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sábado, 27 de outubro de 2018

O perigo da Sororidade

Ouviram minha história. Num sábado, sem muita pretensão fui a um encontro com mulheres. A proposta linda foi sugerida por uma mulher forte e sensível, que eu muito admiro, a Tata. Criou uma chamada no face, no grupo de whatsapp "Mulher, quero ouvir tua história", um encontro de cuidado no qual uma mulher recebe cuidado das outras, enquanto fala sua história.

Reconhecendo a extrema carência social desses momentos de cuidado a proposta me cativou. E como ninguém se prontificava a começar eu aceitei. Claro que eu branquinha de classe média, toda privilegiada, com as contas em dia, em um relacionamento estável não preciso de cuidado, imagina!! Rá! Mas tão boa pessoa que sou, queria mesmo era servir, e do alto da minha "bem resolvidisse" percebi que os encontros só rolariam se alguém começasse, eu não gosto de falar e amo ouvir, o que aumenta o altruísmo do meu gesto! Não faria por mim, faria pelas outras!!!

Cheguei num espaço arrumado, com comidinhas saudáveis (do jeito que havia dito que gostava), chá quente, e haviam mulheres e crianças. Conversamos a toa, até que fomos conduzidas ao propósito: me escutar. 

Por alguma estranha razão sempre achei que pensar em mim fosse algo muito feio a se fazer, como se me tornasse uma pessoa má e egoísta! Fui por anos me arrastando pela vida, me ignorando. Recebendo um feedback bastante positivo, ninguém a minha volta parecia mostrar qualquer interesse pelos meus sentimentos. Por isso foi bastante estranho reconhecer que sim, aquelas mulheres realmente estavam dispostas e interessadas em "desperdiçar" seu tempo me ouvindo, não pra me julgar e espalhar fofocas por aí, mas por sororidade. Achei que pudesse falar cinco minutos, onde nasci, onde morei e o que estudei e pronto, estaria livre para ouvir as amenidades. Mas não foi assim, não escapei do mergulho profundo, com muito talento a Tatá colocou uns papeis na mesa e faria uma linha do tempo da minha vida. Conforme eu falava ela desenhava. E haviam perguntas. Foi muito, muito, muito inusitado ser vista, por outras e por mim mesma.

A narrativa foi truncada, travada, difícil. Eu achei que depois das seções de terapia eu conseguiria falar fluentemente sobre minha história. Mas não! Eu me esquecia, quando resgatava um momento vinham sentimentos que eu nem sabia que tinha sentido, a frieza e a racionalidade com que eu via a minha vida ficaram inibidas. "O que vc gosta de fazer? Que música vc gosta? Qual sua comida favorita?" Eu, constrangida, respondia qualquer coisa, mas o que eu pensava era "não tenho a menor ideia", como se eu não existisse. Eu senti pena de mim, a compaixão que eu me esforçava para sentir pelas outras apareceu! Empatizei comigo mesma. Vazia. Uma pessoa vazia (emocionalmente) com um porão cheio. Cade aquela "bem resolvidisse" que minhas autoanalises me indicavam?   Foi muito inquietante reconhecer que a mulher "bem resolvida", boa samarita, movida unicamente por altruísmo era uma distorcida projeção. Com um discurso de empoderamento e liberdade, eu me anulava, me submetia, ignorando minhas opiniões e sentimentos. Uma criança ferida precisando de cuidado, frágil e vulnerável. Que imagem...

Percebi que as mulheres foram contagiadas pela grave introspecção com que eu me acostumei a viver. Mesmo depois de encerrada a confusa narrativa, não se retomou a conversa fácil e fluida de antes. Acho que alguma coisa acontecia na minha alma, fusionada às almas presentes e ausentes. Tudo é um processo, mas em alguns momentos o processo se desenvolve de modo mais rápido e intenso. O encontro durou muito mais tempo do que havíamos planejado, alguma coisa nos mantinha naquela conexão, uma coisa muito misteriosa que eu não estou certa de como nomear, cura, talvez...

Depois de anos sem conseguir cantar, naquela noite eu dancei no banheiro, sozinha e pelada, cantando no chuveiro, rebolando de um lado pro outro, sentindo prazer e alegria em ser. Eu tenho certeza que aquele momento me fortaleceu, me motivou a existir! A assumir o papel central da minha história, a roteirista/protagonista. Viver o discurso do empoderamento. O discurso é fácil e lindo, todo mundo aplaude! Mas sua materialização não é tão simples, é bastante caótica e complexa. E nós não fomos educadas na complexidade do caos, nossa sociedade não acolhe o caos. O caminho para a felicidade verdadeira passa por rupturas que podem nos levar a uma confusão tão forte que sem suporte beira a loucura. E isso que chamo de suporte não tem receita, não é algo estruturado, certo e seguro. É essa magia de encontros como esse, de amizades acolhedoras.

A sororidade é de uma potencia revolucionária, avassaladora. Extremamente perigosa, ela é a força capaz de romper os padrões que nos afastam de nossa essência, da plenitude.

"O que você falaria pra Évellin adolescente?"
"Acredita, confia em você!"
"E pra Évellin de agora?"

Sorri e me senti motivada para finalmente fazer isso. 
Ouvir meu corpo e meus sentimentos.

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Numa aula dessas... feminismo

Sentadas em roda, a mediadora nos disse que existem várias definições de feminismo, e é algo até muito pessoal. Nos pediu para que disséssemos o que o feminismo representa para cada uma. Eu fico nervosa com essa história de falar em público, não expresso com a clareza que gostaria e é comum achar que falei algo meio besta. Tentei bolar rapidamente um discurso coerente, rápido, que me livrasse logo do desconforto e me garantisse alguma eloquência. A palavra foi rolando. E todas as coisas que eu havia pensado foram sendo ditas: liberdade, empoderamento, autoconhecimento, luta, sobrevivência, emancipação. A cada fala eu me conectava ainda mais comigo mesma, pensando minha história, minha vida, minhas escolhas, meus sentimentos.

Simone de Beavouir me alertou da crença implícita, não dita, mas profundamente arraigada que trazia em mim, a crença na superioridade masculina. Essa crença pesada, que me foi sorrateiramente inculcada nas pequenas falas, nos discursos, no desenho social,  me subjugou pesadamente por muitos anos. Eu realmente acreditava que os homens sempre tinham razão, eu me calava para ouvir e prontamente deixava de pensar para atender e servir ao pensamento do outro, sem questionar, sem duvidar. Assim que um homem falava minha mente anuviava, os argumentos se desfaziam no ar, meus pensamentos e sentimentos pareciam bobos demais para serem ditos.

Os meus sentimentos são constantemente menosprezado pelos homens. A mim nunca foi ensinado, se quer oportunizado verbalizar meus sentimentos, por isso tenho muita dificuldade, apesar de reconhecer a importância. Quando com muita dificuldade e enorme esforço me exponho e digo, dou de cara com o muro da defensiva, agressivo e hostil. Preciso de muita força pra destruir esse muro e alcançar o acolhimento. Já ouvi "não, você não está sentindo isso". Em outros tempos ficaria confusa, afinal se ele está dizendo deve ter razão. Essa tendência de negar e oprimir os sentimentos para evitar o conflito, não ofender, como se a responsabilidade do sentimento alheio também fosse minha. Minha obrigação em ser dócil. Agora, com armadura e marreta eu me empodero dos meus próprios sentimento e dou-lhe marretadas, afim de romper o muro que nos distancia e alcançar empatia e conexão. Às vezes a mão me sangra e o muro me engole.

Tomei decisões pouco ortodoxas e bastante radicais em busca de liberdade, felicidade e plenitude. Entrei num mundo novo e desconhecido, a narrativa hegemônica perdeu o sentido e não há caminho traçado. Caoticamente tudo é possível, o caminho agora só se mostra no caminhar. Percebi em olhares conservadores julgamento, hostilidade, como se eu tivesse me tornado uma ofensa. Isso me assustou. É com olhar do outro que vamos construindo nossa visão de nós mesmas. Quem sou eu, agora?

Chegou minha vez de falar. Meu coração parecia querer sair do peito para pulsar no meio da roda, pintando tudo de vermelho. O sangue enchia minhas veias, eu irradiava calor. Mesmo assim, neguei a resposta pronta e fácil.

O feminismo pra mim representa o apoio que necessito para não sucumbir ao que está dado. Me auxilia a me manter firme, me guiar pelos meus sentimentos e ouvir o que pede meu corpo.

A roda se desfez e em grupo, lemos um texto do qual sacamos elementos importantes para pensar o feminismo, trago alguns que nosso grupo identificou:

- Relação de poder;
- A ciência é androcêntrica, heteronormativa, etnocêntrica e classista;
- Simultaneidade da opressão (sexo, raça, classe, cultura);
- A identidade não é estável, nem permanente (aqui sou branca paulistana, na europa sou latina, posso ser hetero hoje, me descobrir homo amanhã...);

A aula seguiu e fui observando o quanto que o modelo hegemônico, capitalista, patriarcal desvaloriza as atividades de cuidado e reprodução, priorizando a produção. Isso afeta como se dão as relações. Raça, sexo, classe social, grupo cultural, origem são elementos que nos ajudam a identificar as tendências de opressão.

