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quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Cento e vinte dias

A distância me fere
O seio cheio
Leite suor e lágrima

Você grita pela casa
o amor que quero dar

Nosso querer recíproco
Olhar, tocar, beijar, cheirar, mamar

Você busca, chama
Chama que arde minha alma

Quem é capaz de escutar
De ver a magia no nosso encontro
A distopia da separação

Uma só alma
Rachada, quebrada, partida

Que se recompõe a cada fim de tarde
Para se destroçar na manhã seguinte

Ilhabela, 23 de janeiro de 2017.

Meu bebê iria completar seus nove meses, e desde que ele tinha cinco e meio eu o abandonava diariamente à 7:30 da manhã. Ele aos berros, eu sustentando um sorriso falso. Ficava com o pai desempregado. E eu ia "bater o dedo" e cumprir horário num emprego em que eu me sentia constantemente subjugada. Me machuca saber que isso foi uma opção, é verdade que pagar o aluguel e as contas é uma demanda real, mas eu poderia abandonar o emprego e ir morar com meus pais. Mas eu optei por sofrer diariamente a violência de deixar o bebê sem a mãe todos os dias, muitas horas no dia.
As leituras sobre como bebês são fusionados com a mãe, a gestação externa, a importância de um ambiente tranquilo e amoroso, a formação do cérebro, a construção do vínculo, o efeito tóxico do estresse etc me deixam muito mais insegura e frustrada.
QUATRO MESES
Desde que o bebê nasceu, não antes disso, eu sofria com esse prazo. E não era a toa. Não consegui relaxar, o fim da licença maternidade foi um fantasma constante deixando meu puerpério ainda mais sombrio. E pode ter sido isso que o bebê manifestava em choros estridentes. É como aquele sentimento esquisito que acompanha um calafrio subindo pela nossa coluna, quando no silêncio do quarto, deitada na cama pensamos "eu vou morrer" e essa morte é tão real que nosso coração dispara para provar que ainda vive. "Vai acabar a licença" e o bebê não ergue o pescoço, não fica mais de uma hora sem me solicitar. Como vai ser pra ele esse sumiço brusco?
CENTO E VINTE DIAS
É o período que as instituições acreditam ser suficiente para um ser humano conseguir viver sem a mãe. Que a mãe depois de parir já consegue voltar à suas atribuições. Assim como se nada tivesse acontecido. Como se sua alma não tivesse em frangalhos, como se seu corpo físico não tivesse modificado, o seio vazando leite. Me senti bem insegura: será que nunca mais vou conseguir ler e escrever como fazia antes do parto? O raciocínio lógico, linear, lincar textos, notícias, fatos me escapava pelos dedos. Fiquei até um pouco feliz, só conseguia expressar sentimentos pela poesia, mas insegura, por não saber quem eu seria sem a habilidade ler textos complexos. Me surgiu a oportunidade de trabalhar com uma chefe que eu tenho muito mais afinidade. Uma pessoa humana, que valoriza o diálogo e olha no olho quando fala. Me lembro exatamente o dia que consegui ler um texto até o fim e compreendê-lo e falar sobre ele. 15 de março, o Gabriel tinha 10 meses e meio.
Hoje, nesse momento, estou num trabalho que gosto. O Gabriel fica na creche pela manhã, desde um ano, acho precoce. Ainda assim, quando minha amiga voltou pra Ilhabela, tentar reassumir seu emprego e no segundo dia estava absurdamente estressada eu apoiei sua exoneração. "Sempre quis um emprego público" ela me disse enquanto assinava o pedido. E tinha sentimentos muito contraditórios. Por um lado eu estava feliz por ela, e sentia até um pouco de inveja que poderia viver em plenitude a maternidade, por outro uma dúvida sombria me impedia de sorrir e aplaudir. Seria positivo abrir mão do trabalho? Ela que atuava com louvor na área que havia se formado, uma assistente social humana, empática, agora se queixa de estar desempregada e não contar com o próprio dinheiro pra comprar um grampo.
O Gabriel e o Joaquim e tantos e tantos outros bebês são privados de viver uma convivência harmoniosa e plena com suas mães tranquilas, seguras e satisfeitas.
Quatro, seis meses é um período ridiculamente curto quando se trata de puerpério, de convivência entre mãe e bebê. Por isso muitos países já adotaram licenças que ultrapassam um ano, e isso não acarretou uma influência negativa em suas economias. Porque não se trata disso.

A decisão política de manter um período ínfimo de licença maternidade é machismo.

Não é sobre o quanto o saber de uma mulher faz falta no desempenho de sua função.

Não é sobre o impacto econômico de pagar o período de afastamento.

