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sábado, 27 de outubro de 2018

O perigo da Sororidade

Ouviram minha história. Num sábado, sem muita pretensão fui a um encontro com mulheres. A proposta linda foi sugerida por uma mulher forte e sensível, que eu muito admiro, a Tata. Criou uma chamada no face, no grupo de whatsapp "Mulher, quero ouvir tua história", um encontro de cuidado no qual uma mulher recebe cuidado das outras, enquanto fala sua história.

Reconhecendo a extrema carência social desses momentos de cuidado a proposta me cativou. E como ninguém se prontificava a começar eu aceitei. Claro que eu branquinha de classe média, toda privilegiada, com as contas em dia, em um relacionamento estável não preciso de cuidado, imagina!! Rá! Mas tão boa pessoa que sou, queria mesmo era servir, e do alto da minha "bem resolvidisse" percebi que os encontros só rolariam se alguém começasse, eu não gosto de falar e amo ouvir, o que aumenta o altruísmo do meu gesto! Não faria por mim, faria pelas outras!!!

Cheguei num espaço arrumado, com comidinhas saudáveis (do jeito que havia dito que gostava), chá quente, e haviam mulheres e crianças. Conversamos a toa, até que fomos conduzidas ao propósito: me escutar. 

Por alguma estranha razão sempre achei que pensar em mim fosse algo muito feio a se fazer, como se me tornasse uma pessoa má e egoísta! Fui por anos me arrastando pela vida, me ignorando. Recebendo um feedback bastante positivo, ninguém a minha volta parecia mostrar qualquer interesse pelos meus sentimentos. Por isso foi bastante estranho reconhecer que sim, aquelas mulheres realmente estavam dispostas e interessadas em "desperdiçar" seu tempo me ouvindo, não pra me julgar e espalhar fofocas por aí, mas por sororidade. Achei que pudesse falar cinco minutos, onde nasci, onde morei e o que estudei e pronto, estaria livre para ouvir as amenidades. Mas não foi assim, não escapei do mergulho profundo, com muito talento a Tatá colocou uns papeis na mesa e faria uma linha do tempo da minha vida. Conforme eu falava ela desenhava. E haviam perguntas. Foi muito, muito, muito inusitado ser vista, por outras e por mim mesma.

A narrativa foi truncada, travada, difícil. Eu achei que depois das seções de terapia eu conseguiria falar fluentemente sobre minha história. Mas não! Eu me esquecia, quando resgatava um momento vinham sentimentos que eu nem sabia que tinha sentido, a frieza e a racionalidade com que eu via a minha vida ficaram inibidas. "O que vc gosta de fazer? Que música vc gosta? Qual sua comida favorita?" Eu, constrangida, respondia qualquer coisa, mas o que eu pensava era "não tenho a menor ideia", como se eu não existisse. Eu senti pena de mim, a compaixão que eu me esforçava para sentir pelas outras apareceu! Empatizei comigo mesma. Vazia. Uma pessoa vazia (emocionalmente) com um porão cheio. Cade aquela "bem resolvidisse" que minhas autoanalises me indicavam?   Foi muito inquietante reconhecer que a mulher "bem resolvida", boa samarita, movida unicamente por altruísmo era uma distorcida projeção. Com um discurso de empoderamento e liberdade, eu me anulava, me submetia, ignorando minhas opiniões e sentimentos. Uma criança ferida precisando de cuidado, frágil e vulnerável. Que imagem...

Percebi que as mulheres foram contagiadas pela grave introspecção com que eu me acostumei a viver. Mesmo depois de encerrada a confusa narrativa, não se retomou a conversa fácil e fluida de antes. Acho que alguma coisa acontecia na minha alma, fusionada às almas presentes e ausentes. Tudo é um processo, mas em alguns momentos o processo se desenvolve de modo mais rápido e intenso. O encontro durou muito mais tempo do que havíamos planejado, alguma coisa nos mantinha naquela conexão, uma coisa muito misteriosa que eu não estou certa de como nomear, cura, talvez...

Depois de anos sem conseguir cantar, naquela noite eu dancei no banheiro, sozinha e pelada, cantando no chuveiro, rebolando de um lado pro outro, sentindo prazer e alegria em ser. Eu tenho certeza que aquele momento me fortaleceu, me motivou a existir! A assumir o papel central da minha história, a roteirista/protagonista. Viver o discurso do empoderamento. O discurso é fácil e lindo, todo mundo aplaude! Mas sua materialização não é tão simples, é bastante caótica e complexa. E nós não fomos educadas na complexidade do caos, nossa sociedade não acolhe o caos. O caminho para a felicidade verdadeira passa por rupturas que podem nos levar a uma confusão tão forte que sem suporte beira a loucura. E isso que chamo de suporte não tem receita, não é algo estruturado, certo e seguro. É essa magia de encontros como esse, de amizades acolhedoras.

A sororidade é de uma potencia revolucionária, avassaladora. Extremamente perigosa, ela é a força capaz de romper os padrões que nos afastam de nossa essência, da plenitude.

"O que você falaria pra Évellin adolescente?"
"Acredita, confia em você!"
"E pra Évellin de agora?"

Sorri e me senti motivada para finalmente fazer isso. 
Ouvir meu corpo e meus sentimentos.

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Numa aula dessas... feminismo

Sentadas em roda, a mediadora nos disse que existem várias definições de feminismo, e é algo até muito pessoal. Nos pediu para que disséssemos o que o feminismo representa para cada uma. Eu fico nervosa com essa história de falar em público, não expresso com a clareza que gostaria e é comum achar que falei algo meio besta. Tentei bolar rapidamente um discurso coerente, rápido, que me livrasse logo do desconforto e me garantisse alguma eloquência. A palavra foi rolando. E todas as coisas que eu havia pensado foram sendo ditas: liberdade, empoderamento, autoconhecimento, luta, sobrevivência, emancipação. A cada fala eu me conectava ainda mais comigo mesma, pensando minha história, minha vida, minhas escolhas, meus sentimentos.

Simone de Beavouir me alertou da crença implícita, não dita, mas profundamente arraigada que trazia em mim, a crença na superioridade masculina. Essa crença pesada, que me foi sorrateiramente inculcada nas pequenas falas, nos discursos, no desenho social,  me subjugou pesadamente por muitos anos. Eu realmente acreditava que os homens sempre tinham razão, eu me calava para ouvir e prontamente deixava de pensar para atender e servir ao pensamento do outro, sem questionar, sem duvidar. Assim que um homem falava minha mente anuviava, os argumentos se desfaziam no ar, meus pensamentos e sentimentos pareciam bobos demais para serem ditos.

Os meus sentimentos são constantemente menosprezado pelos homens. A mim nunca foi ensinado, se quer oportunizado verbalizar meus sentimentos, por isso tenho muita dificuldade, apesar de reconhecer a importância. Quando com muita dificuldade e enorme esforço me exponho e digo, dou de cara com o muro da defensiva, agressivo e hostil. Preciso de muita força pra destruir esse muro e alcançar o acolhimento. Já ouvi "não, você não está sentindo isso". Em outros tempos ficaria confusa, afinal se ele está dizendo deve ter razão. Essa tendência de negar e oprimir os sentimentos para evitar o conflito, não ofender, como se a responsabilidade do sentimento alheio também fosse minha. Minha obrigação em ser dócil. Agora, com armadura e marreta eu me empodero dos meus próprios sentimento e dou-lhe marretadas, afim de romper o muro que nos distancia e alcançar empatia e conexão. Às vezes a mão me sangra e o muro me engole.

Tomei decisões pouco ortodoxas e bastante radicais em busca de liberdade, felicidade e plenitude. Entrei num mundo novo e desconhecido, a narrativa hegemônica perdeu o sentido e não há caminho traçado. Caoticamente tudo é possível, o caminho agora só se mostra no caminhar. Percebi em olhares conservadores julgamento, hostilidade, como se eu tivesse me tornado uma ofensa. Isso me assustou. É com olhar do outro que vamos construindo nossa visão de nós mesmas. Quem sou eu, agora?

Chegou minha vez de falar. Meu coração parecia querer sair do peito para pulsar no meio da roda, pintando tudo de vermelho. O sangue enchia minhas veias, eu irradiava calor. Mesmo assim, neguei a resposta pronta e fácil.

O feminismo pra mim representa o apoio que necessito para não sucumbir ao que está dado. Me auxilia a me manter firme, me guiar pelos meus sentimentos e ouvir o que pede meu corpo.

A roda se desfez e em grupo, lemos um texto do qual sacamos elementos importantes para pensar o feminismo, trago alguns que nosso grupo identificou:

- Relação de poder;
- A ciência é androcêntrica, heteronormativa, etnocêntrica e classista;
- Simultaneidade da opressão (sexo, raça, classe, cultura);
- A identidade não é estável, nem permanente (aqui sou branca paulistana, na europa sou latina, posso ser hetero hoje, me descobrir homo amanhã...);

A aula seguiu e fui observando o quanto que o modelo hegemônico, capitalista, patriarcal desvaloriza as atividades de cuidado e reprodução, priorizando a produção. Isso afeta como se dão as relações. Raça, sexo, classe social, grupo cultural, origem são elementos que nos ajudam a identificar as tendências de opressão.

