante é que conheço ferrenhos defensores do capitalismo, que devem me julgar romântica, por aspirar um mundo diferente onde os valores sejam outros, devem pensar que eu sou ingênua. Mas, vejam, quem será mais romântico e ingênuo? Os que acreditam que não há injustiça e que todas as pessoas tem iguais oportunidades e condições e que só se prostitui que quer e gosta, ou eu que (agora) reconheço que se existem tantos travestis se prostituindo não é porque seja uma opção deles, é por causa (na maioria) da falta de opção deles?

Interessante pensar num capitalista selvagem como um ser romântico e ingênuo, mas acho que os que eu conheço são assim mesmo... não são maus, são teimosamente ingênuos.

Ninguém se marginaliza por opção. Ninguém sonha em ser usuário de crack, ou se prostituir com 14 anos de idade. Ninguém prefere viver com uma bolsa miserável para não ter que trabalhar. Pensar que todos são livres e vivem como querem, e colocar todos que passam necessidades como merecedores dessas necessidades por não enaltecer o trabalho árduo e o esforço recompensador é uma ingenuidade absurda.

Eu converso com pessoas que são promovidas com altos salários e converso com pessoas que vivem em casas do tamanho de um banheiro, passam fome e frio, e garanto, não há grandes diferenças. A promoção e o salário, mesmo na sociedade da meritocracia, não selecionam o mais apto e o melhor.

Convenhamos, quem não é capaz de preencher uma planilha? Um mês de instrução para alguém que esteja afim e pronto, não exige grandes habilidades. O que significa que aquele engravatado não é em nenhum aspecto melhor, mais inteligente, mais evoluído ou nada do que aquele que mora em um barraco.

Desculpe, sei que para se graduar em contabilidade teve que haver grande empenho e esforço, puxa vida, como houve dedicação, horas em claro estudando. Parabéns pela determinação, mas isso continua sendo inútil para classificar alguém como melhor ou pior ou garantir quem merece trocar de carro todo ano e quem merece morrer de fome.

Aliás, quem garante que aquele que está usando crack agora não seria melhor aluno que tu, e que se tu tivesse nascido com as condições dele não seria um criminoso mais violento? Dói pensar assim, dói pensar que não fizemos nada além de ter tido a sorte de por acaso nascer onde nascemos.  Dói pensar que é uma tremenda ilusão achar que todos tem acesso ao que tivemos. Dói pensar que a história que a Rede Globo mostra do favelado que se formou músico e agora toca na orquestra de Paris é uma raríssima exceção, e somente por isso pode ser apontada.

Mas, se aqui estamos é para agarrar a oportunidade do poder que temos de mudar. E essa mudança começa na maneira de vermos nossa sociedade. Parar de ver como menos nos machuca, tentando loucamente nos proteger de uma possível depressão.

Aliás, se esse é seu medo, saiba que no meu reduzido n-amostral, os que se fecham nessa bolha tentando se proteger dessa visão nua e crua da realidade se deprimem e sofrem mais. Sofrem mais porque entendem menos. Pobre de mim, como sofro. De onde vem essa culpa imensa que eu sinto? Me perguntava sem querer saber a resposta, uma pessoa querida que logo emendava, "é resquício da minha educação católica. Eu estou aqui é para ser feliz".


Mas, não há essa possibilidade quando embaixo do seu nariz ocorre injustiça e opressão. Não existe a menor possibilidade de nenhum ser humano ser feliz adquirindo um produto fruto da maior injustiça social e ambiental que um se pode realizar. Por mais que haja esforço para ignorar esse fato, hoje em dia sabemos muito bem como as coisas são feitas, e sabemos que não seremos felizes, por mais que tentemos, numa sociedade injusta.

A roupa, o carro, o dinheiro e o status são uma ilusão que nos levam a reduzir a existência humana a isso. Conjugo o verbo na primeira pessoa do plural porque ainda fico deslumbrada ao ver uma moçoila num salto alto, bem maquiada, com sorriso cuidadosamente ensaiado, e porque tenho uma fortíssima sensação de que não sou a única...

O dinheiro nada mais é do que um meio. Nunca deveria ser encarado como um fim, porque limita em muito nossa existência e nossa capacidade. Um CEO que produz carros para enriquecer é um tremendo idiota e ignorante. Um governante que vê em uma montadora empregos, investimento (compensação ambiental), e votos, é ainda mais idiota. Produz-se carros para as pessoas se locomoverem, e se todos vissem nisso a finalidade de uma montadora concluiríamos que precisamos de outro meio de locomoção.

Se você pensa em fazer doutorado para virar professor e ter dinheiro garantido, fácil e estável, bem, você vai ser um péssimo professor, assim como um ser humano bastante medíocre e limitado. (E aqui o "você" não é necessariamente você, sou eu mesma!)  Ganhar dinheiro e estabilidade financeira é muito pouco, caro aspirante a doutor, isso tem gente que consegue casando! Como professor universitário, podes fazer muito mais que isso, podes influenciar no rumo da ciência e da sociedade. Mas para isso, seus princípios éticos e morais devem ser bem estruturados e profundos.

O que te motiva?
http://www.youtube.com/watch?v=bIhHrL73d4s

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Liberdade de opressão

O CQC foi novamente alvo judicial de "politicamente corretos", dessa vez depois de expor o senso comum de que portugueses são racionalmente limitados.

