quinta-feira, 10 de abril de 2014

A problemática dos agrotóxicos

Tive acesso a esse texto do Lutzenberger em um livrinho "Manual de ecologia do jardim ao poder". O texto é de 1985, e como o autor trabalhou inicialmente representando "defensivos agrícolas" sabe do que está falando. Já sabemos que nossos alimentos estão lotados de agrotóxicos, mas sabemos muitas vezes através de um senso comum pouco embasado. Sabemos que monocultura com adubos químicos e venenos estão tornando solos estéreis, mas pouco é dito e aprofundado sobre a questão nos meios de comunicação.

Então, segue o texto, chocante e um tanto revoltante, na íntegra. Acredito que nesses 30 anos as mudanças ocorridas foram no sentido de aumentar ainda mais a dependência dos agricultores, o que para minha alma anárquica é um tanto desanimador, mas como a informação e ponto crucial do empoderamento lá vai:
(texto "roubartilhado" da Fundação Gaia, desse link aqui.)

A PROBLEMÁTICA DOS AGROTÓXICOS
José A. Lutzenberger, maio 1985

Como surgiu e proliferou a agroquímica? Interessante é notar que ela não foi desencadeada por pressão da agricultura. A grande indústria agroquímica que impõe seu paradigma à agricultura moderna é resultado do esforço bélico das duas grandes guerras mundiais, 1914-18 e 1939-45.

A primeira deu origem aos adubos nitrogenados solúveis de síntese. A Alemanha, isolada do salitre do Chile pelo bloqueio dos aliados para a fabricação, em grande escala, de explosivos, viu-se obrigada a fixar o nitrogênio do ar pelo processo Haber Bosch. Depois da guerra, as grandes instalações de síntese do amoníaco levaram a indústria química a procurar novos mercados. A agricultura se apresentou como mercado ideal.

Da mesma maneira, ao terminar a segunda das guerras mundiais, a agricultura surge, novamente, como mercado para desenvolvimentos que apareceram com intenções destrutivas, não construtivas.

A serviço do Ministério da Guerra, químicos das forças armadas americanas trabalhavam febrilmente na procura de substâncias que pudessem ser aplicadas de avião para destruir as colheitas dos inimigos. Outro grupo, igualmente interessado na devastação, antecipou-se a eles. Quando a primeira bomba atômica explodiu no Japão, no verão de 1945, viajava em direção ao Japão um barco americano com uma carga de fitocidas, então declarados como LN 8, LN 14, suficiente para destruir 30% das colheitas. Com a explosão das bombas, o Japão capitulou e o barco voltou. Mais tarde, na Guerra do Vietnã, estes mesmos venenos, com outros nomes, tais como "Agente Laranja" e agentes de outras cores, serviram para a destruição de dezenas de milhares de quilômetros quadrados de floresta e de colheitas. Da mesma maneira que os físicos que fizeram a bomba, para não ter que abolir as estruturas burocráticas das quais agora dependiam, propuseram o "uso pacífico" da energia nuclear, os químicos que conceberam aquela forma de guerra química, passaram a oferecer à agricultura seus venenos, agora chamados de herbecidas, do grupo ácido fenoxiacético, o 2, 4-D e o 2, 4, 5-T MCPA e outros.

Na Alemanha, entre os gases de guerra, concebidos para matar gente em massa, estavam certos derivados do ácido fosfórico. Felizmente, não foram usados em combate. Cada lado tinha medo demais dos venenos do outro. Após a guerra, existindo grandes estoques e grandes capacidades de produção, os químicos lembraram-se que o que mata gente também mata inseto. Surgiram e foram promovidos assim os inseticidas do grupo do Parathion.

Também o DDT, que só foi usado para matar insetos, surgiu na guerra. As tropas americanas, no Pacífico, sofriam muito com a malária. O dicloro-difenil-tricloroetil, conhecido há mais tempo, mas cujas qualidades inseticidas acabavam de ser descobertas, passou a ser produzido em grande escala e usado com total abandono, aplicava-se de avião em paisagens inteiras, tratava-se as pessoas com enxurradas de DDT. Depois da guerra, mais uma vez, a agricultura serviu para dar vazão aos enormes estoques sobrantes e para manter funcionando as grandes capacidades de produção que foram montadas.