Pressinto que nesse domingo não é só o rumo da política econômica que está em jogo. É também a pressão para sucumbir aos padrões hegemônicos, à superioridade masculina. Em uma narrativa reconheço o fortalecimento na desvalorização do cuidado, percebo o olhar que me oprime, uma valorização da coisa, da posse, os altos e robustos muros sendo erguidos com a força do ódio e da exclusão. Em outra percebo que o diálogo se destaca, e com isso o respeito aos sentimentos, ao feminino, à liberdade de ser e a felicidade terão mais voz. É da ordem da percepção, da intuição, dos sentimentos. O que sinto nas falas, na condução das campanhas, nas conversas com eleitores. E o que sinto tem tanta importância quanto os argumentos racionais.

terça-feira, 11 de setembro de 2018

O que eu realmente quero pro meu filho?

Como algo tão abstrato é também tão palpável. E é de fato meio assustador deixar guiar a vida pelo o que nem conheço bem, e sequer sou capaz de definir: felicidade.

Enquanto caminhava pela areia quente da praia, em um dos horários de almoço, nos quais eu não almoçava para ter tempo de refletir, me perguntava o que eu quero proporcionar pro meu filho. Ele tem apenas dois anos, mas eu já devaneei demais. Já pensei que sinto tanta falta de saber algum instrumento que preciso garantir à ele educação musical, ele corre bem e é bastante atlético, e pensei que devemos aproveitar esse dom - inscrevi na aula de natação, e já pensei que ele vai usufruir muito de uma boa eloquência... Como passar esses conhecimentos que nem mesmo eu adquiri?

E nisso fui pensando, se precisava voltar pra São Paulo onde se tem boas aulas com especialistas de qualquer coisa, se precisava de mais dinheiro pra pagar uma boa escola. E fui pensando, se precisava de garantir uma boa herança para ele ter tranquilidade e fui pensando no que eu gostaria que ele fosse. Fiz então o exercício de me imaginar conversando com um Gabriel adulto, como eu gostaria de vê-lo... Me surpreendi!

O que eu gostaria de ver não era exatamente um homem rico, casado, com filhos, talentoso, reconhecido, culto, viajado, vencedor, não... Essas coisas não me pareceram essencialmente importante. O que eu quero mesmo, mesmo mesmíssimo, é olhar no rosto dele e encontrar um olhar vivo e brilhante, eu quero reconhecer no sorriso dele a felicidade! "uma consciência plenamente satisfeita" como diz o Houaiss!

E como é isso de ser feliz? Como construir esse caminho? Tem aula de felicidade? Quanto custa? O que posso eu fazer para prover isso? Na minha cabeça fiz alguns discursos, para cada idade uma linguagem! Mas, nenhum discurso me pareceu suficientemente bom para convencer alguém à ser feliz.

As escolhas!

Dei-me conta de que ele teria que fazer escolhas, e eu não quero ter controle sobre as escolhas dele, mas eu quero que ele escolha sempre por ser feliz. Se não posso ensinar isso em discursos, devo ensinar com meu próprio exemplo. Foi então que eu me vi na vida dele, ou melhor, vi ele na minha. Um ambiente de trabalho hostil e desumano, sem tempo pra educar e se divertir com o filho amado, oprimida e subjugada. Como eu poderei olhar nos olhos do meu filho, daqui 20 anos e dizer pra ele fazer as escolhas que eu não fiz, quando poderia ter feito? Fraca, hipócrita, infeliz e cheia de remorso, que porra de mãe, de mulher é essa?

Nietzsche: A minha felicidade, porém,
deveria justificar a própria existência
Eu precisei da maternidade para entender qual o sentido, o propósito da vida. Viver a felicidade! E isso só dá pra ser aqui e agora. Não existe o menor sentido em esperar, não é num suposto paraíso que seremos feliz, nem depois de aposentar. A felicidade precisa ser vivida aqui e agora. E eu não sei exatamente o que fazer para alcançar e manter esse estado de espírito, eu não sei, mas eu sinto, intuo, farejo e vou seguindo as pistas. Já percebi que não está no poder de consumo, já percebi que a relação com as pessoas tem um impacto bastante importante, nesse estado de espírito. Não é exatamente fácil e confortável, não é compreensível, explicável e nem tem como racionalizar. Pode parecer egoísta e irresponsável, mas a verdade é que o tempo vai passando, a juventude já virou passado, eu sou uma pessoa adulta e serei idosa, e vou morrer. O que vem depois é impossível de se garantir com certeza e eu realmente não quero arriscar de passar toda uma existência esperando uma felicidade num além mundo... Eu quero ser feliz aqui e agora, e acho que isso é o melhor que pode acontecer comigo e com todos os seres vivos que convivem comigo. 





sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Me recuso a sentir vergonha do meu corpo

Murmúrios.
Imagens de revista.
Olhares assustados.
Discriminação.
Silêncio.

Indícios de que eu deveria sentir vergonha do meu corpo.

Deixei de me depilar quando percebi que o poder de decisão sobre meu corpo pertence a mim.

E faço simplesmente porque não gosto da sensação de perda de tempo, não gosto da dor da água salgada cicatrizando os microcortes, não gosto de monitorar o crescimento de pelos, não quero usar meu dinheiro com isso e por outro lado não me incomodo com eles. Me parece tão simples, razoável e coerente.

Tem dias que acho até engraçado imaginar alguém falando do pelo de outra pessoa! Eu rio imaginando um sovaco como pauta de conversa maliciosa "nossa, vc viu a sovaca dela?" hihihihi "puxa, que cabeluda" hohoho "imagine lá como não é?!" hahahahohoho "o namorado isso e aquilo"... E talvez a conversa possa ir longe onde só a podridão humana pode alcançar....

Outros dias, não tão bons, eu fico com pena. Pena dos guardiões do padrão hegemônico de beleza. Pena de quem se deixa oprimir e reproduz a opressão. Pena de quem não se liberta para viver o próprio corpo. Pena de quem precisa se fantasiar de boneca para manter uma relação.

Mas, nem sempre o mar está pra peixe. E existem alguns dias. Alguns poucos dias, que eu vacilo. E sinto uma enorme pressão de ter vergonha. Vergonha do meu corpo. Do meu uso do meu poder de decisão, reflexão.
Porque eu sou assim?
Por alguns segundos penso que eu tenho o poder de decidir mudar, me depilar, alinhar os dentes, tratar as manchas da pele, adequar o cabelo e a roupa. Só que eu não sinto tesão nenhum de fazer isso. E poucos segundos depois o mundo já me mostra infinitas possibilidades mais prazerosas do que ficar raspando uma porra de uma lâmina fria por toda a minha perna.

E porque diabos eu deveria ter vergonha do meu corpo?
Para que serve um corpo?
Pra agradar a quem?

Eu sinto vergonha.

Sinto quando faço um comentário maldoso. Quando no escuro do quarto, cansada de trabalhar não respondo com aquele carinho e paciência à enésima solicitação manhosa do bebê. Sinto vergonha quando minha resposta sai mais ríspida e atravessada do que a ocasião pede. Sinto vergonha quando me omito para não me indispor. Sinto vergonha quando me pego me imaginando na vida do outro.

E acho que são vergonhas muito mais nobres.
E teria vergonha se jugasse e murmurasse sobre a aparência física de alguém.

Dessa vergonha eu não sofro mais ;)





quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Cento e vinte dias

A distância me fere
O seio cheio
Leite suor e lágrima

Você grita pela casa
o amor que quero dar

Nosso querer recíproco
Olhar, tocar, beijar, cheirar, mamar

Você busca, chama
Chama que arde minha alma

Quem é capaz de escutar
De ver a magia no nosso encontro
A distopia da separação

Uma só alma
Rachada, quebrada, partida

Que se recompõe a cada fim de tarde
Para se destroçar na manhã seguinte

Ilhabela, 23 de janeiro de 2017.

