Numa bela noite fresquinha, voltava eu de uma sessão de terapia, bastante reflexiva. Tinha me programado para "mandar um áudio" para uma amigona, com quem quero muito compartilhar os acontecimentos da vida. Segurei o celular na mão, mas precisava elaborar a fala ou pelo menos diminuir a vazão de pensamentos, fui fazendo isso a medida em que pedalava. Absorta em pensamentos. Às 19 horas de uma quinta feira. Quando sem muita explicação, um jovem muda de faixa e bate no meu guidão. Eu "volto" meus pensamentos todinhos pro meu corpo. A adrenalina, a confusão. "Porra!!! Nem pra ver se eu estava bem!!!". Falei tentando impor alguma moral, meio constrangida por ter quase caído e sentido dor na mão e na perna mesmo sem nenhum arranhãozinho.
E como você pode imaginar... Meu celular foi pelos ares, eu não me dei conta, o oportunista jovenzinho levou sua caça... Bloqueamos o IMEI e provavelmente agora, o espelho negro com fotos do bebê deve estar sendo vendido às peças...
O estranho é pensar que essa é a primeira vez que me acontece!!!
Celulares custão em torno de R$500,00... É mais que a renda mensal per capta de aproximadamente 8 mil pessoas em Ilhabela*
Vivemos um abismo social. Temos paisagens distintas e eu ando por elas. Eu entro nas vielas, busco famílias sem endereços, muitas e muitas pessoas no mesmo número. Eu pedalo em frente à enormes mansões vazias, sempre vazias. Não tem a menor chance de achar que isso é normal ou natural. Um bebezinho, que acaba de chegar nesse mundão véio, já chega condenado pelo acaso.
As atividades de esporte e "cultura" não cobrem toda demanda e muitas das atividades ofertadas não dialogam com os interesses e cultura. A qualidade da educação é bem questionável, afinal o gestores não utilizam da mesma. E mesmo que usassem, é uma educação que prende, que castra, que reproduz. Não temos atividades de convívio baseada na cooperação, na dialogicidade, na democraticidade... Me dizem "pois bem, mas enquanto isso não acontece, precisamos de uma medida mais urgente! Mais policiamento na ciclovia!".
Temos que ter muito cuidado com isso, muito mesmo. Essa receita de "vigiar e punir" NUNCA funcionou.
Quero fazer um paralelo com a UPP. Nasceu com a ideia de pacificar para que depois o Estado chegasse... Preparar o terreno para inserção de escolas e UBS. Pois bem, pelo elevado índice de homicídios brutais (Onde está o Amarildo?) podemos concluir que não foi uma medida exatamente eficaz. Há uma guerra. Uma guerra ideológica que ocorre em nossas pequenas relações. Existe uma força de extermínio dos pobres, mestiços, uma força histórica. Que se manifesta quando alguém discrimina os imigrantes do norte e nordeste, quando se expulsa pessoas que não moram em casas, quando se usa o discurso de combate às drogas para legitimar ações discriminatórias!!! Isso acontece aqui, na nossa linda Ilhabela e precisamos estar atentas, para não endossar essas ações.
Você consegue imaginar o rosto do jovem rapaz que me abordou?
Ele não era branco. Ele era exatamente o estereótipo do "bandido". O que me faz concluir que se o rapaz da periferia com "cara de bandido" tiver o mesmo conforto que o boyzinho, a probabilidade de eu ser furtada novamente diminui, e diminui muito.
Mas, quem tem o poder de tomar essa decisão é todinho privilégio. Faz cinco refeições por dia, nas quais se quer precisa lavar a louça, toma um banho quente num chuveirão, dorme na caminha quente e cheirosa, mora em uma casa agradável, arejada e iluminada, planeja a próxima viagem de lazer, e sonha com as inúmeras boas possibilidades de futuro para cria. Poucas pessoas, muito poucas estão vivendo isso agora. E são elas que decidem que medida tomar para impactar a vida da esmagadora parcela que sobrevive como pode.
Eu não quero que haja mais privilégios, quero que todos e todas possam usufruir da vida, sem precisar esperar o paraíso.
Murmúrios.
Imagens de revista.
Olhares assustados.
Discriminação.
Silêncio.
Indícios de que eu deveria sentir vergonha do meu corpo.
Deixei de me depilar quando percebi que o poder de decisão sobre meu corpo pertence a mim.
E faço simplesmente porque não gosto da sensação de perda de tempo, não gosto da dor da água salgada cicatrizando os microcortes, não gosto de monitorar o crescimento de pelos, não quero usar meu dinheiro com isso e por outro lado não me incomodo com eles. Me parece tão simples, razoável e coerente.
Tem dias que acho até engraçado imaginar alguém falando do pelo de outra pessoa! Eu rio imaginando um sovaco como pauta de conversa maliciosa "nossa, vc viu a sovaca dela?" hihihihi "puxa, que cabeluda" hohoho "imagine lá como não é?!" hahahahohoho "o namorado isso e aquilo"... E talvez a conversa possa ir longe onde só a podridão humana pode alcançar....
Outros dias, não tão bons, eu fico com pena. Pena dos guardiões do padrão hegemônico de beleza. Pena de quem se deixa oprimir e reproduz a opressão. Pena de quem não se liberta para viver o próprio corpo. Pena de quem precisa se fantasiar de boneca para manter uma relação.
Mas, nem sempre o mar está pra peixe. E existem alguns dias. Alguns poucos dias, que eu vacilo. E sinto uma enorme pressão de ter vergonha. Vergonha do meu corpo. Do meu uso do meu poder de decisão, reflexão.
Porque eu sou assim?
Por alguns segundos penso que eu tenho o poder de decidir mudar, me depilar, alinhar os dentes, tratar as manchas da pele, adequar o cabelo e a roupa. Só que eu não sinto tesão nenhum de fazer isso. E poucos segundos depois o mundo já me mostra infinitas possibilidades mais prazerosas do que ficar raspando uma porra de uma lâmina fria por toda a minha perna.
E porque diabos eu deveria ter vergonha do meu corpo?
Para que serve um corpo?
Pra agradar a quem?
Eu sinto vergonha.
Sinto quando faço um comentário maldoso. Quando no escuro do quarto, cansada de trabalhar não respondo com aquele carinho e paciência à enésima solicitação manhosa do bebê. Sinto vergonha quando minha resposta sai mais ríspida e atravessada do que a ocasião pede. Sinto vergonha quando me omito para não me indispor. Sinto vergonha quando me pego me imaginando na vida do outro.
E acho que são vergonhas muito mais nobres.
E teria vergonha se jugasse e murmurasse sobre a aparência física de alguém.
Quem é capaz de escutar
De ver a magia no nosso encontro
A distopia da separação
Uma só alma
Rachada, quebrada, partida
Que se recompõe a cada fim de tarde
Para se destroçar na manhã seguinte
Ilhabela, 23 de janeiro de 2017.
Meu bebê iria completar seus nove meses, e desde que ele tinha cinco e meio eu o abandonava diariamente à 7:30 da manhã. Ele aos berros, eu sustentando um sorriso falso. Ficava com o pai desempregado. E eu ia "bater o dedo" e cumprir horário num emprego em que eu me sentia constantemente subjugada. Me machuca saber que isso foi uma opção, é verdade que pagar o aluguel e as contas é uma demanda real, mas eu poderia abandonar o emprego e ir morar com meus pais. Mas eu optei por sofrer diariamente a violência de deixar o bebê sem a mãe todos os dias, muitas horas no dia.
As leituras sobre como bebês são fusionados com a mãe, a gestação externa, a importância de um ambiente tranquilo e amoroso, a formação do cérebro, a construção do vínculo, o efeito tóxico do estresse etc me deixam muito mais insegura e frustrada.
QUATRO MESES
Desde que o bebê nasceu, não antes disso, eu sofria com esse prazo. E não era a toa. Não consegui relaxar, o fim da licença maternidade foi um fantasma constante deixando meu puerpério ainda mais sombrio. E pode ter sido isso que o bebê manifestava em choros estridentes. É como aquele sentimento esquisito que acompanha um calafrio subindo pela nossa coluna, quando no silêncio do quarto, deitada na cama pensamos "eu vou morrer" e essa morte é tão real que nosso coração dispara para provar que ainda vive. "Vai acabar a licença" e o bebê não ergue o pescoço, não fica mais de uma hora sem me solicitar. Como vai ser pra ele esse sumiço brusco?
CENTO E VINTE DIAS
É o período que as instituições acreditam ser suficiente para um ser humano conseguir viver sem a mãe. Que a mãe depois de parir já consegue voltar à suas atribuições. Assim como se nada tivesse acontecido. Como se sua alma não tivesse em frangalhos, como se seu corpo físico não tivesse modificado, o seio vazando leite. Me senti bem insegura: será que nunca mais vou conseguir ler e escrever como fazia antes do parto? O raciocínio lógico, linear, lincar textos, notícias, fatos me escapava pelos dedos. Fiquei até um pouco feliz, só conseguia expressar sentimentos pela poesia, mas insegura, por não saber quem eu seria sem a habilidade ler textos complexos. Me surgiu a oportunidade de trabalhar com uma chefe que eu tenho muito mais afinidade. Uma pessoa humana, que valoriza o diálogo e olha no olho quando fala. Me lembro exatamente o dia que consegui ler um texto até o fim e compreendê-lo e falar sobre ele. 15 de março, o Gabriel tinha 10 meses e meio.