Pressinto que nesse domingo não é só o rumo da política econômica que está em jogo. É também a pressão para sucumbir aos padrões hegemônicos, à superioridade masculina. Em uma narrativa reconheço o fortalecimento na desvalorização do cuidado, percebo o olhar que me oprime, uma valorização da coisa, da posse, os altos e robustos muros sendo erguidos com a força do ódio e da exclusão. Em outra percebo que o diálogo se destaca, e com isso o respeito aos sentimentos, ao feminino, à liberdade de ser e a felicidade terão mais voz. É da ordem da percepção, da intuição, dos sentimentos. O que sinto nas falas, na condução das campanhas, nas conversas com eleitores. E o que sinto tem tanta importância quanto os argumentos racionais.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Me recuso a sentir vergonha do meu corpo

Murmúrios.
Imagens de revista.
Olhares assustados.
Discriminação.
Silêncio.

Indícios de que eu deveria sentir vergonha do meu corpo.

Deixei de me depilar quando percebi que o poder de decisão sobre meu corpo pertence a mim.

E faço simplesmente porque não gosto da sensação de perda de tempo, não gosto da dor da água salgada cicatrizando os microcortes, não gosto de monitorar o crescimento de pelos, não quero usar meu dinheiro com isso e por outro lado não me incomodo com eles. Me parece tão simples, razoável e coerente.

Tem dias que acho até engraçado imaginar alguém falando do pelo de outra pessoa! Eu rio imaginando um sovaco como pauta de conversa maliciosa "nossa, vc viu a sovaca dela?" hihihihi "puxa, que cabeluda" hohoho "imagine lá como não é?!" hahahahohoho "o namorado isso e aquilo"... E talvez a conversa possa ir longe onde só a podridão humana pode alcançar....

Outros dias, não tão bons, eu fico com pena. Pena dos guardiões do padrão hegemônico de beleza. Pena de quem se deixa oprimir e reproduz a opressão. Pena de quem não se liberta para viver o próprio corpo. Pena de quem precisa se fantasiar de boneca para manter uma relação.

Mas, nem sempre o mar está pra peixe. E existem alguns dias. Alguns poucos dias, que eu vacilo. E sinto uma enorme pressão de ter vergonha. Vergonha do meu corpo. Do meu uso do meu poder de decisão, reflexão.
Porque eu sou assim?
Por alguns segundos penso que eu tenho o poder de decidir mudar, me depilar, alinhar os dentes, tratar as manchas da pele, adequar o cabelo e a roupa. Só que eu não sinto tesão nenhum de fazer isso. E poucos segundos depois o mundo já me mostra infinitas possibilidades mais prazerosas do que ficar raspando uma porra de uma lâmina fria por toda a minha perna.

E porque diabos eu deveria ter vergonha do meu corpo?
Para que serve um corpo?
Pra agradar a quem?

Eu sinto vergonha.

Sinto quando faço um comentário maldoso. Quando no escuro do quarto, cansada de trabalhar não respondo com aquele carinho e paciência à enésima solicitação manhosa do bebê. Sinto vergonha quando minha resposta sai mais ríspida e atravessada do que a ocasião pede. Sinto vergonha quando me omito para não me indispor. Sinto vergonha quando me pego me imaginando na vida do outro.

E acho que são vergonhas muito mais nobres.
E teria vergonha se jugasse e murmurasse sobre a aparência física de alguém.

Dessa vergonha eu não sofro mais ;)





quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Cento e vinte dias

A distância me fere
O seio cheio
Leite suor e lágrima

Você grita pela casa
o amor que quero dar

Nosso querer recíproco
Olhar, tocar, beijar, cheirar, mamar

Você busca, chama
Chama que arde minha alma

Quem é capaz de escutar
De ver a magia no nosso encontro
A distopia da separação

Uma só alma
Rachada, quebrada, partida

Que se recompõe a cada fim de tarde
Para se destroçar na manhã seguinte

Ilhabela, 23 de janeiro de 2017.

Meu bebê iria completar seus nove meses, e desde que ele tinha cinco e meio eu o abandonava diariamente à 7:30 da manhã. Ele aos berros, eu sustentando um sorriso falso. Ficava com o pai desempregado. E eu ia "bater o dedo" e cumprir horário num emprego em que eu me sentia constantemente subjugada. Me machuca saber que isso foi uma opção, é verdade que pagar o aluguel e as contas é uma demanda real, mas eu poderia abandonar o emprego e ir morar com meus pais. Mas eu optei por sofrer diariamente a violência de deixar o bebê sem a mãe todos os dias, muitas horas no dia.
As leituras sobre como bebês são fusionados com a mãe, a gestação externa, a importância de um ambiente tranquilo e amoroso, a formação do cérebro, a construção do vínculo, o efeito tóxico do estresse etc me deixam muito mais insegura e frustrada.
QUATRO MESES
Desde que o bebê nasceu, não antes disso, eu sofria com esse prazo. E não era a toa. Não consegui relaxar, o fim da licença maternidade foi um fantasma constante deixando meu puerpério ainda mais sombrio. E pode ter sido isso que o bebê manifestava em choros estridentes. É como aquele sentimento esquisito que acompanha um calafrio subindo pela nossa coluna, quando no silêncio do quarto, deitada na cama pensamos "eu vou morrer" e essa morte é tão real que nosso coração dispara para provar que ainda vive. "Vai acabar a licença" e o bebê não ergue o pescoço, não fica mais de uma hora sem me solicitar. Como vai ser pra ele esse sumiço brusco?
CENTO E VINTE DIAS
É o período que as instituições acreditam ser suficiente para um ser humano conseguir viver sem a mãe. Que a mãe depois de parir já consegue voltar à suas atribuições. Assim como se nada tivesse acontecido. Como se sua alma não tivesse em frangalhos, como se seu corpo físico não tivesse modificado, o seio vazando leite. Me senti bem insegura: será que nunca mais vou conseguir ler e escrever como fazia antes do parto? O raciocínio lógico, linear, lincar textos, notícias, fatos me escapava pelos dedos. Fiquei até um pouco feliz, só conseguia expressar sentimentos pela poesia, mas insegura, por não saber quem eu seria sem a habilidade ler textos complexos. Me surgiu a oportunidade de trabalhar com uma chefe que eu tenho muito mais afinidade. Uma pessoa humana, que valoriza o diálogo e olha no olho quando fala. Me lembro exatamente o dia que consegui ler um texto até o fim e compreendê-lo e falar sobre ele. 15 de março, o Gabriel tinha 10 meses e meio.
Hoje, nesse momento, estou num trabalho que gosto. O Gabriel fica na creche pela manhã, desde um ano, acho precoce. Ainda assim, quando minha amiga voltou pra Ilhabela, tentar reassumir seu emprego e no segundo dia estava absurdamente estressada eu apoiei sua exoneração. "Sempre quis um emprego público" ela me disse enquanto assinava o pedido. E tinha sentimentos muito contraditórios. Por um lado eu estava feliz por ela, e sentia até um pouco de inveja que poderia viver em plenitude a maternidade, por outro uma dúvida sombria me impedia de sorrir e aplaudir. Seria positivo abrir mão do trabalho? Ela que atuava com louvor na área que havia se formado, uma assistente social humana, empática, agora se queixa de estar desempregada e não contar com o próprio dinheiro pra comprar um grampo.
O Gabriel e o Joaquim e tantos e tantos outros bebês são privados de viver uma convivência harmoniosa e plena com suas mães tranquilas, seguras e satisfeitas.
Quatro, seis meses é um período ridiculamente curto quando se trata de puerpério, de convivência entre mãe e bebê. Por isso muitos países já adotaram licenças que ultrapassam um ano, e isso não acarretou uma influência negativa em suas economias. Porque não se trata disso.

A decisão política de manter um período ínfimo de licença maternidade é machismo.

Não é sobre o quanto o saber de uma mulher faz falta no desempenho de sua função.

Não é sobre o impacto econômico de pagar o período de afastamento.

É violenta, burra e prejudicial, social e economicamente.




domingo, 3 de janeiro de 2016

Calar e sorrir

Em sua boca devidamente (exaustivamente) bem cuidada um belo e doce sorriso. As poucas palavras que dizem são amorosas para concordar ou demonstrar interesse entusiasmado pelo que escuta. E tudo assim está em ordem. Não se ofende quando respostas ríspidas dão a entender a estupidez de sua pergunta, apenas sorri. E assim faz se a harmonia. A custa de suas palavras não ditas, de seus sentimentos sufocados no peito, de seus sentimentos anulados e reprimidos. À isso chamam-se paz, da qual a oprimida é proibida de participar.

