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domingo, 10 de junho de 2018

Não precisamos de mais polícia, precisamos de menos privilégios

Numa bela noite fresquinha, voltava eu de uma sessão de terapia, bastante reflexiva. Tinha me programado para "mandar um áudio" para uma amigona, com quem quero muito compartilhar os acontecimentos da vida. Segurei o celular na mão, mas precisava elaborar a fala ou pelo menos diminuir a vazão de pensamentos, fui fazendo isso a medida em que pedalava. Absorta em pensamentos. Às 19 horas de uma quinta feira. Quando sem muita explicação, um jovem muda de faixa e bate no meu guidão. Eu "volto" meus pensamentos todinhos pro meu corpo. A adrenalina, a confusão. "Porra!!! Nem pra ver se eu estava bem!!!". Falei tentando impor alguma moral, meio constrangida por ter quase caído e sentido dor na mão e na perna mesmo sem nenhum arranhãozinho.

E como você pode imaginar... Meu celular foi pelos ares, eu não me dei conta, o oportunista jovenzinho levou sua caça... Bloqueamos o IMEI e provavelmente agora, o espelho negro com fotos do bebê deve estar sendo vendido às peças...

O estranho é pensar que essa é a primeira vez que me acontece!!!

Celulares custão em torno de R$500,00... É mais que a renda mensal per capta de aproximadamente 8 mil pessoas em Ilhabela*

Vivemos um abismo social. Temos paisagens distintas e eu ando por elas. Eu entro nas vielas, busco famílias sem endereços, muitas e muitas pessoas no mesmo número. Eu pedalo em frente à enormes mansões vazias, sempre vazias. Não tem a menor chance de achar que isso é normal ou natural. Um bebezinho, que acaba de chegar nesse mundão véio, já chega condenado pelo acaso.

As atividades de esporte e "cultura" não cobrem toda demanda e muitas das atividades ofertadas não dialogam com os interesses e cultura. A qualidade da educação é bem questionável, afinal o gestores não utilizam da mesma. E mesmo que usassem, é uma educação que prende, que castra, que reproduz. Não temos atividades de convívio baseada na cooperação, na dialogicidade, na democraticidade... Me dizem "pois bem, mas enquanto isso não acontece, precisamos de uma medida mais urgente! Mais policiamento na ciclovia!".

Temos que ter muito cuidado com isso, muito mesmo. Essa receita de "vigiar e punir" NUNCA funcionou.

Quero fazer um paralelo com a UPP. Nasceu com a ideia de pacificar para que depois o Estado chegasse... Preparar o terreno para inserção de escolas e UBS. Pois bem, pelo elevado índice de homicídios brutais (Onde está o Amarildo?) podemos concluir que não foi uma medida exatamente eficaz. Há uma guerra. Uma guerra ideológica que ocorre em nossas pequenas relações. Existe uma força de extermínio dos pobres, mestiços, uma força histórica. Que se manifesta quando alguém discrimina os imigrantes do norte e nordeste, quando se expulsa pessoas que não moram em casas, quando se usa o discurso de combate às drogas para legitimar ações discriminatórias!!! Isso acontece aqui, na nossa linda Ilhabela e precisamos estar atentas, para não endossar essas ações.

Você consegue imaginar o rosto do jovem rapaz que me abordou?

Ele não era branco. Ele era exatamente o estereótipo do "bandido". O que me faz concluir que se o rapaz da periferia com "cara de bandido" tiver o mesmo conforto que o boyzinho, a probabilidade de eu ser furtada novamente diminui, e diminui muito.

Mas, quem tem o poder de tomar essa decisão é todinho privilégio. Faz cinco refeições por dia, nas quais se quer precisa lavar a louça, toma um banho quente num chuveirão, dorme na caminha quente e cheirosa, mora em uma casa agradável, arejada e iluminada, planeja a próxima viagem de lazer, e sonha com as inúmeras boas possibilidades de futuro para cria. Poucas pessoas, muito poucas estão vivendo isso agora. E são elas que decidem que medida tomar para impactar a vida da esmagadora parcela que sobrevive como pode.

Eu não quero que haja mais privilégios, quero que todos e todas possam usufruir da vida, sem precisar esperar o paraíso.

*https://cidades.ibge.gov.br/brasil/sp/ilhabela/panorama

quarta-feira, 4 de abril de 2018

à Diversidade


Esse ano, dia 20 de maio completaremos, eu e meu companheiro e os dois amigos caninos, nossos 3 anos de Ilhabela. Parece que minhas raízes ainda estão meio aéreas, parece que ainda sinto os rizomas enterrados no interior, me afirmando os valores caipiras, pé vermelho. Quando corria descalça sobre as pedrinhas minúsculas, minha irmã dizia “você tem pé de peão, o meu é de princesa”, eu não me ofendia, sentia um orgulho, não sei porque. Me identificava mais com o peão do que com a princesa.

