Sempre fico assustada quando reparo o quanto meus cunhados trabalham. Em São Paulo é assim, se você não faz tem quem faça. As jornadas de trabalho extrapolam o limite da razão e é comum um trabalhador chegar do trabalho na madrugada, se sujeitando a sequestros (não é sensacionalismo meu, é um fato que ocorreu). Lembro de ter ouvido um professor comentar que hoje trabalha-se mais do que no período feudal. Acho que eles nem recebem hora extra para isso, mas o salário compensa, foi o que me disse minha irmã.
Mesmo em casos normais, me parece uma jornada de oito horas algo bastante excessivo. A principio tenho receio de defender essa posição e parecer meio folgada. Mas, tenho a possibilidade de auto-controlar minha "jornada de trabalho" no mestrado e percebo que nas semanas que me puxo, chego em casa sem vontade de fazer nada, chego a assistir televisão e comer um lanche. Quando chego mais cedo, cozinho, ponho uma música, me aprofundo em temas políticos, consigo ler um livro e debater ideias com meu companheiro, dá até para passear com os cachorros. Se tivesse cumprido uma jornada de quatro horas, com a tarde toda livre, nossa! Teria tempo e disposição para cuidar da horta, planejar movimentos sociais, realizar trabalhos voluntários, aprender um dote artístico, meditar, enfim, desfrutar e contribuir. Pude aliviar a impressão de "folgada"?
Vim pensando muito nisso. A ponto de imaginar que o desemprego seria muito suavizado com a redução da carga horária, e encontrei inclusive um post de um economista (link) do estadão sobre como a adoção dessa jornada reduzida tem gerado impactos positivos na Alemanha, no lugar de medidas de austeridade para contornar a crise. Acho que no Brasil é dispendioso contratar mais pessoas por menos tempo por ficar a cargo do patrão pesados encargos tributários, o que poderia ser estudado uma forma de dividir isso com o estado, por exemplo garantindo saúde de qualidade a todos não haveria a necessidade de planos de saúde.
Jornadas excessivas são extremamente negativas para o meio ambiente. Como eu disse, com mais tempo livre poderíamos nos inteirar mais e em maior profundidade sobre os assuntos, como a crise ambiental e poderíamos nos identificar com causas que preenchesse nossa vida de sentido e nos levasse a atuar. Pois como dá para notar nesse vídeo muito interessante (link) o que nos motiva mais do que dinheiro é uma causa na qual acreditemos, e a liberdade para atuar nela. No relatório "o estado do mundo" (não me lembro o ano, vale a pena ler todos), o autor sustenta que longas jornadas estão associadas a hábitos menos ambientais e mais fast, usar secadora invés de estender roupa no varal, consumir comidas prontas, aliás consumir tudo, pois gera o que se necessita, um prazer fast e imediato.
Outro ponto a favor do meio período é que o trafego seria menos intenso no horário de pico. Digo inclusive a respeito do transporte público, ficaria menos abarrotado, poderia se usar a bicicleta, com mais tempo. Permitiria uma relação mais próxima de pais e filhos, proporcionando a educação (aquela educação de valores, que os pais passam para a escola a escola rebate para as babás, as babás não sabem o que dizer e a criança se educa sozinha sem orientação), prática de esportes e hábitos mais saudáveis.
No início da revolução industrial a tecnologia parecia vir a simbolizar a diminuição da carga horária e de fato em alguns momentos na Europa fez isso, mas os prêmios em hora extra pareceram se tornar mais interessantes ao longo do tempo. E vendeu-se o tempo livre, a possibilidade de se desenvolver como ser humano, para empresas que não pararam de crescer e aumentar sua produção. Até o ponto em que nos encontramos atualmente. Não houve movimento social capaz de reduzir a marcha, mas, o limite físico parece ser capaz de fazer isso. Não dá para aumentar a produção e não queremos que ela aumente.
Enfim, imagino que um dos pontos essenciais para o alcance da sustentabilidade, e do qual não ouço falar é a redução da jornada de trabalho e utilização adequada do tempo livre. Não dá para separar questão ambiental, de política, de social, de economia, de psicologia, a mudança de um depende e gera mudança em outro. E ao que tudo indica ações ecológicas, sustentáveis exigem mudanças profundas em todos os setores, e são mudanças meus amigos, extremamente positivas e valiosas. Não há a menor razão em temer ou elaborar artimanhas esquizofrênicas para evitar um decrescimento econômico, isso só nos levará a um colapso ambiental, que é ligeiramente mais catastrófico pois sai totalmente de qualquer controle humano.
o questionamento e a reflexão nos tornam mais conscientes, plenas, felizes, questionadoras e reflexivas!
sexta-feira, 19 de abril de 2013
quinta-feira, 11 de abril de 2013
Montadoras opressoras, motoristas oprimidos.
Eis que sai no jornal de hoje que um Termo Aditivo duvidoso prorroga o contrato da empresa que administra o pedágio Rio Grande - Pelotas (ecosul, não sei a que se refere o termo "eco" aqui empregado). O contrato que venceria nesse 24 de julho foi prorrogado para 2026 (link da matéria). É o absurdo dos absurdos. Alguns vereadores estão se mobilizando para redigirem um texto-denuncia (não tenho ideia do que seria isso, legalmente) para mandar para a presidente, pautado no fato de a medida ser contrária à Lei de Licitações.
Para ser extremamente sincera. Eu sou a favor da taxação sobre veículos, sou a favor de pedágios, inclusive intramunicipais, sou a favor de um taxação alta na gasolina, sou a favor de sabermos o valor real das coisas e arcarmos com ele, Desde que, esse capital seja investido em alternativas, em trens, ciclovias, "ciclopontos", transporte coletivo, desenvolvimento de novos motores, etc. e desde que as indústrias internalizem seus custos.