Fonte: http://ryotiras.com/

Eu sempre achei frescura isso de "censurar" piadas. Minha família só se comunicava por meio de piadas, e tiração de sarro. Não tinha essa de não gostar "rasgou perdeu a razão". Eu sou a caçula, constantemente motivo de piadas. Também fazia muitas piadas, me considero boa nisso. Tirava sarro de todos, e todos tiravam de mim. Talvez isso tenha contribuído com minha insegurança e senso de inferioridade que muito me deprimiram na adolescência. Mas para mim isso era normal, legal, o modo de se relacionar com as pessoas. Maliciávamos tudo o que era dito, os típicos comentários "desculpa pôr (colocar) tudo", "desculpa (deixar) as bolas foras", etc eram comum com qualquer um em qualquer idade e tinha que ser esperto, se ligar e mandar uma resposta a altura. Era assim que funcionava.

Até que no cursinho, me apaixonei fui correspondida e comecei a namorar um gatinho. Passado o período de tudo lindo, comecei a notar que havia alguma coisa errada... Prestando bem atenção, vi que ele não ria quando era zoado. Ih... será que isso mostra a prepotência dele?  Orgulho, vaidade, se melindrava a toa? Os pensamentos não eram tão claros assim, eram mais sentimentos indefinidos. Passei a encarar um conflito interno. A minha posição era de que ele deveria mudar, mas para evitar embates passei a tentar evitar fazer chacotas com ele.

Na facul, passei a reparar que ninguém era tão malicioso quanto eu. No início me senti um máximo, sou a mais ligeira! Mas, o tempo foi passando, como uma observadora nata, fui observando, reparando como me sentia mal depois de zoar alguém em público. Reparei como o clima na casinha com meu namorado era melhor sem tiração de sarro. Até que, o ápice da minha transformação foi assistir ao documentário "O Riso dos Outros". UAU. Eu já vinha trabalhando eu mesma no sentido de maneirar nas piadas, me esforçar para nunca ofender ninguém, tratar os demais com o máximo de respeito. Não para ser louvada no reino dos céus, mas para deixar a vivência mais agradável, quando se sente respeitada a pessoa se sente mais a vontade, mais segura e expõe o melhor de si. Esse documentário me orientou demais. 

Alguns criticam que hoje tudo é bullying, antes todos tinham apelido, ninguém reclamava e eram felizes. Eram mesmo? No caso da minha família eu não cogitava nem a hipótese de questionar. Quando eu chorava era muito pior, eu aprendi a engoli, a ser "forte", a fingir uma felicidade por falta de opção, assumir um estado depressivo só afastaria ainda mais as pessoas me deixando ainda mais depressiva. É isso que pode deixar acontecer se não estivermos sempre atentos, nos transformarmos num "casca grossa" de miolo oco. 
Pus o documentário para meu pai, irmão e namorado assistirem, idealizando que tocassem a todos como tocou a mim. Em seguida debateríamos o tema, nos amaríamos e respeitaríamos em profundidade. Numa das primeiras cenas meu pai disse "ah, eu vou deitar, ver esse veado falando esse monte de abobrinha não dá"... Meu irmão ficou até o fim. Ele teve uma vida agitada depois de nossa convivência na infância, juventude. Morou no Uruguai, em Londres, passando perrengues inimagináveis. Tem uma cabeça bastante aberta e apesar de certas divergências consigo conversar com ele. Na Europa ninguém fica rindo a toa, zoando os outros, fazendo piadas de política, classes e etnias. Ele me disse, apoiando essa atitude.

Aqui não. Depois de comentar um post do Tas, dizer que me parece cruel zoar alguém e não aceitar nenhuma reação além de gargalhada e aprovação ele me respondeu: 
"Obrigado, Évellin, mas cruel mesmo para mim é a seriedade com que tratamos as coisas absolutamente triviais, como patrulhar piadas, enquanto o mundo desaba à nossa frente." 
Não sei se fui bem clara na minha argumentação. Respeito ao próximo não é nada trivial. Fortificar a ideia de rivalidade, de superioridade não é trivial, é quase uma tortura psicológica. Se por algum motivo nossa sociedade menospreza de maneira aberta sentimentos mais complexos, eu sinto muito, mas não significa que são triviais. Ainda mais nessa questão que envolve nacionalidades, relações diplomáticas, onde tudo interfere nas relações comerciais. A questão não é "patrulhar piadas", é buscar mudar um senso comum injusto e secular. Vocês sabiam que "gaúcho" era um termo pejorativo no Rio Grande do Sul, dado a uma grupo de excluídos  antes da farroupilha? Ademais, o Tas tem consciência de que o "mundo desaba na nossa frente" e fica fazendo piadas estereotipantes?!  Eu tenho consciência de que assuntos mais graves devem circular no sistema judiciário. Nesse sentido tenho duas colocações, uma é que deveria haver uma outra ferramenta para esse tipo de crime, e a outra é que não sejamos ingênuos minimizando a gravidade e profundidade do assunto. Tudo está interligado e tem um efeito em cadeia, ainda mais atualmente que pouco se entende de sentimentos. Opressão gera um mal estar, raiva, ódio, que pode se manifestar de outra forma, de maneira crônica, e não linearmente numa revolta dos portugueses que foram taxados de burros...

O ponto defendido na charge que o Tas postou e nas outras respostas foi o de que em Portugal se faz piada de brasileiros (?) Ai é que a coisa ficou totalmente obscura para meu modo de raciocínio, talvez pouco usual. Bem, então existem piadas que fortalecem a imagem de que brasileiras são putas, e por isso ganhamos o direito de fazer piadas que portugueses são burros?! Eu não entendi, quem defende esse argumento se ofende ou não com as piadas que brasileiros sofrem em Portugal? A sensação que fiquei é que as pessoas não apenas são preconceituosas, mas elas tem orgulho disso, e querem ter direito de serem e expressar todo seu preconceito, por mais que seja um preconceito supostamente de mentira, só para dar risada. Se o preconceito não existe, qual é a graça?

