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sexta-feira, 4 de março de 2016

Frutas Anárquicas

Entro no mercado comprar frutas e verduras, de terça que tem maior variedade. Sempre sinto um certo incomodo por estar naquele lugar, não sei dizer o que exatamente. Seriam as embalagens coloridas, plásticas, contendo produtos artificiais, “comestíveis”, que além de não fazerem bem (isso é nutrirem) ainda fazem mal? Passo cada vez mais determinada e ilesa pelas prateleiras centrais, recheadas de açúcar. Quem busca um incentivo para isso aconselho assistir ao documentário That Sugar.

Acontece que mesmo na parte saudável do mercado o incomodo permanece. É como uma frustração, na minha lista de compras mental sempre tem:
- frutas
- legumes
- verduras

Não especifico, vou buscando variedade, de preços, qualidade e oferta, conforme a época e o tempo natural de cada espécie. Mas, encontro sempre tudo igual. O mamão no lugar do mamão, as bananas penduradas, maçã, manga, e as outras de mais de 10 reais o kilo que variam pouco. Legumes também, batata, cenoura, abobrinha, berinjela, tomate, cebola. O máximo da variação é se vai ter bons xuxus ou pepino, mas nada tão surpreendente. Saio quase sempre com o mesmo, me perguntando como fazer pratos variados com mais do mesmo. Me sinto um tanto frustrada quando desejo um abacaxi que custa 8 reais a unidade. Aperta a saudade das poucas bancas de produtores genuínos da feira do produtor, sábado de manhã, no Cassino.

Mas, nem tudo é saudade. Muito bom morar uma ilha tropical extremamente fértil!!! Assim que cheguei o que me chamou atenção foi o exorbitante tamanho das árvores. Mangueiras astronômicas! E em novembro elas estavam carregadas, e jogavam seus frutos numa abundância desconcertante. O asfalto de modo implacável fazia com que cada uma se estraçalhasse no chão. De modo que um fruto tão nutritivo se transformasse num estorvo, melecado e fedorento. O asfalto a impedir a vida.

Acontece que algumas mangas caem na terra. Sempre haverá a terra para as sementes brotarem! Pudemos comer manga por todo dezembro. Para cada pé em terra ou grama uma sacola, e depois de chupar todas quanto desejávamos, congelávamos a poupa. Pura, ou em sucos, frapes, e mousses, refrescantes, doces, nutritivas, amarelas. Menores e mais saborosas que as do mercado!
Até que aquela árvore altona, que já havia me chamado a atenção por seus frutos engraçados, passa a me oferecer a oportunidade de provar mais um sabor. A Jaca.

Não sei qual sua origem. Indonesia ou India, me disseram uma vez. Sei que se adaptou muito bem no clima tropical brasileiro. É muito abundante a quantidade de pés, da dura e da mole. A quantidade de frutas por pé é de uma generosidade impressionante. Como se não bastasse, cada fruta é impossível de ser consumida por uma pessoa só, mesmo pelas mais avarentas. Foi assim que muito feliz fui introduzida no mundo da Jaca. Aprendi a comer refogada com cebola e azeite, usei o miolo da mole e a poupa da dura, aprendi a tirar o grude com óleo. Fiz receitas doces, bolo do caroço, torta de massa podre, conserva. Além de comê-la crua, pura. Ganhei muitas, pois descobrimos que tantas vitaminas e nutrientes eram especialmente benéficos para gestantes. Não parei mais de ganhar jacas! Além das que colhia por aí.

É tão livre, o modo como elas crescem nas ruas, ao alcance de todos, é tanto nutriente disponível sem cobrar sequer um centavo em troca, é simplesmente uma ofensa ao individualismo capitalista. É o anarquismo vivo saindo das entranhas da terra para nos alimentar!
Mas, já não podemos mais encontrar aquele raro saquinho espinhudo grudado nos troncos. E quando chego no emprego não encontro mais um peculiar geóide sobre a mesa. As jacas discretamente vão saindo de cena. Mas, assim como foi com as mangas, uma delicia nutritiva dá lugar a outra. E já não é só um aroma no ar, as goiabeiras estão ofertando os mais deliciosos frutos, nutritivos, seriam as vitaminas adequadas para o fim de verão e inicio de inverno? Os pés carregam, sem fertilizante nem defensivo.


E como forma de retribuição, vou me dedicando a guardar sementes, e com um esforço desmedido produzir mudas que darão árvores para nutrir outras gerações!!! Provando a todos que não existe inflação. O custo dos alimentos é exatamente o mesmo de 5 mil anos atrás, uma porção de Sol, solo fértil e um bocado de água. Todos tem acesso e podem colher, desempregados desesperados ou por malandragem, o mocinho e o vilão, a virgem e a puta, criança e idoso, nutridos e saudáveis só esticar o braço e morder.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

A problemática dos agrotóxicos

Tive acesso a esse texto do Lutzenberger em um livrinho "Manual de ecologia do jardim ao poder". O texto é de 1985, e como o autor trabalhou inicialmente representando "defensivos agrícolas" sabe do que está falando. Já sabemos que nossos alimentos estão lotados de agrotóxicos, mas sabemos muitas vezes através de um senso comum pouco embasado. Sabemos que monocultura com adubos químicos e venenos estão tornando solos estéreis, mas pouco é dito e aprofundado sobre a questão nos meios de comunicação.

Então, segue o texto, chocante e um tanto revoltante, na íntegra. Acredito que nesses 30 anos as mudanças ocorridas foram no sentido de aumentar ainda mais a dependência dos agricultores, o que para minha alma anárquica é um tanto desanimador, mas como a informação e ponto crucial do empoderamento lá vai:
(texto "roubartilhado" da Fundação Gaia, desse link aqui.)

A PROBLEMÁTICA DOS AGROTÓXICOS
José A. Lutzenberger, maio 1985

Como surgiu e proliferou a agroquímica? Interessante é notar que ela não foi desencadeada por pressão da agricultura. A grande indústria agroquímica que impõe seu paradigma à agricultura moderna é resultado do esforço bélico das duas grandes guerras mundiais, 1914-18 e 1939-45.

A primeira deu origem aos adubos nitrogenados solúveis de síntese. A Alemanha, isolada do salitre do Chile pelo bloqueio dos aliados para a fabricação, em grande escala, de explosivos, viu-se obrigada a fixar o nitrogênio do ar pelo processo Haber Bosch. Depois da guerra, as grandes instalações de síntese do amoníaco levaram a indústria química a procurar novos mercados. A agricultura se apresentou como mercado ideal.

Da mesma maneira, ao terminar a segunda das guerras mundiais, a agricultura surge, novamente, como mercado para desenvolvimentos que apareceram com intenções destrutivas, não construtivas.

A serviço do Ministério da Guerra, químicos das forças armadas americanas trabalhavam febrilmente na procura de substâncias que pudessem ser aplicadas de avião para destruir as colheitas dos inimigos. Outro grupo, igualmente interessado na devastação, antecipou-se a eles. Quando a primeira bomba atômica explodiu no Japão, no verão de 1945, viajava em direção ao Japão um barco americano com uma carga de fitocidas, então declarados como LN 8, LN 14, suficiente para destruir 30% das colheitas. Com a explosão das bombas, o Japão capitulou e o barco voltou. Mais tarde, na Guerra do Vietnã, estes mesmos venenos, com outros nomes, tais como "Agente Laranja" e agentes de outras cores, serviram para a destruição de dezenas de milhares de quilômetros quadrados de floresta e de colheitas. Da mesma maneira que os físicos que fizeram a bomba, para não ter que abolir as estruturas burocráticas das quais agora dependiam, propuseram o "uso pacífico" da energia nuclear, os químicos que conceberam aquela forma de guerra química, passaram a oferecer à agricultura seus venenos, agora chamados de herbecidas, do grupo ácido fenoxiacético, o 2, 4-D e o 2, 4, 5-T MCPA e outros.

Na Alemanha, entre os gases de guerra, concebidos para matar gente em massa, estavam certos derivados do ácido fosfórico. Felizmente, não foram usados em combate. Cada lado tinha medo demais dos venenos do outro. Após a guerra, existindo grandes estoques e grandes capacidades de produção, os químicos lembraram-se que o que mata gente também mata inseto. Surgiram e foram promovidos assim os inseticidas do grupo do Parathion.

Também o DDT, que só foi usado para matar insetos, surgiu na guerra. As tropas americanas, no Pacífico, sofriam muito com a malária. O dicloro-difenil-tricloroetil, conhecido há mais tempo, mas cujas qualidades inseticidas acabavam de ser descobertas, passou a ser produzido em grande escala e usado com total abandono, aplicava-se de avião em paisagens inteiras, tratava-se as pessoas com enxurradas de DDT. Depois da guerra, mais uma vez, a agricultura serviu para dar vazão aos enormes estoques sobrantes e para manter funcionando as grandes capacidades de produção que foram montadas.

O negócio dos pesticidas transformou –se num dos melhores e mais fáceis. Tão fácil quanto o negócio dos entorpecentes. Quanto mais se vendia, mais crescia a demanda. A situação atual se assemelha a uma conspiração muito bem bolada. Os mesmos grandes complexos industriais que induziram o agricultor a que desequilibrasse ou destruísse a microvida do solo com os sais solúveis concentrados, que são os adubos minerais sintéticos, oferecem, então, os "remédios" para curar os sintomas dos desequilíbrios causados. Estes remédios causam novos estragos e desequilíbrios, novos "remédios" são oferecidos e assim por diante.

Com o uso intensivo dos adubos químicos, a agricultura enveredou por um caminho inicialmente fácil e fascinante, pois era simples e trazia aumentos espetaculares de produtividade. Mas, a longo prazo, este caminho, como agora já se vislumbra, é um caminho suicida.

