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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

A Beleza


Quase não podia acreditar nos meus olhos. Era uma visão muito bonita. Estonteante. A mais bonita que já vi? E a água fresca, límpida, pura, pura, pura, que se movia num redemoinho perfeito. Precisei ficar muito tempo, paradinha, só absorvendo, vivendo. Toda aquela mata, as andorinhas brincando, rápidas, ágeis, livres. A visão do mar, a altura. O som! Nenhum pouco agressivo, não era uma cachoeira furiosa. A água fluía, escoando harmônica por uma rocha arredondada como um enorme elefante. Sem perigo, sem adrenalina, era espaço de ocitocina.

Estranho ter vivenciado isso e me sentir tão inquieta e irritadiça. Depois de um dia desses, com caminhada na mata eu deveria estar relaxada, desejando o repouso tranquilo. Mas não. Me mexia em casa, sem saber bem o que fazer. Tirava as coisas do lugar e tornava a por. Não queria papo. Tentei uma meditação guiada e por pouco não atiro o celular na parede, que chato. Yoga, e abre a pélvis e mexe que mexe, e deita levanta. E bufo. Deito na rede abro o livro, um capítulo parece uma tortura.

O que está acontecendo?

Não pude escapar de uma auto analise. Tive o dia mais maravilhoso que podia imaginar e porque me sinto assim?

Pensar que a cachoeira está lá com aquela beleza indescritível. E aqui, a cidade, essas ruas, essas paredes, esses tetos. São feios, feios, feios. Essas mulheres de revista, podem produzir o quanto for, cirurgia, artes plásticas, feias, feias, feias. Estou obcecada com a beleza daquele lugar. Sem lógica, sem plano, sem fibonacci obviamente visível. Quantos lugares não são assim e nunca verei, nunca viverei? Quantas águas fluem nas paisagens mais divinas e jamais porei meus pés para sentir sua temperatura, a brisa fresca e admirar a beleza. Real. Quantas outras não deram lugar a cidades feias, feias, feias. Por mais que houvesse alguma boa vontade com paisagismo e lagos. Quantos rios não viraram desertos verdes, de eucalipto e outras monoculturas feias, cercadas e feias.


Me incomoda não estar lá, não olhar aquele horizonte, não ouvir aquele som. Ver paredes, mesa, computador, ouvi motores acelerando, sentir um frescor falso do ar condicionado. Feios, chatos, claustrofóbicos, mentirosos, mortos e agressivos. Nesse momento, só de existirem me agridem.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

A problemática dos agrotóxicos

Tive acesso a esse texto do Lutzenberger em um livrinho "Manual de ecologia do jardim ao poder". O texto é de 1985, e como o autor trabalhou inicialmente representando "defensivos agrícolas" sabe do que está falando. Já sabemos que nossos alimentos estão lotados de agrotóxicos, mas sabemos muitas vezes através de um senso comum pouco embasado. Sabemos que monocultura com adubos químicos e venenos estão tornando solos estéreis, mas pouco é dito e aprofundado sobre a questão nos meios de comunicação.

Então, segue o texto, chocante e um tanto revoltante, na íntegra. Acredito que nesses 30 anos as mudanças ocorridas foram no sentido de aumentar ainda mais a dependência dos agricultores, o que para minha alma anárquica é um tanto desanimador, mas como a informação e ponto crucial do empoderamento lá vai:
(texto "roubartilhado" da Fundação Gaia, desse link aqui.)

A PROBLEMÁTICA DOS AGROTÓXICOS
José A. Lutzenberger, maio 1985

Como surgiu e proliferou a agroquímica? Interessante é notar que ela não foi desencadeada por pressão da agricultura. A grande indústria agroquímica que impõe seu paradigma à agricultura moderna é resultado do esforço bélico das duas grandes guerras mundiais, 1914-18 e 1939-45.

A primeira deu origem aos adubos nitrogenados solúveis de síntese. A Alemanha, isolada do salitre do Chile pelo bloqueio dos aliados para a fabricação, em grande escala, de explosivos, viu-se obrigada a fixar o nitrogênio do ar pelo processo Haber Bosch. Depois da guerra, as grandes instalações de síntese do amoníaco levaram a indústria química a procurar novos mercados. A agricultura se apresentou como mercado ideal.

Da mesma maneira, ao terminar a segunda das guerras mundiais, a agricultura surge, novamente, como mercado para desenvolvimentos que apareceram com intenções destrutivas, não construtivas.

A serviço do Ministério da Guerra, químicos das forças armadas americanas trabalhavam febrilmente na procura de substâncias que pudessem ser aplicadas de avião para destruir as colheitas dos inimigos. Outro grupo, igualmente interessado na devastação, antecipou-se a eles. Quando a primeira bomba atômica explodiu no Japão, no verão de 1945, viajava em direção ao Japão um barco americano com uma carga de fitocidas, então declarados como LN 8, LN 14, suficiente para destruir 30% das colheitas. Com a explosão das bombas, o Japão capitulou e o barco voltou. Mais tarde, na Guerra do Vietnã, estes mesmos venenos, com outros nomes, tais como "Agente Laranja" e agentes de outras cores, serviram para a destruição de dezenas de milhares de quilômetros quadrados de floresta e de colheitas. Da mesma maneira que os físicos que fizeram a bomba, para não ter que abolir as estruturas burocráticas das quais agora dependiam, propuseram o "uso pacífico" da energia nuclear, os químicos que conceberam aquela forma de guerra química, passaram a oferecer à agricultura seus venenos, agora chamados de herbecidas, do grupo ácido fenoxiacético, o 2, 4-D e o 2, 4, 5-T MCPA e outros.

Na Alemanha, entre os gases de guerra, concebidos para matar gente em massa, estavam certos derivados do ácido fosfórico. Felizmente, não foram usados em combate. Cada lado tinha medo demais dos venenos do outro. Após a guerra, existindo grandes estoques e grandes capacidades de produção, os químicos lembraram-se que o que mata gente também mata inseto. Surgiram e foram promovidos assim os inseticidas do grupo do Parathion.

Também o DDT, que só foi usado para matar insetos, surgiu na guerra. As tropas americanas, no Pacífico, sofriam muito com a malária. O dicloro-difenil-tricloroetil, conhecido há mais tempo, mas cujas qualidades inseticidas acabavam de ser descobertas, passou a ser produzido em grande escala e usado com total abandono, aplicava-se de avião em paisagens inteiras, tratava-se as pessoas com enxurradas de DDT. Depois da guerra, mais uma vez, a agricultura serviu para dar vazão aos enormes estoques sobrantes e para manter funcionando as grandes capacidades de produção que foram montadas.

O negócio dos pesticidas transformou –se num dos melhores e mais fáceis. Tão fácil quanto o negócio dos entorpecentes. Quanto mais se vendia, mais crescia a demanda. A situação atual se assemelha a uma conspiração muito bem bolada. Os mesmos grandes complexos industriais que induziram o agricultor a que desequilibrasse ou destruísse a microvida do solo com os sais solúveis concentrados, que são os adubos minerais sintéticos, oferecem, então, os "remédios" para curar os sintomas dos desequilíbrios causados. Estes remédios causam novos estragos e desequilíbrios, novos "remédios" são oferecidos e assim por diante.

Com o uso intensivo dos adubos químicos, a agricultura enveredou por um caminho inicialmente fácil e fascinante, pois era simples e trazia aumentos espetaculares de produtividade. Mas, a longo prazo, este caminho, como agora já se vislumbra, é um caminho suicida.

O desequilíbrio ou destruição da microvida do solo pelo abandono da adubação orgânica e alimentação direta da planta com os sais solúveis, assim como o uso intensivo dos herbicidas, tem como consequência o aumento da suscetibilidade às pragas e enfermidades. Surgem então os inseticidas, acaricidas, nematicidas, fungicidas e outros biocidas. Estes, por sua vez, levados ao solo pela chuva, contribuem para uma destruição ainda maior da microvida. Os organismos maiores do solo, como a minhoca, talvez o melhor aliado que o agricultor possa ter, desaparecem por completo de nossas lavouras, hortas e pomares modernos. Agindo diretamente sobre a planta, os pesticidas, venenos que são, contribuem ainda para desequilibrar o metabolismo da planta. Tudo isto aumenta ainda mais a suscetibilidade às pragas e doenças. Portanto, uso ainda mais intensivo dos venenos, sempre produzidos pelo mesmo complexo de indústrias. Para combater, então, as doenças causadas pelo envenenamento generalizado do ambiente e dos alimentos, as mesmas grandes fábricas oferecem os fármacos modernos...

E tudo se torna sempre mais caro. O agricultor, antes autárquico, que produzia com insumos obtidos em sua própria terra ou comunidade, tornou-se simples apêndice da grande indústria química e de maquinarias. A situação da agricultura americana, tão invejada pela sua grande produtividade, é significativa. A quase totalidade dos agricultores pequenos e médios, hoje altamente capitalizados, totalmente dependentes de insumos industriais, encontra-se em situação de insolvência. Por mais que se esforcem, não conseguem mais ganhar o suficiente para pagar os juros dos empréstimos. Voltou, inclusive, um estrago muito grave que parecia resolvido na década de 40, com os grandes programas de conservação do solo. Hoje, a erosão volta a campear na agricultura americana, comprometendo o futuro alimentar da nação.

A indústria química conseguiu impor seu paradigma na agricultura, na pesquisa e no fomento agrícola e dominou as escolas de agronomia. Ela impôs um tipo de pensamento reducionista, uma visão bitolada que simplifica as coisas, mas que acaba destruindo equilíbrios que podem manter uma agricultura sã. A praga e as enfermidades das plantas são apresentadas como inimigos arbitrários, implacáveis, cegos, que atacam quando menos se espera e que devem, portando, ser exterminados ou, quando isto se torna impossível, ser combatidos da maneira mais violenta e fácil possível. O camponês tradicional e o agricultor orgânico moderno sabem que a praga é sintoma, não causa do problema. Com um manejo adequado do solo, adubação orgânica, adubação mineral insolúvel, adubação verde, consorciações, rotação de cultivos, cultivares resistentes e outras medidas que fortificam as plantas, eles mantém baixa a incidência de pragas e moléstias das plantas. O paradigma da indústria química não leva em conta estes fatores. Combate sintomas e não procura as causas.

