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sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Pela valorização da diversidade etnico-cultural

Por pura ingenuidade, ou total ignorância mesmo, não esperava encontrar tamanho bairrismo, beirando a xenofobia nessa viva ilha. A pergunta "da onde você é?" pode ser ouvida mais de cinco vezes ao dia. A minha vontade é responder "do planeta terra". Quando em uma conversa é dito que "fulana é caiçara" eu ainda não sei bem o que fazer com essa informação. Eu deveria automaticamente gostar mais de fulana? Valoriza-la? Respeita-la? Ao que parece existem graus de caiçarismo, se é a quarta geração de caiçara estabelece-se uma aura de dignidade, como se tratasse de uma família de sábios xamãs. Esse esquisito julgamento de valores é fortemente alimentado em especial por quem veio de fora, ah mas na década de 60, ou setenta, e se apropria da ilha como se fosse sua. Então temos uma hierarquia de valores baseada em anos (ou gerações) de ilha. Talvez se os escravos do tempo da abolição soubessem que seria assim não teriam se mandado daqui, diminuindo na metade a população da ilha de 1888*. Imagina, ser caiçara desde 1888?! Se bem que, nesse ufanismo estrambólico reside uma desconcertante contradição, a condição de vida desses caiçaras não é em nada melhor do que a dos migrantes paulistanos.

São os migrantes baianos, mineiros e pernambucanos os principais alvo de preconceito (quando o assunto é bairrismo, porque preconceito é algo que abunda por aqui sendo difícil elencar o alvo principal). É visto como se fossem pessoas desprovidas de caráter que decidem se apropriar da riqueza da ilha. Como se sua vinda pra cá não fosse o resultado natural do investimento estatal histórico centrado em sp. Como se a condição de vida nos outros estados fosse maravilhosa. E como se esse modelo de desenvolvimento não forçasse a migração maciça de mão de obra barata ao degradar as regiões fornecedoras de matéria-prima. Todos esses fatores e outros que ainda ignoro são postos de lado na defesa raivosa de privilégios. Oxalá que o investimento (tardio) estatal dos últimos anos seja capaz de reverter essa situação, e as milhares de cisternas financiadas driblem a seca e sejam uma alternativa à migração forçada.
E oxalá que a cultura desses migrantes possa ser apreciada, admirada e compartilhada ao invés de seguir oprimida e escondida enquanto se realiza inúmeros eventos dos mais diversos temas para agrado do poder hegemônico.

* Uma viagem pela história do arquipélago de Ilhabela, Nivaldo Simões, 2005.

domingo, 4 de outubro de 2015

O benzedor

As histórias e mitos da ilha mexem comigo. Tanto quanto suas belas paisagens. Me pego imaginando o triste fim da rica feiticeira. Ou as aventuras dos piratas. As secretas conspirações dos escravos, as revoltas e fugas não contadas, mas que certamente aconteceram. As vivências dos índios. E nesse criar e compor me abandono por horas. Mas uma figura me instigou de modo especial. 

Foi uma colega da secretaria que o mencionou pela primeira vez. Ela iria procurá-lo para curar sua garganta. O João, benzedor. Talvez por gostar ou pelo menos simpatizar comigo e minha companheira de aventuras nos deu as dicas. Falou o endereço, "ele não gosta muito de benzer e por vezes diz que não faz mais isso, mas ele gosta muito de leite em pó. Leva uma lata como agradecimento e incentivo." 

Fiquei empolgadíssima e realmente feliz por ainda existirem pessoas que benzem! Uma arte que julgava perdida. Só que essa felicidade genuína, lhe asseguro, não me motivou a procurá-lo. Não por não acreditar na reza de seu João. Acredito, respeito e admiro. Mas porque me julgo bem de saúde, e me sentiria um pouco mal em explorá-lo para me sentir "ainda melhor".  Muitas pessoas me falaram dele em momentos diversos. "Me disse que estava com mau olhado, para tomar banho com (não me lembro o que) para limpar". E comecei a desejar conhecer esse homem. Eu queria que ele pelo menos me visse para dizer caso tenha algo errado comigo.

O CRAS daqui está se estruturando e organizando com esse tanto de gente nova que foi chamada pelo concurso. Por isso as atividades de grupo ainda estão sendo atenciosamente planejadas, e como orientadora social, eu e minha amiga recebemos a função de fazer cadastros (os famosos - para nós - Cad). Numa lista de mais de 400 endereços lá fui eu, buscar uma pessoa numa agradável rua sem saída, entre uma igreja e uma escola, tranquila como haveria de ser. Paro para comer algumas pitangas que saem de uma cerca enquanto ouço o som do que parece ser um ancinho de metal coçando o cimento. Sigo pela rua e logo encontro um senhor que parece meditar enquanto varre as folhas caídas na rua. Admiro um pouco, observando seu pequeno bolo de folhas crescer. Ele nota minha presença e continua, com calma como se tivesse tempo pra tudo. Me fazendo lembrar da história que os budistas adoram contar sobre:

"um homem que ia a galope num cavalo. Segundo a história, o cavalo corria tanto que parecia que o homem ia a um lugar muito importante. Uma pessoa que estava à beira da estrada grita para o homem: "Aonde você vai?". O homem que montava no veloz corcel responde: "Não sei, pergunte ao cavalo!". E se as histórias zen não bastarem para nos lembrar da futilidade dos nossos hábitos, os filósofos não nos deixam dúvidas. Henry David Thoureau afirmou: "O homem cujo cavalo trota um quilometro por minuto não leva a mensagem mais importante."*

Montada em meu cavalo metafórico penso que todos que trabalham devem ter pressa e me obrigo a interromper o momento. Confirmo que ele é quem procuro, explico quem sou e o que vim fazer. Ele me convida para entrar. Me sinto atravessando um portal. O terreno não muito grande é, provavelmente, o mais fértil e produtivo da ilha. Tem dezenas de árvores frutíferas e incontáveis galinhas ciscando felizes entre elas. Preencho o cad, desejando que ele esteja realizando uma analise profundo de minha aura para me dar um diagnóstico. Ele responde as perguntas, fala do passado, do presente e do futuro. Dia 05 (amanhã) é meu aniversário. Faço oitenta e um anos. 

Fico num conflito interno sobre o desejo de ser benzida e o quão inapropriado seria um pedido desse. Torço intimamente para alguma proposta dele, mas talvez esteja pensando no mesmo. Digo apenas ao me despedir que ouço muito falar dele, sempre muito bem, e foi uma enorme honra ter-lhe conhecido. Saindo reparo nas latas com mudas frutíferas, esperando calmamente para serem plantadas de modo que possam então desenvolver todo seu esplendor em rica generosidade. Nesse momento encontro minha meta de 2016. 

Em 2014 percebi o tanto de planos que aspiro. Eram tantos, mas tantos, que estavam todos entalados! Nesse lugar estranho, pouco acessível e cheio de armadilhas, que fica entre o planejar e o fazer.  Angustiada com o fato de querer ser vegana, praticar yoga, meditar, acabar com o sedentarismo, ler, limpar a casa, plantar, escrever, pintar e infinitas coisas que desejo fazer de maneira habitual, decidi que implantaria um hábito por ano. O que me parecia mais urgente e foi portanto elegido como meta 2015 foi caminhar/ me exercitar pelo menos 20 minutos por dia, os fins de semana podem ser sem regras. Só que sabe aquele papo de o que pede consegue e o universo conspirando a seu favor e tals? Pois então, o fato de viver numa cidade com uma orla maravilhosa, somada ao emprego (aparentemente confundido com agente comunitário de saúde) me fez ter sucesso absoluto em acabar com o sedentarismo! E quando começava a pensar na contribuição que 2016 poderia me dar me brilham as lindas mudas do seu João. Uma árvore frutífera por mês!!! Eis o que farei a partir de 2016. 

* esse livro de Mary Paterson chama-se Os Monges e Eu.

quarta-feira, 18 de março de 2015

Servidora doméstica

Um tema que cada vez me incomoda mais e mais, e tem se tornado quase insuportável. É quanto a servidão entre os cidadãos ordinários. A relação com empregada doméstica, garçom, faxineiros sempre foi algo que me incomodou muito. Fica um clima esquisito, que dá pra perceber no olhar, no gesto das mãos. Não é como conversar com uma amiga, no ponto de ônibus. É um clima, me dá a sensação de que algo está errado, me dá vergonha. Tenho vergonha de cumprimentar, de não cumprimentar, todo papo parece inadequado. Falar como se fosse amiga me parece pior que como (amiga da) patroa. Coação ou coerção.

Num livro baseado no diário da empregada da Virginia Woolf, nas primeiras páginas a autora diz que vai descrever como "a admiração se transfora em decepção, o respeito em repulsa". Fechei o livro e enfiei no armário. Achei pesado e sombrio. Queria uma história leve, que me inspirasse justamente o oposto! Onde as relações se fortifiquem e não se desgastem.

Aí então, desempregada e pensando na próxima fatura do cartão, fui trabalhar de babá para conseguir fechar as contas. Por um lado eu queria mais essa experiência do que de fato fechar as contas (que eu poderia facilmente fazer emprestando sem juros dos pais, burguesa que sou). Sabe é meio engraçado ir com diploma de mestrado e passaporte italiano trabalhar de babá, nem a patroa sabia muito como agir. Percebi que a relação com a empregada da sogra (que gentilmente me hospeda) mudou, me revelando segredos sórdidos do mundo dos subalternos, as babás do playground conversavam comigo de modo mais fluido, não como quando eu descia com as sobrinhas. É que agora eu sei em primeira pessoa como é entrar no prédio pelo portão dos empregados e no apartamento pela porta de serviço, como é usar o banheiro de empregados que destoa do resto da decoração, como é lavar uma roupa que não é tua e educar (pq qndo me dei conta que não era para educar, mas só para manter viva a criança o trampo já tinha terminado) uma criança que vc não conhece, comer sozinha o que restar do almoço, nem pensar em sentar no sofá ou ligar a TV. A Nini não tem paciência com crianças, ela trabalha das 8 às 18, faz a faxina do duplex e cuida da Bia de 2 anos. Quer mesmo é trabalho de escritório. A Fafá recém casou e sonha em cuidar da própria filha.