O desequilíbrio ou destruição da microvida do solo pelo abandono da adubação orgânica e alimentação direta da planta com os sais solúveis, assim como o uso intensivo dos herbicidas, tem como consequência o aumento da suscetibilidade às pragas e enfermidades. Surgem então os inseticidas, acaricidas, nematicidas, fungicidas e outros biocidas. Estes, por sua vez, levados ao solo pela chuva, contribuem para uma destruição ainda maior da microvida. Os organismos maiores do solo, como a minhoca, talvez o melhor aliado que o agricultor possa ter, desaparecem por completo de nossas lavouras, hortas e pomares modernos. Agindo diretamente sobre a planta, os pesticidas, venenos que são, contribuem ainda para desequilibrar o metabolismo da planta. Tudo isto aumenta ainda mais a suscetibilidade às pragas e doenças. Portanto, uso ainda mais intensivo dos venenos, sempre produzidos pelo mesmo complexo de indústrias. Para combater, então, as doenças causadas pelo envenenamento generalizado do ambiente e dos alimentos, as mesmas grandes fábricas oferecem os fármacos modernos...

E tudo se torna sempre mais caro. O agricultor, antes autárquico, que produzia com insumos obtidos em sua própria terra ou comunidade, tornou-se simples apêndice da grande indústria química e de maquinarias. A situação da agricultura americana, tão invejada pela sua grande produtividade, é significativa. A quase totalidade dos agricultores pequenos e médios, hoje altamente capitalizados, totalmente dependentes de insumos industriais, encontra-se em situação de insolvência. Por mais que se esforcem, não conseguem mais ganhar o suficiente para pagar os juros dos empréstimos. Voltou, inclusive, um estrago muito grave que parecia resolvido na década de 40, com os grandes programas de conservação do solo. Hoje, a erosão volta a campear na agricultura americana, comprometendo o futuro alimentar da nação.

A indústria química conseguiu impor seu paradigma na agricultura, na pesquisa e no fomento agrícola e dominou as escolas de agronomia. Ela impôs um tipo de pensamento reducionista, uma visão bitolada que simplifica as coisas, mas que acaba destruindo equilíbrios que podem manter uma agricultura sã. A praga e as enfermidades das plantas são apresentadas como inimigos arbitrários, implacáveis, cegos, que atacam quando menos se espera e que devem, portando, ser exterminados ou, quando isto se torna impossível, ser combatidos da maneira mais violenta e fácil possível. O camponês tradicional e o agricultor orgânico moderno sabem que a praga é sintoma, não causa do problema. Com um manejo adequado do solo, adubação orgânica, adubação mineral insolúvel, adubação verde, consorciações, rotação de cultivos, cultivares resistentes e outras medidas que fortificam as plantas, eles mantém baixa a incidência de pragas e moléstias das plantas. O paradigma da indústria química não leva em conta estes fatores. Combate sintomas e não procura as causas.

Típico deste paradigma é o proceder dos "técnicos" da Campanha Nacional de Erradicação do Cancro Cítrico, que agora assolam a região citrícola do Rio Grande do Sul. Sua tarefa é simples – erradicar. Quando visitam um viveiro de árvores cítricas só procuram constatar os sintomas da doença. Quando os encontram, demolem e queimam todo o viveiro, mais todas as plantas cítricas dentro de um determinado raio, que era de 1000m, mas que já diminuiu para 50m, devido aos protestos dos viveristas. Se não encontram nada, seguem para outra. Não dialogam nem com o agricultor, muito menos com as condições locais de solo, de ambiente, de métodos agrícolas. Nunca perguntam ao agricultor como ele preparou seu solo, como adubou, que tipos de adubo aplicou, se usou herbicidas ou outros venenos. Entretanto, quem faz estas observações, nota logo que há relação entre as ocorrências ou intensidade da moléstia e as condições de solo, adubação, de matéria orgânica no solo, de rotação, de tratamento com herbicidas ou outros venenos, de afinidade de enxerto, etc. É claro que o programa de erradicação jamais conseguirá erradicar a bactéria associada aos sintomas do cancro cítrico, mas o programa já quase exterminou a citricultura no Estado do Paraná e se prepara para exterminá-la no Rio Grande do Sul.

Dentro desta visão, a agricultura, que deveria ser o principal dos fatores de saúde do homem, é hoje um dos principais fatores de poluição. Uma das formas insidiosas de poluição. O leigo vê a fumaça que sai das chaminés, dos escapes dos carros, vê a sujeira lançada nos rios. Mas, quando compramos uma linda maça na fruteira da esquina, mal sabemos que esta fruta recebeu mais de trinta banhos de veneno no pomar e, quando entrou no frigorífico, foi mergulhada em um caldo de mais outro veneno. Alguns dos venenos são sistêmicos. Quer dizer, eles penetram a circulam na seiva da planta para melhor atingir os insetos que se alimentam sugando a seiva. Não adianta lavar a fruta.

É claro que a indústria química sabe que está lidando com fogo e a população começa a preocupar-se. Para acalmar o público assustado e proteger a si própria de possíveis problemas, ela complementa seu paradigma de uso de venenos com uma série de conceitos pseudocientíficos e jurídicos e usa toda uma nomenclatura especial.

Inicialmente, quando a consciência ecológica era pouca, os venenos eram apresentados com o termo genérico "pesticidas". A idéia era simples, combate às pestes. Em inglês, a palavra "pest" é usada em linguagem coloquial para designar "bichos indesejáveis". Cedo, no Brasil, passaram a usar o termo "defensivos". Uma palavra menos agressiva, que inspira mais confiança e não tem conotações negativas. Acontece que os produtos oferecidos pela indústria química para o combate de pragas e moléstias das plantas, com raríssimas exceções, são biocidas. Eles o são deliberadamente. A intenção é matar organismos considerados indesejáveis. Seria mais lógico que estes biocidas fossem designados com a palavra "agressivos" ou simplesmente, se quisermos ser honestos, de "venenos". Quando um agricultor orgânico faz determinados tratamentos com substâncias não tóxicas para fortalecer a planta, como quando usa soro de leite, iogurte, biofertilizantes, extratos de algas, fermentos e outros, diminuindo a incidência de pragas e enfermidades, não porque matem os agentes patogênicos e os parasitas, mas porque deixam a planta com mais resistência, então sim, deveríamos usar a palavra "defensivo". Por isso, agrônomos conscientes lançaram a palavra "agrotóxicos" para designar os biocidas da agroquímica. Não se trata de querer agredir a indústria, trata-se de precisão de linguagem. Esta palavra está agora consagrada na lei dos agrotóxicos de já mais de uma dúzia de estados da Federação.

Uma vez que é inegável que, ao aplicar agrotóxicos na lavoura, sobram resíduos no alimento, a indústria arroga-se o conceito de "dose de ingestão diária admissível", ADI (admissible daily intake). Para cada um de seus venenos, ela afirma que o organismo humano pode ingerir, inalar ou absorver pela pele, certa quantidade diária, sem que isto tenha conseqüências para sua saúde. Em se tratando dos venenos fulminantes e persistentes em questão, não deixa de ser um conceito temeroso. Se aceitarmos este conceito, teremos que insistir que todos os nossos alimentos sejam constantemente e exaustivamente analisados e retirados imediatamente do mercado caso haja transgressão. Todos sabemos que nada disso acontece na prática cotidiana. Os escândalos só acontecem quando ambientalistas preocupados conseguem que sejam feitas algumas análises ou quando levam a público resultados oficiais que permanecem engavetados. Os administradores públicos sempre procuram negar a gravidade do que foi encontrado. Só quando a pressão popular é grande consegue-se ação oficial.

A ADI, através de cálculos envolvidos, é derivada de outro conceito, aparentemente científico, na realidade extremamente rudimentar e grosseiro. Trata-se da medida de toxicidade chamada LD50, a dose letal 50%. Para achar este valor para um determinado veneno, submete-se uma certa população de cobaias a doses crescentes do tóxico. Quando a metade da população morre, supõe-se que este é o limite de letalidade. Assim, uma LD50 de 8 significa que 8 miligramas de um veneno por quilo de peso de cobaia viva foram necessários para começar a matar as pobres criaturas. Milhões de animais são torturados à morte todos os anos nos laboratórios da indústria. Quanto mais baixa a LD50, mais tóxica é a substância. Nesta visão, um agrotóxico com LD50 –10 é cem vezes mais perigoso que outro com LD50-1000. Trata-se, mais uma vez, de raciocínio extremamente reducionista. Um argumento muito usado pelos defensores dos agrotóxicos é a afirmação de Paracelsus de que veneno é questão de dose. Gostam de apresentar o exemplo do sal de cozinha. Um pouco de sal é indispensável à saúde, mas se eu comer 100 gramas de sal, morro de desidratação. O mesmo raciocínio se aplica à água. Ela é indispensável à vida, mas podemos morrer afogados. De fato, este raciocínio se justifica sempre que ele for aplicado a substâncias que normalmente fazem parte dos processos metabólicos dos seres vivos: sal, água, ácido clorídrico, amônia, ácido sulfúrico e outros, nitratos, uréia, etc. Mas este raciocínio não se aplica a biocidas, quer eles sejam naturais ou artificiais. O veneno da cascavel sempre faz mal, por pequena que seja a dose. Se a dose for muito pequena, o estrago pode ser pequeno e superável, mas não deixa de ser um estrago.

Uma alfinetada causa um estrago muito pequeno, não se compara com um golpe de adaga, mas não deixa de ser um estrago. E o que acontece quando levamos diariamente uma nova alfinetada, especialmente se for sempre no mesmo lugar? A coisa poderá tornar-se muito grave. Mais um detalhe, de uma alfinetada no traseiro podemos rir; no olho, é outra coisa. Assim, o LD50 não leva em conta os efeitos crônicos. O que acontece após anos de ingestão diária de quantidades muito pequenas de um determinado veneno? Como ficam o fígado, o sistema renal, o sistema imunológico e outros?

