segunda-feira, 10 de março de 2014

Sociedade em crise e vislumbres de novas possibilidades

Não é mais questão de política, de como regular o mercado, para que ele se auto-regule, trata-se de gerir os recursos que temos. E não digo apenas de recursos materiais, como terra fértil, metais, vento, senão também recursos mais sutis, como a criatividade humana, a tecnologia potencial, e até os sentimentos nobres. Convenhamos, sentimentos nobres são sistematicamente desincentivado.

Porque temos empregos? Com tantas máquinas. Pensa, a maioria dos empregos são tediosos e totalmente inúteis. Para transferir a placa de meu carro, falei com aproximadamente 15 pessoas, essas me atenderam diretamente, no balcão do detran, na vistoria, para fazer a placa, no banco, e se não precisássemos de placas, ou melhor, se não precisássemos de carros, por meio de um transporte público eficiente? Quantos empregos seriam/são desnecessários! E não é ruim não ter emprego, essas pessoas passam a maior parte do seu dia fazendo uma atividade chata pra caramba, como passar lápis sobre uma etiqueta colada no chassi! Esse camarada com tempo livre poderia compor canções tão lindas como as que jamais iremos ouvir. Se o governo britânico não tivesse (como não tem atualmente) investido em cultura Jonh Lennon teria passado toda sua vida empilhando caixas, e nós jamais cantaríamos e nos inspiraríamos com Imagine. Emprego não é bom, é uma bosta, trabalhar no que realmente gosta (sem depender do salário) é bom. Criar emprego é a pior medida política que pode-se usar de propaganda eleitoral. Temos que pensar em diminuir empregos, aumentar distribuição e tempo livre.

Mas, porque as pessoas buscam emprego feito loucas? Pq mesmo o mais humilde dos seres humanos, o dotado de zero ganância precisa de emprego? Por causa do dinheiro! Não do dinheiro em si, mas do passaporte para condições mínimas de vida. Alimentação, remédio, informação, conhecimento, cultura, atividade social, transporte. Não precisamos de dinheiro, ninguém precisa de dinheiro, mas precisamos e muito do acesso à bens que só nos oferecem mediante a essa troca inescrupulosa. Passa tempo. Nessas férias fui a uma praia e haviam várias pranchas de remar, elas ficavam em pé, paradas, porque eram alugadas, e quando não havia dinheiro para alugá-las, elas ficavam paradas e alguém desejoso de brincar, ficava passando vontade, entediado, mais pobres não podem nem chegar perto de uma.

Jacques Fresco conta que na crise de 30 "Foi difícil entender o motivo porque milhões de pessoas estavam sem trabalho, sem teto e prestes a morrer de fome, enquanto todas as fábricas estavam ali, os recursos não tinham mudado." Nesse momento começou a entender e questionar e entender e criticar as "regras do jogo" econômico. Viveu também a segunda guerra mundial "onde as nações se revezavam na destruição mutua e sistemática. Calculei que toda destruição e todos os recursos desperdiçados na guerra poderiam facilmente ter provido todas as necessidades humanas no planeta."

Seguiu observando criticamente as medidas governamentais economicistas e "desenvolvimentistas" e depois de muito ler (aparentemente muito e sobre tudo, religião, sociedade, poder, comportamento humano, economia), pensar, propor, dialogar, viajar, trabalhar, se envolver em projetos diversos, ele passou a identificar as raízes do problema e idealizar suas soluções. Chegou então a essa bela possibilidade chamada Projeto Venus. Venus é a cidade da Florida em que se encontra seu centro de pesquisa, mas é um nome muito curioso, e feliz, pois diversas linhas místicas mantem a tradição de dar à "Deus" um aspecto feminino (não é mulher, o feminino existe em diversos graus nos homens também), o qual estaria mais voltado a generosidade, constância, cooperação, as sociedades matriarcais que houveram não tinham uma natureza guerreira e opressora. Mas enfim, sigamos!

E porque existe o dinheiro? Seria para controlar o acesso a recursos limitados. ok, mas não somos capazes de pensar em outras formas de lidar com esses recursos? Porque temos que limitar moradia, transporte, saúde? Esses "recursos" são limitados? Uau, pois quando eu entro num supermercado não me parece, muitos autores que estudam a "geopolítica da fome" concordam que produzimos alimento suficiente para 12 bilhões de seres humanos, somos em 7, dos quais 12,5% passa fome (fonte). Será mesmo o dinheiro uma maneira inteligente de gerir recursos? Quantos médicos se formam por ano, o conhecimento é um recurso limitado? Meu amigo economista resolve todos os problemas em 2 segundos, aumenta o preço daqui, investe ali, fiscaliza acolá... bem, convenhamos, esperar que o capitalismo traga abundância a todos é muita ingenuidade, não?! A escassez e a miséria é interessante para a manutenção do satus quo, será que se todos tivessem acesso garantido à saúde, alimentação, lazer e moradia se submeteriam a empregos desumanos e degradantes? A pobreza é um baita negócio nesse atual sistema, pode-se pagar 500 reais de aluguel numa casa com 3 dormitórios nas favelas do Rio:

"Segundo o Data Popular, as favelas geram por ano cerca 63 bilhões de reais. Por isso vale a pena mostrar a favela como um lugar formidável [sobre uma matéria do Fantástico que mostrava as maravilhas do morro]. Os recursos não permanecem nas favelasO ciclo da economia gira em torno das grandes redes. Vale a pena colocar uma Besni, um Itaú e uma Casas Bahia em uma favela: em alguns estados o governo oferece como contrapartida isenção de imposto para as empresas - uma espécie de insalubridade, a mão de obra é barata, o povo paga as contas em dia, mesmo com a geladeira, adquirida por pressão no intervalo da novela, que anunciava a redução do IPI, vazia."

A vida e a qualidade de vida deixou a muito tempo de ser prioridade. Mesmo a informação, dada por jornalistas, não busca a verdade e sua difusão, busca o lucro, acumular dinheiro a patrões bastante distantes da realidade que são noticiadas. O mesmo com os avanços tecnológicos e na área da saúde, será interessante economicamente desenvolver a cura do câncer, ou meios de evitá-lo? No meio acadêmico até, vi esses dias que um estudo que buscava relacionar transgênico com câncer foi terrivelmente criticado, principalmente por cientistas que trabalhavam em projetos de patentes de transgênicos, ganhado certamente muito dinheiro.

O universo do pensamento é livre, podemos idealizar o que quisermos: e se não houvesse dinheiro? Você pensa que ficariam todos os seres humanos ociosos, se comendo, e sei lá eu fazendo o que mais? A única coisa que te motiva é ganhar dinheiro? E se vc não precisasse, não há nada que te interessa? Desenho, filosofia, música, engenhocas, corpo humano, nada? Imagine que vc pudesse entrar em um supermercado e pegar o que quisesse para se alimentar, para vestir, totalmente livre. Nossas férias e fim de semana são poucos "produtivos", pois gastamos toda nossa energia no emprego.

O mundo está um caos, inteiro e completo. Nosso ambiente cada vez mais poluído e degradado, desculpe, mas não se iluda pensando que se todos reciclassem, se todos poupassem, se todos... pq não vai acontecer, enquanto as inovações forem disputadas a tapa por grandes corporações desejosas de mais lucro, cada tecnologia que aparece não é para o bem comum, cada politica que se cria também não, todas as inovações são para aumentar os lucros, ou não recebem investimentos (vide Tesla que morreu pobre investindo tudo o que tinha no desenvolvimento de energia gratuita e powers) e nessa onda também se focam as medidas sociais (o ciência sem fronteiras tem parceria com grandes empresas e o objetivo não é melhorar a qualidade de vida de forma holística, não é que o conhecimento adquirido seja aplicado na melhora da vida dos que necessitam, através de inovações de ponta, basta ver o foco dos cursos e as empresas parceiras, é uma medida de criar mão de obra qualificada para aumentar os lucros, e esses lucros são importantes pois geram emprego... e novamente não há investimento em emancipação, capital social e empoderamento popular). Você pensa que é livre mas não é. E nem será enquanto tiver que pagar as contas, e sem "pagar as contas" vc não se transporta, não come, não se cura, nem se mantém saudável, não se comunica. E é possível mudar isso, afinal os recursos existem, as pessoas existem, elas tem criatividade para tecnologias, o que pode deixar de existir é o que regula o acesso a tudo isso, o dinheiro. E, quando deixar não haverá exclusão, não haverá diferença entre brancos e negros, homem e mulher, artista ou engenheiro, quer dizer haverá diferença, mas nenhum será excluído, todos poderão entrar na mesma loja e terão as mesmas possibilidades, as diferenças serão internas, como aptidão, interesse, etc. mas não serão diferenças qualificadoras "melhor ou pior".

É claro que haverão problemas e limitações, pois tudo é dinâmico, e talvez esse modelo possa deixar de servir em algum momento, como, convenhamos, o modelo atual não serve mais...

Vale a pena assistir ao documentário Paraíso ou Esquecimento, estamos em um momento importante. Muitos renomados ecologistas (Odum - O Declínio Próspero) e economistas (Meadows - Os Limites do Crescimento) acreditam ser nossa fase atual um ponto crítico, ou seguimos com a lógica atual (ainda que maquiada de medidas "freio de mão" como reciclagem, protocolo de kioto e blablabla) explorando, extraindo, poluindo, concentrando e lucrando, ou aproveitamos que ainda temos energia não renovável o suficiente e construímos uma nova sociedade sustentável, pautada em outro paradigma, que não o economicismo tradicional calcado na competição e acumulação. Nos livros defendem que essa é uma escolha que deve ser tomada, e quanto mais rápido mais próspero será o "declínio" da atual economia e civilização (como é nesse momento), não tomar essa decisão implica em esgotarmos as possibilidades de escolha e interferência nesse declínio, que é inevitável.

