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domingo, 4 de outubro de 2015

O benzedor

As histórias e mitos da ilha mexem comigo. Tanto quanto suas belas paisagens. Me pego imaginando o triste fim da rica feiticeira. Ou as aventuras dos piratas. As secretas conspirações dos escravos, as revoltas e fugas não contadas, mas que certamente aconteceram. As vivências dos índios. E nesse criar e compor me abandono por horas. Mas uma figura me instigou de modo especial. 

Foi uma colega da secretaria que o mencionou pela primeira vez. Ela iria procurá-lo para curar sua garganta. O João, benzedor. Talvez por gostar ou pelo menos simpatizar comigo e minha companheira de aventuras nos deu as dicas. Falou o endereço, "ele não gosta muito de benzer e por vezes diz que não faz mais isso, mas ele gosta muito de leite em pó. Leva uma lata como agradecimento e incentivo." 

Fiquei empolgadíssima e realmente feliz por ainda existirem pessoas que benzem! Uma arte que julgava perdida. Só que essa felicidade genuína, lhe asseguro, não me motivou a procurá-lo. Não por não acreditar na reza de seu João. Acredito, respeito e admiro. Mas porque me julgo bem de saúde, e me sentiria um pouco mal em explorá-lo para me sentir "ainda melhor".  Muitas pessoas me falaram dele em momentos diversos. "Me disse que estava com mau olhado, para tomar banho com (não me lembro o que) para limpar". E comecei a desejar conhecer esse homem. Eu queria que ele pelo menos me visse para dizer caso tenha algo errado comigo.

O CRAS daqui está se estruturando e organizando com esse tanto de gente nova que foi chamada pelo concurso. Por isso as atividades de grupo ainda estão sendo atenciosamente planejadas, e como orientadora social, eu e minha amiga recebemos a função de fazer cadastros (os famosos - para nós - Cad). Numa lista de mais de 400 endereços lá fui eu, buscar uma pessoa numa agradável rua sem saída, entre uma igreja e uma escola, tranquila como haveria de ser. Paro para comer algumas pitangas que saem de uma cerca enquanto ouço o som do que parece ser um ancinho de metal coçando o cimento. Sigo pela rua e logo encontro um senhor que parece meditar enquanto varre as folhas caídas na rua. Admiro um pouco, observando seu pequeno bolo de folhas crescer. Ele nota minha presença e continua, com calma como se tivesse tempo pra tudo. Me fazendo lembrar da história que os budistas adoram contar sobre:

"um homem que ia a galope num cavalo. Segundo a história, o cavalo corria tanto que parecia que o homem ia a um lugar muito importante. Uma pessoa que estava à beira da estrada grita para o homem: "Aonde você vai?". O homem que montava no veloz corcel responde: "Não sei, pergunte ao cavalo!". E se as histórias zen não bastarem para nos lembrar da futilidade dos nossos hábitos, os filósofos não nos deixam dúvidas. Henry David Thoureau afirmou: "O homem cujo cavalo trota um quilometro por minuto não leva a mensagem mais importante."*

Montada em meu cavalo metafórico penso que todos que trabalham devem ter pressa e me obrigo a interromper o momento. Confirmo que ele é quem procuro, explico quem sou e o que vim fazer. Ele me convida para entrar. Me sinto atravessando um portal. O terreno não muito grande é, provavelmente, o mais fértil e produtivo da ilha. Tem dezenas de árvores frutíferas e incontáveis galinhas ciscando felizes entre elas. Preencho o cad, desejando que ele esteja realizando uma analise profundo de minha aura para me dar um diagnóstico. Ele responde as perguntas, fala do passado, do presente e do futuro. Dia 05 (amanhã) é meu aniversário. Faço oitenta e um anos. 

Fico num conflito interno sobre o desejo de ser benzida e o quão inapropriado seria um pedido desse. Torço intimamente para alguma proposta dele, mas talvez esteja pensando no mesmo. Digo apenas ao me despedir que ouço muito falar dele, sempre muito bem, e foi uma enorme honra ter-lhe conhecido. Saindo reparo nas latas com mudas frutíferas, esperando calmamente para serem plantadas de modo que possam então desenvolver todo seu esplendor em rica generosidade. Nesse momento encontro minha meta de 2016. 

Em 2014 percebi o tanto de planos que aspiro. Eram tantos, mas tantos, que estavam todos entalados! Nesse lugar estranho, pouco acessível e cheio de armadilhas, que fica entre o planejar e o fazer.  Angustiada com o fato de querer ser vegana, praticar yoga, meditar, acabar com o sedentarismo, ler, limpar a casa, plantar, escrever, pintar e infinitas coisas que desejo fazer de maneira habitual, decidi que implantaria um hábito por ano. O que me parecia mais urgente e foi portanto elegido como meta 2015 foi caminhar/ me exercitar pelo menos 20 minutos por dia, os fins de semana podem ser sem regras. Só que sabe aquele papo de o que pede consegue e o universo conspirando a seu favor e tals? Pois então, o fato de viver numa cidade com uma orla maravilhosa, somada ao emprego (aparentemente confundido com agente comunitário de saúde) me fez ter sucesso absoluto em acabar com o sedentarismo! E quando começava a pensar na contribuição que 2016 poderia me dar me brilham as lindas mudas do seu João. Uma árvore frutífera por mês!!! Eis o que farei a partir de 2016. 

* esse livro de Mary Paterson chama-se Os Monges e Eu.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

A vida e as coisas.

Quanto menos assisto televisão menos capaz de assisti-la me torno. E isso seria um motivo de orgulho se conseguisse transpor os momentos sociais em que todos olham para TV. Não consigo. Então fico no meio das pessoas tentando me passar por torta frita. O bom do locus social que me encontro é que o sofá é confortável, a sala tem ar condicionado, a refeição é farta, o ruim é que parece que nada do que penso e sinto faz sentido. Muito embora cada vez me torno mais convicta da  minha coerência.

Por alguma razão a rede globo resolveu pregar acerca da depredação dos ônibus. Seria tudo bem se a matéria do fantástico não começasse com dois adolescentes assassinados por policiais durante um baile funk (possivelmente único momento de lazer de jovens da periferia). E então o repórter me diz em tom de horror "jovens queimaram um ônibus, porque acreditam que policiais tenham matado dois traficantes". Bem, que tenham sido assassinados por policiais, isso é uma suspeita, mas que eram traficantes não resta dúvida. O julgamento já foi feito, várias vezes embora nenhum juiz tenha participado. Foram julgados e condenados a pena de morte executada de imediato sem advogado de defesa, pelos policiais. E novamente julgados pelo repórter.

Mas, ao que parece esse não é o problema! O problema, e o drama todo reside no ônibus queimado. Sim, caros amigos, o ônibus. Essa é a vítima principal da ocorrência, o foco de nossa atenção e compaixão, o motivo de nossa revolta, nós membros da classe média.

Ainda estou um tanto incomodada com essa reportagem, e olha que faz semanas. Imaginem que entrevistaram uma funcionária da empresa de ônibus. E ela disse o valor do ônibus. Pois, uma informação séria tem que ter números. E eu não me lembro o valor porque estava pensando "Por que o senhor atirou em mim?". Imagens de horror de um ônibus vazio vagando pela noite eram exibidas, enquanto o motorista narrava o medo que sente de ser abordado. Outra voz disse que estava num ônibus que foi queimado "Eles mandaram a gente sair - desce, desce". Outro número foi exibido, que também não tenho certeza, mas acredito que era algo como: desde o início do ano 45 ônibus foram queimados. Nessa hora meu estomago embrulhou e calculei que seriam 90 assassinados nas periferias da cidade, 3 salas de aula inteiras. Se extrapolarmos o caso narrado para os demais.

Desses jovens nenhum tem nome. Nenhum tem mãe sendo entrevistada. Nenhum tem voz. Possivelmente não saberíamos de suas mortes, não haveria notícia se não fosse pelo pobre e querido ônibus queimado. A preocupação é com o patrimônio. O ônibus de 3 reais a passagem. A coisa que atropela a vida até no lúdico, na narrativa.

A colega do meu lado, confortavelmente deitada em seu sofá, fica assustada. "nossa, que absurdo, depois reclamam do preço da passagem". Meu coração bate forte, como falar sem gritar sacudindo-a pelos braços? "dois adolescentes foram assassinados" e vem a resposta 'eram traficantes' como se isso justificasse. Como se fosse legítimo assassinar todo e qualquer suspeito de tráfico que more na periferia. O coração continua batendo forte, meu inconformismo dificulta meu raciocínio, sinto o namorado me cutucar, de novo, cada vez mais forte. Devo me calar? Não posso, parece que seria trair a mim mesma, parece o mínimo que posso fazer por toda injustiça é me posicionar numa conversa informal. Na dúvida me permito um último e fugaz argumento, digo então rapidamente: "esse não é o papel da polícia". E então volto a posição torta frita, ignorando todo o resto, olhos parados fingindo ver tv, por dentro um turbilhão.