O negócio dos pesticidas transformou –se num dos melhores e mais fáceis. Tão fácil quanto o negócio dos entorpecentes. Quanto mais se vendia, mais crescia a demanda. A situação atual se assemelha a uma conspiração muito bem bolada. Os mesmos grandes complexos industriais que induziram o agricultor a que desequilibrasse ou destruísse a microvida do solo com os sais solúveis concentrados, que são os adubos minerais sintéticos, oferecem, então, os "remédios" para curar os sintomas dos desequilíbrios causados. Estes remédios causam novos estragos e desequilíbrios, novos "remédios" são oferecidos e assim por diante.

Com o uso intensivo dos adubos químicos, a agricultura enveredou por um caminho inicialmente fácil e fascinante, pois era simples e trazia aumentos espetaculares de produtividade. Mas, a longo prazo, este caminho, como agora já se vislumbra, é um caminho suicida.

O desequilíbrio ou destruição da microvida do solo pelo abandono da adubação orgânica e alimentação direta da planta com os sais solúveis, assim como o uso intensivo dos herbicidas, tem como consequência o aumento da suscetibilidade às pragas e enfermidades. Surgem então os inseticidas, acaricidas, nematicidas, fungicidas e outros biocidas. Estes, por sua vez, levados ao solo pela chuva, contribuem para uma destruição ainda maior da microvida. Os organismos maiores do solo, como a minhoca, talvez o melhor aliado que o agricultor possa ter, desaparecem por completo de nossas lavouras, hortas e pomares modernos. Agindo diretamente sobre a planta, os pesticidas, venenos que são, contribuem ainda para desequilibrar o metabolismo da planta. Tudo isto aumenta ainda mais a suscetibilidade às pragas e doenças. Portanto, uso ainda mais intensivo dos venenos, sempre produzidos pelo mesmo complexo de indústrias. Para combater, então, as doenças causadas pelo envenenamento generalizado do ambiente e dos alimentos, as mesmas grandes fábricas oferecem os fármacos modernos...

E tudo se torna sempre mais caro. O agricultor, antes autárquico, que produzia com insumos obtidos em sua própria terra ou comunidade, tornou-se simples apêndice da grande indústria química e de maquinarias. A situação da agricultura americana, tão invejada pela sua grande produtividade, é significativa. A quase totalidade dos agricultores pequenos e médios, hoje altamente capitalizados, totalmente dependentes de insumos industriais, encontra-se em situação de insolvência. Por mais que se esforcem, não conseguem mais ganhar o suficiente para pagar os juros dos empréstimos. Voltou, inclusive, um estrago muito grave que parecia resolvido na década de 40, com os grandes programas de conservação do solo. Hoje, a erosão volta a campear na agricultura americana, comprometendo o futuro alimentar da nação.

A indústria química conseguiu impor seu paradigma na agricultura, na pesquisa e no fomento agrícola e dominou as escolas de agronomia. Ela impôs um tipo de pensamento reducionista, uma visão bitolada que simplifica as coisas, mas que acaba destruindo equilíbrios que podem manter uma agricultura sã. A praga e as enfermidades das plantas são apresentadas como inimigos arbitrários, implacáveis, cegos, que atacam quando menos se espera e que devem, portando, ser exterminados ou, quando isto se torna impossível, ser combatidos da maneira mais violenta e fácil possível. O camponês tradicional e o agricultor orgânico moderno sabem que a praga é sintoma, não causa do problema. Com um manejo adequado do solo, adubação orgânica, adubação mineral insolúvel, adubação verde, consorciações, rotação de cultivos, cultivares resistentes e outras medidas que fortificam as plantas, eles mantém baixa a incidência de pragas e moléstias das plantas. O paradigma da indústria química não leva em conta estes fatores. Combate sintomas e não procura as causas.