Não há sentido na duplicação, triplicação (etc) de vias, nunca se dará conta do fluxo, uma vez que as vendas de carro só aumentam. Nada me revolta mais do que essa redução ridícula do IPI (prorrogada até junho de 2013 - link). É óbvio que esse dinheiro faz falta no orçamento público. As montadoras (veja, montadoras, porque a sede que fica com o dinheiro não está aqui) já tem inúmeros subsídios ao externalizarem para o poder público seus gastos mais pesados. Fazem carros potentes para andar em estradas de limite de velocidade máximo de 110 Km/h. Estradas essas construídas e mantidas pelo poder público, apesar de pedageadas. Quando há um acidente, um entre os 1.000.000 que ocorrem ao ano, quem arca com o prejuízo é a população e o estado, não é dona de pedágio nem montadora (no ano de 2010 ocorreram mais de 30.000 mortes registradas oficialmente, em até 72 hs depois do acidente - link). Aliás, é claro que o responsável é o motorista inconsequente, mal educado...
E as montadoras seguem prosperando, se bem que parece que as vendas aumentaram menos, estão pressionando o governo para liberar mais créditos, tipo "minha casa minha vida". E os deputados misteriosamente concordam! Afinal, grandes empresas representam a prosperidade do país devem ser estimuladas a continuarem na pátria amada, correto? Elas criam emprego, fazem circular o capital, deveríamos agradecer pela generosidade de elas se instalarem aqui, é o progresso.
A qualidade do ar em São Paulo, e em grandes cidades é nojenta. Mas, existe uma solução mágica na cartola, olha só que legal, um sistema de inspeção veicular para que nenhum carro polua mais que o necessário, o "control.ar". Colegas, não houve 1 nem 2, mas inúmeros casos de carro zero ser reprovado na inspeção, que por sinal é paga pelo cidadão. Esse control-ar não é uma política que visa a diminuição da compra de carros, uma vez que o IPI está reduzido e os créditos facilitados, e o transporte público caro, lotado, demorado, fedido, perigoso e não há ciclovias, e especula-se redução de imposto sobre combustíveis. Sem entrar no mérito de que a empresa Controlar seja mais suja e nojenta do que o próprio ar (link 1 e 2) e voltando à responsabilização das montadoras, convenhamos, se o carro polui mais do que o aceitável, poque deixou ser produzido e vendido? É um carro zero! Não foi desleixo do proprietário na hora da revisão.
Até quando haverá esse protecionismo à mega empresas?! Elas ficam com o bônus, o estado fica se comendo internamente, e a população com o ônus, e o pior, com a "culpa" do ônus. Ao meu ver o lobby é a pior forma de corrupção, e a mais arraigada em todos os sistemas políticos.
E é algo extremamente complexo e difícil de modificar.
Ao que parece Marina Silva tem tentado arranjar um modo de alterar esse sistema, por meio de seu partido denominado #rede (link). Eu não li o estatuto, embora esteja morrendo de vontade. Pelo que vi na entrevista dela no Roda Viva (link) uma das inovações é proibir que os candidatos recebam grandes montantes para sua campanha eleitoral, onde via de regra nasce o futuro lobista, ao contrário deverão haver diversos contribuidores com pequeno montante. E também assegurar que os eleitores acompanhem seus candidatos e participem de suas ações, usando o artifício da internet! Me encantei com a proposta, embora confesse estar um pouquinho cética, pois parece que sempre se encontra uma brecha para corromper o sistema, e é fácil torcer o nariz quando se fala em criar mais partidos do que já temo. No entanto, é complicado uma revolução total, acho que esse é o caminho, o PT quando sua criação objetivava grandes aspirações e conquistou muita coisa, o Brasil está mais humanista e menos elitista, mas parece que o PT já fez sua parte e começa a se acomodar e encostar, parece já estar meio enrolado e desgastado. O que foi aprendido com o PT pela M. Silva, e a sua experiência de como este se corrompeu, a identificação de suas fragilidades e tal pode ser incorporado nessa nova proposta, difícil garantir, mas é tentando que se consegue!
Para ser extremamente sincera. Eu sou a favor da taxação sobre veículos, sou a favor de pedágios, inclusive intramunicipais, sou a favor de um taxação alta na gasolina, sou a favor de sabermos o valor real das coisas e arcarmos com ele, Desde que, esse capital seja investido em alternativas, em trens, ciclovias, "ciclopontos", transporte coletivo, desenvolvimento de novos motores, etc. e desde que as indústrias internalizem seus custos.
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| Congestionamento de 10 vias em S. Paulo |
Não há sentido na duplicação, triplicação (etc) de vias, nunca se dará conta do fluxo, uma vez que as vendas de carro só aumentam. Nada me revolta mais do que essa redução ridícula do IPI (prorrogada até junho de 2013 - link). É óbvio que esse dinheiro faz falta no orçamento público. As montadoras (veja, montadoras, porque a sede que fica com o dinheiro não está aqui) já tem inúmeros subsídios ao externalizarem para o poder público seus gastos mais pesados. Fazem carros potentes para andar em estradas de limite de velocidade máximo de 110 Km/h. Estradas essas construídas e mantidas pelo poder público, apesar de pedageadas. Quando há um acidente, um entre os 1.000.000 que ocorrem ao ano, quem arca com o prejuízo é a população e o estado, não é dona de pedágio nem montadora (no ano de 2010 ocorreram mais de 30.000 mortes registradas oficialmente, em até 72 hs depois do acidente - link). Aliás, é claro que o responsável é o motorista inconsequente, mal educado...