Estou condicionada, depois de 28 anos adestrada, a colocar o individual acima do coletivo. - Eu não mereço ser estuprada! E as outras? - Me incomoda sobremaneira o cutucão, esqueço dos jovens na periferia. Nas conversas individuais com o namorado sempre concordamos com o absurdo da injusta luta de classe, mas num momento como esse ele me cutuca, me oprime, me abandona, controla o que posso ou não dizer? Não confia que eu consigo conversar sem destruir vínculos familiares? Eu consigo? E de modo covarde, que dissesse "bem tenho uma opinião sobre isso, mas o mais adequado seria cada um guardar sua opinião para si", ai então também seria julgado.

Característico de mim mesma rumino, rumino, e rumino sobre isso. Controle. Não quero que ele me controle, mas isso não seria controla-lo? Proibi-lo de me cutucar: uma advertência agora, dá próxima é suspensão. Não. Só posso controlar a mim mesma, o que sinto e faço com o que me afeta. Não existe a menor possibilidade de controlar ao próximo, não quero isso, sou incapaz disso. Gostaria de não receber um discreto 'fica quieta' de quem gostaria de receber explicito apoio. Mas, a verdade é que acima de tudo não quero que ninguém me obedeça, que seja menos livre só para me satisfazer. Só cabe a mim decidir o que fazer com as próximas cutucadas. E decido que irei ignorar, não é bem um 'foda-se' é mais como um 'puxa, seja lá o que eu quiser dizer preciso moderar o tom para que ninguém se ofenda', e então seguir dizendo. Afinal, foi uma luta muito grande para que as mulheres tivessem voz, e me calar seria uma verdadeira traição.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

essência

não Sou feia
não Sou magra
não Sou branca
Esses termos rasos delimitam 
a aparência do meu corpo.

não Sou o que penso
não Sou o que faço
não Sou o que digo
não Sou o que sinto
não Sou o que tenho
não Sou o que escrevo
Esse verbos só descrevem 
algumas ações daquilo que sou. 

não Sou feliz
não Sou burra
não Sou comunista
não Sou competente
não Sou honesta
não Sou chata
Adjetivos não me definem

não Sou brasileira
não Sou católica
não Sou mulher 
até Ser humana
não é o que Sou
porque me limita.

Sei disso 

Pois que é quando fecho os olhos*
que chego mais perto do que Sou
 
Nesse momento então
não há corpo,
não há ações,
não há limites,
não há qualidades.

Só há o calor do Sol     
que se funde com a pele,   
há sua luminosidade            
vermelhando minhas pálpebras,
há o som das ondas e do vento
entrando pelos ouvidos,        
envolvendo tudo por dentro
unindo ao fora,               
há o cheiro da maresia
completando a fusão.
 
Eis aí o que compreendo que sou.
Livre das limitações das palavras,
armadas de preconceitos que     
prendem nas correntes dos rótulos.


*"Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos" (Saint-Exupéry)

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Julguemos a opressão

A Lei Maria da Penha está aí, para defender as mulheres agredidas. Mas, as mulheres violentadas muitas vezes não denunciam. Qual seria o problema? Seria o medo da retaliação, a dependência econômica, emocional? Porque elas agem assim?

Soube num seminário, existe um certo conflito ideológico no feminismo. Deveríamos defender o direito a não se prostituir - considerando que essa decisão seja tomada como uma medida extrema, na qual as prostitutas preferiam estar atuando em outra área - ou deveríamos lutar pelo direito de se prostituir - levando em consideração que essa seja uma decisão consciente, e que essa é uma profissão tão digna quanto qualquer outra? Então nos perguntamos Porque as mulheres se prostituem?

Os estupros acontecem, e muitos consideram que andar desacompanhada seja a causa. Ou usar roupas "provocantes", beber na festa da turma. Enfim, várias atitudes das mulheres provocariam os estupros.

A mulher não deve engravidar se não quiser ter filhos. Caso ocorra uma gravidez acidental então temos calorosos debates pró e contra a decisão do aborto.

Ser ou não mãe também é uma pauta que dá ibope e gera longas discussões. Trabalhar fora ou não.

É sempre sobre nós! Nosso comportamento é pauta de debate. E sempre tem alguma revista, algum comentarista, todos tem uma opinião, um palpite de como deveria ser o comportamento feminino.

Uma mulher agredida, fisicamente, já está numa situação terrivelmente delicada, e é constantemente pressionada à denunciar e à não denunciar. Mas, será que existe pressão sobre o homem? Traçar o perfil dos que agridem e investir em campanhas de conscientização, em revistas, cartazes, televisão?

Afinal, porque se utiliza de serviços sexuais? Porque os homens procuram por isso? É uma atitude nobre, de elevada moral? Não seria o pagamento a compensação por um estupro? A compra do consentimento? A aceitação do consumo do corpo feminino como mercadoria?

Porque os homens estupram? Nesse ponto eu tenho uma sugestão. Deles é cobrado isso. Anúncios provocantes aumentam a libido masculina a todo instante. Estão sempre sendo excitados.

Ainda, toda criança abortada tem um pai. O homens abortam aos milhares, eles abortam muito mais, abortam crianças vivas.

Existem milhões de matérias voltadas ao público feminino, em site, revista, programa de televisão, sobre como fazer unha, como se depilar, limpar a pele, se maquiar, o que comer, quanto pesar, qual o cabelo adequado, como trepar, etc. Mas é muuuito raro ver um programa de televisão dando dicas de como fazer a barba, um programa doméstico apresentado por homem, onde se ensina a se comportar, o que dizer, o que pensar, o que vestir, como agradar a esposa, se deve ou não depilar o peito, isso simplesmente não é pauta. As dicas direcionadas à eles referem-se sobre como agir no emprego, isso em mídias muito específicas. As revistas voltadas ao público masculino trazem notícias, informações, mulheres nuas.

Dizer que é o que dá ibope eu acho muito controverso. Seria como garantir que as mulheres naturalmente se interessam por futilidades e precisam de um "manual de instrução" de como viver, enquanto que os homens são mais ávidos por informações "úteis" e já sabem como se comportar não precisando ninguém para lhes dizer. Bom, meu n-amostral é relativamente pequeno, mas eu diria que não existe essa relação, mesmo nesse cenário, em que somos constantemente e mais arduamente incentivadas a sermos fúteis, não posso dizer que as mulheres são mais superficiais. O que vejo é que elas sentem essa pressão. A impressão que tenho é que são elas as mais inseguras e deprimidas, e não penso que seja por uma natureza mais sensível. Aliás, eu nem acredito nessa distinção biológica de sensibilidade, basta ver os inúmeros poetas, autores, compositores masculinos sensíveis. Me desculpem, mas o carinho, amor, sensibilidade, altruísmo não é exclusividade nossa.

E reconheço nesse ponto o comportamento masculino vira pauta de julgamento. Existe um senso comum de que é necessário ser bruto, rude para não ser taxado de gay. Mesmo que isso seja demodé, e ninguém assuma publicamente essa posição, ainda permanece no ar essa sugestão. Acontece que um ser rude e insensível não encontra problemas em bater na esposa, estuprar, assediar e abusar dos serviços sexuais.


terça-feira, 6 de maio de 2014

a competição

O que realmente me fere e ofende no capitalismo é a exclusão de tudo o que não gera lucro. Pode parecer pouco e aceitável para quem pouco se importa e se afunda na lógica produtivista vivendo para trabalhar, recebendo para consumir.

Nesse domingo teve provinha de corrida em Rio Grande. Faz alguns anos que o Thiago participa, eu acompanho, já corri em três mas não curto muito. Atualmente, a cidade está crescendo, as provas estão ganhando patrocínio, as equipes estão mais competitivas e consequentemente trazem slogans em sua camiseta, o pódio mostra ao fundo mais slogans de apoiadores e patrocinadores. Dessa vez não pedalei ao lado dele, foram mais de 900 inscritos, fiquei esperando na largada com a máquina armada. Enquanto isso via os primeiros colocados.

Pelo microfone o locutor anunciou, aí vem a primeira colocada do feminino. Legal, quis bater palmas pensando estar exercendo meu feminismo, fiquei esperando mais anúncios, e nada... Passou pela linha de chegada uma moça negra, sem patrocínios, parecia tão bem que fiquei na dúvida se era a primeira dos 10 ou das últimas dos 5 Km. Ué. Não veio ninguém depois dela, perdi o momento de aplaudir. O locutor disse depois de um tempo seu nome, de Pelotas. Grunhi os dentes de raiva. Mas algum tempo depois, o senhor do microfone começa a anunciar contente o nome que já de antes me irrita... Aí vem ela, a doutora Daniela. Está chegando, com toda sua garra e determinação, cruzando a chegada. Doutora Daniela!!!! Parabéns Dani, por seu empenho. Pensei sarcástica, parabéns por parecer um outdoor, e erguer bandeirinha da equipe no pódio.