Típico deste paradigma é o proceder dos "técnicos" da Campanha Nacional de Erradicação do Cancro Cítrico, que agora assolam a região citrícola do Rio Grande do Sul. Sua tarefa é simples – erradicar. Quando visitam um viveiro de árvores cítricas só procuram constatar os sintomas da doença. Quando os encontram, demolem e queimam todo o viveiro, mais todas as plantas cítricas dentro de um determinado raio, que era de 1000m, mas que já diminuiu para 50m, devido aos protestos dos viveristas. Se não encontram nada, seguem para outra. Não dialogam nem com o agricultor, muito menos com as condições locais de solo, de ambiente, de métodos agrícolas. Nunca perguntam ao agricultor como ele preparou seu solo, como adubou, que tipos de adubo aplicou, se usou herbicidas ou outros venenos. Entretanto, quem faz estas observações, nota logo que há relação entre as ocorrências ou intensidade da moléstia e as condições de solo, adubação, de matéria orgânica no solo, de rotação, de tratamento com herbicidas ou outros venenos, de afinidade de enxerto, etc. É claro que o programa de erradicação jamais conseguirá erradicar a bactéria associada aos sintomas do cancro cítrico, mas o programa já quase exterminou a citricultura no Estado do Paraná e se prepara para exterminá-la no Rio Grande do Sul.

Dentro desta visão, a agricultura, que deveria ser o principal dos fatores de saúde do homem, é hoje um dos principais fatores de poluição. Uma das formas insidiosas de poluição. O leigo vê a fumaça que sai das chaminés, dos escapes dos carros, vê a sujeira lançada nos rios. Mas, quando compramos uma linda maça na fruteira da esquina, mal sabemos que esta fruta recebeu mais de trinta banhos de veneno no pomar e, quando entrou no frigorífico, foi mergulhada em um caldo de mais outro veneno. Alguns dos venenos são sistêmicos. Quer dizer, eles penetram a circulam na seiva da planta para melhor atingir os insetos que se alimentam sugando a seiva. Não adianta lavar a fruta.

É claro que a indústria química sabe que está lidando com fogo e a população começa a preocupar-se. Para acalmar o público assustado e proteger a si própria de possíveis problemas, ela complementa seu paradigma de uso de venenos com uma série de conceitos pseudocientíficos e jurídicos e usa toda uma nomenclatura especial.

Inicialmente, quando a consciência ecológica era pouca, os venenos eram apresentados com o termo genérico "pesticidas". A idéia era simples, combate às pestes. Em inglês, a palavra "pest" é usada em linguagem coloquial para designar "bichos indesejáveis". Cedo, no Brasil, passaram a usar o termo "defensivos". Uma palavra menos agressiva, que inspira mais confiança e não tem conotações negativas. Acontece que os produtos oferecidos pela indústria química para o combate de pragas e moléstias das plantas, com raríssimas exceções, são biocidas. Eles o são deliberadamente. A intenção é matar organismos considerados indesejáveis. Seria mais lógico que estes biocidas fossem designados com a palavra "agressivos" ou simplesmente, se quisermos ser honestos, de "venenos". Quando um agricultor orgânico faz determinados tratamentos com substâncias não tóxicas para fortalecer a planta, como quando usa soro de leite, iogurte, biofertilizantes, extratos de algas, fermentos e outros, diminuindo a incidência de pragas e enfermidades, não porque matem os agentes patogênicos e os parasitas, mas porque deixam a planta com mais resistência, então sim, deveríamos usar a palavra "defensivo". Por isso, agrônomos conscientes lançaram a palavra "agrotóxicos" para designar os biocidas da agroquímica. Não se trata de querer agredir a indústria, trata-se de precisão de linguagem. Esta palavra está agora consagrada na lei dos agrotóxicos de já mais de uma dúzia de estados da Federação.

Uma vez que é inegável que, ao aplicar agrotóxicos na lavoura, sobram resíduos no alimento, a indústria arroga-se o conceito de "dose de ingestão diária admissível", ADI (admissible daily intake). Para cada um de seus venenos, ela afirma que o organismo humano pode ingerir, inalar ou absorver pela pele, certa quantidade diária, sem que isto tenha conseqüências para sua saúde. Em se tratando dos venenos fulminantes e persistentes em questão, não deixa de ser um conceito temeroso. Se aceitarmos este conceito, teremos que insistir que todos os nossos alimentos sejam constantemente e exaustivamente analisados e retirados imediatamente do mercado caso haja transgressão. Todos sabemos que nada disso acontece na prática cotidiana. Os escândalos só acontecem quando ambientalistas preocupados conseguem que sejam feitas algumas análises ou quando levam a público resultados oficiais que permanecem engavetados. Os administradores públicos sempre procuram negar a gravidade do que foi encontrado. Só quando a pressão popular é grande consegue-se ação oficial.