Sinto os rizomas nas areias do litoral gaúcho. Eu temi que um dia me parassem de nutrir. A cada amigo que se mudava meu coração batia forte, o medo como pano de fundo, medo de virar história distante e longínqua. Constantemente me visitava tentando monitorar o quão gaúcha ainda sou. A cada chimarrão preparado o alívio de ainda estar lá, de lá permanecer aqui. As dunas, o céu, as chuvas, os ventos, o mar imenso. E as amizades tão verdadeiras.

Por vezes me pergunto se não me fixar em uma cidade faz de mim uma traidora oportunista? Por vezes sinto que essa mistura de experiências, de vivência, de raízes me compõe. Mês a mês me percebo incorporando a bela paisagem da ilha, as transparentes águas marinhas aos poucos tornando-se parte de mim, o frescor das cachoeiras. Os picos tocando o céu, as matas a sustentar todo esse microclima.

E o que mais me pega, onde mais me identifico, o que mais admiro é a diversidade! Diversidade de cores, sotaques, histórias, pensamento, renda, modo de vida. Parece o acaso ter sido muito caprichoso ao compor a população. Um pouquinho de cada coisa. Negros a narrar os usos dos grilhões, da história escravocrata, ainda tão latente, mineiros, nordestinos, lindas pessoas vindas do norte do país, ou por acaso ou a buscar, buscar o Estado presente, dinheiro, qualidade de vida. Argentinos, paulistanos. Milionários com casas gigantescas que raramente vem a passear com seus carros importados.

A diversidade nos enriquece, nos fortalece. Só preciso me abrir pra essa ideia. 

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Cento e vinte dias

A distância me fere
O seio cheio
Leite suor e lágrima

Você grita pela casa
o amor que quero dar

Nosso querer recíproco
Olhar, tocar, beijar, cheirar, mamar

Você busca, chama
Chama que arde minha alma

Quem é capaz de escutar
De ver a magia no nosso encontro
A distopia da separação

Uma só alma
Rachada, quebrada, partida

Que se recompõe a cada fim de tarde
Para se destroçar na manhã seguinte

Ilhabela, 23 de janeiro de 2017.

Meu bebê iria completar seus nove meses, e desde que ele tinha cinco e meio eu o abandonava diariamente à 7:30 da manhã. Ele aos berros, eu sustentando um sorriso falso. Ficava com o pai desempregado. E eu ia "bater o dedo" e cumprir horário num emprego em que eu me sentia constantemente subjugada. Me machuca saber que isso foi uma opção, é verdade que pagar o aluguel e as contas é uma demanda real, mas eu poderia abandonar o emprego e ir morar com meus pais. Mas eu optei por sofrer diariamente a violência de deixar o bebê sem a mãe todos os dias, muitas horas no dia.
As leituras sobre como bebês são fusionados com a mãe, a gestação externa, a importância de um ambiente tranquilo e amoroso, a formação do cérebro, a construção do vínculo, o efeito tóxico do estresse etc me deixam muito mais insegura e frustrada.
QUATRO MESES
Desde que o bebê nasceu, não antes disso, eu sofria com esse prazo. E não era a toa. Não consegui relaxar, o fim da licença maternidade foi um fantasma constante deixando meu puerpério ainda mais sombrio. E pode ter sido isso que o bebê manifestava em choros estridentes. É como aquele sentimento esquisito que acompanha um calafrio subindo pela nossa coluna, quando no silêncio do quarto, deitada na cama pensamos "eu vou morrer" e essa morte é tão real que nosso coração dispara para provar que ainda vive. "Vai acabar a licença" e o bebê não ergue o pescoço, não fica mais de uma hora sem me solicitar. Como vai ser pra ele esse sumiço brusco?
CENTO E VINTE DIAS
É o período que as instituições acreditam ser suficiente para um ser humano conseguir viver sem a mãe. Que a mãe depois de parir já consegue voltar à suas atribuições. Assim como se nada tivesse acontecido. Como se sua alma não tivesse em frangalhos, como se seu corpo físico não tivesse modificado, o seio vazando leite. Me senti bem insegura: será que nunca mais vou conseguir ler e escrever como fazia antes do parto? O raciocínio lógico, linear, lincar textos, notícias, fatos me escapava pelos dedos. Fiquei até um pouco feliz, só conseguia expressar sentimentos pela poesia, mas insegura, por não saber quem eu seria sem a habilidade ler textos complexos. Me surgiu a oportunidade de trabalhar com uma chefe que eu tenho muito mais afinidade. Uma pessoa humana, que valoriza o diálogo e olha no olho quando fala. Me lembro exatamente o dia que consegui ler um texto até o fim e compreendê-lo e falar sobre ele. 15 de março, o Gabriel tinha 10 meses e meio.
Hoje, nesse momento, estou num trabalho que gosto. O Gabriel fica na creche pela manhã, desde um ano, acho precoce. Ainda assim, quando minha amiga voltou pra Ilhabela, tentar reassumir seu emprego e no segundo dia estava absurdamente estressada eu apoiei sua exoneração. "Sempre quis um emprego público" ela me disse enquanto assinava o pedido. E tinha sentimentos muito contraditórios. Por um lado eu estava feliz por ela, e sentia até um pouco de inveja que poderia viver em plenitude a maternidade, por outro uma dúvida sombria me impedia de sorrir e aplaudir. Seria positivo abrir mão do trabalho? Ela que atuava com louvor na área que havia se formado, uma assistente social humana, empática, agora se queixa de estar desempregada e não contar com o próprio dinheiro pra comprar um grampo.
O Gabriel e o Joaquim e tantos e tantos outros bebês são privados de viver uma convivência harmoniosa e plena com suas mães tranquilas, seguras e satisfeitas.
Quatro, seis meses é um período ridiculamente curto quando se trata de puerpério, de convivência entre mãe e bebê. Por isso muitos países já adotaram licenças que ultrapassam um ano, e isso não acarretou uma influência negativa em suas economias. Porque não se trata disso.

