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quarta-feira, 22 de abril de 2015

A gaiola de ouro

- Temos liberdades diferentes. Sua selvageria agora é prisão. Você diz que busca liberdade, mas é incapaz de ver que talvez seja eu mais livre que você. Enquanto geme por igualdade e justiça se priva de usufruir privilégios. Deixe aos que precisam a luta. Quando você toma uma voz ela se cala. A gaiola de ouro prende os idealistas fora do conforto. A brilhante gaiola da liberdade fabricada. Essa em que você orgulhosamente se recusa a entrar. Na corrente dos ideais humanistas, na busca obcecada pela verdade. Eu, livre do conceito de bem comum aproveito os serviços e favores, os prazeres e recursos. Livre que sou para comprar. Comprar coisas e pessoas, paisagens e confortos, compro e consumo, e pago a vista ou parcelado. E como, degusto e saboreio vidas sorrindo, pois sou livre da compaixão. Livre da dor que sentes na contemplação de olhos tristes. Sua dor para mim é poesia. Que eu compro e consumo. A maldade está em ti que me julgas de um altar ético e moral. Eu sou livre para ter sabor e prazer onde você enxerga opressão, injustiça e sofrimento. Me regozijo com isso e assim continuarei. Não venha por em mim suas algemas, pois eu não me importo com os que sofrem, nem que seja você, meu bem.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

O direito de matar

Eis que me deparo com esse inquietante post:
Pensei, curti, descurti, naveguei um pouco, voltei e curti, aí eu descurti, aí eu passei um tempão pensando nisso, no que eu tinha sentido, o que eu realmente pensava.

Sou vegetariana, simpática ao veganismo. Mas, evito o máximo possível doutrinar os outros. As vezes não resisto de me expressar, esses dias a irmã de uma amiga disse (sem muita convicção) que tinha parado de comer carne, não resisti em expressar meu apoio "isso ai, bate aqui". De todo modo, essa é uma conversa que eu evito iniciar e me policio em participar. Pq é chato ter alguém palpitando em algo tão individual, como o que se come. É como o sermão do cigarro. A plantação de tabaco é uma monocultura, expulsa o camponês, altamente tóxica, usa e abusa de subemprego, adiciona-se um monte de veneno e causa um monte de doença, fede, a bituca fica pela rua etc. Mas, parar de fumar é uma decisão que só cabe ao fumante. Ainda que a monocultura de fumo afete a todas as espécies. Então, mesmo que se tenha o direito de fumar, existe a necessidade do debate sobre isso.

O que me incomodou no post, que não consegui curtir foi a comparação escravos/judeus/mulheres/animais. Faz pouco tempo que resolvi parar de comparar a humanidade a animais, sério eu tinha esse hábito de sempre que tinha alguma dúvida pegar um exemplo animal. Cuidado parental, por exemplo. Porque romanticamente eles parecem estar mais "conectados a sábia mãe natureza". E então, animais vivem livres, as aves são admiravelmente anarquistas, ai como os admiro. Só que de algum modo existe uma diferença crucial entre os animais em geral e animais humanos. A consciência de si (tenha sido isso uma evolução ou um erro), o uso da escrita, a busca eterna por conforto, sei lá, algo nos distingue. E mesmo que possamos aprender muito com os mais diversos e admiráveis animais, ainda é ofensivo chamar um ser humano de macaco. Comparar os grupos humanos historicamente inferiorizados com animais foi uma estratégia um tanto infeliz.

Outra ideia implícita que me impediu de curtir foi uma sugestão de linearidade e evolução da luta. Do tipo: conseguimos a libertação dos escravos, salvamos os judeus, e as mulheres tem uma delegacia especifica, agora no nosso mundo cor de rosa podemos nos ater as vaquinhas. Bem, dizer que superamos a escravidão é muito ingênuo, ainda existem relações de trabalho claramente escravagistas e outras não tão claras pelo simples fato de não haver uma prisão física, mas muita gente, em sua maioria negros, trabalham de manhã para comer a noite. Ainda existe perseguição religiosa e mulheres sofrem muita violência, não só física.