Meu bebê iria completar seus nove meses, e desde que ele tinha cinco e meio eu o abandonava diariamente à 7:30 da manhã. Ele aos berros, eu sustentando um sorriso falso. Ficava com o pai desempregado. E eu ia "bater o dedo" e cumprir horário num emprego em que eu me sentia constantemente subjugada. Me machuca saber que isso foi uma opção, é verdade que pagar o aluguel e as contas é uma demanda real, mas eu poderia abandonar o emprego e ir morar com meus pais. Mas eu optei por sofrer diariamente a violência de deixar o bebê sem a mãe todos os dias, muitas horas no dia.
As leituras sobre como bebês são fusionados com a mãe, a gestação externa, a importância de um ambiente tranquilo e amoroso, a formação do cérebro, a construção do vínculo, o efeito tóxico do estresse etc me deixam muito mais insegura e frustrada.
QUATRO MESES
Desde que o bebê nasceu, não antes disso, eu sofria com esse prazo. E não era a toa. Não consegui relaxar, o fim da licença maternidade foi um fantasma constante deixando meu puerpério ainda mais sombrio. E pode ter sido isso que o bebê manifestava em choros estridentes. É como aquele sentimento esquisito que acompanha um calafrio subindo pela nossa coluna, quando no silêncio do quarto, deitada na cama pensamos "eu vou morrer" e essa morte é tão real que nosso coração dispara para provar que ainda vive. "Vai acabar a licença" e o bebê não ergue o pescoço, não fica mais de uma hora sem me solicitar. Como vai ser pra ele esse sumiço brusco?
CENTO E VINTE DIAS
É o período que as instituições acreditam ser suficiente para um ser humano conseguir viver sem a mãe. Que a mãe depois de parir já consegue voltar à suas atribuições. Assim como se nada tivesse acontecido. Como se sua alma não tivesse em frangalhos, como se seu corpo físico não tivesse modificado, o seio vazando leite. Me senti bem insegura: será que nunca mais vou conseguir ler e escrever como fazia antes do parto? O raciocínio lógico, linear, lincar textos, notícias, fatos me escapava pelos dedos. Fiquei até um pouco feliz, só conseguia expressar sentimentos pela poesia, mas insegura, por não saber quem eu seria sem a habilidade ler textos complexos. Me surgiu a oportunidade de trabalhar com uma chefe que eu tenho muito mais afinidade. Uma pessoa humana, que valoriza o diálogo e olha no olho quando fala. Me lembro exatamente o dia que consegui ler um texto até o fim e compreendê-lo e falar sobre ele. 15 de março, o Gabriel tinha 10 meses e meio.
Hoje, nesse momento, estou num trabalho que gosto. O Gabriel fica na creche pela manhã, desde um ano, acho precoce. Ainda assim, quando minha amiga voltou pra Ilhabela, tentar reassumir seu emprego e no segundo dia estava absurdamente estressada eu apoiei sua exoneração. "Sempre quis um emprego público" ela me disse enquanto assinava o pedido. E tinha sentimentos muito contraditórios. Por um lado eu estava feliz por ela, e sentia até um pouco de inveja que poderia viver em plenitude a maternidade, por outro uma dúvida sombria me impedia de sorrir e aplaudir. Seria positivo abrir mão do trabalho? Ela que atuava com louvor na área que havia se formado, uma assistente social humana, empática, agora se queixa de estar desempregada e não contar com o próprio dinheiro pra comprar um grampo.
O Gabriel e o Joaquim e tantos e tantos outros bebês são privados de viver uma convivência harmoniosa e plena com suas mães tranquilas, seguras e satisfeitas.
Quatro, seis meses é um período ridiculamente curto quando se trata de puerpério, de convivência entre mãe e bebê. Por isso muitos países já adotaram licenças que ultrapassam um ano, e isso não acarretou uma influência negativa em suas economias. Porque não se trata disso.

A decisão política de manter um período ínfimo de licença maternidade é machismo.

Não é sobre o quanto o saber de uma mulher faz falta no desempenho de sua função.

Não é sobre o impacto econômico de pagar o período de afastamento.

É violenta, burra e prejudicial, social e economicamente.




sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Terceira crise.

Faltando dois dias para encerrar minha licença maternidade, impossível não me perguntar 

“como me meti nisso?”

Tentei desesperadamente, ao longo desses 4 (sim, míseros 4) meses ignorar o fim da intima convivência com meu filho. Mas chegou. Juntei 15 dias de amamentação, com 30 de férias, como se fosse um divino presente do qual eu devesse ser muito grata, mas acabou. Segunda feira volto a rotina, 1 hora de deslocamento, 1 de almoço, 8 de “trabalho” e lá se vão 10 horas do meu dia. 10 horas longe do meu bebe, que ainda é extremamente dependente de mim. Estive esperando por um milagre, que ele fosse um prodígio que se alimentasse sozinho e não precisasse do cheiro, da voz e do ritmo cardíaco do casulo que lhe gerou a vida. Mas não, ele não é nenhum prodígio, é um bebe de cinco meses e meio que fica assustado longe da mãe, procura o peito para se alimentar e não consegue dormir sem se sentir absolutamente seguro. Cada vez que eu olho as horas um arrepio frio percorre minha coluna e se concentra nesse enorme nó formado na minha garganta, penso “eu já teria saído” e “eu ainda não teria chego”, enquanto ele mama, me olha, me toca, me cheira, me ri, me chora, me dói, me escorrem as lágrimas graves, espessas. Eu deveria ficar feliz que ele vai poder ficar com o pai, mas só consigo sentir revolta.

Eu, formada em oceanologia, mestre em gerenciamento costeiro, vou voltar para o CRAS, no meu emprego de nível médio, ganhando 2 salários mínimos. E volto a me perguntar, 

como cheguei aqui? 

Retomo todas as escolhas que me guiaram para tentar descobrir se vale a pena seguir nesse "caminho que eu mesma escolhi".

Oceanologia, excêntrico! Foi por me sentir tão deslocada da sociedade. Estranha na família, estranha com amigos, sem saber lidar com pessoas, sem ver sentido na sociedade, e achando que o problema era eu. Que curso maravilhoso, interessantíssimo, com colegas maravilhosos e um buraco. Aprendi a usar a biblioteca, criei gosto por estudar. Mas, depois de formada fiquei meio perdidona sem saber bem o que fazer com aquele papel bonito, chamado diploma. 

Primeira crise.

Mestrado é o que (quase) todos fazem. Eu queria esperar meu companheiro se formar, gostava da nossa rotina, da nossa casa, do nosso bairro, de acampar no mato. Gerenciamento Costeiro foi uma opção menos academicista. Li Paulo Freire, Henri Ascelrad, Pierre Clastres, Henry Thoreao, Tolstoi, Gandhi, La Boétie, clube de roma, me envolvi com a turma de Educação Ambiental, grupo de estudo sobre o poder, fiz teatro, coral, vi a revolta contra a copa. Tapei o buraco, meu ser político acordou com uma fome monstruosa, comendo tudo a sua volta. Minha dissertação se transformou num caderno vermelho que objetivamente desacreditava o “selo verde” de “pesca sustentável”, e entendi o horror por trás da palavra Mercado. 

Segunda crise.

O papel bonito perdeu todo sentido, não me identifiquei como oceanologa, não alimentava meu ser politico, me distanciava do que eu precisava. Pensei cursar sociologia, talvez devesse. Mas o pânico de seguir eternamente desempregada – o que dificulta sentir a segurança necessária à uma taurina para constituir uma família – me fez buscar um emprego em algo social. Orientadora social! Concurso de nível médio. Quanto mais eu lia sobre a Política Nacional de Assistência Social mais me apaixonava, me identificava. Fui tomada por uma vontade incontrolável de passar meus dias juntando prática com teoria e de forma lúdica, prazerosa e criativa empoderar as massas oprimidas que se amontoam na periferias. Pimba! Vim parar em Ilhabela. Enredada numa politica confusa. Passados 12 meses não empoderei porra nenhuma, talvez tenha até perdido um pouco do poder sobre eu mesma. Terei que voltar pra esse cenário onde o poder é totalmente desarticulado da execução, não há escuta, há uma gestão top down, aparentemente sem plano nem conhecimento técnico, teórico. E o pior, às custas da saúde emocional do bebe que me foi confiado. 

Terceira crise.

Hoje, depois do seu primeiro (e desesperadamente precoce) banho de mar, ouvi encantada a gestante, mãe de uma guria loira de 2 anos, que nadava nua e se entrosava com todo mundo da praia, como era sua vida no sítio, sem escola, sem emprego, sem internet. Com tempo, com vínculo, com Vida.

Nesse cenário me pergunto aflita, com as costas tensa, a garganta rota, os olhos marejados. Será que eu ainda acredito na Politica Nacional de Assistência Social? Será que eu ainda acredito em uma revolução suave partindo do Estado? Ainda mais depois do impeachment? Será que tenho outras opções? 

Tenho medo da mãe que o cansaço pode me tornar, muito medo, da mãe que eu não quero ser, medo da saudade da mãe que eu sou e dos momentos que não viverei, dos momentos que o bebe não viverá. Tento juntar forças para lutar. Lutar por 6 meses de licença, lutar pela humanização do Estado. Mas me vem uma dúvida, vale a pena? É possível? Talvez a única coisa real seja o alimento crescendo no solo e os momentos vividos com vínculo e liberdade.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

O pré-natal pelo SUS de Ilhabela.

Minha menstruação atrasou, no quinto dia passamos na farmácia comprar um exame de urina. Fui por farra, pois tinha cá comigo que sentia até as cólicas. No entanto, o exame deu positivo e eu mergulhei num mundo a parte. Não fiquei exatamente feliz e nem tão pouco frustrada, fui transportada para uma tênue linha entre esses dois estados emocionais. Fiquei lá, de perna bamba e braços estendidos tentando me equilibrar. Em verdade eu estava bem habituada a esse “lugar”, é onde costumava ficar quando o assunto era filhos. Nem queria, nem desqueria.

Na mesma manhã fomos ao postinho. Falei meio desconcertada na recepção que o exame de urina tinha dado positivo. Atualizaram meu cadastro do SUS e já fui encaminhada para o que seria minha primeira consulta pré-natal. A enfermeira atenciosa e um tanto divertida me pediu para fazer outro exame de urina. “É isso mesmo, vc está grávida! Quando foi sua última menstruação?” Devo ter continuado com aquela cara de quem se equilibra num slicke line muito alto, mas acho que ninguém reparou, a conversa seguiu como se estivéssemos tomando um chá discutindo sobre a novela. Fui pesada, mediram a pressão, tomei vacina, encaminharam um pedido de exame de sangue, urina e fezes. Ao final, peguei uma declaração pra levar no trabalho. Quando li na declaração consulta pré-natal senti um nó na garganta, ainda não tinha processado adequadamente essa informação, as pessoas mais queridas não sabiam de nada, mas a chefia já saberia, naquele mesmo dia. Por sorte o drama na minha voz enquanto repeti alto o “pré-natal” não foi ignorado, e a recepcionista fez outra declaração mais discreta.