É violenta, burra e prejudicial, social e economicamente.




quarta-feira, 22 de abril de 2015

A gaiola de ouro

- Temos liberdades diferentes. Sua selvageria agora é prisão. Você diz que busca liberdade, mas é incapaz de ver que talvez seja eu mais livre que você. Enquanto geme por igualdade e justiça se priva de usufruir privilégios. Deixe aos que precisam a luta. Quando você toma uma voz ela se cala. A gaiola de ouro prende os idealistas fora do conforto. A brilhante gaiola da liberdade fabricada. Essa em que você orgulhosamente se recusa a entrar. Na corrente dos ideais humanistas, na busca obcecada pela verdade. Eu, livre do conceito de bem comum aproveito os serviços e favores, os prazeres e recursos. Livre que sou para comprar. Comprar coisas e pessoas, paisagens e confortos, compro e consumo, e pago a vista ou parcelado. E como, degusto e saboreio vidas sorrindo, pois sou livre da compaixão. Livre da dor que sentes na contemplação de olhos tristes. Sua dor para mim é poesia. Que eu compro e consumo. A maldade está em ti que me julgas de um altar ético e moral. Eu sou livre para ter sabor e prazer onde você enxerga opressão, injustiça e sofrimento. Me regozijo com isso e assim continuarei. Não venha por em mim suas algemas, pois eu não me importo com os que sofrem, nem que seja você, meu bem.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014


Mutacio kaj Libereco
Beleza
Exploração e exclusão
Diversão
Opressão
Inveja e admiração
Ostentação
Tedioso
Inspirador e emocionante
Maldade e violência
Injustiça e rebeldia
Era esforçada e dedicada
Alienada...

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Os biscoitos

Me lembro quando minha concepção de mundo começou a mudar radicalmente. Era fim de outubro, me lembro porque usava meu iPad novo, que tinha ganho no dia das crianças. Eu estava deitada na cama, minha mãe bateu e entrou. Continuei concentrada na minha TL. Ela sentou-se na cadeira, possivelmente olhando para mim, aquela sensação incomoda de ter alguém te olhando.
- O que você quer, mãe? - perguntei sem tirar os olhos do iPad.
- Bem, é meu domingo de folga, o dia está bom, acho que a gente pode dar uma volta pela orla.
Exercendo meu papel de adolescente, demonstrei meu desagrado com a ideia bufando alto.
- Vai, vamos lá, quero conversar com você. E deixa esse troço ai.
Me calcei e saímos. O sol brilhava e o vento soprava moderadamente de nordeste. Caminhamos um pouco pela Henrique Pancada e nos sentamos em um banco voltado para lagoa.
- Você sabe que sua avó se matou, né?
- Aham... Eu fui no enterro – falei com tom de “é óbvio que sim”.
- Pois é. – pausa – no dia do velório seu avô me falou que eles sempre tiveram uma vida tão dura – ela foi dar um sorriso, mas acabou saindo um soluço e lágrimas começaram a se formar em seus olhos. Eu começava a me sentir muito desconfortável, e preferia estar trancada no meu quarto, com a simplicidade de meu iPad, sem lágrimas nem sentimentos alheios.
Sem saber o que fazer nem o que dizer, fiquei esperando que ela continuasse.
Link da imagem
- Eu nunca soube! Quer dizer, eu sabia que não podíamos comprar muitas coisas e que eu era a única aluna da turma que não tinha sapato, mas eu nunca desconfiei que a nossa vida era dura. Minha mãe assava biscoitos com sorrisos, ela inventava mil e uma brincadeiras comigo, nós dançávamos, eu pescava com meu pai, todo fim de aula no verão pulava na lagoa com os amigos. Eu me sentia tão feliz, amada, completa. Nunca desconfiei. Sabe, Rita, quando me mudei para Porto não foi fácil. Trabalhar e fazer a faculdade, ter que escolher entre o almoço ou o aluguel. Realmente não é uma vida feliz, como aquela que minha mãe se esforçava para me dar apesar de suas preocupações internas tão cruéis. Meu pai disse que eles constantemente eram ameaçados de despejo. Que se não fossem as galinhas, a doação do leite da nossa vizinha Nini não teríamos o que comer. Os pescados de meu pai mal davam para manter a casa – ela ergueu seu olhar, mirando o horizonte – Eu só queria ter dito a ela que minha infância foi deliciosamente feliz.
- Mãe, isso não teria mudado as coisas. Não foi culpa sua!
- Rita, tenho te fornecido tudo para facilitar sua vida. Quero que seu ingresso na vida adulta seja sem nenhuma privação. Mas, desdaquele dia, que seu vô me falou aquilo, eu fiquei pensando, será que eu tenho te passado a felicidade, a despreocupação e o amor que eu vivenciei na minha infância? Eu nem te conheço. Fui tão ausente na tua infância, sem biscoitos contentes... – conseguimos rir da entonação de importância que ela deu aos biscoitos. Foi um riso triste, mas cheio de cumplicidade. Um riso meio desesperado que se transformou num choro soluçante. Juntas, abraçadas, choramos nossa tristeza, nossa desgraça, nossos pesares e a saudade de nós mesmas.
Link da foto
Não falamos muito depois desse momento. Nos acalmamos aos poucos, assistimos ao por do sol. E voltamos caminhando. Tentamos fingir que nada havia acontecido, eu seguia interpretando meu papel de adolescente entediada. Mas, todo domingo de folga dela assávamos biscoitos em dia frio, íamos ao Cassino em dias quentes, ou caminhávamos juntas, visitávamos meu avô.