Não acredito que alguém realmente queira servir. Que goste de ser empregada doméstica. Nesse caso haveriam cursos, especializações, congressos. "Sonho em ser empregada doméstica desde que era menina, enquanto não consigo a tão sonhada vaga estou me especializando". Ou ainda, se fosse um desejo natural fruto do acaso, porque só animaria as classes pobres? É razão da circunstância, que alguém se sujeita para fugir da miséria do desemprego.

Seria justo se aproveitar dessa situação? Se beneficiar da miséria alheia? Ao terceirizar o trabalho necessário, mas não lucrativo, pode-se dedicar ao lucro, ao estudo, à promoção. Que será repassada? "Meu salário e de minha esposa aumentaram 10%, vamos aumentar 10% do teu também".

Tirei o livro do armário. Talvez o mais digno seja mesmo essa transformação infeliz nesse tipo de relação. Quando ano depois de ano, limpando a privada, dobrando cuecas, se repara que não há nada além disso. Quando se dá conta de que nunca haverá amizade, apesar da convivência, nunca haverá igualdade, nem diálogo, quando a preocupação com sua doença se resume a encontrar um substituto, mesmo tendo dividido o mesmo teto anos e anos, é natural que surja certa repulsa... No caso da Inglaterra de 1920/50 as empregadas dormiam nas casas, elas moravam sem usufruir do espaço, da companhia, das conversas, do conhecimento.

Assim foi também com a Paula, governanta de Freud, segundo o livro baseado nos seus relatos. Relato é diferente de diário. E a empregada se diz fiel aos patrões, por medo de perder o reconhecimento, o emprego, o lar torna-se obsessiva. Ignora problemas de saúde, físico e social, para servir, temerosa de ser substituída. Por sua vez ela é mais incluída na família, quando é isolada pela Gestapo numa ilha a patroa torca cartas, manda dinheiro que apesar da recomendação "gaste com você", Paula usa comprando presentes aos patrões e seus amigos. No entanto, não há de modo algum sinais de possível igualdade, pois mesmo tendo estado por décadas sob o mesmo teto dos maiores psicanalistas da história, ela sabe menos sobre o tema do que eu. Não senta na mesa junto, não participa das discussões. Serve para servir.

Enquanto nos negarmos a dignidade dos trabalhos domésticos, não haverá coerência nas súplicas por justiça, igualdade e se quer fim da corrupção. Pois é corromper alguém, usar o poder do dinheiro para convencê-lo a abrir mão de sua dignidade, ao fazer um trabalho que o pagador não faria... Não há respeito possível nesse tipo de relação. Por mais polido que se busque ser, usar alguém obviamente mais pobre para limpar sua sujeira, para que possas morar numa casa maior que não se conseguiria limpar sozinho e trabalhar, é desrespeitoso, abusivo, e isso não tem valor pago capaz de extinguir. O contentamento verdadeiro em fazer esse serviço para terceiros, saudáveis e capazes, não pode ser comprado, pague-se quanto pagar, haja a lei que houver, discurse-se o que se discursar. A relação já se inicia corrompida, corrompendo.

Babá chama atenção de criança enquanto pai
faz selfie da família (Imagem: Eduardo Nunomura)

quinta-feira, 24 de julho de 2014

O Islã, a mesquita e a ignorância

Fica tudo muito confuso quando antes de conhecer somos bombardeados por conceitos prontos, supostamente embasados, amplamente aceitos e prontamente repetidos. Fica pior quando não há espaço para sentir, só para pensar presa na razão e na lógica.

O que é liberdade? Como manifesta-se o machismo?

Mulheres de burca e coberta por panos sempre me deram arrepios. Não é difícil imaginar porque, a primeira vez que tive contato com isso foi pela TV e elas sempre estavam associadas a opressão, sofrimento, violência. Me era mostrado como um costume medieval de sujeição, e narra-se longas histórias de apedrejamento, e costumes cruéis. O discurso defendido era de que as mulheres devem ser livres para se vestirem como quiserem.

Quando cruzava por uma nos bairros comerciais de São Paulo me sentia desconcertada. Precisariam elas de alguma ajuda? Mas elas não estavam de cabeça baixa caminhando atrás de um homem, como a TV narrava ser o costume. Elas pareciam decididas e confiantes, andando sozinhas pelas ruas, administrando lojas. E eu já não sabia como uma adolescente poderia ajuda-las. Já não sabia se devia continuar sentindo pena. Mas ainda insistia em associar tal vestimenta ao símbolo máximo da opressão machista. Nós ocidentais cristãs é que temos sorte de usufruirmos nossa liberdade nata.

Depois de experiências, leituras, conversas, observação, contato com grupos feministas, fui me convencendo que existe machismo, e muito, nas Américas. Vejo como a mulher é usada como objeto decorativo, como somos incentivadas (e cobradas) a sermos bonitas. Como a presença histórica de mulheres importantes é apagada, ignorada, subestimada, e as que restam são subjugadas a papéis secundários, cuja importância se resume ao papel de mãe do cara ou esposa do cara. E eu já não sei o quanto as mulheres exibem seus corpos por liberdade ou por coação. Afinal existe um único tipo de corpo a ser exibido, jovem e torneado, essa suposta liberdade morre na praia. E deveria essa liberdade, de se despir, ser imposta? Estaria lindo a lei francesa que proíbe o uso de burcas e do tal lenço? Seria essa lei uma busca pela liberdade das mulheres ou uma perseguição religiosa?

O que eu aprendi do Islã pela TV é que são sanguinários e pretendem matar todo mundo, em especial aos EUA, pois eles são totalmente contra a liberdade. Demorou muito para eu me dar conta desse espesso véu de ignorância que foi posto sobre mim. Sinto uma necessidade enorme de saber quem somos nós, o que significa nossa vida, se existe e o que é alma. A ciência não é capaz de suprir essa necessidade, busco então na religião, lendo, ouvindo, conversando, meditando e mantendo a mente aberta. Li dois livros, meio fantasiosos como romance que abordavam o Alcorão. Me encantei com "Seu Ibrahin e as Flores do Corão" e "Habibi".

Já nesse processo de amadurecimento, no qual um choque cultural não resultaria em atrito, foi que a conheci. Quando a vi envolta em panos não senti a aversão de outrora. Para minha surpresa uma enorme excitação percorreu todo meu corpo. Milhares de perguntas começaram a se formular na minha cabeça. O que ela pensa que é alma? Acredita em espírito? Porque usa esses panos? Acredita em Jesus? Achei indelicado começar uma entrevista desse modo. "Estamos atrapalhando seu jantar." E para minha sorte ela já entrou no tópico que eu queria. "É que estamos no mês do Ramadã, Fazemos jejum de quando o sol nasce até que se põe." Engatilhei diversas perguntas: o que é Ramadã?, existe uma dieta especial? e por fim, quando ela me disse que faziam 5 orações por dia, em todo o mundo no mesmo horário e no mesmo idioma, iniciando às 6 da manhã eu não pude me segurar. Foi uma vontade arrebatadora, eu precisava participar dessa oração. Pedi para me juntar, ela disse, pelo que consegui entender pois a comunicação não era de todo clara, que essa era uma oração mais íntima, mas às 19:45 havia uma oração na mesquita a qual eu poderia acompanha-la, se quisesse.

"Pai, qual a diferença entre árabe e muçulmano?" "Não sei." Passei pelo google para entender que muçulmano é quem segue o Islã, uma das religiões com mais fiéis no mundo e a que mais se expande, especialmente entre as mulheres! Vesti minha calça mais larga e às 19:30 estava na entrada o hotel esperando por ela.

Fomos caminhando, enquanto eu fazia muitas perguntas, tantas que nem conseguia entender as respostas, tinha receio de ofende-la. E porque usar o pano? Nas imagens católicas também tem. É para se preservar, como pureza? É. E os homens não usam? Vai da fé de cada um. Nesse momento passamos por um carro de onde descia um jovem bonito, envolto em lenços com um turbante. Achei que iriamos parar para cumprimenta-lo, afinal nas religiões em que andei era fácil confundir o rituais com um evento social. Mas qual, apertamos o passo e entramos por uma portinha estreita numa longa escadaria. Nas mesquitas grandes as entradas de homens e mulheres é separada. Preferi deixar para depois meus julgamentos, achei que seria desrespeitoso e me impediria de conhecer. Ela parecia apressada, você tira o sapato rápido e entra com ele na mão. Putz, estava calçando um tênis tipo botina trekking, difícil de descalçar. Fui tomada por uma espécie de desespero, não queria desrespeitar ninguém. Tive que me concentrar para não gargalhar, afinal parecia meio cômico um desespero para não ser vista por homens. Finalmente o tênis saiu, quase arrancando meu pé junto.

As mulheres ficavam juntas atrás de um pano, que as separava dos homens. Elas pareciam a vontade com isso. Só podem frequentar a mesquita no mês do Ramadã, exceto quando menstruada, nessa situação não devem rezar, e ficam devendo as rezas para outra ocasião. As orações eram em árabe. 5 sessões com intervalos. Eu poderia ficar a noite toda, mas minha anfitriã parecia demasiado insistente quando dizia que eu poderia ir, iria ficar cansativo para mim que não entendo. Achei que ela preferia que eu fosse. Gostaria de conversar mais.