Típico deste paradigma é o proceder dos "técnicos" da Campanha Nacional de Erradicação do Cancro Cítrico, que agora assolam a região citrícola do Rio Grande do Sul. Sua tarefa é simples – erradicar. Quando visitam um viveiro de árvores cítricas só procuram constatar os sintomas da doença. Quando os encontram, demolem e queimam todo o viveiro, mais todas as plantas cítricas dentro de um determinado raio, que era de 1000m, mas que já diminuiu para 50m, devido aos protestos dos viveristas. Se não encontram nada, seguem para outra. Não dialogam nem com o agricultor, muito menos com as condições locais de solo, de ambiente, de métodos agrícolas. Nunca perguntam ao agricultor como ele preparou seu solo, como adubou, que tipos de adubo aplicou, se usou herbicidas ou outros venenos. Entretanto, quem faz estas observações, nota logo que há relação entre as ocorrências ou intensidade da moléstia e as condições de solo, adubação, de matéria orgânica no solo, de rotação, de tratamento com herbicidas ou outros venenos, de afinidade de enxerto, etc. É claro que o programa de erradicação jamais conseguirá erradicar a bactéria associada aos sintomas do cancro cítrico, mas o programa já quase exterminou a citricultura no Estado do Paraná e se prepara para exterminá-la no Rio Grande do Sul.

Dentro desta visão, a agricultura, que deveria ser o principal dos fatores de saúde do homem, é hoje um dos principais fatores de poluição. Uma das formas insidiosas de poluição. O leigo vê a fumaça que sai das chaminés, dos escapes dos carros, vê a sujeira lançada nos rios. Mas, quando compramos uma linda maça na fruteira da esquina, mal sabemos que esta fruta recebeu mais de trinta banhos de veneno no pomar e, quando entrou no frigorífico, foi mergulhada em um caldo de mais outro veneno. Alguns dos venenos são sistêmicos. Quer dizer, eles penetram a circulam na seiva da planta para melhor atingir os insetos que se alimentam sugando a seiva. Não adianta lavar a fruta.

É claro que a indústria química sabe que está lidando com fogo e a população começa a preocupar-se. Para acalmar o público assustado e proteger a si própria de possíveis problemas, ela complementa seu paradigma de uso de venenos com uma série de conceitos pseudocientíficos e jurídicos e usa toda uma nomenclatura especial.

Inicialmente, quando a consciência ecológica era pouca, os venenos eram apresentados com o termo genérico "pesticidas". A idéia era simples, combate às pestes. Em inglês, a palavra "pest" é usada em linguagem coloquial para designar "bichos indesejáveis". Cedo, no Brasil, passaram a usar o termo "defensivos". Uma palavra menos agressiva, que inspira mais confiança e não tem conotações negativas. Acontece que os produtos oferecidos pela indústria química para o combate de pragas e moléstias das plantas, com raríssimas exceções, são biocidas. Eles o são deliberadamente. A intenção é matar organismos considerados indesejáveis. Seria mais lógico que estes biocidas fossem designados com a palavra "agressivos" ou simplesmente, se quisermos ser honestos, de "venenos". Quando um agricultor orgânico faz determinados tratamentos com substâncias não tóxicas para fortalecer a planta, como quando usa soro de leite, iogurte, biofertilizantes, extratos de algas, fermentos e outros, diminuindo a incidência de pragas e enfermidades, não porque matem os agentes patogênicos e os parasitas, mas porque deixam a planta com mais resistência, então sim, deveríamos usar a palavra "defensivo". Por isso, agrônomos conscientes lançaram a palavra "agrotóxicos" para designar os biocidas da agroquímica. Não se trata de querer agredir a indústria, trata-se de precisão de linguagem. Esta palavra está agora consagrada na lei dos agrotóxicos de já mais de uma dúzia de estados da Federação.

Uma vez que é inegável que, ao aplicar agrotóxicos na lavoura, sobram resíduos no alimento, a indústria arroga-se o conceito de "dose de ingestão diária admissível", ADI (admissible daily intake). Para cada um de seus venenos, ela afirma que o organismo humano pode ingerir, inalar ou absorver pela pele, certa quantidade diária, sem que isto tenha conseqüências para sua saúde. Em se tratando dos venenos fulminantes e persistentes em questão, não deixa de ser um conceito temeroso. Se aceitarmos este conceito, teremos que insistir que todos os nossos alimentos sejam constantemente e exaustivamente analisados e retirados imediatamente do mercado caso haja transgressão. Todos sabemos que nada disso acontece na prática cotidiana. Os escândalos só acontecem quando ambientalistas preocupados conseguem que sejam feitas algumas análises ou quando levam a público resultados oficiais que permanecem engavetados. Os administradores públicos sempre procuram negar a gravidade do que foi encontrado. Só quando a pressão popular é grande consegue-se ação oficial.

A ADI, através de cálculos envolvidos, é derivada de outro conceito, aparentemente científico, na realidade extremamente rudimentar e grosseiro. Trata-se da medida de toxicidade chamada LD50, a dose letal 50%. Para achar este valor para um determinado veneno, submete-se uma certa população de cobaias a doses crescentes do tóxico. Quando a metade da população morre, supõe-se que este é o limite de letalidade. Assim, uma LD50 de 8 significa que 8 miligramas de um veneno por quilo de peso de cobaia viva foram necessários para começar a matar as pobres criaturas. Milhões de animais são torturados à morte todos os anos nos laboratórios da indústria. Quanto mais baixa a LD50, mais tóxica é a substância. Nesta visão, um agrotóxico com LD50 –10 é cem vezes mais perigoso que outro com LD50-1000. Trata-se, mais uma vez, de raciocínio extremamente reducionista. Um argumento muito usado pelos defensores dos agrotóxicos é a afirmação de Paracelsus de que veneno é questão de dose. Gostam de apresentar o exemplo do sal de cozinha. Um pouco de sal é indispensável à saúde, mas se eu comer 100 gramas de sal, morro de desidratação. O mesmo raciocínio se aplica à água. Ela é indispensável à vida, mas podemos morrer afogados. De fato, este raciocínio se justifica sempre que ele for aplicado a substâncias que normalmente fazem parte dos processos metabólicos dos seres vivos: sal, água, ácido clorídrico, amônia, ácido sulfúrico e outros, nitratos, uréia, etc. Mas este raciocínio não se aplica a biocidas, quer eles sejam naturais ou artificiais. O veneno da cascavel sempre faz mal, por pequena que seja a dose. Se a dose for muito pequena, o estrago pode ser pequeno e superável, mas não deixa de ser um estrago.

Uma alfinetada causa um estrago muito pequeno, não se compara com um golpe de adaga, mas não deixa de ser um estrago. E o que acontece quando levamos diariamente uma nova alfinetada, especialmente se for sempre no mesmo lugar? A coisa poderá tornar-se muito grave. Mais um detalhe, de uma alfinetada no traseiro podemos rir; no olho, é outra coisa. Assim, o LD50 não leva em conta os efeitos crônicos. O que acontece após anos de ingestão diária de quantidades muito pequenas de um determinado veneno? Como ficam o fígado, o sistema renal, o sistema imunológico e outros?

Propor uma ingestão diária admissível para venenos como os agrotóxicos clorados, fosforados, os carbamatos, os mercuriais, as triazinas, os derivados do ácido fenoxiacético, já passa de temeridade, é cinismo. Mas tem sentido para a indústria química. É uma espécie de seguro para eles, não para nós agricultores e consumidores. Nas concentrações propostas, torna-se impossível provar a relação causa-efeito. Se eu atropelar alguém com meu carro, não resta dúvida quanto a quem causou os ferimentos, só se discutirá se houve dolo ou culpa ou se, talvez, foi impossível evitar o acidente por descuido do próprio pedestre. Entretanto, se alguém estiver morrendo de câncer porque ingeriu durante anos quantidades muito pequenas de uma substância cancerígena, ou quando outro sofre de doença infecciosa porque está com o sistema imulógico destruído por carbamatos, torna-se impossível provar que a culpa é do respectivo agrotóxico. Os altos executivos da indústria química dormem tranqüilos. Nos casos em que se verificam resíduos acima das doses supostamente aceitáveis, eles sempre põem a culpa no agricultor, alegam "mau uso". Acontece também que, quando as práticas correntes na agricultura, o chamado "uso adequado", significam resíduos acima dos inicialmente aceitos, eleva-se simplesmente os índices. Esta política tem sido muito comum na Europa e nos Estados Unidos.
 
Além de não levar em conta os efeitos crônicos da ingestão continua de pequenas doses, a LD50 não leva em conta os efeitos sinergísticos, isto é, os efeitos de interação dos venenos uns com os outros. Os testes de determinação da LD50 são feitos para uma substância por vez. Mas o organismo humano, no mundo em que vivemos, se vê confrontado com substâncias as mais diversas ao mesmo tempo. Temos uma infinidade de formas de poluição do ar, da água, dos alimentos, dos objetos que tocamos, até das roupas que usamos. É sabido que quando mais de um veneno age ao mesmo tempo, o efeito é muitas vezes superior, e muito superior à simples soma dos efeitos de cada um. Quase sempre os venenos se potenciam mutuamente. Digamos que o veneno A tem um efeito 5 e o veneno B tem um efeito 6. Ambos juntos poderão ter não um efeito 5+6=11, mas 5x6=30. E se forem muitos venenos? A ADI não considera este aspecto.

Também não considera os efeitos genéticos, isto é, os efeitos mutagênicos, cancerígenos e teratogênicos. É sabido que estes efeitos são desencadeados a nível molecular. Uma só molécula de substância cancerígena, um só foton de radiação ionizante, um só vírus, podem desencadear o câncer ou a mutação. Portanto, a ADI para substâncias suspeitas de poderem desencadear efeitos genéticos deveria ser zero. Mas a indústria química apresenta ADI até para a Dioxina, o superveneno, o veneno mais absurdo que o homem já produziu, e que estava presente no Agente Laranja. Jornalistas japoneses me mostraram fotos de crianças nascidas com deformações indescritíveis no Vietnã. Continuam nascendo. As deformações são mais horríveis que as da Talidomida. Aliás, a Talidomida deve ter uma LD50 acima de 1000. Dentro dos conceitos da agroquímica, seria menos perigosa que o sal de cozinha.