Por fim, imagino que devemos ter garantida nossa tão louvada liberdade de expressão, só não temos liberdade de opressão. O que é mais assustador ainda, chegamos no ponto em que é raro quem consiga conversar sem oprimir, sem ofender. É raro quem consiga falar em público sem ser processado. É raro quem consiga fazer humor sem usar os mesmos esteriótipos de centenas de anos. E é comum quem sinta falta disso e tenha que buscar auxílio psicológico.

Mas, imagino que a coisa vai mudando, a sociedade vai amadurecendo. Ideias comuns de outrora são encaradas como absurdos atualmente, pelo menos para a maioria das pessoas. E viva a metamorfose ambulante que eu mesma experimentei e relatei aqui! Vamos seguindo, aprimorando conceitos, refinando a relação e nos abrindo para as novas ideias e opiniões alheias!

domingo, 19 de maio de 2013

O feminismo e eu

É assim, uma coisa puxa a outra. Quem é inquieta e dinâmica, vai buscando e fuçando, pesquisando e aprendendo, lendo e pensando, sempre tentando aprimorar seu próprio sentido de humanidade. E isso depende de reconhecer a ignorância tão logo ela se desenhe em uma conversa, agarrá-la pelos cabelos e se meter num computador em busca de auxílio para, de uma primeira informação, buscar outra aprimorando sempre conceitos e ampliando o conhecimento.
Nascemos todos ignorantes de tudo, e o maior prazer da vida é esse jogo de identifica e mata essa ignorância. O que é o feminismo? Aos 12 ou 13 anos de idade eu e minhas amigas imitávamos as Spice Girls, catávamos com microfones de desodorante, dançávamos na frente da TV, fazíamos as mesmas poses das fotos, e nos sentíamos motivadas o bastante para ler algumas revistas. E ver a Geri, em especial, defendendo o Girl Power, e falando um pouco de feminismo. Se eu gostava das Spice Girls, e as Spice Girls eram feministas, então eu era feminista fim de papo.

Passou o tempo e meio sem saber muito bem o que era o feminismo, e como o machismo me oprimia segui minha vida. Lembro de uma conversa que teve na aula de coral sobre a marcha das vadias que teria em rio grande. Uma colega disse, ai que nome horrível, isso é a mulher se desvalorizando. Em outro momento meu namo, que eu considero naturalmente mais feminista do que eu disse, penso que se as mulheres querem lutar pelo direito de fazer sexo com todos sem serem rotuladas, como os homens, isso seria nivelar por baixo, não acho legal o feminismo, vocês são melhores que isso e lutarem para ser iguais é querer descer um degrau. Segui numa confusão mental, de fato não acho legal pensar num movimento que lute por oba-oba,  eu até posso acreditar que de fato todos tem direito de se relacionar como quiser, mas fazer um movimento só para isso? E meu irmão, a pessoa mais machista que conheço, e isso porque na minha família todos são machistas, diz que é um absurdo, perdeu isso de a mulher gostar de casa e dos filhos, ela não estão nem ai, assim não dá, etc.

Assisti à um documentário O Riso dos Outros, que me foi libertador em muitos aspectos, mas o que gostaria de destacar aqui é que em um trecho aborda sobre a "piada" do Rafinha Bastos. Ele diz que sempre que vê notícia de estupro a mulher é tão feia que o estuprador merece um abraço. Na época em que ouvi sobre essa piada passou batido, pois cresci num ambiente em que "perdia-se uma amizade mas não uma piada" (por isso o documentário foi tão libertador que sinto necessidade de um post só sobre isso). Mas o documentário se aprofundou e tratou o assunto com seriedade e eu fui convidada a saber mais sobre estupro e feminismo no blog da Lola.

Fonte: O Machismo Nosso De Cada Dia
Estamos imersos em uma sociedade ainda, machista e patriarcal que alimenta a cultura do estupro. Tendemos a culpabilizar a vítima do estupro, eu pensava assim. E ainda me pego tendo que ruminar alguns casos antes de expor minha opinião. O caso da Nicole Bahls do pânico deixou isso extremamente claro, foi praticamente unanime a pessoas que defenderam a ação do cara, porque a bonitona estava de mini-saia e fazia fotos sexuais, digo, sensuais. Ontem mesmo, uma amiga contou de uma história que a guria foi para um banho terapêutico, o rapaz disse para que ela tirasse a roupa (uma vez que ela tinha ganho o banho pois não tinha levado biquini para entrar na piscina termal com o pessoal), ela tirou e ele passou a mão nela (isso é considerado estupro), a outra colega disse "mas que trouxa, porque ela tirou". Essa foi a primeira reação instintiva dela, ela não disse "que cara escroto, porque ele fez isso". Somos levados a culpabilizar a vítima tanto que é mais comum ensinar as meninas a prevenir um abuso (não andar sozinha a noite, não dar papo para estranho, não usar essa roupa) do que ensinar os meninos a respeitarem, a não ficarem parecendo animais quando existe um decote por perto.