Tenho muita vontade de conhecer mais que julgar. O Islã, em especial sua linha esotérica Sufi, parece ter muitos ensinamentos interessantes. Dizer que separar homens de mulheres, proibi-las de entrar no templo, é errado e machista sem conhecer as razões disso é ignorante e desrespeitoso com outras crenças. Somos sempre levados a julgar o Islã, e o pior, com base em casos estapafúrdios e cruéis. Como se não existisse pedofilia entre cristãos, como se não houvesse entre fiéis cristãos casos de intolerância, opressão, coação, violência. Oportunidade de conhecer o Islã são pouquíssimas. Eu ainda não sei o que penso disso tudo, quer dizer penso que cada um deve ser livre para ter a crença que quiser. Repetidas vezes encontro em literaturas espiritualistas diversas um alerta sobre o ego e sua manifestação primária, a vaidade. Assim me parece razoável que algum profeta tenha chegado a conclusão de que se cobrir toda é uma forma de não alimentar essa vaidade, ou raspar a cabeça e se vestir igual. Se isso é eficaz eu não sei, porque nunca tentei e não conheço intimamente quem tenha tentado.

O que eu não sei é até quando confiar na veracidade da existência de grupos muçulmanos fundamentalistas terroristas violentos contra a liberdade a democracia e os EUA, que atacam pelo simples fato de acreditarem que o mal reside na democracia, a qual os EUA tem o heroísmo de defender...

segunda-feira, 7 de julho de 2014

A árdua e interminável luta íntima contra preconceitos

Não me canso de admirar como a destruição de preconceitos é lenta, exige esforço, disposição e principalmente atenção! Mas é uma destruição bonita de se acompanhar.

Imagine que fiquei sabendo de um curso de "conversation" na universidade, ministrado por uma legitima americana. Topei na hora. E minha maior surpresa foi ver uma jovem engajada trazendo temas interessantes e extremamente críticos! Como a manipulação da mídia, construção de estereótipos, aliás indico um vídeo chocante (a conversation about race).

E não é que com essa história de copa, um amigo lança o comentário: "futebol é a única coisa que dá dinheiro e os americanos não estão envolvidos". Putz é mesmo, eu pensei como se essa fosse uma constatação muito genial. Sem me questionar o que eu entendia por "os americanos" eu fui. Oh yeah, eu fiz isso. Compartilhei o comentário na conversation. Na frente da americana e de todos os outros estudantes. Estupidamente abri minha boca e lancei essa observação rasa. E só comecei a me questionar "qual é o problema" depois que a professora imitou um barulho de bateria. Do tipo circense, depois de uma intervenção do palhaço.

Como eu posso ter dito isso a uma americana, que está no Brasil, e como eu é uma crítica ferrenha do consumismo, da coisificação e namora a revolução? E porque eu fiquei tão surpresa com o posicionamento crítico dela, pensando que isso seria contraditório vindo de uma americana? Carregada de preconceitos, eu me vi. De alguma forma na minha cabeça eu associei capitalismo e EUA de um modo simplificado, generalizado, superficial. Tanto que normalmente não me dou conta de que "os americanos" envolve uma gama extremamente complexa de seres humanos, dos quais certamente uma grande e significativa porção é crítica ferrenha do capitalismo selvagem, e uns outros tantos são anarquistas. Eu já sabia disso, já tinha reparado nisso, mas ainda assim não consegui flagrar prontamente. E fiz uma vítima do meu preconceito.

Acho que esse é o processo de destruição de preconceitos para construção de conceitos mais justos, profundos, complexos. Primeiro temos que nos abrir, isso é, simplesmente não pensar "o que esse idiota está falando, defendendo esse bando de vagabundos" ou no meu caso "que estúpida a reação dela, a verdade dói mesmo". Morei em São Paulo. Não achava graça em piadas de "baianos" (termo que inclui todos os imigrantes da enorme região norte e nordeste), mas eu ri da mulher tentando falar "youtube". E eu me achava muito boa pessoa.

Aqui em Rio Grande, estamos recebendo imenso contingente de imigrantes. Em sua maioria vindo de situação precária (suposição minha). Nesse momento, um pouco mais madura, identifico o baita preconceito que eles sofrem e isso me incomoda muito. Mas, mesmo assim...

(A professora americana nos pediu para criar um blog, só pra treinar o inglês. Empolgada com as analises de música que ela faz, tive uma ideia, fazer o mesmo só que ao contrário. Explicar, ao menos tentar, nossas músicas com crítica social no idioma do Império. Eis que surge num inglês medonhamente macarrônico, mas cheio de boas intenções A Subversive Brazil. A última música que pus foi Admirável Gado Novo.)

Mas, mesmo assim, mesmo depois de me reconhecer cheia de preconceitos e me identificar como defensora dos migrantes, você não acredita. Num é que eu passei direto e reto pelo trecho "É duro tanto ter que caminhar"? Estou acostumada a ver tudo: filmes, músicas, programas, notícias, voltadas para minha classe social, ainda que não para o meu gênero, mas isso não é problema pois fui adestrada a me encontrar em "os homens". Empolgada por ter me visto no livro admirável mundo novo nem me dei conta de que a música, praticamente homônima não era para "mim".

Só me dei conta e voltei para acrescentar um comentário na postagem quando já passava da metade da leitura de Vinhas da Ira, um livro muito envolvente, sobre uma família americana expulsa do campo por tratores e pés de algodão, que migra de modo muuuito (corajoso e) precário para Califórnia, como se não bastasse todo drama e dificuldade elas terão que enfrentar esse sombrio e cruel monstro chamado preconceito. O livro (nobel) inspira tamanha simpatia por esse grupo de pessoas - pobres, sem educação formal, com assassino ex-presidiário, mãe solteira. Nos envolve de modo a sentir as dores na pele, não é como viver, mas é próximo disso, dependendo da sensibilidade do leitor, muito próximo. Pensei em todos os imigrantes que conheci na minha adolescência paulista e com muito pesar, sinto vergonha em reconhecer que de alguma forma sempre me julguei superior a eles, minha "amizade" foi dada como caridade.

Nesse instante eu lembro da senhora falando "iutubiu" e me sinto extremamente idiota. Como paulista posso dizer que seria interessante, muito interessante, todos nós que nascemos e fomos criadas no estado mais """rico""" do país conferíssemos se não existe um morro de prepotência sob nossos pés. Donos do sotaque (e cultura e aparência e modelo econômico e roupas) adequado/ideal. Não, aquele vídeo não choca pela ignorância de uma mulher que não consegue dizer o nome de um site num idioma estrangeiro. Aquele vídeo choca pela risada do filho do patrão. Eu sei que estou desenterrando o tal do vídeo, mas sinto latente essa ordem estabelecida que põe o sotaque nordestino subserviente. Associando à ignorância e à valores desonrosos. Pois são nessas situações que eles aparecem nas novelas. Sinto como fui idiota em achar que estava bem o vídeo, por mostrar uma interação rara, eu achei legal da parte dele reconhecer a existência da pessoa que limpa suas sujeiras.

Fico triste por reconhecer tanta ignorância e preconceito em mim. E sei (e torço) que se daqui a 10 anos voltar a ler esse texto vou reconhecer uma dúzia de preconceitos e crueldades, torço para reconhece-los pois isso significa um passo para superá-los.

Você, que escreve, fala, canta, interpreta, dança, pinta, contra o preconceito, seu trabalho não é em vão. Me sinto muito, muito agradecida pela existência daqueles que (em oposição aos que constroem e nutrem) destroem preconceitos e salvam Almas. Nesse caso em particular, muito obrigada Zé Ramalho e John Steinbeck, e me desculpem por suas obras ainda serem consideradas transformadoras...
"Vinham famintos e ferozes, tinham a esperança de encontrar um lar, e só encontraram ódio. Okies... os proprietários odiavam-nos porque sabiam que eram covardes e que os Okies corajosos, e que eram bem nutridos e que os Okies passavam fome. E talvez os proprietários tivessem ouvido seus avós contarem como era fácil a alguém roubar terras a um homem fraco quando esse alguém era feroz e faminto e estava armado. Os proprietários odiavam-nos. E os donos das casas comerciais das cidades odiavam-nos também, pois que eles não tinham dinheiro para gastar. Não há caminho mais curto para se obter o desprezo de um negociante. Os homens das cidades, pequenos banqueiros, odiavam os Okies porque eles nada lhes deixavam ganhar. Eles nada possuíam. E os trabalhadores odiavam os Okies porque um homem esfomeado tem que trabalhar, e quando precisa trabalhar e não tem onde trabalhar, automaticamente trabalha por um salário menor, e aí todos têm que trabalhar por salários menores."

segunda-feira, 17 de março de 2014

Os miseráveis (trabalhadores dos EUA)


“Miséria à americana: vivendo de subempregos nos Estados Unidos” nos conta como vive a massa trabalhadora dos EUA.  A escritora com PhD em biologia começou a se questionar como os pobres conseguem fechar as contas? Como é possível viver com um salário de garçonete?
É interessante lembrar que isso já passou pela minha cabeça, trabalhar de garçonete nos EUA, aprender inglês, ter uma experiência e ganhar alguns trocados. Afinal, quem teria medo de trabalhar na potência norte americana? Certamente, na minha cabeça adolescente seria uma tarefa muito fácil!
Pois bem, B. Ehrenreich fez isso. Deixou sua casa, seu carro, seu marido para “se fazer de pobre”, foi apenas com um capital inicial de 2 mil dólares (ou quase isso), e foi viver três meses um em cada estado diferente. Se permitiu em todos os empregos alugar um carro velho, e se recusou a morar nele, esses seriam seus “luxos”. Segue um trecho conclusivo:


“Quando o desemprego provoca pobreza, sabemos como expor o problema – tipicamente, “a economia não está crescendo com suficiente rapidez” – e sabemos qual é a solução liberal tradicional – “pleno emprego”. Mas quando temos emprego pleno ou quase pleno, quando há empregos disponíveis para quem quer que os procure e possa chegar até eles, o problema se aprofunda e começa a atingir a rede de expectativas que forma o “contrato social”. Segundo uma recente pesquisa de opinião realizada pela Jobs for the Future [...] 94% dos americanos acreditam que “quem trabalha em horário integral deveria ganhar o suficiente para manter sua família fora da pobreza”. Cresci ouvindo repetidas vezes, a ponto de causar tédio, que o “trabalho duro” era o segredo do sucesso: “Trabalhe duro e você vai em frente”, ou “É o trabalho duro que nos trouxe até onde estamos”. Ninguém jamais disse que seria possível trabalhar duro – mais ainda do que jamais se pensou possível – e ainda assim ver-se afundando cada vez mais na pobreza e nas dívidas.
Quando mães solteiras pobres tinham a opção de permanecer fora da força de trabalho recebendo pensão do governo (poderíamos comparar com o Bolsa Família?!), as classes média e alta tendiam a vê-las com certa impaciência, para não dizer nojo. Os pobres que dependiam da previdência eram atacados por sua preguiça, sua teimosia de se reproduzirem em circunstancias desfavoráveis, seus supostos vícios e, acima de tudo, por sua “dependência”. Ali estavam, contentes de viver de “presentes do governo” em vez de procurar a “autossuficiência”, como todo mundo, por meio de um emprego. Precisavam ajeitar as coisas, aprender a dar a corda no despertador, sair de casa e ir trabalhar. Mas agora que o governo acabou com a maior parte de seus “presentes”, agora que a maioria avassaladora dos pobres saiu e está labutando na Wal-Mart ou no Mac Donald’s – bem, o que vamos sentir por eles? Desaprovação e condescendência não servem mais, então que sentimento fará sentido?
Culpa, você deve estar pensando, cauteloso. Não é o que deveríamos estar sentindo? Mas a culpa não leva a lugar algum; a emoção apropriada é vergonha – vergonha de nossa própria dependência que, neste caso, é do trabalho mal pago de outras pessoas. Quando alguém trabalha por menos do que precisa para viver – quando por exemplo, passa fome para que você possa comer mais barato e com maior conforto – essa pessoa faz um grande sacrifício por você, deu-lhe de “presente” uma parte de seu talento, de sua saúde e de sua vida. Os “pobres trabalhadores”, como com aprovação os chamam, na verdade são os maiores filantropos de nossa sociedade. Negligenciam os próprios filhos para que os filhos de outros sejam bem cuidados; vivem em habitações péssimas para que outros lares fiquem brilhantes e perfeitos; suportam privações para que a inflação seja baixa e o preço das ações, alto. Ser um pobre trabalhador é ser um doador anônimo, um benfeitor sem nome, para todas as outras pessoas.
Algum dia, é claro – e não vou fazer previsões sobre quando, exatamente – eles estão destinados a se cansar de receber tão pouco em troca e exigir que sejam pagos pelo que valem. Haverá muita raiva quando este dia chegar, e greves e destruição. Mas o céu não vai cair e no final estaremos todos em melhor situação.”

A autora iniciou sua "pesquisa" na Florida, onde tentou por 2 vezes trabalhar de arrumadeira em hotéis, mas acabava sempre sendo enviada para atuar como garçonete, devido sua tez e sotaque “apresentáveis”. Quando as contas insistiram em não fechar e ela não via mais como economizar, tentou trabalhar em 2 lugares simultaneamente e conseguiu trabalhar de arrumadeira. 
No Maine trabalhou numa agência de faxineiras. A agência recebia 25 dólares por hora, enquanto as faxineiras 6,65. Para tentar fechar as contas,  trabalhava num asilo durante os finais de semana.
Em Minnesota, foi impossível encontrar moradia, como ela diz quando ricos e pobres competem por espaço, os últimos levam a pior. Teve que passar um tempo num hotel muito simples, sem cozinha, nem trava na porta, nem ventilador. Aqui descreve um pouco sobre as maravilhas de se trabalhar no Wal-Mart, uma empresa francamente assustadora. Quando, por ter passado o tempo combinado em seu hotel horroroso ela precisa mudar e fica temporariamente em outro até achar uma moradia adequada, passa a pagar muito caro para trabalhar, e o projeto precisa acabar antes do tempo, com essa triste conclusão: “não é preciso um diploma em economia para ver que os salários são baixos demais e os alugueis altos demais [...]muita gente ganha muito menos do que precisa para continuar vivendo”.
Quanto mais pobre se é mais pobre tende a se ficar, sem a possibilidade do capital inicial para arranjar moradia menos ruins (que exigem um antecipado), acaba-se aceitando locais mais caros e mais longes do local de trabalho e sem cozinha para preparo da alimentação. Tendo que gastar ainda mais (dinheiro, tempo e energia) no transporte, alimentação e moradia.
No inicio Barbara se preocupava em como conseguiria esconder seu PhD em biologia, mas o fato é que não foi notada grande diferença entre ela e suas colegas que mal conseguiram terminar um ensino fundamental fraco.  Os trabalhos eram mecânicos e fisicamente desgastantes. Podemos desperdiçar ao longo de gerações grandes mentes, poetas, artistas, físicos, inventores, sem nem nos darmos conta... E quando não há espaço ou incentivo para criatividade ou inovação "todos os gatos são pardos", e todos erguem igualmente um aspirador de quase 5 Kg nas costas...
Sempre havia um gerente para reprimir qualquer possível “roubo de tempo”, ao longo das 8 horas de serviço, tirando as pausas de 15 minutos, não se pode sentar, comer, beber água, conversar, ou ir ao banheiro.  O custo de manter essa repressão (salario de gerente, câmeras), bem como os exames antidrogas (quando a empresa fornece) é certamente uma pressão ainda maior pra manter os salários baixos.
Existe forte pressão contra qualquer possibilidade de revolta, o Wal-Mart apresentava cartazes contra a "maldade" do sindicato. Dificultava-se ao máximo qualquer contato entre os funcionários. Somado ao esforço em fazer os funcionários se sentirem suficientemente desvalorizados para acreditarem que o quanto ganham é o quanto merecem, e não se rebelarem jamais, o que não é muito difícil, pois mesmo testes com animais revelam que macacos e ratos “forçados a um estado de subordinação em seus sistemas sociais adaptam em conformidade a química de seu cérebro, tornando-se “deprimidos”.
Além de não terem acesso a planos de saúde ou a um sistema público eficiente, é comum o trabalho pesado e repetitivo causar lesões a longo prazo, as dores incentivarem o consumo de analgésicos (baratos de qualidade duvidosa), com os baixos salários a alimentação se restringi a itens baratos, ou cestas de auxílio, sem vegetais ou frutas frescas, mas cheios de gordura e açúcar (o que me leva crer que os que não sentem fome estão subnutridos), e bairros e moradias mais acessíveis são comumente insalubres. O pobres trocam por míseros salários, não apenas seu tempo, como sua saúde. Para que possamos ter o prazer de poder comprar roupas baratíssimas na renner, tirar peças de arara e cabide e deixar por aí, ou provar e simplesmente abandoná-las no provador, acreditando que a fada madrinha se encarregue de magicamente por tudo em ordem na nossa ausência.
Dois pontos me deixaram um pouco assustada. Um é ver a grande nação, o Império dos EUA, como um país pobre, mas coberto com uma espessa camada de maquiagem.
E segundo, como nós classe média (que sim, também não estamos bem como deveríamos) exploramos diariamente de um modo cruel e desumano milhares de trabalhadores miseráveis. Cada cafezinho que vc toma para aumentar seu rendimento, teve mãos miseráveis no transporte dos grãos, no plantio, na colheita, na aplicação dos produtos químicos, para fazer o café, para lavar a xícara, e você mal olha nos olhos de quem lhe atende. Semana passada fui na renner, precisava comprar um top, peguei 2 fui ao provador no andar de baixo, na saída pedi para a moça "eu posso guardar esse aqui", ela pareceu extasiadamente feliz "jura? muito obrigada!", a arara de devoluções estava gigante. Não doeu colocar um top no cabide e devolver para arara que eu tinha tirado. Aliás, achei isso de um anarquismo extremo. E hoje, buscando o carro de uma manutenção, fui pegar um cafezinho, era tão arrumadinho, desconfiei "posso pegar um?" perguntei para senhora encarregada de lavar as xícaras "claro". Tinha tantas opções... "qual a senhora mais gosta?" ela me olhou, talvez achando tudo aquilo muito inusitado "eu não sei, os funcionários não podem tomar". Fazia tempo que não me sentia tão sem graça, não consegui fazer nada além de engolir um capucino e sair correndo desconcertada... 

sábado, 8 de março de 2014

a passividade forjada que nunca existiu

8 de março, assim que me lembrei que esse é o “dia internacional da mulher” pensei que poderia utiliza-lo para escapar da louça. Mas, já era tarde, eu havia esfregado o chão, lavado roupa, capinado o canteiro e estava segurando um prato com as mãos cheias de sabão... E sinceramente, deixar de fazer isso não teria feito meu dia mais feliz, no meu caso eu não faço por obrigação, mesmo porque as tarefas domésticas por aqui se não são igualmente divididas, pendem mais para o sexo masculino, em nossa casa anarquista. Ademais não é essa a importância da data, não é para ganhar chocolates (com cacau colhido por mãos escravas) nem flores (plantadas aos montes, com tantos produtos químicos que mal são capazes de apodrecer), nem tão pouco para ter um dia de princesa (aliás não deveria o termo se associar mais a nobreza de caráter do que a vadiagem e exploração explícita de terceiros?).