Quanto aos efeitos ecológicos dos agrotóxicos, na maioria dos casos, só se fica sabendo depois dos estragos. Os efeitos cumulativos dos clorados, especialmente do DDT, só se tornaram conhecidos depois que biólogos atentos constataram os desastres. Quando Rachel Carson escreveu seu livro "Primavera Silenciosa", chamando a atenção para os problemas ecológicos dos venenos aplicados na agricultura, ela foi violentamente vilipendiada e insultada pela indústria.

Isto nos leva a mais um aspecto importante de toda esta loucura. A indústria química, e não só no campo dos agrotóxicos, insiste que tem o direito de introduzir no ambiente qualquer substância que ela desenvolva, enquanto não for provado que há perigo. Mas esta prova ela não procura encontrar. Ao contrário, inicialmente ela combate os que a procuram. Deveria ser exatamente o contrário. Enquanto houver um resquício de dúvida sobre possíveis perigos, a substância não deveria ser introduzida no ambiente. Em vez de continuar fazendo bons negócios, enquanto a sociedade não provar os perigos, a indústria deveria ser obrigada a provar que não há perigo, antes que se lhe permita vender.

Na prática agrícola, no campo, o que hoje acontece é um dos maiores escândalos da sociedade industrial moderna. Nunca tantos venenos, venenos tão fulminantes, alguns persistentes, outros fulminantes e persistentes ao mesmo tempo, foram colocados em mãos de tanta gente tão despreparada para lidar com eles.

A grande maioria dos agricultores não tinha e continua não tendo noção dos perigos que enfrenta com os agrotóxicos. Especialmente grave é a situação dos bóias-frias nos latifúndios, cuja única alternativa, em geral, não passa de escolha entre morrer de fome ou morrer envenenado.

A indústria costuma defender-se com o argumento do "uso adequado" ou "correto" e insiste em que todos os problemas que se constatam, se devem sempre ao "mau uso". A culpa está sempre com a vítima. Quando os problemas se agravam e se multiplicam, ela, às vezes, promove cursinhos ou campanhas de "uso correto dos defensivos". Para isso procura sempre envolver a administração pública - Agricultura ou Saúde - para deixar com ela a responsabilidade e parte dos custos. Mas ela continua manipulando o agricultor, também as donas de casa, no caso dos venenos contra baratas, com publicidade insidiosa e desinformativa, que não alerta para os perigos e promove um uso desnecessário e até prejudicial. Jamais ela esclarece sobre as alternativas não tóxicas. Muito pelo contrário, combate os que promovem a agricultura orgânica.

Quando a Sociedade se defende, prepara legislação, insiste na obrigatoriedade de receita assinada por agrônomo não vinculado com a indústria química, esta combate abertamente as medidas. Assim, quando o parlamento estadual do Rio Grande do Sul aprovou por unanimidade uma lei estadual de controle de venenos, a indústria entrou na Justiça Estadual. Perdeu e foi ao Tribunal Supremo, para argüir da inconstitucionalidade das leis estaduais, que já são 14. Ela conseguiu pressionar o Governo anterior a apresentar no Congresso um projeto de lei federal que esvaziaria as leis estaduais. Felizmente, o novo Governo já retirou o projeto, que não chegou a ser votado, pois foi bloqueado por alguns deputados conscientes. Agora, ela já iniciou pressão sobre o novo Ministro da Agricultura para que prepare projeto de lei favorável a ela.

Não somente os agricultores são mantidos na ignorância e tornam-se assim as primeiras vítimas, os médicos que tratam das vítimas, são mantidos na ignorância quanto aos aspectos toxicológicos dos novos produtos, dados que só a indústria conhece, e que, como vimos, ela própria só pode conhecer parcialmente, uma vez que os testes toxicológicos são conduzidos com enfoque reducionista, um veneno por vez. Não levam em conta a complexidade e envolvência da situação real. Por isso são comuns tratamentos inadequados. O médico confunde os sintomas. Até agora, não conheço trabalho eficiente da agroquímica no sentido de informar os médicos quanto aos problemas toxicológicos dos venenos agrícolas. Mas as mesmas firmas transnacionais, quando fabricam também medicamentos, mantém verdadeiros exércitos de "visitantes" para manipular os médicos no sentido de receitar seus fármacos aos seus pacientes.

O processo de democratização e descentralização ora desencadeado neste país, que, esperamos, venha a ampliar-se, obriga-nos, todos, a conscientizar-nos deste imenso escândalo para que haja pressão sobre os administradores da coisa pública que só costumam agir sob pressão. Sempre que possível, precisa também ser acionada a Justiça.
 

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Impressões pré-EDEA.

Certo dia me encontrei com o seguinte gráfico
Fiquei pensando que desde que entrei no mestrado tenho visitado constantemente a "zona do pânico". A cada pânico superado me defronto com outras matérias (aliás, pq são chamadas de disciplinas?!), outros textos, outros autores, outras perspectivas mais assustadoras dos mesmos problemas, e lá vou eu novamente pra borda do círculo. Tanto tenho me habituada a andar por essas bandas que me confortar com meu conhecimento parece impossível.

Para ajudar, uma amiga surgiu na minha vida, como uma guia me conduziu naturalmente para próximo da educação ambiental (EA). Aí sim, minha estabilidade mental virou um caos. A cada sala com um educador ambiental que entro sou convidada a pensar criticamente, construir conceitos, e depois desconstruí-los, para então talvez construí-los novamente. Não necessariamente mais forte, convicto, sedimentado, mas mais problematizado.

Essa semana aconteceu o V-EDEA. Que começou na sexta passada com um encontro pre-edea do qual fez parte a Michele Sato e Alfredo Guilhermo Martin Gentini. A primeira questão posta por esse foi: como vocês abordariam a educação ambiental com megaempresários?

Eu, reconhecendo minha total ignorância na EA, fiquei bem quietinha fazendo piadas internas que relacionavam as palavras sequestro, tortura e sacos. Algo de muito mal gosto, confesso, mas não resisti de comentar baixinho com colegas próximos. Aquela pergunta pode ter gerado algum desconforto, não me lembro de respostas convictas. Ao passo que a roda foi conduzida a assistir a apresentação da Michele Sato.

Do que me lembro houve uma breve retomada na história da EA, que teria tido sua semente no movimento de contracultura de 1960. Ao que um amigo que admiro muito me destacou que esse movimento não seria formado pela população historicamente marginalizada, seriam uma classe média branca, de onde se destacam os futuros teóricos oriundos de uma elite. Essa observação não foi feita na apresentação. Me lembro de ela ter criticado o Black Bloc por não terem ideologia, nesse instante minha expressão congelou, ela teria dito isso mesmo? O amigo disse que não tinha ideologia explícita, o que ainda não me satisfez, pq eu acho que pode-se identificar nesse movimento um "conjunto de convicções filosóficas, sociais, políticas". De fato a articulação não é explícita, o que incomoda por serem uma resistência não conhecida nem controlada.

Ela então mostrou seu trabalho de campo, afirmando uma busca em 3 dimensões:
- epistemológica (estudos acadêmicos),
- práxis (através da militância) e
- axioma (desenvolvimento de valores éticos e morais).
Não estou apropriada desses termos tão cheios de "x", mas me parece um conjunto de ações interessantes para se preocupar um pesquisador!

Aí então algo constante em exposição de educadores que militam, ela esmiuçou alguns conflitos do Mato Grosso, e falou como quem diz as horas, que seus inimigos tem nome, sobrenome, CPF, e só para citar alguns que vocês conheçam ela escolheu Blairo Maggi. Todos lembraram do Eike Batista, mas poucos disseram.

Uma guria desabafou sentir desconforto na utilização desse termo (inimigos). Sabe, nós somos educados a não odiarmos, não fazer mal. Eu sinto isso, sinto essa pressão, essa confusão que me fez por muito tempo transformar revolucionários ativos em santidades divinas que falam doce, pondo de modo quase antagônico revolução e divindade. o Jesus que imaginei durante muito tempo tinha aquela cara meio bocó com que o pintam por aí, e esse Jesus imaginário, meio bocó, passivo e manso era o maior exemplo para se seguir. E na conversa paralela soube que na bíblia original pedia-se para que o Pai promovesse a liberdade da crueldade posta pelo inimigo, provavelmente os poderosos opressores da época. Esse termo foi traduzido para Satanás e mistificado.

Sato, reconhece que cada um tem uma história, não há problemas em a guria sentir essa limitação, mas ela já foi ameaçada de morte, já conheceu pescadores assassinados, já assistiu desapropriação de famílias que viviam da terra para expansão de gado e soja, e sim, esses caras que se beneficiam financeiramente disso não são seus amigos e ela não vê problema nenhum em declarar isso.

Outro guri comentou que deveria ser superada essa dicotomia: amigo/inimigo, bom/mau. Pois afinal, com o poder desses não faríamos nós o mesmo? Sato argumentou que não é uma classificação ingênua e romântica que ela faz, é um deixar claro, dar nomes. E pôs um slide com a frase que traduz a ideologia de Freire "quando a educação não é transformadora o sonho do oprimido é se tornar opressor".

Houve outro desabafo de um amigo que passou de bonde por uma favela pacificada enquanto uma carioca engajada lhe narrava que na pacificação centenas de crianças foram assassinadas pela PM e as famílias não puderam nem velar e enterrar seus corpos que sumiram na mão da corporação que protege o Estado. Sem entrar no mérito de bandido ou não, bom ou mau, estamos falando de crianças e não se chocar com uma notícia dessa é deplorável. Se identificando o inimigo é difícil promover alguma mudança, não identifica-los torna a tarefa impossível.