Propor uma ingestão diária admissível para venenos como os agrotóxicos clorados, fosforados, os carbamatos, os mercuriais, as triazinas, os derivados do ácido fenoxiacético, já passa de temeridade, é cinismo. Mas tem sentido para a indústria química. É uma espécie de seguro para eles, não para nós agricultores e consumidores. Nas concentrações propostas, torna-se impossível provar a relação causa-efeito. Se eu atropelar alguém com meu carro, não resta dúvida quanto a quem causou os ferimentos, só se discutirá se houve dolo ou culpa ou se, talvez, foi impossível evitar o acidente por descuido do próprio pedestre. Entretanto, se alguém estiver morrendo de câncer porque ingeriu durante anos quantidades muito pequenas de uma substância cancerígena, ou quando outro sofre de doença infecciosa porque está com o sistema imulógico destruído por carbamatos, torna-se impossível provar que a culpa é do respectivo agrotóxico. Os altos executivos da indústria química dormem tranqüilos. Nos casos em que se verificam resíduos acima das doses supostamente aceitáveis, eles sempre põem a culpa no agricultor, alegam "mau uso". Acontece também que, quando as práticas correntes na agricultura, o chamado "uso adequado", significam resíduos acima dos inicialmente aceitos, eleva-se simplesmente os índices. Esta política tem sido muito comum na Europa e nos Estados Unidos.
 
Além de não levar em conta os efeitos crônicos da ingestão continua de pequenas doses, a LD50 não leva em conta os efeitos sinergísticos, isto é, os efeitos de interação dos venenos uns com os outros. Os testes de determinação da LD50 são feitos para uma substância por vez. Mas o organismo humano, no mundo em que vivemos, se vê confrontado com substâncias as mais diversas ao mesmo tempo. Temos uma infinidade de formas de poluição do ar, da água, dos alimentos, dos objetos que tocamos, até das roupas que usamos. É sabido que quando mais de um veneno age ao mesmo tempo, o efeito é muitas vezes superior, e muito superior à simples soma dos efeitos de cada um. Quase sempre os venenos se potenciam mutuamente. Digamos que o veneno A tem um efeito 5 e o veneno B tem um efeito 6. Ambos juntos poderão ter não um efeito 5+6=11, mas 5x6=30. E se forem muitos venenos? A ADI não considera este aspecto.

Também não considera os efeitos genéticos, isto é, os efeitos mutagênicos, cancerígenos e teratogênicos. É sabido que estes efeitos são desencadeados a nível molecular. Uma só molécula de substância cancerígena, um só foton de radiação ionizante, um só vírus, podem desencadear o câncer ou a mutação. Portanto, a ADI para substâncias suspeitas de poderem desencadear efeitos genéticos deveria ser zero. Mas a indústria química apresenta ADI até para a Dioxina, o superveneno, o veneno mais absurdo que o homem já produziu, e que estava presente no Agente Laranja. Jornalistas japoneses me mostraram fotos de crianças nascidas com deformações indescritíveis no Vietnã. Continuam nascendo. As deformações são mais horríveis que as da Talidomida. Aliás, a Talidomida deve ter uma LD50 acima de 1000. Dentro dos conceitos da agroquímica, seria menos perigosa que o sal de cozinha.

Quanto aos efeitos ecológicos dos agrotóxicos, na maioria dos casos, só se fica sabendo depois dos estragos. Os efeitos cumulativos dos clorados, especialmente do DDT, só se tornaram conhecidos depois que biólogos atentos constataram os desastres. Quando Rachel Carson escreveu seu livro "Primavera Silenciosa", chamando a atenção para os problemas ecológicos dos venenos aplicados na agricultura, ela foi violentamente vilipendiada e insultada pela indústria.

Isto nos leva a mais um aspecto importante de toda esta loucura. A indústria química, e não só no campo dos agrotóxicos, insiste que tem o direito de introduzir no ambiente qualquer substância que ela desenvolva, enquanto não for provado que há perigo. Mas esta prova ela não procura encontrar. Ao contrário, inicialmente ela combate os que a procuram. Deveria ser exatamente o contrário. Enquanto houver um resquício de dúvida sobre possíveis perigos, a substância não deveria ser introduzida no ambiente. Em vez de continuar fazendo bons negócios, enquanto a sociedade não provar os perigos, a indústria deveria ser obrigada a provar que não há perigo, antes que se lhe permita vender.

Na prática agrícola, no campo, o que hoje acontece é um dos maiores escândalos da sociedade industrial moderna. Nunca tantos venenos, venenos tão fulminantes, alguns persistentes, outros fulminantes e persistentes ao mesmo tempo, foram colocados em mãos de tanta gente tão despreparada para lidar com eles.

A grande maioria dos agricultores não tinha e continua não tendo noção dos perigos que enfrenta com os agrotóxicos. Especialmente grave é a situação dos bóias-frias nos latifúndios, cuja única alternativa, em geral, não passa de escolha entre morrer de fome ou morrer envenenado.

A indústria costuma defender-se com o argumento do "uso adequado" ou "correto" e insiste em que todos os problemas que se constatam, se devem sempre ao "mau uso". A culpa está sempre com a vítima. Quando os problemas se agravam e se multiplicam, ela, às vezes, promove cursinhos ou campanhas de "uso correto dos defensivos". Para isso procura sempre envolver a administração pública - Agricultura ou Saúde - para deixar com ela a responsabilidade e parte dos custos. Mas ela continua manipulando o agricultor, também as donas de casa, no caso dos venenos contra baratas, com publicidade insidiosa e desinformativa, que não alerta para os perigos e promove um uso desnecessário e até prejudicial. Jamais ela esclarece sobre as alternativas não tóxicas. Muito pelo contrário, combate os que promovem a agricultura orgânica.

Quando a Sociedade se defende, prepara legislação, insiste na obrigatoriedade de receita assinada por agrônomo não vinculado com a indústria química, esta combate abertamente as medidas. Assim, quando o parlamento estadual do Rio Grande do Sul aprovou por unanimidade uma lei estadual de controle de venenos, a indústria entrou na Justiça Estadual. Perdeu e foi ao Tribunal Supremo, para argüir da inconstitucionalidade das leis estaduais, que já são 14. Ela conseguiu pressionar o Governo anterior a apresentar no Congresso um projeto de lei federal que esvaziaria as leis estaduais. Felizmente, o novo Governo já retirou o projeto, que não chegou a ser votado, pois foi bloqueado por alguns deputados conscientes. Agora, ela já iniciou pressão sobre o novo Ministro da Agricultura para que prepare projeto de lei favorável a ela.

Não somente os agricultores são mantidos na ignorância e tornam-se assim as primeiras vítimas, os médicos que tratam das vítimas, são mantidos na ignorância quanto aos aspectos toxicológicos dos novos produtos, dados que só a indústria conhece, e que, como vimos, ela própria só pode conhecer parcialmente, uma vez que os testes toxicológicos são conduzidos com enfoque reducionista, um veneno por vez. Não levam em conta a complexidade e envolvência da situação real. Por isso são comuns tratamentos inadequados. O médico confunde os sintomas. Até agora, não conheço trabalho eficiente da agroquímica no sentido de informar os médicos quanto aos problemas toxicológicos dos venenos agrícolas. Mas as mesmas firmas transnacionais, quando fabricam também medicamentos, mantém verdadeiros exércitos de "visitantes" para manipular os médicos no sentido de receitar seus fármacos aos seus pacientes.

O processo de democratização e descentralização ora desencadeado neste país, que, esperamos, venha a ampliar-se, obriga-nos, todos, a conscientizar-nos deste imenso escândalo para que haja pressão sobre os administradores da coisa pública que só costumam agir sob pressão. Sempre que possível, precisa também ser acionada a Justiça.
 

segunda-feira, 17 de março de 2014

Os miseráveis (trabalhadores dos EUA)


“Miséria à americana: vivendo de subempregos nos Estados Unidos” nos conta como vive a massa trabalhadora dos EUA.  A escritora com PhD em biologia começou a se questionar como os pobres conseguem fechar as contas? Como é possível viver com um salário de garçonete?
É interessante lembrar que isso já passou pela minha cabeça, trabalhar de garçonete nos EUA, aprender inglês, ter uma experiência e ganhar alguns trocados. Afinal, quem teria medo de trabalhar na potência norte americana? Certamente, na minha cabeça adolescente seria uma tarefa muito fácil!
Pois bem, B. Ehrenreich fez isso. Deixou sua casa, seu carro, seu marido para “se fazer de pobre”, foi apenas com um capital inicial de 2 mil dólares (ou quase isso), e foi viver três meses um em cada estado diferente. Se permitiu em todos os empregos alugar um carro velho, e se recusou a morar nele, esses seriam seus “luxos”. Segue um trecho conclusivo:


“Quando o desemprego provoca pobreza, sabemos como expor o problema – tipicamente, “a economia não está crescendo com suficiente rapidez” – e sabemos qual é a solução liberal tradicional – “pleno emprego”. Mas quando temos emprego pleno ou quase pleno, quando há empregos disponíveis para quem quer que os procure e possa chegar até eles, o problema se aprofunda e começa a atingir a rede de expectativas que forma o “contrato social”. Segundo uma recente pesquisa de opinião realizada pela Jobs for the Future [...] 94% dos americanos acreditam que “quem trabalha em horário integral deveria ganhar o suficiente para manter sua família fora da pobreza”. Cresci ouvindo repetidas vezes, a ponto de causar tédio, que o “trabalho duro” era o segredo do sucesso: “Trabalhe duro e você vai em frente”, ou “É o trabalho duro que nos trouxe até onde estamos”. Ninguém jamais disse que seria possível trabalhar duro – mais ainda do que jamais se pensou possível – e ainda assim ver-se afundando cada vez mais na pobreza e nas dívidas.
Quando mães solteiras pobres tinham a opção de permanecer fora da força de trabalho recebendo pensão do governo (poderíamos comparar com o Bolsa Família?!), as classes média e alta tendiam a vê-las com certa impaciência, para não dizer nojo. Os pobres que dependiam da previdência eram atacados por sua preguiça, sua teimosia de se reproduzirem em circunstancias desfavoráveis, seus supostos vícios e, acima de tudo, por sua “dependência”. Ali estavam, contentes de viver de “presentes do governo” em vez de procurar a “autossuficiência”, como todo mundo, por meio de um emprego. Precisavam ajeitar as coisas, aprender a dar a corda no despertador, sair de casa e ir trabalhar. Mas agora que o governo acabou com a maior parte de seus “presentes”, agora que a maioria avassaladora dos pobres saiu e está labutando na Wal-Mart ou no Mac Donald’s – bem, o que vamos sentir por eles? Desaprovação e condescendência não servem mais, então que sentimento fará sentido?
Culpa, você deve estar pensando, cauteloso. Não é o que deveríamos estar sentindo? Mas a culpa não leva a lugar algum; a emoção apropriada é vergonha – vergonha de nossa própria dependência que, neste caso, é do trabalho mal pago de outras pessoas. Quando alguém trabalha por menos do que precisa para viver – quando por exemplo, passa fome para que você possa comer mais barato e com maior conforto – essa pessoa faz um grande sacrifício por você, deu-lhe de “presente” uma parte de seu talento, de sua saúde e de sua vida. Os “pobres trabalhadores”, como com aprovação os chamam, na verdade são os maiores filantropos de nossa sociedade. Negligenciam os próprios filhos para que os filhos de outros sejam bem cuidados; vivem em habitações péssimas para que outros lares fiquem brilhantes e perfeitos; suportam privações para que a inflação seja baixa e o preço das ações, alto. Ser um pobre trabalhador é ser um doador anônimo, um benfeitor sem nome, para todas as outras pessoas.
Algum dia, é claro – e não vou fazer previsões sobre quando, exatamente – eles estão destinados a se cansar de receber tão pouco em troca e exigir que sejam pagos pelo que valem. Haverá muita raiva quando este dia chegar, e greves e destruição. Mas o céu não vai cair e no final estaremos todos em melhor situação.”