A decisão política de manter um período ínfimo de licença maternidade é machismo.

Não é sobre o quanto o saber de uma mulher faz falta no desempenho de sua função.

Não é sobre o impacto econômico de pagar o período de afastamento.

É violenta, burra e prejudicial, social e economicamente.




sexta-feira, 1 de abril de 2016

O pré-natal pelo SUS de Ilhabela.

Minha menstruação atrasou, no quinto dia passamos na farmácia comprar um exame de urina. Fui por farra, pois tinha cá comigo que sentia até as cólicas. No entanto, o exame deu positivo e eu mergulhei num mundo a parte. Não fiquei exatamente feliz e nem tão pouco frustrada, fui transportada para uma tênue linha entre esses dois estados emocionais. Fiquei lá, de perna bamba e braços estendidos tentando me equilibrar. Em verdade eu estava bem habituada a esse “lugar”, é onde costumava ficar quando o assunto era filhos. Nem queria, nem desqueria.

Na mesma manhã fomos ao postinho. Falei meio desconcertada na recepção que o exame de urina tinha dado positivo. Atualizaram meu cadastro do SUS e já fui encaminhada para o que seria minha primeira consulta pré-natal. A enfermeira atenciosa e um tanto divertida me pediu para fazer outro exame de urina. “É isso mesmo, vc está grávida! Quando foi sua última menstruação?” Devo ter continuado com aquela cara de quem se equilibra num slicke line muito alto, mas acho que ninguém reparou, a conversa seguiu como se estivéssemos tomando um chá discutindo sobre a novela. Fui pesada, mediram a pressão, tomei vacina, encaminharam um pedido de exame de sangue, urina e fezes. Ao final, peguei uma declaração pra levar no trabalho. Quando li na declaração consulta pré-natal senti um nó na garganta, ainda não tinha processado adequadamente essa informação, as pessoas mais queridas não sabiam de nada, mas a chefia já saberia, naquele mesmo dia. Por sorte o drama na minha voz enquanto repeti alto o “pré-natal” não foi ignorado, e a recepcionista fez outra declaração mais discreta.

Pensei algumas vezes, comigo mesma, se deveria mesmo levar aquilo adiante, ainda me equilibrando. Só que esses pensamentos não tiveram espaço, pq meu relacionamento com meu companheiro é tão lindo e tão gostoso. Eu amo ele, e gerar um filho com ele é uma possibilidade divina. Tenho emprego e suporte da família. Porque eu ainda estava pé ante pé, me equilibrando?! Os problemas do mundo, o desejo de não ter nascido, qual o propósito da vida, essas questões paralisam. Foi numa aula de teatro, dentro da ONG Pés no Chão, todos sentados/deitados em roda no chão falando sobre a peça, nesse momento eu acreditei. Olhando aqueles olhos jovens e brilhantes, sentindo a energia dos que fazem algo por gosto, sem visar lucro, dos que riem fácil. Cada um e todos tinham nascido, havia uma mãe que tinha aceitado parir cada um deles. Se não, não haveria teatro, não haveria olhos brilhantes que acreditam na beleza do mundo, cabeças apoiadas nas barrigas, as costas no chão. Certo, aceito e agradeço. Acredito no mundo e no ser humano. Minha decisão foi tomada, eu aceito! Sai da fina linha para explorar o espaço da gestante feliz.

Liguei no RH para perguntar do convênio, não lembro o valor, mas pra quem põe 50% do salário no aluguel, era alto. Além do mais o período de carência para parto é 10 meses. Dado que eu não sou uma baleia, isso significava simplesmente que não iriam cobrir o parto de quem não se planejou. No caso eu. Ah mas quer saber de uma coisa? Quem não quer contribuir com o lucro dessa empresa sou eu. Usufruir desse privilegiosinho, fomentar a desigualdade. E afinal, como funcionária pública que atua dentro de um órgão público eu vejo pessoas que buscam excelência no desempenho de sua função, até mais do que em frias empresas privadas. Além disso, mamíferos dão a luz todos os dias nos recônditos dessa exuberante natureza sem gastar um tostão furado, e nascem filhotes fortes de mães saudáveis.