sábado, 8 de março de 2014

a passividade forjada que nunca existiu

8 de março, assim que me lembrei que esse é o “dia internacional da mulher” pensei que poderia utiliza-lo para escapar da louça. Mas, já era tarde, eu havia esfregado o chão, lavado roupa, capinado o canteiro e estava segurando um prato com as mãos cheias de sabão... E sinceramente, deixar de fazer isso não teria feito meu dia mais feliz, no meu caso eu não faço por obrigação, mesmo porque as tarefas domésticas por aqui se não são igualmente divididas, pendem mais para o sexo masculino, em nossa casa anarquista. Ademais não é essa a importância da data, não é para ganhar chocolates (com cacau colhido por mãos escravas) nem flores (plantadas aos montes, com tantos produtos químicos que mal são capazes de apodrecer), nem tão pouco para ter um dia de princesa (aliás não deveria o termo se associar mais a nobreza de caráter do que a vadiagem e exploração explícita de terceiros?).

Não, não, não, pensei comigo, esse dia é para lembrarmos que em média 15 mulheres são mortas, a cada dia, pelo simples fato de serem mulheres. Eu em relacionamento sério com um feminista nato e frequentando espaços relativamente civilizados (no bom sentido do termo), não corro risco de fazer parte dessa macabra estatística. Esse dia não é para mim. Foi o que meti na minha cabeça e segui meu dia, como todos os outros. Apenas curtindo algumas postagens feministas.
Mas eis que aos 45 do segundo tempo. Ouço os rapazes de casa comentando sobre o Game of Thrones, a respeito de uma parte que a mãe diz que "o que o rei fala vira a verdade e vira a história". Instantaneamente sou arrastada até a história de Wu Zetian.
Me diga, quantos nomes de rua femininos vc conhece? Quantos bustos femininos vemos expostos pelas praças? Nomes de cidade? Não que isso signifique lá muita coisa, ainda mais no Brasil que escolhem a dedo os nomes e rostos para serem homenageados, e os verdadeiros heróis são sistematicamente ignorados.  De todo modo, quantas filósofas vc leu, ou ouviu falar? Quantas cientistas? Deusas? Líderes políticos? Mestres iluminadas?  Revolucionárias simbólicas? Será que não houve? Será que só hoje as mulheres são capazes e tem permissão de ousarem e agirem, e contribuírem para o progresso moral, intelectual e social da humanidade? E espiritual? Não houveram personalidades femininas dignas de serem lembradas? Porque tanto se fala de Sócrates e tão pouco de Aspásia? Será que não houveram mulheres notáveis, ou será que foram sendo pouco a pouco removida dos livros de história? Tão pouco os que leram Rosa Luxemburgo, ou Ema Goldman!
Voltemos a nossa Wu. Citada no maravilhosos livro: Feminino Ativo, Feminino Solar. Wu é apresentada na história chinesa como um ser diabólico de tão sanguinário. Bem, de fato, muito sangue foi derramado sob suas ordens, passível de crítica, no entanto, não teria ela derramado mais sangue do que outros imperadores a ponto de justificar tal fama. Pq sua história e contada com esse enfoque?
De início partimos que mesmo hoje, com certa liberdade que gozam os historiadores, havemos de convir que a história contada é bastante parcial. Na China essa parcialidade é acentuada, e os escritores relatam o que lhes é ordenado dizer, ou então não dirão nada.
Wu cometeu uma primeira grande gafe ao nascer sem um salsichão pendurado entre suas pernas. Mesmo num tempo de alguma valorização do feminino, mulheres eram consideradas pessoas de polaridade yin, passivas e submissas, naturalmente, sem capacidade física ou moral de reinar. Confrontar essa “lei natural” determinista de modo prático a transformava, para muitos, em um monstro antinatural.
Segundo, e possivelmente mais importante. Wu traz reformas profundamente democráticas. Instaurou sistemas de concurso público para altos cargos do Estado, “projetou diversas medidas humanitárias, tais como diminuição dos impostos, para favorecer o desenvolvimento da agricultura e da indústria da seda; isentar de trabalhos forçados os habitantes de algumas zonas e, de modo geral, reduzi-los um pouco em toda parte; converter a atividade militar em educação moral; limitar os excessos de luxo; promover o taoísmo; revalorizar o papel de mãe e e o respeito que lhe é devido [...]” Conquistando assim o apoio incondicional do povo e o ódio da classe aristocrática.  A qual após sua morte se dedicou a destruir sua história para não haver risco de que semelhante ameaça voltasse a lhes acontecer.