Pensei algumas vezes, comigo mesma, se deveria mesmo levar aquilo adiante, ainda me equilibrando. Só que esses pensamentos não tiveram espaço, pq meu relacionamento com meu companheiro é tão lindo e tão gostoso. Eu amo ele, e gerar um filho com ele é uma possibilidade divina. Tenho emprego e suporte da família. Porque eu ainda estava pé ante pé, me equilibrando?! Os problemas do mundo, o desejo de não ter nascido, qual o propósito da vida, essas questões paralisam. Foi numa aula de teatro, dentro da ONG Pés no Chão, todos sentados/deitados em roda no chão falando sobre a peça, nesse momento eu acreditei. Olhando aqueles olhos jovens e brilhantes, sentindo a energia dos que fazem algo por gosto, sem visar lucro, dos que riem fácil. Cada um e todos tinham nascido, havia uma mãe que tinha aceitado parir cada um deles. Se não, não haveria teatro, não haveria olhos brilhantes que acreditam na beleza do mundo, cabeças apoiadas nas barrigas, as costas no chão. Certo, aceito e agradeço. Acredito no mundo e no ser humano. Minha decisão foi tomada, eu aceito! Sai da fina linha para explorar o espaço da gestante feliz.

Liguei no RH para perguntar do convênio, não lembro o valor, mas pra quem põe 50% do salário no aluguel, era alto. Além do mais o período de carência para parto é 10 meses. Dado que eu não sou uma baleia, isso significava simplesmente que não iriam cobrir o parto de quem não se planejou. No caso eu. Ah mas quer saber de uma coisa? Quem não quer contribuir com o lucro dessa empresa sou eu. Usufruir desse privilegiosinho, fomentar a desigualdade. E afinal, como funcionária pública que atua dentro de um órgão público eu vejo pessoas que buscam excelência no desempenho de sua função, até mais do que em frias empresas privadas. Além disso, mamíferos dão a luz todos os dias nos recônditos dessa exuberante natureza sem gastar um tostão furado, e nascem filhotes fortes de mães saudáveis.

A próxima consulta foi com a médica. Não foi no postinho, foi na santa casa. Cheguei as oito e meia, uns 15 minutos depois fui pesada, pressão medida. E logo fui atendida. O atendimento foi mais rápido e impessoal do que eu gostaria. Enquanto a médica preenchia minha carterinha de gestante eu bolava algumas perguntas para aproveitar o máximo da oportunidade, questionei se tinha problemas andar de bicicleta ou ser vegetariana, sem problemas, para minha alegria. A resposta foi rápida e curta, sem contato visual, afinal tinham mais umas 10 gestantes esperando fora do consultório. Minha mãe estava comigo e ficou impressionada, gostou do tempo curto de espera, gostou do local e da médica, ela comparou com as consultas caras e particulares da minha irmã em São Paulo e me disse sorrindo, “lá ficamos mais tempo esperando e as consultas não são muito diferentes”. Isso me deixou confiante de minha decisão, e escondi minhas críticas lá no fundo.

A partir daí fomos seguindo um mês com a enfermeira engraçada, um mês com a médica apressada. Senti falta de ser informada, de conversarem comigo olhando nos meus olhos, interessadas pelo que eu teria a dizer ou a ouvir. Nada sobre as fases do desenvolvimento do feto, sobre como eu poderia vir a me sentir, nenhum conselho sobre alimentação ou explicações mais atenciosas sobre minhas dúvidas. Talvez haja um trabalho mais especifico nesse sentido com o grupo de mães, realizado no PEI. É público, mas não fui informada dos horários de reunião “porque você trabalha e não poderia ir”.

Os exames de sangue são feitos num local bastante agradável, por enfermeiras atenciosas, e apesar do número de pessoas assustar a espera é pouca. Outro dia presenciei algo interessante:
- Pra fazer o exame de sangue...?
- Precisa pegar uma senha.
- É particular!
- Precisa pegar uma senha.

Ao ligar na santa casa para agendar uma consulta - porque as agendas do mês são abertas na última semana do mês anterior, então as vezes não conseguia sair de uma consulta com a próxima marcada – me perguntaram algo curioso: “é particular ou convênio?”. Hum, seria o acesso a um atendimento mais atencioso?!

Os exames de ultrassom tiveram variação de tempo para marcar. No morfológico eu quase perdi o período adequado. Que ainda não sei afinal qual diferença desse exame para os outros. A sala do exame é pouco agradável, tem um equipamento enorme ocupando quase a sala toda repousando eternamente sob um lençol branco. O tratamento é bem impessoal, quase 30 gestantes são marcadas para o mesmo horário, e por isso passamos mais de uma hora esperando.

Sobre o parto, aguardemos. A obstetra que é a chefe da maternidade me garante, sempre que eu tento conversar sobre os procedimentos do parto me garante que o hospital trabalha com um atendimento humanizado. “todas as equipes?” “Sim, se não, não é nem contratado”. E exatamente nessa semana a maternidade entrou em reforma. Ainda não entendi bem o propósito dessa ampliação, uma vez que vai continuar com apenas um quarto de parto. Os leitos passarão de 8 pra 11, mas isso eu não sei se faz tanto sentido...


Nesse momento final as consultas passaram a ser exclusivamente com a médica e quinzenais. Acredito que em alguma consulta receberei um atendimento mais atencioso, talvez elucidando detalhes dos procedimentos do parto e do cuidado com o bebê. 

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

A Beleza


Quase não podia acreditar nos meus olhos. Era uma visão muito bonita. Estonteante. A mais bonita que já vi? E a água fresca, límpida, pura, pura, pura, que se movia num redemoinho perfeito. Precisei ficar muito tempo, paradinha, só absorvendo, vivendo. Toda aquela mata, as andorinhas brincando, rápidas, ágeis, livres. A visão do mar, a altura. O som! Nenhum pouco agressivo, não era uma cachoeira furiosa. A água fluía, escoando harmônica por uma rocha arredondada como um enorme elefante. Sem perigo, sem adrenalina, era espaço de ocitocina.

Estranho ter vivenciado isso e me sentir tão inquieta e irritadiça. Depois de um dia desses, com caminhada na mata eu deveria estar relaxada, desejando o repouso tranquilo. Mas não. Me mexia em casa, sem saber bem o que fazer. Tirava as coisas do lugar e tornava a por. Não queria papo. Tentei uma meditação guiada e por pouco não atiro o celular na parede, que chato. Yoga, e abre a pélvis e mexe que mexe, e deita levanta. E bufo. Deito na rede abro o livro, um capítulo parece uma tortura.

O que está acontecendo?

Não pude escapar de uma auto analise. Tive o dia mais maravilhoso que podia imaginar e porque me sinto assim?

Pensar que a cachoeira está lá com aquela beleza indescritível. E aqui, a cidade, essas ruas, essas paredes, esses tetos. São feios, feios, feios. Essas mulheres de revista, podem produzir o quanto for, cirurgia, artes plásticas, feias, feias, feias. Estou obcecada com a beleza daquele lugar. Sem lógica, sem plano, sem fibonacci obviamente visível. Quantos lugares não são assim e nunca verei, nunca viverei? Quantas águas fluem nas paisagens mais divinas e jamais porei meus pés para sentir sua temperatura, a brisa fresca e admirar a beleza. Real. Quantas outras não deram lugar a cidades feias, feias, feias. Por mais que houvesse alguma boa vontade com paisagismo e lagos. Quantos rios não viraram desertos verdes, de eucalipto e outras monoculturas feias, cercadas e feias.


Me incomoda não estar lá, não olhar aquele horizonte, não ouvir aquele som. Ver paredes, mesa, computador, ouvi motores acelerando, sentir um frescor falso do ar condicionado. Feios, chatos, claustrofóbicos, mentirosos, mortos e agressivos. Nesse momento, só de existirem me agridem.

domingo, 3 de janeiro de 2016

Calar e sorrir

Em sua boca devidamente (exaustivamente) bem cuidada um belo e doce sorriso. As poucas palavras que dizem são amorosas para concordar ou demonstrar interesse entusiasmado pelo que escuta. E tudo assim está em ordem. Não se ofende quando respostas ríspidas dão a entender a estupidez de sua pergunta, apenas sorri. E assim faz se a harmonia. A custa de suas palavras não ditas, de seus sentimentos sufocados no peito, de seus sentimentos anulados e reprimidos. À isso chamam-se paz, da qual a oprimida é proibida de participar.

Em uma sala com 7 mulheres e três homens, observei um tanto incomodada, como a palavra era pronunciada pelo sexo masculino em 90% do tempo. Ele discursava defendendo o feminismo, sem abrir espaço para manifestação feminina. A cada vez que uma de nós tentava pegar a palavra e participar da conversa, não havia escuta. Eu sentia minha boca sendo esmurrada diversas vezes, perdia os argumentos e as histórias e experiências que gostaria de narrar com o propósito de enriquecer a conversa e participar. Isso me deixava tão nervosa que as poucas coisas que consegui dizer sairam num tom histérico e agressivo, enxugado e resumido para poder ser concluído nos poucos segundos de atenção que eu receberia.