Hoje, nesse momento, estou num trabalho que gosto. O Gabriel fica na creche pela manhã, desde um ano, acho precoce. Ainda assim, quando minha amiga voltou pra Ilhabela, tentar reassumir seu emprego e no segundo dia estava absurdamente estressada eu apoiei sua exoneração. "Sempre quis um emprego público" ela me disse enquanto assinava o pedido. E tinha sentimentos muito contraditórios. Por um lado eu estava feliz por ela, e sentia até um pouco de inveja que poderia viver em plenitude a maternidade, por outro uma dúvida sombria me impedia de sorrir e aplaudir. Seria positivo abrir mão do trabalho? Ela que atuava com louvor na área que havia se formado, uma assistente social humana, empática, agora se queixa de estar desempregada e não contar com o próprio dinheiro pra comprar um grampo.
O Gabriel e o Joaquim e tantos e tantos outros bebês são privados de viver uma convivência harmoniosa e plena com suas mães tranquilas, seguras e satisfeitas.
Quatro, seis meses é um período ridiculamente curto quando se trata de puerpério, de convivência entre mãe e bebê. Por isso muitos países já adotaram licenças que ultrapassam um ano, e isso não acarretou uma influência negativa em suas economias. Porque não se trata disso.
A decisão política de manter um período ínfimo de licença maternidade é machismo.
Não é sobre o quanto o saber de uma mulher faz falta no desempenho de sua função.
Não é sobre o impacto econômico de pagar o período de afastamento.
É violenta, burra e prejudicial, social e economicamente.
Faltando dois dias para encerrar minha licença maternidade, impossível
não me perguntar
“como me meti nisso?”
Tentei desesperadamente, ao longo desses 4 (sim, míseros 4) meses
ignorar o fim da intima convivência com meu filho. Mas chegou. Juntei 15 dias
de amamentação, com 30 de férias, como se fosse um divino presente do qual eu
devesse ser muito grata, mas acabou. Segunda feira volto a rotina, 1 hora de
deslocamento, 1 de almoço, 8 de “trabalho” e lá se vão 10 horas do meu dia. 10
horas longe do meu bebe, que ainda é extremamente dependente de mim. Estive
esperando por um milagre, que ele fosse um prodígio que se alimentasse sozinho
e não precisasse do cheiro, da voz e do ritmo cardíaco do casulo que lhe gerou
a vida. Mas não, ele não é nenhum prodígio, é um bebe de cinco meses e meio que
fica assustado longe da mãe, procura o peito para se alimentar e não consegue
dormir sem se sentir absolutamente seguro. Cada vez que eu olho as horas um
arrepio frio percorre minha coluna e se concentra nesse enorme nó formado na
minha garganta, penso “eu já teria saído” e “eu ainda não teria chego”,
enquanto ele mama, me olha, me toca, me cheira, me ri, me chora, me dói, me
escorrem as lágrimas graves, espessas. Eu deveria ficar feliz que ele vai poder
ficar com o pai, mas só consigo sentir revolta.
Eu, formada em oceanologia, mestre em gerenciamento costeiro, vou voltar
para o CRAS, no meu emprego de nível médio, ganhando 2 salários mínimos. E
volto a me perguntar,
como cheguei aqui?
Retomo todas as escolhas que me guiaram para tentar descobrir se vale a
pena seguir nesse "caminho que eu mesma escolhi".
Oceanologia, excêntrico! Foi por me sentir tão deslocada da sociedade.
Estranha na família, estranha com amigos, sem saber lidar com pessoas, sem ver
sentido na sociedade, e achando que o problema era eu. Que curso maravilhoso,
interessantíssimo, com colegas maravilhosos e um buraco. Aprendi a usar a
biblioteca, criei gosto por estudar. Mas, depois de formada fiquei meio
perdidona sem saber bem o que fazer com aquele papel bonito, chamado
diploma.
Primeira crise.
Mestrado é o que (quase) todos fazem. Eu queria esperar meu companheiro
se formar, gostava da nossa rotina, da nossa casa, do nosso bairro, de acampar
no mato. Gerenciamento Costeiro foi uma opção menos academicista. Li Paulo
Freire, Henri Ascelrad, Pierre Clastres, Henry Thoreao, Tolstoi, Gandhi, La
Boétie, clube de roma, me envolvi com a turma de Educação Ambiental, grupo de
estudo sobre o poder, fiz teatro, coral, vi a revolta contra a copa. Tapei o
buraco, meu ser político acordou com uma fome monstruosa, comendo tudo a sua
volta. Minha dissertação se transformou num caderno vermelho que objetivamente
desacreditava o “selo verde” de “pesca sustentável”, e entendi o horror por
trás da palavra Mercado.
Segunda crise.
O papel bonito perdeu todo sentido, não me identifiquei como oceanologa,
não alimentava meu ser politico, me distanciava do que eu precisava. Pensei
cursar sociologia, talvez devesse. Mas o pânico de seguir eternamente
desempregada – o que dificulta sentir a segurança necessária à uma taurina para
constituir uma família – me fez buscar um emprego em algo social. Orientadora
social! Concurso de nível médio. Quanto mais eu lia sobre a Política Nacional
de Assistência Social mais me apaixonava, me identificava. Fui tomada por uma
vontade incontrolável de passar meus dias juntando prática com teoria e de
forma lúdica, prazerosa e criativa empoderar as massas oprimidas que se amontoam
na periferias. Pimba! Vim parar em Ilhabela. Enredada numa politica confusa.
Passados 12 meses não empoderei porra nenhuma, talvez tenha até perdido um pouco
do poder sobre eu mesma. Terei que voltar pra esse cenário onde o poder é
totalmente desarticulado da execução, não há escuta, há uma gestão top down,
aparentemente sem plano nem conhecimento técnico, teórico. E o pior, às custas da saúde
emocional do bebe que me foi confiado.
Terceira crise.
Hoje, depois do seu primeiro (e desesperadamente precoce) banho de mar,
ouvi encantada a gestante, mãe de uma guria loira de 2 anos, que nadava nua e
se entrosava com todo mundo da praia, como era sua vida no sítio, sem escola, sem
emprego, sem internet. Com tempo, com vínculo, com Vida.
Nesse cenário me pergunto aflita, com as costas tensa, a garganta rota, os olhos marejados. Será que eu ainda acredito na Politica Nacional de Assistência Social?
Será que eu ainda acredito em uma revolução suave partindo do Estado? Ainda
mais depois do impeachment? Será que tenho outras opções?
Tenho medo da mãe que o cansaço pode me tornar,
muito medo, da mãe que eu não quero ser, medo da saudade da mãe que eu sou e
dos momentos que não viverei, dos momentos que o bebe não viverá. Tento juntar
forças para lutar. Lutar por 6 meses de licença, lutar pela humanização do
Estado. Mas me vem uma dúvida, vale a pena? É possível? Talvez a única coisa
real seja o alimento crescendo no solo e os momentos vividos com vínculo e
liberdade.
Entro no
mercado comprar frutas e verduras, de terça que tem maior variedade. Sempre
sinto um certo incomodo por estar naquele lugar, não sei dizer o que exatamente.
Seriam as embalagens coloridas, plásticas, contendo produtos artificiais,
“comestíveis”, que além de não fazerem bem (isso é nutrirem) ainda fazem mal?
Passo cada vez mais determinada e ilesa pelas prateleiras centrais, recheadas
de açúcar. Quem busca um incentivo para isso aconselho assistir ao documentário
That Sugar.
Acontece que
mesmo na parte saudável do mercado o incomodo permanece. É como uma frustração,
na minha lista de compras mental sempre tem:
- frutas
- legumes
- verduras
Não
especifico, vou buscando variedade, de preços, qualidade e oferta, conforme a
época e o tempo natural de cada espécie. Mas, encontro sempre tudo igual. O
mamão no lugar do mamão, as bananas penduradas, maçã, manga, e as outras de
mais de 10 reais o kilo que variam pouco. Legumes também, batata, cenoura,
abobrinha, berinjela, tomate, cebola. O máximo da variação é se vai ter bons
xuxus ou pepino, mas nada tão surpreendente. Saio quase sempre com o mesmo, me
perguntando como fazer pratos variados com mais do mesmo. Me sinto um tanto
frustrada quando desejo um abacaxi que custa 8 reais a unidade. Aperta a
saudade das poucas bancas de produtores genuínos da feira do produtor, sábado
de manhã, no Cassino.
Mas, nem tudo
é saudade. Muito bom morar uma ilha tropical extremamente fértil!!! Assim que
cheguei o que me chamou atenção foi o exorbitante tamanho das árvores.