Agora, porque depois de descurtir eu tornava a curtir? Para mim é inegável que alguém se apegar ao seu hábito de comer carne a ponto de usar um argumento desse para não se questionar, soa como nos demais exemplos. Sou dono da fazenda e escravos são ótimos para mim, não quero me questionar, não quero mudar, só quero progredir e ser bem sucedido. Gosto de churrasco, e pensar no modo de produção, no impacto socioambiental e no sofrimento animal não me gera vantagens nem lucro, não quero mudar, fim de papo. Eu to bem assim e o resto que se lasque. Não tem uma semelhançazinha fascista pró satus quo, individualista e prepotente?

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

a injustiça está na mesa

Assistindo um dos filmes que eu mais gosto Violinista no Telhado, uma cena me chama a atenção. É quando o Tevye vai visitar o açougueiro, por pensar que ele quer comprar sua vaquinha leiteira, quando na verdade ele quer se casar com sua filha:
Impressionado com a casa luxuosa do açougueiro ele pergunta:
- E tudo isso por matar animais inocentes?

Pois, seu Zé, mas a injustiça do consumo de carne não para por aí. A cada dia tenho me tornado mais sensível à questões sociais, eu não sei que bicho me mordeu, que autor me norteou, que amigo me inspirou, que movimento social me cativou, ou se foi isso tudo junto e misturado, só sei que o que mais me tem doido é a injustiça social. E nesse ponto entra o que ultimamente mais me envolve no vegetarianismo (e encaminha para o veganismo). A questão social.

No caso, eu estenderia a compreensão do termo animais, acima para animais humanos. Afinal a agropecuária traz algumas belezas para admirarmos:
- expulsa famílias do campo, para viverem mau nas periferias das cidades (e a coisa não é tão simples quanto só oferecer um punhado de dinheiro por suas propriedades, é algo mais orquestrado como deixar a vida no campo o mais complicada possível, enquanto promete a infraestrutura da cidade e a educação dos filhos como salvação miraculosa - não é teoria da minha cabeça, é de Antonio Carlos Robert Moraes, 2007);
- concentra terras (e renda e poder e influência política);
- desmata florestas, pressiona terra indígena;
- usa água pra caramba (10.000l de água/Kg para produção de leite, de 20.000 a 50.000l de água/ Kg de carne, podendo ser o dobro em clima tropical, fonte) que poderia estar sendo usada para fins mais sociais;
- e principalmente, para quem e para que é produzida essa carne? Não tenho fontes oficiais mas, possivelmente a quantidade de vegetais utilizada na alimentação de bovinos seria suficiente para alimentar todos os 7 bilhões de pessoas que temos por aqui, nesse planeta!
A bancada ruralista é prova viva do que essa concentração de terras/renda/poder é capaz de fazer. É assustador ouvir discursos recheados de ódio que defendem guerra e sangue, tudo o que for necessário para proteger o que consideram "suas" terras de índios, quilombolas, e "tudo o que não presta". Na lógica de tais proprietários a demarcação indígena é uma grande injustiça, ao passo que a concentração de terras que inevitavelmente repercute na ampliação de desigualdades sociais é um modo legítimo e justo de viver, desde que a concentração seja na mão deles, não de índios, claro...



E nesse caso não seria igualmente injusto comer soja, ou qualquer item oriundo de monoculturas?
Sim, seria. Mas, a quantidade de soja usada na alimentação humana é bem menor, ainda que haja a absurda hipótese de todos substituírem a carne pela soja. No entanto, é um equívoco acreditar que só a soja é capaz de substituir a  proteína animal. Todas as leguminosas são ricas fontes proteicas. E oriundas da agricultura familiar, modelo que suporta cultivos orgânicos!



segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Vegetarianismo: dicas nutricionais

Nas férias em São Paulo, depois de receber diversas repreensões quanto ao meu novo hábito alimentar, tomei uma ótima decisão: me informar!