Raros são os espaços em que me sinto escutada. Enquanto por outro lado sou firmemente obrigada a escutar com atenção, interesse e respeito a todo o momento, todas as pessoas. Mesmo quando as ideias proferidas me ofendem. Calar e sorrir, em nome da harmonia. Se porventura me arrisco a manifestar alguma discordância logo me sinto reprimida, deliberadamente ou sutilmente. É difícil colocar isso na mesa, dizer: pare de me oprimir, se interesse pelo que tenho a dizer.  Os opressores num tem nenhum interesse em saber o significado da palavra opressão.

Em alguns períodos, talvez por influência da lua abro mão do silêncio, me empodero, passo a falar e expor minhas ideias começo a perceber que vou gerando um certo desconforto, vai se criando um clima tenso, como se minha presença provocasse uma imensa desordem, um caos vibracional interceptivo aos sentidos da matéria. Me sinto transportada à um cabo de guerra, um jogo de forças invisível, que só se ameniza quando retorno à posição que me é imposta: calar e sorrir e escutar. Ainda em 2016 não se espera de uma jovem que possa ter ideias interessantes, uma opinião que valha a pena ser ouvida, informação nova, nada, a não ser que o assunto seja dicas de beleza, moda e decoração. Espera-se apenas um rosto bonito, um sorriso agradável e ouvidos que escutem interessados e admirados nos assuntos importantes que fogem de seu raciocínio próprio.

No meu meio social o machismo não se mostra. Fica bem oculto. Não há espancamentos, e eu, enquanto mulher de união estável, sem perfil de hollywood não me sinto posta como objeto sexual, mas recebo diariamente inúmeros murros na boca, tão intensos que sou mesmo levada a crer que não tenho nada a dizer de tão desinteressante que sou, mal gosto que tenho e desinformada. Me parece mesmo que nesse tempo e no espaço em que vivo a atitude mais feminista e subversiva que existe é escutar com interesse uma moça. Algo que de tão raro só encontro entre moças do meu círculo social.

domingo, 4 de outubro de 2015

O benzedor

As histórias e mitos da ilha mexem comigo. Tanto quanto suas belas paisagens. Me pego imaginando o triste fim da rica feiticeira. Ou as aventuras dos piratas. As secretas conspirações dos escravos, as revoltas e fugas não contadas, mas que certamente aconteceram. As vivências dos índios. E nesse criar e compor me abandono por horas. Mas uma figura me instigou de modo especial. 

Foi uma colega da secretaria que o mencionou pela primeira vez. Ela iria procurá-lo para curar sua garganta. O João, benzedor. Talvez por gostar ou pelo menos simpatizar comigo e minha companheira de aventuras nos deu as dicas. Falou o endereço, "ele não gosta muito de benzer e por vezes diz que não faz mais isso, mas ele gosta muito de leite em pó. Leva uma lata como agradecimento e incentivo." 

Fiquei empolgadíssima e realmente feliz por ainda existirem pessoas que benzem! Uma arte que julgava perdida. Só que essa felicidade genuína, lhe asseguro, não me motivou a procurá-lo. Não por não acreditar na reza de seu João. Acredito, respeito e admiro. Mas porque me julgo bem de saúde, e me sentiria um pouco mal em explorá-lo para me sentir "ainda melhor".  Muitas pessoas me falaram dele em momentos diversos. "Me disse que estava com mau olhado, para tomar banho com (não me lembro o que) para limpar". E comecei a desejar conhecer esse homem. Eu queria que ele pelo menos me visse para dizer caso tenha algo errado comigo.

O CRAS daqui está se estruturando e organizando com esse tanto de gente nova que foi chamada pelo concurso. Por isso as atividades de grupo ainda estão sendo atenciosamente planejadas, e como orientadora social, eu e minha amiga recebemos a função de fazer cadastros (os famosos - para nós - Cad). Numa lista de mais de 400 endereços lá fui eu, buscar uma pessoa numa agradável rua sem saída, entre uma igreja e uma escola, tranquila como haveria de ser. Paro para comer algumas pitangas que saem de uma cerca enquanto ouço o som do que parece ser um ancinho de metal coçando o cimento. Sigo pela rua e logo encontro um senhor que parece meditar enquanto varre as folhas caídas na rua. Admiro um pouco, observando seu pequeno bolo de folhas crescer. Ele nota minha presença e continua, com calma como se tivesse tempo pra tudo. Me fazendo lembrar da história que os budistas adoram contar sobre:

"um homem que ia a galope num cavalo. Segundo a história, o cavalo corria tanto que parecia que o homem ia a um lugar muito importante. Uma pessoa que estava à beira da estrada grita para o homem: "Aonde você vai?". O homem que montava no veloz corcel responde: "Não sei, pergunte ao cavalo!". E se as histórias zen não bastarem para nos lembrar da futilidade dos nossos hábitos, os filósofos não nos deixam dúvidas. Henry David Thoureau afirmou: "O homem cujo cavalo trota um quilometro por minuto não leva a mensagem mais importante."*

Montada em meu cavalo metafórico penso que todos que trabalham devem ter pressa e me obrigo a interromper o momento. Confirmo que ele é quem procuro, explico quem sou e o que vim fazer. Ele me convida para entrar. Me sinto atravessando um portal. O terreno não muito grande é, provavelmente, o mais fértil e produtivo da ilha. Tem dezenas de árvores frutíferas e incontáveis galinhas ciscando felizes entre elas. Preencho o cad, desejando que ele esteja realizando uma analise profundo de minha aura para me dar um diagnóstico. Ele responde as perguntas, fala do passado, do presente e do futuro. Dia 05 (amanhã) é meu aniversário. Faço oitenta e um anos. 

Fico num conflito interno sobre o desejo de ser benzida e o quão inapropriado seria um pedido desse. Torço intimamente para alguma proposta dele, mas talvez esteja pensando no mesmo. Digo apenas ao me despedir que ouço muito falar dele, sempre muito bem, e foi uma enorme honra ter-lhe conhecido. Saindo reparo nas latas com mudas frutíferas, esperando calmamente para serem plantadas de modo que possam então desenvolver todo seu esplendor em rica generosidade. Nesse momento encontro minha meta de 2016. 

Em 2014 percebi o tanto de planos que aspiro. Eram tantos, mas tantos, que estavam todos entalados! Nesse lugar estranho, pouco acessível e cheio de armadilhas, que fica entre o planejar e o fazer.  Angustiada com o fato de querer ser vegana, praticar yoga, meditar, acabar com o sedentarismo, ler, limpar a casa, plantar, escrever, pintar e infinitas coisas que desejo fazer de maneira habitual, decidi que implantaria um hábito por ano. O que me parecia mais urgente e foi portanto elegido como meta 2015 foi caminhar/ me exercitar pelo menos 20 minutos por dia, os fins de semana podem ser sem regras. Só que sabe aquele papo de o que pede consegue e o universo conspirando a seu favor e tals? Pois então, o fato de viver numa cidade com uma orla maravilhosa, somada ao emprego (aparentemente confundido com agente comunitário de saúde) me fez ter sucesso absoluto em acabar com o sedentarismo! E quando começava a pensar na contribuição que 2016 poderia me dar me brilham as lindas mudas do seu João. Uma árvore frutífera por mês!!! Eis o que farei a partir de 2016. 

* esse livro de Mary Paterson chama-se Os Monges e Eu.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Ilhabela

Ainda lido com a ideia de não estar no Cassino. No Rio Grande do Sul. Me assusto com essa velocidade paulista. É fácil sentir a intensidade do capitalismo, ele permeia as relações humanas, fica no ar que os valores são outros. A exclusão da diversidade, o ter que se agiganta perto do ser, como se isso fosse óbvio. A veja sendo considerada fonte de informação o.O
E ainda tem a incomoda e desconfortável pergunta: Dá onde você é?
Já não sei responder. Sei que nasci em São Paulo. Vivi mais tempo em Araçoiaba da Serra/Sorocaba. Mas, me formei e me consolidei em Rio Grande! Da onde sou?

Com 3 meses de ilha começo a identificar o charme do lugar. É uma associação engajada na causa animal aqui, um bar alternativo e com história ali*, uma ONG forte e consolidada voltada pra cultura popular, um discurso sóbrio da assistente do judiciário na conferencia da assist. social, um evento com pegada anárquica que domina a orla a cada 45 dias, e em especial, uma equipe técnica em assistência social afim de fazer coro à participação popular.
E desse modo, conhecendo ilhabelenses caroneiros de opinião afim, vou me tornando um pouco mais ilhabelense também. Me incluindo nesse espaço tão visado. Me identificando no brilho dos olhos dos que sonham, e que vivem ideologias e vislumbres de uma sociedade justa, livre, fraterna.



*o Casa Aberta no Perequê funciona nas estruturas da 13ª casa da ilha, lugar que funcionou como casa de parto, trazendo à vida muito dos caiçaras!

quarta-feira, 18 de março de 2015

Servidora doméstica

Um tema que cada vez me incomoda mais e mais, e tem se tornado quase insuportável. É quanto a servidão entre os cidadãos ordinários. A relação com empregada doméstica, garçom, faxineiros sempre foi algo que me incomodou muito. Fica um clima esquisito, que dá pra perceber no olhar, no gesto das mãos. Não é como conversar com uma amiga, no ponto de ônibus. É um clima, me dá a sensação de que algo está errado, me dá vergonha. Tenho vergonha de cumprimentar, de não cumprimentar, todo papo parece inadequado. Falar como se fosse amiga me parece pior que como (amiga da) patroa. Coação ou coerção.