Mangueiras astronômicas! E em novembro elas estavam carregadas, e jogavam seus
frutos numa abundância desconcertante. O asfalto de modo implacável fazia com
que cada uma se estraçalhasse no chão. De modo que um fruto tão nutritivo se
transformasse num estorvo, melecado e fedorento. O asfalto a impedir a vida.
Acontece que
algumas mangas caem na terra. Sempre haverá a terra para as sementes brotarem!
Pudemos comer manga por todo dezembro. Para cada pé em terra ou grama uma
sacola, e depois de chupar todas quanto desejávamos, congelávamos a poupa.
Pura, ou em sucos, frapes, e mousses, refrescantes, doces, nutritivas,
amarelas. Menores e mais saborosas que as do mercado!
Até que
aquela árvore altona, que já havia me chamado a atenção por seus frutos
engraçados, passa a me oferecer a oportunidade de provar mais um sabor. A Jaca.
Não sei qual
sua origem. Indonesia ou India, me disseram uma vez. Sei que se adaptou muito
bem no clima tropical brasileiro. É muito abundante a quantidade de pés, da
dura e da mole. A quantidade de frutas por pé é de uma generosidade
impressionante. Como se não bastasse, cada fruta é impossível de ser consumida
por uma pessoa só, mesmo pelas mais avarentas. Foi assim que muito feliz fui
introduzida no mundo da Jaca. Aprendi a comer refogada com cebola e azeite,
usei o miolo da mole e a poupa da dura, aprendi a tirar o grude com óleo. Fiz
receitas doces, bolo do caroço, torta de massa podre, conserva. Além de comê-la
crua, pura. Ganhei muitas, pois descobrimos que tantas vitaminas e nutrientes
eram especialmente benéficos para gestantes. Não parei mais de ganhar jacas!
Além das que colhia por aí.
É tão livre,
o modo como elas crescem nas ruas, ao alcance de todos, é tanto nutriente
disponível sem cobrar sequer um centavo em troca, é simplesmente uma ofensa ao
individualismo capitalista. É o anarquismo vivo saindo das entranhas da terra
para nos alimentar!
Mas, já não
podemos mais encontrar aquele raro saquinho espinhudo grudado nos troncos. E
quando chego no emprego não encontro mais um peculiar geóide sobre a mesa. As
jacas discretamente vão saindo de cena. Mas, assim como foi com as mangas, uma
delicia nutritiva dá lugar a outra. E já não é só um aroma no ar, as goiabeiras
estão ofertando os mais deliciosos frutos, nutritivos, seriam as vitaminas
adequadas para o fim de verão e inicio de inverno? Os pés carregam, sem fertilizante
nem defensivo.
E como forma
de retribuição, vou me dedicando a guardar sementes, e com um esforço desmedido
produzir mudas que darão árvores para nutrir outras gerações!!! Provando a
todos que não existe inflação. O custo dos alimentos é exatamente o mesmo de 5
mil anos atrás, uma porção de Sol, solo fértil e um bocado de água. Todos tem
acesso e podem colher, desempregados desesperados ou por malandragem, o mocinho
e o vilão, a virgem e a puta, criança e idoso, nutridos e saudáveis só esticar
o braço e morder.
Foram momentos intensos esses de capacitação profissional! Adoro assistir alguns conceitos firmemente consolidados se encher de dúvidas.
Em um dos dias o tema foi Família...
Inicialmente cada um deveria escrever a palavra que lhe viesse a mente quando se falava em família. Pensei conflito. Mas ouvindo os colegas comentando amor, amizade, proteção, preferi mudar para convivência. Comentei com uma amiga que por sorte me disse: eu tinha pensado em ilusão, mas preferi escrever aprendizado. E assim não destoamos muito da opinião pública.
E então a outra etapa foi fazer um desenho do que nos representa a família, e explicar para todos o porque. Lá estava eu, com meus quatro meses de gestação, olhando uma folha em branco, lembrando de meus pais e tentando identificar algum sentimento passível de ser desenhado. O tempo correndo. "Fiz uma casa por ser o espaço onde se materializa a relação familiar", que ficou meio perdida em meio a tantos corações e elos de corrente. Puxa, já estava me sentindo uma bandida sem coração, sendo tão crítica de uma instituição tão indiscutivelmente amada.
Só que dentro de um CRAS, as famílias atendidas são bastante diferentes de um comercial de margarina. E esse era justamente o pulo do gato. Nosso querido facilitador nos divide em subgrupos, entrega cartolinas e diz, em uma metade desenha a família ideal, na outra a real. O grupo começou discutindo como representar o amor, respeito, confiança, seria um coração com luzinha? E então nossa mestre Yoda, lançou o cutucão: e vocês acham que não precisa de papai, mamãe e filhinho? Se não fosse ela eu provavelmente pensaria "lógico que não" e fim de papo. Uma do grupo defendeu firmemente que não. Dizia ela, dos casos de filhos que são bem tratados por pais viúvos. E perguntei meio assustada: e isso é o ideal?! Que a mãe morra? Passaram a dizer das crianças que são adotadas por gays amorosos. E novamente é esse o ideal? A criança ser afastada dos pais por algum fator bastante negativo para depois entrar num lar harmonioso? Mas então, nesse caso estaria eu defendendo a família tradicional brasileira? Talvez fosse melhor ter ficado nos termos abstratos e indiscutíveis, a família ideal é aquela que fornece proteção, amor, carinho, respeito, diálogo. A Yoda interveio novamente: não digo de gênero, mas com dois adultos fica muito mais leve dividir as responsabilidades e somatizar as alegrias. A outra colega, que não contou com auxilio presencial do companheiro na criação de seus dois filhos confirmou que é muito difícil formar a família sozinha, ter que organizar a casa, cuidar da saúde, alimentação, educação, tomar todas as decisões, etc. Então desenhamos duas silhuetas grandes e uma pequena, envolta por um coração com aberturas para o mundo exterior, com setas de acesso à unidades de saúde, lazer, educação, cultura, esporte, ambiente saudável. Do lado real ficou uma mulher com diversos filhos, sendo uma gestante, casinha de palafita no alto do morro, sem acesso a transporte, educação, saúde, com lixo e esgoto nas ruas, e violência verbal. Um pouco estereotipada, seria como a soma das vulnerabilidades das famílias atendidas.
Acontece que a capacitação continuou e os temas foram mudando e numa certa manhã falou-se de adolescência. E do fato de o Brasil ser um dos países com maior índice de homicídio entre meninos. Isso sendo permitido e incentivado pela guerra contra o tráfico. Aliás essa é a principal ocupação dos casos de trabalho infantil. Isso me deixou incomodada. Não é uma informação inédita, mas sempre incomoda.
Logo em seguida, não sei bem como entramos no tema da habitação. Na Ilhabela os aluguéis são exorbitantes e me revolto toda vez que estou nos cafundéu de uma viela escura e fedorenta, preenchendo um cadastro e a pessoa diz que paga 500/700 reais de aluguel. Isso é quase um salário mínimo!!!
E então me veio uma conclusão óbvia na cabeça.
Seria melhor legalizar e regulamentar a venda de drogas e proibir a cobrança de aluguel para moradia.
Enquanto isso seguiremos enxugando gelo...
Um tema que cada vez me incomoda mais e mais, e tem se tornado quase insuportável. É quanto a servidão entre os cidadãos ordinários. A relação com empregada doméstica, garçom, faxineiros sempre foi algo que me incomodou muito. Fica um clima esquisito, que dá pra perceber no olhar, no gesto das mãos. Não é como conversar com uma amiga, no ponto de ônibus. É um clima, me dá a sensação de que algo está errado, me dá vergonha. Tenho vergonha de cumprimentar, de não cumprimentar, todo papo parece inadequado. Falar como se fosse amiga me parece pior que como (amiga da) patroa. Coação ou coerção.
Num livro baseado no diário da empregada da Virginia Woolf, nas primeiras páginas a autora diz que vai descrever como "a admiração se transfora em decepção, o respeito em repulsa". Fechei o livro e enfiei no armário. Achei pesado e sombrio. Queria uma história leve, que me inspirasse justamente o oposto! Onde as relações se fortifiquem e não se desgastem.
Aí então, desempregada e pensando na próxima fatura do cartão, fui trabalhar de babá para conseguir fechar as contas. Por um lado eu queria mais essa experiência do que de fato fechar as contas (que eu poderia facilmente fazer emprestando sem juros dos pais, burguesa que sou). Sabe é meio engraçado ir com diploma de mestrado e passaporte italiano trabalhar de babá, nem a patroa sabia muito como agir. Percebi que a relação com a empregada da sogra (que gentilmente me hospeda) mudou, me revelando segredos sórdidos do mundo dos subalternos, as babás do playground conversavam comigo de modo mais fluido, não como quando eu descia com as sobrinhas. É que agora eu sei em primeira pessoa como é entrar no prédio pelo portão dos empregados e no apartamento pela porta de serviço, como é usar o banheiro de empregados que destoa do resto da decoração, como é lavar uma roupa que não é tua e educar (pq qndo me dei conta que não era para educar, mas só para manter viva a criança o trampo já tinha terminado) uma criança que vc não conhece, comer sozinha o que restar do almoço, nem pensar em sentar no sofá ou ligar a TV. A Nini não tem paciência com crianças, ela trabalha das 8 às 18, faz a faxina do duplex e cuida da Bia de 2 anos. Quer mesmo é trabalho de escritório. A Fafá recém casou e sonha em cuidar da própria filha.