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| Transferência direta do capital (população > montadoras) |
A qualidade do ar em São Paulo, e em grandes cidades é nojenta. Mas, existe uma solução mágica na cartola, olha só que legal, um sistema de inspeção veicular para que nenhum carro polua mais que o necessário, o "control.ar". Colegas, não houve 1 nem 2, mas inúmeros casos de carro zero ser reprovado na inspeção, que por sinal é paga pelo cidadão. Esse control-ar não é uma política que visa a diminuição da compra de carros, uma vez que o IPI está reduzido e os créditos facilitados, e o transporte público caro, lotado, demorado, fedido, perigoso e não há ciclovias, e especula-se redução de imposto sobre combustíveis. Sem entrar no mérito de que a empresa Controlar seja mais suja e nojenta do que o próprio ar (link 1 e 2) e voltando à responsabilização das montadoras, convenhamos, se o carro polui mais do que o aceitável, poque deixou ser produzido e vendido? É um carro zero! Não foi desleixo do proprietário na hora da revisão.
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| Lobismo presente em todos os governos. |
E é algo extremamente complexo e difícil de modificar.
Ao que parece Marina Silva tem tentado arranjar um modo de alterar esse sistema, por meio de seu partido denominado #rede (link). Eu não li o estatuto, embora esteja morrendo de vontade. Pelo que vi na entrevista dela no Roda Viva (link) uma das inovações é proibir que os candidatos recebam grandes montantes para sua campanha eleitoral, onde via de regra nasce o futuro lobista, ao contrário deverão haver diversos contribuidores com pequeno montante. E também assegurar que os eleitores acompanhem seus candidatos e participem de suas ações, usando o artifício da internet! Me encantei com a proposta, embora confesse estar um pouquinho cética, pois parece que sempre se encontra uma brecha para corromper o sistema, e é fácil torcer o nariz quando se fala em criar mais partidos do que já temo. No entanto, é complicado uma revolução total, acho que esse é o caminho, o PT quando sua criação objetivava grandes aspirações e conquistou muita coisa, o Brasil está mais humanista e menos elitista, mas parece que o PT já fez sua parte e começa a se acomodar e encostar, parece já estar meio enrolado e desgastado. O que foi aprendido com o PT pela M. Silva, e a sua experiência de como este se corrompeu, a identificação de suas fragilidades e tal pode ser incorporado nessa nova proposta, difícil garantir, mas é tentando que se consegue!
sexta-feira, 5 de abril de 2013
Sempre há o que aprimorar
Não somos seres estáticos perfeitos e bem acabados. Isso eu já reparei desde muito tempo. Somos seres dinâmicos com infinitas oportunidades de aprendizado e aprimoramento. Esse reconhecimento significa humildade. Não é ouvir o outro por respeito, pena ou educação. É porque essa é a melhor oportunidade para aprender e aprimorar. Esse "aprender" a que me refiro já inserido num novo paradigma de aprendizagem. Não é aprender de modo a ouvir, decorar e aceitar as opiniões alheias, mas aprender no sentido de refletir, questionar, adicionar sua bagagem cultural e aprimorar seus conceitos existentes. Isso é não é aprender o que está sendo dito (ser informado), mas aprender com o que está sendo vivido (ser transformado).
Mais que conceitos, hábitos também podem e devem mudar, todos os dias deve haver alguma mudança no seu ser uma transformação, para que aquele dia tenha valido a pena, tenha feito a diferença, para que não seja mais um dia perdido no meio de tantos outros. Lendo nos transformamos, assistindo filmes nos transformamos, pensando nos transformamos, mas aquelas transformações que vem através de uma interferência alheia e ao vivo são mais gratificantes.
Com algumas pessoas sentimos uma afinidade especial que transcende o nível de relação humana corriqueira. E nem sempre essa afinidade advém da semelhança no pensar e agir. Minha semelhança com minha mãe é gritante, não nos importamos com roupas e aparência física de absolutamente nada, temos uma aversão a notícias trágicas, paladar pouco exigente, necessidade de engajamento espiritual, dirigimos mal, dormimos em barraca, ao relento se necessário e por ai afora. Mas é com minha sogra que minha afinidade supera os limites da razão. Ela que ama comprar roupas, faz as unhas toda semana, precisa de restaurantes caros e só dorme em lençol cheiroso e passado, entre outras particularidades. É com ela que sinto vontade, necessidade e alegria em falar. Nessa relação desde o início dotada de respeito, aprendemos a nos admirar mutuamente. não diria "apesar" das diferenças, aprendemos a nos admirar e com isso reparar nas diferenças, não com tentativa de repreensão, mas como uma fonte de inspiração e reflexão.
Nas primeiras visitas dela, eu perdia o sono pensando na quantidade de água usada... Era praticamente uma máquina de lavar por dia, comumente dois banhos no mesmo dia! E a água do planeta "acabando". Questões ambientais me tocam profundamente, mas se tem alguma coisa da qual eu realmente fujo é "conflito social". Não havia meios de chegar em casa, cansada, ver minha melhor amiga servindo um jantar fabuloso, a casa incrivelmente limpa e cheirosa e ainda passar um sermão sobre o estado da água no planeta e a necessidade de regular seu consumo. Ainda mais em uma cidade debruçada sobre a água, ainda mais sabendo que indústrias usam e poluem uma quantidade realmente gritante de água. E que se eu realmente quiser fazer algo em prol da preservação da quantidade e qualidade da água a atitude mais ineficiente seria brigar com a pessoa que eu mais amo. Aliás, não acredito que exista qualquer razão plausível para se brigar com a pessoa que se ama... Qualquer campanha ambiental deveria se ater nesse ponto, não crie conflitos crie exemplos!