Ainda hoje exercer o papel de liderança num corpo feminino é um desafio bastante grande: 
"Em uma experiência comum, feita em vários países, um grupo de pessoas é convidado a avaliar um discurso feito por um homem, enquanto outros avaliam o mesmo discurso feito por uma mulher. Geralmente, todos dão uma nota maior quando o discurso é feito por um homem.
A autopromoção é uma estratégia útil para os homens, mas quando as mulheres ressaltam suas próprias realizações, provocam antagonismos ou não despertam interesse. E as mulheres parecem ficar ainda mais ofendidas com a autopromoção feminina do que os homens. Isso cria um enorme desafio para mulheres porque, quando ela é uma pessoa modesta, é considerada medíocre. Se ela procura promover suas realizações, porém, é taxada de presunçosa. Para o azar das mulheres, a liderança feminina pode ser reconhecida pela competência ou pela simpatia, mas não por ambas." (Link)

Feminino Ativo
Voltemos à China, ainda hoje podemos encontrar em Sichuan o povo Moso. Embora sua cultura esteja cada vez mais deturpada pelo acesso constante de turistas, essa sociedade se construiu num viés matriarcal. Eles não reconhecem o casamento, aliás, reconhecem como um aprisionamento do amor, que segundo sua concepção deve ser livre, “os sentimentos só conseguem desabrochar em liberdade”. Assim, as mulheres encontram seus namorados a noite como, quando e por quanto tempo querem. Quando engravidam, cuidam de seus filhos com sua família, na casa da mãe com seus irmãos. Não há a figura paterna, no máximo um tio. A casa é posse da mãe, que passa a uma filha mulher. Pode soar um pouco injusto com o sexo masculino, e talvez seja mesmo, mas eles não são objeto de maus-tratos. O fato de os homens não terem direito a propriedade, nem da esposa, nem da casa, nem dos filhos, é visto por eles como fator crucial para manutenção da harmonia:

“com elas, não há conflitos, tudo é mais tranquilo [...] o elemento masculino é causador de problemas quando possui algo sujeito a rivalidade [...] os homens [mosos] não possuem nada [portanto] eles não tem nenhum motivo para brigar.”
Esse livro traz diversos exemplos de mulheres e sociedades que nos convencem de uma vez por todas que essa história de feminino estar relacionado a passividade e submissão é uma grandiosíssima mentira. Períodos em que o feminino era respeitado e valorizado apresentam verdadeiros momentos de progresso e avanços tecnológicos e morais. O mais interessante é analisar como esse conceito (feminino = passivo, submisso, inútil, servil) é construído de modo maquiavélico, ninguém nunca me disse, não que eu me lembre, claramente “cala boca que vc é mulher e só fala asneira”. Hum, lembrando melhor talvez meu irmão tenha me dito algumas vezes, mas era “zoeira”, assim como, tenho me lembrado, algumas piadas e correntes de e-mail. Mas o fato alarmante é que essas infelizes piadas foram endossadas pelas aulas de história, matemática e física, ao sempre endeusarem cérebros masculinos (brancos de origem europeia, diga-se de passagem, classe alta, provavelmente uma vez que educação é seletiva), idem na religião “pai, filho, espírito santo” (em muitas crenças silenciadas essa trindade é feminina, ou composta por casal e filhx, mesmo pq se Deus está associado à criação quem está mais próximo desse dom, o feminino ou o masculino?) ou Kardec, Buda, Islamismo... Eu, de um modo ou outro, sempre soube que mulheres são seres inferiores, eu tentava achar algo que me provasse o contrário, mas na realidade eu sabia que éramos. Tempos difíceis esses...
Agora eu sei que não somos inferiores. Esse livro está sendo uma luz muito importante nessa consolidação desse meu novo saber. Eu sempre encarei a menstruação como um castigo, como algo realmente degradante, vergonhoso, monstruoso, uma moléstia. Mas sabe, ter essa ligação tão forte com um belo astro redondo e majestoso, é uma linda relação com a natureza. A capacidade de dar a luz, gerar vida é muito mais ativo do que a passividade de ser um receptáculo ao líquido da vida masculino, conceito inculcado a muito que ainda hoje tem repercussão quando não cabe a mãe decidir que tipo de parto ela escolhe ou se quer parir.
Não minhas amigas. Não somos passivas, e não devemos, em hipótese alguma, nenhum tipo de submissão, isso é contrário a nossa natureza, e só há de trazer dor, sofrimento e infelicidade. Obviamente, não é a autoridade e tirania, por outro lado que nos darão a paz de espirito oriunda da felicidade. Mas, o respeito mútuo às liberdades e escolhas.

segunda-feira, 3 de março de 2014

Ecologia da evolução de mim mesma e como fiz as pazes comigo

Tenho repetido e me convencido da certeza absoluta de que esses anos de mestrado me transformaram, total, profunda e radicalmente!