Não, não, não, pensei comigo, esse dia é para lembrarmos que em média 15 mulheres são mortas, a cada dia, pelo simples fato de serem mulheres. Eu em relacionamento sério com um feminista nato e frequentando espaços relativamente civilizados (no bom sentido do termo), não corro risco de fazer parte dessa macabra estatística. Esse dia não é para mim. Foi o que meti na minha cabeça e segui meu dia, como todos os outros. Apenas curtindo algumas postagens feministas.
Mas eis que aos 45 do segundo tempo. Ouço os rapazes de casa comentando sobre o Game of Thrones, a respeito de uma parte que a mãe diz que "o que o rei fala vira a verdade e vira a história". Instantaneamente sou arrastada até a história de Wu Zetian.
Me diga, quantos nomes de rua femininos vc conhece? Quantos bustos femininos vemos expostos pelas praças? Nomes de cidade? Não que isso signifique lá muita coisa, ainda mais no Brasil que escolhem a dedo os nomes e rostos para serem homenageados, e os verdadeiros heróis são sistematicamente ignorados.  De todo modo, quantas filósofas vc leu, ou ouviu falar? Quantas cientistas? Deusas? Líderes políticos? Mestres iluminadas?  Revolucionárias simbólicas? Será que não houve? Será que só hoje as mulheres são capazes e tem permissão de ousarem e agirem, e contribuírem para o progresso moral, intelectual e social da humanidade? E espiritual? Não houveram personalidades femininas dignas de serem lembradas? Porque tanto se fala de Sócrates e tão pouco de Aspásia? Será que não houveram mulheres notáveis, ou será que foram sendo pouco a pouco removida dos livros de história? Tão pouco os que leram Rosa Luxemburgo, ou Ema Goldman!
Voltemos a nossa Wu. Citada no maravilhosos livro: Feminino Ativo, Feminino Solar. Wu é apresentada na história chinesa como um ser diabólico de tão sanguinário. Bem, de fato, muito sangue foi derramado sob suas ordens, passível de crítica, no entanto, não teria ela derramado mais sangue do que outros imperadores a ponto de justificar tal fama. Pq sua história e contada com esse enfoque?
De início partimos que mesmo hoje, com certa liberdade que gozam os historiadores, havemos de convir que a história contada é bastante parcial. Na China essa parcialidade é acentuada, e os escritores relatam o que lhes é ordenado dizer, ou então não dirão nada.
Wu cometeu uma primeira grande gafe ao nascer sem um salsichão pendurado entre suas pernas. Mesmo num tempo de alguma valorização do feminino, mulheres eram consideradas pessoas de polaridade yin, passivas e submissas, naturalmente, sem capacidade física ou moral de reinar. Confrontar essa “lei natural” determinista de modo prático a transformava, para muitos, em um monstro antinatural.
Segundo, e possivelmente mais importante. Wu traz reformas profundamente democráticas. Instaurou sistemas de concurso público para altos cargos do Estado, “projetou diversas medidas humanitárias, tais como diminuição dos impostos, para favorecer o desenvolvimento da agricultura e da indústria da seda; isentar de trabalhos forçados os habitantes de algumas zonas e, de modo geral, reduzi-los um pouco em toda parte; converter a atividade militar em educação moral; limitar os excessos de luxo; promover o taoísmo; revalorizar o papel de mãe e e o respeito que lhe é devido [...]” Conquistando assim o apoio incondicional do povo e o ódio da classe aristocrática.  A qual após sua morte se dedicou a destruir sua história para não haver risco de que semelhante ameaça voltasse a lhes acontecer.

Ainda hoje exercer o papel de liderança num corpo feminino é um desafio bastante grande: 
"Em uma experiência comum, feita em vários países, um grupo de pessoas é convidado a avaliar um discurso feito por um homem, enquanto outros avaliam o mesmo discurso feito por uma mulher. Geralmente, todos dão uma nota maior quando o discurso é feito por um homem.
A autopromoção é uma estratégia útil para os homens, mas quando as mulheres ressaltam suas próprias realizações, provocam antagonismos ou não despertam interesse. E as mulheres parecem ficar ainda mais ofendidas com a autopromoção feminina do que os homens. Isso cria um enorme desafio para mulheres porque, quando ela é uma pessoa modesta, é considerada medíocre. Se ela procura promover suas realizações, porém, é taxada de presunçosa. Para o azar das mulheres, a liderança feminina pode ser reconhecida pela competência ou pela simpatia, mas não por ambas." (Link)

Feminino Ativo
Voltemos à China, ainda hoje podemos encontrar em Sichuan o povo Moso. Embora sua cultura esteja cada vez mais deturpada pelo acesso constante de turistas, essa sociedade se construiu num viés matriarcal. Eles não reconhecem o casamento, aliás, reconhecem como um aprisionamento do amor, que segundo sua concepção deve ser livre, “os sentimentos só conseguem desabrochar em liberdade”. Assim, as mulheres encontram seus namorados a noite como, quando e por quanto tempo querem. Quando engravidam, cuidam de seus filhos com sua família, na casa da mãe com seus irmãos. Não há a figura paterna, no máximo um tio. A casa é posse da mãe, que passa a uma filha mulher. Pode soar um pouco injusto com o sexo masculino, e talvez seja mesmo, mas eles não são objeto de maus-tratos. O fato de os homens não terem direito a propriedade, nem da esposa, nem da casa, nem dos filhos, é visto por eles como fator crucial para manutenção da harmonia:

“com elas, não há conflitos, tudo é mais tranquilo [...] o elemento masculino é causador de problemas quando possui algo sujeito a rivalidade [...] os homens [mosos] não possuem nada [portanto] eles não tem nenhum motivo para brigar.”
Esse livro traz diversos exemplos de mulheres e sociedades que nos convencem de uma vez por todas que essa história de feminino estar relacionado a passividade e submissão é uma grandiosíssima mentira. Períodos em que o feminino era respeitado e valorizado apresentam verdadeiros momentos de progresso e avanços tecnológicos e morais. O mais interessante é analisar como esse conceito (feminino = passivo, submisso, inútil, servil) é construído de modo maquiavélico, ninguém nunca me disse, não que eu me lembre, claramente “cala boca que vc é mulher e só fala asneira”. Hum, lembrando melhor talvez meu irmão tenha me dito algumas vezes, mas era “zoeira”, assim como, tenho me lembrado, algumas piadas e correntes de e-mail. Mas o fato alarmante é que essas infelizes piadas foram endossadas pelas aulas de história, matemática e física, ao sempre endeusarem cérebros masculinos (brancos de origem europeia, diga-se de passagem, classe alta, provavelmente uma vez que educação é seletiva), idem na religião “pai, filho, espírito santo” (em muitas crenças silenciadas essa trindade é feminina, ou composta por casal e filhx, mesmo pq se Deus está associado à criação quem está mais próximo desse dom, o feminino ou o masculino?) ou Kardec, Buda, Islamismo... Eu, de um modo ou outro, sempre soube que mulheres são seres inferiores, eu tentava achar algo que me provasse o contrário, mas na realidade eu sabia que éramos. Tempos difíceis esses...
Agora eu sei que não somos inferiores. Esse livro está sendo uma luz muito importante nessa consolidação desse meu novo saber. Eu sempre encarei a menstruação como um castigo, como algo realmente degradante, vergonhoso, monstruoso, uma moléstia. Mas sabe, ter essa ligação tão forte com um belo astro redondo e majestoso, é uma linda relação com a natureza. A capacidade de dar a luz, gerar vida é muito mais ativo do que a passividade de ser um receptáculo ao líquido da vida masculino, conceito inculcado a muito que ainda hoje tem repercussão quando não cabe a mãe decidir que tipo de parto ela escolhe ou se quer parir.
Não minhas amigas. Não somos passivas, e não devemos, em hipótese alguma, nenhum tipo de submissão, isso é contrário a nossa natureza, e só há de trazer dor, sofrimento e infelicidade. Obviamente, não é a autoridade e tirania, por outro lado que nos darão a paz de espirito oriunda da felicidade. Mas, o respeito mútuo às liberdades e escolhas.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Goteira não se resolve com balde

Não consigo entender exatamente muito bem o que se pretende com a redução da maioridade penal. Ao que parece, houve um crime bárbaro (tipo destes que aparecem 789 vezes por semana na rede globo), só que dessa vez cometido por um menor de idade, e que portanto não poderia cumprir a pena máxima em nossos lindos presídios medonhos. Aqui cabe ressaltar que o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) prevê medidas socioeducativas punitivas que vão desde advertência até internação (que pode chegar a 3 anos) para os casos mais graves, e essa internação é consideravelmente desagradável, tenhamos certeza disso.

O crime (que eu faço questão de desconhecer) "chocou" a população que clama por "justiça", e acarretou manifestações pedindo a diminuição da maioridade penal. E o atual governador de sampa, passa a propor o aumento do período de internação, seria um "cima do muro" para a redução da maioridade penal, sem usar esses termos.

Os manifestantes argumentam que quem pode votar pode ser responsabilizado por seus crimes tal e qual um adulto. Esse argumento reside no fato de acreditarem que o adolescente está sob a tutela de lei especial por não saber o que está fazendo. Na realidade, o ECA prevê condições especiais à criança e ao adolescente por reconhecer que são seres humanos em desenvolvimento (embora todos sempre estejamos, ou deveríamos estar em desenvolvimento), essa é uma fase especial em que construímos uma noção de mundo e buscamos encontrar nossa posição nele. Em teoria as medidas socioeducativas previstas não buscam fazer vingança através do sofrimento do infrator, mas sim, ajuda-lo a reconstruir sua participação na sociedade para ações mais positivas, em teoria, deveria haver medidas de reinserção educacional, formação profissional, tratamento de dependência química...