A próxima consulta foi com a médica. Não foi no postinho, foi na santa casa. Cheguei as oito e meia, uns 15 minutos depois fui pesada, pressão medida. E logo fui atendida. O atendimento foi mais rápido e impessoal do que eu gostaria. Enquanto a médica preenchia minha carterinha de gestante eu bolava algumas perguntas para aproveitar o máximo da oportunidade, questionei se tinha problemas andar de bicicleta ou ser vegetariana, sem problemas, para minha alegria. A resposta foi rápida e curta, sem contato visual, afinal tinham mais umas 10 gestantes esperando fora do consultório. Minha mãe estava comigo e ficou impressionada, gostou do tempo curto de espera, gostou do local e da médica, ela comparou com as consultas caras e particulares da minha irmã em São Paulo e me disse sorrindo, “lá ficamos mais tempo esperando e as consultas não são muito diferentes”. Isso me deixou confiante de minha decisão, e escondi minhas críticas lá no fundo.

A partir daí fomos seguindo um mês com a enfermeira engraçada, um mês com a médica apressada. Senti falta de ser informada, de conversarem comigo olhando nos meus olhos, interessadas pelo que eu teria a dizer ou a ouvir. Nada sobre as fases do desenvolvimento do feto, sobre como eu poderia vir a me sentir, nenhum conselho sobre alimentação ou explicações mais atenciosas sobre minhas dúvidas. Talvez haja um trabalho mais especifico nesse sentido com o grupo de mães, realizado no PEI. É público, mas não fui informada dos horários de reunião “porque você trabalha e não poderia ir”.

Os exames de sangue são feitos num local bastante agradável, por enfermeiras atenciosas, e apesar do número de pessoas assustar a espera é pouca. Outro dia presenciei algo interessante:
- Pra fazer o exame de sangue...?
- Precisa pegar uma senha.
- É particular!
- Precisa pegar uma senha.

Ao ligar na santa casa para agendar uma consulta - porque as agendas do mês são abertas na última semana do mês anterior, então as vezes não conseguia sair de uma consulta com a próxima marcada – me perguntaram algo curioso: “é particular ou convênio?”. Hum, seria o acesso a um atendimento mais atencioso?!

Os exames de ultrassom tiveram variação de tempo para marcar. No morfológico eu quase perdi o período adequado. Que ainda não sei afinal qual diferença desse exame para os outros. A sala do exame é pouco agradável, tem um equipamento enorme ocupando quase a sala toda repousando eternamente sob um lençol branco. O tratamento é bem impessoal, quase 30 gestantes são marcadas para o mesmo horário, e por isso passamos mais de uma hora esperando.

Sobre o parto, aguardemos. A obstetra que é a chefe da maternidade me garante, sempre que eu tento conversar sobre os procedimentos do parto me garante que o hospital trabalha com um atendimento humanizado. “todas as equipes?” “Sim, se não, não é nem contratado”. E exatamente nessa semana a maternidade entrou em reforma. Ainda não entendi bem o propósito dessa ampliação, uma vez que vai continuar com apenas um quarto de parto. Os leitos passarão de 8 pra 11, mas isso eu não sei se faz tanto sentido...


Nesse momento final as consultas passaram a ser exclusivamente com a médica e quinzenais. Acredito que em alguma consulta receberei um atendimento mais atencioso, talvez elucidando detalhes dos procedimentos do parto e do cuidado com o bebê. 

sexta-feira, 4 de março de 2016

Frutas Anárquicas

Entro no mercado comprar frutas e verduras, de terça que tem maior variedade. Sempre sinto um certo incomodo por estar naquele lugar, não sei dizer o que exatamente. Seriam as embalagens coloridas, plásticas, contendo produtos artificiais, “comestíveis”, que além de não fazerem bem (isso é nutrirem) ainda fazem mal? Passo cada vez mais determinada e ilesa pelas prateleiras centrais, recheadas de açúcar. Quem busca um incentivo para isso aconselho assistir ao documentário That Sugar.

Acontece que mesmo na parte saudável do mercado o incomodo permanece. É como uma frustração, na minha lista de compras mental sempre tem:
- frutas
- legumes
- verduras

Não especifico, vou buscando variedade, de preços, qualidade e oferta, conforme a época e o tempo natural de cada espécie. Mas, encontro sempre tudo igual. O mamão no lugar do mamão, as bananas penduradas, maçã, manga, e as outras de mais de 10 reais o kilo que variam pouco. Legumes também, batata, cenoura, abobrinha, berinjela, tomate, cebola. O máximo da variação é se vai ter bons xuxus ou pepino, mas nada tão surpreendente. Saio quase sempre com o mesmo, me perguntando como fazer pratos variados com mais do mesmo. Me sinto um tanto frustrada quando desejo um abacaxi que custa 8 reais a unidade. Aperta a saudade das poucas bancas de produtores genuínos da feira do produtor, sábado de manhã, no Cassino.