sábado, 30 de agosto de 2014

Cachoeira Proibida

Todo dezembro a família se reunia na casa da vó, interior de Minas. Com minha prima a relação era mais próxima. Mal nos víamos e eu já me colava a ela. Ficávamos pelo quintal ou pela rua, só entrávamos em casa para comer e dormir. E tomar banho quando alguém se dava conta de nos forçar.

Fonte: clica aqui.
Minha prima tinha o corpo pequeno, no entanto a coragem e a audácia eram grandes. Falava o que pensava, tanto fosse pra uma criança ou adulto. Naquele dia saímos cedo. “Vamos ver onde é a cachoeira que você encontrou na internet.” Ela me disse decidida enquanto calçava um sapato fechado no lugar dos habituais chinelos de dedo. Fiz o mesmo.
Rabiscamos um mapa com base no google earth e fomos seguindo. Caminhamos muito, o sol estava forte e a sede começava a incomodar. Eu oscilava entre a vontade de tomar banho de cachoeira e o receio de nos perdermos. Imagens do meu esqueleto esturricando no sol povoavam minha cabeça. Mas minha prima estava convicta demais com o sucesso de nossa jornada, eu preferi deixa-la assim feliz e não compartilhei as possibilidades macabras que vez por outra invadiam minha tela mental.
Até que nos deparamos com uma cerca de pau e três linhas de arame farpado.
- A gente já deve tá perto – ela disse enquanto se esquivava pelos arames. Minhas pernas congelaram. Aquilo era invasão de propriedade. - Vamos! Mal posso esperar pra me refrescar.
- Eu num sei não, Pri. E se o dono não gostar?
- Que? Que dono? Ah, o da cerca! Ele não vai se incomodar, nem aqui deve estar.
- Eu não vou pular uma cerca, invadir uma propriedade. E se tem cachorro? Capanga com arma, se chama a polícia? Se eu for presa minha mãe morre de desgosto, ela odeia preso. Acho que me mata!
- Ara, vai... – ela se virou e seguiu farejando o caminho provável.
Fiquei um tempo parada, olhando-a se afastar com passos decididos como se dona da terra. O brilho do Sol se refletia nos seus cachos negros, por um momento quis ser como ela. Segurei no arame, ergui a perna. Eu não era como ela. Eu era eu, e precisaria começar a respeitar e aceitar essa diferença. Abaixei a perna de volta no lugar, soltei o arame e voltei cabisbaixa para casa. A volta foi triste, a sede perdeu espaço para o desanimo. Fiquei no quintal sozinha vendo as galinhas ciscarem durante toda tarde. Uma hora tive impressão de ouvir a voz de minha prima na oficina do vô, mas quando cheguei ele estava só.
- E você? Num qué nada?
Murmurei algo semelhante a um “não” e saí.
Na manhã seguinte a primeira coisa que vi foram os grandes olhos negros de minha prima. E ouvi sua voz, demasiado grave para sua idade e gênero, me preguntando excitada:
- Preparada para um maravilhoso banho de cachoeira? Então, se arruma que eu dei um jeito.
Me joguei da cama contagiada pelo animo dela. Calcei minhas botas e segui correndo com ela pelo mesmo caminho do dia anterior. Achei que ela poderia ter encontrado um desvio. Mas, no lugar onde deveria ter uma cerca, havia uma cerca arrebentada. Minha prima sorria triunfante e me explicou absolutamente orgulhosa de sua ideia maravilhosa:
- Pronto. Agora você não precisa invadir cerca, nem propriedade nenhuma. Basta seguir sua marcha!
- Você tá louca? Isso é crime! Depredou a coisa de outro.
- Olha, eu só quero tomar banho numa cachoeira. O cara cerca uma parte imensa da terra pra ele, tira toda a mata enfia umas vacas vez por outra. Se ele quer estuprar essa porção da natureza o problema é dele, eu só quero me refrescar. Quem é o louco criminoso? Vou indo que esse calor tá me matando. Se você qué vim, vem. Senão num posso fazer mais nada. Só digo que a cachu é perfeita!
Com meus conservadores 12 anos de idade eu não tinha capacidade de tecer críticas à propriedade privada, à concentração de rendas, exploração e apropriação de terras e recursos naturais. Eu tinha sido doutrinada a respeitar a propriedade acima de tudo e que quem desrespeitasse isso minimamente era ladrão, vagabundo que não valia nada, sem moral nem ética. Mas, o que eu conseguia compreender perfeitamente naquele momento era que não podia haver nenhum crime ou ameaça no fato de duas criança tomarem banho de cachoeira. Além do mais, o dia anterior (como criança que respeitou o limite da cerca) tinha sido terrivelmente chato. Enquanto me decidia podia ver minha prima caminhando lentamente pelo pasto. Foi então que pensei no que ela havia feito por mim. Ela rompeu uma cerca em respeito a minha limitação. Ela tinha abusado dos valores morais dela para que eu não entrasse em crise com minha consciência sozinha. De alguma forma ela se igualara a mim. Se eu teria que lidar com o fato de cruzar um cerca, ela teria que conviver com a lembrança do alicate em suas mãos rompendo a cerca. Não poderia deixa-la sozinha, isso havia sido um pacto de cumplicidade. Não há crime maior do que se apropriar do bem comum.
- Me espera! Eu também vou.