Em uma sala com 7 mulheres e três homens, observei um tanto incomodada, como a palavra era pronunciada pelo sexo masculino em 90% do tempo. Ele discursava defendendo o feminismo, sem abrir espaço para manifestação feminina. A cada vez que uma de nós tentava pegar a palavra e participar da conversa, não havia escuta. Eu sentia minha boca sendo esmurrada diversas vezes, perdia os argumentos e as histórias e experiências que gostaria de narrar com o propósito de enriquecer a conversa e participar. Isso me deixava tão nervosa que as poucas coisas que consegui dizer sairam num tom histérico e agressivo, enxugado e resumido para poder ser concluído nos poucos segundos de atenção que eu receberia.

Raros são os espaços em que me sinto escutada. Enquanto por outro lado sou firmemente obrigada a escutar com atenção, interesse e respeito a todo o momento, todas as pessoas. Mesmo quando as ideias proferidas me ofendem. Calar e sorrir, em nome da harmonia. Se porventura me arrisco a manifestar alguma discordância logo me sinto reprimida, deliberadamente ou sutilmente. É difícil colocar isso na mesa, dizer: pare de me oprimir, se interesse pelo que tenho a dizer.  Os opressores num tem nenhum interesse em saber o significado da palavra opressão.

Em alguns períodos, talvez por influência da lua abro mão do silêncio, me empodero, passo a falar e expor minhas ideias começo a perceber que vou gerando um certo desconforto, vai se criando um clima tenso, como se minha presença provocasse uma imensa desordem, um caos vibracional interceptivo aos sentidos da matéria. Me sinto transportada à um cabo de guerra, um jogo de forças invisível, que só se ameniza quando retorno à posição que me é imposta: calar e sorrir e escutar. Ainda em 2016 não se espera de uma jovem que possa ter ideias interessantes, uma opinião que valha a pena ser ouvida, informação nova, nada, a não ser que o assunto seja dicas de beleza, moda e decoração. Espera-se apenas um rosto bonito, um sorriso agradável e ouvidos que escutem interessados e admirados nos assuntos importantes que fogem de seu raciocínio próprio.

No meu meio social o machismo não se mostra. Fica bem oculto. Não há espancamentos, e eu, enquanto mulher de união estável, sem perfil de hollywood não me sinto posta como objeto sexual, mas recebo diariamente inúmeros murros na boca, tão intensos que sou mesmo levada a crer que não tenho nada a dizer de tão desinteressante que sou, mal gosto que tenho e desinformada. Me parece mesmo que nesse tempo e no espaço em que vivo a atitude mais feminista e subversiva que existe é escutar com interesse uma moça. Algo que de tão raro só encontro entre moças do meu círculo social.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

A vida e as coisas.

Quanto menos assisto televisão menos capaz de assisti-la me torno. E isso seria um motivo de orgulho se conseguisse transpor os momentos sociais em que todos olham para TV. Não consigo. Então fico no meio das pessoas tentando me passar por torta frita. O bom do locus social que me encontro é que o sofá é confortável, a sala tem ar condicionado, a refeição é farta, o ruim é que parece que nada do que penso e sinto faz sentido. Muito embora cada vez me torno mais convicta da  minha coerência.

Por alguma razão a rede globo resolveu pregar acerca da depredação dos ônibus. Seria tudo bem se a matéria do fantástico não começasse com dois adolescentes assassinados por policiais durante um baile funk (possivelmente único momento de lazer de jovens da periferia). E então o repórter me diz em tom de horror "jovens queimaram um ônibus, porque acreditam que policiais tenham matado dois traficantes". Bem, que tenham sido assassinados por policiais, isso é uma suspeita, mas que eram traficantes não resta dúvida. O julgamento já foi feito, várias vezes embora nenhum juiz tenha participado. Foram julgados e condenados a pena de morte executada de imediato sem advogado de defesa, pelos policiais. E novamente julgados pelo repórter.

Mas, ao que parece esse não é o problema! O problema, e o drama todo reside no ônibus queimado. Sim, caros amigos, o ônibus. Essa é a vítima principal da ocorrência, o foco de nossa atenção e compaixão, o motivo de nossa revolta, nós membros da classe média.

Ainda estou um tanto incomodada com essa reportagem, e olha que faz semanas. Imaginem que entrevistaram uma funcionária da empresa de ônibus. E ela disse o valor do ônibus. Pois, uma informação séria tem que ter números. E eu não me lembro o valor porque estava pensando "Por que o senhor atirou em mim?". Imagens de horror de um ônibus vazio vagando pela noite eram exibidas, enquanto o motorista narrava o medo que sente de ser abordado. Outra voz disse que estava num ônibus que foi queimado "Eles mandaram a gente sair - desce, desce". Outro número foi exibido, que também não tenho certeza, mas acredito que era algo como: desde o início do ano 45 ônibus foram queimados. Nessa hora meu estomago embrulhou e calculei que seriam 90 assassinados nas periferias da cidade, 3 salas de aula inteiras. Se extrapolarmos o caso narrado para os demais.

Desses jovens nenhum tem nome. Nenhum tem mãe sendo entrevistada. Nenhum tem voz. Possivelmente não saberíamos de suas mortes, não haveria notícia se não fosse pelo pobre e querido ônibus queimado. A preocupação é com o patrimônio. O ônibus de 3 reais a passagem. A coisa que atropela a vida até no lúdico, na narrativa.

A colega do meu lado, confortavelmente deitada em seu sofá, fica assustada. "nossa, que absurdo, depois reclamam do preço da passagem". Meu coração bate forte, como falar sem gritar sacudindo-a pelos braços? "dois adolescentes foram assassinados" e vem a resposta 'eram traficantes' como se isso justificasse. Como se fosse legítimo assassinar todo e qualquer suspeito de tráfico que more na periferia. O coração continua batendo forte, meu inconformismo dificulta meu raciocínio, sinto o namorado me cutucar, de novo, cada vez mais forte. Devo me calar? Não posso, parece que seria trair a mim mesma, parece o mínimo que posso fazer por toda injustiça é me posicionar numa conversa informal. Na dúvida me permito um último e fugaz argumento, digo então rapidamente: "esse não é o papel da polícia". E então volto a posição torta frita, ignorando todo o resto, olhos parados fingindo ver tv, por dentro um turbilhão.

Estou condicionada, depois de 28 anos adestrada, a colocar o individual acima do coletivo. - Eu não mereço ser estuprada! E as outras? - Me incomoda sobremaneira o cutucão, esqueço dos jovens na periferia. Nas conversas individuais com o namorado sempre concordamos com o absurdo da injusta luta de classe, mas num momento como esse ele me cutuca, me oprime, me abandona, controla o que posso ou não dizer? Não confia que eu consigo conversar sem destruir vínculos familiares? Eu consigo? E de modo covarde, que dissesse "bem tenho uma opinião sobre isso, mas o mais adequado seria cada um guardar sua opinião para si", ai então também seria julgado.

Característico de mim mesma rumino, rumino, e rumino sobre isso. Controle. Não quero que ele me controle, mas isso não seria controla-lo? Proibi-lo de me cutucar: uma advertência agora, dá próxima é suspensão. Não. Só posso controlar a mim mesma, o que sinto e faço com o que me afeta. Não existe a menor possibilidade de controlar ao próximo, não quero isso, sou incapaz disso. Gostaria de não receber um discreto 'fica quieta' de quem gostaria de receber explicito apoio. Mas, a verdade é que acima de tudo não quero que ninguém me obedeça, que seja menos livre só para me satisfazer. Só cabe a mim decidir o que fazer com as próximas cutucadas. E decido que irei ignorar, não é bem um 'foda-se' é mais como um 'puxa, seja lá o que eu quiser dizer preciso moderar o tom para que ninguém se ofenda', e então seguir dizendo. Afinal, foi uma luta muito grande para que as mulheres tivessem voz, e me calar seria uma verdadeira traição.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

O Islã, a mesquita e a ignorância

Fica tudo muito confuso quando antes de conhecer somos bombardeados por conceitos prontos, supostamente embasados, amplamente aceitos e prontamente repetidos. Fica pior quando não há espaço para sentir, só para pensar presa na razão e na lógica.

O que é liberdade? Como manifesta-se o machismo?

Mulheres de burca e coberta por panos sempre me deram arrepios. Não é difícil imaginar porque, a primeira vez que tive contato com isso foi pela TV e elas sempre estavam associadas a opressão, sofrimento, violência. Me era mostrado como um costume medieval de sujeição, e narra-se longas histórias de apedrejamento, e costumes cruéis. O discurso defendido era de que as mulheres devem ser livres para se vestirem como quiserem.