A autora iniciou sua "pesquisa" na Florida, onde tentou por 2 vezes trabalhar de arrumadeira em hotéis, mas acabava sempre sendo enviada para atuar como garçonete, devido sua tez e sotaque “apresentáveis”. Quando as contas insistiram em não fechar e ela não via mais como economizar, tentou trabalhar em 2 lugares simultaneamente e conseguiu trabalhar de arrumadeira. 
No Maine trabalhou numa agência de faxineiras. A agência recebia 25 dólares por hora, enquanto as faxineiras 6,65. Para tentar fechar as contas,  trabalhava num asilo durante os finais de semana.
Em Minnesota, foi impossível encontrar moradia, como ela diz quando ricos e pobres competem por espaço, os últimos levam a pior. Teve que passar um tempo num hotel muito simples, sem cozinha, nem trava na porta, nem ventilador. Aqui descreve um pouco sobre as maravilhas de se trabalhar no Wal-Mart, uma empresa francamente assustadora. Quando, por ter passado o tempo combinado em seu hotel horroroso ela precisa mudar e fica temporariamente em outro até achar uma moradia adequada, passa a pagar muito caro para trabalhar, e o projeto precisa acabar antes do tempo, com essa triste conclusão: “não é preciso um diploma em economia para ver que os salários são baixos demais e os alugueis altos demais [...]muita gente ganha muito menos do que precisa para continuar vivendo”.
Quanto mais pobre se é mais pobre tende a se ficar, sem a possibilidade do capital inicial para arranjar moradia menos ruins (que exigem um antecipado), acaba-se aceitando locais mais caros e mais longes do local de trabalho e sem cozinha para preparo da alimentação. Tendo que gastar ainda mais (dinheiro, tempo e energia) no transporte, alimentação e moradia.
No inicio Barbara se preocupava em como conseguiria esconder seu PhD em biologia, mas o fato é que não foi notada grande diferença entre ela e suas colegas que mal conseguiram terminar um ensino fundamental fraco.  Os trabalhos eram mecânicos e fisicamente desgastantes. Podemos desperdiçar ao longo de gerações grandes mentes, poetas, artistas, físicos, inventores, sem nem nos darmos conta... E quando não há espaço ou incentivo para criatividade ou inovação "todos os gatos são pardos", e todos erguem igualmente um aspirador de quase 5 Kg nas costas...
Sempre havia um gerente para reprimir qualquer possível “roubo de tempo”, ao longo das 8 horas de serviço, tirando as pausas de 15 minutos, não se pode sentar, comer, beber água, conversar, ou ir ao banheiro.  O custo de manter essa repressão (salario de gerente, câmeras), bem como os exames antidrogas (quando a empresa fornece) é certamente uma pressão ainda maior pra manter os salários baixos.
Existe forte pressão contra qualquer possibilidade de revolta, o Wal-Mart apresentava cartazes contra a "maldade" do sindicato. Dificultava-se ao máximo qualquer contato entre os funcionários. Somado ao esforço em fazer os funcionários se sentirem suficientemente desvalorizados para acreditarem que o quanto ganham é o quanto merecem, e não se rebelarem jamais, o que não é muito difícil, pois mesmo testes com animais revelam que macacos e ratos “forçados a um estado de subordinação em seus sistemas sociais adaptam em conformidade a química de seu cérebro, tornando-se “deprimidos”.
Além de não terem acesso a planos de saúde ou a um sistema público eficiente, é comum o trabalho pesado e repetitivo causar lesões a longo prazo, as dores incentivarem o consumo de analgésicos (baratos de qualidade duvidosa), com os baixos salários a alimentação se restringi a itens baratos, ou cestas de auxílio, sem vegetais ou frutas frescas, mas cheios de gordura e açúcar (o que me leva crer que os que não sentem fome estão subnutridos), e bairros e moradias mais acessíveis são comumente insalubres. O pobres trocam por míseros salários, não apenas seu tempo, como sua saúde. Para que possamos ter o prazer de poder comprar roupas baratíssimas na renner, tirar peças de arara e cabide e deixar por aí, ou provar e simplesmente abandoná-las no provador, acreditando que a fada madrinha se encarregue de magicamente por tudo em ordem na nossa ausência.
Dois pontos me deixaram um pouco assustada. Um é ver a grande nação, o Império dos EUA, como um país pobre, mas coberto com uma espessa camada de maquiagem.
E segundo, como nós classe média (que sim, também não estamos bem como deveríamos) exploramos diariamente de um modo cruel e desumano milhares de trabalhadores miseráveis. Cada cafezinho que vc toma para aumentar seu rendimento, teve mãos miseráveis no transporte dos grãos, no plantio, na colheita, na aplicação dos produtos químicos, para fazer o café, para lavar a xícara, e você mal olha nos olhos de quem lhe atende. Semana passada fui na renner, precisava comprar um top, peguei 2 fui ao provador no andar de baixo, na saída pedi para a moça "eu posso guardar esse aqui", ela pareceu extasiadamente feliz "jura? muito obrigada!", a arara de devoluções estava gigante. Não doeu colocar um top no cabide e devolver para arara que eu tinha tirado. Aliás, achei isso de um anarquismo extremo. E hoje, buscando o carro de uma manutenção, fui pegar um cafezinho, era tão arrumadinho, desconfiei "posso pegar um?" perguntei para senhora encarregada de lavar as xícaras "claro". Tinha tantas opções... "qual a senhora mais gosta?" ela me olhou, talvez achando tudo aquilo muito inusitado "eu não sei, os funcionários não podem tomar". Fazia tempo que não me sentia tão sem graça, não consegui fazer nada além de engolir um capucino e sair correndo desconcertada... 

segunda-feira, 10 de março de 2014

Sociedade em crise e vislumbres de novas possibilidades

Não é mais questão de política, de como regular o mercado, para que ele se auto-regule, trata-se de gerir os recursos que temos. E não digo apenas de recursos materiais, como terra fértil, metais, vento, senão também recursos mais sutis, como a criatividade humana, a tecnologia potencial, e até os sentimentos nobres. Convenhamos, sentimentos nobres são sistematicamente desincentivado.

Porque temos empregos? Com tantas máquinas. Pensa, a maioria dos empregos são tediosos e totalmente inúteis. Para transferir a placa de meu carro, falei com aproximadamente 15 pessoas, essas me atenderam diretamente, no balcão do detran, na vistoria, para fazer a placa, no banco, e se não precisássemos de placas, ou melhor, se não precisássemos de carros, por meio de um transporte público eficiente? Quantos empregos seriam/são desnecessários! E não é ruim não ter emprego, essas pessoas passam a maior parte do seu dia fazendo uma atividade chata pra caramba, como passar lápis sobre uma etiqueta colada no chassi! Esse camarada com tempo livre poderia compor canções tão lindas como as que jamais iremos ouvir. Se o governo britânico não tivesse (como não tem atualmente) investido em cultura Jonh Lennon teria passado toda sua vida empilhando caixas, e nós jamais cantaríamos e nos inspiraríamos com Imagine. Emprego não é bom, é uma bosta, trabalhar no que realmente gosta (sem depender do salário) é bom. Criar emprego é a pior medida política que pode-se usar de propaganda eleitoral. Temos que pensar em diminuir empregos, aumentar distribuição e tempo livre.

Mas, porque as pessoas buscam emprego feito loucas? Pq mesmo o mais humilde dos seres humanos, o dotado de zero ganância precisa de emprego? Por causa do dinheiro! Não do dinheiro em si, mas do passaporte para condições mínimas de vida. Alimentação, remédio, informação, conhecimento, cultura, atividade social, transporte. Não precisamos de dinheiro, ninguém precisa de dinheiro, mas precisamos e muito do acesso à bens que só nos oferecem mediante a essa troca inescrupulosa. Passa tempo. Nessas férias fui a uma praia e haviam várias pranchas de remar, elas ficavam em pé, paradas, porque eram alugadas, e quando não havia dinheiro para alugá-las, elas ficavam paradas e alguém desejoso de brincar, ficava passando vontade, entediado, mais pobres não podem nem chegar perto de uma.

Jacques Fresco conta que na crise de 30 "Foi difícil entender o motivo porque milhões de pessoas estavam sem trabalho, sem teto e prestes a morrer de fome, enquanto todas as fábricas estavam ali, os recursos não tinham mudado." Nesse momento começou a entender e questionar e entender e criticar as "regras do jogo" econômico. Viveu também a segunda guerra mundial "onde as nações se revezavam na destruição mutua e sistemática. Calculei que toda destruição e todos os recursos desperdiçados na guerra poderiam facilmente ter provido todas as necessidades humanas no planeta."