Eu que tenho aversão a competição. Pode ser algum problema psíquico, pois me atrapalha, não consegui ler o livro "ponto de mutação" encalacrei quando ele defendia o equilíbrio saudável da cooperação com competição. Tendo nós superado algumas necessidades instintivas podendo nos dar ao luxo de pensar e conversar, qual a necessidade da competição? Será que não existe meio de superá-la? Ok, mesmo que acredite-se que essa é uma necessidade para o progresso técnico, e sei lá seleção para cargos muito desejados, é necessário alimentá-la a todo instante? Será que não existe lazer esportivo social cooperativo possível?

Tem duas histórias que gosto de me lembrar, já não me recordo a fonte e em que cultura ocorreu, uma foi ao se ensinar futebol a uma tribo. Não tinha jeito, todos comemoravam em qualquer gol, inclusive o goleiro. O importante era se divertir em grupo e deixar todos se sentirem bem. Quando terminou o tempo da partida eles não concordaram em parar. É muita falta de honra parar agora que estamos ganhando, é vergonhoso. E o jogo prosseguiu até que terminasse empatado para a alegria e contentamento de todos. Mantendo e fortificando a harmonia entre o grupo.

Outro caso foi o do antropólogo que findado seu estudo de campo tinha que ir embora, para se despedir fez uma última experiência, escondeu em uma árvore alguns doces. Quando as crianças chegaram perto dele meio saudosas ele as animou. Olha, eu deixei uma surpresa pra vocês, o primeiro que chegar ganha, está ali naquela árvore. Ele esperava correria, gritaria e (suposta) alegria típica das crianças. Mas, calmamente elas se deram as mãos e foram caminhando até a árvore. Lá chegando dividiram os doces. Ele perguntou, mais direcionado ao reconhecidamente mais rápido da turma, porque vocês vieram juntos? Não tentaram pegar tudo para si? Como podemos nos sentir feliz sabendo que nossos amigos estão tristes?

Essa competição, sistematicamente ensinada e incentivada, extrapola os limites do esporte (mesmo que ficasse nesse limite acho profundamente triste) e expande para relações pessoais, compete-se pela atenção dos pais, dos filhos, dos amigos, do chefe; nas discussões é comum não haver a real intenção da descoberta de uma verdade em conjunto, mas um objetivo egoísta e superficial de ganhar a argumentação, competindo pela razão, pela admiração dos que ouvem. E conquistando poder.

Isso me incomoda, não sei se é porque nunca ganhei alguma competição ou se nunca ganhei uma competição por não ver sentido e propósito, por achar um pouco cruel com quem perde e principalmente por em essência acreditar que ganho mais quando perco. Deve haver aqui uma diferença fundamental. Por alguma razão eu valorizo a porção espiritual do ser, quero dizer sentimentos e pensamentos, reconheço a importância da matéria, mas como uma manifestação dos valores menos palpáveis. Nesse sentido hierarquia de chegada, e aquisição de medalha perdem o valor para mim, somado ao interesse econômico que coisifica o ser em objeto de propaganda e lucro aí complica ainda mais.

segunda-feira, 24 de março de 2014

A formatura em direito

Turma UFPE (Federal de PERNAMBUCO), 2003.
Faz um tempo fui prestigiar uma amiga que terminava seu curso em direito. As formaturas da FURG são realmente espetaculares, como não poderia deixar de ser na Sociedade do Espetáculo. Tudo bem, tudo lindo, é um passo importante, deixemos o espetáculo em paz.

Os discursos eram lindos. Sobre como são colegas e amigos, sobre como importa a felicidade e fazer o que gosta, sobre o investimento do dinheiro público na formação deles e como deveriam contribuir com a sociedade. Tudo muito lindo.

MAS, a observação mais repetida, todos que pegaram no microfone fizeram, as vezes mais de uma vez foi: "Essa é a melhor turma da história da FURG" sim eu também me contorci na cadeira, se prepara pq aí vem a justificativa "foi a maior porcentagem de aprovados na OAB"... Cuma?

Oh yeah, baby, somos amigos e nos amamos, só tenho que dizer, me desculpe seu perdedor, se vc não foi capaz de passar em um exame, eu passei, sou melhor e fui fundamental para marcar nossa turma na história da universidade. Inicia sua carreira com esse fracasso sendo esfregado sete vezes na sua fuça, durante o memorável momento de formatura. E não se esqueça devemos ser felizes, amar ao próximo e trabalhar em prol da sociedade!

Tirando esse lapso discurso/ideologia, endeusar de tal forma um exame... Eu não consigo concordar que quem passou no exame: apto a advogar, competente, bom advogado; quem não passou: inapto, incapaz de exercer a profissão, não aprendeu nada durante o curso, mas depois de pagar novamente e estudar para uma prova aí sim do dia para noite ele se torna capaz. Como pode uma avaliação assim tão importante ser feita por uma prova que gera lucros a uma empresa privada, que não precisa prestar contas.

Sigamos no relato da formatura desse importante curso para sociedade atual. Vocês são livres e devem fazer o que quiserem para serem felizes! Clap, clap, clap. Eu aplaudi emocionada. Agora vamos entregar a bolsa para os melhores alunos. Hein?

Ah é, me lembrei de minha amiga ter comentado porque ela ficava tão furiosa com os colegas que colavam. Os que tem o maior índice ganham uma bolsa para um cursinho para um concurso de um cargo público absurdamente bem remunerado. Essa é a liberdade de ser o que vc quiser ser pois o direito lhe abre um leque de oportunidades (como foi dito no discurso). Mas o que vc pode querer ser se todos aplaudem o grande campeão que vai ter a chance de tentar ganhar o mais alto salário da categoria?

Eu senti vontade de chorar. Pra mim nada disso faz o menor sentido. Salários exorbitantemente altos, isso afasta ainda mais (quem sempre esteve afastado) dos necessitados. E mascara o concurso público, todos podem, mas uns podem mais, uma vez que pagaram 5 mil por mês num cursinho preparatório, para o qual puderam se dedicar exclusivamente. E isso é o que vc tem que querer e o que aplaudimos feito macacos, repita o mantra "dinheiro", "status", "poder", enquanto claro, fala exatamente o oposto... Ninguém é premiado por participação na transformação social.

Não preciso dizer que no palco só haviam brancos com traços e sobrenomes europeus, preciso? Se na turma de Pernambuco é isso que vemos imagina no RS, eitcha, mas lhe digo se tem algo que ofende mais os gaúchos do que chamar sua piucha de fantasia é dar a entender a algum negro politizado que não existem negros no rio grande do sul. Eu cheguei bem perto de sentir meu pescoço ser esgoelado ao fazer isso uma vez. Aprendi bem, a invisibilidade é uma das formas mais cruéis de preconceito, os negros são sistematicamente varridos para baixo do tapete em profissões de pouco destaque, onde possamos seguir nossos dias desconhecendo sua existência. E o colega branco, classe média (ou média alta nessa nova classificação doida) ,descendente de europeus do meu lab insiste na máxima "no Brasil não tem negros". Depois de sentir desejo de gritar, trazer argumentos (De acordo com os relatórios da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), existem mais de 91 milhões de negros/pardos  no Brasil. Com isso, entende-se a porcentagem de negros no Brasil em mais de 50% - fonte) e sugerir documentários, internalizei que na verdade nesse caso isso não era um argumento, mas um teste de paciência. Quando é dito novamente algo do tipo abro um sorriso de miss, cara de paisagem, faço que sim com a cabeça, ouço durante 20 segundos (contados), e me volto para o computador.

Bem, passado o momento do espetáculo. Consegui garimpar uns momentos bonitos nos discursos para elogiar de modo simpático durante a comemoração. E lá fomos nós. Depois do jantar no momento dos doces, novos discursos, dessa vez vindos da família. A palavra-chave foi... "topo". Quando apontavam para cima eu buscava o que o dedo estaria destacando mas só via teto e lâmpada. "Quando você estiver no topo" "quando chegar ao topo" "não se esqueça de nós quando estiver lá encima"... e a coisa continuava.

Rumo ao "topo" misterioso.
Minha amiga linda em seu penteado e maquiagem especiais sorria sem saber muito o que dizer para não soar prepotente. Eu só conseguia ver um jovem assustada, recém formada atualmente desempregada, sem aval da venerável OAB, sendo esmagada por um monte de expectativas desconexas e sem base, que incluíam o cume de uma montanha isolada, com gelo e nuvens, representando altos cargos repleto de status e salários exorbitantes tão ou mais inalcançáveis quanto o cume da montanha. Expectativas baseadas no senso comum, na lógica "do que se deve querer", sem diálogo, sem espaço para outros quereres. Essa lógica mordaz faz com que qualquer outro topo que não envolva salário de 5 dígitos, poder e prestígio se torne um vergonhoso fracasso, e seu alpinista um pária social em potencial.