Eu penso como essa campanha velada, pintada de cor de rosa, que apela para que amemos a todos, só vejamos e falemos o bem, e nhe-nhe-nhé nos torna cumplices de uma opressão cotidiana, ou nos faz não querer enxergar as injustiças que ocorrem diariamente e nos impede de falarmos francamente sobre isso. Me lembro o trecho de um documentário que o ativista negro contava a seguinte história:

- Uma mãe negra, moradora da periferia, trabalha de doméstica numa zona nobre. Certo dia, seu filho não tem aula e ela pede para leva-lo ao serviço. Do ônibus os olhinhos da criança vão admirando a transformação da paisagem e sem se conter comenta "mãe, como esse bairro é bonito! as ruas são pavimentadas, existem jardins, praças, árvores, não há lixo acumulado nem esgoto correndo". A mãe responde "é por que esse é um bairro de rico". Ela não poderia ter respondido que esse é um bairro de branco? tendo em vista a porcentagem de negros nesse bairro e no dela?

O que vemos é um racismo velado. O que faz com que muitos digam com um sorriso no rosto, cheio de amor no coração que não existe racismo no Brasil. Que não existem algozes na injustiça social e ambiental cotidiana, e que a condição social é fruto unicamente de mérito e a crise ambiental culpa tua que deu descarga mais do que deveria.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Panaceia utópica.

Sabemos claramente que estamos nesse exato momento enfrentando uma grave crise sem precedentes. Não é apenas uma crise econômica, social ou cultural. Conseguimos superar essas misérias que assolam populações a milênios e chegamos ao cúmulo de uma crise ambiental global. Imagino que não hajam muitos céticos que neguem o quão tenebroso está o cenário atual. Ou há?

Será necessário mostrar fotos do smog monstruoso que ocorreu na China essa semana?
Fonte: BBC-Uk
Ou as matérias sobre os níveis alarmantes de radiação na Califórnia graças ao vazamento de Fukushima? Será preciso dizer da poluição aquática, atmosférica, ou do solo graças ao volume absurdo de agrotóxico que as plantações geneticamente modificadas exigem? Será preciso um vídeo mostrando albatrozes numa ilha longínqua morrendo pela ingestão de plástico?

Sem falar sobre o que estamos fazendo nossas crianças se tornarem. Isso é, como estamos vivendo nossas vidas, com base no consumo, no status, na busca cega pelo ter. No desenvolvimento tecnológico que gere lucro, e sirva para aumentar o consumo, ou você pensa que os óculos Google vão te tornar um ser humano melhor? Ou pior, a tecnologia na busca do aumento de controle, a serviço do desenvolvimento bélico. Muros altos, com cerca elétrica, para proteger o que exerce influência graças ao seu poder de consumo da escória, que não consome e nem tem acesso à informação, cultura, educação, saúde.

Nossa sociedade está em crise, por mais que você esteja muito contente por ter conseguido comprar algo que você queria e assim, não precisa pensar na crise. Por mais que você esteja encantado com sua pesquisa, com seu novo trabalho, namorado. Por mais que você esteja nesse exato momento muito feliz, nós estamos em crise, num mundo doido, com regras que não merecem ser cumpridas.

E como resolver esse pepino? Seria investindo na educação? Você considera a educação na Alemanha boa? Então que tal dar uma olhadinha no documentário O Pesadelo de Darwin e ver da onde vem o peixe que a população bem educada consome. Seria criando leis de comércio justo, leis anticorrupção, ou medidas que limitassem o lucro, dividindo o dinheiro entre todos. Será que isso realmente funcionaria?

Desconfio que não. O sistema econômico é baseado em dívida e escassez. Algo se torna mais valioso quanto menos pessoas tiverem acesso a ele. A escassez aflora as mazelas dos animais, precisamos garantir o que é "nosso", nos tornamos agressivos, competitivos, insensíveis, egoístas. Sim, algumas pessoas não, mas são poucas, em comparação com as demais. Isso gera um modo de pensar, comportar e sentir que acaba acarretando todos os outros problemas, desigualdade, injustiça, preconceito, poluição, depressão, altos índices de suicídio, violência.

Meu professor, o mentor do meu curso de mestrado, tem uma matéria muito legal em que ele indica artigos de gerenciamento costeiro e debatemos. Ele, eu diria, tem fé no sistema, acredita em leis, em programas, e projetos para ir melhorando realidades. Sempre tendemos a ir fundo no problema de cada artigo, e ele tem que reconduzir a conversa, porque sempre chegamos no mesmo poço sem fundo "economicismo". O sistema monetário é um grande problema.

Isso eu já desconfiava antes de entrar no mestrado, foi por isso que colei numa guru da economia para pedir orientação. Acreditava eu que "internalizando" custos, tornando empresas verdes, tornando a Economia Verde chegaríamos a uma solução. O que fui encontrando pelo caminho me desiludiu muito, não existe empresa verde (talvez algumas poucas exceções) mas a maioria pratica o greenwashing para vender mais (algo nada sustentável) nenhuma empresa vai fazer uma campanha para que você compre menos. A certificação ambiental parece ser mais um modo de o dinheiro escapulir dos países pobres para se concentrar na sede das benevolentes ONGs que desenvolveram o marketing.

Conclusão, essa economia tem que mudar, não se adaptar feito um camaleão devorador de almas. Porque temos fronteiras? Fazendo com que gastemos fortunas com exércitos, marinha, aeronáutica, guerras infindáveis. O que faz com que países influentes e experientes nessas regras de merda suguem o recurso dos outros, desde o seu "descobrimento". Sendo que somos todos seres da mesma espécie...

Não podemos ter fronteira se quisermos de fato nos desenvolver como seres humanos. E nem podemos perder tempo e energia buscando comida (trabalhando incessantemente para garantir o passaporte para alimentação), razão tinha o Fernão Capelo Gaivota. Já produzimos alimento capaz de alimentar 12 bilhões de pessoas (estamos em 7 sendo que agora acaba de morrer um de fome, enquanto outros milhões estão subnutridos). Temos tecnologia o suficiente para abolir a maioria dos empregos entediantes e pesados.

E se não houvessem fronteiras? E se não houvesse dinheiro, e o alimento, e bens produzidos com alta tecnologia estivesse acessível a todos? E se a economia fosse baseada em recursos? E se todos tivessem moradia, acesso a saúde e a temas culturais diversos que lhe interessassem? E tempo livre para desenvolver habilidades e contribuir no progresso cultural?

E se eu te dizer que esse mundo já tem até maquete?
Acesse http://thevenusproject.com/ e comece a pensar como seria o mundo se a tecnologia estivesse a serviço de todos os seres humanos.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Menos saúde e educação.

Interessante, alguns assuntos são inquestionáveis. Mais saúde, mais educação. Existe alguém em sã consciência que se oponha a tais reivindicações? Não, todos estamos de acordo e parece inquestionável a necessidade de investir-se ainda mais nesses campos tão necessários a vida humana.

Mas nada é, nem deve ser, inquestionável. Será mesmo necessário aumentar o investimento nesse sistema de saúde e educação? Será que é isso que precisamos para alcançarmos uma sociedade justa e feliz?

créditos: http://felipa-de-noailles.deviantart.com/
Comecemos pela "educação". Aos seis anos de idade somos convidados a deixar nossas casas e marcar presença, obrigatória, em uma escola. Lá, numa sala fechada, iluminada artificialmente com uma luz fria, somos obrigados a iniciar nosso convívio social com toda a artificialidade do momento. Ninguém sabe muito bem porque está lá. Para os professores de crianças abastadas é para o futuro delas, para que possam "se tornar alguém", ter futuro, e conseguir um bom emprego. Para os de periferia é para afastá-los dos pais ignorantes que certamente o tornarão criminosos caso a escola salvadora não intervenha. Sem discutir o sucesso desses dois objetivos, ainda que sejam alcançados, que os primeiros consigam ser empregados em cargos de comando e os segundos sejam afastados do tráfico, eles serão seres humanos felizes?

Porque temos tanta fé na educação e medo de questionar se de fato sua existência é mesmo necessária. Lembremos que se alimento nasce do chão e água cai do céu, porque temos que aprender álgebra e história para não morrermos de fome? Não seria mais interessante aprendermos a sobreviver no planeta do que no sistema?

Me sinto a vontade de escrever pois cada vez mais percebo que não sou a única a conviver com a sensação de que tem algo errado. Frequentamos a escola, com esforço, e imposta gratidão pela oportunidade. Escolhemos um curso de graduação, como escolhemos o sabor do sorvete, nos graduamos e seguimos sem ter a menor noção de quem somos nós e o que estamos fazendo aqui. Alguns tem mais sucesso em se convencer de que essas perguntas são irrelevantes e não levam a nada, e se convencer da utilidade de seu estudo e seu emprego. Mas, hora ou outra o "bicho pega". E reparamos que se nós não sabemos sequer como nos perguntar essas questões tão importantes a geração futura tão pouco saberá.

A escola serve para garantir a reprodução do que está. Sempre mais do mesmo. E não adianta modernização nas salas de aula, atualização de currículo, aumento na remuneração dos professores. É uma doce ilusão pensarmos que ela serve para formação de seres humanos mais plenos e conscientes. Encarcerar crianças com a obrigatoriedade de sua presença numa instituição é exatamente o que distância nossa existência da plenitude e felicidade, e é onde começa a morte de nossa consciência.

Não sou a única que pensa isso. Isso não é um devaneio. Esse atual sistema me parece mais surreal do que um mundo sem escolas. Aconselho fortemente a leitura desse texto de Daniel Quinn.

Quanto a saúde. Porque as pessoas vão a hospitais? Porque desenvolvem doenças crônicas? Porque sofrem acidentes? Não estaria a causa no nosso modo de vida? Investir cega e massivamente em hospitais é correr atrás do rabo, é remediar efeitos alimentando sua causa. É estúpido.

Na nossa atmosfera circula gases tóxicos saídos das mais inusitadas chaminés e carburadores, constante e diariamente. Nossas águas, além de circularem por essa atmosfera, recebem diretamente efluentes tóxicos. Nossos alimentos crescem em solos, adivinhem só, tóxicos! Sinto muito, mas agrotóxicos não são necessários para aumentar a produção de alimentos e extinguir a fome do mundo, esse argumento é cruelmente inválido. A agroecologia familiar seria muito bem capaz de alimentar a todos. Todos os nossos móveis e utensílios, desde bebê, estão impregnados por substâncias tóxicas (esse documentário Story of Stuffs é muito bacana).