De fato, foram leituras, aulas e trabalhos intensos, conceitos novos, e para mim uma forma de ver a história totalmente nova. Bem, sabe, meus pais sentem falta dos belos tempos da ditadura, e com muito custo me mantiveram num dos colégios mais caros da cidade, desenhado para atender as demandas da elite local. E eu sentia que não me encaixava muito bem aí. Mas, não identificava exatamente o que tanto me incomodava. Passei a ser crítica das aparências e ter asco de patricinhas, enquanto ao mesmo tempo internalizava conceitos trôpegos de que "ser contra o sistema" é coisa de idiota que busca uma desculpa para justificar sua vadiagem, que a dignidade do ser humano está no quanto este trabalha (e trabalho aqui no sentido de atividade profissional remunerada), que o objetivo máximo é acumular bens, que a pobreza existe devido a malevolência de pessoas irresponsáveis, acomodadas, ingratas e aproveitadoras por aí a fora.

Assim, quando me apresentaram algumas leituras sociais fiquei maravilhada, textos tão lindos e tão revoltantes desnudavam uma injustiça histórica, na qual eu meio sem certeza me posicionava do lado do opressor ou de modo míope e parcial do lado do oprimido, mas sem fundamento e sem que a decisão fosse realmente minha. Bem, não foi só isso que me levou a uma mudança de paradigma. Mas, o fato é que essa que eu percebia como uma "nova Keith" (pós mestrado) passou a sentir pela "Keith antiga", e vez por outra eu pensava nas conversas que não tive, nas pessoas de quem não me aproximei, e nas que posso ter influenciado, nos opressores que defendi, nas opressões que incitei e participei (ainda que no discurso da opinião leviana). Eu também lembrava de mim com momentos intensos e profundos de melancolia, ousaria dizer depressão, o que agora julgo ser devido a contradição de ter a ideia de um bem espiritual em conflito com o social, do tipo: "ame seu próximo como a ti mesmo" vs "bandido bom é bandido morto".

Na semana retrasada, passei por uma "intervenção" na FURG, era da matéria de "arqueologia do capitalismo". Foi uma vivência muito intensa. Inicialmente se escolhia um nome aleatoriamente numa caixinha, a menina me disse:
- Vc vai ter que achar essa pessoa.
Eu sorri extremamente empolgada com o jogo, fiz comentários de alegria e a menina séria não deu muita trela e se afastou.
A primeira salinha estava forrada de saco de lixo preto, era escura, abafada com cheiro de polietileno (sei lá), com uma voz narrando seus momentos de tortura, uma tv com imagens preto e branco, fiquei com medo de ver alguma cena forte, olhei furtivamente para tela, enquanto tentava entender o que estava acontecendo, eram exibidas imagens dos locais de tortura, vazios. Incomodada, preferi não procurar o rapaz do papel por lá. Eu me senti mesmo com medo, não sei dizer exatamente, tive medo de ter que ficar mais tempo naquele lugar horrível. Saí rápido.
Logo na outra sala havia um projetor, com fotos, nome, idade, ocupação e data de desaparecimento, graças a ditadura militar. Meu medo, que era um embrulho no estomago virou um nó na garganta. Me obriguei a esperar pela foto do rapaz. Estudante, 32 anos. Senti um pouco de raiva por terem me envolvido em algo que eu nunca quis de verdade saber. Depois lembrei do black bloc e de como eu gostaria de estar nas manifestações de rua hoje, e como de alguma forma eu estava naquela época e naquele  papel poderia estar o meu nome. E então senti uma afinidade com os jovens das fotos projetadas.
Na próxima sala era um quarto vazio, arrumadinho com livros e máquina de escrever. Nesse momento senti vergonha de todas as vezes que pensei e falei algo pró-ditadura, mesmo por ter sido desinformada, sob influência. Senti culpa. E mais uma vez, culpei uma "Keith antiga", que me defendi para mim mesma, "não existe mais".

Até que esse fim de semana, terminei meu segundo diário! Desde 2007 tenho escrito com certa constância. E nesse processo emocionante de troca de diário acabei juntando coragem e dando uma lida no início do primeiro. Tive um pouco de medo de quem eu veria naquelas páginas, mas me entreguei a essa leitura.

O que notei é que em realidade não se tratava de uma completa imbecil. E fiquei bastante surpresa em ler constatações que me impressionaram, com a consonância com a posição que assumo hoje. Digamos que tratava-se de uma anarquista em potencial. As leituras indicadas no mestrado me salvaram de um ciclo vicioso, elevaram meu patamar de discussão, me dotaram de argumentos, mas de algum modo eu já estava nesse caminho. Só estava um pouco embolada em um labirinto, dando voltas na montanha sem mudar de altitude.

Parece tudo cada vez mais dinâmico, e já sinto como se estivesse completando mais uma volta, nessa mesma altura, me adaptado ao novo angulo de visão, e começo a me aborrecer com a monotonia da paisagem. Mas, onde estará a trilha para subir mais um pouquinho? Talvez esteja eu apressada demais.