A ADI, através de cálculos envolvidos, é derivada de outro conceito, aparentemente científico, na realidade extremamente rudimentar e grosseiro. Trata-se da medida de toxicidade chamada LD50, a dose letal 50%. Para achar este valor para um determinado veneno, submete-se uma certa população de cobaias a doses crescentes do tóxico. Quando a metade da população morre, supõe-se que este é o limite de letalidade. Assim, uma LD50 de 8 significa que 8 miligramas de um veneno por quilo de peso de cobaia viva foram necessários para começar a matar as pobres criaturas. Milhões de animais são torturados à morte todos os anos nos laboratórios da indústria. Quanto mais baixa a LD50, mais tóxica é a substância. Nesta visão, um agrotóxico com LD50 –10 é cem vezes mais perigoso que outro com LD50-1000. Trata-se, mais uma vez, de raciocínio extremamente reducionista. Um argumento muito usado pelos defensores dos agrotóxicos é a afirmação de Paracelsus de que veneno é questão de dose. Gostam de apresentar o exemplo do sal de cozinha. Um pouco de sal é indispensável à saúde, mas se eu comer 100 gramas de sal, morro de desidratação. O mesmo raciocínio se aplica à água. Ela é indispensável à vida, mas podemos morrer afogados. De fato, este raciocínio se justifica sempre que ele for aplicado a substâncias que normalmente fazem parte dos processos metabólicos dos seres vivos: sal, água, ácido clorídrico, amônia, ácido sulfúrico e outros, nitratos, uréia, etc. Mas este raciocínio não se aplica a biocidas, quer eles sejam naturais ou artificiais. O veneno da cascavel sempre faz mal, por pequena que seja a dose. Se a dose for muito pequena, o estrago pode ser pequeno e superável, mas não deixa de ser um estrago.

Uma alfinetada causa um estrago muito pequeno, não se compara com um golpe de adaga, mas não deixa de ser um estrago. E o que acontece quando levamos diariamente uma nova alfinetada, especialmente se for sempre no mesmo lugar? A coisa poderá tornar-se muito grave. Mais um detalhe, de uma alfinetada no traseiro podemos rir; no olho, é outra coisa. Assim, o LD50 não leva em conta os efeitos crônicos. O que acontece após anos de ingestão diária de quantidades muito pequenas de um determinado veneno? Como ficam o fígado, o sistema renal, o sistema imunológico e outros?

Propor uma ingestão diária admissível para venenos como os agrotóxicos clorados, fosforados, os carbamatos, os mercuriais, as triazinas, os derivados do ácido fenoxiacético, já passa de temeridade, é cinismo. Mas tem sentido para a indústria química. É uma espécie de seguro para eles, não para nós agricultores e consumidores. Nas concentrações propostas, torna-se impossível provar a relação causa-efeito. Se eu atropelar alguém com meu carro, não resta dúvida quanto a quem causou os ferimentos, só se discutirá se houve dolo ou culpa ou se, talvez, foi impossível evitar o acidente por descuido do próprio pedestre. Entretanto, se alguém estiver morrendo de câncer porque ingeriu durante anos quantidades muito pequenas de uma substância cancerígena, ou quando outro sofre de doença infecciosa porque está com o sistema imulógico destruído por carbamatos, torna-se impossível provar que a culpa é do respectivo agrotóxico. Os altos executivos da indústria química dormem tranqüilos. Nos casos em que se verificam resíduos acima das doses supostamente aceitáveis, eles sempre põem a culpa no agricultor, alegam "mau uso". Acontece também que, quando as práticas correntes na agricultura, o chamado "uso adequado", significam resíduos acima dos inicialmente aceitos, eleva-se simplesmente os índices. Esta política tem sido muito comum na Europa e nos Estados Unidos.
 