Seguiu observando criticamente as medidas governamentais economicistas e "desenvolvimentistas" e depois de muito ler (aparentemente muito e sobre tudo, religião, sociedade, poder, comportamento humano, economia), pensar, propor, dialogar, viajar, trabalhar, se envolver em projetos diversos, ele passou a identificar as raízes do problema e idealizar suas soluções. Chegou então a essa bela possibilidade chamada Projeto Venus. Venus é a cidade da Florida em que se encontra seu centro de pesquisa, mas é um nome muito curioso, e feliz, pois diversas linhas místicas mantem a tradição de dar à "Deus" um aspecto feminino (não é mulher, o feminino existe em diversos graus nos homens também), o qual estaria mais voltado a generosidade, constância, cooperação, as sociedades matriarcais que houveram não tinham uma natureza guerreira e opressora. Mas enfim, sigamos!

E porque existe o dinheiro? Seria para controlar o acesso a recursos limitados. ok, mas não somos capazes de pensar em outras formas de lidar com esses recursos? Porque temos que limitar moradia, transporte, saúde? Esses "recursos" são limitados? Uau, pois quando eu entro num supermercado não me parece, muitos autores que estudam a "geopolítica da fome" concordam que produzimos alimento suficiente para 12 bilhões de seres humanos, somos em 7, dos quais 12,5% passa fome (fonte). Será mesmo o dinheiro uma maneira inteligente de gerir recursos? Quantos médicos se formam por ano, o conhecimento é um recurso limitado? Meu amigo economista resolve todos os problemas em 2 segundos, aumenta o preço daqui, investe ali, fiscaliza acolá... bem, convenhamos, esperar que o capitalismo traga abundância a todos é muita ingenuidade, não?! A escassez e a miséria é interessante para a manutenção do satus quo, será que se todos tivessem acesso garantido à saúde, alimentação, lazer e moradia se submeteriam a empregos desumanos e degradantes? A pobreza é um baita negócio nesse atual sistema, pode-se pagar 500 reais de aluguel numa casa com 3 dormitórios nas favelas do Rio:

"Segundo o Data Popular, as favelas geram por ano cerca 63 bilhões de reais. Por isso vale a pena mostrar a favela como um lugar formidável [sobre uma matéria do Fantástico que mostrava as maravilhas do morro]. Os recursos não permanecem nas favelasO ciclo da economia gira em torno das grandes redes. Vale a pena colocar uma Besni, um Itaú e uma Casas Bahia em uma favela: em alguns estados o governo oferece como contrapartida isenção de imposto para as empresas - uma espécie de insalubridade, a mão de obra é barata, o povo paga as contas em dia, mesmo com a geladeira, adquirida por pressão no intervalo da novela, que anunciava a redução do IPI, vazia."

A vida e a qualidade de vida deixou a muito tempo de ser prioridade. Mesmo a informação, dada por jornalistas, não busca a verdade e sua difusão, busca o lucro, acumular dinheiro a patrões bastante distantes da realidade que são noticiadas. O mesmo com os avanços tecnológicos e na área da saúde, será interessante economicamente desenvolver a cura do câncer, ou meios de evitá-lo? No meio acadêmico até, vi esses dias que um estudo que buscava relacionar transgênico com câncer foi terrivelmente criticado, principalmente por cientistas que trabalhavam em projetos de patentes de transgênicos, ganhado certamente muito dinheiro.

O universo do pensamento é livre, podemos idealizar o que quisermos: e se não houvesse dinheiro? Você pensa que ficariam todos os seres humanos ociosos, se comendo, e sei lá eu fazendo o que mais? A única coisa que te motiva é ganhar dinheiro? E se vc não precisasse, não há nada que te interessa? Desenho, filosofia, música, engenhocas, corpo humano, nada? Imagine que vc pudesse entrar em um supermercado e pegar o que quisesse para se alimentar, para vestir, totalmente livre. Nossas férias e fim de semana são poucos "produtivos", pois gastamos toda nossa energia no emprego.

O mundo está um caos, inteiro e completo. Nosso ambiente cada vez mais poluído e degradado, desculpe, mas não se iluda pensando que se todos reciclassem, se todos poupassem, se todos... pq não vai acontecer, enquanto as inovações forem disputadas a tapa por grandes corporações desejosas de mais lucro, cada tecnologia que aparece não é para o bem comum, cada politica que se cria também não, todas as inovações são para aumentar os lucros, ou não recebem investimentos (vide Tesla que morreu pobre investindo tudo o que tinha no desenvolvimento de energia gratuita e powers) e nessa onda também se focam as medidas sociais (o ciência sem fronteiras tem parceria com grandes empresas e o objetivo não é melhorar a qualidade de vida de forma holística, não é que o conhecimento adquirido seja aplicado na melhora da vida dos que necessitam, através de inovações de ponta, basta ver o foco dos cursos e as empresas parceiras, é uma medida de criar mão de obra qualificada para aumentar os lucros, e esses lucros são importantes pois geram emprego... e novamente não há investimento em emancipação, capital social e empoderamento popular). Você pensa que é livre mas não é. E nem será enquanto tiver que pagar as contas, e sem "pagar as contas" vc não se transporta, não come, não se cura, nem se mantém saudável, não se comunica. E é possível mudar isso, afinal os recursos existem, as pessoas existem, elas tem criatividade para tecnologias, o que pode deixar de existir é o que regula o acesso a tudo isso, o dinheiro. E, quando deixar não haverá exclusão, não haverá diferença entre brancos e negros, homem e mulher, artista ou engenheiro, quer dizer haverá diferença, mas nenhum será excluído, todos poderão entrar na mesma loja e terão as mesmas possibilidades, as diferenças serão internas, como aptidão, interesse, etc. mas não serão diferenças qualificadoras "melhor ou pior".

É claro que haverão problemas e limitações, pois tudo é dinâmico, e talvez esse modelo possa deixar de servir em algum momento, como, convenhamos, o modelo atual não serve mais...

Vale a pena assistir ao documentário Paraíso ou Esquecimento, estamos em um momento importante. Muitos renomados ecologistas (Odum - O Declínio Próspero) e economistas (Meadows - Os Limites do Crescimento) acreditam ser nossa fase atual um ponto crítico, ou seguimos com a lógica atual (ainda que maquiada de medidas "freio de mão" como reciclagem, protocolo de kioto e blablabla) explorando, extraindo, poluindo, concentrando e lucrando, ou aproveitamos que ainda temos energia não renovável o suficiente e construímos uma nova sociedade sustentável, pautada em outro paradigma, que não o economicismo tradicional calcado na competição e acumulação. Nos livros defendem que essa é uma escolha que deve ser tomada, e quanto mais rápido mais próspero será o "declínio" da atual economia e civilização (como é nesse momento), não tomar essa decisão implica em esgotarmos as possibilidades de escolha e interferência nesse declínio, que é inevitável.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

você é mil reais legal

economicismo.

Não sabemos o valor de nada, mas sabemos o preço de tudo. O custo do serviço ambiental dos oceanos é de 2 trilhões de dólares! Ainda estou tentando entender o que significaria isso. Acho que seria como dizer: gosto 300 mil reais de você. Penso que analisar as coisas em valores e gráficos é tão simplista que tem nos deixado burros, e obcecados em simplificar as coisas para a superioridade do valor monetário, para a Lei suprema do custo-benefício. Temos que comparar as coisas e fazemos isso em cash. Eu lembro de sair de alguns encontros com amigos e comentar com meu namorido, "valeu a pena ter gasto x com isso". Com o tempo, observando, lendo, pensando, meditando, me dei conta o quão mesquinho é avaliar as coisas por dinheiro, ir esperando que um encontro seja pelo menos "20 reais legal". E fui me libertando desse tipo de julgamento, ainda penso em valores monetários porque ando obcecada por quem não tem dinheiro. Quando me dizem de um curso, um isso, um aquilo eu só penso, se não fosse pela minha bolsa eu não poderia saber yoga, aprender sobre culinária vegetariana, viajar... se eu não tivesse um número de matrícula da FURG não poderia retirar livros. LIVROS!

Ontem saímos de uma palestra sobre PSA, pagamento por serviços ambientais. Eu olhava para a mulher da Embrapa, lia os slides, olhava para o lado, anotava alguma coisa, riscava, tornava a ouvi a mulher, sentia uma coceira. Tentei elaborar uma pergunta, tentei formar uma opinião, e nada! Pensava "cérebro preguiçoso, acho que emburreci... foi de tanto procrastinar, só pode". Quando terminou a palestra e eu me senti muito mal por me sentir aliviada (como quando terminava a aula na 6ª série) abriu-se para as perguntas e meu desespero aumentou, as pessoas se interessavam e faziam perguntas e se entendiam! Eu olhava para um, conseguia distinguir uma frase ou outra, mas parecia que falavam coreano.

Para o meu enorme alívio, minha amiga, que parece ter uma linha de raciocínio um pouco semelhante a minha me cutucou e falou: "Você também não acha que isso está muito coisificado?" 79 quilos sublimaram de meus ombros naquele exato instante. Apesar de não saber bem o que ela quis dizer com "coisificado". Respondi feliz que sim, e clamei para ela "fala com a moça, faz uma pergunta" tipo traz essa galera para onde eu possa alcançá-los. Ela me olhou com cara de reticências e eu falei "não dá nem para elaborar pergunta, né?!".

A ideia é a seguinte identifica-se o serviço ambiental de um determinado bioma, diagnostica as ameaças ou o motivo de degradação, e intervém monetariamente sobre essa ameaça. Ela deu um exemplo muito infeliz de um proprietário que cria gado, e não respeita a APP, prejudicando assim o recurso hídrico. Então, o governo paga para que ele cumpra a lei, cerque a área, replante e pode até pagar pelo que ele deixou de produzir! Putz, isso nem no meu maior pesadelo parece uma boa ideia. Jura por Deus que aquela mulher estava falando com esperanças e que nós estávamos numa sala debatendo esse assunto? Que por sinal é Projeto de Lei...