Não acredito que alguém realmente queira servir. Que goste de ser empregada doméstica. Nesse caso haveriam cursos, especializações, congressos. "Sonho em ser empregada doméstica desde que era menina, enquanto não consigo a tão sonhada vaga estou me especializando". Ou ainda, se fosse um desejo natural fruto do acaso, porque só animaria as classes pobres? É razão da circunstância, que alguém se sujeita para fugir da miséria do desemprego.
Seria justo se aproveitar dessa situação? Se beneficiar da miséria alheia? Ao terceirizar o trabalho necessário, mas não lucrativo, pode-se dedicar ao lucro, ao estudo, à promoção. Que será repassada? "Meu salário e de minha esposa aumentaram 10%, vamos aumentar 10% do teu também".
Tirei o livro do armário. Talvez o mais digno seja mesmo essa transformação infeliz nesse tipo de relação. Quando ano depois de ano, limpando a privada, dobrando cuecas, se repara que não há nada além disso. Quando se dá conta de que nunca haverá amizade, apesar da convivência, nunca haverá igualdade, nem diálogo, quando a preocupação com sua doença se resume a encontrar um substituto, mesmo tendo dividido o mesmo teto anos e anos, é natural que surja certa repulsa... No caso da Inglaterra de 1920/50 as empregadas dormiam nas casas, elas moravam sem usufruir do espaço, da companhia, das conversas, do conhecimento.
Assim foi também com a Paula, governanta de Freud, segundo o livro baseado nos seus relatos. Relato é diferente de diário. E a empregada se diz fiel aos patrões, por medo de perder o reconhecimento, o emprego, o lar torna-se obsessiva. Ignora problemas de saúde, físico e social, para servir, temerosa de ser substituída. Por sua vez ela é mais incluída na família, quando é isolada pela Gestapo numa ilha a patroa torca cartas, manda dinheiro que apesar da recomendação "gaste com você", Paula usa comprando presentes aos patrões e seus amigos. No entanto, não há de modo algum sinais de possível igualdade, pois mesmo tendo estado por décadas sob o mesmo teto dos maiores psicanalistas da história, ela sabe menos sobre o tema do que eu. Não senta na mesa junto, não participa das discussões. Serve para servir.
Enquanto nos negarmos a dignidade dos trabalhos domésticos, não haverá coerência nas súplicas por justiça, igualdade e se quer fim da corrupção. Pois é corromper alguém, usar o poder do dinheiro para convencê-lo a abrir mão de sua dignidade, ao fazer um trabalho que o pagador não faria... Não há respeito possível nesse tipo de relação. Por mais polido que se busque ser, usar alguém obviamente mais pobre para limpar sua sujeira, para que possas morar numa casa maior que não se conseguiria limpar sozinho e trabalhar, é desrespeitoso, abusivo, e isso não tem valor pago capaz de extinguir. O contentamento verdadeiro em fazer esse serviço para terceiros, saudáveis e capazes, não pode ser comprado, pague-se quanto pagar, haja a lei que houver, discurse-se o que se discursar. A relação já se inicia corrompida, corrompendo.
Cercada por muros e cercas a vida acontece.
Da maternidade para o apartamento, para o shopping, cercas dos parques, dos estádios, muros das escolas, universidades, empregos, hospitais, museus, igrejas, por fim, os grandes muros dos cemitérios.
Pela via pública se transporte de um muro ao outro. O público é sujo, é fedorento, é desagradável. As ruas de fluxo rápido expulsam, só servem ao privado com ar condicionado e música ambiente. O público é hostil e perigoso. Nas ruas sem calçadas o público se espreme entre altos muros hostis adornados com cerca elétrica e o atropelamento. Fedidas, quentes, sujas, barulhentas e violentas. Uma vez por ano tem samba na via pública, mas o espaço dentro da corda é privado.
A praça é pública, mas a grama tá alta, o banco é desconfortável, não tem sombra e a noite não tem luz, não se escuta grilo, sapo ou cigarra. O comércio acontece e a interação pessoas entre si e com ambiente passa para segundo plano.
A piscina é limpa, estável, segura, clorada, estéril. A água pública é perigosa, tem correnteza e poluição, tem bicho. A potável tá escassa vem de rio poluído. A água que foi murada e engarrafada é pura e saudável.
Muros de diversos tamanhos e cores devem ser respeitados em sua nobre e única função de segredar, conter os de dentro separados dos bárbaros, selvagens de fora. Muros não servem para propagar filosofias, ou demarcar espaços de gangues desmuradas, não servem para expor arte gratuita e nem protestos sérios. Quem desrespeita o muro ganha uma estadia entre grades para entender melhor o papel das paredes.
Bem vinda à (capital latina do capital) São Paulo, obrigada.
A lógica vigente parece ser "quanto menos natural e público melhor". A segregação descriminadora é parte do cotidiano.
Quanto menos assisto televisão menos capaz de assisti-la me torno. E isso seria um motivo de orgulho se conseguisse transpor os momentos sociais em que todos olham para TV. Não consigo. Então fico no meio das pessoas tentando me passar por torta frita. O bom do locus social que me encontro é que o sofá é confortável, a sala tem ar condicionado, a refeição é farta, o ruim é que parece que nada do que penso e sinto faz sentido. Muito embora cada vez me torno mais convicta da minha coerência.
Por alguma razão a rede globo resolveu pregar acerca da depredação dos ônibus. Seria tudo bem se a matéria do fantástico não começasse com dois adolescentes assassinados por policiais durante um baile funk (possivelmente único momento de lazer de jovens da periferia). E então o repórter me diz em tom de horror "jovens queimaram um ônibus, porque acreditam que policiais tenham matado dois traficantes". Bem, que tenham sido assassinados por policiais, isso é uma suspeita, mas que eram traficantes não resta dúvida. O julgamento já foi feito, várias vezes embora nenhum juiz tenha participado. Foram julgados e condenados a pena de morte executada de imediato sem advogado de defesa, pelos policiais. E novamente julgados pelo repórter.
Mas, ao que parece esse não é o problema! O problema, e o drama todo reside no ônibus queimado. Sim, caros amigos, o ônibus. Essa é a vítima principal da ocorrência, o foco de nossa atenção e compaixão, o motivo de nossa revolta, nós membros da classe média.
Ainda estou um tanto incomodada com essa reportagem, e olha que faz semanas. Imaginem que entrevistaram uma funcionária da empresa de ônibus. E ela disse o valor do ônibus. Pois, uma informação séria tem que ter números. E eu não me lembro o valor porque estava pensando "Por que o senhor atirou em mim?". Imagens de horror de um ônibus vazio vagando pela noite eram exibidas, enquanto o motorista narrava o medo que sente de ser abordado. Outra voz disse que estava num ônibus que foi queimado "Eles mandaram a gente sair - desce, desce". Outro número foi exibido, que também não tenho certeza, mas acredito que era algo como: desde o início do ano 45 ônibus foram queimados. Nessa hora meu estomago embrulhou e calculei que seriam 90 assassinados nas periferias da cidade, 3 salas de aula inteiras. Se extrapolarmos o caso narrado para os demais.
Desses jovens nenhum tem nome. Nenhum tem mãe sendo entrevistada. Nenhum tem voz. Possivelmente não saberíamos de suas mortes, não haveria notícia se não fosse pelo pobre e querido ônibus queimado. A preocupação é com o patrimônio. O ônibus de 3 reais a passagem. A coisa que atropela a vida até no lúdico, na narrativa.
A colega do meu lado, confortavelmente deitada em seu sofá, fica assustada. "nossa, que absurdo, depois reclamam do preço da passagem". Meu coração bate forte, como falar sem gritar sacudindo-a pelos braços? "dois adolescentes foram assassinados" e vem a resposta 'eram traficantes' como se isso justificasse. Como se fosse legítimo assassinar todo e qualquer suspeito de tráfico que more na periferia. O coração continua batendo forte, meu inconformismo dificulta meu raciocínio, sinto o namorado me cutucar, de novo, cada vez mais forte. Devo me calar? Não posso, parece que seria trair a mim mesma, parece o mínimo que posso fazer por toda injustiça é me posicionar numa conversa informal. Na dúvida me permito um último e fugaz argumento, digo então rapidamente: "esse não é o papel da polícia". E então volto a posição torta frita, ignorando todo o resto, olhos parados fingindo ver tv, por dentro um turbilhão.