Num livro baseado no diário da empregada da Virginia Woolf, nas primeiras páginas a autora diz que vai descrever como "a admiração se transfora em decepção, o respeito em repulsa". Fechei o livro e enfiei no armário. Achei pesado e sombrio. Queria uma história leve, que me inspirasse justamente o oposto! Onde as relações se fortifiquem e não se desgastem.

Aí então, desempregada e pensando na próxima fatura do cartão, fui trabalhar de babá para conseguir fechar as contas. Por um lado eu queria mais essa experiência do que de fato fechar as contas (que eu poderia facilmente fazer emprestando sem juros dos pais, burguesa que sou). Sabe é meio engraçado ir com diploma de mestrado e passaporte italiano trabalhar de babá, nem a patroa sabia muito como agir. Percebi que a relação com a empregada da sogra (que gentilmente me hospeda) mudou, me revelando segredos sórdidos do mundo dos subalternos, as babás do playground conversavam comigo de modo mais fluido, não como quando eu descia com as sobrinhas. É que agora eu sei em primeira pessoa como é entrar no prédio pelo portão dos empregados e no apartamento pela porta de serviço, como é usar o banheiro de empregados que destoa do resto da decoração, como é lavar uma roupa que não é tua e educar (pq qndo me dei conta que não era para educar, mas só para manter viva a criança o trampo já tinha terminado) uma criança que vc não conhece, comer sozinha o que restar do almoço, nem pensar em sentar no sofá ou ligar a TV. A Nini não tem paciência com crianças, ela trabalha das 8 às 18, faz a faxina do duplex e cuida da Bia de 2 anos. Quer mesmo é trabalho de escritório. A Fafá recém casou e sonha em cuidar da própria filha.

Não acredito que alguém realmente queira servir. Que goste de ser empregada doméstica. Nesse caso haveriam cursos, especializações, congressos. "Sonho em ser empregada doméstica desde que era menina, enquanto não consigo a tão sonhada vaga estou me especializando". Ou ainda, se fosse um desejo natural fruto do acaso, porque só animaria as classes pobres? É razão da circunstância, que alguém se sujeita para fugir da miséria do desemprego.

Seria justo se aproveitar dessa situação? Se beneficiar da miséria alheia? Ao terceirizar o trabalho necessário, mas não lucrativo, pode-se dedicar ao lucro, ao estudo, à promoção. Que será repassada? "Meu salário e de minha esposa aumentaram 10%, vamos aumentar 10% do teu também".

Tirei o livro do armário. Talvez o mais digno seja mesmo essa transformação infeliz nesse tipo de relação. Quando ano depois de ano, limpando a privada, dobrando cuecas, se repara que não há nada além disso. Quando se dá conta de que nunca haverá amizade, apesar da convivência, nunca haverá igualdade, nem diálogo, quando a preocupação com sua doença se resume a encontrar um substituto, mesmo tendo dividido o mesmo teto anos e anos, é natural que surja certa repulsa... No caso da Inglaterra de 1920/50 as empregadas dormiam nas casas, elas moravam sem usufruir do espaço, da companhia, das conversas, do conhecimento.

Assim foi também com a Paula, governanta de Freud, segundo o livro baseado nos seus relatos. Relato é diferente de diário. E a empregada se diz fiel aos patrões, por medo de perder o reconhecimento, o emprego, o lar torna-se obsessiva. Ignora problemas de saúde, físico e social, para servir, temerosa de ser substituída. Por sua vez ela é mais incluída na família, quando é isolada pela Gestapo numa ilha a patroa torca cartas, manda dinheiro que apesar da recomendação "gaste com você", Paula usa comprando presentes aos patrões e seus amigos. No entanto, não há de modo algum sinais de possível igualdade, pois mesmo tendo estado por décadas sob o mesmo teto dos maiores psicanalistas da história, ela sabe menos sobre o tema do que eu. Não senta na mesa junto, não participa das discussões. Serve para servir.

Enquanto nos negarmos a dignidade dos trabalhos domésticos, não haverá coerência nas súplicas por justiça, igualdade e se quer fim da corrupção. Pois é corromper alguém, usar o poder do dinheiro para convencê-lo a abrir mão de sua dignidade, ao fazer um trabalho que o pagador não faria... Não há respeito possível nesse tipo de relação. Por mais polido que se busque ser, usar alguém obviamente mais pobre para limpar sua sujeira, para que possas morar numa casa maior que não se conseguiria limpar sozinho e trabalhar, é desrespeitoso, abusivo, e isso não tem valor pago capaz de extinguir. O contentamento verdadeiro em fazer esse serviço para terceiros, saudáveis e capazes, não pode ser comprado, pague-se quanto pagar, haja a lei que houver, discurse-se o que se discursar. A relação já se inicia corrompida, corrompendo.

Babá chama atenção de criança enquanto pai
faz selfie da família (Imagem: Eduardo Nunomura)

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Saber morrer


Li certa vez que o propósito da vida, para os budistas, pode ser resumido em aprender a morrer. Isso estava inserido num texto longo, com letras destacadas. A ideia me chocou, não tive tempo de ler o texto todo. Fiquei matutando sobre essa frase. Justificar a vida pela morte, como isso é possível? A vida é muito mais que a morte, a morte é um aspecto negativo, é o fim, é o horror. Para todos os lados que olho só vejo vida, não há espaço para morte que é ignorada sistematicamente. Conclui então, que esse era um conceito muito simplista da vida, além de macabro, pessimista e desencorajador. Minha fascinação pelo budismo diminuiu e segui exaltando a vida e ignorando a morte.

Mas ignorar não altera o fato de ela existir. E no fim desse ano ela fez questão de me lembrar disso. Primeiro um cachorro, grande e amarelo que, velho, arfava na cozinha. Depois uma avó, muito vaidosa e rica, colecionava fotos das mais diversas viagens sempre com belas roupas caras e volumosos cabelos loiros. Foi ficando esquecida, sentada num sofá olhando para televisão, repetia uma palavra ou outra, sem saber onde e com quem estava. Por vezes chorava dizendo ter apanhado de sua mãezinha. Da última vez que "conversei" com ela, me repetia "tem que ser firme. é firme. firme".
Às vezes me punha a me perguntar se era bom ou ruim não ter consciência da aproximação do momento final, da hora da estrela. Mas o fato é que penso que ela na verdade sabia o que se passava, mas não podia expressar. E então, se aproximando ainda mais, a internação do sogro, que com quase 70 havia recém tirado uma metástase do cérebro. Agora ele recebeu alta e encontra-se estável. O hospital onde fui visita-lo por toda a última semana é exclusivo para sêniores, muitas pessoas vivem seus últimos dias lá. Sem objetos pessoais, conhecidos, com história. Um quarto estéril, neutro com luz fria e cheiro de doença. Com agulhas enfincadas na pele, recebendo comida pelo nariz e ar artificial. Sendo assistido por desconhecidos que rotineiramente tocam para monitoramentos que machucam. Sem poder de decisão sobre seu próprio corpo e destino. Até onde devemos afastar a morte? 

Já nesse início de 2015, outra avó se foi. Me tornei próxima dela ao procura-la para ouvir sua história. Ela também estava enfrentando um câncer que lhe tirava as energias. Tanto que esse ano ela não pode se banhar no bravio mar, mas até 2013 se banhava todo o verão. A lucidez dela, beirando os 90, me espantava. O brilho no olhar quando sobre política, luta contra as injustiças. Mesmo dos seus anos presa, por causa da ditadura, conseguia exprimir as experiências sem drama, com serenidade e dignidade. Presa por atentado contra União ela era educadora de uma escola pequena que vinha apresentando resultados positivos. Os quais até hoje ela não vê igual. Ainda! Na educação o golpe foi duro. Em dezembro conversávamos por horas, enquanto me ensinava a fazer ambrosia, caminhávamos ou enquanto ela se encostava com o corpo cansado o peito chiando mas a alma serelepe saindo pela boca, se exibindo no brilho dos olhos. Em janeiro, houve uma piora no seu quadro físico e dentro de 5 dias já não usava mais o velho corpo.

Ao acompanhar todas essas experiências minha perspectiva muda. Tenho medo da morte, muito medo, mas tenho ainda mais medo de como isso pode ocorrer. O desconforto físico de perder a capacidade de caminhar, excretar, se comunicar. Agulhas furando a fina camada de pele para estourar veias ainda mais finas e sensíveis. Somando isso ao desconforto imaterial, rancores, mágoas, remorso e arrependimento. Essa transição pode se tornar uma árdua e torturante expiação, que estamos acostumados a observar em nossa cultura ocidental. Mas será que pode ser um processo natural, tranquilo e quem sabe até bonito?

Passei a me questionar como construir alguma estrutura para que essa experiência ocorra de forma positiva. Percebi então, que mesmo sem me dar conta, a morte já vem guiando meus passos. E tudo o que considero de grande valor, e pelo que me dedico, é justamente o que pode me proporcionar uma morte suave e tranquila.