Acho que é assim que funciona uma relação saudável, através de um aprendizado mútuo. Algumas coisas nos passarão desapercebidas por muitos anos, outras veremos e teremos planos de mudar em nós mesmos, outras serão mais rápidas, mas tudo vindo por meio de uma pressão interna.
Esses dias enquanto conversávamos no viva-voz ela disse muito feliz, orgulhosa e satisfeita "vocês vão ficar orgulhosos de mim! Peguei a bicicleta de casa e andei por uma hora!" Uau, minha alegria de fato não cabia em mim! Essa é uma transformação muito grande, que alegria inspirar alguém de 60 anos, em São Paulo, a sair para pedalar. Precisava retribuir essa satisfação "e você não vai acreditar, passamos pano em toda casa, está um brinco!"
Acredito que esse seja o real objetivo da interação humana, essa troca de inspiração e valores positivos que venham a nos aprimorar. Acho que é isso que significa humildade, começar uma conversa receptivo envolto em uma atmosfera sincera de "o que eu posso aprender com essa pessoa". Não é ficar frustrado quando você disse algo que tinha certeza e o teimosinho não acreditou, é reparar que essa atitude de "não acreditar" gera um desconforto e tentar não reproduzi-la em outro momento.
"Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante..."
Mais que conceitos, hábitos também podem e devem mudar, todos os dias deve haver alguma mudança no seu ser uma transformação, para que aquele dia tenha valido a pena, tenha feito a diferença, para que não seja mais um dia perdido no meio de tantos outros. Lendo nos transformamos, assistindo filmes nos transformamos, pensando nos transformamos, mas aquelas transformações que vem através de uma interferência alheia e ao vivo são mais gratificantes.
Com algumas pessoas sentimos uma afinidade especial que transcende o nível de relação humana corriqueira. E nem sempre essa afinidade advém da semelhança no pensar e agir. Minha semelhança com minha mãe é gritante, não nos importamos com roupas e aparência física de absolutamente nada, temos uma aversão a notícias trágicas, paladar pouco exigente, necessidade de engajamento espiritual, dirigimos mal, dormimos em barraca, ao relento se necessário e por ai afora. Mas é com minha sogra que minha afinidade supera os limites da razão. Ela que ama comprar roupas, faz as unhas toda semana, precisa de restaurantes caros e só dorme em lençol cheiroso e passado, entre outras particularidades. É com ela que sinto vontade, necessidade e alegria em falar. Nessa relação desde o início dotada de respeito, aprendemos a nos admirar mutuamente. não diria "apesar" das diferenças, aprendemos a nos admirar e com isso reparar nas diferenças, não com tentativa de repreensão, mas como uma fonte de inspiração e reflexão.
Nas primeiras visitas dela, eu perdia o sono pensando na quantidade de água usada... Era praticamente uma máquina de lavar por dia, comumente dois banhos no mesmo dia! E a água do planeta "acabando". Questões ambientais me tocam profundamente, mas se tem alguma coisa da qual eu realmente fujo é "conflito social". Não havia meios de chegar em casa, cansada, ver minha melhor amiga servindo um jantar fabuloso, a casa incrivelmente limpa e cheirosa e ainda passar um sermão sobre o estado da água no planeta e a necessidade de regular seu consumo. Ainda mais em uma cidade debruçada sobre a água, ainda mais sabendo que indústrias usam e poluem uma quantidade realmente gritante de água. E que se eu realmente quiser fazer algo em prol da preservação da quantidade e qualidade da água a atitude mais ineficiente seria brigar com a pessoa que eu mais amo. Aliás, não acredito que exista qualquer razão plausível para se brigar com a pessoa que se ama... Qualquer campanha ambiental deveria se ater nesse ponto, não crie conflitos crie exemplos!
Acho que é assim que funciona uma relação saudável, através de um aprendizado mútuo. Algumas coisas nos passarão desapercebidas por muitos anos, outras veremos e teremos planos de mudar em nós mesmos, outras serão mais rápidas, mas tudo vindo por meio de uma pressão interna.
Esses dias enquanto conversávamos no viva-voz ela disse muito feliz, orgulhosa e satisfeita "vocês vão ficar orgulhosos de mim! Peguei a bicicleta de casa e andei por uma hora!" Uau, minha alegria de fato não cabia em mim! Essa é uma transformação muito grande, que alegria inspirar alguém de 60 anos, em São Paulo, a sair para pedalar. Precisava retribuir essa satisfação "e você não vai acreditar, passamos pano em toda casa, está um brinco!"
Acredito que esse seja o real objetivo da interação humana, essa troca de inspiração e valores positivos que venham a nos aprimorar. Acho que é isso que significa humildade, começar uma conversa receptivo envolto em uma atmosfera sincera de "o que eu posso aprender com essa pessoa". Não é ficar frustrado quando você disse algo que tinha certeza e o teimosinho não acreditou, é reparar que essa atitude de "não acreditar" gera um desconforto e tentar não reproduzi-la em outro momento.
"Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante..."
domingo, 24 de março de 2013
Mais vale um pássaro voando do que dois na mão
Uma amiga minha me emprestou um livro, um verdadeiro marco na história do ambientalismo. Trata-se de "Primavera Silenciosa".