Nossos empregos são estressantes, e muitas vezes totalmente inúteis. Só servem para a existência de salário e para distrair o pensamento de questões como a conveniência da existência de salário! Não dão condição de prática de exercício ao ar livre, fundamental para manutenção de um organismo e mente saudável. Não seria melhor adoecermos menos do que tratarmos mais?

Sobre os acidentes que lotam os hospitais. Automóveis. Nada é mais didático para entendermos nossa sociedade do que esses doces e confortáveis vilões. Poluem o ar, detonam o solo promovendo a mineração, alimentam a indústria petrolífera, escancaram a injustiça social - contribuindo com altos índices de violência, e ainda por cima estão atrapalhando o trânsito! Ah e claro, são chave no entupimento de emergências, por serem manejados por pessoas desequilibradas. Então, contratemos mais médicos, aumentemos seus salários, construamos mais hospitais, e claro, dupliquemos ruas e estradas. Para termos sempre mais do mesmo... Alguém vê algum único sentido nisso?

Todas as soluções óbvias que saem nos jornais, ou circulam no senso comum, são uma louca e desesperada tentativa de manutenção do que está. Lei que torna corrupção crime hediondo. Mas, por Deus do céu, não será tão óbvio isso? Será que precisa alguém dizer que corrupção é crime, outro para discutir o quão foi grave o crime, outro para analisar quanto tempo encarcerado vale para pagar o tamanho do crime, com quantas bananas se paga uma maçã. Estamos correndo atrás do rabo e o remendo está saindo pior do que o rasgo.

Tentamos, tentamos de todo o jeito e com toda a força e boa vontade manter o sucesso desse sistema. Mas, ainda que se haja investimento no sistema atual de educação, e saúde, ainda que a violência urbana e a desigualdade social diminua, ainda que a corrupção se minimize, ainda assim teremos os jovens infelizes do Japão para nos lembrarmos que não basta.

Talvez seja a hora de reconhecer que por mais que tentemos com todo empenho e boa intensão, esse sistema não serve mais. Um sinal disso são todas essas pessoas nas ruas do mundo inteiro. Não é só pelo Cabral, ou só pela Irmandade Muçulmana, ou só pelas medidas de austeridade européia, é sobre a insustentabilidade e ruptura do sistema. E isso não se restringe as manifestações, corriqueiramente assistimos o efeito de negação de mudança, crianças que massacram em escolas, homem que surta assassina e queima dinheiro, tantas e tantas notícias que não representam loucos, representam a loucura do que vivemos. O que é necessário para reconhecer isso? A mim parece tão óbvio, e tão positivo!

Não vou mais pedir por mais "saúde" e "educação", pois podem interpretar como "mais investimento financeiro no sistema educacional e hospitalar".

Vou pedir por lazer e cultura.

Será que o recado será claro o bastante para não sofrer distorções e promover mais do mesmo?

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Sustentabilidade ambiental não existe sem justiça social

Venho pensando no meu blog, e como deve ser difícil para alguém segui-lo. Ora trato de questões ambientais, ora sociais, ora pessoais num vagar sem fim buscando sentido nisso tudo. Pensei em criar 7 blogs, um para cada coisa. Mas, como separar assuntos naturalmente integrados? Existe algum ambientalista que se preze negando que política e economia são fatores chaves que culminaram na atual crise ambiental? Não há como destrinchar a realidade e analisar os fatos pautado unicamente sob ponto de vista que nos interessa e do qual temos algum conhecimento, para assim podermos falar com propriedade e segurança.
Essa mania positivista (ou seria cartesiana) de separar para estudar ajudou, mas não se justifica mais. Hoje temos acesso a informação, e o melhor, informação compreensível e de qualidade. O que torna inaceitável o fato de alguém se alienar em seu estudo sem tempo de integra-lo à uma realidade mais complexa.
Notarmos que a extração de recursos está chegando (ou em alguns casos já passou) do seu limite nos faz questionar o que proporcionou isso. Porque cientistas da pesca alegam o eminente colapso de diversos estoques? Como e porque chegamos nesse ponto? Não tem sentido se focar apenas no estoque, o quanto reproduz, o papel trófico, qual a biomassa disponível para o outro nível... Essas informações são importantes, mas devem estar integradas com a política, que historicamente vinha fornecendo subsídios para aumentar a produção. E normalmente, desprendida da questão social, favorece a pesca industrial concentradora de renda, mas que deixa bonito o número referente a exportação. Para complicar ainda mais, as ONGs ambientalistas gritam "salvem as baleias".
Estudar a questão ambiental desprendida da social pode trazer graves consequências. Acho que esse ponto, que vivemos agora é de extrema importância para ditar o futuro da humanidade. Pelo pouco que li na matéria de educação ambiental podemos dividir o movimento ambientalista em diversas linhas, mas para mim parece ser possível distingui-lo em duas. Uma que visa solucionar problemas pontuais. Como produzir de maneira mais limpa, consumindo menos matéria-prima, menos energia, gerando menos resíduo e poluição, basicamente fornecer meios para manter eternamente o status quo. Outra linha que transcende a questão produtiva e questiona mais profundamente o sentido de manter esse sistema. Manter o sistema do jeito que está significa manter empregos, com salários distintos e desemprego e concentração de renda, e infelicidade e miséria, e consumo. Ainda, que esse consumo seja de um produto utópico que não gere poluição ambiental, ele gera desigualdade, injustiça, infelicidade, violência, degradação e exploração humana,  e não é isso que eu quero.
Essa divisão simplista de como vemos o mundo sempre existiu, desde que aprendemos a estocar. Mas, foi depois de um mergulho nas questões ambientais que comecei a apreciar a real importância da justiça social. Claro, que talvez, de maneira inata eu já convivesse com essa necessidade. Mas, depois da ditadura fomos convidados a viver uma vida superficial, tivemos a oportunidade de ignorar total e completamente as questões sociais para simplesmente nos preocuparmos com nosso sucesso pessoal. Eu tive o azar de não me importar muito com meu sucesso pessoal. Na verdade descobri que meu sucesso pessoal depende de uma sociedade justa e equilibrada, quisesse me tornar CEO de uma megacorporação, talvez pudesse ser mais fácil. Acho mesmo que o "asco" que passamos a alimentar por conversas sociais, política e o incentivo ao desenvolvimento de um ser individualista ao extremo e puramente materialista é herança da ditadura.
Estamos, enquanto juventude, nesse ponto. Analisando do meu ponto de vista, muito limitado. Não temos oportunidade de compreender o mundo, o sistema econômico, político, social. Pois nos perdemos em assuntos vagos e fúteis. Enquanto vamos friamente analisando o melhor modo de nos darmos bem, estudamos discretamente a roupa que a "vencedora" usa e a qual deveremos copiar (os frios). Outros vão meio perdido, sem apoiar nem se inserir no sistema, vão levando, com desinteresse apático tanto as questões que exigem maior profundidade quanto as estratégias necessárias para "vencer" (os mornos). Outros ainda, reconhecem que não se encaixam no perfil dos vencedores e com o tempo descobrem que não querem se encaixar, e passam a estudar "isso", estudar o sistema impulsionados por um forte sentimento de que algo não está bem, normalmente dedicam tanta energia nesse estudo que acabam "perdendo" o caminho necessário para conseguir um bom emprego (os quentes). São minoria, vistos como esquisitos pelos primeiros e se sentem esquisitos mesmo numa rodinha formada por "frios", não sabem o que dizer quando o assunto é a vida pessoal de uma outra pessoa que nem se quer está na roda. Ou seja, quase nunca sabem o que dizer, alguns não se assumem e buscam auxílio psiquiátrico. E atualmente quando se encontram com outros que compartilham de seus interesses deve haver cuidado mútuo, para não se revoltarem nem se deprimirem exacerbadamente. E uma vez que ainda não sabemos muito bem como nos organizarmos, acho que não sabemos nem conversar, o encontro não gera muitos frutos, além daquela esperançazinha de saber que não somos assim, tão esquisitos. Acho que esse grupo cresce silenciosamente, e ensaia algumas organizações como os Anonymous. Vamos ver no que vai dar.
O fato é que pensar que "é assim mesmo" e "nunca vai mudar", para tentar calar um incomodo profundo que comumente se manifesta como culpa "infundada" não ajuda muito. Também não ajuda nutrir raiva, seja por quem se aproveita do statuos quo, seja por quem não se envolve, pois essa raiva faz com que se perca o foco do que realmente importa: harmonia e respeito entre todas as relações humanas, consigo mesmo, com outros humanos, com outros serves vivos, com o meio ambiente, nas instituições etc.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

A fé na reciclagem

A questão ambiental não é simples. Faz algum tempo que coço minha cabeça quando vejo diversos recipientes de lixo, com cores diferentes parecendo um arco-íris, cada um com seu saquinho plástico. Quando fiz estágio em uma "divisão do meio ambiente" era comum ver saindo por dia, por sala, 3 ou mais saquinhos, um contendo uma latinha, outro uma bola de papel, e outro o canudinho plástico! Foram produzidos e descartados ao menos 2 saquinhos com o intuito de diminuirmos nossa geração de lixo?! Esquisito.

Isso porque minha cidade é uma das poucas felizardas que apresenta coleta seletiva, o que é raro. E na cidade nem todos (acho mesmo que é minoria) reciclam seu lixo. E nós que separamos, não temos informação exata de como devemos proceder. Papel em contato com qualquer orgânico perde seu potencial de reciclagem? Devemos lavar embalagens plásticas e secá-las? Em locais que existe a odiosa separação por cores, onde ponho a caixinha tetrapak? Aliás, ela com restinho de suco que vai mofar será aproveitada? E por ai vai...