E já com esse olhar mais crítico, qual não foi a minha surpresa ao passar um tempo no Uruguai e perceber que lavar louça, cozinhar, alimentar o cachorro e limpar a casa é uma atividade única e exclusivamente feminina. No país o desemprego é mais acentuado do que aqui, e normalmente o homem tem mais facilidade para se empregar. Imagino que isso seja uma sorte, pois desconfio que as que tem emprego devem igualmente trabalhar no lar. Essa imposição rígida de tarefas é medonha. Meus pais são assim, mas ver casais da minha idade em que o marido chega, dá um beijinho, se senta no sofá, pede seu whiskey, e espera pelo jantar é um pouco desconcertante. Quando as meninas viram o Thiago lavando louça, me perguntaram, "ele te ajuda na sua casa" eu de modo muito machista respondi que sim. Pois na verdade ele não me ajuda coisíssima nenhuma, ele nunca me ajudou, nós dividimos democraticamente as tarefas. Parece ser óbvio que se existe uma mulher presente ela tem maior dever de lavar a louça e fazer a comida. Não entra na minha cabeça como tantos homens se mostram absolutamente incapazes de lavar a louça? Parece alguma síndrome, uma doença psiquiátrica, é como se pusesse em dúvida a masculinidade deles.

Outro tema que notei comum na causa feminista é a respeito do corpo feminino. Mulher é esculturalmente digna de comercial de cerveja, as outras "coisas" não são mulheres, são as que pensam. Pois o senso comum de que as vaidosas de academia, que cuidam do cabelo não podem se inteligente também impera. E esse corpinho, desenhado por Deus, tem o obrigação natural de satisfazer aos homens e foi para isso que ele chegou ao mundo, assim sendo, cenas de parto são repugnante, quanto mais machista o camarada, e jamais se amamenta em público. Pois os machistas de plantão não podem sonhar em associar o corpo feminino a qualquer outra coisa que não sexo. O que faz com que muitas mulheres machistas optem por cesária e algumas recusem amamentar. Minha vizinha, que eu nem sei o nome, um dia conversou comigo, com sua filha no colo. Disse que queria parto normal, mas depois ficou em dúvida e optou pela cesária. Ela narrou com um sorriso que seu marido lhe disse "ai que bom, assim você não estragou meu brinquedinho". Essa de associar mulher a corpo é motivo de infindáveis conflitos com quem tem que passar por mastectomia. Fomos criadas a depositar nossa feminilidade ao seio, teria então se tornado menos mulher quem passa por uma cirurgia dessa? Angelina Jolie, novamente sendo citada nos meus post, fez a cirurgia, pois teria alta probabilidade de apresentar câncer, como contra o qual sua mãe lutou por 10 anos. A atitude da atriz despertou diversas piadas infelizes...

Enfim, eu nem sequer cheguei a abrir um livro (ainda), mas minha ignorância sobre o feminismo está menos turva. Feminismo não são mulheres ávidas por sexo, que querem poder fazer muito sexo sem ser rotulada, é quase o contrário, a garantia do direito de recusar e o reconhecimento que esse processo precisa de ser uma decisão tomada a dois, sinceramente. Não é contrário de machismo, tentar dar mais poder ao homem, mas sim, a busca por um equilíbrio harmônico. Não é guerra dos sexos, existem louváveis homens feministas e infelizes (e ignorantes, como era o meu caso) mulheres machistas. Estou encontrando minha própria posição nos debates, e identificando atitudes machistas e opressoras. O que é muito empoderador. Sabe quando tem um comentário que de repente nos deixa mal sem nos darmos conta, o que na sua adolescência poderia desencadear uma crise depressiva?! Agora, com alguma informação posso identificar uma situação machista e me sinto mais segura de colocar meu ponto de vista numa atitude do tipo "aqui não, violão". Gostaria que todas as pessoas pudessem identificar e analisar o machismo em suas vidas, e provavelmente se libertar dele com um aberto sorriso nos lábios.  Aliás, os homens também devem se libertar do machismo, pois também os aprisiona em um comportamento padrão. Sair dos padrões pré-estabelecidos e agir de forma consciente consonante com suas próprias ideologias e não por uma imposição social é caminho certeiro para a felicidade e realização!

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Sempre há o que aprimorar

Não somos seres estáticos perfeitos e bem acabados. Isso eu já reparei desde muito tempo. Somos seres dinâmicos com infinitas oportunidades de aprendizado e aprimoramento. Esse reconhecimento significa humildade. Não é ouvir o outro por respeito, pena ou educação. É porque essa é a melhor oportunidade para aprender e aprimorar. Esse "aprender" a que me refiro já inserido num novo paradigma de aprendizagem. Não é aprender de modo a ouvir, decorar e aceitar as opiniões alheias, mas aprender no sentido de refletir, questionar, adicionar sua bagagem cultural e aprimorar seus conceitos existentes. Isso é não é aprender o que está sendo dito (ser informado), mas aprender com o que está sendo vivido (ser transformado).

Mais que conceitos, hábitos também podem e devem mudar, todos os dias deve haver alguma mudança no seu ser uma transformação, para que aquele dia tenha valido a pena, tenha feito a diferença, para que não seja mais um dia perdido no meio de tantos outros. Lendo nos transformamos, assistindo filmes nos transformamos, pensando nos transformamos, mas aquelas transformações que vem através de uma interferência alheia e ao vivo são mais gratificantes.

Com algumas pessoas sentimos uma afinidade especial que transcende o nível de relação humana corriqueira. E nem sempre essa afinidade advém da semelhança no pensar e agir. Minha semelhança com minha mãe é gritante, não nos importamos com roupas e aparência física de absolutamente nada, temos uma aversão a notícias trágicas, paladar pouco exigente, necessidade de engajamento espiritual, dirigimos mal, dormimos em barraca, ao relento se necessário e por ai afora. Mas é com minha sogra que minha afinidade supera os limites da razão. Ela que ama comprar roupas, faz as unhas toda semana, precisa de restaurantes caros e só dorme em lençol cheiroso e passado, entre outras particularidades. É com ela que sinto vontade, necessidade e alegria em falar. Nessa relação desde o início dotada de respeito, aprendemos a nos admirar mutuamente. não diria "apesar" das diferenças, aprendemos a nos admirar e com isso reparar nas diferenças, não com tentativa de repreensão, mas como uma fonte de inspiração e reflexão.