Para salvar a seção discursos meu amigo, e noivo da formanda fez questão de se levantar e dizer, em suma, que estava muito orgulhoso dela e independente do que ela decidisse fazer daria apoio total. Quando tive a oportunidade comentei com eles, que bom, gostei do que vc falou, tava muita pressão essa história de "topo", para minha surpresa ele pareceu preocupado "não era esse meu objetivo, eu não queria soar grosseiro, pareceu grosseiro?". Tranquilizado o amigo, sorri para ela e tentei desconstruir a imagem do assombroso "topo", o topo seria sua felicidade e auto-realização. Não sei se minha intervenção foi positiva ou se soei meio babaca, pois não ter como objetivo principal aumentar o salário faz de mim alguém bastante diferente de todos os seres humanos.

segunda-feira, 10 de março de 2014

Sociedade em crise e vislumbres de novas possibilidades

Não é mais questão de política, de como regular o mercado, para que ele se auto-regule, trata-se de gerir os recursos que temos. E não digo apenas de recursos materiais, como terra fértil, metais, vento, senão também recursos mais sutis, como a criatividade humana, a tecnologia potencial, e até os sentimentos nobres. Convenhamos, sentimentos nobres são sistematicamente desincentivado.

Porque temos empregos? Com tantas máquinas. Pensa, a maioria dos empregos são tediosos e totalmente inúteis. Para transferir a placa de meu carro, falei com aproximadamente 15 pessoas, essas me atenderam diretamente, no balcão do detran, na vistoria, para fazer a placa, no banco, e se não precisássemos de placas, ou melhor, se não precisássemos de carros, por meio de um transporte público eficiente? Quantos empregos seriam/são desnecessários! E não é ruim não ter emprego, essas pessoas passam a maior parte do seu dia fazendo uma atividade chata pra caramba, como passar lápis sobre uma etiqueta colada no chassi! Esse camarada com tempo livre poderia compor canções tão lindas como as que jamais iremos ouvir. Se o governo britânico não tivesse (como não tem atualmente) investido em cultura Jonh Lennon teria passado toda sua vida empilhando caixas, e nós jamais cantaríamos e nos inspiraríamos com Imagine. Emprego não é bom, é uma bosta, trabalhar no que realmente gosta (sem depender do salário) é bom. Criar emprego é a pior medida política que pode-se usar de propaganda eleitoral. Temos que pensar em diminuir empregos, aumentar distribuição e tempo livre.

Mas, porque as pessoas buscam emprego feito loucas? Pq mesmo o mais humilde dos seres humanos, o dotado de zero ganância precisa de emprego? Por causa do dinheiro! Não do dinheiro em si, mas do passaporte para condições mínimas de vida. Alimentação, remédio, informação, conhecimento, cultura, atividade social, transporte. Não precisamos de dinheiro, ninguém precisa de dinheiro, mas precisamos e muito do acesso à bens que só nos oferecem mediante a essa troca inescrupulosa. Passa tempo. Nessas férias fui a uma praia e haviam várias pranchas de remar, elas ficavam em pé, paradas, porque eram alugadas, e quando não havia dinheiro para alugá-las, elas ficavam paradas e alguém desejoso de brincar, ficava passando vontade, entediado, mais pobres não podem nem chegar perto de uma.

Jacques Fresco conta que na crise de 30 "Foi difícil entender o motivo porque milhões de pessoas estavam sem trabalho, sem teto e prestes a morrer de fome, enquanto todas as fábricas estavam ali, os recursos não tinham mudado." Nesse momento começou a entender e questionar e entender e criticar as "regras do jogo" econômico. Viveu também a segunda guerra mundial "onde as nações se revezavam na destruição mutua e sistemática. Calculei que toda destruição e todos os recursos desperdiçados na guerra poderiam facilmente ter provido todas as necessidades humanas no planeta."

Seguiu observando criticamente as medidas governamentais economicistas e "desenvolvimentistas" e depois de muito ler (aparentemente muito e sobre tudo, religião, sociedade, poder, comportamento humano, economia), pensar, propor, dialogar, viajar, trabalhar, se envolver em projetos diversos, ele passou a identificar as raízes do problema e idealizar suas soluções. Chegou então a essa bela possibilidade chamada Projeto Venus. Venus é a cidade da Florida em que se encontra seu centro de pesquisa, mas é um nome muito curioso, e feliz, pois diversas linhas místicas mantem a tradição de dar à "Deus" um aspecto feminino (não é mulher, o feminino existe em diversos graus nos homens também), o qual estaria mais voltado a generosidade, constância, cooperação, as sociedades matriarcais que houveram não tinham uma natureza guerreira e opressora. Mas enfim, sigamos!

E porque existe o dinheiro? Seria para controlar o acesso a recursos limitados. ok, mas não somos capazes de pensar em outras formas de lidar com esses recursos? Porque temos que limitar moradia, transporte, saúde? Esses "recursos" são limitados? Uau, pois quando eu entro num supermercado não me parece, muitos autores que estudam a "geopolítica da fome" concordam que produzimos alimento suficiente para 12 bilhões de seres humanos, somos em 7, dos quais 12,5% passa fome (fonte). Será mesmo o dinheiro uma maneira inteligente de gerir recursos? Quantos médicos se formam por ano, o conhecimento é um recurso limitado? Meu amigo economista resolve todos os problemas em 2 segundos, aumenta o preço daqui, investe ali, fiscaliza acolá... bem, convenhamos, esperar que o capitalismo traga abundância a todos é muita ingenuidade, não?! A escassez e a miséria é interessante para a manutenção do satus quo, será que se todos tivessem acesso garantido à saúde, alimentação, lazer e moradia se submeteriam a empregos desumanos e degradantes? A pobreza é um baita negócio nesse atual sistema, pode-se pagar 500 reais de aluguel numa casa com 3 dormitórios nas favelas do Rio:

"Segundo o Data Popular, as favelas geram por ano cerca 63 bilhões de reais. Por isso vale a pena mostrar a favela como um lugar formidável [sobre uma matéria do Fantástico que mostrava as maravilhas do morro]. Os recursos não permanecem nas favelasO ciclo da economia gira em torno das grandes redes. Vale a pena colocar uma Besni, um Itaú e uma Casas Bahia em uma favela: em alguns estados o governo oferece como contrapartida isenção de imposto para as empresas - uma espécie de insalubridade, a mão de obra é barata, o povo paga as contas em dia, mesmo com a geladeira, adquirida por pressão no intervalo da novela, que anunciava a redução do IPI, vazia."

A vida e a qualidade de vida deixou a muito tempo de ser prioridade. Mesmo a informação, dada por jornalistas, não busca a verdade e sua difusão, busca o lucro, acumular dinheiro a patrões bastante distantes da realidade que são noticiadas. O mesmo com os avanços tecnológicos e na área da saúde, será interessante economicamente desenvolver a cura do câncer, ou meios de evitá-lo? No meio acadêmico até, vi esses dias que um estudo que buscava relacionar transgênico com câncer foi terrivelmente criticado, principalmente por cientistas que trabalhavam em projetos de patentes de transgênicos, ganhado certamente muito dinheiro.

O universo do pensamento é livre, podemos idealizar o que quisermos: e se não houvesse dinheiro? Você pensa que ficariam todos os seres humanos ociosos, se comendo, e sei lá eu fazendo o que mais? A única coisa que te motiva é ganhar dinheiro? E se vc não precisasse, não há nada que te interessa? Desenho, filosofia, música, engenhocas, corpo humano, nada? Imagine que vc pudesse entrar em um supermercado e pegar o que quisesse para se alimentar, para vestir, totalmente livre. Nossas férias e fim de semana são poucos "produtivos", pois gastamos toda nossa energia no emprego.

O mundo está um caos, inteiro e completo. Nosso ambiente cada vez mais poluído e degradado, desculpe, mas não se iluda pensando que se todos reciclassem, se todos poupassem, se todos... pq não vai acontecer, enquanto as inovações forem disputadas a tapa por grandes corporações desejosas de mais lucro, cada tecnologia que aparece não é para o bem comum, cada politica que se cria também não, todas as inovações são para aumentar os lucros, ou não recebem investimentos (vide Tesla que morreu pobre investindo tudo o que tinha no desenvolvimento de energia gratuita e powers) e nessa onda também se focam as medidas sociais (o ciência sem fronteiras tem parceria com grandes empresas e o objetivo não é melhorar a qualidade de vida de forma holística, não é que o conhecimento adquirido seja aplicado na melhora da vida dos que necessitam, através de inovações de ponta, basta ver o foco dos cursos e as empresas parceiras, é uma medida de criar mão de obra qualificada para aumentar os lucros, e esses lucros são importantes pois geram emprego... e novamente não há investimento em emancipação, capital social e empoderamento popular). Você pensa que é livre mas não é. E nem será enquanto tiver que pagar as contas, e sem "pagar as contas" vc não se transporta, não come, não se cura, nem se mantém saudável, não se comunica. E é possível mudar isso, afinal os recursos existem, as pessoas existem, elas tem criatividade para tecnologias, o que pode deixar de existir é o que regula o acesso a tudo isso, o dinheiro. E, quando deixar não haverá exclusão, não haverá diferença entre brancos e negros, homem e mulher, artista ou engenheiro, quer dizer haverá diferença, mas nenhum será excluído, todos poderão entrar na mesma loja e terão as mesmas possibilidades, as diferenças serão internas, como aptidão, interesse, etc. mas não serão diferenças qualificadoras "melhor ou pior".