Redução de maioridade infinita.
Outro argumento constante dos discursos dos defensores da redução trata de outros casos como a utilização de "laranjas" menores para acobertar criminosos que sofreriam uma punição maior. É fácil imaginar que existem pessoas de 14 anos que poderiam ser utilizadas para isso, inclusive pelos de 16. E que depois de reduzir ainda mais a maioridade, haveriam os de 12, e seguiríamos tapando o sol com a peneira.

O mais surreal dessa proposta é a fé que ela traz no sistema penitenciário brasileiro. Putz grila. Alguém em sã consciência pensa mesmo que isso diminui a criminalidade e nos faz andar mais seguros com nossos tênis nike pela city? Alguém pensa que depois de crescer em péssimas condições, em ter um conceito de si mesmo e de mundo tão desgastado a ponto de cometer crimes, o camarada condenado a x anos vai usar esse tempo, naquele lugar agradável que são as penitenciárias, para repensar suas atitudes e chegar a conclusão de que "ah não, a sociedade é tão linda, como estou arrependido de atentar contra esses cidadãos maravilhosos, que trabalham feito camelos, puxa vida". E ai então, o ex-detento, sempre tratado com o amor e carinho que só nossa sociedade é capaz de dar, vai buscar um emprego (não de gari porque é muito concorrido), nem de padeiro porque não sabe fazer pão... ele vai... sei lá, fazer vestibular. Fim da história.

Estatuto prevê direito à dignidade, lazer, cultura...
Sim porque isso não é ingenuidade, ingenuidade é a minha de pensar que o ser humano é dotado de capacidades inexploradas, e nasceu com uma necessidade dilacerante de receber e doar amor, e o meio e suas amargas experiências o tornam um ser desprovido de sentimentos. O que poderia ser amenizado com investimentos em infraestrutura, a ponto de dar opções a todos os jovens, de lazer, artes, e cultura. Aliás, o próprio ECA prevê que toda criança e adolescente têm direito à vida, à educação, à saúde, ao lazer, à cultura, ao esporte, à alimentação, à profissionalização, à dignidade, ao respeito, à liberdade, à convivência familiar e comunitária, a serem garantidos pelo Estado. (cumpra-se)

Muitos argumentam que vulnerabilidade social não é justificativa para o crime, e eu concordo nada justifica a violência (nem ser vítima de crime). Acontece que estatisticamente jovens que cometem crimes violentos estão em situação de vulnerabilidade social. Ainda que existe o caso de playboys que queimam mendigo (mas, nesse caso não há mobilização pela diminuição da maioridade penal). Sendo assim uma medida inteligente seria a atuação da causa do problema.

Não é através da construção de mais estradas que se resolve a questão da mobilidade urbana. Não é com medidas (negativamente) punitivas, egoístas, vingativas e imediatas que vamos melhorar nossa sociedade e acabar com problemas crônicos e complexos. Uma outra analogia para essa medida é resolver goteiras colocando um balde no chão.



Recomendo: http://www.dhnet.org.br/dados/cartilhas/dh/cartilha_freixo_reducao_idade_penal.pdf

Só para constar mais uma coisinha. Quem assistiu ao filme Intocáveis deve ter ficado maravilhado. De fato é um filme muito tocante, de um negro, marginal que passa a ser assistente de um milionário tetraplégico, e encanta o ricaço com seu jeito despojado, simples e verdadeiro de ser. Muito lindo. No entanto, depois do filme, o negro, que na realidade é um árabe baixinho, escreve um livro sobre sua versão da história. "Você mudou a minha vida" mostra a vida de uma criança de Argel, que passa para a tutela de tios em Paris, e se cria sem nenhuma orientação "pisco-pedagógica" adequada. O livro espontâneo, aparentemente sincero e divertido, mostra como esse jovem, abandonado pelos país, constrói uma visão de total indiferença do mundo e reluta em respeitar conceitos como "propriedade", de tal forma que seus roubos parecem bastante coerentes com seu raciocínio. O interessante é notar que mesmo num país desenvolvido como a França, a ausência total de diálogo e educação adequada posterga desenvolvimento pleno do jovem protagonista. Que só passa a respeitar a "propriedade" ao conhecer intimamente um milionário tetraplégico que sabe-se Deus porque decidiu contratá-lo e respeitá-lo como o ser humano que ele sempre foi, apesar de seus rótulos pouco respeitáveis.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

França legaliza casamento gay!

Casamento gay é legalizado em apenas 14 países.
 Que linda notícia! bem quando eu vinha juntando forças e algum conteúdo para abordar o tema. Pensei em falar de casamento pois fui ao de uma grande amiga no sábado. E fiquei pensando...

Lendo ao livro "Comprometida" fiquei sabendo um pouco da história desse contrato antiquíssimo. Segundo pesquisas realizadas pela autora a igreja católica posicionava-se inicialmente, de modo muito coerente, contrária ao casamento. O que de fato faz muito sentido. a igreja defendia o celibato para todos, uma vez que o sexo era considerado um pecado carnal execrável, não faria sentido "abençoar" algumas relações. O matrimônio era visto como algo só um pouquinho menos pior do que a prostituição. A igreja não visava "fazer" novos cristãos, mas em "convertê-los". Como imaginavam que a população se manteria eu não tenho muita certeza. Mas, talvez com alguma ajuda do Espírito Santo, como foi o caso de Jesus.

Nem por isso as pessoas deixaram de se casar. Sem o aval da igreja os casamentos ocorriam unicamente de modo civil. Eu não decorei anos, mas a sequencia lógica dos acontecimentos trazida no livro é esta. E do mesmo modo que se casavam se divorciavam. Imagine quantas rasuras nos cartórios, rs. Até que por fim, a igreja se deu conta de que a coisa não estava indo lá muito bem, e resolveu ceder a "pressão" do seu público cativo, passando a aceitar e abençoar os casamentos.

Discussão sem propósito.
No entanto, a cada casal nobre que se formava, via-se nascer uma aliança forte de poder e dinheiro, do qual a igreja compartilhava e de repente, o amor se apagava, o casal se separava e toda estratégia bolada ia por água abaixo. Então, resolveu-se que essa história de casa/divorcia não estava fluindo e passou-se a condenar o divórcio.

Notado tal poder sobre as pessoas diversas "regras" foram impostas. E nos Estados Unidos da América, até bem pouco tempo atrás (~1970) era expressamente proibido o casamento entre pessoas de "raças" diferentes. E atualmente, assim como no Brasil o casamento entre pessoas do mesmo sexo continua proibido, muito embora, essas pessoas possam adotar e criar filhos, pagar impostos, morar juntas etc...O casal top de Hollywood Brad Pit e Angelina Jolie, já declararam que só se casarão quando todos os seus compatriotas puderem ter essa opção.

Para mim parece quase surreal essa discussão. Quer dizer, não tem o que discutir! Porque diabos haveríamos de impedir duas pessoas de se casarem? Para mim o mais intrigante e a discussão que faz mais sentido é: pq as pessoas querem se casar? Gasta-se um dinheiro absurdo em igreja, cartório, festa, entre outros, para garantir um direito que já existe. Pois pelo que eu sei quem mora junto, constituindo uma união estável, já tem os mesmos direitos e deveres legais de quem casa. Pela história do casamento católico podemos depreender que não haverá maior zelo divino sobre os casais que se comprometem diante um padre/pastor/etc. E como disse o pastor no casamento de minha amiga, essa aliança na verdade não é exatamente importante, o que importa é o compromisso que o casal assume um perante o outro, o que é algo imaterial. Essa aliança é apenas um símbolo para os que precisam de algo material para lembrá-los de seu compromisso...

Indicação para todos "comprometidos"
num relacionamento romântico.
No livro a autora narra um "casamento" em que o casal fez uma "cerimônia" de duas pessoas, e fizeram seus votos, inclusive a "noiva" afirmava que não prometeria amar e cuidar de seu companheiro para o resto da vida, pois não tinha como ter certeza da possibilidade de cumprir esse voto. Afinal, não se deve estar junto por respeito a uma promessa. Dividir uma vida depende de muito mais que uma promessa, ou uma assinatura em cartório, ou a benção do padre. E nada tem haver com sexo, raça ou credo.

Aliás, esse livro "comprometida" deveria ser leitura obrigatória para todos os relacionados. Isso sim faria mais sentido de se exigir para o casamento. Informação. Ela segue esmiuçando os motivos que levam um casamento ao colapso de maneira bastante lógica, mas isso talvez seja assunto para um outro post.

domingo, 24 de março de 2013

Mais vale um pássaro voando do que dois na mão

Uma amiga minha me emprestou um livro, um verdadeiro marco na história do ambientalismo. Trata-se de "Primavera Silenciosa".

Consiste na descrição do uso alucinado de inseticidas e herbicidas e seu efeito. O livro é excelente pela forma como foi escrito. É dotado de uma visão ecossistêmica, o solo é riquíssimo em diversos micro-organismos que são fundamentais para manutenção do reino vegetal. A pulverização de veneno em "ervas-daninhas" (isso é, em plantas que por algum motivo nós classificamos como indesejáveis por não serem úteis a única espécie que tem direito de decidir alguma coisa) contamina e envenena todo o solo e toda infinidade de organismos que vivem lá. Esses organismos, migram, voam, alimentam outros animais, nosso planeta está todo conectado, é uma esfera. E assim é fácil imaginar que a livre pulverização de venenos ocasionou o declínio de 90% de certa população de pássaros. As paisagens ricas que margeavam estradas norte americanas se tornaram estéreis e marrons. 