Mas, nem tudo é saudade. Muito bom morar uma ilha tropical extremamente fértil!!! Assim que cheguei o que me chamou atenção foi o exorbitante tamanho das árvores. Mangueiras astronômicas! E em novembro elas estavam carregadas, e jogavam seus frutos numa abundância desconcertante. O asfalto de modo implacável fazia com que cada uma se estraçalhasse no chão. De modo que um fruto tão nutritivo se transformasse num estorvo, melecado e fedorento. O asfalto a impedir a vida.

Acontece que algumas mangas caem na terra. Sempre haverá a terra para as sementes brotarem! Pudemos comer manga por todo dezembro. Para cada pé em terra ou grama uma sacola, e depois de chupar todas quanto desejávamos, congelávamos a poupa. Pura, ou em sucos, frapes, e mousses, refrescantes, doces, nutritivas, amarelas. Menores e mais saborosas que as do mercado!
Até que aquela árvore altona, que já havia me chamado a atenção por seus frutos engraçados, passa a me oferecer a oportunidade de provar mais um sabor. A Jaca.

Não sei qual sua origem. Indonesia ou India, me disseram uma vez. Sei que se adaptou muito bem no clima tropical brasileiro. É muito abundante a quantidade de pés, da dura e da mole. A quantidade de frutas por pé é de uma generosidade impressionante. Como se não bastasse, cada fruta é impossível de ser consumida por uma pessoa só, mesmo pelas mais avarentas. Foi assim que muito feliz fui introduzida no mundo da Jaca. Aprendi a comer refogada com cebola e azeite, usei o miolo da mole e a poupa da dura, aprendi a tirar o grude com óleo. Fiz receitas doces, bolo do caroço, torta de massa podre, conserva. Além de comê-la crua, pura. Ganhei muitas, pois descobrimos que tantas vitaminas e nutrientes eram especialmente benéficos para gestantes. Não parei mais de ganhar jacas! Além das que colhia por aí.

É tão livre, o modo como elas crescem nas ruas, ao alcance de todos, é tanto nutriente disponível sem cobrar sequer um centavo em troca, é simplesmente uma ofensa ao individualismo capitalista. É o anarquismo vivo saindo das entranhas da terra para nos alimentar!
Mas, já não podemos mais encontrar aquele raro saquinho espinhudo grudado nos troncos. E quando chego no emprego não encontro mais um peculiar geóide sobre a mesa. As jacas discretamente vão saindo de cena. Mas, assim como foi com as mangas, uma delicia nutritiva dá lugar a outra. E já não é só um aroma no ar, as goiabeiras estão ofertando os mais deliciosos frutos, nutritivos, seriam as vitaminas adequadas para o fim de verão e inicio de inverno? Os pés carregam, sem fertilizante nem defensivo.


E como forma de retribuição, vou me dedicando a guardar sementes, e com um esforço desmedido produzir mudas que darão árvores para nutrir outras gerações!!! Provando a todos que não existe inflação. O custo dos alimentos é exatamente o mesmo de 5 mil anos atrás, uma porção de Sol, solo fértil e um bocado de água. Todos tem acesso e podem colher, desempregados desesperados ou por malandragem, o mocinho e o vilão, a virgem e a puta, criança e idoso, nutridos e saudáveis só esticar o braço e morder.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

A Beleza


Quase não podia acreditar nos meus olhos. Era uma visão muito bonita. Estonteante. A mais bonita que já vi? E a água fresca, límpida, pura, pura, pura, que se movia num redemoinho perfeito. Precisei ficar muito tempo, paradinha, só absorvendo, vivendo. Toda aquela mata, as andorinhas brincando, rápidas, ágeis, livres. A visão do mar, a altura. O som! Nenhum pouco agressivo, não era uma cachoeira furiosa. A água fluía, escoando harmônica por uma rocha arredondada como um enorme elefante. Sem perigo, sem adrenalina, era espaço de ocitocina.

Estranho ter vivenciado isso e me sentir tão inquieta e irritadiça. Depois de um dia desses, com caminhada na mata eu deveria estar relaxada, desejando o repouso tranquilo. Mas não. Me mexia em casa, sem saber bem o que fazer. Tirava as coisas do lugar e tornava a por. Não queria papo. Tentei uma meditação guiada e por pouco não atiro o celular na parede, que chato. Yoga, e abre a pélvis e mexe que mexe, e deita levanta. E bufo. Deito na rede abro o livro, um capítulo parece uma tortura.

O que está acontecendo?

Não pude escapar de uma auto analise. Tive o dia mais maravilhoso que podia imaginar e porque me sinto assim?