Resolvido o problema da separação, os resíduos recicláveis são levados a um galpão para serem (novamente) separados. Liguei, certo dia para a associação que faz esse trabalho, para perguntar se estavam recebendo o lixo da empresa do estágio. Obtive uma resposta enfática e desanimadora: "estamos, mas esse material não vale pra nada, eu já disse, não tem mercado para copo descartável e vocês só mandam copo descartável, para mim não ajuda em nada os resíduos daí". Assim, nessa triagem muito material vai para o aterro (nas cidades lindas como a minha que tem um aterro, se não é lixão), ou por não terem interessados ou por terem sido erroneamente condicionados.

Continuemos pensando no material, já bem reduzido, que a associação consegue vender por um preço questionável. Seguem para a reciclagem e passam por um processo que usa água, energia e gera poluentes, e via de regra não pode gerar o mesmo material, devem ser "rebaixadas" (downcycled). Garrafas viram vassouras ou tecido. Acredito que no caso dos metais a coisa é mais fácil, mais mercado, mais aproveitamento, lembremos que a mineração é um problema terrível, o metal não perde suas propriedades. Desconheço o caso particular de cada material, mas todos devem ter seus pontos fracos. O resíduo orgânico que para mim é o mais fácil e importante de reciclar, por compostagem, tem um destaque tão pequeno na conversa...

Não quero dizer, em absoluto que não adianta nada reciclar. Eu separo muito contente meu lixo. Essa separação auxiliou na diminuição de famílias em aterros e lixões, aqui em Rio Grande, ninguém mora no aterro, uma porque é longe e outra por causa do programa de coleta seletiva. Além do mais existe a porcentagem que é devidamente reciclada, poupando matéria-prima e um pouco de água e energia.

MAS, essa fé vendida de que a reciclagem resolve todos os nossos problemas me indigna, um pouquinho. O marketing em torno da reciclagem, está meio fora de moda, mas faz com que as pessoas pensem que isso é educação ambiental. Eu pensava isso até o ano passado, é o auge da ignorância ambiental essa confusão de pensar que sustentabilidade é pôr o plástico no cesto vermelho.

A reciclagem é uma medida de "fim de tubo". Ela é importante, mas não resolve muita coisa, é um analgésico. E devemos ter cuidado para que ela não atrapalhe mais do que ajude, que não deixe  a falsa sensação de que os problemas estão resolvidos. A possibilidade de todo material potencialmente reciclável ser reciclado é remotíssima, e mesmo que fosse ainda haveriam os não recicláveis, os que perdem suas propriedades, o consumo de água e energia, o transporte que é feito com combustível nada sustentável, entre outros entraves que não tenho conhecimento.

"Enfeite" de natal com reaproveitamento de resíduos.
E então, qual é o meu palpite? Reaproveitar? Para mim esse é uma outra desagradável armadilha, e também medida de "fim de tubo", balde que concerta goteira. Sinto meu estômago embrulhado ao ver a imensa árvore de natal feita de garrafa PET. Meu bairro, tradicionalmente, ano a ano, faz isso. Eu costumava me sentir mal por não gostar do enfeite, tão cheio de boa intenção. Mas, na verdade eu acho feio e me parece um culto ao refrigerante e ao plástico, uma adoração. É uma posição um tanto pessoal, eu confesso.

A reciclagem já deveria, obrigatoriamente, estar totalmente embutida no processo de fabricação. O que denominam "logística reversa" que já funciona para lâmpadas, pneus, etc, deveria também contemplar garrafa PET, sacos plásticos, se saiu da empresa algum resíduo ela deve ter algum sistema de entrada desse resíduo, ainda que seja a manutenção de um aterro no caso de não recicláveis. Sim, vai encarecer o
produto, não, na verdade, o produto vai se aproximar do seu custo real. Atualmente, quem paga pela reciclagem e destinação de lixo é a prefeitura, de uma cidade que nem tem fábrica. Dizer que é a prefeitura que paga significa dizer que a população vai ter menos qualidade em educação e saúde, para que a sujeira dos consumidores possa ser (mais ou menos) limpa e o lucro do fabricante seja mais alto. Ou seja, quem mais depende desses serviços básicos é que paga. Os pobres são convidados a levar uma vida ainda mais difícil, para que os não pobres consumam, e alguns ganhem muito dinheiro maximizando seu lucro.

Exemplo de "hobbie" gratuito.
O que nos leva à única solução: não comprar, ou pelo menos evitar ao máximo. Aliás, quase penso que essa seria a solução para todos os problemas da sociedade, violência, pobreza, desigualdade e por ai afora. É difícil mudar totalmente um modo de vida, eu escrevi difícil, não usei a palavra impossível porque diversas pessoas já fazem isso diariamente. Temos que paulatinamente buscar mudança nos nossos hábitos. Não é necessário renovar o guarda-roupa anualmente, não é necessário empacotar a compra em saquinhos plásticos, podemos comprar na feira local, usar transporte público uma vez por semana, percorrer pequenas distâncias a pé ou de bicicleta, plantar, adquirir hobbies gratuitos e muitas outras atitudes.

Uma mudança de hábitos implica em uma mudança de valores e conceito, ter plena consciência de que sua dignidade refere-se a valores menos materiais. A diminuição da compra nos levaria a realizar passatempo diferentes, como aprender outras atividades que dependessem menos de troca monetária e mais de aquisição de conhecimento e habilidades. Como aprender a fazer cerâmica, tocar algum instrumento, fazer teatro e repassar esse conhecimento, sem visar lucro.

A solução para o consumismo não deve circunscrever-se apenas em aumentar a eficiência energética dos sistemas produtivos, aumentar a reciclagem, de maneira a permitir que mais pessoas consumam mais. Temos um lançamento de Ipod por ano (estou chutando), temos óculos google revolucionário e temos pessoas que não conseguem comprar comida, a tecnologia não tem resolvido esses problemas, desconfio que não tenha nos deixados mais felizes e plenos! Tem algo errado, essa busca por mais tecnologia, mais produção e mais consumo parecem passatempos que desviam nossa atenção do que realmente importa, acabar com a condição degradante a qual muitas pessoas são constrangidas a enfrentar. Garantir que o ambiente tenha capacidade de prover, gratuitamente, condições de sobrevivência a todos os seres.

Recomendo: Story of Bottled Water que trata um pouco sobre consumo e reciclagem de garrafas de água, e  A Escalada da Desigualdade que mostra a tenebrosa desigualdade social nos EUA, nem imagino se esse gráfico fosse extrapolado para o mundo. Países como Bangladesh tem seu salário mínimo abaixo do que se considera linha da pobreza.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Carga horária excessiva

Sempre fico assustada quando reparo o quanto meus cunhados trabalham. Em São Paulo é assim, se você não faz tem quem faça. As jornadas de trabalho extrapolam o limite da razão e é comum um trabalhador chegar do trabalho na madrugada, se sujeitando a sequestros (não é sensacionalismo meu, é um fato que ocorreu). Lembro de ter ouvido um professor comentar que hoje trabalha-se mais do que no período feudal. Acho que eles nem recebem hora extra para isso, mas o salário compensa, foi o que me disse minha irmã.

Mesmo em casos normais, me parece uma jornada de oito horas algo bastante excessivo. A principio tenho receio de defender essa posição e parecer meio folgada. Mas, tenho a possibilidade de auto-controlar minha "jornada de trabalho" no mestrado e percebo que nas semanas que me puxo, chego em casa sem vontade de fazer nada, chego a assistir televisão e comer um lanche. Quando chego mais cedo, cozinho, ponho uma música, me aprofundo em temas políticos, consigo ler um livro e debater ideias com meu companheiro, dá até para passear com os cachorros. Se tivesse cumprido uma jornada de quatro horas, com a tarde toda livre, nossa! Teria tempo e disposição para cuidar da horta, planejar movimentos sociais, realizar trabalhos voluntários, aprender um dote artístico, meditar, enfim, desfrutar e contribuir. Pude aliviar a impressão de "folgada"?

Vim pensando muito nisso. A ponto de imaginar que o desemprego seria muito suavizado com a redução da carga horária, e encontrei inclusive um post de um economista (link) do estadão sobre como a adoção dessa jornada reduzida tem gerado impactos positivos na Alemanha, no lugar de medidas de austeridade para contornar a crise. Acho que no Brasil é dispendioso contratar mais pessoas por menos tempo por ficar a cargo do patrão pesados encargos tributários, o que poderia ser estudado uma forma de dividir isso com o estado, por exemplo garantindo saúde de qualidade a todos não haveria a necessidade de planos de saúde.

Jornadas excessivas são extremamente negativas para o meio ambiente. Como eu disse, com mais tempo livre poderíamos nos inteirar mais e em maior profundidade sobre os assuntos, como a crise ambiental e poderíamos nos identificar com causas que preenchesse nossa vida de sentido e nos levasse a atuar. Pois como dá para notar nesse vídeo muito interessante (link) o que nos motiva mais do que dinheiro é uma causa na qual acreditemos, e a liberdade para atuar nela. No relatório "o estado do mundo" (não me lembro o ano, vale a pena ler todos), o autor sustenta que longas jornadas estão associadas a hábitos menos ambientais e mais fast, usar secadora invés de estender roupa no varal, consumir comidas prontas, aliás consumir tudo, pois gera o que se necessita, um prazer fast e imediato.

Outro ponto a favor do meio período é que o trafego seria menos intenso no horário de pico. Digo inclusive a respeito do transporte público, ficaria menos abarrotado, poderia se usar a bicicleta, com mais tempo. Permitiria uma relação mais próxima de pais e filhos, proporcionando a educação (aquela educação de valores, que os pais passam para a escola a escola rebate para as babás, as babás não sabem o que dizer e a criança se educa sozinha sem orientação), prática de esportes e hábitos mais saudáveis.

No início da revolução industrial a tecnologia parecia vir a simbolizar a diminuição da carga horária e de fato em alguns momentos na Europa fez isso, mas os prêmios em hora extra pareceram se tornar mais interessantes ao longo do tempo. E vendeu-se o tempo livre, a possibilidade de se desenvolver como ser humano, para empresas que não pararam de crescer e aumentar sua produção. Até o ponto em que nos encontramos atualmente. Não houve movimento social capaz de reduzir a marcha, mas, o limite físico parece ser capaz de fazer isso. Não dá para aumentar a produção e não queremos que ela aumente.