Isso foi longe e na década de 60, correto?! Não poderia se ter certeza do dano, preferiu-se arriscar, alguém ganhou, ou ganha muito dinheiro vendendo venenos, alguém ganhou muito dinheiro aumentando (ainda que temporariamente) a produção. Agora as leis que regulam o uso está mais rígida e a agroecologia vem leeeeeeeeentamente conquistando algum espaço. No Brasil, mesmo com esse legado de experiência a coisa  ainda não vai bem. Nesse sentido vale ver a um preocupante documentário O veneno está na mesa (link) .
Essa história de política estar intimamente (quase pornograficamente) relacionada com interesses privados causa alguns desconfortos que temos diariamente que engolir, como o uso de agrotóxicos não liberados pela ANVISA por causarem danos a saúde (link da matéria). 

É um pouco assustador pensar na quantidade de produtos químicos que ingerimos diariamente. E por mais que existam alguns estudos sobre o efeito pontual de cada um, é impossível prever seu efeito sinérgico no organismo humano e no planeta.

Aliás, quanto a reconhecer o efeito no planeta, algo que me chamou muito a atenção foi que o livro está abarrotado de relatos espontâneos de pessoas que reparavam as mudanças no ambiente, uma cita que em Londres era possível trafegar milhas sem ver uma única ave, e tantos outros fazem reclamações semelhantes. São pessoas que reparam na natureza, pessoas que foram capazes de notar algum problema. É verdade que nesse caso o problema era gritante, mas eu fico assustada como cada vez menos conhecemos e reparamos nas aves e na natureza. Uma professora minha já havia dito "as crianças do campo sabem reconhecer o símbolo do Big, mas não reconhecem nenhuma espécie de ave local". É possível que espécies tenha sido extintas sem que as tenhamos conhecido... e é possível que espécies venham a ser extintas sem que aprendamos a admirá-las. Admirar a natureza é uma atividade extremamente prazerosa e didática, não apenas didática no sentido de estudar seus processos mecânicos, mas didática num sentido mais transcendental, a observação da natureza nos leva a uma viagem interna e espontânea que resulta em insights. Nossa humanidade desenvolvida, cria tecnologias fabulosas mas pouco conhece seu interior e tem adotado práticas que destroem os melhores professores para isso.

Claro que a visão ambiental atual tem um viés pragmático, que é real, preocupante e convence mais. Simplesmente dependemos de um ambiente saudável para existirmos, dependemos de ar e água limpos, dependemos dos "serviços" ambientais prestados pelos demais seres vivos. Isso é verdade, mas pode ser tecnologicamente produzido. Eu sempre fico com uma cara de panaca quando exponho uma preocupação ambiental e o engenheiro mais próximo descreve 3 ou 4 projetos que já existem para amenizar o problema. Eu entro num conflito interno, pois deveria ficar feliz em saber da existência de um purificador de água movido a energia solar, por exemplo, mas eu não fico, eu fico irritada. Achava que era por "perder a discussão", mas eu não ligo para ganhar discussões, não é falsa modéstia, eu nasci com esse problema. Esse livro traz trechos que poderiam se enquadrar como "poético-ambiental" o que me fez pensar que a maior motivação para minha postura ambiental é transcendental, o que dificulta qualquer discussão nesse mundo pragmático. Mas tentarei: eu quero manter a possibilidade de depois do expediente me mandar para um lugar sem nenhum resquício da atuação humana, pois só nessas condições eu consigo me harmonizar. é só quando fico uma hora num lugar assim que eu alcanço a sensação de saber quem eu sou e de ficar bem com isso. Poderia dizer que tenho inveja das pessoas que parecem conseguir isso indo a shoppings centers, mas faz algum tempo que desisti das comparações externas e esdrúxulas. mas de fato, parece meio injusto e inadequado reivindicar a intocabilidade de ambientes naturais pelo simples fato de sentir uma necessidade interna escandalosamente gritante... Quando questionado sobre a necessidade de um local adequado para meditar Gandhi disse que trazia a caverna dentro de si. Talvez isso fosse o adequado, a ponto de eu tentar me esforçar para manter aquela sensação (conquistada depois de uma hora em contato com a natureza) em todo e qualquer local, inclusive engarrafamentos e shoppings centers, mas tenho a impressão de que ninguém consegue, e que se pudessem apreciar a natureza "selvagem" haveria mais paz.

Acho que é isso que nutre o ambientalismo, que nunca parece satisfeito com soluções práticas. não quero "ecoeficiência", eu, nós, precisamos disso, o que eu quero é paz, amor e harmonia. Talvez tu lendo isso possa ter chego a concordar, mas lhe afirmo que dizer muitas vezes soa ridículo, e eu fico sem entender pois na minha lógica é isso o que mais importa e é para isso que o desenvolvimento tecnológico nos deveria guiar.

Apenas quando pudermos concordar que "mais vale um pássaro voando do que dois na mão" estaremos em paz.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Desmistificando Gandhi

Mais um gostoso presente do hábito de bisbilhotar a biblioteca da facul foi descobrir um pouco mais sobre essa pessoa fantástica chamada Gandhi.

Primeiro eu li a biografia, depois eu assisti ao filme, e acabei de terminar a leitura da autobiografia.
No auge de minha ignorância eu esperava ler sobre uma pessoa transcendental, não sei explicar bem, mas eu imaginava ele como alguém iluminado a quem as respostas chegam de maneira miraculosa. Fiquei imensamente surpresa em encontrar nas páginas escritas o reflexo de uma pessoa comum, bem, basicamente comum. O que diferencia Gandhi dos demais mortais não é nada miraculoso, é apenas sua sincera e incansável busca pela verdade (o que o levou a desenvolver o Satyagraha). Foi fácil me dar conta de que esse "apenas" é muita coisa.

Mas o que quero dizer é que ele não foi um enviado divino com discursos e condutas impecáveis, pronto à guiar todos os seres rumo a boa conduta moral. Ele foi se moldando e se formando com o tempo. Se formou em direito em Londres e por algum tempo exerceu a profissão na Índia, lá na Africa sofreu um "choque de realidade" ao reconhecer como eram desprezados os indianos. A partir de então passou a ter uma participação cada vez mais ativa para reverter esse cenário. Defendendo causas de interesse social de graça, escrevendo a jornais etc. Tudo o que ele defendia ele acreditava a ponto de viver isso (o que tem sido raro encontrar nas pessoas de hoje que defendem ações completamente contrárias a seu modo de vida, por uma razão ou outra, como ditos comunistas podem viver de modo opulento ao lado de miseráveis famintos é algo que me perturba...).

Aliás, a autobiografia foi escrita aos poucos em capítulos. Sua dedicação à comunidade chegou a tal ponto que o tempo dedicado a si era ínfimo. Como haviam solicitado que escrevesse à um jornal e amigos de confiança pediam para que registrasse a parte não pública de seus feitos políticos na forma de uma autobiografia, ele foi escrevendo os capítulos no periódico.

É engraçado que em algumas passagens fiquei impressionada pelo fato de ele se revelar tão estrategista, ele identificava atores chave e estudava a maneira ideal de abordá-los para conquistar suas causas. Também costumava articular ideias com vários amigos. Essa é uma dificuldade do livro citação constante de diversos nomes indianos e árabes que nunca ouvi dizer.

Ao longo do livro ele aborda questões como alimentação, ele comeu carne escondido um período de sua adolescência se deixando levar pela influência de um "amigo". Mas manteve-se vegetariano, até que optou por deixar temperos, sal e por fim até legumes e vegetais. O que parece ter causado certos problemas intestinais. Com essa dieta ao se hospedar com amigos reconheceu que causava certo desconforto entre os anfitriões, que dispunham enorme variedade de frutas e castanhas, acabou por considerar comer apenas 5 exemplares por dia!

Quanto a prática religiosa, ele leu a bíblia e o corão, conversou honestamente com católicos e muçulmanos, mas seus princípios se afinavam mais com o hinduísmo  E lia regularmente a Gita, e permanecia em oração em todo momento de sua vida. Nesse sentido eu comprei um outro livro fabuloso denominado "A roca e o calmo pensar", com trechos de cartas, discursos e artigos do Gandhi sobre a prática e importância da oração.

Enfim, vai sendo narrado de forma simples e humilde, passagens de sua vida e os fatores que o levaram a realiza-los. Nota-se que uma série de vivências e opções foram lapidando esse ser humano aparentemente livre de ego. É interessante notar as grandes conquistas políticas alcançadas com ações totalmente livres de violência (pautadas em boicote, greves - verdadeiras, não-cooperação, desobediência civil - considerando a existência de uma lei superior a nosso ser, a voz da consciência).

Em trecho ressalta que "civilidade não significa mera gentileza e fala cortês, mas amabilidade intrínseca e desejo sincero de fazer o bem ao oponente".