É claro que haverão problemas e limitações, pois tudo é dinâmico, e talvez esse modelo possa deixar de servir em algum momento, como, convenhamos, o modelo atual não serve mais...

Vale a pena assistir ao documentário Paraíso ou Esquecimento, estamos em um momento importante. Muitos renomados ecologistas (Odum - O Declínio Próspero) e economistas (Meadows - Os Limites do Crescimento) acreditam ser nossa fase atual um ponto crítico, ou seguimos com a lógica atual (ainda que maquiada de medidas "freio de mão" como reciclagem, protocolo de kioto e blablabla) explorando, extraindo, poluindo, concentrando e lucrando, ou aproveitamos que ainda temos energia não renovável o suficiente e construímos uma nova sociedade sustentável, pautada em outro paradigma, que não o economicismo tradicional calcado na competição e acumulação. Nos livros defendem que essa é uma escolha que deve ser tomada, e quanto mais rápido mais próspero será o "declínio" da atual economia e civilização (como é nesse momento), não tomar essa decisão implica em esgotarmos as possibilidades de escolha e interferência nesse declínio, que é inevitável.

segunda-feira, 3 de março de 2014

Ecologia da evolução de mim mesma e como fiz as pazes comigo

Tenho repetido e me convencido da certeza absoluta de que esses anos de mestrado me transformaram, total, profunda e radicalmente!

De fato, foram leituras, aulas e trabalhos intensos, conceitos novos, e para mim uma forma de ver a história totalmente nova. Bem, sabe, meus pais sentem falta dos belos tempos da ditadura, e com muito custo me mantiveram num dos colégios mais caros da cidade, desenhado para atender as demandas da elite local. E eu sentia que não me encaixava muito bem aí. Mas, não identificava exatamente o que tanto me incomodava. Passei a ser crítica das aparências e ter asco de patricinhas, enquanto ao mesmo tempo internalizava conceitos trôpegos de que "ser contra o sistema" é coisa de idiota que busca uma desculpa para justificar sua vadiagem, que a dignidade do ser humano está no quanto este trabalha (e trabalho aqui no sentido de atividade profissional remunerada), que o objetivo máximo é acumular bens, que a pobreza existe devido a malevolência de pessoas irresponsáveis, acomodadas, ingratas e aproveitadoras por aí a fora.

Assim, quando me apresentaram algumas leituras sociais fiquei maravilhada, textos tão lindos e tão revoltantes desnudavam uma injustiça histórica, na qual eu meio sem certeza me posicionava do lado do opressor ou de modo míope e parcial do lado do oprimido, mas sem fundamento e sem que a decisão fosse realmente minha. Bem, não foi só isso que me levou a uma mudança de paradigma. Mas, o fato é que essa que eu percebia como uma "nova Keith" (pós mestrado) passou a sentir pela "Keith antiga", e vez por outra eu pensava nas conversas que não tive, nas pessoas de quem não me aproximei, e nas que posso ter influenciado, nos opressores que defendi, nas opressões que incitei e participei (ainda que no discurso da opinião leviana). Eu também lembrava de mim com momentos intensos e profundos de melancolia, ousaria dizer depressão, o que agora julgo ser devido a contradição de ter a ideia de um bem espiritual em conflito com o social, do tipo: "ame seu próximo como a ti mesmo" vs "bandido bom é bandido morto".

Na semana retrasada, passei por uma "intervenção" na FURG, era da matéria de "arqueologia do capitalismo". Foi uma vivência muito intensa. Inicialmente se escolhia um nome aleatoriamente numa caixinha, a menina me disse:
- Vc vai ter que achar essa pessoa.
Eu sorri extremamente empolgada com o jogo, fiz comentários de alegria e a menina séria não deu muita trela e se afastou.
A primeira salinha estava forrada de saco de lixo preto, era escura, abafada com cheiro de polietileno (sei lá), com uma voz narrando seus momentos de tortura, uma tv com imagens preto e branco, fiquei com medo de ver alguma cena forte, olhei furtivamente para tela, enquanto tentava entender o que estava acontecendo, eram exibidas imagens dos locais de tortura, vazios. Incomodada, preferi não procurar o rapaz do papel por lá. Eu me senti mesmo com medo, não sei dizer exatamente, tive medo de ter que ficar mais tempo naquele lugar horrível. Saí rápido.
Logo na outra sala havia um projetor, com fotos, nome, idade, ocupação e data de desaparecimento, graças a ditadura militar. Meu medo, que era um embrulho no estomago virou um nó na garganta. Me obriguei a esperar pela foto do rapaz. Estudante, 32 anos. Senti um pouco de raiva por terem me envolvido em algo que eu nunca quis de verdade saber. Depois lembrei do black bloc e de como eu gostaria de estar nas manifestações de rua hoje, e como de alguma forma eu estava naquela época e naquele  papel poderia estar o meu nome. E então senti uma afinidade com os jovens das fotos projetadas.
Na próxima sala era um quarto vazio, arrumadinho com livros e máquina de escrever. Nesse momento senti vergonha de todas as vezes que pensei e falei algo pró-ditadura, mesmo por ter sido desinformada, sob influência. Senti culpa. E mais uma vez, culpei uma "Keith antiga", que me defendi para mim mesma, "não existe mais".

Até que esse fim de semana, terminei meu segundo diário! Desde 2007 tenho escrito com certa constância. E nesse processo emocionante de troca de diário acabei juntando coragem e dando uma lida no início do primeiro. Tive um pouco de medo de quem eu veria naquelas páginas, mas me entreguei a essa leitura.

O que notei é que em realidade não se tratava de uma completa imbecil. E fiquei bastante surpresa em ler constatações que me impressionaram, com a consonância com a posição que assumo hoje. Digamos que tratava-se de uma anarquista em potencial. As leituras indicadas no mestrado me salvaram de um ciclo vicioso, elevaram meu patamar de discussão, me dotaram de argumentos, mas de algum modo eu já estava nesse caminho. Só estava um pouco embolada em um labirinto, dando voltas na montanha sem mudar de altitude.

Parece tudo cada vez mais dinâmico, e já sinto como se estivesse completando mais uma volta, nessa mesma altura, me adaptado ao novo angulo de visão, e começo a me aborrecer com a monotonia da paisagem. Mas, onde estará a trilha para subir mais um pouquinho? Talvez esteja eu apressada demais.

Enfim, deixando minha filosofia barata um pouco mais palpável, apesar de eu ter consciência de estar me sentindo mais livre, plena e feliz agora eu não era totalmente desprezível, "antes". E descrevo no diários dias bastante agradáveis, e sentimentos bastante puros e justos! Claro que eu controlo e manipulo o que escrever no diário, e ideias suicidas (que penso em juntar "material" para um post exclusivo) costumavam ser calculadamente escondidas, bem como alguns julgamentos alheios mais "cruéis". Mas, o fato é que estou em processo de me entender mais que me julgar, e fazer as pazes comigo mesma.

 Decidi me "expor" dessa forma, principalmente porque reparei essa situação num querido amigo. Que mudou fisicamente, e vive repetindo como ele era isso e aquilo. Eu concordava e ajudava na tiração de sarro (alias tirar sarro por muito tempo foi um inconveniente hobbie meu). Mas, depois de me dar conta de que na verdade ele era o que deu base para ele ser, mudei meu discurso, ainda sem saber muito o que dizer, comentei:
- ah, vamos lá não era tão ruim assim...
foi um comentário perdido, na roda de amigos, dentre tantos consensuais que não deixaram de apontar, com um certo prazer, as "falhas" do "antigo" amigo. Ainda vou melhorar esse discurso e na próxima oportunidade convencê-lo, e a mim mesma, de que somos um e nosso passado integra o que somos no presente, ainda temos o que aprimorar, e julgar e "xingar" nosso suposto passado pode nos fazer temer a implacabilidade do julgamento do eu futuro. E principalmente, essa evolução linear é ilusória, nosso aprimoramento é bem mais complexo, e o eu antigo alcançava reflexões que superam as do eu atual e futuro, ele vive em nós, apenas selecionamos quais partes dele gostaríamos de carregar, e paulatinamente abandonamos as que julgamos não nos servir!

Seria uma seleção natural de qualidades minuciosamente identificadas no eu atual, somada a identificação de características consideradas por eu mesma desagradáveis e o trabalho diário (esse sim referente a "cuidado ou esmero empregado na feitura de uma obra") do cultivo das qualidades somadas ao contorno das características desagradáveis. Informação e experiências auxiliam na identificação e seleção do que cultivar e o que polir! Como o que a "Natureza" faz com a Vida, selecionando, adaptando, excluindo, criando, buscando a complexidade. E nesse caso, sustento que (como comigo), a evolução não teria sido oriunda de mutações ao acaso jogadas a esmo e que teriam repercussão dependendo unicamente do sucesso reprodutivo, mas orientada pela seleção rigorosa de um Inteligência que direciona os sistemas à complexidade.