Estou condicionada, depois de 28 anos adestrada, a colocar o individual acima do coletivo. - Eu não mereço ser estuprada! E as outras? - Me incomoda sobremaneira o cutucão, esqueço dos jovens na periferia. Nas conversas individuais com o namorado sempre concordamos com o absurdo da injusta luta de classe, mas num momento como esse ele me cutuca, me oprime, me abandona, controla o que posso ou não dizer? Não confia que eu consigo conversar sem destruir vínculos familiares? Eu consigo? E de modo covarde, que dissesse "bem tenho uma opinião sobre isso, mas o mais adequado seria cada um guardar sua opinião para si", ai então também seria julgado.
Característico de mim mesma rumino, rumino, e rumino sobre isso. Controle. Não quero que ele me controle, mas isso não seria controla-lo? Proibi-lo de me cutucar: uma advertência agora, dá próxima é suspensão. Não. Só posso controlar a mim mesma, o que sinto e faço com o que me afeta. Não existe a menor possibilidade de controlar ao próximo, não quero isso, sou incapaz disso. Gostaria de não receber um discreto 'fica quieta' de quem gostaria de receber explicito apoio. Mas, a verdade é que acima de tudo não quero que ninguém me obedeça, que seja menos livre só para me satisfazer. Só cabe a mim decidir o que fazer com as próximas cutucadas. E decido que irei ignorar, não é bem um 'foda-se' é mais como um 'puxa, seja lá o que eu quiser dizer preciso moderar o tom para que ninguém se ofenda', e então seguir dizendo. Afinal, foi uma luta muito grande para que as mulheres tivessem voz, e me calar seria uma verdadeira traição.
Tenho o privilégio de fazer parte desse microuniverso chamado classe média branca. É um enorme e infeliz privilégio por várias razões: a mídia não me estereotipa de bandida, subalterna, horrorosa e ignorante. Não tenho medo de ter a casa invadida, o pai sequestrado pelo Estado. Me sinto pertencente a locais públicos, como universidade, shoppings etc.
Por outro lado, viver nesse universo me deixa cara a cara com opiniões e posições um tanto desconfortáveis. Agora em época de eleição a ignorância política/social de nossa classe fervilha. Eu me incluo nessa ignorância toda, pois seja por desinteresse, seja por incapacidade cognitiva não sei nada de política partidária. O que para mim tá tudo certo, uma vez que me assumi como anarquista e no fatídico domingo de eleições pretendo ir a praia, nem votar, nem anular, nem justificar. Me sinto a vontade com essa decisão porque não acredito no sistema eleitoral, sinceramente, você pesquisou todos os candidatos e propostas? De todos os cargos? E sabe qual é a função de cada um desses cargos, e acompanhará o desempenho de cada candidato eleito? E sente-se representada por tal criatura? Acho que pode ser que sim! Ótimo, mas o que tenho escutado me deixa confusa e chateada.
O maior argumento da classe média que vem falar de política comigo é que não vai votar na Dilma porque ninguém aguenta mais o PT! Cuma? Simples assim, saiu de moda, ficou cafona. A cada estação muda-se a estampa na vitrine do shopping, a cada eleição deve-se renovar o presidente! Tá mas você viu que bem ou mal houve enorme progresso na qualidade de vida da população carente, Planos e Políticas para adolescentes em risco social e pessoal, aprimoramento na Lei de Assistência Social, e essas coisas?
Acho que no auge do choramingo "classe média sofre" talvez seja justamente por isso que PT "saiu de moda". E aí vem a proposta da nova política.
E eu fico realmente confusa. Que inovação toda essa gente quer?! Aqui eu meio que me identifico, porque também quero revolução. "Eu, candidato pretendo romper com valores capitalistas, e acabar com toda e qualquer hierarquia. Ao longo do meu governo buscarei empoderar as pessoas de modo que a massa se desfaça em seres apropriados de si, que pensam de modo crítico. E juntos diminuiremos os poderes de bancos, empreiteiras, montadoras e demais multinacionais monopolizadoras." Mas, sinceramente, acho bem difícil que seja essa a inovação buscada por quem está "cansado do PT".
Acho que no auge de sua ignorância sociológica, de direitos humanos, despidos dos valores de Igualdade, Liberdade e Fraternidade, no topo de seu interesse mesquinho pela busca incessante de mais conforto, poder de compra e satisfação de prazeres sociais, de ampliar sua rede de servos, eles querem uma mudança chamada austeridade e retrocesso. Deus abençoe suas incapacidades de articulação, amém.
Essa semana a empresa de transporte público provou que seu lema é "lucra bem para lucrar mais".
Curiosamente, os pontos de descida foram removidos. O ponto em que mais se descia gente, onde formava uma certa muvuca, foi o que mais causou estranhamento. De um dia para o outro o ponto não tava mais lá. "Vai descer" grita a galera do fundão. "Num tem mais ponto" responde o motorista mau humorado, emendando um "parece burro".
Simples assim. Que eu tenha conhecimento, dois pontos de descida foram subtraídos sem aviso, sem explicação. Deixando uma enorme distância a ser percorrida. Passageiro descendo não dá lucro, o lucro é com quem sobe. E afinal, conspiração de minha parte, a região do Guanabara vem investindo fortemente numa limpeza social. Afastando os pobres, tirando da vista. Muda a rodoviária, subtrai um ponto.
Na semana passada descobrimos que o ônibus das 12:50 agora é das 12:55. Ontem, chegamos na rodoviária e às 12:55 nada de ônibus (cassino - furg). Ia saindo um para o centro, perguntamos ao motorista "Deve estar chegando" e foi-se embora. Melhor pedir informação: "Num tem mais esse ônibus porque é férias". Simples assim, na quarta tem ônibus, na quinta não. Entramos no centro, digo o que chama Cassino, mas curiosamente vai para o centro. Ao longo do caminho sobe ao menos 13 estudantes que não sabiam, mas estavam de férias. Estudante já paga meia, para dar (muito) lucro precisa de estudante pra caramba. Com isso todos ficaram sem almoço...
Na volta decidimos nem arriscar esperando o furg-cassino. Fomos na faixa e pegamos o Cassino que aí sim, de fato vai para o cassino... Lo-ta-do. Respirei fundo, e me enfiei tentando achar algum espaço. E o motorista curiosamente segue parando nos pontos e apanhando gente. "Tá lotado motora". Começa a massa amontoada se manifestar. "Só mais cinco" responde o motorista para minha enorme surpresa. E não é que entra mais 5 mesmo? E dos grandes!
Só que é humanamente impossível e extremamente desagradável atravessar o ônibus para descer. E então, as pessoas que estão desconfortavelmente exprimidas na parte da frente se esforçam para alcançar a catraca, pasmem, pagam sua passagem, giram a catraca e descem pela frente, a cobradora grita "girei pra moça"! Essa é uma metodologia que não faz absolutamente nenhum sentido para mim!
E as cinco pessoas grandes que haviam entrado, logo (uns 5 pontos depois) vão descendo. "Eeeeei, mas vocês pagaram a passagem?" silêncio. Gritando para cobradora "Você cobrou desses cinco?" "Só recebi da menina e da senhora". Não me contive "Deixa descer, eles nem entraram no ônibus". Segui argumentando com 2 homens que pareciam concordar "não faz falta, essa empresa já lucra os tubos na nossa costa". Alguém pagou as passagens, possivelmente um cidadão de bem que acredita que a caridade é a salvação...
A cobradora pareceu ficar meio de cara comigo e dava indiretas dizendo que já tinha espaço no fundo, fica na frente porque quer, quer atrapalhar mesmo, resmungava. Não consegui ver o espaço atrás, apesar de ter ouvido bastante gente descer, e nem consegui identificar porque eu deveria passar pra trás. De todo modo eu fui, afinal queria ficar perto do meu companheiro. "Tem que ter mais ônibus, esse horário é sempre cheio, fica ruim até pra vocês, mto estresse" falei no tom mais simpático que consegui achar. "Num sei porque tá cheio, ontem mesmo veio vazio" respondeu mais calma.
Depois de ter passado o dia inteiro desejando que o presidente dessa joça fosse afetado de alguma forma. Imaginar o iate dele naufragando e deixando ele com frio e fome por uma semana. Depois de mentalizar todos os escritórios pegando fogo, graças a molotov. Depois de sentir vontade de tacar fogo naquele ônibus. Depois de desejar ardentemente que cada realzinho de lucro que entrasse no bolso algum tonto trouxesse um desagrado. Enfim, depois de mirar encima comecei a pensar porque razão os motoristas e cobradores fazem tanta questão de assegurar o lucro do patrão?
Imaginei o condicionamento mental que paira pela empresa. "Num dá pra por 'lotado', pensa naquelas pessoas no ponto, elas esperam pelo transporte para chegar nas suas casas." Ou ainda "tem muita gente ignorante e mal educada que pega o ônibus". Só pode de algum modo haver uma coação muito grande que faz com que o trabalhador se identifique mais com o patrão que com os usuários. E comecei a desejar algo muuuito mais interessante do que uma doença maligna num idiota qualquer. Comecei a imaginar os e as motoristas, e os e as cobradoras passando a adquirir consciência de classe. Imaginei eles/elas de alguma forma se apropriando de Marx, pensando de maneira crítica seu papel na sociedade.