Fonte: link aqui
 

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Ordem

Nasça, teste, obedeça, olhe.

Aprenda, pule, assista, ande.

Brinque, chore, escute, associe.

Imite, ria, aceite, suje.

Sinta, queira, procure, escolha.

Beba, cresça, beije, corra.

Mude, saia, dance, experimente.

Leia, abuse, descubra, brilhe.

Mande, conquiste, tenha, compre.

Faça, controle, case, dirija.

Engravide, fume, pareça, cuide.

Mostre, emagreça, trabalhe, invista.

Deleite, peça, aprecie, perdoe.

Esqueça, relaxe, aposente, deite.

Reze, apague, ensine, arrependa.

Desista, resista, expie, morra.

SEJA simplesmente SEJA



 
 

quinta-feira, 3 de julho de 2014

essência

não Sou feia
não Sou magra
não Sou branca
Esses termos rasos delimitam 
a aparência do meu corpo.

não Sou o que penso
não Sou o que faço
não Sou o que digo
não Sou o que sinto
não Sou o que tenho
não Sou o que escrevo
Esse verbos só descrevem 
algumas ações daquilo que sou. 

não Sou feliz
não Sou burra
não Sou comunista
não Sou competente
não Sou honesta
não Sou chata
Adjetivos não me definem

não Sou brasileira
não Sou católica
não Sou mulher 
até Ser humana
não é o que Sou
porque me limita.

Sei disso 

Pois que é quando fecho os olhos*
que chego mais perto do que Sou
 
Nesse momento então
não há corpo,
não há ações,
não há limites,
não há qualidades.

Só há o calor do Sol     
que se funde com a pele,   
há sua luminosidade            
vermelhando minhas pálpebras,
há o som das ondas e do vento
entrando pelos ouvidos,        
envolvendo tudo por dentro
unindo ao fora,               
há o cheiro da maresia
completando a fusão.
 
Eis aí o que compreendo que sou.
Livre das limitações das palavras,
armadas de preconceitos que     
prendem nas correntes dos rótulos.


*"Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos" (Saint-Exupéry)

segunda-feira, 31 de março de 2014

Pobres me roubam

Esses pobres me roubam o sonho
Me roubam o sono
Por isso todos os pobres são ladrões
Porque eles existem
Nos roubando a ilusão, 
tão cuidadosamente construída
de uma sociedade justa e boa
Esses pobres expõe a fragilidade da ilusão
Que não tenha sido esse o objetivo 
de Amarildo
ou de Cláudia 
Foi isso o que eles fizeram e sempre farão
Arruinarão todo e qualquer argumento “meritocrático”
Esses pobres ladrões, com traços indígenas ou negros
Me roubam a ilusão de prazer, de felicidade, de grandeza
Me roubam a possibilidade de acreditar nos discursos
Essa pilhagem se reflete no tratamento que lhe damos
Nós de traços europeus, cidadãos de bem
Marginalizamos, matamos, torturamos e prendemos esses pobres
Porque insistem em existir
Em esfregar na nossa cara o quão fracassados somos nós
Por mais que fujamos dessa palavra
Já nascemos fadados ao fracasso
Disfarçado de tristeza passageira nessa sociedade de ilusão



sábado, 14 de setembro de 2013

A doença que não existia


-         -  Entendo, entendo… - o médico então respirou fundo, tentando prolongar ao máximo a pausa que antecede o complicado diagnóstico - Bem, eu fico muito contente que tenhas conseguido exprimir seus sentimentos assim, tão serenamente. Parabéns, são sentimentos difíceis de lidar.

Pelos sintomas que o senhor descreveu, acredito que trata-se de uma hipersensibilidade, mais precisamente a Síndrome do Coração Ultra Puro, SCUP.  Acredita-se que não seja uma doença moderna, mesmo porque muitos escritores e compositores antigos, possivelmente, sofriam desse mal. Mas, seu diagnóstico e tratamento são recentes.