Tal configuração complexa teria permitido a manifestação da consciência e alguns teorizam que


uma das vantagens evolutivas conferidas a nós pela consciência é a flexibilidade, sensibilidade e criatividade(Searle)

sendo nossa evolução um caminhar ao aperfeiçoamento dessas três características. Isso corrobora a sensação que tenho de ter evoluído especialmente nos últimos dois anos, pois foi o período em que assisti um aprimoramento substancial na minha flexibilidade, sensibilidade (em especial) e criatividade (essa última menos intensa).

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

O que estamos fazendo?

Hoje, meu primeiro dia de trabalho (na dissertação) do ano, lendo documentos da ONU, do IBAMA, reportagens, trabalhos e artigos acadêmicos, de economistas, sociólogos, oceanógrafos, entre outros fique um instante paralisada. Quem paga todos esses nobres intelectuais que, como eu (no momento), dedicam sua alma na causa da pesca? Quem sustenta ONGs que se indignam com o declínio dos estoques? Quem trabalha no plano real, e não virtual, afinal?

E porque separar pescadores dos gestores e intelectuais? Pq não usar toda essa verba que sustenta teses, dissertações, infindáveis leis e documentos de ONU, MPA e IBAMA e investir na infraestrutura de vilas pesqueiras? Unidades educacionais agradáveis com temas contextualizados abordando a questão da pesca, estudos de estoque. Investir em saneamento básico, unidades de saúde, píer amplo e seguro, áreas de lazer, esporte, cultura. Existe o dinheiro para isso, ele está sendo usado para fingir que intelectuais e gestores da pesca tem mais importância do que os pescadores. Várias vezes ao longo da dissertação me perguntava, mas o que eu estou fazendo nesse trabalho, eu nunca pesquei, nunca morei numa vila de pescadores, eu sequer compro peixe! Sem dúvidas, era o Loredi (pescador) que deveria estar ganhando essa bolsa e fazendo essa pesquisa, ou que pelo menos deveria ter uma condição de moradia como a minha, possibilidade de viajar com a família nas férias ou optar por tomar, ou não, haagen daz de sobremesa.

Vejo o grande esforço de René, na presidência da ong Terramar para salvar e certificar a lagosta pescada artesanalmente na Prainha do Canto Verde. Um esforço monstro envolvendo ONU (através do PNUMA), ongs europeias com experts em gestão e pesca de lagosta. E enquanto isso o modo de vida dos pescadores continua o mesmo, o acesso a informação ridiculamente limitado. E quem vai pagar o trabalho, e viagens de tantos experts? Me lembro de um trecho do livro Hell em que a autora, socialite francesa, vai ao restaurante e pede lagosta com as amigas, mas elas cheiraram tanta cocaína que não sentem fome, apenas bebiricam sua taça de cristal com champagne (orgânica e familiar, quem sabe?!) e vai embora, sem tocar na lagosta. 

Acho que a maior conclusão do meu trabalho é que é inútil. Esse debate de gabinete, de academia é uma forma de ser sustentada as custas dos trabalhadores braçais que são mantidos na ignorância e miséria para continuar sustentando ministérios, ongs, onu, pesquisadores, acadêmicos, cientistas, cursos, professores, laboratórios, projetos, reportagens, documentários. 

E no final das contas sabemos bem que no fundo, olhando sem medo e buscando a verdade a maioria das ocupações/trabalhos são inúteis mesmo. 

ps.: o título da postagem é uma pichação de Rio Grande, que não tenho paciência de fotografar, mas devo dizer que AMO os pichadores rio grandinos, profundamente!

sábado, 14 de setembro de 2013

A doença que não existia


-         -  Entendo, entendo… - o médico então respirou fundo, tentando prolongar ao máximo a pausa que antecede o complicado diagnóstico - Bem, eu fico muito contente que tenhas conseguido exprimir seus sentimentos assim, tão serenamente. Parabéns, são sentimentos difíceis de lidar.

Pelos sintomas que o senhor descreveu, acredito que trata-se de uma hipersensibilidade, mais precisamente a Síndrome do Coração Ultra Puro, SCUP.  Acredita-se que não seja uma doença moderna, mesmo porque muitos escritores e compositores antigos, possivelmente, sofriam desse mal. Mas, seu diagnóstico e tratamento são recentes.

Eu costumo separar os tratamentos usuais em três linhas: a Fuga, o Enfrentamento, e a Entrega. Não pode-se dizer que um seja mais eficiente que outro, pois os resultados variam muito conforme o perfil do paciente. Existe ainda a possibilidade de fazer a combinação destes. Bem, eu vou te explicar em que consiste cada um e juntos encontraremos o mais adequado para iniciarmos seu tratamento.

Na fuga, como o nome diz, o sujeito foge do que lhe aflige. O modo mais óbvio, mas também muito controverso, é pelo suicídio. No início de minha carreira eu julgava que esse método fosse muito apropriado, pois além de imediato, no caso das ações bem sucedidas, ele não abre brechas para futuras crises, e me parecia resolver o problema por completo, apesar de drástico, claro. Mas, recentes pesquisadores da linha espiritualista, afirmam que esse método é na verdade muito danoso, pois segundo eles, apesar de morto, a consciência continua a desempenhar suas funções. E por ser uma medida extrema, causa traumas irreversíveis, na pessoa. Por essa razão, embora eu não acredite 100%, é melhor usar a precaução, e nesse caso, não recomendo mais esse método, embora tenham alguns pacientes que preferem arriscar, não sei se é o seu perfil. Aconselho que antes de optar por esse método tente outros.

Uma viagem, por exemplo! Podes conhecer sociedades que vivam de modo sutilmente diferente, que você julgue mais justo. Eu não posso te indicar com certeza um local, mas tem um caso de um paciente que descobriu uma vila nos Andes, ele me mandou algumas cartas, descrevendo o convívio social harmônico e agradável que existia no local. Viveu lá muito feliz por cinco anos, mas, ano passado, uma mineradora indiana se instalou e em poucos meses arrasou com o capital social da comunidade, ele me escreveu que em meio a miséria, a exploração, a poluição e a injustiça não conseguiria viver, avisou-me que usaria do suicídio. Receio que não tenha lido minha resposta, nunca mais me deu notícias. Mas, bem, isso não impede que você encontre uma vilinha assim! Acredite, essas comunidades não costumam ser expostas em revistas ou jornais. Ou você pode simplesmente se isolar, num sítio, com produção autossuficiente! Esse modo tem dado resultados exelentes!

A fuga pode ainda, dar-se por meio da alienação associada à obsessão. Onde o paciente deixa de se informar sobre tudo o que acontece com a sociedade, e foca-se exclusivamente em algo que lhe interesse. Ou por meio da imaginação, onde se cria uma outra realidade paralela, mais agradável. O uso de entorpecentes pode facilitar consideravelmente esse método, existem inclusive drogas legalizadas com essa função. Pode-se usar também histórias de ficção para iniciar a criação. Existem diversos adeptos desse modo que publicam em blogs histórias sobre suas criações, então você pode se inserir no mundo de outra pessoa! Muitos dizem de alienígenas infiltrados, espíritos obsessores, os mais diversos mundos!

Enfim, a fuga é um método bom, mas exige alguma coragem, pois é menos eficaz quando se mantém a rotina do trabalho, que impede a fuga completa. Sempre se está sujeito a alguma notícia desagradável, ou o simples fato continuar de vendo o que já lhe foi objeto de questionamento e rejeição pode ocasionar crises infindáveis.

O enfrentamento é muito bonito, eu admiro bastante esse método, mesmo porque ainda tenho alguma esperança, afinal, ninguém é de ferro, não é?! Ele funciona para quem está disposto a seguir entrando no que chamamos de “toca do coelho”. Ir até o fundo das mazelas sociais, não é um mergulho fácil, pois acredite essas pequenas coisas que o senhor afirmou que te incomodam, são apenas o que está na superfície, a pontinha do iceberg, digamos assim. Mas, por mais contraditório que seja, muitas pessoas se sentem melhor quando param de se debater na superfície para iniciar um mergulho rumo ao fundo, à causa primária! A ideia é conhecer para combater.

Então, durante seu mergulho elas vão buscando maneiras de modificar o que as incomoda. Pela minha experiência, a maioria sente que repassar a informação, é uma forma de trazer à superfície o que estaria escondido no fundo, e assim, agregar mais “mergulhadores”. Muitas começam a escrever livros, dar aulas, fazer palestras, compor músicas, pintar, encenar, pichar.

Outras concluem que a solução tem que ser uma intervenção mais direta, organizam grupos, que alguns chamam “terrorista”, porque aliás, esse é um detalhe importante desse método, ele comumente leva à revolta.

Nem sempre as pessoas se sentem exatamente mais feliz adotando esse método, mas costumam relatar que passam a ver um propósito em suas vidas.

Por fim, a Entrega! Normalmente, as pessoas que não buscam aconselhamento médico acabam usando esse tipo de tratamento. Mas, quando não é bem realizado, com acompanhamento de um especialista, costuma ter ciclos inesgotáveis de crises.