Além de não levar em conta os efeitos crônicos da ingestão continua de pequenas doses, a LD50 não leva em conta os efeitos sinergísticos, isto é, os efeitos de interação dos venenos uns com os outros. Os testes de determinação da LD50 são feitos para uma substância por vez. Mas o organismo humano, no mundo em que vivemos, se vê confrontado com substâncias as mais diversas ao mesmo tempo. Temos uma infinidade de formas de poluição do ar, da água, dos alimentos, dos objetos que tocamos, até das roupas que usamos. É sabido que quando mais de um veneno age ao mesmo tempo, o efeito é muitas vezes superior, e muito superior à simples soma dos efeitos de cada um. Quase sempre os venenos se potenciam mutuamente. Digamos que o veneno A tem um efeito 5 e o veneno B tem um efeito 6. Ambos juntos poderão ter não um efeito 5+6=11, mas 5x6=30. E se forem muitos venenos? A ADI não considera este aspecto.

Também não considera os efeitos genéticos, isto é, os efeitos mutagênicos, cancerígenos e teratogênicos. É sabido que estes efeitos são desencadeados a nível molecular. Uma só molécula de substância cancerígena, um só foton de radiação ionizante, um só vírus, podem desencadear o câncer ou a mutação. Portanto, a ADI para substâncias suspeitas de poderem desencadear efeitos genéticos deveria ser zero. Mas a indústria química apresenta ADI até para a Dioxina, o superveneno, o veneno mais absurdo que o homem já produziu, e que estava presente no Agente Laranja. Jornalistas japoneses me mostraram fotos de crianças nascidas com deformações indescritíveis no Vietnã. Continuam nascendo. As deformações são mais horríveis que as da Talidomida. Aliás, a Talidomida deve ter uma LD50 acima de 1000. Dentro dos conceitos da agroquímica, seria menos perigosa que o sal de cozinha.

Quanto aos efeitos ecológicos dos agrotóxicos, na maioria dos casos, só se fica sabendo depois dos estragos. Os efeitos cumulativos dos clorados, especialmente do DDT, só se tornaram conhecidos depois que biólogos atentos constataram os desastres. Quando Rachel Carson escreveu seu livro "Primavera Silenciosa", chamando a atenção para os problemas ecológicos dos venenos aplicados na agricultura, ela foi violentamente vilipendiada e insultada pela indústria.

Isto nos leva a mais um aspecto importante de toda esta loucura. A indústria química, e não só no campo dos agrotóxicos, insiste que tem o direito de introduzir no ambiente qualquer substância que ela desenvolva, enquanto não for provado que há perigo. Mas esta prova ela não procura encontrar. Ao contrário, inicialmente ela combate os que a procuram. Deveria ser exatamente o contrário. Enquanto houver um resquício de dúvida sobre possíveis perigos, a substância não deveria ser introduzida no ambiente. Em vez de continuar fazendo bons negócios, enquanto a sociedade não provar os perigos, a indústria deveria ser obrigada a provar que não há perigo, antes que se lhe permita vender.

Na prática agrícola, no campo, o que hoje acontece é um dos maiores escândalos da sociedade industrial moderna. Nunca tantos venenos, venenos tão fulminantes, alguns persistentes, outros fulminantes e persistentes ao mesmo tempo, foram colocados em mãos de tanta gente tão despreparada para lidar com eles.

A grande maioria dos agricultores não tinha e continua não tendo noção dos perigos que enfrenta com os agrotóxicos. Especialmente grave é a situação dos bóias-frias nos latifúndios, cuja única alternativa, em geral, não passa de escolha entre morrer de fome ou morrer envenenado.

A indústria costuma defender-se com o argumento do "uso adequado" ou "correto" e insiste em que todos os problemas que se constatam, se devem sempre ao "mau uso". A culpa está sempre com a vítima. Quando os problemas se agravam e se multiplicam, ela, às vezes, promove cursinhos ou campanhas de "uso correto dos defensivos". Para isso procura sempre envolver a administração pública - Agricultura ou Saúde - para deixar com ela a responsabilidade e parte dos custos. Mas ela continua manipulando o agricultor, também as donas de casa, no caso dos venenos contra baratas, com publicidade insidiosa e desinformativa, que não alerta para os perigos e promove um uso desnecessário e até prejudicial. Jamais ela esclarece sobre as alternativas não tóxicas. Muito pelo contrário, combate os que promovem a agricultura orgânica.