Enfim, imagino que um dos pontos essenciais para o alcance da sustentabilidade, e do qual não ouço falar é a redução da jornada de trabalho e utilização adequada do tempo livre. Não dá para separar questão ambiental, de política, de social, de economia, de psicologia, a mudança de um depende e gera mudança em outro. E ao que tudo indica ações ecológicas, sustentáveis exigem mudanças profundas em todos os setores, e são mudanças meus amigos, extremamente positivas e valiosas. Não há a menor razão em temer ou elaborar artimanhas esquizofrênicas para evitar um decrescimento econômico, isso só nos levará a um colapso ambiental, que é ligeiramente mais catastrófico pois sai totalmente de qualquer controle humano.

domingo, 24 de março de 2013

Mais vale um pássaro voando do que dois na mão

Uma amiga minha me emprestou um livro, um verdadeiro marco na história do ambientalismo. Trata-se de "Primavera Silenciosa".

Consiste na descrição do uso alucinado de inseticidas e herbicidas e seu efeito. O livro é excelente pela forma como foi escrito. É dotado de uma visão ecossistêmica, o solo é riquíssimo em diversos micro-organismos que são fundamentais para manutenção do reino vegetal. A pulverização de veneno em "ervas-daninhas" (isso é, em plantas que por algum motivo nós classificamos como indesejáveis por não serem úteis a única espécie que tem direito de decidir alguma coisa) contamina e envenena todo o solo e toda infinidade de organismos que vivem lá. Esses organismos, migram, voam, alimentam outros animais, nosso planeta está todo conectado, é uma esfera. E assim é fácil imaginar que a livre pulverização de venenos ocasionou o declínio de 90% de certa população de pássaros. As paisagens ricas que margeavam estradas norte americanas se tornaram estéreis e marrons. 

Isso foi longe e na década de 60, correto?! Não poderia se ter certeza do dano, preferiu-se arriscar, alguém ganhou, ou ganha muito dinheiro vendendo venenos, alguém ganhou muito dinheiro aumentando (ainda que temporariamente) a produção. Agora as leis que regulam o uso está mais rígida e a agroecologia vem leeeeeeeeentamente conquistando algum espaço. No Brasil, mesmo com esse legado de experiência a coisa  ainda não vai bem. Nesse sentido vale ver a um preocupante documentário O veneno está na mesa (link) .
Essa história de política estar intimamente (quase pornograficamente) relacionada com interesses privados causa alguns desconfortos que temos diariamente que engolir, como o uso de agrotóxicos não liberados pela ANVISA por causarem danos a saúde (link da matéria)

É um pouco assustador pensar na quantidade de produtos químicos que ingerimos diariamente. E por mais que existam alguns estudos sobre o efeito pontual de cada um, é impossível prever seu efeito sinérgico no organismo humano e no planeta.

Aliás, quanto a reconhecer o efeito no planeta, algo que me chamou muito a atenção foi que o livro está abarrotado de relatos espontâneos de pessoas que reparavam as mudanças no ambiente, uma cita que em Londres era possível trafegar milhas sem ver uma única ave, e tantos outros fazem reclamações semelhantes. São pessoas que reparam na natureza, pessoas que foram capazes de notar algum problema. É verdade que nesse caso o problema era gritante, mas eu fico assustada como cada vez menos conhecemos e reparamos nas aves e na natureza. Uma professora minha já havia dito "as crianças do campo sabem reconhecer o símbolo do Big, mas não reconhecem nenhuma espécie de ave local". É possível que espécies tenha sido extintas sem que as tenhamos conhecido... e é possível que espécies venham a ser extintas sem que aprendamos a admirá-las. Admirar a natureza é uma atividade extremamente prazerosa e didática, não apenas didática no sentido de estudar seus processos mecânicos, mas didática num sentido mais transcendental, a observação da natureza nos leva a uma viagem interna e espontânea que resulta em insights. Nossa humanidade desenvolvida, cria tecnologias fabulosas mas pouco conhece seu interior e tem adotado práticas que destroem os melhores professores para isso.

Claro que a visão ambiental atual tem um viés pragmático, que é real, preocupante e convence mais. Simplesmente dependemos de um ambiente saudável para existirmos, dependemos de ar e água limpos, dependemos dos "serviços" ambientais prestados pelos demais seres vivos. Isso é verdade, mas pode ser tecnologicamente produzido. Eu sempre fico com uma cara de panaca quando exponho uma preocupação ambiental e o engenheiro mais próximo descreve 3 ou 4 projetos que já existem para amenizar o problema. Eu entro num conflito interno, pois deveria ficar feliz em saber da existência de um purificador de água movido a energia solar, por exemplo, mas eu não fico, eu fico irritada. Achava que era por "perder a discussão", mas eu não ligo para ganhar discussões, não é falsa modéstia, eu nasci com esse problema. Esse livro traz trechos que poderiam se enquadrar como "poético-ambiental" o que me fez pensar que a maior motivação para minha postura ambiental é transcendental, o que dificulta qualquer discussão nesse mundo pragmático. Mas tentarei: eu quero manter a possibilidade de depois do expediente me mandar para um lugar sem nenhum resquício da atuação humana, pois só nessas condições eu consigo me harmonizar. é só quando fico uma hora num lugar assim que eu alcanço a sensação de saber quem eu sou e de ficar bem com isso. Poderia dizer que tenho inveja das pessoas que parecem conseguir isso indo a shoppings centers, mas faz algum tempo que desisti das comparações externas e esdrúxulas. mas de fato, parece meio injusto e inadequado reivindicar a intocabilidade de ambientes naturais pelo simples fato de sentir uma necessidade interna escandalosamente gritante... Quando questionado sobre a necessidade de um local adequado para meditar Gandhi disse que trazia a caverna dentro de si. Talvez isso fosse o adequado, a ponto de eu tentar me esforçar para manter aquela sensação (conquistada depois de uma hora em contato com a natureza) em todo e qualquer local, inclusive engarrafamentos e shoppings centers, mas tenho a impressão de que ninguém consegue, e que se pudessem apreciar a natureza "selvagem" haveria mais paz.

Acho que é isso que nutre o ambientalismo, que nunca parece satisfeito com soluções práticas. não quero "ecoeficiência", eu, nós, precisamos disso, o que eu quero é paz, amor e harmonia. Talvez tu lendo isso possa ter chego a concordar, mas lhe afirmo que dizer muitas vezes soa ridículo, e eu fico sem entender pois na minha lógica é isso o que mais importa e é para isso que o desenvolvimento tecnológico nos deveria guiar.

Apenas quando pudermos concordar que "mais vale um pássaro voando do que dois na mão" estaremos em paz.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Artigo: Por que querer uma ciclovia?

Foi com muita emoção que na segunda feira vi meu nome escrito no jornal! Não na página policial, claro. Foi um artigo que enviei ao jornal local. Vou dizer um pouco da "história" do artigo:

Em 2007 quando nos mudamos para Rio Grande eu e meu namo ficamos impressionados com o potencial da cidade para a utilização de bicicleta como meio de transporte. É tudo plano! Claro, viemos a descobrir que por vezes o vento forte exerce o papel de "subida". De nosso bairro até a faculdade existe apenas 15Km de uma enorme estrada. Fizemos o trajeto de bicicleta e apesar de demorar tanto quanto de ônibus, a aventura pareceu meio arriscada, isso porque não existe acostamento em diversos trechos e nos trechos em que existe não é calçado, o movimento de carro e ônibus é intenso. Apesar de o art. 201 do código de trânsito exigir que os carros ultrapassem ciclistas à uma distância mínima de 1,5 m  (link) nunca vi alguém obedecer.

 A coisa ficou ainda pior quando duplicaram a rodovia. Sim, pior (!) Pois, não houve a menor consideração com qualquer outro meio de transporte que não os carros particulares. Imaginem que ao lado da estrada colocaram guias, como em ruas!!! E os pontos de ônibus tem um recuo menor do que uma vaga, assim estes tem que usar a rodovia para frear e acelerar. O símbolo máximo do absurdo é representado pela placa do "ciclista voador". Colocaram uma placa pedindo para que o ciclista se mantivesse à direita... sobre a guia ou no mato, não conseguimos entender muito bem (ps.: a placa foi sorrateiramente retirarada para a temporada de veraneio).

Acidente fatal na RS-734 provoca manifestação.
Em agosto de 2012 o inevitável aconteceu e um ciclista foi atropelado e faleceu. Organizou-se através das redes sociais uma manifestação (link 1link 2), da qual eu e meu namorado participamos. Paramos a rodovia, acendemos velas, pintou-se o asfalto, distribuiu-se folhetos (link) e prendeu-se a "bike fantasma" triste. Alguns dos motoristas se mostraram impacientes, mas a maioria apoiou a manifestação.

A partir de então, o movimento ganhou força. Embora a petição não tenha alcançado 2.000 assinaturas. E a partir de então, no último domingo do mês, cidadãos simpáticos a causa se reúnem e fecham uma faixa da rodovia para fazer uma manifestação pacífica na forma de passeio. Na primeira manifestação muitas pessoas se reuniram, mas o retorno obtido pelas autoridades foi pouco e o movimento foi perdendo um pouco a força. Vou ressaltar que em todas as manifestações a polícia rodoviária esteve presente, podando um pouco o alcance do impacto, e sempre se mostrando bastante confusa quando a resposta para a pergunta "quem é o responsável, quem está liderando o movimento?" era um simples, e as vezes seco "ninguém!".

Primeira pedalada Massa Crítica e placa do "ciclista voador"
Ao ler um post no blog do Wagner Passos (RS-734 A estrada do ciclista voador - link) me empolguei e mandei diveeersos e-mails. A um deles obtive resposta, o deputado Adilson Troca ligou no meu celular dizendo que estava lutando por essa causa, que ele havia se articulado e conseguido o financiamento com o Banco Mundial para ciclovia do Cassino até o Bolaxa e que estava buscando meios e contatos de conquistar uma ciclovia por toda a estrada.