Pensar que a cachoeira está lá com aquela beleza indescritível. E aqui, a cidade, essas ruas, essas paredes, esses tetos. São feios, feios, feios. Essas mulheres de revista, podem produzir o quanto for, cirurgia, artes plásticas, feias, feias, feias. Estou obcecada com a beleza daquele lugar. Sem lógica, sem plano, sem fibonacci obviamente visível. Quantos lugares não são assim e nunca verei, nunca viverei? Quantas águas fluem nas paisagens mais divinas e jamais porei meus pés para sentir sua temperatura, a brisa fresca e admirar a beleza. Real. Quantas outras não deram lugar a cidades feias, feias, feias. Por mais que houvesse alguma boa vontade com paisagismo e lagos. Quantos rios não viraram desertos verdes, de eucalipto e outras monoculturas feias, cercadas e feias.


Me incomoda não estar lá, não olhar aquele horizonte, não ouvir aquele som. Ver paredes, mesa, computador, ouvi motores acelerando, sentir um frescor falso do ar condicionado. Feios, chatos, claustrofóbicos, mentirosos, mortos e agressivos. Nesse momento, só de existirem me agridem.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

A família, habitação e drogas.

Foram momentos intensos esses de capacitação profissional! Adoro assistir alguns conceitos firmemente consolidados se encher de dúvidas.
Em um dos dias o tema foi Família...

Inicialmente cada um deveria escrever a palavra que lhe viesse a mente quando se falava em família. Pensei conflito. Mas ouvindo os colegas comentando amor, amizade, proteção, preferi mudar para convivência. Comentei com uma amiga que por sorte me disse: eu tinha pensado em ilusão, mas preferi escrever aprendizado. E assim não destoamos muito da opinião pública.
E então a outra etapa foi fazer um desenho do que nos representa a família, e explicar para todos o porque. Lá estava eu, com meus quatro meses de gestação, olhando uma folha em branco, lembrando de meus pais e tentando identificar algum sentimento passível de ser desenhado. O tempo correndo. "Fiz uma casa por ser o espaço onde se materializa a relação familiar", que ficou meio perdida em meio a tantos corações e elos de corrente. Puxa, já estava me sentindo uma bandida sem coração, sendo tão crítica de uma instituição tão indiscutivelmente amada.
Só que dentro de um CRAS, as famílias atendidas são bastante diferentes de um comercial de margarina. E esse era justamente o pulo do gato. Nosso querido facilitador nos divide em subgrupos, entrega cartolinas e diz, em uma metade desenha a família ideal, na outra a real. O grupo começou discutindo como representar o amor, respeito, confiança, seria um coração com luzinha? E então nossa mestre Yoda, lançou o cutucão: e vocês acham que não precisa de papai, mamãe e filhinho? Se não fosse ela eu provavelmente pensaria "lógico que não" e fim de papo. Uma do grupo defendeu firmemente que não. Dizia ela, dos casos de filhos que são bem tratados por pais viúvos. E perguntei meio assustada: e isso é o ideal?! Que a mãe morra? Passaram a dizer das crianças que são adotadas por gays amorosos. E novamente é esse o ideal? A criança ser afastada dos pais por algum fator bastante negativo para depois entrar num lar harmonioso? Mas então, nesse caso estaria eu defendendo a família tradicional brasileira? Talvez fosse melhor ter ficado nos termos abstratos e indiscutíveis, a família ideal é aquela que fornece proteção, amor, carinho, respeito, diálogo. A Yoda interveio novamente: não digo de gênero, mas com dois adultos fica muito mais leve dividir as responsabilidades e somatizar as alegrias. A outra colega, que não contou com auxilio presencial do companheiro na criação de seus dois filhos confirmou que é muito difícil formar a família sozinha, ter que organizar a casa, cuidar da saúde, alimentação, educação, tomar todas as decisões, etc. Então desenhamos duas silhuetas grandes e uma pequena, envolta por um coração com aberturas para o mundo exterior, com setas de acesso à unidades de saúde, lazer, educação, cultura, esporte, ambiente saudável. Do lado real ficou uma mulher com diversos filhos, sendo uma gestante, casinha de palafita no alto do morro, sem acesso a transporte, educação, saúde, com lixo e esgoto nas ruas, e violência verbal. Um pouco estereotipada, seria como a soma das vulnerabilidades das famílias atendidas.

Acontece que a capacitação continuou e os temas foram mudando e numa certa manhã falou-se de adolescência. E do fato de o Brasil ser um dos países com maior índice de homicídio entre meninos. Isso sendo permitido e incentivado pela guerra contra o tráfico. Aliás essa é a principal ocupação dos casos de trabalho infantil. Isso me deixou incomodada. Não é uma informação inédita, mas sempre incomoda.

Logo em seguida, não sei bem como entramos no tema da habitação. Na Ilhabela os aluguéis são exorbitantes e me revolto toda vez que estou nos cafundéu de uma viela escura e fedorenta, preenchendo um cadastro e a pessoa diz que paga 500/700 reais de aluguel. Isso é quase um salário mínimo!!!