Quando a Sociedade se defende, prepara legislação, insiste na obrigatoriedade de receita assinada por agrônomo não vinculado com a indústria química, esta combate abertamente as medidas. Assim, quando o parlamento estadual do Rio Grande do Sul aprovou por unanimidade uma lei estadual de controle de venenos, a indústria entrou na Justiça Estadual. Perdeu e foi ao Tribunal Supremo, para argüir da inconstitucionalidade das leis estaduais, que já são 14. Ela conseguiu pressionar o Governo anterior a apresentar no Congresso um projeto de lei federal que esvaziaria as leis estaduais. Felizmente, o novo Governo já retirou o projeto, que não chegou a ser votado, pois foi bloqueado por alguns deputados conscientes. Agora, ela já iniciou pressão sobre o novo Ministro da Agricultura para que prepare projeto de lei favorável a ela.

Não somente os agricultores são mantidos na ignorância e tornam-se assim as primeiras vítimas, os médicos que tratam das vítimas, são mantidos na ignorância quanto aos aspectos toxicológicos dos novos produtos, dados que só a indústria conhece, e que, como vimos, ela própria só pode conhecer parcialmente, uma vez que os testes toxicológicos são conduzidos com enfoque reducionista, um veneno por vez. Não levam em conta a complexidade e envolvência da situação real. Por isso são comuns tratamentos inadequados. O médico confunde os sintomas. Até agora, não conheço trabalho eficiente da agroquímica no sentido de informar os médicos quanto aos problemas toxicológicos dos venenos agrícolas. Mas as mesmas firmas transnacionais, quando fabricam também medicamentos, mantém verdadeiros exércitos de "visitantes" para manipular os médicos no sentido de receitar seus fármacos aos seus pacientes.

O processo de democratização e descentralização ora desencadeado neste país, que, esperamos, venha a ampliar-se, obriga-nos, todos, a conscientizar-nos deste imenso escândalo para que haja pressão sobre os administradores da coisa pública que só costumam agir sob pressão. Sempre que possível, precisa também ser acionada a Justiça.
 

segunda-feira, 31 de março de 2014

Pobres me roubam

Esses pobres me roubam o sonho
Me roubam o sono
Por isso todos os pobres são ladrões
Porque eles existem
Nos roubando a ilusão, 
tão cuidadosamente construída
de uma sociedade justa e boa
Esses pobres expõe a fragilidade da ilusão
Que não tenha sido esse o objetivo 
de Amarildo
ou de Cláudia 
Foi isso o que eles fizeram e sempre farão
Arruinarão todo e qualquer argumento “meritocrático”
Esses pobres ladrões, com traços indígenas ou negros
Me roubam a ilusão de prazer, de felicidade, de grandeza
Me roubam a possibilidade de acreditar nos discursos
Essa pilhagem se reflete no tratamento que lhe damos
Nós de traços europeus, cidadãos de bem
Marginalizamos, matamos, torturamos e prendemos esses pobres
Porque insistem em existir
Em esfregar na nossa cara o quão fracassados somos nós
Por mais que fujamos dessa palavra
Já nascemos fadados ao fracasso
Disfarçado de tristeza passageira nessa sociedade de ilusão



quarta-feira, 26 de março de 2014

A formatura em engenharia

Aproveitando a onda da última postagem, hoje vou narrar as maravilhas da engenharia. Bem, é uma área de exatas, diferentemente do direito, há quem diga se tratar da porção "desumana" de nossa ciência (em oposição às ciências humanas), e em muitos aspectos isso é uma grande verdade.

Mas, aparentemente essa desumanização é um processo longo e demorado. Mesmo estando 5 anos (em raríssimos casos) ou mais dentro de uma sala de aula com professores autoritários que muitas vezes utilizam de terrorismo psicológico, alguns engenheiros insistem em ser humanos. E mesmo estando no espetacular palco do CIDEC, atravessando o grande portal que deixa o universo FURG para trás, não puderam engolir a injustiça sofrida por colegas que, em sua maioria, por merecimento deveriam estar também sobre o palco compartilhado daquele momento.