Não me canso de admirar como a destruição de preconceitos é lenta, exige esforço, disposição e principalmente atenção! Mas é uma destruição bonita de se acompanhar.
Imagine que fiquei sabendo de um curso de "conversation" na universidade, ministrado por uma legitima americana. Topei na hora. E minha maior surpresa foi ver uma jovem engajada trazendo temas interessantes e extremamente críticos! Como a manipulação da mídia, construção de estereótipos, aliás indico um vídeo chocante (a conversation about race).
E não é que com essa história de copa, um amigo lança o comentário: "futebol é a única coisa que dá dinheiro e os americanos não estão envolvidos". Putz é mesmo, eu pensei como se essa fosse uma constatação muito genial. Sem me questionar o que eu entendia por "os americanos" eu fui. Oh yeah, eu fiz isso. Compartilhei o comentário na conversation. Na frente da americana e de todos os outros estudantes. Estupidamente abri minha boca e lancei essa observação rasa. E só comecei a me questionar "qual é o problema" depois que a professora imitou um barulho de bateria. Do tipo circense, depois de uma intervenção do palhaço.
Como eu posso ter dito isso a uma americana, que está no Brasil, e como eu é uma crítica ferrenha do consumismo, da coisificação e namora a revolução? E porque eu fiquei tão surpresa com o posicionamento crítico dela, pensando que isso seria contraditório vindo de uma americana? Carregada de preconceitos, eu me vi. De alguma forma na minha cabeça eu associei capitalismo e EUA de um modo simplificado, generalizado, superficial. Tanto que normalmente não me dou conta de que "os americanos" envolve uma gama extremamente complexa de seres humanos, dos quais certamente uma grande e significativa porção é crítica ferrenha do capitalismo selvagem, e uns outros tantos são anarquistas. Eu já sabia disso, já tinha reparado nisso, mas ainda assim não consegui flagrar prontamente. E fiz uma vítima do meu preconceito.
Acho que esse é o processo de destruição de preconceitos para construção de conceitos mais justos, profundos, complexos. Primeiro temos que nos abrir, isso é, simplesmente não pensar "o que esse idiota está falando, defendendo esse bando de vagabundos" ou no meu caso "que estúpida a reação dela, a verdade dói mesmo". Morei em São Paulo. Não achava graça em piadas de "baianos" (termo que inclui todos os imigrantes da enorme região norte e nordeste), mas eu ri da mulher tentando falar "youtube". E eu me achava muito boa pessoa.
Aqui em Rio Grande, estamos recebendo imenso contingente de imigrantes. Em sua maioria vindo de situação precária (suposição minha). Nesse momento, um pouco mais madura, identifico o baita preconceito que eles sofrem e isso me incomoda muito. Mas, mesmo assim...
(A professora americana nos pediu para criar um blog, só pra treinar o inglês. Empolgada com as analises de música que ela faz, tive uma ideia, fazer o mesmo só que ao contrário. Explicar, ao menos tentar, nossas músicas com crítica social no idioma do Império. Eis que surge num inglês medonhamente macarrônico, mas cheio de boas intenções A Subversive Brazil. A última música que pus foi Admirável Gado Novo.)
Mas, mesmo assim, mesmo depois de me reconhecer cheia de preconceitos e me identificar como defensora dos migrantes, você não acredita. Num é que eu passei direto e reto pelo trecho "É duro tanto ter que caminhar"? Estou acostumada a ver tudo: filmes, músicas, programas, notícias, voltadas para minha classe social, ainda que não para o meu gênero, mas isso não é problema pois fui adestrada a me encontrar em "os homens". Empolgada por ter me visto no livro admirável mundo novo nem me dei conta de que a música, praticamente homônima não era para "mim".
Só me dei conta e voltei para acrescentar um comentário na postagem quando já passava da metade da leitura de Vinhas da Ira, um livro muito envolvente, sobre uma família americana expulsa do campo por tratores e pés de algodão, que migra de modo muuuito (corajoso e) precário para Califórnia, como se não bastasse todo drama e dificuldade elas terão que enfrentar esse sombrio e cruel monstro chamado preconceito. O livro (nobel) inspira tamanha simpatia por esse grupo de pessoas - pobres, sem educação formal, com assassino ex-presidiário, mãe solteira. Nos envolve de modo a sentir as dores na pele, não é como viver, mas é próximo disso, dependendo da sensibilidade do leitor, muito próximo. Pensei em todos os imigrantes que conheci na minha adolescência paulista e com muito pesar, sinto vergonha em reconhecer que de alguma forma sempre me julguei superior a eles, minha "amizade" foi dada como caridade.
Nesse instante eu lembro da senhora falando "iutubiu" e me sinto extremamente idiota. Como paulista posso dizer que seria interessante, muito interessante, todos nós que nascemos e fomos criadas no estado mais """rico""" do país conferíssemos se não existe um morro de prepotência sob nossos pés. Donos do sotaque (e cultura e aparência e modelo econômico e roupas) adequado/ideal. Não, aquele vídeo não choca pela ignorância de uma mulher que não consegue dizer o nome de um site num idioma estrangeiro. Aquele vídeo choca pela risada do filho do patrão. Eu sei que estou desenterrando o tal do vídeo, mas sinto latente essa ordem estabelecida que põe o sotaque nordestino subserviente. Associando à ignorância e à valores desonrosos. Pois são nessas situações que eles aparecem nas novelas. Sinto como fui idiota em achar que estava bem o vídeo, por mostrar uma interação rara, eu achei legal da parte dele reconhecer a existência da pessoa que limpa suas sujeiras.
Fico triste por reconhecer tanta ignorância e preconceito em mim. E sei (e torço) que se daqui a 10 anos voltar a ler esse texto vou reconhecer uma dúzia de preconceitos e crueldades, torço para reconhece-los pois isso significa um passo para superá-los.
Você, que escreve, fala, canta, interpreta, dança, pinta, contra o preconceito, seu trabalho não é em vão. Me sinto muito, muito agradecida pela existência daqueles que (em oposição aos que constroem e nutrem) destroem preconceitos e salvam Almas. Nesse caso em particular, muito obrigada Zé Ramalho e John Steinbeck, e me desculpem por suas obras ainda serem consideradas transformadoras...
"Vinham famintos e ferozes, tinham a esperança de encontrar um lar, e só encontraram ódio. Okies... os proprietários odiavam-nos porque sabiam que eram covardes e que os Okies corajosos, e que eram bem nutridos e que os Okies passavam fome. E talvez os proprietários tivessem ouvido seus avós contarem como era fácil a alguém roubar terras a um homem fraco quando esse alguém era feroz e faminto e estava armado. Os proprietários odiavam-nos. E os donos das casas comerciais das cidades odiavam-nos também, pois que eles não tinham dinheiro para gastar. Não há caminho mais curto para se obter o desprezo de um negociante. Os homens das cidades, pequenos banqueiros, odiavam os Okies porque eles nada lhes deixavam ganhar. Eles nada possuíam. E os trabalhadores odiavam os Okies porque um homem esfomeado tem que trabalhar, e quando precisa trabalhar e não tem onde trabalhar, automaticamente trabalha por um salário menor, e aí todos têm que trabalhar por salários menores."
A Lei Maria da Penha está aí, para defender as mulheres agredidas. Mas, as mulheres violentadas muitas vezes não denunciam. Qual seria o problema? Seria o medo da retaliação, a dependência econômica, emocional? Porque elas agem assim?
Soube num seminário, existe um certo conflito ideológico no feminismo. Deveríamos defender o direito a não se prostituir - considerando que essa decisão seja tomada como uma medida extrema, na qual as prostitutas preferiam estar atuando em outra área - ou deveríamos lutar pelo direito de se prostituir - levando em consideração que essa seja uma decisão consciente, e que essa é uma profissão tão digna quanto qualquer outra? Então nos perguntamos Porque as mulheres se prostituem?
Os estupros acontecem, e muitos consideram que andar desacompanhada seja a causa. Ou usar roupas "provocantes", beber na festa da turma. Enfim, várias atitudes das mulheres provocariam os estupros.
A mulher não deve engravidar se não quiser ter filhos. Caso ocorra uma gravidez acidental então temos calorosos debates pró e contra a decisão do aborto.
Ser ou não mãe também é uma pauta que dá ibope e gera longas discussões. Trabalhar fora ou não.
É sempre sobre nós! Nosso comportamento é pauta de debate. E sempre tem alguma revista, algum comentarista, todos tem uma opinião, um palpite de como deveria ser o comportamento feminino.
Uma mulher agredida, fisicamente, já está numa situação terrivelmente delicada, e é constantemente pressionada à denunciar e à não denunciar. Mas, será que existe pressão sobre o homem? Traçar o perfil dos que agridem e investir em campanhas de conscientização, em revistas, cartazes, televisão?