Quando cruzava por uma nos bairros comerciais de São Paulo me sentia desconcertada. Precisariam elas de alguma ajuda? Mas elas não estavam de cabeça baixa caminhando atrás de um homem, como a TV narrava ser o costume. Elas pareciam decididas e confiantes, andando sozinhas pelas ruas, administrando lojas. E eu já não sabia como uma adolescente poderia ajuda-las. Já não sabia se devia continuar sentindo pena. Mas ainda insistia em associar tal vestimenta ao símbolo máximo da opressão machista. Nós ocidentais cristãs é que temos sorte de usufruirmos nossa liberdade nata.

Depois de experiências, leituras, conversas, observação, contato com grupos feministas, fui me convencendo que existe machismo, e muito, nas Américas. Vejo como a mulher é usada como objeto decorativo, como somos incentivadas (e cobradas) a sermos bonitas. Como a presença histórica de mulheres importantes é apagada, ignorada, subestimada, e as que restam são subjugadas a papéis secundários, cuja importância se resume ao papel de mãe do cara ou esposa do cara. E eu já não sei o quanto as mulheres exibem seus corpos por liberdade ou por coação. Afinal existe um único tipo de corpo a ser exibido, jovem e torneado, essa suposta liberdade morre na praia. E deveria essa liberdade, de se despir, ser imposta? Estaria lindo a lei francesa que proíbe o uso de burcas e do tal lenço? Seria essa lei uma busca pela liberdade das mulheres ou uma perseguição religiosa?

O que eu aprendi do Islã pela TV é que são sanguinários e pretendem matar todo mundo, em especial aos EUA, pois eles são totalmente contra a liberdade. Demorou muito para eu me dar conta desse espesso véu de ignorância que foi posto sobre mim. Sinto uma necessidade enorme de saber quem somos nós, o que significa nossa vida, se existe e o que é alma. A ciência não é capaz de suprir essa necessidade, busco então na religião, lendo, ouvindo, conversando, meditando e mantendo a mente aberta. Li dois livros, meio fantasiosos como romance que abordavam o Alcorão. Me encantei com "Seu Ibrahin e as Flores do Corão" e "Habibi".

Já nesse processo de amadurecimento, no qual um choque cultural não resultaria em atrito, foi que a conheci. Quando a vi envolta em panos não senti a aversão de outrora. Para minha surpresa uma enorme excitação percorreu todo meu corpo. Milhares de perguntas começaram a se formular na minha cabeça. O que ela pensa que é alma? Acredita em espírito? Porque usa esses panos? Acredita em Jesus? Achei indelicado começar uma entrevista desse modo. "Estamos atrapalhando seu jantar." E para minha sorte ela já entrou no tópico que eu queria. "É que estamos no mês do Ramadã, Fazemos jejum de quando o sol nasce até que se põe." Engatilhei diversas perguntas: o que é Ramadã?, existe uma dieta especial? e por fim, quando ela me disse que faziam 5 orações por dia, em todo o mundo no mesmo horário e no mesmo idioma, iniciando às 6 da manhã eu não pude me segurar. Foi uma vontade arrebatadora, eu precisava participar dessa oração. Pedi para me juntar, ela disse, pelo que consegui entender pois a comunicação não era de todo clara, que essa era uma oração mais íntima, mas às 19:45 havia uma oração na mesquita a qual eu poderia acompanha-la, se quisesse.

"Pai, qual a diferença entre árabe e muçulmano?" "Não sei." Passei pelo google para entender que muçulmano é quem segue o Islã, uma das religiões com mais fiéis no mundo e a que mais se expande, especialmente entre as mulheres! Vesti minha calça mais larga e às 19:30 estava na entrada o hotel esperando por ela.

Fomos caminhando, enquanto eu fazia muitas perguntas, tantas que nem conseguia entender as respostas, tinha receio de ofende-la. E porque usar o pano? Nas imagens católicas também tem. É para se preservar, como pureza? É. E os homens não usam? Vai da fé de cada um. Nesse momento passamos por um carro de onde descia um jovem bonito, envolto em lenços com um turbante. Achei que iriamos parar para cumprimenta-lo, afinal nas religiões em que andei era fácil confundir o rituais com um evento social. Mas qual, apertamos o passo e entramos por uma portinha estreita numa longa escadaria. Nas mesquitas grandes as entradas de homens e mulheres é separada. Preferi deixar para depois meus julgamentos, achei que seria desrespeitoso e me impediria de conhecer. Ela parecia apressada, você tira o sapato rápido e entra com ele na mão. Putz, estava calçando um tênis tipo botina trekking, difícil de descalçar. Fui tomada por uma espécie de desespero, não queria desrespeitar ninguém. Tive que me concentrar para não gargalhar, afinal parecia meio cômico um desespero para não ser vista por homens. Finalmente o tênis saiu, quase arrancando meu pé junto.

As mulheres ficavam juntas atrás de um pano, que as separava dos homens. Elas pareciam a vontade com isso. Só podem frequentar a mesquita no mês do Ramadã, exceto quando menstruada, nessa situação não devem rezar, e ficam devendo as rezas para outra ocasião. As orações eram em árabe. 5 sessões com intervalos. Eu poderia ficar a noite toda, mas minha anfitriã parecia demasiado insistente quando dizia que eu poderia ir, iria ficar cansativo para mim que não entendo. Achei que ela preferia que eu fosse. Gostaria de conversar mais.

Tenho muita vontade de conhecer mais que julgar. O Islã, em especial sua linha esotérica Sufi, parece ter muitos ensinamentos interessantes. Dizer que separar homens de mulheres, proibi-las de entrar no templo, é errado e machista sem conhecer as razões disso é ignorante e desrespeitoso com outras crenças. Somos sempre levados a julgar o Islã, e o pior, com base em casos estapafúrdios e cruéis. Como se não existisse pedofilia entre cristãos, como se não houvesse entre fiéis cristãos casos de intolerância, opressão, coação, violência. Oportunidade de conhecer o Islã são pouquíssimas. Eu ainda não sei o que penso disso tudo, quer dizer penso que cada um deve ser livre para ter a crença que quiser. Repetidas vezes encontro em literaturas espiritualistas diversas um alerta sobre o ego e sua manifestação primária, a vaidade. Assim me parece razoável que algum profeta tenha chegado a conclusão de que se cobrir toda é uma forma de não alimentar essa vaidade, ou raspar a cabeça e se vestir igual. Se isso é eficaz eu não sei, porque nunca tentei e não conheço intimamente quem tenha tentado.

O que eu não sei é até quando confiar na veracidade da existência de grupos muçulmanos fundamentalistas terroristas violentos contra a liberdade a democracia e os EUA, que atacam pelo simples fato de acreditarem que o mal reside na democracia, a qual os EUA tem o heroísmo de defender...

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Julguemos a opressão

A Lei Maria da Penha está aí, para defender as mulheres agredidas. Mas, as mulheres violentadas muitas vezes não denunciam. Qual seria o problema? Seria o medo da retaliação, a dependência econômica, emocional? Porque elas agem assim?

Soube num seminário, existe um certo conflito ideológico no feminismo. Deveríamos defender o direito a não se prostituir - considerando que essa decisão seja tomada como uma medida extrema, na qual as prostitutas preferiam estar atuando em outra área - ou deveríamos lutar pelo direito de se prostituir - levando em consideração que essa seja uma decisão consciente, e que essa é uma profissão tão digna quanto qualquer outra? Então nos perguntamos Porque as mulheres se prostituem?

Os estupros acontecem, e muitos consideram que andar desacompanhada seja a causa. Ou usar roupas "provocantes", beber na festa da turma. Enfim, várias atitudes das mulheres provocariam os estupros.

A mulher não deve engravidar se não quiser ter filhos. Caso ocorra uma gravidez acidental então temos calorosos debates pró e contra a decisão do aborto.

Ser ou não mãe também é uma pauta que dá ibope e gera longas discussões. Trabalhar fora ou não.

É sempre sobre nós! Nosso comportamento é pauta de debate. E sempre tem alguma revista, algum comentarista, todos tem uma opinião, um palpite de como deveria ser o comportamento feminino.

Uma mulher agredida, fisicamente, já está numa situação terrivelmente delicada, e é constantemente pressionada à denunciar e à não denunciar. Mas, será que existe pressão sobre o homem? Traçar o perfil dos que agridem e investir em campanhas de conscientização, em revistas, cartazes, televisão?

Afinal, porque se utiliza de serviços sexuais? Porque os homens procuram por isso? É uma atitude nobre, de elevada moral? Não seria o pagamento a compensação por um estupro? A compra do consentimento? A aceitação do consumo do corpo feminino como mercadoria?

Porque os homens estupram? Nesse ponto eu tenho uma sugestão. Deles é cobrado isso. Anúncios provocantes aumentam a libido masculina a todo instante. Estão sempre sendo excitados.

Ainda, toda criança abortada tem um pai. O homens abortam aos milhares, eles abortam muito mais, abortam crianças vivas.