Nas primeiras visitas dela, eu perdia o sono pensando na quantidade de água usada... Era praticamente uma máquina de lavar por dia, comumente dois banhos no mesmo dia! E a água do planeta "acabando". Questões ambientais me tocam profundamente, mas se tem alguma coisa da qual eu realmente fujo é "conflito social". Não havia meios de chegar em casa, cansada, ver minha melhor amiga servindo um jantar fabuloso, a casa incrivelmente limpa e cheirosa e ainda passar um sermão sobre o estado da água no planeta e a necessidade de regular seu consumo. Ainda mais em uma cidade debruçada sobre a água, ainda mais sabendo que indústrias usam e poluem uma quantidade realmente gritante de água. E que se eu realmente quiser fazer algo em prol da preservação da quantidade e qualidade da água a atitude mais ineficiente seria brigar com a pessoa que eu mais amo. Aliás, não acredito que exista qualquer razão plausível para se brigar com a pessoa que se ama... Qualquer campanha ambiental deveria se ater nesse ponto, não crie conflitos crie exemplos!

Acho que é assim que funciona uma relação saudável, através de um aprendizado mútuo. Algumas coisas nos passarão desapercebidas por muitos anos, outras veremos e teremos planos de mudar em nós mesmos, outras serão mais rápidas, mas tudo vindo por meio de uma pressão interna.
Esses dias enquanto conversávamos no viva-voz ela disse muito feliz, orgulhosa e satisfeita "vocês vão ficar orgulhosos de mim! Peguei a bicicleta de casa e andei por uma hora!" Uau, minha alegria de fato não cabia em mim! Essa é uma transformação muito grande, que alegria inspirar alguém de 60 anos, em São Paulo, a sair para pedalar. Precisava retribuir essa satisfação "e você não vai acreditar, passamos pano em toda casa, está um brinco!"

Acredito que esse seja o real objetivo da interação humana, essa troca de inspiração e valores positivos que venham a nos aprimorar. Acho que é isso que significa humildade, começar uma conversa receptivo envolto em uma atmosfera sincera de "o que eu posso aprender com essa pessoa". Não é ficar frustrado quando você disse algo que tinha certeza e o teimosinho não acreditou, é reparar que essa atitude de "não acreditar" gera um desconforto e tentar não reproduzi-la em outro momento.

"Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante..."

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Um lapso de felicidade

Nesse carnaval fiz a maior aventura da minha vida! Pedalei 220 Km pela maior praia do Brasil.
Muitas pessoas julgam esse tipo de atividade como imbecil, acreditam ser um risco e esforço desnecessário.  De fato, na praia não pega celular e nem tem ambulância, e isso torna a aventura ainda mais saborosa. Saí com o namorido e um grupo de amigos, os detalhes mais técnicos estão no blog do Bizzi (Trio Rio Grande). Aqui gostaria de expor minhas impressões, que devido minha natureza são mais sutis.

Eu topei a aventura por estar na busca do auto-conhecimento, para mim seria praticamente uma viagem espiritual. Meu cunhado lendo a biografia do Steve Jobs disse que para ele tudo tinha uma conotação espiritual, acho que estou quase assim! Eu não queria fazer, para dizer eu fiz, ou para ter história para contar, ou para superar limites do meu condicionamento físico. Eu queria mesmo é passar por essa experiência, acho mesmo que é disso que se faz a vida. Sabe, ir a shoppings, e cinemas, assistir televisão, sambar na avenida, são coisas legais, mas parecem muito superficiais.

O primeiro trecho foi ótimo, diversas gaivotas animando o passeio. A dificuldade começou ao vermos nossa primeira parada. Eu ainda estava de óculos de grau e consegui ver o farol Sarita, pedalei mais rápido, durante algum tempo e nada... parecia tão perto, mas pedalamos muito até chegar, foi um sufoco. Essa parada foi para o almoço, comi pouco. No segundo trecho a dor era imensa, meus músculos doíam muito, meu joelho, os dedos das mãos, costa, pescoço, bunda e para piorar, cada pedalada fornecia uma dor de cabeça lancinante. Comecei ficar para trás. Passei a ter muita pena de mim, do meu corpo... mas fui pensando que parar não era uma alternativa, o grupo estava bem e muito afim de dormir num lugar abrigado (no próximo farol). Então, parei de prestar atenção nas dores, de checar a cada 5 segundos cada cantinho do meu corpo para definir qual doía mais. Me lembrei do objetivo espiritual da minha viajem, e resolvi me desapegar do meu corpo! Passei a me focar na mente, e trabalhar os pensamentos para que melhorassem meu humor. Sem saber bem como consegui pedalar mais forte, e me juntar ao grupo. Brincava passando ao lado do Biz: "e eis que surrge a forrrrça!". Nesse momento eu me senti realmente feliz. Foi uma felicidade 100% desprendida de qualquer coisa material, até do meu próprio corpo. Acho que temos confundido frequentemente felicidade com conforto, e percebi que uma coisa não tem nada a ver com a outra (ousaria dizer que até pelo contrário).