Eu costumo separar os tratamentos usuais em três linhas: a Fuga, o Enfrentamento, e a Entrega. Não pode-se dizer que um seja mais eficiente que outro, pois os resultados variam muito conforme o perfil do paciente. Existe ainda a possibilidade de fazer a combinação destes. Bem, eu vou te explicar em que consiste cada um e juntos encontraremos o mais adequado para iniciarmos seu tratamento.

Na fuga, como o nome diz, o sujeito foge do que lhe aflige. O modo mais óbvio, mas também muito controverso, é pelo suicídio. No início de minha carreira eu julgava que esse método fosse muito apropriado, pois além de imediato, no caso das ações bem sucedidas, ele não abre brechas para futuras crises, e me parecia resolver o problema por completo, apesar de drástico, claro. Mas, recentes pesquisadores da linha espiritualista, afirmam que esse método é na verdade muito danoso, pois segundo eles, apesar de morto, a consciência continua a desempenhar suas funções. E por ser uma medida extrema, causa traumas irreversíveis, na pessoa. Por essa razão, embora eu não acredite 100%, é melhor usar a precaução, e nesse caso, não recomendo mais esse método, embora tenham alguns pacientes que preferem arriscar, não sei se é o seu perfil. Aconselho que antes de optar por esse método tente outros.

Uma viagem, por exemplo! Podes conhecer sociedades que vivam de modo sutilmente diferente, que você julgue mais justo. Eu não posso te indicar com certeza um local, mas tem um caso de um paciente que descobriu uma vila nos Andes, ele me mandou algumas cartas, descrevendo o convívio social harmônico e agradável que existia no local. Viveu lá muito feliz por cinco anos, mas, ano passado, uma mineradora indiana se instalou e em poucos meses arrasou com o capital social da comunidade, ele me escreveu que em meio a miséria, a exploração, a poluição e a injustiça não conseguiria viver, avisou-me que usaria do suicídio. Receio que não tenha lido minha resposta, nunca mais me deu notícias. Mas, bem, isso não impede que você encontre uma vilinha assim! Acredite, essas comunidades não costumam ser expostas em revistas ou jornais. Ou você pode simplesmente se isolar, num sítio, com produção autossuficiente! Esse modo tem dado resultados exelentes!

A fuga pode ainda, dar-se por meio da alienação associada à obsessão. Onde o paciente deixa de se informar sobre tudo o que acontece com a sociedade, e foca-se exclusivamente em algo que lhe interesse. Ou por meio da imaginação, onde se cria uma outra realidade paralela, mais agradável. O uso de entorpecentes pode facilitar consideravelmente esse método, existem inclusive drogas legalizadas com essa função. Pode-se usar também histórias de ficção para iniciar a criação. Existem diversos adeptos desse modo que publicam em blogs histórias sobre suas criações, então você pode se inserir no mundo de outra pessoa! Muitos dizem de alienígenas infiltrados, espíritos obsessores, os mais diversos mundos!

Enfim, a fuga é um método bom, mas exige alguma coragem, pois é menos eficaz quando se mantém a rotina do trabalho, que impede a fuga completa. Sempre se está sujeito a alguma notícia desagradável, ou o simples fato continuar de vendo o que já lhe foi objeto de questionamento e rejeição pode ocasionar crises infindáveis.

O enfrentamento é muito bonito, eu admiro bastante esse método, mesmo porque ainda tenho alguma esperança, afinal, ninguém é de ferro, não é?! Ele funciona para quem está disposto a seguir entrando no que chamamos de “toca do coelho”. Ir até o fundo das mazelas sociais, não é um mergulho fácil, pois acredite essas pequenas coisas que o senhor afirmou que te incomodam, são apenas o que está na superfície, a pontinha do iceberg, digamos assim. Mas, por mais contraditório que seja, muitas pessoas se sentem melhor quando param de se debater na superfície para iniciar um mergulho rumo ao fundo, à causa primária! A ideia é conhecer para combater.

Então, durante seu mergulho elas vão buscando maneiras de modificar o que as incomoda. Pela minha experiência, a maioria sente que repassar a informação, é uma forma de trazer à superfície o que estaria escondido no fundo, e assim, agregar mais “mergulhadores”. Muitas começam a escrever livros, dar aulas, fazer palestras, compor músicas, pintar, encenar, pichar.

Outras concluem que a solução tem que ser uma intervenção mais direta, organizam grupos, que alguns chamam “terrorista”, porque aliás, esse é um detalhe importante desse método, ele comumente leva à revolta.

Nem sempre as pessoas se sentem exatamente mais feliz adotando esse método, mas costumam relatar que passam a ver um propósito em suas vidas.

Por fim, a Entrega! Normalmente, as pessoas que não buscam aconselhamento médico acabam usando esse tipo de tratamento. Mas, quando não é bem realizado, com acompanhamento de um especialista, costuma ter ciclos inesgotáveis de crises.