Consiste na descrição do uso alucinado de inseticidas e herbicidas e seu efeito. O livro é excelente pela forma como foi escrito. É dotado de uma visão ecossistêmica, o solo é riquíssimo em diversos micro-organismos que são fundamentais para manutenção do reino vegetal. A pulverização de veneno em "ervas-daninhas" (isso é, em plantas que por algum motivo nós classificamos como indesejáveis por não serem úteis a única espécie que tem direito de decidir alguma coisa) contamina e envenena todo o solo e toda infinidade de organismos que vivem lá. Esses organismos, migram, voam, alimentam outros animais, nosso planeta está todo conectado, é uma esfera. E assim é fácil imaginar que a livre pulverização de venenos ocasionou o declínio de 90% de certa população de pássaros. As paisagens ricas que margeavam estradas norte americanas se tornaram estéreis e marrons.
Isso foi longe e na década de 60, correto?! Não poderia se ter certeza do dano, preferiu-se arriscar, alguém ganhou, ou ganha muito dinheiro vendendo venenos, alguém ganhou muito dinheiro aumentando (ainda que temporariamente) a produção. Agora as leis que regulam o uso está mais rígida e a agroecologia vem leeeeeeeeentamente conquistando algum espaço. No Brasil, mesmo com esse legado de experiência a coisa ainda não vai bem. Nesse sentido vale ver a um preocupante documentário O veneno está na mesa (link) .
Essa história de política estar intimamente (quase pornograficamente) relacionada com interesses privados causa alguns desconfortos que temos diariamente que engolir, como o uso de agrotóxicos não liberados pela ANVISA por causarem danos a saúde (link da matéria).
É um pouco assustador pensar na quantidade de produtos químicos que ingerimos diariamente. E por mais que existam alguns estudos sobre o efeito pontual de cada um, é impossível prever seu efeito sinérgico no organismo humano e no planeta.
Aliás, quanto a reconhecer o efeito no planeta, algo que me chamou muito a atenção foi que o livro está abarrotado de relatos espontâneos de pessoas que reparavam as mudanças no ambiente, uma cita que em Londres era possível trafegar milhas sem ver uma única ave, e tantos outros fazem reclamações semelhantes. São pessoas que reparam na natureza, pessoas que foram capazes de notar algum problema. É verdade que nesse caso o problema era gritante, mas eu fico assustada como cada vez menos conhecemos e reparamos nas aves e na natureza. Uma professora minha já havia dito "as crianças do campo sabem reconhecer o símbolo do Big, mas não reconhecem nenhuma espécie de ave local". É possível que espécies tenha sido extintas sem que as tenhamos conhecido... e é possível que espécies venham a ser extintas sem que aprendamos a admirá-las. Admirar a natureza é uma atividade extremamente prazerosa e didática, não apenas didática no sentido de estudar seus processos mecânicos, mas didática num sentido mais transcendental, a observação da natureza nos leva a uma viagem interna e espontânea que resulta em insights. Nossa humanidade desenvolvida, cria tecnologias fabulosas mas pouco conhece seu interior e tem adotado práticas que destroem os melhores professores para isso.
Claro que a visão ambiental atual tem um viés pragmático, que é real, preocupante e convence mais. Simplesmente dependemos de um ambiente saudável para existirmos, dependemos de ar e água limpos, dependemos dos "serviços" ambientais prestados pelos demais seres vivos. Isso é verdade, mas pode ser tecnologicamente produzido. Eu sempre fico com uma cara de panaca quando exponho uma preocupação ambiental e o engenheiro mais próximo descreve 3 ou 4 projetos que já existem para amenizar o problema. Eu entro num conflito interno, pois deveria ficar feliz em saber da existência de um purificador de água movido a energia solar, por exemplo, mas eu não fico, eu fico irritada. Achava que era por "perder a discussão", mas eu não ligo para ganhar discussões, não é falsa modéstia, eu nasci com esse problema. Esse livro traz trechos que poderiam se enquadrar como "poético-ambiental" o que me fez pensar que a maior motivação para minha postura ambiental é transcendental, o que dificulta qualquer discussão nesse mundo pragmático. Mas tentarei: eu quero manter a possibilidade de depois do expediente me mandar para um lugar sem nenhum resquício da atuação humana, pois só nessas condições eu consigo me harmonizar. é só quando fico uma hora num lugar assim que eu alcanço a sensação de saber quem eu sou e de ficar bem com isso. Poderia dizer que tenho inveja das pessoas que parecem conseguir isso indo a shoppings centers, mas faz algum tempo que desisti das comparações externas e esdrúxulas. mas de fato, parece meio injusto e inadequado reivindicar a intocabilidade de ambientes naturais pelo simples fato de sentir uma necessidade interna escandalosamente gritante... Quando questionado sobre a necessidade de um local adequado para meditar Gandhi disse que trazia a caverna dentro de si. Talvez isso fosse o adequado, a ponto de eu tentar me esforçar para manter aquela sensação (conquistada depois de uma hora em contato com a natureza) em todo e qualquer local, inclusive engarrafamentos e shoppings centers, mas tenho a impressão de que ninguém consegue, e que se pudessem apreciar a natureza "selvagem" haveria mais paz.
Acho que é isso que nutre o ambientalismo, que nunca parece satisfeito com soluções práticas. não quero "ecoeficiência", eu, nós, precisamos disso, o que eu quero é paz, amor e harmonia. Talvez tu lendo isso possa ter chego a concordar, mas lhe afirmo que dizer muitas vezes soa ridículo, e eu fico sem entender pois na minha lógica é isso o que mais importa e é para isso que o desenvolvimento tecnológico nos deveria guiar.