Existem milhões de matérias voltadas ao público feminino, em site, revista, programa de televisão, sobre como fazer unha, como se depilar, limpar a pele, se maquiar, o que comer, quanto pesar, qual o cabelo adequado, como trepar, etc. Mas é muuuito raro ver um programa de televisão dando dicas de como fazer a barba, um programa doméstico apresentado por homem, onde se ensina a se comportar, o que dizer, o que pensar, o que vestir, como agradar a esposa, se deve ou não depilar o peito, isso simplesmente não é pauta. As dicas direcionadas à eles referem-se sobre como agir no emprego, isso em mídias muito específicas. As revistas voltadas ao público masculino trazem notícias, informações, mulheres nuas.

Dizer que é o que dá ibope eu acho muito controverso. Seria como garantir que as mulheres naturalmente se interessam por futilidades e precisam de um "manual de instrução" de como viver, enquanto que os homens são mais ávidos por informações "úteis" e já sabem como se comportar não precisando ninguém para lhes dizer. Bom, meu n-amostral é relativamente pequeno, mas eu diria que não existe essa relação, mesmo nesse cenário, em que somos constantemente e mais arduamente incentivadas a sermos fúteis, não posso dizer que as mulheres são mais superficiais. O que vejo é que elas sentem essa pressão. A impressão que tenho é que são elas as mais inseguras e deprimidas, e não penso que seja por uma natureza mais sensível. Aliás, eu nem acredito nessa distinção biológica de sensibilidade, basta ver os inúmeros poetas, autores, compositores masculinos sensíveis. Me desculpem, mas o carinho, amor, sensibilidade, altruísmo não é exclusividade nossa.

E reconheço nesse ponto o comportamento masculino vira pauta de julgamento. Existe um senso comum de que é necessário ser bruto, rude para não ser taxado de gay. Mesmo que isso seja demodé, e ninguém assuma publicamente essa posição, ainda permanece no ar essa sugestão. Acontece que um ser rude e insensível não encontra problemas em bater na esposa, estuprar, assediar e abusar dos serviços sexuais.


sábado, 8 de março de 2014

a passividade forjada que nunca existiu

8 de março, assim que me lembrei que esse é o “dia internacional da mulher” pensei que poderia utiliza-lo para escapar da louça. Mas, já era tarde, eu havia esfregado o chão, lavado roupa, capinado o canteiro e estava segurando um prato com as mãos cheias de sabão... E sinceramente, deixar de fazer isso não teria feito meu dia mais feliz, no meu caso eu não faço por obrigação, mesmo porque as tarefas domésticas por aqui se não são igualmente divididas, pendem mais para o sexo masculino, em nossa casa anarquista. Ademais não é essa a importância da data, não é para ganhar chocolates (com cacau colhido por mãos escravas) nem flores (plantadas aos montes, com tantos produtos químicos que mal são capazes de apodrecer), nem tão pouco para ter um dia de princesa (aliás não deveria o termo se associar mais a nobreza de caráter do que a vadiagem e exploração explícita de terceiros?).

Não, não, não, pensei comigo, esse dia é para lembrarmos que em média 15 mulheres são mortas, a cada dia, pelo simples fato de serem mulheres. Eu em relacionamento sério com um feminista nato e frequentando espaços relativamente civilizados (no bom sentido do termo), não corro risco de fazer parte dessa macabra estatística. Esse dia não é para mim. Foi o que meti na minha cabeça e segui meu dia, como todos os outros. Apenas curtindo algumas postagens feministas.
Mas eis que aos 45 do segundo tempo. Ouço os rapazes de casa comentando sobre o Game of Thrones, a respeito de uma parte que a mãe diz que "o que o rei fala vira a verdade e vira a história". Instantaneamente sou arrastada até a história de Wu Zetian.
Me diga, quantos nomes de rua femininos vc conhece? Quantos bustos femininos vemos expostos pelas praças? Nomes de cidade? Não que isso signifique lá muita coisa, ainda mais no Brasil que escolhem a dedo os nomes e rostos para serem homenageados, e os verdadeiros heróis são sistematicamente ignorados.  De todo modo, quantas filósofas vc leu, ou ouviu falar? Quantas cientistas? Deusas? Líderes políticos? Mestres iluminadas?  Revolucionárias simbólicas? Será que não houve? Será que só hoje as mulheres são capazes e tem permissão de ousarem e agirem, e contribuírem para o progresso moral, intelectual e social da humanidade? E espiritual? Não houveram personalidades femininas dignas de serem lembradas? Porque tanto se fala de Sócrates e tão pouco de Aspásia? Será que não houveram mulheres notáveis, ou será que foram sendo pouco a pouco removida dos livros de história? Tão pouco os que leram Rosa Luxemburgo, ou Ema Goldman!
Voltemos a nossa Wu. Citada no maravilhosos livro: Feminino Ativo, Feminino Solar. Wu é apresentada na história chinesa como um ser diabólico de tão sanguinário. Bem, de fato, muito sangue foi derramado sob suas ordens, passível de crítica, no entanto, não teria ela derramado mais sangue do que outros imperadores a ponto de justificar tal fama. Pq sua história e contada com esse enfoque?
De início partimos que mesmo hoje, com certa liberdade que gozam os historiadores, havemos de convir que a história contada é bastante parcial. Na China essa parcialidade é acentuada, e os escritores relatam o que lhes é ordenado dizer, ou então não dirão nada.
Wu cometeu uma primeira grande gafe ao nascer sem um salsichão pendurado entre suas pernas. Mesmo num tempo de alguma valorização do feminino, mulheres eram consideradas pessoas de polaridade yin, passivas e submissas, naturalmente, sem capacidade física ou moral de reinar. Confrontar essa “lei natural” determinista de modo prático a transformava, para muitos, em um monstro antinatural.
Segundo, e possivelmente mais importante. Wu traz reformas profundamente democráticas. Instaurou sistemas de concurso público para altos cargos do Estado, “projetou diversas medidas humanitárias, tais como diminuição dos impostos, para favorecer o desenvolvimento da agricultura e da indústria da seda; isentar de trabalhos forçados os habitantes de algumas zonas e, de modo geral, reduzi-los um pouco em toda parte; converter a atividade militar em educação moral; limitar os excessos de luxo; promover o taoísmo; revalorizar o papel de mãe e e o respeito que lhe é devido [...]” Conquistando assim o apoio incondicional do povo e o ódio da classe aristocrática.  A qual após sua morte se dedicou a destruir sua história para não haver risco de que semelhante ameaça voltasse a lhes acontecer.

Ainda hoje exercer o papel de liderança num corpo feminino é um desafio bastante grande: 
"Em uma experiência comum, feita em vários países, um grupo de pessoas é convidado a avaliar um discurso feito por um homem, enquanto outros avaliam o mesmo discurso feito por uma mulher. Geralmente, todos dão uma nota maior quando o discurso é feito por um homem.
A autopromoção é uma estratégia útil para os homens, mas quando as mulheres ressaltam suas próprias realizações, provocam antagonismos ou não despertam interesse. E as mulheres parecem ficar ainda mais ofendidas com a autopromoção feminina do que os homens. Isso cria um enorme desafio para mulheres porque, quando ela é uma pessoa modesta, é considerada medíocre. Se ela procura promover suas realizações, porém, é taxada de presunçosa. Para o azar das mulheres, a liderança feminina pode ser reconhecida pela competência ou pela simpatia, mas não por ambas." (Link)

Feminino Ativo
Voltemos à China, ainda hoje podemos encontrar em Sichuan o povo Moso. Embora sua cultura esteja cada vez mais deturpada pelo acesso constante de turistas, essa sociedade se construiu num viés matriarcal. Eles não reconhecem o casamento, aliás, reconhecem como um aprisionamento do amor, que segundo sua concepção deve ser livre, “os sentimentos só conseguem desabrochar em liberdade”. Assim, as mulheres encontram seus namorados a noite como, quando e por quanto tempo querem. Quando engravidam, cuidam de seus filhos com sua família, na casa da mãe com seus irmãos. Não há a figura paterna, no máximo um tio. A casa é posse da mãe, que passa a uma filha mulher. Pode soar um pouco injusto com o sexo masculino, e talvez seja mesmo, mas eles não são objeto de maus-tratos. O fato de os homens não terem direito a propriedade, nem da esposa, nem da casa, nem dos filhos, é visto por eles como fator crucial para manutenção da harmonia:

“com elas, não há conflitos, tudo é mais tranquilo [...] o elemento masculino é causador de problemas quando possui algo sujeito a rivalidade [...] os homens [mosos] não possuem nada [portanto] eles não tem nenhum motivo para brigar.”
Esse livro traz diversos exemplos de mulheres e sociedades que nos convencem de uma vez por todas que essa história de feminino estar relacionado a passividade e submissão é uma grandiosíssima mentira. Períodos em que o feminino era respeitado e valorizado apresentam verdadeiros momentos de progresso e avanços tecnológicos e morais. O mais interessante é analisar como esse conceito (feminino = passivo, submisso, inútil, servil) é construído de modo maquiavélico, ninguém nunca me disse, não que eu me lembre, claramente “cala boca que vc é mulher e só fala asneira”. Hum, lembrando melhor talvez meu irmão tenha me dito algumas vezes, mas era “zoeira”, assim como, tenho me lembrado, algumas piadas e correntes de e-mail. Mas o fato alarmante é que essas infelizes piadas foram endossadas pelas aulas de história, matemática e física, ao sempre endeusarem cérebros masculinos (brancos de origem europeia, diga-se de passagem, classe alta, provavelmente uma vez que educação é seletiva), idem na religião “pai, filho, espírito santo” (em muitas crenças silenciadas essa trindade é feminina, ou composta por casal e filhx, mesmo pq se Deus está associado à criação quem está mais próximo desse dom, o feminino ou o masculino?) ou Kardec, Buda, Islamismo... Eu, de um modo ou outro, sempre soube que mulheres são seres inferiores, eu tentava achar algo que me provasse o contrário, mas na realidade eu sabia que éramos. Tempos difíceis esses...
Agora eu sei que não somos inferiores. Esse livro está sendo uma luz muito importante nessa consolidação desse meu novo saber. Eu sempre encarei a menstruação como um castigo, como algo realmente degradante, vergonhoso, monstruoso, uma moléstia. Mas sabe, ter essa ligação tão forte com um belo astro redondo e majestoso, é uma linda relação com a natureza. A capacidade de dar a luz, gerar vida é muito mais ativo do que a passividade de ser um receptáculo ao líquido da vida masculino, conceito inculcado a muito que ainda hoje tem repercussão quando não cabe a mãe decidir que tipo de parto ela escolhe ou se quer parir.
Não minhas amigas. Não somos passivas, e não devemos, em hipótese alguma, nenhum tipo de submissão, isso é contrário a nossa natureza, e só há de trazer dor, sofrimento e infelicidade. Obviamente, não é a autoridade e tirania, por outro lado que nos darão a paz de espirito oriunda da felicidade. Mas, o respeito mútuo às liberdades e escolhas.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

A ditadura GAY

O problema da homofobia, assim como o machismo, é que pessoas são diariamente agredidas de diversas formas, física e psicologicamente. Então, o assunto é sério e a luta justificada. Partindo desse ponto medidas são tomadas no sentido de buscar quebrar esse preconceito que gera repreensão/violência (no budismo mesmo o olhar pode ser violento). Com exemplo a cartilha divulgada em escolas alemãs.
Fonte: Folha Social
Só que a coisa não é tão fácil. Já reparei isso, há resistência em abrir mão de preconceitos, eu não entendo muito bem como funciona isso, mas é algo que me surpreende. Descobri essa característica quando o presidente da instituição religiosa que eu frequentava me encaminhava e-mails machistas, eu ingenuamente elaborei um e-mail para alertá-lo (ao fim da postagem), dizendo que mulheres sofrem por conceitos como aquele estarem sendo disseminados, ao que obtive a resposta

"no humor não há cultivo a qualquer tipo de discriminação...o principal preconceito é aquele que está arraigado em nosso intimo...doravante evitar de enviar-e mensagens de teor de comédia. Continuarei para sempre te amando e repeitando"

Senti não haver espaço para reflexões. O mesmo ocorre com muitos homofóbicos, que interpretaram a cartilha como uma tentativa de incitar a homossexualidade infantil. Isso reflete algo que, apesar de totalmente ridículo e sem nexo, tem sido constantemente chamado de "ditadura gay".


Pode soar surreal, mas muitos reclamam de se sentirem "obrigados a gostar". Para mim parece muito óbvio que não há a intenção de catequizar ninguém à homossexualidade, assim como no feminismo não há a intenção de domínio feminino. A ideia é clara e indeturpável igualdade no respeito, nos direitos, no tratamento.

É muita forçação de barra dizer que se a homossexualidade for respeitada todos viram gay e acaba a espécie (o que já li escrito no face, refletindo a posição, discurso e temor de muita gente). Pensar em todos os indivíduos homossexuais, apesar de muito divertido, é tão surreal quanto pensar em todos hetero. E afinal, caso isso venha a ocorrer, já existe inseminação artificial! Esse receio é totalmente infundamentado.

Outros deixam a entender que o sexo deve ser destinado unica e exclusivamente para a procriação. Fico me perguntando o que eles pensam de tantos heterossexuais fazendo sexo sem esse fim, mesmo depois de casado. Aliás, se a instituição religiosa aceita casar casais hetero partindo do pressuposto que só farão sexo para reprodução, poderiam casar casais homo, partindo do pressuposto de que não farão sexo.

Uma visão um tanto conservadora, como a da cartilha. Mas, existem gays que de fato não estão para "zueira", e querem levar uma vida estável ao lado de quem amam. Assim como existem heteros que não estão interessados em constituir família, e são mais interessados em fazer sexo sempre que pensarem nisso, ou mesmo sem pensar, rs.

Mas, homossexualidade não é natural, muitos dizem. Será que não? Qual seria a definição do termo natural? Tomar refrigerante é "natural"? Pois bem, tem sido registrado e documentado diversos casos de relacionamento homo e bissexuais no reino animal, pode dar uma lida aqui ou aqui (apesar de ser wikipedia tem referências).

E então, qual é a desculpa para manter seu preconceito? Respeitar um homossexual não te torna homossexual, te torna apenas um humano mais decente.

Ps.: e-mail que citei:

"Assunto: Re: Porque surgiu a expressão "só podia ser mulher,"]

Caro amigo.
Peço antes de tudo que se ponha receptivo às minhas palavras.
Isso porque eu nasci, nesta encarnação num corpo feminino. Estamos em uma
época e sociedade que permite analisar a relação sexista existente.
Imagino que o propósito do e-mail seja divertir, por meio de uma piada. No
entanto, convém lembrar que a opressão se manifesta por meio de piadas.
Acredito que já tenhas ouvido pessoas dizerem que vivemos em uma sociedade
machista. E é sim, muito machista, não só por causa de piadas, mas pelo modo
de nos portarmos.
No vídeo todas as "cagadas" da mulher são perdoadas por sua beleza, pelo seu
corpo. Esse é um ponto de nossa sociedade machista que vê no corpo feminino
objeto de prazer ao homem, e é para isso que tem que servir. Esse pensamento
distribuído de modo sutil por meio de piadas, propagandas e revistas causa
muito sofrimento, entre diversas mulheres que não se encaixam nesse padrão.
Certamente, não deveriam se incomodar tanto por sua aparência material, como
nós espíritas sabemos que isso é um detalhe tão pequeno da qualidade humana,
mas viver na sociedade sem esse esclarecimento pode ser difícil.
O machismo vai além causando diversos outros incômodos. Sabia que a questão
do estupro é basicamente aceita pela nossa sociedade, e muitas vítimas são
levadas a se sentirem culpadas num verdadeiro conflito mental. E isso
porque, o corpo feminino foi feito para satisfazer e encantar ao homem.
O movimento feminista vêm realizando uma verdadeira batalha contra esse
pensamento padrão machista que oprime e traz tanto sofrimento. O machismo
afeta também aos homens que são muitas vezes impedidos de demonstrar seus
sentimentos de maneira livre e aberta.
Gostaria de te convidar a refletir sobre isso. Tem um blog que costumo ler e
foi o qual me alertou para essas questões. Antes eu acreditava que o
feminismo era um grupo de mulheres depravadas que queriam apenas fazer sexo
com todos os homens sem serem repreendidas. Bom, elas desejam essa
liberdade, mas a maioria delas reivindica o direito de não fazer sexo.
Basicamente, desejam direitos iguais. A liberdade de poder pensar e agir sem
pressão social.
Querido amigo, não quero lhe impor minhas convicção, apenas lhe convidar a
reflexão. Eu mudei minha visão ao conhecer o feminismo, e me sinto muito
melhor. Esse teu e-mail não é só uma piada, um vídeo bem humorado, ele
reforça um esteriótipo opressor e desnecessário.
Liberte-se desses esteriótipos. Eu penso que daqui algumas décadas meu netos
vão ficar tão estarrecidos diante uma propaganda de cerveja que usa
deliberadamente o corpo feminino como objeto de desejo, como nós ficamos
agora ao pensar que alguns justificavam a escravidão alegando que "negro não
tem alma".
Enfim, é isso. Tu sempre diz que estamos distante da perfeição e muito temos
o que melhorar, talvez a libertação de um machismo que ainda nem consegues
identificar seja algo a dedicar seu trabalho de transformação íntima.
Convido a leres esse blog:

http://escrevalolaescreva.blogspot.com.br/2013/02/guest-post-resumo-de-uma-v
ida-aos.html


De alguém com conhecimento muito mais profundo e embasado sobre o feminismo
e como o machismo causa dor e sofrimento no mundo, do que eu.