Enfim, deixando minha filosofia barata um pouco mais palpável, apesar de eu ter consciência de estar me sentindo mais livre, plena e feliz agora eu não era totalmente desprezível, "antes". E descrevo no diários dias bastante agradáveis, e sentimentos bastante puros e justos! Claro que eu controlo e manipulo o que escrever no diário, e ideias suicidas (que penso em juntar "material" para um post exclusivo) costumavam ser calculadamente escondidas, bem como alguns julgamentos alheios mais "cruéis". Mas, o fato é que estou em processo de me entender mais que me julgar, e fazer as pazes comigo mesma.

 Decidi me "expor" dessa forma, principalmente porque reparei essa situação num querido amigo. Que mudou fisicamente, e vive repetindo como ele era isso e aquilo. Eu concordava e ajudava na tiração de sarro (alias tirar sarro por muito tempo foi um inconveniente hobbie meu). Mas, depois de me dar conta de que na verdade ele era o que deu base para ele ser, mudei meu discurso, ainda sem saber muito o que dizer, comentei:
- ah, vamos lá não era tão ruim assim...
foi um comentário perdido, na roda de amigos, dentre tantos consensuais que não deixaram de apontar, com um certo prazer, as "falhas" do "antigo" amigo. Ainda vou melhorar esse discurso e na próxima oportunidade convencê-lo, e a mim mesma, de que somos um e nosso passado integra o que somos no presente, ainda temos o que aprimorar, e julgar e "xingar" nosso suposto passado pode nos fazer temer a implacabilidade do julgamento do eu futuro. E principalmente, essa evolução linear é ilusória, nosso aprimoramento é bem mais complexo, e o eu antigo alcançava reflexões que superam as do eu atual e futuro, ele vive em nós, apenas selecionamos quais partes dele gostaríamos de carregar, e paulatinamente abandonamos as que julgamos não nos servir!

Seria uma seleção natural de qualidades minuciosamente identificadas no eu atual, somada a identificação de características consideradas por eu mesma desagradáveis e o trabalho diário (esse sim referente a "cuidado ou esmero empregado na feitura de uma obra") do cultivo das qualidades somadas ao contorno das características desagradáveis. Informação e experiências auxiliam na identificação e seleção do que cultivar e o que polir! Como o que a "Natureza" faz com a Vida, selecionando, adaptando, excluindo, criando, buscando a complexidade. E nesse caso, sustento que (como comigo), a evolução não teria sido oriunda de mutações ao acaso jogadas a esmo e que teriam repercussão dependendo unicamente do sucesso reprodutivo, mas orientada pela seleção rigorosa de um Inteligência que direciona os sistemas à complexidade.

Tal configuração complexa teria permitido a manifestação da consciência e alguns teorizam que


uma das vantagens evolutivas conferidas a nós pela consciência é a flexibilidade, sensibilidade e criatividade(Searle)

sendo nossa evolução um caminhar ao aperfeiçoamento dessas três características. Isso corrobora a sensação que tenho de ter evoluído especialmente nos últimos dois anos, pois foi o período em que assisti um aprimoramento substancial na minha flexibilidade, sensibilidade (em especial) e criatividade (essa última menos intensa).

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

a injustiça está na mesa

Assistindo um dos filmes que eu mais gosto Violinista no Telhado, uma cena me chama a atenção. É quando o Tevye vai visitar o açougueiro, por pensar que ele quer comprar sua vaquinha leiteira, quando na verdade ele quer se casar com sua filha:
Impressionado com a casa luxuosa do açougueiro ele pergunta:
- E tudo isso por matar animais inocentes?

Pois, seu Zé, mas a injustiça do consumo de carne não para por aí. A cada dia tenho me tornado mais sensível à questões sociais, eu não sei que bicho me mordeu, que autor me norteou, que amigo me inspirou, que movimento social me cativou, ou se foi isso tudo junto e misturado, só sei que o que mais me tem doido é a injustiça social. E nesse ponto entra o que ultimamente mais me envolve no vegetarianismo (e encaminha para o veganismo). A questão social.

No caso, eu estenderia a compreensão do termo animais, acima para animais humanos. Afinal a agropecuária traz algumas belezas para admirarmos:
- expulsa famílias do campo, para viverem mau nas periferias das cidades (e a coisa não é tão simples quanto só oferecer um punhado de dinheiro por suas propriedades, é algo mais orquestrado como deixar a vida no campo o mais complicada possível, enquanto promete a infraestrutura da cidade e a educação dos filhos como salvação miraculosa - não é teoria da minha cabeça, é de Antonio Carlos Robert Moraes, 2007);
- concentra terras (e renda e poder e influência política);
- desmata florestas, pressiona terra indígena;
- usa água pra caramba (10.000l de água/Kg para produção de leite, de 20.000 a 50.000l de água/ Kg de carne, podendo ser o dobro em clima tropical, fonte) que poderia estar sendo usada para fins mais sociais;
- e principalmente, para quem e para que é produzida essa carne? Não tenho fontes oficiais mas, possivelmente a quantidade de vegetais utilizada na alimentação de bovinos seria suficiente para alimentar todos os 7 bilhões de pessoas que temos por aqui, nesse planeta!
A bancada ruralista é prova viva do que essa concentração de terras/renda/poder é capaz de fazer. É assustador ouvir discursos recheados de ódio que defendem guerra e sangue, tudo o que for necessário para proteger o que consideram "suas" terras de índios, quilombolas, e "tudo o que não presta". Na lógica de tais proprietários a demarcação indígena é uma grande injustiça, ao passo que a concentração de terras que inevitavelmente repercute na ampliação de desigualdades sociais é um modo legítimo e justo de viver, desde que a concentração seja na mão deles, não de índios, claro...