Conhecer
O desconhecido é sempre temido. O que é a morte? O que é matéria? O que temos/somos de imaterial? Essa parte imaterial morre? Essas e outras tantas questões me levam a leituras diversas. E não encontro na ciência essas investigações, corro então pra religião e misticismo. Embora, devo reconhecer, encontro muito mais sobre a vida do que sobre a morte em todas as leituras, ainda assim, estão sendo de grande valia.
Com esse conhecimento consigo ver a transição de pessoas queridas com uma certa tranquilidade, e em alguns momentos posso até pensar na minha sem o pânico aterrador.

No corpo físico
É bem verdade que hábitos saudáveis aumentam nossa qualidade de vida. O que por si só já basta, mas alguns malefícios vem a longo prazo. O açúcar, a gordura, parecem inocentes saborosos. Horas e mais horas de cadeira no ar condicionado - lendo, estudando, trabalhando, assistindo, brincando - passam rápido. Mas é nos 80 que as articulações travam, o rim reclama, o hospital vira favorito no gps, e a coisa só piora...

Relações humanas
Aqui tem duas partes que se mesclam, mas separei. Uma mais individualista, que tem dois pontos, e outra holística, que pus abaixo.
Primeiro ponto, não é uma fada madrinha que vai por pessoas na sua volta. Cheias de amor, admiração e carinho. Esses sentimentos devem ser conquistados, nutridos, fortificados.
Um outro ponto é não ter rancores, arrependimentos e frustrações. Acho que devemos analisar esses sentimentos, identificar sua causa e transmutar as experiências negativas! Conseguir aceita-las como parte de nossa história e extrair as lições positivas.

Sentir dignidade na vida
Possivelmente, no processo da morte faremos um retrospecto do passado. E, analisando o mundo agora, com toda minha sanidade e capacidade moral e intelectual, me parece que "trabalhei e eduquei meus filhos" não é suficiente. As relações pessoais são importantes, como apontado acima, só que somos indivíduos dentro de uma sociedade. Não exercemos influência apenas dentro de nossa família e círculo social, exercemos influência na sociedade e ambiente ao compramos algo que satisfaz um desejo pessoal, mas explora e oprime outras pessoas e extirpa os bens (recursos) naturais. A ânsia por ter (coisas e experiências pessoais) ignorando seus efeitos impactos, mesmo com acesso a informação, pode agravar uma crise de consciência tardia.

Acho, então, que minha primeira analise do conhecimento budista é que foi supérflua. Aprender a morrer é muito desafiador e possivelmente menos individualista do que parece numa primeira analise.

Espero que todos possamos chegar a esse momento saudáveis, satisfeitos e felizes.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

A vida e as coisas.

Quanto menos assisto televisão menos capaz de assisti-la me torno. E isso seria um motivo de orgulho se conseguisse transpor os momentos sociais em que todos olham para TV. Não consigo. Então fico no meio das pessoas tentando me passar por torta frita. O bom do locus social que me encontro é que o sofá é confortável, a sala tem ar condicionado, a refeição é farta, o ruim é que parece que nada do que penso e sinto faz sentido. Muito embora cada vez me torno mais convicta da  minha coerência.

Por alguma razão a rede globo resolveu pregar acerca da depredação dos ônibus. Seria tudo bem se a matéria do fantástico não começasse com dois adolescentes assassinados por policiais durante um baile funk (possivelmente único momento de lazer de jovens da periferia). E então o repórter me diz em tom de horror "jovens queimaram um ônibus, porque acreditam que policiais tenham matado dois traficantes". Bem, que tenham sido assassinados por policiais, isso é uma suspeita, mas que eram traficantes não resta dúvida. O julgamento já foi feito, várias vezes embora nenhum juiz tenha participado. Foram julgados e condenados a pena de morte executada de imediato sem advogado de defesa, pelos policiais. E novamente julgados pelo repórter.

Mas, ao que parece esse não é o problema! O problema, e o drama todo reside no ônibus queimado. Sim, caros amigos, o ônibus. Essa é a vítima principal da ocorrência, o foco de nossa atenção e compaixão, o motivo de nossa revolta, nós membros da classe média.

Ainda estou um tanto incomodada com essa reportagem, e olha que faz semanas. Imaginem que entrevistaram uma funcionária da empresa de ônibus. E ela disse o valor do ônibus. Pois, uma informação séria tem que ter números. E eu não me lembro o valor porque estava pensando "Por que o senhor atirou em mim?". Imagens de horror de um ônibus vazio vagando pela noite eram exibidas, enquanto o motorista narrava o medo que sente de ser abordado. Outra voz disse que estava num ônibus que foi queimado "Eles mandaram a gente sair - desce, desce". Outro número foi exibido, que também não tenho certeza, mas acredito que era algo como: desde o início do ano 45 ônibus foram queimados. Nessa hora meu estomago embrulhou e calculei que seriam 90 assassinados nas periferias da cidade, 3 salas de aula inteiras. Se extrapolarmos o caso narrado para os demais.

Desses jovens nenhum tem nome. Nenhum tem mãe sendo entrevistada. Nenhum tem voz. Possivelmente não saberíamos de suas mortes, não haveria notícia se não fosse pelo pobre e querido ônibus queimado. A preocupação é com o patrimônio. O ônibus de 3 reais a passagem. A coisa que atropela a vida até no lúdico, na narrativa.

A colega do meu lado, confortavelmente deitada em seu sofá, fica assustada. "nossa, que absurdo, depois reclamam do preço da passagem". Meu coração bate forte, como falar sem gritar sacudindo-a pelos braços? "dois adolescentes foram assassinados" e vem a resposta 'eram traficantes' como se isso justificasse. Como se fosse legítimo assassinar todo e qualquer suspeito de tráfico que more na periferia. O coração continua batendo forte, meu inconformismo dificulta meu raciocínio, sinto o namorado me cutucar, de novo, cada vez mais forte. Devo me calar? Não posso, parece que seria trair a mim mesma, parece o mínimo que posso fazer por toda injustiça é me posicionar numa conversa informal. Na dúvida me permito um último e fugaz argumento, digo então rapidamente: "esse não é o papel da polícia". E então volto a posição torta frita, ignorando todo o resto, olhos parados fingindo ver tv, por dentro um turbilhão.

Estou condicionada, depois de 28 anos adestrada, a colocar o individual acima do coletivo. - Eu não mereço ser estuprada! E as outras? - Me incomoda sobremaneira o cutucão, esqueço dos jovens na periferia. Nas conversas individuais com o namorado sempre concordamos com o absurdo da injusta luta de classe, mas num momento como esse ele me cutuca, me oprime, me abandona, controla o que posso ou não dizer? Não confia que eu consigo conversar sem destruir vínculos familiares? Eu consigo? E de modo covarde, que dissesse "bem tenho uma opinião sobre isso, mas o mais adequado seria cada um guardar sua opinião para si", ai então também seria julgado.

Característico de mim mesma rumino, rumino, e rumino sobre isso. Controle. Não quero que ele me controle, mas isso não seria controla-lo? Proibi-lo de me cutucar: uma advertência agora, dá próxima é suspensão. Não. Só posso controlar a mim mesma, o que sinto e faço com o que me afeta. Não existe a menor possibilidade de controlar ao próximo, não quero isso, sou incapaz disso. Gostaria de não receber um discreto 'fica quieta' de quem gostaria de receber explicito apoio. Mas, a verdade é que acima de tudo não quero que ninguém me obedeça, que seja menos livre só para me satisfazer. Só cabe a mim decidir o que fazer com as próximas cutucadas. E decido que irei ignorar, não é bem um 'foda-se' é mais como um 'puxa, seja lá o que eu quiser dizer preciso moderar o tom para que ninguém se ofenda', e então seguir dizendo. Afinal, foi uma luta muito grande para que as mulheres tivessem voz, e me calar seria uma verdadeira traição.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

A árdua e interminável luta íntima contra preconceitos

Não me canso de admirar como a destruição de preconceitos é lenta, exige esforço, disposição e principalmente atenção! Mas é uma destruição bonita de se acompanhar.

Imagine que fiquei sabendo de um curso de "conversation" na universidade, ministrado por uma legitima americana. Topei na hora. E minha maior surpresa foi ver uma jovem engajada trazendo temas interessantes e extremamente críticos! Como a manipulação da mídia, construção de estereótipos, aliás indico um vídeo chocante (a conversation about race).

E não é que com essa história de copa, um amigo lança o comentário: "futebol é a única coisa que dá dinheiro e os americanos não estão envolvidos". Putz é mesmo, eu pensei como se essa fosse uma constatação muito genial. Sem me questionar o que eu entendia por "os americanos" eu fui. Oh yeah, eu fiz isso. Compartilhei o comentário na conversation. Na frente da americana e de todos os outros estudantes. Estupidamente abri minha boca e lancei essa observação rasa. E só comecei a me questionar "qual é o problema" depois que a professora imitou um barulho de bateria. Do tipo circense, depois de uma intervenção do palhaço.

Como eu posso ter dito isso a uma americana, que está no Brasil, e como eu é uma crítica ferrenha do consumismo, da coisificação e namora a revolução? E porque eu fiquei tão surpresa com o posicionamento crítico dela, pensando que isso seria contraditório vindo de uma americana? Carregada de preconceitos, eu me vi. De alguma forma na minha cabeça eu associei capitalismo e EUA de um modo simplificado, generalizado, superficial. Tanto que normalmente não me dou conta de que "os americanos" envolve uma gama extremamente complexa de seres humanos, dos quais certamente uma grande e significativa porção é crítica ferrenha do capitalismo selvagem, e uns outros tantos são anarquistas. Eu já sabia disso, já tinha reparado nisso, mas ainda assim não consegui flagrar prontamente. E fiz uma vítima do meu preconceito.