Vou citar parte do capítulo final:
"Tem sido um esforço incessante descrever a verdade como ela se apresentou a mim, e o exato modo como a alcancei. Esse exercício tem me proporcionado uma inefável paz mental. Minha experiência me convenceu de que não há outro Deus senão a Verdade. E se todas as páginas desse capítulo não proclamarem ao leitor que o único meio para a realização da Verdade é o ahimsa (não-violência em todos os aspectos, pensamento, sentimento e ação), devo concluir que todo meu trabalho foi em vão. E, mesmo que meus esforços sejam infrutíferos, quero que os leitores saibam que foi o veículo, e não o grande princípio, que falhou. Depois de tudo, por mais sincera que tenha sido minha busca pelo ahimsa, ela não deixa de ser imperfeita e inadequada. Mas posso assegurar que como resultado de minhas experiências, uma perfeita compreensão da Verdade só pode resultar da completa percepção do ahimsa.
Para ver face a face o Espírito da Verdade universal o indivíduo deve amar a mais insignificante criatura como a si próprio. E um homem que quer chegar a isso não pode permanecer fora de nenhum campo da vida. É por isso que minha devoção à Verdade me levou ao campo da política. E posso afirmar, sem a menor hesitação e ainda assim humildemente, que aqueles que dizem que religião não tem nada a ver com política não sabem o que significa religião.
A identificação com tudo o que existe é impossível sem uma autopurificação. Sem ela, a observação do ahimsa permanece um sonho vazio. A autopurificação, portanto, deve implicar a ascese em todos os aspectos da vida. Para atingi-la, o indivíduo tem de se tornar absolutamente livre de paixões em pensamento, palavras e ações. Precisa elevar-se acima das correntes opostas de apego e ódio. Sei que ainda não tenho dentro de mim essa pureza, por isso que os elogios do mundo não me comovem, na verdade com muita frequência me doem.
Conquistar essas paixões sutis me parece mais difícil que a conquista física do mundo pela força dos braços. Tenho tido experiências com paixões latentes, escondidas em meu interior, o conhecimento delas fez com que me sentisse humilhado, mas não vencido. Sei que tenho um caminho difícil a transpor. Devo reduzir-me a zero. Enquanto o homem não se colocar por livre e espontânea vontade como a última de todas as criaturas não há salvação para ele. O ahimsa é o limite máximo da humildade."

Não é fantástico que ele exponha se modo tão sincero seus monstros, e que também ele estivesse em constante esforço pelo aprimoramento pessoal? Acho que o primeiro e principal passo é nos esforçarmos em busca do aprimoramento moral. O que me faz lembrar a citação que li num e-mail hoje "Somos o que fazemos, mas somos principalmente o que fazemos para mudar o que somos".

É até divertido pensar na vida como um jogo de vídeo-game, no qual iniciamos com certos defeitos dos quais devemos nos libertar ao longo das fases! Mas um jogo muito mais dinâmico, onde defeitos que pareciam ter sido superados retornam com maior amplitude, e outros são vencidos sem nos darmos conta, pois são superados ao nos focarmos em outros assuntos que não o defeito em si, como ações comunitárias.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Vegetarianismo: dicas nutricionais

Nas férias em São Paulo, depois de receber diversas repreensões quanto ao meu novo hábito alimentar, tomei uma ótima decisão: me informar!

E fuxicando em uma das enormes livrarias encontrei um simpático e curto livro de capa verde "virei vegetariano, e agora?". O autor é um médico com pós em nutrição em universidade conceituada. Eba, era tudo o que eu precisava.

O livro todo é fantástico, parece um bate-papo, com o plus de trazer informações embasadas na ciência. O legal é a sensação de "uau, eu não sou uma aberração da natureza. existem pessoas que entendem, respeitam e apoiam os meus ideais." Claro, eu tenho a sorte de conviver com uma pessoa que entende, respeita e apoia meu ideal e hábito alimentar, mas não domina o assunto, por isso o livro me cativou e fez com que eu o devorasse.

Um dos motivos que me fez buscar informações confiáveis sobre vegetarianismo, foi o fato de minha irmã se mostrar extremamente preocupada comigo. Ela sempre se posicionou contra o vegetarianismo (o que é algo que não me faz o menor sentido, como alguém pode ser contra a um hábito absolutamente inofensivo?) e eu sempre a favor. Agora que eu havia me assumido vegetariana (leia-se ovolactovegetariana), o assunto ficou ainda mais sério e delicado. No quarto numa conversa íntima ela buscava me alertar, contando casos de mães que perdiam bebês por causa disso (eu preferi não informar que não pretendo ter bebê pela próxima década), me contou o caso de uma amiga pessoal dela que se tornou vegetariana e depois de alguns anos apresentou uma doença gravíssima, quase morreu, e que agora alerta todos os aspirantes a vegetarianos a não serem! Puxa vida, nesse caso, começo a me assustar. Pedi o e-mail da amiga e fui em busca de informação.

Eu sempre pensei, "mas que coisa, existem tantos indianos hindus, que vivem num dieta vegetariana". O próprio Gandhi (que agora na autobiografia vim a saber que viveu décadas como frugívoro - comendo apenas frutas e oleaginosas, 5 tipos por dia, para não causar problemas para seus anfitriões!). 

Eis que descubro no livro que ninguém morre nem fica doente por se tornar vegetariano. Pelo contrário, como se diminui consideravelmente a ingestão de gordura, reduz o nível de colesterol no sangue e pressão arterial, ocasionando a diminuição na propensão de doenças cardiovasculares (entre 20 e 30%); diminui o risco de apresentar diabetes; pedra na vesícula; câncer de próstata; câncer de intestino grosso (isso baseado em estudos científicos!). No livro não diz nada a respeito, mas eu particularmente me senti mais disposta e principalmente, reparei mudanças no meu humor, percebi menor tendência à irritação.

A melhor parte do livro foi dica para montar uma refeição equilibrada:
25% - hortaliça;
25% - cereal integral;
50% - ricos em proteína;
e uma fruta!
Perfect! Assim fica muito fácil monitorar uma dieta adequada. Um dos mitos que rondam os vegetarianos se refere à absorção de Ferro. Isso porque, o ferro presente na carne é o ferro heme, de fácil absorção, os vegetais possuem ferro não-heme, esse para ser adequadamente absorvido pelo organismo precisa da presença da vitamina C.

Quanto a vitamina B12, no meu caso não é problema, pois ainda ingiro leite e ovos. Fiquei um pouco assustada que veganos devem usar suplementos na veia dessa vitamina. Lendo a um outro artigo fui entender melhor o que acontece. Essa vitamina é sintetizada por uma certa bactéria, e animais costumam ter hábitos pouco higiênicos, eles lambem o rabo do outro, lambem o corpo, tomam água sem tratamento e acabam por ingerir a tal vitamina. Achei interessante, pois muda de figura não são os veganos que tem um hábito alimentar pouco natural, são nossos hábitos que estão menos naturais. Aliás, no livro do Gandhi ele não comenta nada de tomar suplementos de vitamina B12. 

E por fim, não posso deixar de dizer que mandei um e-mail para aquela amiga da minha irmã. Que me respondeu que de fato ela havia parado de comer carne, e no lugar das refeições comia doces... Mas, assim que normalizarem os níveis de nutrientes no sangue vai voltar a praticar o vegetarianismo, com um atenção especial!

Saiba mais: http://www.alimentacaosemcarne.com.br/

terça-feira, 15 de maio de 2012

Limites do crescimento


Vejo muitas posições em relação ao meio ambiente, muitos acham que devemos explorar todos os recursos disponíveis, alguns acham isso mas fingem que não, outros se preocupam com o meio ambiente, sem saber muito o porque e de tão preocupados e conscientes deixam as garrafas PET num saquinho separado, outros nem pensam nem fazem, e de outro lado, há (embora eu não conheça ninguém) quem quer preservar o meio ambiente a qualquer custo e que todos os seres humanos se mudem para ocas.

Eu não vejo nada de errado em nenhuma posição, acho que todos os assuntos tem essas várias respostas. A minha posição é conservadora, chego perto do último grupo apontado. Por mim se derrubem os prédios e reconstruam-se as florestas! Mas, eu tenho alguma noção de que isso não é uma posição lá muito razoável. E confesso que gosto de navegar na internet.

Mas afinal, porque devemos nos preocupar? Por causa da camada de ozônio, ou do efeito estufa?

Para mim, devemos nos preocupar porque as paisagens naturais são fabulosas, ficar em contato com a natureza deixa minha alma leve, me faz sorrir e querer viver em paz, me preenche de amor! E é muito chato ver plástico no pico de uma montanha ou na cava de uma onda. Mas, para algumas pessoas (aproximadamente 6.7 bilhões) isso não faz o menor sentido, elas vivem em cidades e viajam para conhecer construções humanas, não acreditam em alma, e gostam mesmo e de ganhar e gastar dinheiro, comumente exigem uma vida muito confortável. E é essas pessoas que devem ser informadas da maneira mais adequada possível, pois são elas que mandam, tá que tomam as decisões.

Pois então, existe um estudo muito sério e conceituado (tem a sigla MIT por trás) chamado limites do crescimento, bem advinha só, o crescimento econômico é algo muito bacana é que todo mundo curte, porém, ele é baseado em recursos naturais, já ouviram falar em petróleo, ferro, alumínio? E esses recursos tem fim. Ademais, nossa vida depende seriamente de ar puro e água limpa, devo dizer que em TODO (e todos) processo de produção “inserimos” dejetos no ar que respiramos e água que bebemos, e fazemos isso sem maiores conseqüências porque o ambiente consegue se depurar, é aquele papo de evaporação e tals. Maaaaaas (sempre tem um mas) essa capacidade tem limite! Então, corremos sério risco de colapsar o planeta, de ultrapassarmos a capacidade de suporte da Terra. E como (e quando) será esse colapso? Depende da postura que adotarmos agora, pode ser brusco ou podemos atingir a sustentabilidade de forma consciente, como uma escolha, e não sermos constrangidos a mudar nossos costumes por falta de opção.

E então é por isso que devemos nos preocupar seriamente com a questão ambiental, se o planeta está esquentando ou esfriando, e de quem é a culpa, é algo importante de se discutir, mas acho que deve ficar entre os especialistas da área e a nós cabe pensar na sustentabilidade de nossas ações.