Eu ainda tentei num ato de desespero mostrar o que estava se passando comigo naquele instante. Enquanto eles debatiam que ainda precisava definir de onde sairia essa verba, um dizia "do fundo de meio ambiente", outro dizia "dos royalties", eu me contorcia. E me expressei mal quando disse, meio berrando enquanto meu coração fazia o favor de mandar todo meu sangue para minha fuça, "os beneficiados deveriam pagar, a indústria leiteira, ou no exemplo que o amigo deu que o porto pagaria para amenizar o assoreamento na bacia... o..." eu ia continuar meu argumento quando a mulher me cortou e disse "eu vou falar sobre isso". Sobre o exemplo, mas o que eu gostaria de dizer é que isso só pode fazer algum sentido quando se encontrar a causa da pressão. O camarada não planta fumo para vender na feira, ele planta para alimentar a indústria do tabaco. A multinacional Suíça (Nestlé) exerce muita influencia e pressão nos pequenos produtores. Então, como é que o governo vai pagar (continuar pagando) para uma pressão que não é nossa (nós aqui somos os pagadores de imposto)? Que se cobrasse uma taxa de serviços ambientais sobre as indústrias que geram essa pressão.

Ai, minha filha, mas daí fica muito caro produzir. Eles já tem que pagar tanto imposto, tanta taxa...

Ué, como caro? Fica o preço real. Se internalizar custos torna um modo de produção inviável é porque ela JÁ É inviável. Assim, como os subsídios fantasiam um lucro irreal na pesca. Assim, como se a levis resolver internalizar o custo de despoluição, pagar salários justos, respeitar direitos humanos ela quebra!

Ok, querida, mas e se esse modo é inviável vamos ter que parar de tomar leite? Parar de usar calça jeans?

Bem, essa opção me parece mais adequada do que seguir explorando mão de obra escrava, cuspindo no termo "direitos humanos" em busca do país mais miserável (ou de tornar um país miserável) para levar a grande oportunidade da vida deles de trabalharem como escravos (isso é gerar emprego), seguir poluindo e contaminando. Maaas... penso que não chegamos "tão longe" em termos tecnológicos para termos que voltar a andar nus, e investir todo nosso tempo cultivando nosso próprio alimento. Penso que podemos encontrar uma outra alternativa para isso. Não travestir o velho de novo.

Mas, para tornar viável a elaboração e execução dessa alternativa temos que nos dar conta de que esse desenho de sociedade é insustentável. E que nada vai mudar isso, pode inventar a lei que for, pagar o quanto quiser, valorar o que for. Enquanto os verdadeiros poluidores seguirem inatingíveis nada vai mudar de fato e vamos ficar só tapando buraco, e para cada buraco tapado abre-se mais 10.

Se tem uma sugestão de pós-capitalismo que eu gosto é o do Projeto Venus.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Panaceia utópica.

Sabemos claramente que estamos nesse exato momento enfrentando uma grave crise sem precedentes. Não é apenas uma crise econômica, social ou cultural. Conseguimos superar essas misérias que assolam populações a milênios e chegamos ao cúmulo de uma crise ambiental global. Imagino que não hajam muitos céticos que neguem o quão tenebroso está o cenário atual. Ou há?

Será necessário mostrar fotos do smog monstruoso que ocorreu na China essa semana?
Fonte: BBC-Uk
Ou as matérias sobre os níveis alarmantes de radiação na Califórnia graças ao vazamento de Fukushima? Será preciso dizer da poluição aquática, atmosférica, ou do solo graças ao volume absurdo de agrotóxico que as plantações geneticamente modificadas exigem? Será preciso um vídeo mostrando albatrozes numa ilha longínqua morrendo pela ingestão de plástico?

Sem falar sobre o que estamos fazendo nossas crianças se tornarem. Isso é, como estamos vivendo nossas vidas, com base no consumo, no status, na busca cega pelo ter. No desenvolvimento tecnológico que gere lucro, e sirva para aumentar o consumo, ou você pensa que os óculos Google vão te tornar um ser humano melhor? Ou pior, a tecnologia na busca do aumento de controle, a serviço do desenvolvimento bélico. Muros altos, com cerca elétrica, para proteger o que exerce influência graças ao seu poder de consumo da escória, que não consome e nem tem acesso à informação, cultura, educação, saúde.

Nossa sociedade está em crise, por mais que você esteja muito contente por ter conseguido comprar algo que você queria e assim, não precisa pensar na crise. Por mais que você esteja encantado com sua pesquisa, com seu novo trabalho, namorado. Por mais que você esteja nesse exato momento muito feliz, nós estamos em crise, num mundo doido, com regras que não merecem ser cumpridas.

E como resolver esse pepino? Seria investindo na educação? Você considera a educação na Alemanha boa? Então que tal dar uma olhadinha no documentário O Pesadelo de Darwin e ver da onde vem o peixe que a população bem educada consome. Seria criando leis de comércio justo, leis anticorrupção, ou medidas que limitassem o lucro, dividindo o dinheiro entre todos. Será que isso realmente funcionaria?

Desconfio que não. O sistema econômico é baseado em dívida e escassez. Algo se torna mais valioso quanto menos pessoas tiverem acesso a ele. A escassez aflora as mazelas dos animais, precisamos garantir o que é "nosso", nos tornamos agressivos, competitivos, insensíveis, egoístas. Sim, algumas pessoas não, mas são poucas, em comparação com as demais. Isso gera um modo de pensar, comportar e sentir que acaba acarretando todos os outros problemas, desigualdade, injustiça, preconceito, poluição, depressão, altos índices de suicídio, violência.

Meu professor, o mentor do meu curso de mestrado, tem uma matéria muito legal em que ele indica artigos de gerenciamento costeiro e debatemos. Ele, eu diria, tem fé no sistema, acredita em leis, em programas, e projetos para ir melhorando realidades. Sempre tendemos a ir fundo no problema de cada artigo, e ele tem que reconduzir a conversa, porque sempre chegamos no mesmo poço sem fundo "economicismo". O sistema monetário é um grande problema.

Isso eu já desconfiava antes de entrar no mestrado, foi por isso que colei numa guru da economia para pedir orientação. Acreditava eu que "internalizando" custos, tornando empresas verdes, tornando a Economia Verde chegaríamos a uma solução. O que fui encontrando pelo caminho me desiludiu muito, não existe empresa verde (talvez algumas poucas exceções) mas a maioria pratica o greenwashing para vender mais (algo nada sustentável) nenhuma empresa vai fazer uma campanha para que você compre menos. A certificação ambiental parece ser mais um modo de o dinheiro escapulir dos países pobres para se concentrar na sede das benevolentes ONGs que desenvolveram o marketing.

Conclusão, essa economia tem que mudar, não se adaptar feito um camaleão devorador de almas. Porque temos fronteiras? Fazendo com que gastemos fortunas com exércitos, marinha, aeronáutica, guerras infindáveis. O que faz com que países influentes e experientes nessas regras de merda suguem o recurso dos outros, desde o seu "descobrimento". Sendo que somos todos seres da mesma espécie...

Não podemos ter fronteira se quisermos de fato nos desenvolver como seres humanos. E nem podemos perder tempo e energia buscando comida (trabalhando incessantemente para garantir o passaporte para alimentação), razão tinha o Fernão Capelo Gaivota. Já produzimos alimento capaz de alimentar 12 bilhões de pessoas (estamos em 7 sendo que agora acaba de morrer um de fome, enquanto outros milhões estão subnutridos). Temos tecnologia o suficiente para abolir a maioria dos empregos entediantes e pesados.

E se não houvessem fronteiras? E se não houvesse dinheiro, e o alimento, e bens produzidos com alta tecnologia estivesse acessível a todos? E se a economia fosse baseada em recursos? E se todos tivessem moradia, acesso a saúde e a temas culturais diversos que lhe interessassem? E tempo livre para desenvolver habilidades e contribuir no progresso cultural?

E se eu te dizer que esse mundo já tem até maquete?
Acesse http://thevenusproject.com/ e comece a pensar como seria o mundo se a tecnologia estivesse a serviço de todos os seres humanos.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Mendigando nossa própria riqueza

Um artigo me chocou. Trata-se da gestão de uma Área de Proteção Ambiental nas Filipinas, mais especificamente em Apo Island. A área foi estipulada porque o coral estava em perigo e a pesca diminuindo, e então a comunidade local com auxilio inicial da universidade criou algumas regras para proteger o ecossistema, estipulou-se um comitê e a gestão era feita pela própria comunidade, o coral se recuperou e a pesca voltou a ser abundante, tornando esse modelo de gestão uma referência mundial. O que pode ser confirmado nesse e nesse vídeo. Até que, entrando na moda e obedecendo sugestão da ONU o país estabeleceu um Plano Nacional Integrado de Áreas Protegidas. E assim, a gestão dessas áreas passou a ser realizada pelo poder federal.

O processo aconteceu repentinamente sem o consenso da comunidade. Os poucos que "participaram" do processo não compreenderam muito bem, uma vez que esse foi feito em inglês e não no idioma local. Esse novo modelo de gestão desconsidera totalmente a opinião da população, prioriza o turismo e não realiza nenhuma melhoria social. Mas trouxe algo de bom! Gerou "emprego". "Women t-shirt sellers said that they had started selling t-shirts to supplement their husbands’decreasing incomes from fishing." (vendedoras de camiseta disseram que passaram a vender camiseta para complementar a queda do rendimento na pescaria de seus maridos). Uau, nada como crescer na vida, arranjar um job e poder vender camisetas, talvez possam até tomar coca-cola.

Antes o recurso usado para a gestão da área protegida era oriundo de doações dos ilhéus. Agora advém de taxas e multas, sendo portanto um valor consideravelmente maior! É uma pena que esse recurso tenha que ir primeiro ao governo federal, para depois teoricamente retornar a fração que cabe a ilha, 75%. O "teoricamente" não foi posto como figura de linguagem, o dinheiro demora meses para retornar e só depois de muita insistência o que causa uma estranha sensação nos ilhéus "the people of the island feel the agony of being slaves and beggar[s] of their own money and resources." (o povo da ilha sente a agonia de serem escravos e mendigos de seu próprio dinheiro e recurso).