Descobrir essa felicidade tão cedo me ajudou na viagem, mas não eliminou toda dificuldade. A todo momento eu tinha que trabalhar intensamente minha mente, percebi que pensar em qualquer coisa fora daquele momento me atrapalhava, mesmo que fossem coisas boas. Eu tinha que estar 100% ali, focada. Por outro lado também não podia deixar que minha atenção se concentrasse nas dificuldades, isso parecia aumentá-las, dar uma proporção bem maior, e me fazia ter vontade de parar. Busquei me focar na paisagem, embora monótona, cada onda é diferente das outras, ainda mais para uma oceanógrafa! Dava para perceber as que subiam mais, não era de vento, era gravitacional.

A quantidade de lixo na praia, e rejeitos de pesca também era um pouco desanimadora. Mas, evitei lamentar isso o tempo todo.

Foi estranho ver tanta gente na praia do Hermenegildo... Como se para eles toda aquela extensão se resumisse aquele trechinho limitado.

Por fim, foi uma experiência incrível! Me esforcei, percebi que tenho subestimado meu corpo, que não preciso de muito para viver, que minha dignidade não depende do meu cheiro (hahaha). Foi algo profundo e transformador, do tipo que vai trazer um "que" diferente nos olhares cruzados de quem passou por isso junto, vcs sabem o que digo? Uma cumplicidade e admiração mútua e genuína.

Fantástico, e que venha a próxima aventura!

terça-feira, 29 de maio de 2012

Não Fuja da Raia

Semana passada uma amiga minha me contou uma experiência, ela chegou no seu trabalho carregando um sorriso no rosto (apesar dos problemas) e um colega lhe disse ríspido:
- Você está usando todo esse material? Deveria organizar melhor isso aí. Já parou pra pensar que você não é dona desse prédio?
A surpresa foi tamanha que ela mal conseguiu se mexer.
Ela me contou essa história entre lágrimas, e continuou o desabafo:
- Keith eu não sou folgada, nossa eu é que me sinto sem espaço lá! O pior é que depois de ter feito isso ele tentou puxar papo, tentando ser agradável como se nada tivesse acontecido, você acredita? Só que não estava tudo bem e eu só conseguia responde-lo de maneira monossilábica e grosseira.
Hum... que interessante! Claro, o sofrimento dela não é interessante, é triste e eu tentei aconselha-la como pude, mas não consegui deixar de reparar como é comum, mesmo conhecendo o clichê, nós não encararmos nossos problemas!
Pra mim fica claro que o "tentar ser agradável" do rapaz ao puxar assunto, nada mais é um pedido de desculpas, ou pelo menos um tentar fazer as pazes. Por outro lado, as respostas grosseiras que ele obteve era na verdade minha amiga tentando dizer: "Meu, eu não gostei nenhum pouco da forma como você falou comigo".
Agora, porque nós agimos assim eu não sei? Aliás como está raro as palavras mágicas: obrigada e me desculpe, em especial! O por favor até é batido, pois sem ele o favor não acontece, mas a educação que vem depois da ação...
Eu e minha sogra conhecemos o Hoo'ponopono, é uma filosofia que nos leva a direcionar, mentalmente, 4 frases à divindade, toda vez que nos inquietamos, as frases são: "Sou Grato", Eu Te Amo", "Sinto Muito" e Me Perdoe" (não necessariamente nessa ordem e pode-se repetir apenas uma ou mais, como sentir a vontade) as duas últimas frases instigaram meu namorado... "hum, bastante submissa essa filosofia, não?!" Eu tentei argumentar, não é submissão, é humildade. Não sei se convenci, não sei quem está certo (se existe certeza), só sei que pedir desculpas parece ser visto como um gesto de submissão e inferioridade pela maioria das pessoas...

sábado, 14 de abril de 2012

obstáculos!

Eu costumava ter uma visão de que as coisas simplesmente acontecem, devemos deixar o destino agir quando se trata da nossa vida! Então, quando algo dava errado eu dava de ombros e pensava "não era para ser". Se eu não achava alguém quando procurava: não era para falarmos. E desistia, simples assim!
Mas aí, as coisas não aconteciam, eu não resolvia meus problemas, eu os abandonava e comecei a me questionar se na verdade isso não era destino e sim preguiça. Comentando isso com minha sogra ela me disse "quando as coisas dão errado aí é que eu tento mesmo, como se fosse um desafio". Fiquei pensando nisso...
Um amigo meu, prestou concurso para ser bombeiro, passou bem colocado, foi para prova prática, amou o lugar, as pessoas, sentiu que queria mesmo fazer aquilo, sentiu que lá era seu lugar. Entretanto, antes de sair o resultado um motorista o acertou, enquanto andava de bicicleta, ele teve a "sorte" de só ter alguns ossos quebrados (seu amigo morreu). Teve que ficar sem andar e perdeu a vaga. Algumas pessoas, da linha conformista de raciocínio, disseram, "bem, não era pra você ter passado, talvez não seja pra você ser bombeiro". Mas, acontece que ele sentiu, é isso que ele quer.
Agora, analisando essas histórias eu penso que talvez os obstáculos sejam uma maneira de provarmos nossos interesses, desistir no primeiro tombo, convenhamos, não é querer de fato. Não seria uma conquista, não haveria mérito.

domingo, 8 de abril de 2012

Referencial



Eu sempre digo que o que mais gosto em acampar é de como minha casa fica melhor, mais luxosa, toda vez que retorno!
Meu chuveiro funciona melhor, nem penso em reclamar do tamanho do banheiro, ele fica me parecendo perfeito. Mas, veja bem, eu não gastei um tostão com meu lar, eu nem sequer estive nele, o que eu mudei foi minha percepção.
Talvez com tudo na vida seja assim. O problema daquela pessoa, não é a pessoa em si, e sim o modo como a encaramos.
Talvez o mundo não seja tão ruim assim... mas, a visão diária das notícias e comentários do senso comum nos levem a ter uma visão de mundo e humanidade totalmente equivocada (ou seria melhor parcial?).
Não digo que o mundo não tenha problemas, ou que devemos nos manter alheios a eles.
Minha casa continua a mesma, com a mesma mancha na parede, o mesmo piso quebrado e banheiro pequeno, só que agora eu foco mais na maravilha de um chuveiro quente, uma cama confortável e uma cozinha todinha pra mim!

domingo, 18 de março de 2012

Lixo Extraordinário


http://www.youtube.com/watch?v=udpDCiLrg4k
Lixo Extraordinário!