E nesse caso não seria igualmente injusto comer soja, ou qualquer item oriundo de monoculturas?
Sim, seria. Mas, a quantidade de soja usada na alimentação humana é bem menor, ainda que haja a absurda hipótese de todos substituírem a carne pela soja. No entanto, é um equívoco acreditar que só a soja é capaz de substituir a  proteína animal. Todas as leguminosas são ricas fontes proteicas. E oriundas da agricultura familiar, modelo que suporta cultivos orgânicos!



quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

A compaixão seletiva

Fiquei bastante confusa esses dias, vamos ver se consigo nesse espaço mágico me esclarecer. 
Pelo facebook soube que um cinegrafista foi atingido em uma manifestação. Não é o primeiro, meu estomago sempre se contorce e um frio sobe minha espinha, devo confessar que pelo costume direcionei minha raiva à PM. Com o tempo soube que foi um manifestante que acendeu o rojão que atingiu o cinegrafista. 
Nesse mesmo tempo, soube que um jovem foi torturado e preso pelo pescoço num poste, com um cadeado de bicicleta, nu. E que uma jornalista apoiou a ação em nome da segurança, e enalteceu os mentores compreendendo a ação dos cidadãos de bem, dos justiceiros.
Em tempo, "existem cerca de 170 mil pessoas removidas por conta das obras da Copa, atingidas em seus mais elementares direitos humanos. Cinco trabalhadores da construção civil morreram nas obras, por causa da urgência, mas fundamentalmente das condições de trabalho, as mesmas precariedades já denunciadas nas obras do PAC."
Advinha qual dessas situações é mais comentada pela mídia, e consequentemente inspira maior compaixão?
Pelo google uma buscadinha por notícias me fornece, aproximadamente:


Só para constar, busquei notícias de Amarildo e obtive 5.000 resultados, em 0,47 segundos.
Well, o que isso pode nos dizer?

Independentemente de posições políticas. Supondo que você odeie o Black Bloc, que ame o sistema capitalista, que acredite piamente que seja o melhor sistema possível no momento. Que você acredite firmemente que a pobreza reside na falta de vergonha de alguns vagabundos que preferem morar em favelas do que trabalhar, ao contrário do dedicado "cidadão de bem". Imagine que você não tenha dúvidas de que o crime é fruto unicamente da índole dos cidadãos, de que o meio não exerce influência alguma. Que todos tem oportunidades iguais e o que os diferencia é unicamente o esforço e a dedicação com que se entregam ao trabalho. Suponha que tudo isso que eu disse é a mais puríssima verdade, farei um esforço sobre humano para essa suposição, mas vamos lá.

Nesse caso, de fé no sistema, desaprovamos qualquer sugestão radical de mudança, quer dizer, até devem haver alguns ajustes, talvez uma punição mais ágil no caso de crimes, a diminuição de impostos, a menor intervenção do Estado no mercado que se auto-regula, quem sabe? Tudo o que pode ser conquistado naturalmente por meio da diplomacia dos que estão no poder, não por ganância, claro, mas por competência técnica e capacidade altruística de buscar o melhor para todos.

Com esse cenário montado, você vê em algum lugar um nome escrito Amarildo. Que diabos, vc pensa, o que isso tem haver com uma manifestação contra o aumento da passagem de ônibus? Aí vc fica sabendo que o Amarildo era um rapaz que, apesar de ser pobre e morar numa favela, trabalhava de pedreiro e foi sumido pela polícia (representante do Estado, aquele que toma as decisões visando o bem estar da sociedade). O que você sente? Me diz, pelo amor da Deusa que vc sente compaixão, sente um frio no estomago, por favor, me diz que você pensa que isso foi injusto. Que vc concorda que não é papel da polícia julgar, executar, sequestrar, torturar, nem pobre, nem preto e legalmente nem bandido que rouba, mata, estupra, nem que seja pedófilo, a polícia não tem poder legal para fazer isso. A mesma lei que impede o tráfico e o roubo, impede que a polícia mate. E por isso vc fica indignado com a morte trágica e cruel de um pedreiro o qual a família nem sequer pode velar. Aí vc lembra do filme que vc assistiu no cinema, que era baseado em fatos reais, onde isso (tortura e assassinato) é mostrado como uma prática normal da polícia. E pensa que talvez nem todos que foram para o saco eram bandidos, alguns podiam estar indo à escola (lembrando, mesmo que fossem todos traficantes, violentos, assassinos, estupradores, não é função da polícia julgar e executar pena, conforme a mesma lei que proíbe o tráfico, roubo, etc).