E fuxicando em uma das enormes livrarias encontrei um simpático e curto livro de capa verde "virei vegetariano, e agora?". O autor é um médico com pós em nutrição em universidade conceituada. Eba, era tudo o que eu precisava.

O livro todo é fantástico, parece um bate-papo, com o plus de trazer informações embasadas na ciência. O legal é a sensação de "uau, eu não sou uma aberração da natureza. existem pessoas que entendem, respeitam e apoiam os meus ideais." Claro, eu tenho a sorte de conviver com uma pessoa que entende, respeita e apoia meu ideal e hábito alimentar, mas não domina o assunto, por isso o livro me cativou e fez com que eu o devorasse.

Um dos motivos que me fez buscar informações confiáveis sobre vegetarianismo, foi o fato de minha irmã se mostrar extremamente preocupada comigo. Ela sempre se posicionou contra o vegetarianismo (o que é algo que não me faz o menor sentido, como alguém pode ser contra a um hábito absolutamente inofensivo?) e eu sempre a favor. Agora que eu havia me assumido vegetariana (leia-se ovolactovegetariana), o assunto ficou ainda mais sério e delicado. No quarto numa conversa íntima ela buscava me alertar, contando casos de mães que perdiam bebês por causa disso (eu preferi não informar que não pretendo ter bebê pela próxima década), me contou o caso de uma amiga pessoal dela que se tornou vegetariana e depois de alguns anos apresentou uma doença gravíssima, quase morreu, e que agora alerta todos os aspirantes a vegetarianos a não serem! Puxa vida, nesse caso, começo a me assustar. Pedi o e-mail da amiga e fui em busca de informação.

Eu sempre pensei, "mas que coisa, existem tantos indianos hindus, que vivem num dieta vegetariana". O próprio Gandhi (que agora na autobiografia vim a saber que viveu décadas como frugívoro - comendo apenas frutas e oleaginosas, 5 tipos por dia, para não causar problemas para seus anfitriões!). 

Eis que descubro no livro que ninguém morre nem fica doente por se tornar vegetariano. Pelo contrário, como se diminui consideravelmente a ingestão de gordura, reduz o nível de colesterol no sangue e pressão arterial, ocasionando a diminuição na propensão de doenças cardiovasculares (entre 20 e 30%); diminui o risco de apresentar diabetes; pedra na vesícula; câncer de próstata; câncer de intestino grosso (isso baseado em estudos científicos!). No livro não diz nada a respeito, mas eu particularmente me senti mais disposta e principalmente, reparei mudanças no meu humor, percebi menor tendência à irritação.

A melhor parte do livro foi dica para montar uma refeição equilibrada:
25% - hortaliça;
25% - cereal integral;
50% - ricos em proteína;
e uma fruta!
Perfect! Assim fica muito fácil monitorar uma dieta adequada. Um dos mitos que rondam os vegetarianos se refere à absorção de Ferro. Isso porque, o ferro presente na carne é o ferro heme, de fácil absorção, os vegetais possuem ferro não-heme, esse para ser adequadamente absorvido pelo organismo precisa da presença da vitamina C.

Quanto a vitamina B12, no meu caso não é problema, pois ainda ingiro leite e ovos. Fiquei um pouco assustada que veganos devem usar suplementos na veia dessa vitamina. Lendo a um outro artigo fui entender melhor o que acontece. Essa vitamina é sintetizada por uma certa bactéria, e animais costumam ter hábitos pouco higiênicos, eles lambem o rabo do outro, lambem o corpo, tomam água sem tratamento e acabam por ingerir a tal vitamina. Achei interessante, pois muda de figura não são os veganos que tem um hábito alimentar pouco natural, são nossos hábitos que estão menos naturais. Aliás, no livro do Gandhi ele não comenta nada de tomar suplementos de vitamina B12. 

E por fim, não posso deixar de dizer que mandei um e-mail para aquela amiga da minha irmã. Que me respondeu que de fato ela havia parado de comer carne, e no lugar das refeições comia doces... Mas, assim que normalizarem os níveis de nutrientes no sangue vai voltar a praticar o vegetarianismo, com um atenção especial!