Abraços,
segura de que esse e-mail jamais vai causar qualquer conflito entre nós,
pois acredite que não passarei a te rotular como um machista e julgar suas
falas, afinal, conheço a admirável pessoa que você é e o tanto que quero
aprender contigo."

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

A depressão feminina

Nós mulheres somos reconhecidamente mais sensíveis. Mulheres choram. Ah! é porque temos um coração puro. A partir da adolescência temos mais propensão à depressão. E somos campeãs na tentativa de suicídio.

A explicação fácil vem embrulhada num papel de presente. Sabe, é natural. São nossos hormônios. É a TPM, ou seria devido a ausência dos neurônios?

100% de todas as mulheres que consultei direta ou indiretamente não estão satisfeitas com seu corpo. E eu me incluo nessa estatística, não exatamente por não estar satisfeita, mas desde que me tornei vegetariana, uns 5 quilos se sublimaram do meu corpo, e por mais que eu coma feito uma louca  não há meio de fazê-los retornarem (e como inclusive chocolate e alimentos refinados não saudáveis, os quais eu gostaria de evitar, mas como estou tentando engordar para o verão consigo devorar uma barra de chocolate em alguns minutos, algo absolutamente nojento para a minha filosofia de vida). E repito, tanto faz como tanto fez para mim, eu me sinto bem assim, o problema é que só de pensar que irei encontrar minha família no natal e que antes (de emagrecer) a primeira coisa que me diziam era "como você está magra!", em tom de aprovação, e esse comentário era repetido mais do que eu gostaria, fico imaginando o quanto terei de ouvir agora, que se pode ver os ossos do meu ombro e externo... Me dá pânico, pensar em ouvir repreensões, o pior, a crítica a minha dieta, que me deixa tão feliz comigo mesma... Esse conflito bobo me desanima a ponto de por vezes pensar em passar o natal e virada de ano longe, a ponto de passar alguns minutos olhando o guarda-roupas pensando o que posso vestir para não passar calor mas deixar minha magreza passar desapercebida.

E esse constante conflito interno me faz querer subir pelas paredes quando ouço mulheres lindas se auto desaprovando, se considerando gordas. Pensei então, que por mais que milagrosamente que engordasse, não seria exatamente onde se expõe meus ossos pontudos que se concentraria a gordura adicional, seria na barriga, na buzanfa e eu seguiria fora do padrão inalcançável de beleza feminina.

Essa ditadura que impõe a uma mulher que jamais se satisfaça realmente com seu corpo, seu cabelo, seus pelos, suas rugas, seu comportamento, seus desejos é certamente muito mais responsável pela histeria, sensibilidade, irritabilidade, depressão femininas do que qualquer variável biológica.

E impor essa reação como algo natural da mulher é ainda mais cruel.


segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Mulheres têm escolha?

Do alto da minha rasa experiência no feminismo, identifiquei um conflitinho básico. Pelo menos entre as feministas de facebook e blog. É o fato de buscar-se uma identificação entre as feministas.

Fica no ar uma ideia de que feminista que é feminista não pode se depilar, tem que ter parto normal, ou nem ter filho, deve trabalhar fora, repugnar sutiã. 

Bem, só de ler a frase acima você já sentiu como soam absurdas essas exigências não é mesmo? E ao meu ver toda e qualquer exigência que se imponha a uma mulher é machista. Sempre que rola um post no face tratando de pelos em axila feminina é o maior bafafá, existem até ofensas. E normalmente não é um post que use um verbo no imperativo "deixe as axilas peludas" ou "não depile", nada disso, é simplesmente uma alusão à possibilidade de se fazer isso. 

Num post no blog da Lola, uma mãe que trabalha fora optou por realizar cesária e se sentiu ofendida pela luta das feministas pró parto normal. Nessa resposta uma ativista explica que o problema não é optar por realizar cesária com base em informações confiáveis, variáveis e de qualidade, o problema é que uma esmagadora de mulheres são levadas a optar por esse modo mais rápido e prático, para o médico.

O problema não é a sua escolha em si, mas o porque de você ter feito essa escolha. E esse motivo está diretamente relacionado à acesso de informação, e o direito a ter escolhas.

Algumas mulheres afirmam que depilação é uma questão de higiene! No buço? No braço, na perna? E essa afirmação é baseada em alguma pesquisa científica? Será que a concentração de bactérias é maior em regiões com pelos? Mesmo quando me depilo preciso usar desodorante, então há bactéria, igualmente. E porque vc tem mais nojo do pelo feminino que do masculino?

Seria então uma razão de estética, mas é um padrão seu? É claro que não, pois se fosse vc não veria problema em deixar os pelos crescerem e ir a público e ver se de fato acha mais ou menos feio... Afinal, cabelo é pelo, escorre durante o banho, cai na comida, fica oleoso ao longo do dia, mas não há depilação nessa área.

Então, depilar é uma escolha que já foi feita, antes de você saber o que era isso. Não há opção.

E isso talvez seja um efeito de termos sido criadas para sermos bonitas. E nós mesmas contribuímos com essa educação ao não resistirmos de elogiar a beleza de uma guriazinha, invés de perguntarmos a respeito do que ela pensa. O que fica bem ilustrado nesse texto:

Como conversar com meninas

Eu fui a um jantar na casa de uma amiga na semana passada, e encontrei sua filha de 5 anos pela primeira vez. A pequena Maya tinha os cabelos castanhos e cacheados, olhos escuros, e estava adorável em seu vestidinho rosa e brilhante. Eu queria gritar, “Maya você é tão fofa! Veja só! Dê uma voltinha e desfile esse vestidinho rosa, sua coisinha linda!”
Mas eu não fiz isso. Eu me contive. Como sempre me contenho quando conheço garotinhas, negando meu primeiro impulso, que é dizer o quão fofas/lindas/bonitas/bem vestidas/de unhas feitas/cabelo arrumado elas são/estão.
“O que há de errado nisso? É a conversa padrão de nossa cultura para quebrar o gelo com as meninas, não é? E por que não fazer-lhes um elogio sincero para elevar suas auto-estimas? Porque elas são tão lindas que eu simplesmente quero explodir de tanta fofura quando as encontro, sinceramente.”
Guarde este pensamento por um tempo.
Esta semana a ABC News informou que quase metade das meninas de 3 a 6 anos se preocupam por estarem gordas. No meu livro, Think: Straight Talk for Women to Stay Smart in a Dumbed-Down World, eu revelo que 15 a 18% das meninas com menos de 12 anos usam rímel, delineador e batom regularmente; distúrbios alimentares estão em alta e a auto-estima está em baixa; e 25% das jovens mulheres americanas prefeririam vencer o America’s Next Top Model a ganhar o prêmio Nobel da Paz. Até universitárias inteligentes e bem sucedidas dizem que preferem ser ‘gostosas’ a serem inteligentes. Recentemente uma mãe de Miami morreu durante uma cirurgia estética, deixando dois filhos adolescentes. Isso não pára de acontecer, e isso parte o meu coração.
Ensinar as meninas que a aparência delas é a primeira coisa que se nota ensina a elas que o visual é mais importante do que qualquer outra coisa. Isso as leva a fazer dieta aos 5 anos de idade, usar base aos 11, implantar silicone aos 17 e aplicar botox aos 23. Enquanto a exigência cultural de que as garotas sejam lindas 24 horas por dia se torna regra, as mulheres têm se tornado cada vez mais infelizes. O que está faltando? Um sentido para a vida, uma vida de ideias e livros e de sermos valorizadas por nossos pensamentos e realizações.
Eu me esforço para falar com as meninas assim:
“Maya,” eu disse, me ajoelhando até ficar da sua altura, olhando em seus olhos, “prazer em conhecê-la”.
“O prazer é todo meu,” ela disse, com a voz já bem treinada e educada para falar com adultos como uma boa menina.
“Hey, o que você está lendo?” Perguntei, com um brilho nos olhos. Eu amo livros. Sou louca por eles. Eu deixo isso transparecer.
Seus olhos ficaram maiores, e ela demonstrou uma empolgação genuína, mas contida, sobre o assunto. Ela pausou, no entanto, tímida por estar com um adulto desconhecido.
“Eu AMO livros,” eu disse. “E você?”
A maioria das crianças gosta de livros.
“SIM,” ela disse. “E agora eu consigo ler sozinha!”
“Que incrível!” eu disse. E é incrível, para uma menina de 5 anos.
“Qual é o seu livro preferido?” perguntei.
“Vou lá pegar! Posso ler pra você?”
Purplicious foi a escolha de Maya, um livro novo para mim, e Maya se sentou junto a mim no sofá e leu com orgulho cada palavra em voz alta, sobre a nossa heroína que adora rosa mas é perturbada por um grupo de garotas na escola que só usam preto. Infelizmente, o livro era sobre garotas e o que elas vestiam, e como suas escolhas de roupas definiam suas identidades. Mas depois que Maya virou a última página, eu conduzi a conversa para as questões mais profundas do livro: meninas más e pressão dos colegas, e sobre não seguir a maioria. Eu contei pra ela que minha cor preferida é o verde, porque eu amo a natureza, e ela concordou com isso.
Em nenhum momento nós discutimos sobre as roupas, o cabelo, o corpo ou quem era bonita. É surpreendente o quão difícil é se manter longe desses tópicos com meninas pequenas, mas eu sou teimosa!
Eu falei para ela que eu tinha acabado de escrever um livro, e que eu esperava que ela escrevesse um também, algum dia. Ela ficou bastante empolgada com essa ideia. Nós duas ficamos muito tristes quando Maya teve que ir pra cama, mas eu disse a ela para da próxima vez escolher outro livro para lermos e falarmos sobre ele. Ops! Isso a deixou animada demais para dormir, e ela levantou algumas vezes…
Aí está, um pouquinho de oposição a uma cultura que passa todas as mensagens erradas para as nossas meninas. Um empurrãozinho em direção à valorização do cérebro feminino. Um breve momento sendo um modelo a ser seguido, intencionalmente. Meus poucos minutos com a Maya vão mudar a multibilionária indústria da beleza, os reality shows que diminuem as mulheres, a nossa cultura maníaca por celebridades? Não. Mas eu mudei a perspectiva de Maya por pelo menos aquela noite.
Tente isto da próxima vez que você conhecer uma garotinha. Ela pode ficar surpresa e incerta no começo, porque poucos perguntam sobre sua mente, mas seja paciente e insista. Pergunte-a o que ela está lendo. Do que ela gosta ou não gosta, e por quê? Não existem respostas erradas. Você apenas está gerando uma conversa inteligente que respeita o cérebro dela. Para garotas mais velhas, pergunte sobre eventos atuais: poluição, guerras, cortes no orçamento para educação. O que a incomoda no mundo? Como ela consertaria se tivesse uma varinha mágica? Você pode receber algumas respostas intrigantes. Conte a ela sobre suas ideias e conquistas e seus livros preferidos. Mostre para ela como uma mulher pensante fala e age.
essa versão eu encontrei no blog L'objet Trouné, nesse link.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Sai deste corpo que não te pertence