Acho que esse é o processo de destruição de preconceitos para construção de conceitos mais justos, profundos, complexos. Primeiro temos que nos abrir, isso é, simplesmente não pensar "o que esse idiota está falando, defendendo esse bando de vagabundos" ou no meu caso "que estúpida a reação dela, a verdade dói mesmo". Morei em São Paulo. Não achava graça em piadas de "baianos" (termo que inclui todos os imigrantes da enorme região norte e nordeste), mas eu ri da mulher tentando falar "youtube". E eu me achava muito boa pessoa.

Aqui em Rio Grande, estamos recebendo imenso contingente de imigrantes. Em sua maioria vindo de situação precária (suposição minha). Nesse momento, um pouco mais madura, identifico o baita preconceito que eles sofrem e isso me incomoda muito. Mas, mesmo assim...

(A professora americana nos pediu para criar um blog, só pra treinar o inglês. Empolgada com as analises de música que ela faz, tive uma ideia, fazer o mesmo só que ao contrário. Explicar, ao menos tentar, nossas músicas com crítica social no idioma do Império. Eis que surge num inglês medonhamente macarrônico, mas cheio de boas intenções A Subversive Brazil. A última música que pus foi Admirável Gado Novo.)

Mas, mesmo assim, mesmo depois de me reconhecer cheia de preconceitos e me identificar como defensora dos migrantes, você não acredita. Num é que eu passei direto e reto pelo trecho "É duro tanto ter que caminhar"? Estou acostumada a ver tudo: filmes, músicas, programas, notícias, voltadas para minha classe social, ainda que não para o meu gênero, mas isso não é problema pois fui adestrada a me encontrar em "os homens". Empolgada por ter me visto no livro admirável mundo novo nem me dei conta de que a música, praticamente homônima não era para "mim".

Só me dei conta e voltei para acrescentar um comentário na postagem quando já passava da metade da leitura de Vinhas da Ira, um livro muito envolvente, sobre uma família americana expulsa do campo por tratores e pés de algodão, que migra de modo muuuito (corajoso e) precário para Califórnia, como se não bastasse todo drama e dificuldade elas terão que enfrentar esse sombrio e cruel monstro chamado preconceito. O livro (nobel) inspira tamanha simpatia por esse grupo de pessoas - pobres, sem educação formal, com assassino ex-presidiário, mãe solteira. Nos envolve de modo a sentir as dores na pele, não é como viver, mas é próximo disso, dependendo da sensibilidade do leitor, muito próximo. Pensei em todos os imigrantes que conheci na minha adolescência paulista e com muito pesar, sinto vergonha em reconhecer que de alguma forma sempre me julguei superior a eles, minha "amizade" foi dada como caridade.

Nesse instante eu lembro da senhora falando "iutubiu" e me sinto extremamente idiota. Como paulista posso dizer que seria interessante, muito interessante, todos nós que nascemos e fomos criadas no estado mais """rico""" do país conferíssemos se não existe um morro de prepotência sob nossos pés. Donos do sotaque (e cultura e aparência e modelo econômico e roupas) adequado/ideal. Não, aquele vídeo não choca pela ignorância de uma mulher que não consegue dizer o nome de um site num idioma estrangeiro. Aquele vídeo choca pela risada do filho do patrão. Eu sei que estou desenterrando o tal do vídeo, mas sinto latente essa ordem estabelecida que põe o sotaque nordestino subserviente. Associando à ignorância e à valores desonrosos. Pois são nessas situações que eles aparecem nas novelas. Sinto como fui idiota em achar que estava bem o vídeo, por mostrar uma interação rara, eu achei legal da parte dele reconhecer a existência da pessoa que limpa suas sujeiras.

Fico triste por reconhecer tanta ignorância e preconceito em mim. E sei (e torço) que se daqui a 10 anos voltar a ler esse texto vou reconhecer uma dúzia de preconceitos e crueldades, torço para reconhece-los pois isso significa um passo para superá-los.

Você, que escreve, fala, canta, interpreta, dança, pinta, contra o preconceito, seu trabalho não é em vão. Me sinto muito, muito agradecida pela existência daqueles que (em oposição aos que constroem e nutrem) destroem preconceitos e salvam Almas. Nesse caso em particular, muito obrigada Zé Ramalho e John Steinbeck, e me desculpem por suas obras ainda serem consideradas transformadoras...
"Vinham famintos e ferozes, tinham a esperança de encontrar um lar, e só encontraram ódio. Okies... os proprietários odiavam-nos porque sabiam que eram covardes e que os Okies corajosos, e que eram bem nutridos e que os Okies passavam fome. E talvez os proprietários tivessem ouvido seus avós contarem como era fácil a alguém roubar terras a um homem fraco quando esse alguém era feroz e faminto e estava armado. Os proprietários odiavam-nos. E os donos das casas comerciais das cidades odiavam-nos também, pois que eles não tinham dinheiro para gastar. Não há caminho mais curto para se obter o desprezo de um negociante. Os homens das cidades, pequenos banqueiros, odiavam os Okies porque eles nada lhes deixavam ganhar. Eles nada possuíam. E os trabalhadores odiavam os Okies porque um homem esfomeado tem que trabalhar, e quando precisa trabalhar e não tem onde trabalhar, automaticamente trabalha por um salário menor, e aí todos têm que trabalhar por salários menores."

quinta-feira, 3 de julho de 2014

essência

não Sou feia
não Sou magra
não Sou branca
Esses termos rasos delimitam 
a aparência do meu corpo.

não Sou o que penso
não Sou o que faço
não Sou o que digo
não Sou o que sinto
não Sou o que tenho
não Sou o que escrevo
Esse verbos só descrevem 
algumas ações daquilo que sou. 

não Sou feliz
não Sou burra
não Sou comunista
não Sou competente
não Sou honesta
não Sou chata
Adjetivos não me definem

não Sou brasileira
não Sou católica
não Sou mulher 
até Ser humana
não é o que Sou
porque me limita.

Sei disso 

Pois que é quando fecho os olhos*
que chego mais perto do que Sou
 
Nesse momento então
não há corpo,
não há ações,
não há limites,
não há qualidades.

Só há o calor do Sol     
que se funde com a pele,   
há sua luminosidade            
vermelhando minhas pálpebras,
há o som das ondas e do vento
entrando pelos ouvidos,        
envolvendo tudo por dentro
unindo ao fora,               
há o cheiro da maresia
completando a fusão.
 
Eis aí o que compreendo que sou.
Livre das limitações das palavras,
armadas de preconceitos que     
prendem nas correntes dos rótulos.


*"Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos" (Saint-Exupéry)

quarta-feira, 4 de junho de 2014

A cachorra da pick up

Link da imagem
Sinto que no Cassino a relação humano-cachorro é especial,
parece que a sensibilidade dessa relação é mais comum e geral.
Em São Paulo, sinto ser a minoria de pessoas que se interessariam por uma conversa sobre essa relação.
A maioria acharia isso coisa de gente esquisita, ou simplesmente um tema chato de mais.
Aqui se fala de cachorro, com desconhecidos, os cães de rua tem nome, e é comum ver alguém conversando com um cachorro.

Fiquei muito feliz ontem por ver a Mel na caçamba da pick up do vizinho novamente.
Link da imagem
Sua história é um pouco triste.
A primeira vez que a vi seu pelo reluzia, e ela andava contente para todo lugar que o vizinho ia, quando ele chegava, abria a caçamba e ela descia ao lado dele.

Poucas coisas agradam mais aos cachorros que moram comigo do que macumbas.
Quando eles as encontram a festa é completa, 3 em 1, derrubam a vela, comem do arroz e se esfregam na galinha.
Eu tenho essa mania inconveniente de deixá-los sair sem coleira, como modo de tranquilizar minha consciência, me convencer de que vivem conosco por opção.
Eu sei que eles não tem opção de verdade, não depois de terem sido educados, criados, doutrinados nos limites de uma casa comendo ração, e tudo o mais.
De todo modo, fico mais tranquila deixando-os para que se quiserem possam correr para longe e nunca mais voltar.

Então, como os nossos cães, a Mel também estava voltando para casa fedendo a carniça. O vizinho comentou comigo, numa das poucas conversas que tivemos:
- Bah, eu não sei o que é, mas a Mel tá com um cheiro esquisito, parece que carniça.
- Ah é, o Jacques e o Gurila também. Acho que é por causa da macumba.
Ele desconversou e logo entrou em sua casa.

A Mel começou a ficar pela rua, seus pelos começaram a cair, parecia com sarna.
Latia sem razão, parecendo esquizofrênica.
O caso é que o vizinho é evangélico, nunca mais falou comigo.
Pode ser a "pressa" da rotina, ou o habito extremamente individualista que impera nesses tempos.
A Mel pode ter sido simplesmente largada de escanteio devido a chegada da filha do casal.

Ou realmente o fato de eu ter citado a palavra macumba num diálogo pode ter sido cataclísmico para Mel.
E eu senti por isso.
Até que ver ela novamente na pick up me elevou o moral.