Claro que a visão ambiental atual tem um viés pragmático, que é real, preocupante e convence mais. Simplesmente dependemos de um ambiente saudável para existirmos, dependemos de ar e água limpos, dependemos dos "serviços" ambientais prestados pelos demais seres vivos. Isso é verdade, mas pode ser tecnologicamente produzido. Eu sempre fico com uma cara de panaca quando exponho uma preocupação ambiental e o engenheiro mais próximo descreve 3 ou 4 projetos que já existem para amenizar o problema. Eu entro num conflito interno, pois deveria ficar feliz em saber da existência de um purificador de água movido a energia solar, por exemplo, mas eu não fico, eu fico irritada. Achava que era por "perder a discussão", mas eu não ligo para ganhar discussões, não é falsa modéstia, eu nasci com esse problema. Esse livro traz trechos que poderiam se enquadrar como "poético-ambiental" o que me fez pensar que a maior motivação para minha postura ambiental é transcendental, o que dificulta qualquer discussão nesse mundo pragmático. Mas tentarei: eu quero manter a possibilidade de depois do expediente me mandar para um lugar sem nenhum resquício da atuação humana, pois só nessas condições eu consigo me harmonizar. é só quando fico uma hora num lugar assim que eu alcanço a sensação de saber quem eu sou e de ficar bem com isso. Poderia dizer que tenho inveja das pessoas que parecem conseguir isso indo a shoppings centers, mas faz algum tempo que desisti das comparações externas e esdrúxulas. mas de fato, parece meio injusto e inadequado reivindicar a intocabilidade de ambientes naturais pelo simples fato de sentir uma necessidade interna escandalosamente gritante... Quando questionado sobre a necessidade de um local adequado para meditar Gandhi disse que trazia a caverna dentro de si. Talvez isso fosse o adequado, a ponto de eu tentar me esforçar para manter aquela sensação (conquistada depois de uma hora em contato com a natureza) em todo e qualquer local, inclusive engarrafamentos e shoppings centers, mas tenho a impressão de que ninguém consegue, e que se pudessem apreciar a natureza "selvagem" haveria mais paz.
Acho que é isso que nutre o ambientalismo, que nunca parece satisfeito com soluções práticas. não quero "ecoeficiência", eu, nós, precisamos disso, o que eu quero é paz, amor e harmonia. Talvez tu lendo isso possa ter chego a concordar, mas lhe afirmo que dizer muitas vezes soa ridículo, e eu fico sem entender pois na minha lógica é isso o que mais importa e é para isso que o desenvolvimento tecnológico nos deveria guiar.
Apenas quando pudermos concordar que "mais vale um pássaro voando do que dois na mão" estaremos em paz.
sexta-feira, 8 de março de 2013
Desmistificando Gandhi
Mais um gostoso presente do hábito de bisbilhotar a biblioteca da facul foi descobrir um pouco mais sobre essa pessoa fantástica chamada Gandhi.
Primeiro eu li a biografia, depois eu assisti ao filme, e acabei de terminar a leitura da autobiografia.
No auge de minha ignorância eu esperava ler sobre uma pessoa transcendental, não sei explicar bem, mas eu imaginava ele como alguém iluminado a quem as respostas chegam de maneira miraculosa. Fiquei imensamente surpresa em encontrar nas páginas escritas o reflexo de uma pessoa comum, bem, basicamente comum. O que diferencia Gandhi dos demais mortais não é nada miraculoso, é apenas sua sincera e incansável busca pela verdade (o que o levou a desenvolver o Satyagraha). Foi fácil me dar conta de que esse "apenas" é muita coisa.
Mas o que quero dizer é que ele não foi um enviado divino com discursos e condutas impecáveis, pronto à guiar todos os seres rumo a boa conduta moral. Ele foi se moldando e se formando com o tempo. Se formou em direito em Londres e por algum tempo exerceu a profissão na Índia, lá na Africa sofreu um "choque de realidade" ao reconhecer como eram desprezados os indianos. A partir de então passou a ter uma participação cada vez mais ativa para reverter esse cenário. Defendendo causas de interesse social de graça, escrevendo a jornais etc. Tudo o que ele defendia ele acreditava a ponto de viver isso (o que tem sido raro encontrar nas pessoas de hoje que defendem ações completamente contrárias a seu modo de vida, por uma razão ou outra, como ditos comunistas podem viver de modo opulento ao lado de miseráveis famintos é algo que me perturba...).
Aliás, a autobiografia foi escrita aos poucos em capítulos. Sua dedicação à comunidade chegou a tal ponto que o tempo dedicado a si era ínfimo. Como haviam solicitado que escrevesse à um jornal e amigos de confiança pediam para que registrasse a parte não pública de seus feitos políticos na forma de uma autobiografia, ele foi escrevendo os capítulos no periódico.
É engraçado que em algumas passagens fiquei impressionada pelo fato de ele se revelar tão estrategista, ele identificava atores chave e estudava a maneira ideal de abordá-los para conquistar suas causas. Também costumava articular ideias com vários amigos. Essa é uma dificuldade do livro citação constante de diversos nomes indianos e árabes que nunca ouvi dizer.
Ao longo do livro ele aborda questões como alimentação, ele comeu carne escondido um período de sua adolescência se deixando levar pela influência de um "amigo". Mas manteve-se vegetariano, até que optou por deixar temperos, sal e por fim até legumes e vegetais. O que parece ter causado certos problemas intestinais. Com essa dieta ao se hospedar com amigos reconheceu que causava certo desconforto entre os anfitriões, que dispunham enorme variedade de frutas e castanhas, acabou por considerar comer apenas 5 exemplares por dia!