O seu sucesso está diretamente relacionado à dessensibilização. Para isso existem diversas técnicas, que envolvem uso de medicamentos, sessões de tortura, suaves, como choque, solitária, que são opcionais, mas eu aconselho pois os resultados costumam ser melhores. Outra técnica fundamental é a visualização constante de cenas de violências, casos de injustiça e opressão, por isso se aconselha a sintonização constante em programas de TV, rádio e leituras de jornal, em especial da página policial. Até que essas situações parem de lhe causar incomodo. Você vai ver, no início vai identificar claramente a retratação de relações doentias na novela, opressão, mas com o tempo a injustiça vai se tornar mais nebulosa, até ficar totalmente imperceptível!

Os resultados mais comuns variam entre dois padrões distintos, a apatia e a normalização. No caso da apatia o sujeito deixa de sentir. Ele não sente mais a angústia que o senhor me descreveu, mas também não sente mais compaixão, não sente amor, não sente tristeza, nem felicidade, não sente nada. Os seres humanos, inclusive ele próprio, passam a ser encarados como máquinas. Alguns conseguem se destacar na carreira por essas características, mas muitos tão pouco se importam com isso.

Já no caso da normalização, a pessoa torna-se “um sujeito normal”. Ela passa a apresentar o mesmo padrão de comportamento e sentimento retratado nas novelas. Ela é totalmente reabsorvida pelo sistema. Volta a ter gosto pelo consumismo sem nem se importar com as condições de produção. Ela só leva em consideração o que é mostrado na televisão. E quando algum programa mostra uma situação de opressão ela encara com a mesma superficialidade com que a matéria é exibida. Logo se interessando pelos produtos mostrados pela propaganda. Muitos pacientes, inclusive, movidos pelo consumismo, e ânsia de status passam a reproduzir os quadros de opressão e injustiça que antes lhe afetavam tanto!

Eu considero esse método o de maior sucesso. É o que apresenta menor caso de regressão, eu não consigo entender como é o que tem pior adoção. Acho que é porque os pacientes sentem tanto asco pela sociedade atual que no fundo não querem fazer parte dela, mas é como eu digo, você muda sua concepção. Aí consiste o maior sucesso, ele atua na causa!

Que método o senhor se afinou mais, e quer eu explique melhor? 


quarta-feira, 22 de maio de 2013

Sustentabilidade ambiental não existe sem justiça social

Venho pensando no meu blog, e como deve ser difícil para alguém segui-lo. Ora trato de questões ambientais, ora sociais, ora pessoais num vagar sem fim buscando sentido nisso tudo. Pensei em criar 7 blogs, um para cada coisa. Mas, como separar assuntos naturalmente integrados? Existe algum ambientalista que se preze negando que política e economia são fatores chaves que culminaram na atual crise ambiental? Não há como destrinchar a realidade e analisar os fatos pautado unicamente sob ponto de vista que nos interessa e do qual temos algum conhecimento, para assim podermos falar com propriedade e segurança.
Essa mania positivista (ou seria cartesiana) de separar para estudar ajudou, mas não se justifica mais. Hoje temos acesso a informação, e o melhor, informação compreensível e de qualidade. O que torna inaceitável o fato de alguém se alienar em seu estudo sem tempo de integra-lo à uma realidade mais complexa.
Notarmos que a extração de recursos está chegando (ou em alguns casos já passou) do seu limite nos faz questionar o que proporcionou isso. Porque cientistas da pesca alegam o eminente colapso de diversos estoques? Como e porque chegamos nesse ponto? Não tem sentido se focar apenas no estoque, o quanto reproduz, o papel trófico, qual a biomassa disponível para o outro nível... Essas informações são importantes, mas devem estar integradas com a política, que historicamente vinha fornecendo subsídios para aumentar a produção. E normalmente, desprendida da questão social, favorece a pesca industrial concentradora de renda, mas que deixa bonito o número referente a exportação. Para complicar ainda mais, as ONGs ambientalistas gritam "salvem as baleias".
Estudar a questão ambiental desprendida da social pode trazer graves consequências. Acho que esse ponto, que vivemos agora é de extrema importância para ditar o futuro da humanidade. Pelo pouco que li na matéria de educação ambiental podemos dividir o movimento ambientalista em diversas linhas, mas para mim parece ser possível distingui-lo em duas. Uma que visa solucionar problemas pontuais. Como produzir de maneira mais limpa, consumindo menos matéria-prima, menos energia, gerando menos resíduo e poluição, basicamente fornecer meios para manter eternamente o status quo. Outra linha que transcende a questão produtiva e questiona mais profundamente o sentido de manter esse sistema. Manter o sistema do jeito que está significa manter empregos, com salários distintos e desemprego e concentração de renda, e infelicidade e miséria, e consumo. Ainda, que esse consumo seja de um produto utópico que não gere poluição ambiental, ele gera desigualdade, injustiça, infelicidade, violência, degradação e exploração humana,  e não é isso que eu quero.
Essa divisão simplista de como vemos o mundo sempre existiu, desde que aprendemos a estocar. Mas, foi depois de um mergulho nas questões ambientais que comecei a apreciar a real importância da justiça social. Claro, que talvez, de maneira inata eu já convivesse com essa necessidade. Mas, depois da ditadura fomos convidados a viver uma vida superficial, tivemos a oportunidade de ignorar total e completamente as questões sociais para simplesmente nos preocuparmos com nosso sucesso pessoal. Eu tive o azar de não me importar muito com meu sucesso pessoal. Na verdade descobri que meu sucesso pessoal depende de uma sociedade justa e equilibrada, quisesse me tornar CEO de uma megacorporação, talvez pudesse ser mais fácil. Acho mesmo que o "asco" que passamos a alimentar por conversas sociais, política e o incentivo ao desenvolvimento de um ser individualista ao extremo e puramente materialista é herança da ditadura.
Estamos, enquanto juventude, nesse ponto. Analisando do meu ponto de vista, muito limitado. Não temos oportunidade de compreender o mundo, o sistema econômico, político, social. Pois nos perdemos em assuntos vagos e fúteis. Enquanto vamos friamente analisando o melhor modo de nos darmos bem, estudamos discretamente a roupa que a "vencedora" usa e a qual deveremos copiar (os frios). Outros vão meio perdido, sem apoiar nem se inserir no sistema, vão levando, com desinteresse apático tanto as questões que exigem maior profundidade quanto as estratégias necessárias para "vencer" (os mornos). Outros ainda, reconhecem que não se encaixam no perfil dos vencedores e com o tempo descobrem que não querem se encaixar, e passam a estudar "isso", estudar o sistema impulsionados por um forte sentimento de que algo não está bem, normalmente dedicam tanta energia nesse estudo que acabam "perdendo" o caminho necessário para conseguir um bom emprego (os quentes). São minoria, vistos como esquisitos pelos primeiros e se sentem esquisitos mesmo numa rodinha formada por "frios", não sabem o que dizer quando o assunto é a vida pessoal de uma outra pessoa que nem se quer está na roda. Ou seja, quase nunca sabem o que dizer, alguns não se assumem e buscam auxílio psiquiátrico. E atualmente quando se encontram com outros que compartilham de seus interesses deve haver cuidado mútuo, para não se revoltarem nem se deprimirem exacerbadamente. E uma vez que ainda não sabemos muito bem como nos organizarmos, acho que não sabemos nem conversar, o encontro não gera muitos frutos, além daquela esperançazinha de saber que não somos assim, tão esquisitos. Acho que esse grupo cresce silenciosamente, e ensaia algumas organizações como os Anonymous. Vamos ver no que vai dar.
O fato é que pensar que "é assim mesmo" e "nunca vai mudar", para tentar calar um incomodo profundo que comumente se manifesta como culpa "infundada" não ajuda muito. Também não ajuda nutrir raiva, seja por quem se aproveita do statuos quo, seja por quem não se envolve, pois essa raiva faz com que se perca o foco do que realmente importa: harmonia e respeito entre todas as relações humanas, consigo mesmo, com outros humanos, com outros serves vivos, com o meio ambiente, nas instituições etc.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Sempre há o que aprimorar

Não somos seres estáticos perfeitos e bem acabados. Isso eu já reparei desde muito tempo. Somos seres dinâmicos com infinitas oportunidades de aprendizado e aprimoramento. Esse reconhecimento significa humildade. Não é ouvir o outro por respeito, pena ou educação. É porque essa é a melhor oportunidade para aprender e aprimorar. Esse "aprender" a que me refiro já inserido num novo paradigma de aprendizagem. Não é aprender de modo a ouvir, decorar e aceitar as opiniões alheias, mas aprender no sentido de refletir, questionar, adicionar sua bagagem cultural e aprimorar seus conceitos existentes. Isso é não é aprender o que está sendo dito (ser informado), mas aprender com o que está sendo vivido (ser transformado).