Já é meio antigo (2010), e eu já tinha visto (e me impressionado com) as fotos, mas só hoje vi o documentário, que basicamente pulou no meu colo, não sei bem dizer como.
Enfim, a história é toda inacreditável, fantástica! Começa com um artista plástico dos EUA que nasce numa família pobre de São Paulo. E ele resolveu fazer arte para ajudar as pessoas, planejou fazer retratos de pessoas que trabalham no aterro, com lixo.

Bem, achei muito intenso o documentário como um todo, é excelente, mas me chamou muita atenção o final daquelas pessoas, esse trabalhou mudou a cabeça delas. Parece muito positivo, chegar a uma pessoa com uma condição de vida subumana e mostrar outra realidade a ela, tirar "o espesso véu da ignorância", parece completamente positivo. Mas, e o depois? Como ela vai voltar para aquela realidade com esse novo olhar? Seria como eu, ou você, começar a viver numa situação dessa...
Bem, no final, pelo pequeno texto que exibiram dando um parecer de cada um, parece que ninguém cometeu suicídio, como eu previa.
Outro ponto interessante é: como os nossos problemas se tornam pequenos e insignificantes perto de uma realidade tão brutal quanto essa. Eu praticamente não dormi depois de dar uma aula que não foi tão fabulosa quanto eu gostaria. Será isso um problema realmente grande?
Por fim, o que fica mais forte pra mim é que separar o lixo no conforto do meu lar, é pensar no final da "cadeia produtiva" e ajudar a tornar um pouco mais digna a vida de quem vive da reciclagem.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Los Mensajes de Los Sabios


Eis que decidimos fazer uma grande viagem, meus pais, meu amor e eu. Para minha satisfação pessoal teríamos que ver os Andes e o Pacífico, meu pai fazia questão de conhecer o sul do Chile. Assim, partimos a bordo de um peugeot por um caminho de 8.000 Km... Sim, é km pra caramba, e para me distrair levei o livro que estava lendo: Férias... é uma leitura simples e logo terminei. Em Santiago minha mãe me mostrou muito contente o livro que havia comprado, em espanhol para treinar: Los Mensajes de Los Sabios, de Brian Weiss. Como esse é o autor de Muitas vidas, muitos mestres que minha sogra adora, resolvi folhá-lo para me distrair da paisagem monótona e desértica das estradas Argentinas.
O autor é um psiquiatra adepto da regressão para curar as pessoas por meio do reconhecimento de que somos almas divinas e imortais, assim, não há razão para temer ou entristecer nessa vida. Vida essa que nada mais é que um exercício, uma disciplina como tantas que cursamos na universidade.
Estamos aqui para aprender e não para sofrer, a lição principal é o amor incondicional. Assim, a forma de tratarmos os demais é infinitamente importante, muito mais do que acumulo material. Podemos estar sujeitos a influencias hormonais ou padrões comportamentais, mas essas tendências podem ser superadas com a tomada de consciência. Devemos dedicar tempo e energia a outra pessoa, dedicar toda nossa atenção e consciência à relação e seus problemas, a relação é mais importante que a televisão, que essa revista, que esse artigo. É extremamente importante respeitar a felicidade do próximo, nunca dizer nada que possa diminuir essa felicidade, comunicar-se sem julgar, sem criticar.
Temos que nos livrar do medo, todo e qualquer medo. O medo faz com que nos isolemos, ergamos um muro ao nosso redor. Normalmente, temos medo do que os outros podem pensar a nosso respeito, de como nos julgarão, medo de fracassar. Não há porque ter medo se nos abrirmos ao amor incondicional e anularmos nosso ego.
Numa tradução livre segue um trecho:
“Seja mais espiritual. Dedique mais tempo a rezar, a dar, a ajudar aos demais, a amar. Expresse generosidade e amor. Livre-se do orgulho, do ego, do egoísmo, da raiva, da culpa, da vaidade e da ambição. Passe menos tempo acumulando coisas, preocupando-se, pensando no passado ou no futuro, causando dano aos demais ou demonstrando qualquer tipo de violência.
Não aceite nenhuma idéia antes de questioná-la com sua intuição. É algo que fomenta o amor, a bondade, a paz e a união? Ou algo que promove a separação o ódio, o egocentrismo e a violência?
Você é imortal e está aqui para aprender, para saber mais, para ser divino. O que aprender aqui seguirá com você após a morte, não poderá levar nada mais. O reino do céu está em nosso interior. Deixe de buscar gurus, em vez disso busque a si mesmo. Não tardará a encontrar seu próprio lugar.”
Eu tenho muita dificuldade em saber o que é Deus, mas acho que é o amor, essa poderosa energia que flui por tudo. Está dentro de nós, e quando dizem as características de deus eu encaro como sendo minhas próprias, e que eu só preciso manifestá-las. Todos podemos ser misericordiosos, bons, etc...