Mas, mesmo sabendo disso, ainda supostamente achamos que isso é uma falha pontual, e não sistêmica. Aliás, isso justifica o próximo caso, o dos "justiceiros" que em busca de proteger o cidadão de bem espancaram, torturaram e prenderam em via pública um jovem (advinha a etnia e classe social? preto e pobre! bingo) por suspeita de furto, isso porque a violência seria oriunda da falta de medidas mais firmes. Bem, é claro, que vc, um ser humano dotado de compaixão e que já refletiu sobre o caso do Amarildo, reconhece que sendo falha ou não, existe lei (lembra, a mesma lei que classifica que usar crack e furtar é crime e vc gosta dessa lei, pq vc também é contra furtos), e que pela lei o bandido pego em flagrante não é torturado, espancado em praça pública, ele é tratado como uma pessoa e encaminhado à uma delegacia, onde será aberto um processo. Então, vc, dotado de compaixão, ainda que supostamente acreditando que quem furta é um mau caráter que simplesmente foge das responsabilidades do trabalho honesto, sente pelo jovem. Você no fundo do seu coração, se põe por alguns instantes sendo espancado e preso nu pelo pescoço, por quem definitivamente não precisaria fazer isso. Novamente eu peço que por favor, pelo amor da Deusa, vc me diga que não sente prazer em ver alguém amarrado nu pelo pescoço, sem uma orelha, por favor, me diga que vc reconhece que vc não exerce a função de juiz e que portanto, como cidadão que se defronta com uma cena dessas vc não julga, nem que o bandido mereceu, nem que a culpa é do sistema capitalista, voce simplesmente sente compaixão por outro ser humano, dotado de sentimentos, assim como você ele sente dor, sente medo, sente humilhação. E acaba de passar por uma experiência profundamente traumatizante.

Você também fica sabendo que pedreiros morreram nas obras da copa, e que pessoas (familias para quem se toca mais com esse termo) perderam o pouco que tinham (uma casinha, com uma história, uma identidade, vizinhos conhecidos) para obras de um campeonato de futebol. E mesmo achando que futebol é legal pra caramba, mesmo supostamente achando que a copa vai trazer dinheiro para o país, e oportunidades sei lá eu quais, eu diria prostituição infantil, mas tá, que seja no turismo, enfim. Ainda assim, me diga por favor que você sente por essas pessoas. Apesar de a maioria ser negra e ter uma feição que lembra a pobre, seria um distante parente indígena? e mesmo supostamente, sendo pobre sinônimo de malandro e vagabundo. Por favor, me diga que vc sentiu muito. Sentiu por serem seres humanos numa situação ruim.

E justamente por isso as manifestações continuam, e vc continua não gostando delas. Não mais por não saber quem é o Amarildo, ou todos os seres humanos injusta, ilegal e inapropriadamente assassinados todos os dias pelo Estado. Ah vc já sabe disso, sabe muito bem, já leu manchete dizendo "por que o senhor atirou em mim". E vc sente por isso, sente compaixão por esses seres humanos, lembra? Você não gosta das manifestações, não tanto pela pauta, mas pelo modo com que elas são conduzidas. Você simplesmente desaprova o modo hostil de alguns manifestantes, assim como desaprova o modo hostil com que o BOPE entra em uma comunidade carente, não é mesmo? Ainda que a relação de poder seja invertida (quem exerce mais poder na sociedade bancos ou manifestantes, braço armado do estado ou favelados), ainda assim, sua desaprovação é igual.

Você fica sabendo de um cinegrafista que foi atingido por um rojão, por favor, me diga que sua compaixão já começou aqui, por favor, me diga que ela não aumentou quando vc soube que quem acendeu o rojão foi um manifestante. Me diga que sua compaixão não depende de quem pratica a injustiça, me diga que sua compaixão é com o injustiçado. Me diga que como eu, quando você pensa na morte do cinegrafista vc sente por sua família, não pela morte pois essa é algo natural, mas pelo modo brusco, violento e precoce com que ela ocorreu. Por favor, me diga que sua indignação contra quem acendeu o pavio não é maior do que contra quem assassinou o Amarildo, ou o "senhor" que atirou no jovem. Me diga, que vc tem consciência que se o movimento deve ser criminalizado,questionado e repensado por essa morte também a PM deve ter sua existência questionada, criticada, repensada pelas inumeráveis mortes diárias, que o futebol que perdeu um integrante da sua torcida por um rojão é igualmente passível de críticas e reflexões.

Por favor, só não me diga que sua compaixão depende da cor, classe social e ocupação do injustiçado e de quão próximo ele está da sua realidade social. Eu te peço, só não me diga isso.

E obrigada por acompanhar o desabafo afoito e levemente desesperado.