O seu sucesso está diretamente relacionado à dessensibilização. Para isso existem diversas técnicas, que envolvem uso de medicamentos, sessões de tortura, suaves, como choque, solitária, que são opcionais, mas eu aconselho pois os resultados costumam ser melhores. Outra técnica fundamental é a visualização constante de cenas de violências, casos de injustiça e opressão, por isso se aconselha a sintonização constante em programas de TV, rádio e leituras de jornal, em especial da página policial. Até que essas situações parem de lhe causar incomodo. Você vai ver, no início vai identificar claramente a retratação de relações doentias na novela, opressão, mas com o tempo a injustiça vai se tornar mais nebulosa, até ficar totalmente imperceptível!

Os resultados mais comuns variam entre dois padrões distintos, a apatia e a normalização. No caso da apatia o sujeito deixa de sentir. Ele não sente mais a angústia que o senhor me descreveu, mas também não sente mais compaixão, não sente amor, não sente tristeza, nem felicidade, não sente nada. Os seres humanos, inclusive ele próprio, passam a ser encarados como máquinas. Alguns conseguem se destacar na carreira por essas características, mas muitos tão pouco se importam com isso.

Já no caso da normalização, a pessoa torna-se “um sujeito normal”. Ela passa a apresentar o mesmo padrão de comportamento e sentimento retratado nas novelas. Ela é totalmente reabsorvida pelo sistema. Volta a ter gosto pelo consumismo sem nem se importar com as condições de produção. Ela só leva em consideração o que é mostrado na televisão. E quando algum programa mostra uma situação de opressão ela encara com a mesma superficialidade com que a matéria é exibida. Logo se interessando pelos produtos mostrados pela propaganda. Muitos pacientes, inclusive, movidos pelo consumismo, e ânsia de status passam a reproduzir os quadros de opressão e injustiça que antes lhe afetavam tanto!

Eu considero esse método o de maior sucesso. É o que apresenta menor caso de regressão, eu não consigo entender como é o que tem pior adoção. Acho que é porque os pacientes sentem tanto asco pela sociedade atual que no fundo não querem fazer parte dela, mas é como eu digo, você muda sua concepção. Aí consiste o maior sucesso, ele atua na causa!

Que método o senhor se afinou mais, e quer eu explique melhor? 


sexta-feira, 2 de agosto de 2013

O calabouço da montanha.

Crédito Marcelo Petaz
Era uma vez, uma velejadora. Ela tinha o coração muito puro, o que facilitava sua compreensão sobre o mundo que a cercava.

Ela velejava pois gostava do mar e da dinâmica. Mas, gostava ainda mais de conhecer novas praias, novos povos, novas culturas.

Certa manhã, essa velejadora chegou a uma ilha. Era uma ilha bastante bonita e a população a acolheu sorridente.

Ela logo sentiu que as pessoas tinham o coração bondoso e se sentiu muito a vontade. No entanto, parecia que algo estava errado. A velejadora sentia no fundo do coração dela uma pontinha de angústia. Não sabia dizer do que era. Aquele povo era muito bom, e estavam sempre empenhados em mostrar-lhe as paisagens mais bonitas da ilha, os espetáculos mais coloridos e vibrantes, liam textos profundos e tocantes, ofereciam frutas doces e suculentas.

Mas, apesar das distrações, a angústia ainda estava lá, presente, insistente em seu coração. Impedindo que ela desfrutasse plenamente de tudo o que os ilhéus ofereciam.

E por mais que seus olhos vissem a beleza do brilho e da cor do que lhe mostravam, ela estava sempre atenta a qualquer dica que apontasse a causa de sua angústia.

Certo dia, viu alguém sendo carregado desacordado. Perguntou o que havia acontecido. "Não se preocupe, tudo está em ordem. Veja aquele pássaro, suas asas vermelhas indicam que o céu abençoa nosso amor."

Mas, aquilo a preocupou, e a asa vermelha do pássaro, outrora tão digna de sua admiração, agora não atraia sua atenção, apenas seu olhar vago. Enquanto sua cabeça buscava a verdade.

Perguntou a outros que lhe disseram. "Foi apenas um desmaio, as pessoas que passam por isso são tratadas." Outros se mostravam incomodados com a pergunta "Deixe disso, não há nada". Outros não acreditaram. Outros diziam que algumas pessoas precisam de tratamento especial, pois só assim todos podem ser felizes.

Nenhuma das respostas a satisfazia, e sua angústia aumentava. Passou a se afastar dos espetáculos. E caminhar sozinha por lugares isolados. Foi quando encontrou um ilhéu diferente. Ele estava sozinho e não usava penas coloridas e pedras brilhantes em suas roupas.

Ela não hesitou, e mesmo sem conhecer esse senhor de barbas brancas perguntou "Porque me sinto tão angustiada?" Como se esperasse por aquela pergunta, o maltrapilho lhe deu as costas e disse "Me acompanhe."