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Universos paralelos


Cada ser humano é um universo particular. Ainda temos a infeliz mania de sempre nos comparamos com os outros, isso machuca e não faz o menor sentido. Costumamos traçar uma média, baseada no resultado dos outros e nos esforçamos para ficar acima dela. Entretanto, como será possível fazer comparações com coisas tão complexamente distintas como dois seres humanos? Cada um tem suas experiências de vida, seus princípios, seus defeitos e qualidades, as variáveis são infinitas, pois trazemos as peculiaridades de nossos ancestrais, e daí por diante... a complexidade só aumenta.
Um amigo estava muito chateado esses dias, bem quando esses pensamentos de peculiaridade humana me ocorreram, é sempre assim, uma idéia se instala na minha cabeça e logo, posso notá-la na prática. Nós falávamos de pessoas sem mérito, apenas oportunistas, que se dão bem. Ele, chateado, afirmava ser estudioso e aplicado e não ter a oportunidade que esse tal “puxa-saco” tinha. E eu perguntei:
- Mas, você se sentiria feliz no lugar dele?
Não, claro que não. Meu amigo gosta de estudar, e jamais gostaria de fazer nada que não estivesse preparado ou conquistado por mérito. Ele, provavelmente, prefere estudar a vida toda, ganhando pouco, a se aproveitar de uma situação. E nós sabemos, que é mais feliz quem é sincero consigo próprio.

Não temos condições de julgar os outros, não podemos dizer que tal atitude é errada e aquela pessoa não deveria fazer aquilo. No máximo podemos observar e pensar, isso que esse sujeito faz é contra os meus princípios e eu jamais farei o mesmo.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Sob o espesso véu da ignorância



Meu estágio no porto está se mostrando uma experiência absolutamente fantástica, posso ver onde e como realmente me encaixo no mercado de trabalho. Há uma luz no fim do túnel, oceanólogos não precisam necessariamente se matar por uma vaga de professor-pesquisador, há vida, pra nós além da academia.

E essa semana está rolando vistoria da anvisa... Bom, desde a semana passada está a maior correria. Tem uma regulamentação que, acreditem, exige que os latões de lixo exibam a descrição: "grupo D". Sim, ninguém, além deles mesmos (não garanto que todos) sabem o que quer dizer "grupo D", mas é isso que eles exigem. Não cobram que se recicle, ou diminua, ou reutilize, nem nada disso, precisa estar escrito grupo D, esse tipo de resíduo também já recebeu o nome de "classe 2" pela ABNT e "grupo 3", se não me engano, em uma conama...
Enfim, após pintarmos todos os latões do porto eles vieram. E minha chefe me pediu para que acompanhasse o passeio. Meu Deus, logo no primeiro pico que entramos minha barriga começou a doer, parecia ter levado um soco. Era o A8, um armazém de uma operadora, uma empresa privada chamada Serra Morena. Um lugar escuro e mofado, com piso irregular, alguns armários velhos que não dava conta das coisas de todos os trabalhadores. Parecia um barraco de favela.
Em outro armazem, que estava em obras, numa cozinha-refeitório improvisada a comida era aquecida em uma "chocadeira", sim uma caixa com tábuas velhas e sujas com lâmpadas, as comidas eram postas lá de manhã e no almoço estavam quentinhas...
Na oficina a situação era outra, a geladeira ficava no banheiro!

O mais interessante é que frente a indignação da vistoriadora as pessoas ficavam bobas, alguns se ofendiam. Eles não conseguiam entender a oportunidade, a ajuda que essa moça podia dar. Não conseguiam perceber o quanto de dignidade faltava no ambiente de trabalho deles... E mesmo um colega que eu julgava esclarecido, começou a ficar de bico. Ele dizia "Essa mulher está louca, quanta arrogância, prepotência..." E eu tentava (sou péssima nisso) argumentar "Mas, ela está certa, tem que mudar, a condição de trabalho onde mais se gera renda nessa cidade tem que melhorar." "Não vai mudar, eu estou aqui a 30 anos, é não é ela que vai mudar, eu vou entrar no meu e-mail fantasma e mandar um recado pra Brasília, pra acalmarem ela".

Hoje na aula meu professor estava falando dos filtros que todos temos sobre nossa visão de mundo. No saco da mangueira, uma das regiões mais podres da cidade, existe o hábito de se aterrar com lixo e armar o barraco encima. Em uma aula ele foi conversar com uma mulher que morava nessas condições: "A senhora tem alguma queixa, quanto a situação em que vive?" "Imagina, eu estou ótima, tem gente muito pior. Sabe que antes eu tinha que andar 4 km pra pegar água limpa, agora tem esse cano que passa em frente a minha casa!". "Essa mulher acorda pensando no que vai comer, pra sobreviver a mais aquele dia. Nós, favorecidos, podemos pensar na origem do universo, condições sub-atomicas, etc... Se ela tivesse a mesma visão de mundo que nós, já teria se matado." Dizia ele na aula de hoje.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Não se ofenda

Tem muitas coisas que dependem de nós. E eu andei pensando muito nisso, ainda mais com essa história de se formar e fazer parte da comissão e tals. Eu percebo que as pessoas se chateiam muito umas com as outras, e de quem é a culpa?

Acredito no seguinte: nós somos os únicos, verdadeiramente, responsáveis pelo que sentimos. Até podemos tentar por a culpa em terceiros, mas isso nunca cola. Veja só, é impossível alguém te ofender sem que você se ofenda! Sim, podem falar ou fazer qualquer coisa, mas se não tivermos o egoismo para nos sentirmos ofendidos, não nos sentiremos. Ao contrário, podemos estar com o ego tão nas alturas que qualquer coisa que nos disserem interpretaremos como uma grave ofensa sem perdão...