Quanto a prática religiosa, ele leu a bíblia e o corão, conversou honestamente com católicos e muçulmanos, mas seus princípios se afinavam mais com o hinduísmo E lia regularmente a Gita, e permanecia em oração em todo momento de sua vida. Nesse sentido eu comprei um outro livro fabuloso denominado "A roca e o calmo pensar", com trechos de cartas, discursos e artigos do Gandhi sobre a prática e importância da oração.
Enfim, vai sendo narrado de forma simples e humilde, passagens de sua vida e os fatores que o levaram a realiza-los. Nota-se que uma série de vivências e opções foram lapidando esse ser humano aparentemente livre de ego. É interessante notar as grandes conquistas políticas alcançadas com ações totalmente livres de violência (pautadas em boicote, greves - verdadeiras, não-cooperação, desobediência civil - considerando a existência de uma lei superior a nosso ser, a voz da consciência).
Em trecho ressalta que "civilidade não significa mera gentileza e fala cortês, mas amabilidade intrínseca e desejo sincero de fazer o bem ao oponente".
Vou citar parte do capítulo final:
"Tem sido um esforço incessante descrever a verdade como ela se apresentou a mim, e o exato modo como a alcancei. Esse exercício tem me proporcionado uma inefável paz mental. Minha experiência me convenceu de que não há outro Deus senão a Verdade. E se todas as páginas desse capítulo não proclamarem ao leitor que o único meio para a realização da Verdade é o ahimsa (não-violência em todos os aspectos, pensamento, sentimento e ação), devo concluir que todo meu trabalho foi em vão. E, mesmo que meus esforços sejam infrutíferos, quero que os leitores saibam que foi o veículo, e não o grande princípio, que falhou. Depois de tudo, por mais sincera que tenha sido minha busca pelo ahimsa, ela não deixa de ser imperfeita e inadequada. Mas posso assegurar que como resultado de minhas experiências, uma perfeita compreensão da Verdade só pode resultar da completa percepção do ahimsa.
Para ver face a face o Espírito da Verdade universal o indivíduo deve amar a mais insignificante criatura como a si próprio. E um homem que quer chegar a isso não pode permanecer fora de nenhum campo da vida. É por isso que minha devoção à Verdade me levou ao campo da política. E posso afirmar, sem a menor hesitação e ainda assim humildemente, que aqueles que dizem que religião não tem nada a ver com política não sabem o que significa religião.
A identificação com tudo o que existe é impossível sem uma autopurificação. Sem ela, a observação do ahimsa permanece um sonho vazio. A autopurificação, portanto, deve implicar a ascese em todos os aspectos da vida. Para atingi-la, o indivíduo tem de se tornar absolutamente livre de paixões em pensamento, palavras e ações. Precisa elevar-se acima das correntes opostas de apego e ódio. Sei que ainda não tenho dentro de mim essa pureza, por isso que os elogios do mundo não me comovem, na verdade com muita frequência me doem.
Conquistar essas paixões sutis me parece mais difícil que a conquista física do mundo pela força dos braços. Tenho tido experiências com paixões latentes, escondidas em meu interior, o conhecimento delas fez com que me sentisse humilhado, mas não vencido. Sei que tenho um caminho difícil a transpor. Devo reduzir-me a zero. Enquanto o homem não se colocar por livre e espontânea vontade como a última de todas as criaturas não há salvação para ele. O ahimsa é o limite máximo da humildade."
Não é fantástico que ele exponha se modo tão sincero seus monstros, e que também ele estivesse em constante esforço pelo aprimoramento pessoal? Acho que o primeiro e principal passo é nos esforçarmos em busca do aprimoramento moral. O que me faz lembrar a citação que li num e-mail hoje "Somos o que fazemos, mas somos principalmente o que fazemos para mudar o que somos".
É até divertido pensar na vida como um jogo de vídeo-game, no qual iniciamos com certos defeitos dos quais devemos nos libertar ao longo das fases! Mas um jogo muito mais dinâmico, onde defeitos que pareciam ter sido superados retornam com maior amplitude, e outros são vencidos sem nos darmos conta, pois são superados ao nos focarmos em outros assuntos que não o defeito em si, como ações comunitárias.
Primeiro eu li a biografia, depois eu assisti ao filme, e acabei de terminar a leitura da autobiografia.
No auge de minha ignorância eu esperava ler sobre uma pessoa transcendental, não sei explicar bem, mas eu imaginava ele como alguém iluminado a quem as respostas chegam de maneira miraculosa. Fiquei imensamente surpresa em encontrar nas páginas escritas o reflexo de uma pessoa comum, bem, basicamente comum. O que diferencia Gandhi dos demais mortais não é nada miraculoso, é apenas sua sincera e incansável busca pela verdade (o que o levou a desenvolver o Satyagraha). Foi fácil me dar conta de que esse "apenas" é muita coisa.
Mas o que quero dizer é que ele não foi um enviado divino com discursos e condutas impecáveis, pronto à guiar todos os seres rumo a boa conduta moral. Ele foi se moldando e se formando com o tempo. Se formou em direito em Londres e por algum tempo exerceu a profissão na Índia, lá na Africa sofreu um "choque de realidade" ao reconhecer como eram desprezados os indianos. A partir de então passou a ter uma participação cada vez mais ativa para reverter esse cenário. Defendendo causas de interesse social de graça, escrevendo a jornais etc. Tudo o que ele defendia ele acreditava a ponto de viver isso (o que tem sido raro encontrar nas pessoas de hoje que defendem ações completamente contrárias a seu modo de vida, por uma razão ou outra, como ditos comunistas podem viver de modo opulento ao lado de miseráveis famintos é algo que me perturba...).