Seguiram por uma trilha fechada. Se depararam com uma montanha, o senhor removeu umas folhagens e revelou uma caverna. Entraram silenciosos. A velejadora sentia seu coração sendo oprimido, sem saber porque. Não estava curiosa, estava triste, cada passo que davam para dentro daquela caverna úmida e sombria, sentia seu coração mais e mais angustiado, desesperado, triste e oprimido.

A escuridão era tal que não podiam ver nada. Sentiu a certo instante o braço do senhor impedindo sua caminhada. Parou e passou a ouvir uns gemidinhos baixo. Sentiu que vinham de um lugar mais amplo.

Num dado momento chegou uma luz. Aos poucos foi definindo em seu campo visual que a trilha em que estavam havia chego na parede de um amplo salão, na entranha daquela montanha.

Aproximou-se da beirada de modo a ver sem ser vista. Viu inúmeras pessoas nuas e sujas, a luz vinha de uma tocha carregada por um ilhéu, outros traziam baldes com frutas velhas e iam despejando entre a multidão de famintos, que se agachavam para comer as frutas, mecanicamente, sem brigas nem interação alguma. Um ilhéu identificou um cadáver no chão, o colocou friamente sobre um carrinho. Depois de todos os baldes esvaziados e todos os cadáveres recolhidos, afastaram-se, tão silenciosos quanto haviam entrado.

Retornando a absoluta escuridão e tristes ruídos. Sentiu que o velho passou a seguir a trilha para saída da caverna. A velejadora chocada com o que havia assistido, seguiu trôpega e confusa.

A saída da caverna foi dolorosa, a luz cegava seus olhos, e seu coração batia forte, entregou-se a um choro compulsivo. Arfava meio sem ar, gritava de dor, e lágrimas vertiam de seus olhos como rios. O velho a observava, inundado numa paz indecifrável. Passado esse momento de maior desespero, o senhor os conduziu à beira de um rio de águas muito cristalinas. Onde a velejadora lavou suas lágrimas e tomou um pouco de água.

"Quem são?"

"Os indesejados. Pessoas que apresentam alguma característica física não aceita. Pelos muito escuros, barbas grossas. Ou que tenham hábitos desagradáveis, não queiram trabalhar, não gostem da roda da fogueira, ou questionem os deuses."

"Todos concordam com esse tratamento?"

"Alguns ignoram totalmente. Outros não suportam pensar no que se passa. Se entregam as distrações. Outros temem ser capturados. E a maioria acredita que essa seja a vontade dos céus, e que se os indesejados forem expostos ao Sol, esse ficará tão horrorizado que jamais voltará a brilhar novamente."

A velejadora ficou a pensar. Ela sabia que o Sol não se incomodava com pessoas de pelos negros pois já havia visitado muitas praias. E via que as pessoas de pelos negros se expunham ao Sol e que este voltava a brilhar no dia seguinte, independente de qualquer coisa!

A recordação do sofrimento daquelas pessoas a incomodava. E reparava que havia entre a maioria dos ilhéus um medo constante, um desconforto, uma culpa, que era dissimulada. Ignoravam as verdadeiras causas dos que desapareciam, e por isso temiam. Sem questionar, pois os que questionavam sumiam. Alguns rumores diziam que eram duramente castigados pelos céus. Assim, não sabiam se temiam aos castigos, ou aos céus, apoiando os castigos.

Muito atenta a velejadora ficou, analisando a todos, simulando o mesmo contentamento que via nos rostos aflitos. Até que reparou em uma ilhéu, que escondida esfregava um maço de ervas em sua perna. Essa ilhéu era uma amiga sua. Tentou aproximar-se de modo a não assustá-la. Foi em vão. Passado o susto e tendo sido as ervas jogadas longe, a velejadora questionou

"Porque faz isso?"

"Acho que meus pelos são muito negros. Minha mãe sempre me disse para esfregar essas ervas neles."

"Você sabe o que acontece com quem exibe pelos negros?"

A moça negou com a cabeça, e a velejadora sentindo que podia confiar totalmente na moça e que ela compreenderia, contou tudo o que havia visto e sentido. E explicou sobre as outras praias, onde pessoas com espessos pelos negros se bronzeiam sob o Sol brilhante.

A moça não chorou desesperadamente. Ela cerrou os dentes com raiva. E falou

"isso tem que acabar".

Então, bolaram um plano. A moça deixaria seus pelos negros crescerem escondidos e no dia de "graça aos céus e ao Sol" iria mostrar a todos que seus pelos haviam sido expostos ao Sol e no entanto, este continuava a agraciá-los com seu brilho.

Assim, o plano seguiu. Embora a moça tenha sentido muito medo de ser descoberta. Inscreveu uma apresentação especial para o dia, uma declamação, que foi aceita pela comissão organizadora, e seria exposta ao meio dia.

No dia de "graça ao céus e ao Sol" toda comunidade festejava contente, cantando seus hinos, e louvando aos céus e ao Sol. Diversos espetáculos se faziam presente.