Essa sensação estranha não é exclusividade deles. Eu peço que você assista a esse pesado documentário O Pesadelo de Darwin. É absurdamente triste e vai te dar vontade de vomitar, mas mostra tantas facetas de nossa sociedade que deve ser assistido, faça uma prece depois para a Tanzânia. Mostra como de alguma maneira surreal os africanos exportam todo seu recurso, inclusive o maldito peixe que é muito apreciado na europa, enquanto a população literalmente morre de fome e vive na miséria absoluta. A quantidade de peixe extraída seria suficiente para alimentar 2.000.000 de pessoas, mas é exportada em aviões que chegam vazios ou carregados de armas que sustentam as guerras mais sangrentas do mundo. A ONU, mais especificamente a FAO se preocupa muito com a questão, e em jornais e noticiários locais é dito que esta tem buscado auxílio, procurando juntar 17 mi dólares para fornecer ajuda humanitária. Uma vez que devido a falta de chuva a fome se agrava. Eu posso estar enganada, mas nessa troca (vender armas e comprar peixe barato para revender caro) a europa deve lucrar muito mais que 17 mi dólares e ainda ficar com um big fish.

E se você acha que mendigar pelo próprio recurso é algo exclusivo das Filipinas ou da Tanzânia, so sorry, mas temos o privilégio de estar na mesmíssima canoa furada. Esse videozinho é bem curtinho e ilustra um pouco o drama. 200 anos atrás os países mais ricos possuíam 3x mais riqueza, hoje são 80x mais ricos. Isso porque, apesar da gentileza com que eles oferecem um auxílio de 130 bilhões de dólares, suas multinacionais lucram mais de 900 bi dólares nas negociações esquisitas como o caso da perca do nilo, ou exploração de pré-sal, ou ainda com a realização de megaeventos como a copa. Sem esquecer que existe uma dívida a ser paga, o que transporta 600 bi dólares de países subdesenvolvidos aos "desenvolvidos". O que pode ser confirmado no Orçamento Geral da União, que destina 42% de seu montante para juros e amortização da dívida. Ademais, existe um lucro com a utilização de subempregos, ou de "escravos que mendigam seu próprio recurso".

Eu não pretendo nem de longe alimentar xenofobias, ou qualquer tensão entre "nórdicos" e "tupiniquins". Mesmo porque conversando e fuxicando no face eu sei que a coisa tão pouco está legal na Europa, muito embora longe de se aproximar do melhor dos sonhos dos africanos retratados no documentário, a saúde para a população tem deixado a desejar e cortes na educação vem sendo realizados. Porque também por lá uns oprimem aos demais.


segunda-feira, 2 de setembro de 2013

o preço de tudo

Eu simplesmente me choco ao ler matérias assim:

Estadão, 02 de setembro de 2013.

Não sei se sou a única, se vivo numa realidade paralela... Se deveria achar normal e não ver problema algum. Mas, para mim essa matéria deixa claro o porque de termos universidades. Lucro! Totalmente desumano, cagando para evolução da humanidade, se lixando para qualidade de vida real.
E adivinha só para onde vai esse lucro? Gringa! 
Acesse os Financial Reports da Anahnguera.
Peraí, então para podermos viver (pagar impostos de casa, ou aluguel, comprarmos alimento, roupa, lazer, cultura, documentos) temos que ter um emprego, e tem várias empresas de capital estrangeiro "investindo" no Brasil, pois nosso país tem muita sorte e fez vários acordos para ter a divina dádiva de ter essas empresas instaladas aqui! Só que para vc trabalhar na Bunge (ou onde quer que seja) tens que ter um curso superior, porque é impossível identificar um problema e resolve-lo ou analisar e melhor algo sem dominar os termos técnicos. 

Então, tu te matricula na Anhanguera, financiado pelo governo. E esse dinheiro evapora do país, sem deixar NENHUMA melhoria... Ele se materializa na forma de um Iate no Catar (isso é o ápice da insustentabilidade)

Mas, parte dos alimentos e fertilizantes produzidos na Bunge são exportados! Eba, todos ficamos muito felizes pelo Brasil crescer tanto como exportador e deixar uma balança comercial favorável! 

O país está melhorando, o sistema é maravilhoso, pois permite que todos tenham acesso a ensino "superior", e "melhorem" de vida. Ah, o capitalismo e a globalização, em plena democracia, o que seria de nós sem vocês?!

Todos com uma televisão, muitos com um carrinho na garagem, emprego, e curso superior! É um sucesso! não poderíamos querer mais nada. 

E o bom, quando você tiver câncer, graças a poluição da água, ar, solo, alimento industrializado (preciso dizer que a matriz da industria de alimento não é aqui, e nem nos oferece contrapartida?), estresse, sedentarismo, o tratamento vai ser pago pelo convênio (ou governo), e o lucro do tratamento também é calculado. Quanto mais tempo doente sem morrer, melhor para os negócios (não seu, claro). E esse lucro vai para onde e se transforma em que? Algo me diz que vai para o mesmo ralo das outras atividades.

E essa é a situação dos que tem sorte, muita sorte, e por isso todos os dias fazem uma prece para agradecer sua condição... Por isso temos a "sorte" de termos a Bunge, entre outros, aqui, para gerar emprego (ou criar problemas para vender soluções).

Pra resumir:
Subversão anárquica, a luz no fim do túnel.

ps.: não estou conseguindo comentar. mas olha o que soube hoje (27/11) esse grupo comprou a FMU... link aqui, bom assim, heim?! um monopólio educacional... ah, é claro que o maior interesse é formar cidadãos críticos e conscientes... óbvio. o lucro é apenas o resultado de se fazer o que gosta com amor e dedicação... (sqn)

Fonte: Página World Riot no face.



quarta-feira, 24 de julho de 2013

Péssimo e ultrapassado Paradigma

Algo me deixou bastante reflexiva na noite fria dessa segunda-feira.

Fui à pré-conferência do meio ambiente de minha cidade. O tema era Unidade de Conservação e uso do território. Não sei porque motivo sou bastante simpática a atual secretária de meio ambiente, acho que é porque trabalhei com o secretário adjunto e nutro bons sentimentos em relação à ele. mas

Logo na abertura do diálogo a secretária informou que este é um assunto de extrema importância, pois, sem o plano das unidades de conservação o município não pode receber a compensação dos grandes empreendimentos que estão a ocorrer na cidade...

Parece que recebi um certeiro e deprimente soco na boca do estômago.

Quer dizer que numa sala que reunia mais ou menos informalmente pessoas simpáticas a causa ambiental, a secretária do meio ambiente precisa desse argumento?
É só para isso que existimos? Garantir o interesse econômico? Todas nossas conversas e valores se pautam em quanto isso vai ser bom para os negócios. Esse é o único argumento lógico e plausível de qualquer discussão que se preste? Temos desesperadamente que aproveitar a oportunidade de recebermos a tal compensação?!

Bem, eu entendo que deve-se usar esse argumento numa conversa com um governador ignorante e alienado (ambientalmente falando). Mas, num evento de cunho ambiental?! Me parece um triste retrocesso. E me fez questionar a validade de tudo aquilo. Porque eu estava me sentindo tão idiota, e pq me parecia tudo tão inútil e desnecessário?! Acho que talvez seja porque quem tem o poder mesmo de decidir onde, como e porque serão as unidades de conservação e como será o uso do território não iria nem tomar conhecimento de tudo o que disséssemos. Ou porque é tudo inútil mesmo.

Cada vez mais tenho a sensação de que quanto mais se regula mais se atrapalha e se puxa pro lado do mais forte. E que se envolver nisso é alimentar esse processo. Afinal "a boa intenção é o pavimento da estrada para o inferno". Cada vez mais desacredito em toda e qualquer forma institucional de organizar uma sociedade. Não encontro em NENHUMA instituição algo que me faça acreditar.

Agências reguladoras, fiscais, investigação, ministério público, tantas e tantas coisas vamos criando para rotacionar envolta dos grandes empreendimentos. Os quais se tornaram nossa razão de existir. A razão do Estado e da população. Vivemos ao redor deles, para regulamentá-los, para controlá-los, para servirmos à eles e deles. Nisso se resume nossa rica existência. Os que não tem emprego morrem de fome, os que tem assistem sua degradação moral e espiritual porque são impelidos a trabalhar alucinadamente e acreditar que nisso reside toda sua dignidade, e há ainda o medo de não ter a sorte de ter esse emprego.

E não tem limites. Penso que agora que os ecossistemas marinhos estão detonados, isso é o estoque pesqueiro é cada vez menos viável, vai haver fim. Que nada, cria-se a aquacultura e privatiza-se os peixes. O mesmo com o sol, dado que a Espanha pretende multar os indivíduos que se aproveitarem do sol para diminuir sua conta elétrica. Quem se lembra que na Bolívia houve revolta quando o governo proibiu o uso de água da chuva? E quem sabe que o governo de São Paulo cobra a mais de quem usa água da chuva? É por causa do tratamento de esgoto! Mas, eu uso para regar o jardim... =/ Os solos ricos tem dono, aqueles que nunca pisaram em solo nenhum e estão se empenhando arduamente em deixá-los pobre. Tudo privatizado (mesmo que seja para o Estado, se não é público é privado) e quem não puder pagar vai ter o privilégio de viver de caridade, - ai que lindo, como são boas as almas que doam e não questionam, - ou farão o favor de morrer de fome. E claro, lembrando que os que morrem de fome, nesse minuto que eu escrevo, são vagabundos que só ficaram reclamando do sistema porque tem preguiça de trabalhar, e só reclamam porque tem inveja dos ricos... sim, eu li isso hoje...
Meus amigos, pelo amor de Cristo. olha e vê. que bosta de vida estamos levando? Queria que uma criatura me dissesse que está perfeitamente feliz fazendo o que faz e como faz! E vivendo na sociedade como está.

Não, não precisamos de unidades de conservação para ganharmos compensação das empresas. Precisamos porque se não passam por cima de tudo, aterram e impermeabilizam todos os banhados, e quando a cidade inundar varrendo barracos, virão oferecer um lindo sistema inovador de drenagem, com tecnologia alemã, para um problema que não teríamos! E esse sistema vai custar o dobro do preço devido desvios realizado por pessoas que são pagas para não desviar, e que são vigiadas por todo um intrincado esquema de agências e órgãos que buscam garantir que não se desvie e que haja processo caso desviem. E tudo isso com impostos?!