Saiba mais: http://www.alimentacaosemcarne.com.br/

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Vegeteriana

Me desculpe, uso esse espaço para abordar esse tema que, por incrível que pareça, é extremamente delicado. Eu não quero te convencer a mudar de hábito, tão pouco quero criticar os seus costumes, gostaria apenas de relatar minha experiência e incentivar vc a desenvolver os seus valores e princípios e assumi-los.

Eu demorei alguns anos para assumir meu vegetarianismo, muito embora sempre tenha demonstrado inclinação. Costumava soltar esse assunto no ar para estudar a reação das pessoas, nas primeiras vezes se punham ferozmente contrárias. Com o passar dos anos, minha pesquisa de opinião começou a receber alguns sinais favoráveis. Sabe, sou constantemente vítima da necessidade de aceitação, eu não sei se você é assim, eu costumo fingir que não, mas antes de adotar uma postura eu estudo e faço uma projeção da possível reação dos que me cercam.

Mas, mesmo com alguns se pondo contrários ao vegetarianismo, mesmo sendo confortável me manter no status quo, me setia incomodada ao pensar em matadouros e granjas, principalmente. Então passei a evitar frango, acho interessante que algumas pessoas começam por abdicar da carne vermelha, deve ser por sentirem mais desconforto em ingerirem um mamífero. Para mim o incomodo maior é com as granjas, a ideia de inserir hormônios e incentivarem os animais a comerem 24 hs por dia me arrepia. O outro passo foi deixar de comprar carne, mesmo a sessão do supermercado que expõe bifes em bandejinhas me deixava desconfortável, a sorte minha foi que meu namorado compreendeu. Acho que por minha mudança ter sido sutil ele pode acompanhar, entender e até concordar.

Por fim, ao pegar uma balsa pude ver de perto um caminhão que carregava gado vivo, era sujo, fedido e escuro, os animais não tinham muito espaço, mugiam desconfortáveis, dos olhos de uma vaca escorria uma lágrima. Eu tirei uma foto, para me obrigar a não esquecer a sensação que aquela cena me despertou. Esses animais, provavelmente seriam exportados, vivos, porque todos os seres humanos apreciam um churrasco, sentimos prazer com o cheiro de carne assada.



Não tenho o hábito de meditar, embora queira muito, às vezes consigo, numa dessas vezes senti minha alma me clamando: ASSUMA-SE. A partir de então, me tornei vegetariana. Somando-se a isso, dou-lhes um argumento lógico, tão importante ainda nos dias atuais, oras, sendo eu uma ambientalista o impacto da pecuária extensiva é indiscutível, a pesca vem tornando estéril nossos oceanos...

É interessante, mesmo tendo toda a consciência da minha opção, mesmo me sentindo segura e confortável com meu novo hábito, eu fujo como o diabo da cruz desse assunto, procuro passar desapercebida num jantar, me assusta as críticas ferozes que as pessoas costumam fazer. Eu não sei porque alguém criticaria tão arduamente um hábito alimentar que visa a paz e harmonia entre os seres vivos, a minha teoria é que isso reflete o desconforto em que se encontra a consciência de quem critica. É como se a minha presença provasse a possibilidade da mudança que ela aspira e teme, não sei... Parece que tentam, mesmo sem eu solicitar, argumentar a favor de seus hábitos, e o fazem me criticando.

Só queria dividir publicamente a aflição que eu costumo sentir ao me assumir vegetariana, e pedir para que antes de criticarem um meçam as palavras. Eu costumo criticar muitas posturas, o consumismo principalmente, e não me policio muito na hora de expressar minha postura, mas devemos nos lembrar que o respeito a diversidade humana e o esforço para a boa convivência é unicamente o que de verdade importa.

Convido-o a se questionar e reavaliar seus hábitos, pode ser um pouco desconfortável de início, mas tenho certeza que o questionamento constante e reavaliado nos leva a sermos pessoas mais verdadeiras, plenas e boas.