Aliás, a autobiografia foi escrita aos poucos em capítulos. Sua dedicação à comunidade chegou a tal ponto que o tempo dedicado a si era ínfimo. Como haviam solicitado que escrevesse à um jornal e amigos de confiança pediam para que registrasse a parte não pública de seus feitos políticos na forma de uma autobiografia, ele foi escrevendo os capítulos no periódico.
É engraçado que em algumas passagens fiquei impressionada pelo fato de ele se revelar tão estrategista, ele identificava atores chave e estudava a maneira ideal de abordá-los para conquistar suas causas. Também costumava articular ideias com vários amigos. Essa é uma dificuldade do livro citação constante de diversos nomes indianos e árabes que nunca ouvi dizer.
Ao longo do livro ele aborda questões como alimentação, ele comeu carne escondido um período de sua adolescência se deixando levar pela influência de um "amigo". Mas manteve-se vegetariano, até que optou por deixar temperos, sal e por fim até legumes e vegetais. O que parece ter causado certos problemas intestinais. Com essa dieta ao se hospedar com amigos reconheceu que causava certo desconforto entre os anfitriões, que dispunham enorme variedade de frutas e castanhas, acabou por considerar comer apenas 5 exemplares por dia!
Quanto a prática religiosa, ele leu a bíblia e o corão, conversou honestamente com católicos e muçulmanos, mas seus princípios se afinavam mais com o hinduísmo E lia regularmente a Gita, e permanecia em oração em todo momento de sua vida. Nesse sentido eu comprei um outro livro fabuloso denominado "A roca e o calmo pensar", com trechos de cartas, discursos e artigos do Gandhi sobre a prática e importância da oração.
Enfim, vai sendo narrado de forma simples e humilde, passagens de sua vida e os fatores que o levaram a realiza-los. Nota-se que uma série de vivências e opções foram lapidando esse ser humano aparentemente livre de ego. É interessante notar as grandes conquistas políticas alcançadas com ações totalmente livres de violência (pautadas em boicote, greves - verdadeiras, não-cooperação, desobediência civil - considerando a existência de uma lei superior a nosso ser, a voz da consciência).
Em trecho ressalta que "civilidade não significa mera gentileza e fala cortês, mas amabilidade intrínseca e desejo sincero de fazer o bem ao oponente".
Vou citar parte do capítulo final:
"Tem sido um esforço incessante descrever a verdade como ela se apresentou a mim, e o exato modo como a alcancei. Esse exercício tem me proporcionado uma inefável paz mental. Minha experiência me convenceu de que não há outro Deus senão a Verdade. E se todas as páginas desse capítulo não proclamarem ao leitor que o único meio para a realização da Verdade é o ahimsa (não-violência em todos os aspectos, pensamento, sentimento e ação), devo concluir que todo meu trabalho foi em vão. E, mesmo que meus esforços sejam infrutíferos, quero que os leitores saibam que foi o veículo, e não o grande princípio, que falhou. Depois de tudo, por mais sincera que tenha sido minha busca pelo ahimsa, ela não deixa de ser imperfeita e inadequada. Mas posso assegurar que como resultado de minhas experiências, uma perfeita compreensão da Verdade só pode resultar da completa percepção do ahimsa.
Para ver face a face o Espírito da Verdade universal o indivíduo deve amar a mais insignificante criatura como a si próprio. E um homem que quer chegar a isso não pode permanecer fora de nenhum campo da vida. É por isso que minha devoção à Verdade me levou ao campo da política. E posso afirmar, sem a menor hesitação e ainda assim humildemente, que aqueles que dizem que religião não tem nada a ver com política não sabem o que significa religião.
A identificação com tudo o que existe é impossível sem uma autopurificação. Sem ela, a observação do ahimsa permanece um sonho vazio. A autopurificação, portanto, deve implicar a ascese em todos os aspectos da vida. Para atingi-la, o indivíduo tem de se tornar absolutamente livre de paixões em pensamento, palavras e ações. Precisa elevar-se acima das correntes opostas de apego e ódio. Sei que ainda não tenho dentro de mim essa pureza, por isso que os elogios do mundo não me comovem, na verdade com muita frequência me doem.
Conquistar essas paixões sutis me parece mais difícil que a conquista física do mundo pela força dos braços. Tenho tido experiências com paixões latentes, escondidas em meu interior, o conhecimento delas fez com que me sentisse humilhado, mas não vencido. Sei que tenho um caminho difícil a transpor. Devo reduzir-me a zero. Enquanto o homem não se colocar por livre e espontânea vontade como a última de todas as criaturas não há salvação para ele. O ahimsa é o limite máximo da humildade."
Não é fantástico que ele exponha se modo tão sincero seus monstros, e que também ele estivesse em constante esforço pelo aprimoramento pessoal? Acho que o primeiro e principal passo é nos esforçarmos em busca do aprimoramento moral. O que me faz lembrar a citação que li num e-mail hoje "Somos o que fazemos, mas somos principalmente o que fazemos para mudar o que somos".
É até divertido pensar na vida como um jogo de vídeo-game, no qual iniciamos com certos defeitos dos quais devemos nos libertar ao longo das fases! Mas um jogo muito mais dinâmico, onde defeitos que pareciam ter sido superados retornam com maior amplitude, e outros são vencidos sem nos darmos conta, pois são superados ao nos focarmos em outros assuntos que não o defeito em si, como ações comunitárias.
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