Ao meio dia, todos voltaram sua atenção ao palco principal, pois a moça e a velejadora fizeram uma propaganda muito boa sobre essa declamação.

E assim, em frente a todos os olhares curiosos. A moça começou sua declamação.

"Ao longo desses anos, temos tido muita graça proporcionada pelos céus e pelo Sol. Acreditamos que somos felizes pois nos empenhamos em manter a ordem. E que o Sol jamais brilharia sobre nós se permitíssemos que pessoas diferentes de nós tivessem os mesmos privilégios e direitos."

O silêncio era dominante, todos olhavam assustados, pois em verdade, os ilhéus não sabiam exatamente como funcionava o Sol e o que exatamente separava os desejáveis dos indesejáveis. Eles tinham medo de falar e pensar sobre isso. E começaram a se perguntar se a moça estava fazendo algo bom ou ruim. Esse assunto nunca havia sido dito de forma aberta.

A moça vendo que os ilhéus musculosos, que carregavam desmaiados, começavam a se direcionar ao palco, fez mais forte sua voz.

"Pois em verdade eu vos digo, meus pelos espessos e negros estão a semanas expostos ao Sol, e ele brilha inalterável sobre mim, nesse momento."

Dizendo isso a moça tirou a fantasia de penas e brilhantes que escondia seus pelos e mostrou para toda a gente ver que o Sol não se incomodava com pelos negros.

O pânico se espalhou. Alguns gritavam, outros aplaudiam, outros desmaiavam, ninguém conseguia entender muito bem o que se passava.

Os homens musculosos retiraram a moça do palco. E essa seguia gritando

"Todos podem viver no Sol, não há distinção, o Sol não quer que ninguém mais sofra, libertem-se do medo. Amem-se, pessoas sofrem e morrem por causa do nosso temor ao Sol. Libertem-se!!!"

A velejadora gritava

"É verdade! Eu visitei muitos lugares e o Sol brilha em todos eles, sobre as mais diversas pessoas. Existe nessa ilha um calabouço onde pessoas vivem em condições degradantes por causa que vocês tem medo de perderem o Sol. Mas, isso é uma ilusão. O Sol brilha. E brilha melhor ainda quando não há medo, nem opressão".

A velejadora também foi levada sob o olhar incrédulo de todos.

Elas foram banidas da ilha. Tiveram que assinar um contrato alegando que não seriam assassinadas, por terem infligido a lei de Blasfêmia, desde que jamais voltassem a pisar na ilha ou ser vistas em seus arredores.

O povo ficou em sua maioria muito chocado, e consideraram um terrível e absurdo desrespeito o que a moça e a velejadora armaram. Consideraram uma afronta aos céus e um verdadeiro desrespeito à crença deles. Todos concordaram que não eram necessárias atitudes tão extremas assim. Alguns achavam que a o moça e a velejadora deveriam ter sido queimadas.

Outros começaram a pensar em tudo o que foi dito. E espera-se que algum dia, o calabouço da montanha deixe de existir, as pessoas sejam libertadas e possam pensar e ser como bem entenderem e que ninguém mais tenha medo de viver sem o Sol.


"Não confunda a reação do oprimido com a violência do opressor" Paulo Freire.

novos tempos

Eu venho de um tempo em que
o amor não era negociado no mercado
era compartilhado
a cura não vinha em comprimido industrializado
o respeito não tinha que ser conquistado
o conhecimento não era cobrado 
a criatividade não era um bem padronizado
a liberdade não era algo comprado
ninguém nascia devedor do Estado
ninguém era comandado
o céu era apreciado
eu nunca estava atrasado
o oprimido não era marginalizado
Eu venho de um tempo futuro

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Os dedos são das mãos.


Deixar os dedos dançarem no teclado, e ver no que dá, assistir de longe o duelo entre pensamento e mãos, como se nenhum deles me pertencesse.
Eu sei que no final o eu, crítica demais, vai achar que o resultado não foi satisfatório. Como nada que flui sem sua fiscalização autoritária pudesse ser bom o bastante, pudesse não ser vergonhoso.
Os dedos dançantes param, como se vigiados pelo fiscal alerta. O fiscal pergunta se eles tem algo a dizer, eles questionam se isso é mesmo necessário, se só se pode se dizer quando há algo a ser dito. A discussão pára numa nova pausa.

Os dedos se sentem impelidos a parar, como se dançar por dançar, sem um fim específico, fosse um crime. Como se a música se fizesse necessária, como se só o sentimento não bastasse.

E ao final, novamente o autoritário eu bloqueia qualquer lapso de espontaneidade, deixando os dedos bobos apenas a espera de novas ordens a serem categoricamente cumpridas.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

A Poça e o Céu.



a poça na rua se esforçava para refletir o melhor possível
o que estava acima dela.
conseguia exibir um céu prateado.
mas, por mais lindo que fosse esse reflexo,
ele escondia a esforçada poça.