Para onde estamos caminhando? Para onde esse caminho está nos levando? Onde estão as árvores frutíferas que alimentam de graça, sem inflação?

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Carga horária excessiva

Sempre fico assustada quando reparo o quanto meus cunhados trabalham. Em São Paulo é assim, se você não faz tem quem faça. As jornadas de trabalho extrapolam o limite da razão e é comum um trabalhador chegar do trabalho na madrugada, se sujeitando a sequestros (não é sensacionalismo meu, é um fato que ocorreu). Lembro de ter ouvido um professor comentar que hoje trabalha-se mais do que no período feudal. Acho que eles nem recebem hora extra para isso, mas o salário compensa, foi o que me disse minha irmã.

Mesmo em casos normais, me parece uma jornada de oito horas algo bastante excessivo. A principio tenho receio de defender essa posição e parecer meio folgada. Mas, tenho a possibilidade de auto-controlar minha "jornada de trabalho" no mestrado e percebo que nas semanas que me puxo, chego em casa sem vontade de fazer nada, chego a assistir televisão e comer um lanche. Quando chego mais cedo, cozinho, ponho uma música, me aprofundo em temas políticos, consigo ler um livro e debater ideias com meu companheiro, dá até para passear com os cachorros. Se tivesse cumprido uma jornada de quatro horas, com a tarde toda livre, nossa! Teria tempo e disposição para cuidar da horta, planejar movimentos sociais, realizar trabalhos voluntários, aprender um dote artístico, meditar, enfim, desfrutar e contribuir. Pude aliviar a impressão de "folgada"?

Vim pensando muito nisso. A ponto de imaginar que o desemprego seria muito suavizado com a redução da carga horária, e encontrei inclusive um post de um economista (link) do estadão sobre como a adoção dessa jornada reduzida tem gerado impactos positivos na Alemanha, no lugar de medidas de austeridade para contornar a crise. Acho que no Brasil é dispendioso contratar mais pessoas por menos tempo por ficar a cargo do patrão pesados encargos tributários, o que poderia ser estudado uma forma de dividir isso com o estado, por exemplo garantindo saúde de qualidade a todos não haveria a necessidade de planos de saúde.

Jornadas excessivas são extremamente negativas para o meio ambiente. Como eu disse, com mais tempo livre poderíamos nos inteirar mais e em maior profundidade sobre os assuntos, como a crise ambiental e poderíamos nos identificar com causas que preenchesse nossa vida de sentido e nos levasse a atuar. Pois como dá para notar nesse vídeo muito interessante (link) o que nos motiva mais do que dinheiro é uma causa na qual acreditemos, e a liberdade para atuar nela. No relatório "o estado do mundo" (não me lembro o ano, vale a pena ler todos), o autor sustenta que longas jornadas estão associadas a hábitos menos ambientais e mais fast, usar secadora invés de estender roupa no varal, consumir comidas prontas, aliás consumir tudo, pois gera o que se necessita, um prazer fast e imediato.

Outro ponto a favor do meio período é que o trafego seria menos intenso no horário de pico. Digo inclusive a respeito do transporte público, ficaria menos abarrotado, poderia se usar a bicicleta, com mais tempo. Permitiria uma relação mais próxima de pais e filhos, proporcionando a educação (aquela educação de valores, que os pais passam para a escola a escola rebate para as babás, as babás não sabem o que dizer e a criança se educa sozinha sem orientação), prática de esportes e hábitos mais saudáveis.

No início da revolução industrial a tecnologia parecia vir a simbolizar a diminuição da carga horária e de fato em alguns momentos na Europa fez isso, mas os prêmios em hora extra pareceram se tornar mais interessantes ao longo do tempo. E vendeu-se o tempo livre, a possibilidade de se desenvolver como ser humano, para empresas que não pararam de crescer e aumentar sua produção. Até o ponto em que nos encontramos atualmente. Não houve movimento social capaz de reduzir a marcha, mas, o limite físico parece ser capaz de fazer isso. Não dá para aumentar a produção e não queremos que ela aumente.

Enfim, imagino que um dos pontos essenciais para o alcance da sustentabilidade, e do qual não ouço falar é a redução da jornada de trabalho e utilização adequada do tempo livre. Não dá para separar questão ambiental, de política, de social, de economia, de psicologia, a mudança de um depende e gera mudança em outro. E ao que tudo indica ações ecológicas, sustentáveis exigem mudanças profundas em todos os setores, e são mudanças meus amigos, extremamente positivas e valiosas. Não há a menor razão em temer ou elaborar artimanhas esquizofrênicas para evitar um decrescimento econômico, isso só nos levará a um colapso ambiental, que é ligeiramente mais catastrófico pois sai totalmente de qualquer controle humano.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Montadoras opressoras, motoristas oprimidos.

Eis que sai no jornal de hoje que um Termo Aditivo duvidoso prorroga o contrato da empresa que administra o pedágio Rio Grande - Pelotas (ecosul, não sei a que se refere o termo "eco" aqui empregado). O contrato que venceria nesse 24 de julho foi prorrogado para 2026 (link da matéria). É o absurdo dos absurdos. Alguns vereadores estão se mobilizando para redigirem um texto-denuncia (não tenho ideia do que seria isso, legalmente) para mandar para a presidente, pautado no fato de a medida ser contrária à Lei de Licitações.

Para ser extremamente sincera. Eu sou a favor da taxação sobre veículos, sou a favor de pedágios, inclusive intramunicipais, sou a favor de um taxação alta na gasolina, sou a favor de sabermos o valor real das coisas e arcarmos com ele, Desde que, esse capital seja investido em alternativas, em trens, ciclovias, "ciclopontos", transporte coletivo, desenvolvimento de novos motores, etc. e desde que as indústrias internalizem seus custos.

Congestionamento de 10 vias em S. Paulo

Não há sentido na duplicação, triplicação (etc) de vias, nunca se dará conta do fluxo, uma vez que as vendas de carro só aumentam. Nada me revolta mais do que essa redução ridícula do IPI (prorrogada até junho de 2013 - link). É óbvio que esse dinheiro faz falta no orçamento público. As montadoras (veja, montadoras, porque a sede que fica com o dinheiro não está aqui) já tem inúmeros subsídios ao externalizarem para o poder público seus gastos mais pesados. Fazem carros potentes para andar em estradas de limite de velocidade máximo de 110 Km/h. Estradas essas construídas e mantidas pelo poder público, apesar de pedageadas. Quando há um acidente, um entre os 1.000.000 que ocorrem ao ano, quem arca com o prejuízo é a população e o estado, não é dona de pedágio nem montadora (no ano de 2010 ocorreram mais de 30.000 mortes registradas oficialmente, em até 72 hs depois do acidente - link). Aliás, é claro que o responsável é o motorista inconsequente, mal educado...

Transferência direta do capital (população > montadoras)
E as montadoras seguem prosperando, se bem que parece que as vendas aumentaram menos, estão pressionando o governo para liberar mais créditos, tipo "minha casa minha vida". E os deputados misteriosamente concordam! Afinal, grandes empresas representam a prosperidade do país devem ser estimuladas a continuarem na pátria amada, correto? Elas criam emprego, fazem circular o capital, deveríamos agradecer pela generosidade de elas se instalarem aqui, é o progresso.

A qualidade do ar em São Paulo, e em grandes cidades é nojenta. Mas, existe uma solução mágica na cartola, olha só que legal, um sistema de inspeção veicular para que nenhum carro polua mais que o necessário, o "control.ar". Colegas, não houve 1 nem 2, mas inúmeros casos de carro zero ser reprovado na inspeção, que por sinal é paga pelo cidadão. Esse control-ar não é uma política que visa a diminuição da compra de carros, uma vez que o IPI está reduzido e os créditos facilitados, e o transporte público caro, lotado, demorado, fedido, perigoso e não há ciclovias, e especula-se redução de imposto sobre combustíveis. Sem entrar no mérito de que a empresa Controlar seja mais suja e nojenta do que o próprio ar (link 1 e 2) e voltando à responsabilização das montadoras, convenhamos, se o carro polui mais do que o aceitável,  poque deixou ser produzido e vendido? É um carro zero! Não foi desleixo do proprietário na hora da revisão.

Lobismo presente em todos os governos.
Até quando haverá esse protecionismo à mega empresas?! Elas ficam com o bônus, o estado fica se comendo internamente, e a população com o ônus, e o pior, com a "culpa" do ônus. Ao meu ver o lobby é a pior forma de corrupção, e a mais arraigada em todos os sistemas políticos.
E é algo extremamente complexo e difícil de modificar.


Ao que parece Marina Silva tem tentado arranjar um modo de alterar esse sistema, por meio de seu partido denominado #rede (link). Eu não li o estatuto, embora esteja morrendo de vontade. Pelo que vi na entrevista dela no Roda Viva (link) uma das inovações é proibir que os candidatos recebam grandes montantes para sua campanha eleitoral, onde via de regra nasce o futuro lobista, ao contrário deverão haver diversos contribuidores com pequeno montante. E também assegurar que os eleitores acompanhem seus candidatos e participem de suas ações, usando o artifício da internet! Me encantei com a proposta, embora confesse estar um pouquinho cética, pois parece que sempre se encontra uma brecha para corromper o sistema, e é fácil torcer o nariz quando se fala em criar mais partidos do que já temo. No entanto, é complicado uma revolução total, acho que esse é o caminho, o PT quando sua criação objetivava grandes aspirações e conquistou muita coisa, o Brasil está mais humanista e menos elitista, mas parece que o PT já fez sua parte e começa a se acomodar e encostar, parece já estar meio enrolado e desgastado. O que foi aprendido com o PT pela M. Silva, e a sua experiência de como este se corrompeu, a identificação de suas fragilidades e tal pode ser incorporado nessa nova proposta, difícil garantir, mas é tentando que se consegue!