Afinal, porque se utiliza de serviços sexuais? Porque os homens procuram por isso? É uma atitude nobre, de elevada moral? Não seria o pagamento a compensação por um estupro? A compra do consentimento? A aceitação do consumo do corpo feminino como mercadoria?
Porque os homens estupram? Nesse ponto eu tenho uma sugestão. Deles é cobrado isso. Anúncios provocantes aumentam a libido masculina a todo instante. Estão sempre sendo excitados.
Ainda, toda criança abortada tem um pai. O homens abortam aos milhares, eles abortam muito mais, abortam crianças vivas.
Existem milhões de matérias voltadas ao público feminino, em site, revista, programa de televisão, sobre como fazer unha, como se depilar, limpar a pele, se maquiar, o que comer, quanto pesar, qual o cabelo adequado, como trepar, etc. Mas é muuuito raro ver um programa de televisão dando dicas de como fazer a barba, um programa doméstico apresentado por homem, onde se ensina a se comportar, o que dizer, o que pensar, o que vestir, como agradar a esposa, se deve ou não depilar o peito, isso simplesmente não é pauta. As dicas direcionadas à eles referem-se sobre como agir no emprego, isso em mídias muito específicas. As revistas voltadas ao público masculino trazem notícias, informações, mulheres nuas.
Dizer que é o que dá ibope eu acho muito controverso. Seria como garantir que as mulheres naturalmente se interessam por futilidades e precisam de um "manual de instrução" de como viver, enquanto que os homens são mais ávidos por informações "úteis" e já sabem como se comportar não precisando ninguém para lhes dizer. Bom, meu n-amostral é relativamente pequeno, mas eu diria que não existe essa relação, mesmo nesse cenário, em que somos constantemente e mais arduamente incentivadas a sermos fúteis, não posso dizer que as mulheres são mais superficiais. O que vejo é que elas sentem essa pressão. A impressão que tenho é que são elas as mais inseguras e deprimidas, e não penso que seja por uma natureza mais sensível. Aliás, eu nem acredito nessa distinção biológica de sensibilidade, basta ver os inúmeros poetas, autores, compositores masculinos sensíveis. Me desculpem, mas o carinho, amor, sensibilidade, altruísmo não é exclusividade nossa.
E reconheço nesse ponto o comportamento masculino vira pauta de julgamento. Existe um senso comum de que é necessário ser bruto, rude para não ser taxado de gay. Mesmo que isso seja demodé, e ninguém assuma publicamente essa posição, ainda permanece no ar essa sugestão. Acontece que um ser rude e insensível não encontra problemas em bater na esposa, estuprar, assediar e abusar dos serviços sexuais.
Minha sensibilidade é um pouco exacerbada, não me resta dúvida, mas analisaremos a situação dos trabalhadores brasileiros (e certamente de todos os outros países globalizados). No melhor dos casos, isso é quando se recebe um salário adequado que supera as contas, se tem uma propriedade privada, estabilidade razoável, consegue-se adquirir bens, livros, tem férias remunerada e décimo terceiro, enfim, no caso da classe média alta que pode pagar 20 reais no cinema todo fim de semana. Esses que estão como eu disse muuuuito bem, saem de suas casas por volta das 6/7 hs da manhã, enfrentam um transito dos diabos em seus carros, e voltam normalmente depois das 22 hs. Obviamente não resta muito tempo e energia mental para livros, cultura, conversas profundas, busca do aprimoramento do caráter, do espírito, filosofar, meditar. Só dá para seguir com mais do mesmo.
Existe ainda os pobres, ou nova classe média. Que recebem um salário mínimo, pagam aluguel (numa favela do Rio algo semelhante a uma casa custa por mês 500 reais), a passagem de ônibus é absurda (sendo 3 reais, gasta-se por mês 120 reais), alimentam-se com o básico (não que os de cima se alimentem muito melhor uma vez que no mercado só se vende porcaria industrializada com gosto esquisito abarrotado de sal e açúcar, com zero valor nutricional) e não deve sobrar dinheiro para livros, filmes, viagens etc. Os bairros que mais recebem investimento são mais nobres, restando aos pobres ausência de rede de esgoto, ruas pavimentadas, praças, parques, paisagismo, metrô. E a mais nova onda, possibilidade latente de desapropriação. Claro, sem contar a pacífica abordagem policial. Relembrando os casos famosos e recentes de Amarildo e Cláudia, ou ainda a inquietante pergunta "Porque o senhor atirou em mim?". Outro fator menos lógico e objetivo que oprime essa classe é o status social, lixeiros não são vistos, cobradores não são admirados, funções de submissão são vistas com desprezo subentendido como falta de capacidade, dedicação, esforço, são associadas a pessoas de pouco mérito e valor, isso repercute, sem dúvida alguma, no self de cada um. Por isso lutar por Fraternidade não me pareceu algo estúpido.
O que eu sinto é que vivemos uma falta de liberdade devido normas sociais castradoras de uma população altamente doutrinada a aceitar o status quo. Claro que sentir não serve para nada, posso então tronar mais lógico e objetivo esse "sentir", mais científico e acadêmico, Maquiavel aconselha em O Príncipe que uma população que vive sob o guarda-chuva da liberdade... não tem jeito, tem que ser dizimada, ou mais pra frente te trarão problemas, sempre tendo esse conceito a lhes encorajar:
"Quem se faz senhor de uma cidade por tradição livre e não a destrói, por ela se verá destruído. Estas cidades trazem sempre por bandeira, nas revoltas, a liberdade e suas antigas leis, que jamais esquecem, nem com o passar do tempo nem com a influência dos benefícios recebidos. Por muito que se faça, sejam quais forem às precauções tomadas, não sendo promovido o dissídio e a desagregação dos habitantes, não deixam eles de recordar aqueles princípios, e em qualquer oportunidade, em qualquer situação, recorrem aos mesmos. "
Em Discurso Sobre a Servidão Voluntária, novamente um louvor à liberdade, sem ela tudo o mais perde o gosto, pois essa seria a natureza do ser humano, algo intrínseco a ele. Mas, como fazer os humanos abdicarem de sua natureza livre para servir pacífica e voluntariamente? Através da ilusão dos prazeres fugazes oferecidos na cidade, comida, jogos, espetáculos.
Não li, mas a socióloga que dirige nosso grupo de estudos já adiantou, Marx e outros, vão dizer que o poder se dá ou pela:
Coação/ideologia, [onde vemos o discurso retumbante "o trabalho é nobre", "Deus ajuda quem cedo madruga", e os apelos comerciais compre, compre, compre, para ser mulher precisa comprar esmalte, comprar gilete, comprar maquiagem, jóias, cabeleireiro, depilação, salto alto, seios fartos (compre um par), se não não se é nada, os homens precisam de carro, relógio, camisas, pinto grande, e ser descolado, bem informado, tem que ter dinheiro, balada cara, bebida a rodo, viagem, cinema, compras. A mídia desempenha papel preponderante, podemos também pensar nas escolas] ou pela
Coerção/força, [sem servir você simplesmente morre de fome, existe latente e exacerbadamente a criminalização da pobreza, falta de serviços públicos básicos, infra-estrutura em bairros pobre. Esse papel o Estado parece assumir com certa maestria].
Não é novidade que a exploração humana alcance limites insuportáveis. Ainda que, reconheço tenhamos, enquanto humanidade, vivido poderes mais tenebrosos e condições mais lastimáveis. Agora, o limite da capacidade de tolerar explorações foi ultrapassado para um grande número de pessoas (pois convém relembrar muitas sempre estiveram gritando o quão absurda é essa relação de poder e essa estrutura social, sempre gritaram sob cassetetes e prisões arbitrárias).
A copa conseguiu servir de estopim! E foi tão ridícula que uma teoria me instiga a mente, não teria sido exatamente essa a intenção? Assume-se o poder e se reconhece: Não há jeito de melhorar pelo Estado, estamos dominados por interesses corporativistas, vamos então deixar a coisa tão absurda, tão injusta, tão desumana e insuportável, que a única resposta possível seja o levante popular. A internet mais difundida, mesmo nas periferias, ainda relativamente livre, traz informações sobre revoltas e levantes, e afasta o estigma de "brasileiro é passivo, sempre foi, sempre será, amém", podemos acessar documentários com profundas críticas sociais que nos inspiram e transformam, baixar livros, trocar ideias, mas isso só para quem tem o tempo livre necessário para filosofar, para quem pode abrir mão de jornadas extenuantes de trabalho. E para quem conseguiu sair da Matrix ["informações" produzidas por televisão, revista, livro de livraria de shopping - que produzem uma realidade falsa e ilusória]. E como expor o descontentamento com a exploração e a degradação da qualidade de vida?
Os professores estão de greve, metroviários, CET, PRF, já assistimos aos lixeiros do Rio cruzarem os braços, policiais militares. E ensaia-se uma greve geral, em plena copa! Ao meu ver nada parece mais coerente e justo. Convenhamos, mais de 90% das pessoas trabalham única e exclusivamente para terem acesso ao que o dinheiro permite (saúde, educação, segurança, cultura, lazer, habilidades, alimentação...).