E então me veio uma conclusão óbvia na cabeça.
Seria melhor legalizar e regulamentar a venda de drogas e proibir a cobrança de aluguel para moradia.
Enquanto isso seguiremos enxugando gelo...

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Pela valorização da diversidade etnico-cultural

Por pura ingenuidade, ou total ignorância mesmo, não esperava encontrar tamanho bairrismo, beirando a xenofobia nessa viva ilha. A pergunta "da onde você é?" pode ser ouvida mais de cinco vezes ao dia. A minha vontade é responder "do planeta terra". Quando em uma conversa é dito que "fulana é caiçara" eu ainda não sei bem o que fazer com essa informação. Eu deveria automaticamente gostar mais de fulana? Valoriza-la? Respeita-la? Ao que parece existem graus de caiçarismo, se é a quarta geração de caiçara estabelece-se uma aura de dignidade, como se tratasse de uma família de sábios xamãs. Esse esquisito julgamento de valores é fortemente alimentado em especial por quem veio de fora, ah mas na década de 60, ou setenta, e se apropria da ilha como se fosse sua. Então temos uma hierarquia de valores baseada em anos (ou gerações) de ilha. Talvez se os escravos do tempo da abolição soubessem que seria assim não teriam se mandado daqui, diminuindo na metade a população da ilha de 1888*. Imagina, ser caiçara desde 1888?! Se bem que, nesse ufanismo estrambólico reside uma desconcertante contradição, a condição de vida desses caiçaras não é em nada melhor do que a dos migrantes paulistanos.

São os migrantes baianos, mineiros e pernambucanos os principais alvo de preconceito (quando o assunto é bairrismo, porque preconceito é algo que abunda por aqui sendo difícil elencar o alvo principal). É visto como se fossem pessoas desprovidas de caráter que decidem se apropriar da riqueza da ilha. Como se sua vinda pra cá não fosse o resultado natural do investimento estatal histórico centrado em sp. Como se a condição de vida nos outros estados fosse maravilhosa. E como se esse modelo de desenvolvimento não forçasse a migração maciça de mão de obra barata ao degradar as regiões fornecedoras de matéria-prima. Todos esses fatores e outros que ainda ignoro são postos de lado na defesa raivosa de privilégios. Oxalá que o investimento (tardio) estatal dos últimos anos seja capaz de reverter essa situação, e as milhares de cisternas financiadas driblem a seca e sejam uma alternativa à migração forçada.
E oxalá que a cultura desses migrantes possa ser apreciada, admirada e compartilhada ao invés de seguir oprimida e escondida enquanto se realiza inúmeros eventos dos mais diversos temas para agrado do poder hegemônico.

* Uma viagem pela história do arquipélago de Ilhabela, Nivaldo Simões, 2005.

domingo, 4 de outubro de 2015

O benzedor

As histórias e mitos da ilha mexem comigo. Tanto quanto suas belas paisagens. Me pego imaginando o triste fim da rica feiticeira. Ou as aventuras dos piratas. As secretas conspirações dos escravos, as revoltas e fugas não contadas, mas que certamente aconteceram. As vivências dos índios. E nesse criar e compor me abandono por horas. Mas uma figura me instigou de modo especial. 

Foi uma colega da secretaria que o mencionou pela primeira vez. Ela iria procurá-lo para curar sua garganta. O João, benzedor. Talvez por gostar ou pelo menos simpatizar comigo e minha companheira de aventuras nos deu as dicas. Falou o endereço, "ele não gosta muito de benzer e por vezes diz que não faz mais isso, mas ele gosta muito de leite em pó. Leva uma lata como agradecimento e incentivo." 

Fiquei empolgadíssima e realmente feliz por ainda existirem pessoas que benzem! Uma arte que julgava perdida. Só que essa felicidade genuína, lhe asseguro, não me motivou a procurá-lo. Não por não acreditar na reza de seu João. Acredito, respeito e admiro. Mas porque me julgo bem de saúde, e me sentiria um pouco mal em explorá-lo para me sentir "ainda melhor".  Muitas pessoas me falaram dele em momentos diversos. "Me disse que estava com mau olhado, para tomar banho com (não me lembro o que) para limpar". E comecei a desejar conhecer esse homem. Eu queria que ele pelo menos me visse para dizer caso tenha algo errado comigo.