Mais que conceitos, hábitos também podem e devem mudar, todos os dias deve haver alguma mudança no seu ser uma transformação, para que aquele dia tenha valido a pena, tenha feito a diferença, para que não seja mais um dia perdido no meio de tantos outros. Lendo nos transformamos, assistindo filmes nos transformamos, pensando nos transformamos, mas aquelas transformações que vem através de uma interferência alheia e ao vivo são mais gratificantes.

Com algumas pessoas sentimos uma afinidade especial que transcende o nível de relação humana corriqueira. E nem sempre essa afinidade advém da semelhança no pensar e agir. Minha semelhança com minha mãe é gritante, não nos importamos com roupas e aparência física de absolutamente nada, temos uma aversão a notícias trágicas, paladar pouco exigente, necessidade de engajamento espiritual, dirigimos mal, dormimos em barraca, ao relento se necessário e por ai afora. Mas é com minha sogra que minha afinidade supera os limites da razão. Ela que ama comprar roupas, faz as unhas toda semana, precisa de restaurantes caros e só dorme em lençol cheiroso e passado, entre outras particularidades. É com ela que sinto vontade, necessidade e alegria em falar. Nessa relação desde o início dotada de respeito, aprendemos a nos admirar mutuamente. não diria "apesar" das diferenças, aprendemos a nos admirar e com isso reparar nas diferenças, não com tentativa de repreensão, mas como uma fonte de inspiração e reflexão.

Nas primeiras visitas dela, eu perdia o sono pensando na quantidade de água usada... Era praticamente uma máquina de lavar por dia, comumente dois banhos no mesmo dia! E a água do planeta "acabando". Questões ambientais me tocam profundamente, mas se tem alguma coisa da qual eu realmente fujo é "conflito social". Não havia meios de chegar em casa, cansada, ver minha melhor amiga servindo um jantar fabuloso, a casa incrivelmente limpa e cheirosa e ainda passar um sermão sobre o estado da água no planeta e a necessidade de regular seu consumo. Ainda mais em uma cidade debruçada sobre a água, ainda mais sabendo que indústrias usam e poluem uma quantidade realmente gritante de água. E que se eu realmente quiser fazer algo em prol da preservação da quantidade e qualidade da água a atitude mais ineficiente seria brigar com a pessoa que eu mais amo. Aliás, não acredito que exista qualquer razão plausível para se brigar com a pessoa que se ama... Qualquer campanha ambiental deveria se ater nesse ponto, não crie conflitos crie exemplos!

Acho que é assim que funciona uma relação saudável, através de um aprendizado mútuo. Algumas coisas nos passarão desapercebidas por muitos anos, outras veremos e teremos planos de mudar em nós mesmos, outras serão mais rápidas, mas tudo vindo por meio de uma pressão interna.
Esses dias enquanto conversávamos no viva-voz ela disse muito feliz, orgulhosa e satisfeita "vocês vão ficar orgulhosos de mim! Peguei a bicicleta de casa e andei por uma hora!" Uau, minha alegria de fato não cabia em mim! Essa é uma transformação muito grande, que alegria inspirar alguém de 60 anos, em São Paulo, a sair para pedalar. Precisava retribuir essa satisfação "e você não vai acreditar, passamos pano em toda casa, está um brinco!"

Acredito que esse seja o real objetivo da interação humana, essa troca de inspiração e valores positivos que venham a nos aprimorar. Acho que é isso que significa humildade, começar uma conversa receptivo envolto em uma atmosfera sincera de "o que eu posso aprender com essa pessoa". Não é ficar frustrado quando você disse algo que tinha certeza e o teimosinho não acreditou, é reparar que essa atitude de "não acreditar" gera um desconforto e tentar não reproduzi-la em outro momento.

"Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante..."

domingo, 29 de agosto de 2010

O Filósofo e o Lobo.


Acontece que eu aluguei "Romulus, meu pai", e gostei do filme, que dizia ser o personagem um escritor de verdade, o qual escreveu um livro com o mesmo nome do filme (que quero muito ler) e um chamado "O cão do filósofo". Opa, amo cães e adoro filosofia, fui atrás do livro, mas, só havia sido traduzido para o português de portugal, ele não cruzou o atlântico. Como isso foi no meu aniversário, o Thiago falou pra Márcia, que apaixonada por livros como eu, foi em busca do presente perfeito. No meio do caminho houve uma pequena confusão e ela acabou adquirindo "O Filósofo e o Lobo"!
Eu adorei o livro, filosofia simples, e animais amados! Mas, o que quero comentar é uma passagem em que, comparando o homem ao lobo, o autor afirma que o lobo consegue viver o próprio momento, como se o tempo pra ele fosse circular, e cada momento pudesse ser único, ao passo, que pra nós, qualquer momento traz uma carga de recordações e expectativas, saindo do presente e se diluindo no tempo, como uma reta.
Ele diz que é impossível pro ser humano viver em um momento 100%. Eu concordo que muitas vezes nossa cabeça foge mais do presente do que deveria.
Mas, quando eu saio de casa uma hora mais cedo pra aula de aquacultura, só pra poder passar um tempo olhando pro mar, é porque eu só posso ter essa sensação estando lá, por mais que eu tente me lembrar de como é olhar pro mar, estar lá é diferente, isso faz daquele momento único, porque eu não posso leva-lo na mochila e tira-lo quando bem entender. É perfeitamente possível ficar só olhando, sentindo o mar. Sem experiências passadas, pois elas não cabem na minha mochila, e sem expectativas, pois de frente àquela imensidão eu não sei se terei o privilegio de vê-lo e senti-lo novamente, e na verdade, não me importa, o que importa é o que eu sinto, não é exatamente alegria, paz, tranquilidade, é... não acho uma palavra, é a integração que eu sinto, como se eu, mar, areia, aquele momento e tudo o mais fôssemos um só.

domingo, 13 de junho de 2010

Um sentido a mais para a vida


“O sentido da vida com freqüência é tema de questionamento.




Nesses momentos, a tendência é buscar uma resposta, uma compreensão, e as fontes são diversas: os mais sábios, os livros, passar por experiências, entre outras.
O biólogo Richard Dawkins, em uma entrevista, foi questionado sobre o sentido da vida, já que “sendo um cientista não acreditaria em outra vida”. A resposta foi que “do ponto de vista cientifico o propósito da vida é a propagação do DNA, entretanto, do ponto de vista individual, cada pessoa tem seu próprio propósito e vive, em maior ou menor escala, de acordo com este propósito, que pode ser o de escrever um grande livro, de compor uma sinfonia, de ganhar uma partida de futebol, de criar os filhos com saúde e felicidade. É bom as pessoas criarem seus projetos, pois essa é a única vida que temos, e acreditar nisso é a chance que temos de aprimorar nossa visão de mundo, podendo valorizar, levar a sério e aproveitar plenamente o imenso privilégio de estar vivo”.

Para a maioria dos homens uma maneira de fazer seu nome viver após a morte tem sido através
dos filhos, e por isso ter filhos e criá-los sempre foi um projeto importante de vida, e um alvo e uma fonte de afeto, e também de apoio para conviver com as incertezas da vida e a certeza da morte. Segundo Freud os filhos “concretizarão os sonhos dourados que os pais jamais realizaram”.

Nos últimos anos o narcisismo tem encontrado outras formas de se nutrir, na medida que os pais se frustram, porque os filhos são cada vez menos o que eles queriam que fossem, e também porque as famílias estão mudando.

Então, o que ocorre?

Em muitos lares os filhos estão sendo substituídos por cães.

Um fenômeno atual: as pesquisas de comportamento revelam que os cães são vistos com filhos ou irmãos nos lares em que vivem, ou seja, os cachorros estão se tornando cada vez mais uma fonte de apoio para os humanos e, ao mesmo tempo, um elo que permite ao homem moderno manter uma conexão mínima com a natureza, com a vida.
Eles passaram a ocupar um espaço importante entre as pessoas que vivem sozinhas, bem como entre as famílias encolhidas ou que demoram a ter filhos. E a ciência diz que isso faz todo sentido, porque eles despertam quase tanto amor e carinho quanto um bebê, substituindo o amor incondicional dos pais pelos filhos.
Freud, em sua entrevista sobre o valor da vida, comenta que “prefere a companhia dos animais à companhia humana, pois são muito mais agradáveis as emoções simples e diretas de um cão ao balançar a calda ou ao latir expressando seu desprazer”.

O cão, tal como se encontra hoje, é uma criatura que o homem inventou , aperfeiçoou e moldou a sua imagem e semelhança. O narcisismo humano está fazendo isso com os cães, tornando-os cada vez mais “perfeitos”, assim como a religião criou um homem à imagem e semelhança de Deus, ou um Deus à imagem e semelhança do homem.



Os cães estão ajudando muitas pessoas, e assim continuará a ser, sempre surgirão novas motivações a serem adicionadas às já existentes para que as pessoas encontrem um sentido a mais à suas vidas.”

Texto adaptado a partir do artigo de mesmo nome da postagem, publicado no Jornal da Brasileira, nº 2 (Órgão de Divulgação da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Porto Alegre)
Autoria de Sílvia Katz.