Não é nada fácil ser mulher nessa sociedade machista. Bom, não é nada fácil SER nessa sociedade, mas meu foco hoje é o pertencimento do meu próprio corpo. 

Seios
Eu não posso tirar a blusa em dia quente porque algum idiota resolveu sexualizar o meu seio. E então eu só posso mostrá-lo com o intuito de excitar um homem, qualquer uso além desse é reprovável por machistas. Até a amamentação pública é normalmente condenada (como bem colocado neste post da Lola), isso porque naturaliza o seio e rompe com o estigma sexualizado socialmente imposto.
Sou praticamente obrigada a usar sutiã para manter os seios atraentes sexualmente, conforme o padrão vigente. Tenros e empinados. Por mais que aperte, coce e possa estar associado a câncer de mama, o sutiã deve ser usado. Além do mais move uma indústria, aliás, o modelo atual tem patente americana...
O mais interessante é que os bicos devem ser cuidadosamente camuflados. Mesmo em biquínis, ao ponto de terem inventado uma merda de uma espuminha que fica molhada por dias, só para não corrermos o risco de mostrar que, diferentemente de uma Barbie, nosso seio tem bico. Bico de seio é vergonhoso e deve-se temer sua exposição. Eu não sei quem disse isso e tão pouco porque todos acataram, só sei que quando percebo que vou passar por isso sinto um desespero e tento alucinadamente disfarçar, me sinto realmente mal, como uma criminosa quando os bicos do meu seio ficam salientes. Não que eu ache exatamente feio ou ofensivo, mas é que é socialmente inaceitável.
E há uma rigorosidade na escolha do tamanho. Seios pequenos fogem do padrão exigido para despertar o desejo masculino. e como seios só existem para isso, devemos recorrer ao silicone ou (pasmem) sutiãs elétricos.
Sutiã dá choque para aumentar os seios


Roupas
Aqui a coisa fica realmente confusa e nebulosa para mim. Ao que tudo indica, devemos usar roupas curtas, como as modelos de revista, cantoras e atrizes de novela. Ouvi de uma senhora, que eu julgaria como conservadora de extrema-direita, a seguinte colocação "Você tem um corpo tão bonito, deveria aproveitar melhor ele, usar roupas mais curtas e decotadas. Com esse seu vestido fica parecendo uma crente".
Acontece que eu não me sinto lisonjeada quando meu interlocutor não consegue ouvir o que digo por estar contemplando meu decote. Eu me sinto invadida, ofendida, diminuída à objeto sexual, sinto raiva, me sinto oprimida e abusada. De acordo com os padrões sociais, eu não deveria me sentir assim, deveria me sentir poderosa, desejada. Mas não é o que acontece comigo.
O interessante é que quando a Nicole Bahls tem uma mão masculina enfiada contra a sua vontade entre suas pernas, ou quando alguém é estuprada, a culpa é da vadia que usava roupas tão provocantes... Eu realmente ainda não entendi se existe um limite que separa o decote perfeito do desejo e o decote que pede o abuso sexual.

Pelos
Não adianta, se você quer ser inserida na sociedade e ser respeitada, então você é obrigada a tirar seus pelos. Pelos femininos não devem existir, por mais que saibamos que eles existem. Não é uma opção deixá-los crescer. Se vc pensa que se depila só porque você quer, então deixe-os crescer ao menos uma vez, e vá a público. Não é vc quem decide o que fazer com seus pelos, amiga. 
Se homens podem decidir ter ou não barba, se existem homens com barba por fazer em cartazes sensuais de cinema o mesmo não ocorre conosco. Nesse curto documentário chamam a atenção de que sequer nas propagandas de depilação aparecem pelos!!!!
Pelos são censurados inclusive em propagandas de depilação
E esse é um detalhe tão inútil que é quase ridículo escrever sobre pelos. Mas, sim, nessa sociedade de imagem eles interferem em como você será vista e tratada. Vão cochichar, apontar, e comentar sobre seus pelos. Vão chegar ao ponto de criticar a Nanda Costa por não ter adotado a depilação da moda num ensaio fotográfico. E qual é a depilação da moda? Total, como criança, ou como a Barbie, não sei qual é desse fetiche. Se alguns alegam que é por higiene segundo um ginecologista (fonte): 

"Antigamente, depilava-se o corpo antes de uma cirurgia. Hoje, não se faz porque aumentam os focos de infecção na região depilada. Não há vantagens higiênicas. A depilação pode ser um fator de aceitação pessoal, mas não evita doenças. O pelo é um fator de proteção" 

Comportamento
Outra contradição, por mais que sejamos deliberadamente moldadas como objeto sexual não devemos fazer, muito menos gostar de sexo. Ainda que existam diversas revistas ensinando como se comportar na cama, como atender aos desejos masculinos, afinal é o que se espera de uma mulher, ao mesmo tempo existe a condenação das que fazem sexo. Como o caso da Fran, no qual o parceiro vazou um vídeo do ato sexual dos dois, e a garota foi terrivelmente ofendida pelos conservadores "tudo pela família" de plantão. 
Você tem a obrigação de fazer tudo na cama,
mas se souberem será chamada de vagabunda.
Se a sociedade tira padrões da cartola que limitam e causam sofrimento para todos, criança, animais, natureza, homens e mulheres, o padrões estipulados para as mulheres tem a função de servir aos desejos masculinos. Nos subjuga à objetos como se nosso passaporte para a existência dependesse de despertar o desejo sexual.
Corpo feminino sexualizado servindo como objeto de desejo.
Todas as imagens são ridículas, mas nas de cima temos a ilusão de que não são.
Me liberte e verás quem sou

Essa beleza artificial e forçada 
já não me impressiona mais. 
Quero pertencer a mim mesma.
Pare de me subjugar aos seus desejos
Me liberte dessa camisa de força.

Porque você não me escuta?
Porque você não me vê?
Eu existo e minha voz tem som,
independente de tudo.
Mas porque você só me vê 
quando visto salto alto?

Deixe-me livre 
e vamos falar do que realmente importa.
O meu corpo é tão somente
o que minha mente usa 
para se manifestar nesse mundo material.
Ele não sou eu.
Eu estou aqui, 
deixe de se concentrar no que você vê.
E então nos conheceremos.

Estou te esperando,
quando você chegar iremos conversar.
E você vai se surpreender
por tudo o que tem ignorado.
Você não vai mais ser você.
Vai ser tão livre quanto eu.

Quando você me libertar.