Eu não consegui dizer muita coisa, uma vez que ele falava bastante e eu ainda estava tentando realizar o fato de ter recebido uma ligação de um deputado. Mas, quando desliguei o telefone, pensei que o texto estava convincente e decidi mandá-lo para o jornal. Alterei algumas coisas, no e-mail eu citava votos e apelava para o ocorrido em Sta Maria, numa tentativa de dizer "ei, também somos universitários, podem nos dar atenção e prevenir que morramos atropelados". Achei que para o jornal não precisaria dessa parte, uma vez que o mais preocupante para mim são os trabalhadores que não tem outra opção de meio de transporte, e a intenção era despertar a comunidade para a necessária "revolução da sustentabilidade" (citando o livro Limites do Crescimento).

Por fim, me concentrei em 3 argumentos que considero o mais importante ao sair de casa e reivindicar por ciclovia:
1º) justiça social (é um meio de transporte barato);
2º) meio ambiente (o impacto ambiental é muito baixo, se concentra na extração de matéria prima e descarte de peças, que possuem longa vida) e;
3º) saúde e bem estar (exercício físico consiste em medicina preventiva).
No final o texto ficou assim:

Por que querer uma ciclovia?

 Évellin Keith*

A reivindicação por uma ciclovia na rodovia RS-734 já culminou em diversas manifestações, muitas das quais eu participei. No entanto, muitas pessoas não conseguiram entender porque consideramos tão necessária uma ciclovia (embora um acostamento já ajudaria). Bom, cada um dos manifestantes possui sua própria necessidade e argumentação, tentarei nesse breve espaço trazer o que me motiva.
 Apesar do crescente movimento na rodovia, poucos são os que podem (ou querem) possuir um veículo próprio. O transporte público além de desagradável, demorado e limitado, não pode ser pago por certos cidadãos. Eu me sinto muito mal em realizar alguma atividade sabendo que outras pessoas não podem contar com a mesma sorte. Ademais, a indústria automobilística, e mesmo o funcionamento de empresa de ônibus, são atividades concentradoras de renda. Aqui temos uma motivação referente à justiça social.
 Já se torna consenso de todos a preocupação com o meio ambiente. Combustíveis fósseis é uma fonte de energia limitada e não renovável, deveríamos utilizá-lo com muita cautela em atividades mais nobres, além de causarem poluição atmosférica em sua combustão, que por sua vez passa ao solo e à água, e outros impactos ao longo de sua cadeia produtiva (extração, refino, transporte). A fabricação de veículos também gera enorme impacto ambiental, como através da mineração, e produção de efluentes químicos.
 Gostaria de acrescentar mais um argumento, que se refere à saúde, não apenas na diminuição da poluição atmosférica, mas em relação à atividade física. Sabemos o benefício do esporte na prevenção de diversas doenças físicas (principalmente relacionadas ao sistema circulatório) e psicológicas (através da liberação de endorfina, sentimento de liberdade, independência e empoderamento). Muitos não podem pagar academia, dos que podem tantos não querem ou não tem tempo, a educação (no que diz respeito a acesso a informação e capacidade cognitiva) não chega a todos, e muitas pessoas carentes não reconhecem a importância da atividade física na saúde, mas, estes reconhecem a praticidade e economia de se locomover de bicicleta!
No entanto, atualmente, pedalar em uma estrada (ou seria avenida?) como a RS-734 é praticamente impossível. Já houve acidentes fatais sem que nenhuma medida fosse tomada. Muitos universitários se arriscam diariamente na rodovia, e inúmeros anseiam pela possibilidade de se locomoverem como exige sua consciência.
 Abraçar a causa e brigar por uma ciclovia vai muito além de proporcionar bem estar e lazer a população. Tal causa vai de encontro à sustentabilidade ambiental, inclusão social, melhora a saúde pública de maneira preventiva. A bicicleta representa de maneira simples e humilde essa revolução da sustentabilidade, não apenas por vontade, mas por necessidade de uma geração que atinge os limites da capacidade de suporte do planeta. Prepare sua magrela e venha fazer parte desse grupo de pessoas que acredita em um Rio Grande mais humano. Maiores informações: massacriticarg.wordpress.com
*Integrante do Massa Crítica Rio Grande

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Documentário The Cove

Nesse sábado, eu e meu namorado assistimos ao documentário The Cove, de 2009. O vídeo é tão chocante e profundo, que chorei em alguns trechos, quase vomitei em outros e no final ficamos congelados vendo as letrinhas subirem. Sem dizer uma palavra fiquei esperando que meu estômago se desembrulhasse...

Vou começar a narrar um pouco do documentário, isso é, spoiler!!

O documentário trata basicamente da matança de golfinhos que ocorre no Japão, os motivos são complexos e não lineares. A iniciativa partiu do treinador dos golfinhos que "interpretaram" o Fliper. Ric passou por uma experiência profunda, ele se apegou a uma "golfinha" pois são animais inimaginavelmente inteligentes, dóceis e carismáticos. No entanto, apesar de sua carinha sempre feliz a golfinha cometeu suicídio em seus braços ao, conscientemente optar por parar de respirar. A partir de então, o então rapaz, passou a sentir a necessidade de proteger os golfinhos, e se sentir culpado, pois, graças ao sucesso de Fliper, diversas pessoas passaram a nutrir o desejo profundo de ver, mergulhar e tocar em golfinhos. E outras pessoas, que sentem a necessidade de ganhar muito dinheiro, notaram uma demanda e construíram aquários e piscinas para proporcionar essas experiências aos "consumidores de emoção".

Golfinho, nós sabemos, não cresce em árvore. Eles nascem nos oceanos, e precisam ser capturados para ser expostos em cativeiros. Embora o SeaWorld afirme que eles se reproduzam muito felizes em suas piscinas. O ex-treinador supracitado, atualmente ativista ambiental, foi em busca da fonte dos golfinhos sorridentes e exibidos. Descobrindo uma pacata cidade no Japão denominada Taiji, a cidade (parece muito, muito, muito uma piada surreal, mas não é) possui monumentos à golfinhos e baleias, e diversas áreas são "privadas" e de acesso restrito, as quais não se pode filmar.

Sangue de golfinhos tingem a água numa enseada em Taiji.
Com muita astúcia, coragem, e dinheiro (!) a equipe do documentário conseguiu instalar umas câmaras secretas e filmar o massacre que ocorre nessas enseadas. São milhares de golfinhos mortos, o que tinge a água de vermelho, passando uma sensação verdadeiramente macabra. Alguns golfinhos mais bonitinhos são mantidos vivos e comercializados aos aquários, por até US$ 150.000. Nesses locais eles pulam e sorriem, vendendo alegria momentânea aos poucos privilegiados (e entediados) que podem pagar. O golfinhos lá são dopados de remédio, por estarem sempre sob muito estresse, afinal, no oceano costumavam nadar milhares de quilômetros diariamente.

Golfinho de US$ 150.000 no SeaWorld mantido em cativeiro
para que consumires de emoção possam beijá-lo.
Acontece que a conta não fecha, poucos são comercializados vivos e muitos são assassinados. A alegação era de que a carne era consumida pela enorme população japonesa que não tem muita área agriculturável e nem está disposta a pagar mais para os países que tem. Pois bem, acontece que no mercado não havia carne de golfinho a venda, e alguns entrevistados em Tóquio pareciam não acreditar que havia consumo de carne de golfinho. E isso porque, devido a dieta do golfinho ser a base de muitos peixes este acumula grande concentração de mercúrio. É tóxico! Ainda assim, descobriu-se, por testes de DNA que algumas carnes de baleia no mercado, eram na verdade golfinho tóxico e o mesmo na marmita das crianças (as quais são obrigadas a comer tudo para ficarem fortes...). Considerando aqui a diferença entre baleia e golfinho como a arcada dentária e o tipo de dieta. Bom, além de termos um fato chocante, o de que nossos golfinhos estão contaminados graças a nossa teimosia irracional em queimar combustíveis fósseis, continuamos com a conta da matança extrapolada.

Afinal, porque matar tantos golfinhos sem que haja tanta demanda, nem para o consumo alimentar, nem para o consumo de emoção? Golfinhos comem peixe, assim como nossos amigos japoneses, e todos os onívoros que buscam saúde e ômega-3, para serem mais inteligentes e bonitos. Logo, eles são competidores do mercado e os responsáveis pelo colapso pesqueiro! São pragas dos mares. Parece outra piada bizarra, e eu espero que seja. Outro fato sugerido no documentário se baseia no orgulho Japonês. Eles tem a tradição de matar mamíferos marinhos há milhares de anos, e aparecem alguns ocidentais prepotentes e dizem, "ei, mas nós amamos a fauna carismática! Não se pode matá-los. Só se pode matar vacas, galinhas, porcos e peixes." E então trata-se de algo bastante cultivado na nossa esquisita sociedade soberania e poder...

O documentário expõe maiores (e igualmente bizarros) detalhes, como a instituição que protege as baleias e não passa de uma fraude, em que o Japão paga para países miseráveis opinarem a favor da permissão da pesca de baleia...

No site do Take Part - the cove, diz que a quantidade de golfinhos mortos diminuiu. Não sei como eles conseguem contar e nem sei se tudo o que foi dito condiz fielmente com a realidade. O Japão afirma que não. Mas as imagens eram reais, e independente dos motivos os massacres acontecem anualmente.

Acho que vale sempre se questionar sobre nosso papel nisso. Apesar de ser algo distante, tudo está conectado e interligado. Eu, costumo me questionar há algum tempo, e assim como me sinto mal em assistir o massacre de golfinhos o mesmo me passa com todas as demais espécies, as quais deixei de consumir ano passado. Mas, ao mergulhar costumo sentir a necessidade de tocar na pouca e pobre vida marinha que resta, algo que passarei a questionar. E se sentia vontade de nadar com golfinhos, ou mesmo pagar para montar num barco e ir grunhindo e soltando fumaça até eles, já não sinto mais. Gostaria apenas de assistir a harmonia entre todas as espécies, todos os terráqueos (título do próximo documentário, o qual já baixei!).