Greves gerais já foram realizadas diversas vezes (a história parece não mudar, sempre houve quem se deleitasse na exploração do trabalho/vida do corpo alheio e sempre houve quem repugnasse tal atitude, podemos chama-los anarquistas - e se em alguma sociedade não era assim, então não há informação sobre ela). No Brasil, encontrei duas referências de greves gerais, uma de 1907 (4 de maio) e outra de 1917.
Poucas informações achei sobre a greve de 1907, ainda mais porque se confundem com uma greve francesa de 1906. As reivindicações eram por jornadas de 8 horas (pois eram de 13 hs), proibição do trabalho infantil, férias e salários decentes. A greve foi brutalmente reprimida pelas graças de Washington Luis. Mas, como não haviam celulares com câmaras as imagens são raras...
As pautas continuaram latente e os anarco-sindicalistas inquietos. O Brasil atuou como exportador de alimentos para a manutenção da primeira guerra mundial, o que reduziu a oferta de alimentos para abastecimento interno. O cenário de 1917 apresentava alto custo (sem parcelamento) de vida, incompatível com os baixos salários, ampla exploração do trabalho infantil, jornadas extenuantes, e forte repressão policial a articulações proletárias. Até que em 9 de julho a repressão estatal fez uma vítima fatal José Martinez, no dia de seu velório milhares de operários acompanharam se corpo e iniciou-se nova Greve Geral. Os grevistas tomaram a cidade por 30 dias! O comércio fechou, os transportes pararam. Suas reivindicações eram:
Funeral José Martinez - São Paulo
não criminalização do movimento (liberação de presos políticos, não punição aos participantes),
abolição do trabalho infantil (menor de 14 anos),
abolição do trabalho noturno para menores de 18 e mulheres,
aumento salarial,
jornada de 8 horas e semana inglesa (dias de semana e meio período no sábado) e
pagamento de hora extra.
O movimento não ficou restrito à São Paulo, influenciando outros estados, em especial Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro (Insurreição Anarquista de 1918).
Pois é, cá estamos nós diante de uma "efervescência social" por razões ligeiramente diferentes das de 1906, 1917, e das que crucificaram Jesus Cristo eu diria. Alguns se irritam, outros temem, muitos não conseguem entender. É porque nos faltou sociologia na escola, nas conversas, na TV, na revista. Eu não vejo razão para temer, aliás meu único temor é a repressão armada do Estado, os robocops recém chegados do treinamento no Haiti, os que agem na favela, esse é o meu único temor. Jovens de preto quebrando vidros, esses não me assustam. Grevistas atrapalhando o jogo, esses me inspiram.
Objetivamente pretendo dissertar um pouco sobre paredes. Isso é "obra, ger. de alvenaria, que fecha as partes externas de um edifício e estabelece suas divisões internas" segundo Houaiss (2009). Eis que meses atrás as paredes do DCE que eram imaculadamente monocolores e estéreis começaram a exibir palavras, frases, desenhos e coisas do tipo, primeiro por dentro, depois do lado de fora a frase "FURG aristocrática" acabou imersa num mar de reivindicações, protestos e descontentamento. Ideias, por meio de frases e palavras de diversas letras, cores e sentimentos passaram a "decorar" e cobrir as estéreis paredes do prédio do Movimento Estudantil.
Me senti emocionadamente feliz! Quer dizer, na realidade fiquei só um pouquinho frustrada, pois tenho diversas sugestões, e acho que deve ser uma sensação muito tri expor uma ideia numa parede, fiquei triste de não ter participado, ainda dá tempo, quem sabe? Adorei, pela primeira vez, ficar na imensa fila do RU lendo e refletindo sobre cada mensagem exposta. Até que tive contato com o mundo real e acordei:
- Nossa, vc viu o que fizeram com o prédio do DCE?
Abri um sorriso imenso e satisfeito, antes de responder o interlocutor continua:
- Que horrível, não pode isso, pixar é crime, está depredando um bem público...
As queixas continuaram enquanto eu tentava entender o que estava acontecendo. Ao que parece palavras em paredes deixam as pessoas realmente furiosas e indignadas. Será que elas leram o que estava escrito?
- Nossa, que horror, nossa universidade é tão linda, imagina o que as pessoas vão pensar quando vierem aqui e ver esse prédio?
- Se quer reclamar tudo bem, mas que fizessem uma arte, um graffiti, aí sim!
- Foi um grupo pequeno que impôs sua vontade de maneira tirânica.
- Imagina se fosse na sua casa?
- Ninguém gostou.
E a lista de queixas se prolonga. As conversas foram praticamente monopolizadas, sobre o horror da pixação.
Ao que tudo indica a aparência é fundamental, e tudo tem que parecer bonito e comportado, em conformidade com padrões vigentes, não pode fugir a regra, e a regra é clara: tudo muito estéril e controlado como shopping center ou casa de novela.
Um ponto interessante que me informaram é que o DCE (cuja chapa eleita chama-se Contra-Corrente) pretendia fazer um graffiti no prédio, foram se informar sobre como proceder e descobriram uma burocracia do tamanho de um bonde que envolvia apresentação prévia da arte para aprovação do engenheiro (espero que não seja o mesmo indivíduo que nos deixa tomando chuva e cheirando fossa na fila do restaurante, bem como nos obriga a fazer curvas e manobras desnecessárias que aumentam o trajeto...) o que além de autoritário demoraria muito.
Latuff passou pelo ME!
Em uma nota o DCE afirma que as intervenções internas partiram de uma oficina de stencil (ou estêncil, uma arte de pixar com modelos pre-concebidos, tipo carimbo), e que as manifestações explícitas não representam o interesse dos membros dessa gestão, que a principal participação no ato teria sido a não coibição.
É bem interessante como o belo e o feio, a arte e o crime se confundem conforme a posição ideológica. Eu tenho profunda admiração por diversas mensagens pixadas pela cidade. O ciclista voador, "Você já acordou hoje?", "O que estamos fazendo", "Só o capital é livre", "Aqui jaz" (sobre a plaquinha de identificação de uma arvore que foi de maneira inexplicada cortada), "A burguesia fede", "mais amor por favor". Na minha concepção são intervenções que furam o "véu de Ísis" e rompem com o mecanicismo com o qual conduzimos nossa rotina. E o que mais me agrada: ninguém está lucrando!
Pedir que se façam uma arte de protesto é estranho, pq não se pode chamar essa intervenção de arte? Eu confesso que algumas frases me desagradam. Mas não é para mim, não é sobre a minha pessoa, é sobre um coletivo e seus diversos posicionamentos. E isso torna lindo. A capacidade de ver além da aparência. Minha mãe dizia que amava ver aquelas lindas chaminés soltando fumaça, ah sim, ela poderia tirar foto, pois para ela aquilo representava o progresso, uma nova possibilidade de vida, um mundo com trabalho menos duro. Bem, acredito que concordamos sobre o quão repugnante e revoltante é ver uma chaminé tóxica e fedorenta poluindo nossa atmosfera e liberando câncer e doenças diversas em potencial...
A beleza do progresso ou o horror da destruição?
Ademais, estamos falando de um prédio do Movimento Estudantil. Que tinha cara de postinho de saúde do SUS... Houve uma apropriação do espaço, que exibe agora a dinâmica e a irreverência que se propõe o espaço. Os frequentadores que já eram, em sua maioria subversivos, sentem-se mais a vontade no espaço, e consequentemente se expressam de modo mais livre, dando vida ao Movimento. Os que reclamam, pelo menos para mim, nunca entraram e possivelmente nunca entrarão nesse prédio, nem "perderão" seu precioso tempo com discussões sobre direito dos estudantes e questionamentos sobre o papel da universidade na sociedade, ao interesse de quem ela tem servido, pelo menos não de modo engajado e contínuo.
segunda-feira, 31 de março de 2014
Pobres me roubam
Esses pobres me
roubam o sonho
Me roubam o sono
Por isso todos
os pobres são ladrões
Porque eles
existem
Nos roubando a
ilusão, tão cuidadosamente construída
de uma sociedade
justa e boa
Esses pobres
expõe a fragilidade da ilusão
Que não tenha
sido esse o objetivo de Amarildo
ou de Cláudia
Foi isso o que
eles fizeram e sempre farão
Arruinarão todo
e qualquer argumento “meritocrático”
Esses pobres
ladrões, com traços indígenas ou negros
Me roubam a
ilusão de prazer, de felicidade, de grandeza
Me roubam a
possibilidade de acreditar nos discursos
Essa pilhagem se
reflete no tratamento que lhe damos
Nós de traços
europeus, cidadãos de bem
Marginalizamos,
matamos, torturamos e prendemos esses pobres
Porque insistem
em existir
Em esfregar na
nossa cara o quão fracassados somos nós
Por mais que
fujamos dessa palavra
Já nascemos
fadados ao fracasso
Disfarçado de
tristeza passageira nessa sociedade de ilusão