O CRAS daqui está se estruturando e organizando com esse tanto de gente nova que foi chamada pelo concurso. Por isso as atividades de grupo ainda estão sendo atenciosamente planejadas, e como orientadora social, eu e minha amiga recebemos a função de fazer cadastros (os famosos - para nós - Cad). Numa lista de mais de 400 endereços lá fui eu, buscar uma pessoa numa agradável rua sem saída, entre uma igreja e uma escola, tranquila como haveria de ser. Paro para comer algumas pitangas que saem de uma cerca enquanto ouço o som do que parece ser um ancinho de metal coçando o cimento. Sigo pela rua e logo encontro um senhor que parece meditar enquanto varre as folhas caídas na rua. Admiro um pouco, observando seu pequeno bolo de folhas crescer. Ele nota minha presença e continua, com calma como se tivesse tempo pra tudo. Me fazendo lembrar da história que os budistas adoram contar sobre:

"um homem que ia a galope num cavalo. Segundo a história, o cavalo corria tanto que parecia que o homem ia a um lugar muito importante. Uma pessoa que estava à beira da estrada grita para o homem: "Aonde você vai?". O homem que montava no veloz corcel responde: "Não sei, pergunte ao cavalo!". E se as histórias zen não bastarem para nos lembrar da futilidade dos nossos hábitos, os filósofos não nos deixam dúvidas. Henry David Thoureau afirmou: "O homem cujo cavalo trota um quilometro por minuto não leva a mensagem mais importante."*

Montada em meu cavalo metafórico penso que todos que trabalham devem ter pressa e me obrigo a interromper o momento. Confirmo que ele é quem procuro, explico quem sou e o que vim fazer. Ele me convida para entrar. Me sinto atravessando um portal. O terreno não muito grande é, provavelmente, o mais fértil e produtivo da ilha. Tem dezenas de árvores frutíferas e incontáveis galinhas ciscando felizes entre elas. Preencho o cad, desejando que ele esteja realizando uma analise profundo de minha aura para me dar um diagnóstico. Ele responde as perguntas, fala do passado, do presente e do futuro. Dia 05 (amanhã) é meu aniversário. Faço oitenta e um anos. 

Fico num conflito interno sobre o desejo de ser benzida e o quão inapropriado seria um pedido desse. Torço intimamente para alguma proposta dele, mas talvez esteja pensando no mesmo. Digo apenas ao me despedir que ouço muito falar dele, sempre muito bem, e foi uma enorme honra ter-lhe conhecido. Saindo reparo nas latas com mudas frutíferas, esperando calmamente para serem plantadas de modo que possam então desenvolver todo seu esplendor em rica generosidade. Nesse momento encontro minha meta de 2016. 

Em 2014 percebi o tanto de planos que aspiro. Eram tantos, mas tantos, que estavam todos entalados! Nesse lugar estranho, pouco acessível e cheio de armadilhas, que fica entre o planejar e o fazer.  Angustiada com o fato de querer ser vegana, praticar yoga, meditar, acabar com o sedentarismo, ler, limpar a casa, plantar, escrever, pintar e infinitas coisas que desejo fazer de maneira habitual, decidi que implantaria um hábito por ano. O que me parecia mais urgente e foi portanto elegido como meta 2015 foi caminhar/ me exercitar pelo menos 20 minutos por dia, os fins de semana podem ser sem regras. Só que sabe aquele papo de o que pede consegue e o universo conspirando a seu favor e tals? Pois então, o fato de viver numa cidade com uma orla maravilhosa, somada ao emprego (aparentemente confundido com agente comunitário de saúde) me fez ter sucesso absoluto em acabar com o sedentarismo! E quando começava a pensar na contribuição que 2016 poderia me dar me brilham as lindas mudas do seu João. Uma árvore frutífera por mês!!! Eis o que farei a partir de 2016. 

* esse livro de Mary Paterson chama-se Os Monges e Eu.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Ilhabela

Ainda lido com a ideia de não estar no Cassino. No Rio Grande do Sul. Me assusto com essa velocidade paulista. É fácil sentir a intensidade do capitalismo, ele permeia as relações humanas, fica no ar que os valores são outros. A exclusão da diversidade, o ter que se agiganta perto do ser, como se isso fosse óbvio. A veja sendo considerada fonte de informação o.O
E ainda tem a incomoda e desconfortável pergunta: Dá onde você é?
Já não sei responder. Sei que nasci em São Paulo. Vivi mais tempo em Araçoiaba da Serra/Sorocaba. Mas, me formei e me consolidei em Rio Grande! Da onde sou?

Com 3 meses de ilha começo a identificar o charme do lugar. É uma associação engajada na causa animal aqui, um bar alternativo e com história ali*, uma ONG forte e consolidada voltada pra cultura popular, um discurso sóbrio da assistente do judiciário na conferencia da assist. social, um evento com pegada anárquica que domina a orla a cada 45 dias, e em especial, uma equipe técnica em assistência social afim de fazer coro à participação popular.
E desse modo, conhecendo ilhabelenses caroneiros de opinião afim, vou me tornando um pouco mais ilhabelense também. Me incluindo nesse espaço tão visado. Me identificando no brilho dos olhos dos que sonham, e que vivem ideologias e vislumbres de uma sociedade justa, livre, fraterna.



*o Casa Aberta no Perequê funciona nas estruturas da 13ª casa da ilha, lugar que funcionou como casa de parto, trazendo à vida muito dos caiçaras!