"Hoje 8 formandos não puderam estar aqui desfrutando essa data tão esperada por nós durante anos. Oito amigos, 8 filhos, 8 jovens que não são menos engenheiros do que nós que aqui estamos. Por causa de uma disciplina mal administrada no nosso curso[...] Não é o primeiro ano que um professor arrogante e despreocupado com os alunos reprova vários formandos."

(não estou conseguindo adicionar o vídeo, o link é https://www.youtube.com/watch?v=6S7l2SRw-As)

Fiquei especialmente tocada, pelo fato de o meu companheiro estar entre esses 8. Senti que de alguma forma eles criaram um vínculo, e que os que estavam no palco, embora felizes por terem concluído o curso não puderam desfrutar o momento de modo pleno, por terem vivido e reconhecido uma injustiça. Essa capacidade de ter o prazer diminuído, a felicidade retraída devido ao sentimento de compaixão, ao reconhecimento que não foi puramente o mérito que te deu aquele momento, mas também a sorte e o acaso, num processo onde sorte e acaso não deveriam fazer parte da equação, esse sentimento é raro e a exposição dele é nobre.

O mais comum é posar bem na foto, exaltar suas conquistas e que se foda o resto. Que se foda quem não passou no exame da ordem, quem não foi agraciado pela correção duvidosa do professor tirano de uma matéria que não existe em nenhum outro curso. Que se foda quem não está na posição que eu estou, quem não conquistou o que eu conquistei. Mas, para essa turma, o "que se foda" vai para quem não quer ouvir a verdade, para quem quer que nos calemos em forma de apoio ao status quo.

É claro que um discurso dessa profundidade sendo proferido no espetacular momento de solenidade, não haveria de ficar por isso mesmo. E o que vemos é um texto bizarro sendo publicado na página da FURG, com destaque em vermelho. Um texto assinado por um professor doutor diretor que poucos viram e raros conhecem:

25/03/2014 - 2071 acessos
Nota da Escola de Engenharia referente à Assembleia Universitária realizada dia 22 de março
A Escola de Engenharia da FURG remonta à criação desta Universidade e há 58 anos vêm formando engenheiros para nosso país, primando pela qualidade acadêmica e pelo compromisso de formar, acima de tudo, verdadeiros cidadãos. A cada ato de formatura se orgulha dos novos engenheiros que coloca a disposição da sociedade para a construção de uma vida melhor para todos.

Entretanto, é com pesar que nesta nota vem a repudiar as acusações proferidas contra essa Escola, na Assembleia Universitária de 22 de março último, por aqueles hoje egressos do curso de Engenharia Mecânica de nossa Instituição, e prestar os devidos esclarecimentos a comunidade acadêmica e sociedade em geral. Tal nota se faz necessária pelo respeito que a Direção da Escola de Engenharia tem pelos docentes, técnicos administrativos em educação e discentes que a integram.

Na manifestação de tais egressos, através de seu orador, engenheiro D. S. L., a Escola de Engenharia foi nominada de “omissa em todas suas instâncias” e “corporativista” no que diz respeito à situação de reprovação de alguns alunos na condição de expectativa de ser formando (condição esta definida pela Resolução 11/2006 do Conselho Universitário).

A Escola de Engenharia realizou TODOS os encaminhamentos pertinentes às ações reclamatórias dos alunos realizados dentro dos princípios da educação e respeito, estabelecendo revisão de provas e até mesmo procedimentos avaliativos substitutivos conforme acordo entre alunos, Pró-Reitoria de Graduação (PROGRAD) e Direção da Escola de Engenharia, resultante do abaixo assinado processo 23116.001564/2014-71. A Escola sempre se prontificou em receber os alunos numa situação de diálogo, desde que este fosse regrado pelo respeito mútuo e educação. Cabe ainda destacar que a Direção também recebeu pais de aluno reprovado em cordial reunião realizada conjuntamente com a PROGRAD. Nestes termos a Escola de Engenharia comprovadamente se defende da condição de omissa na reflexão e busca de soluções ao problema apontado.

Já a infundada acusação de “corporativismo” ofende uma Direção que tem gerido seus docentes e técnicos em respeito ao Estatuto desta Universidade e ao Código de Ética Profissional do Servidor Público Federal (Decreto nº 1.171, de 22/6/1994).

A Escola de Engenharia entende que por vezes a emoção supera os limites da razão, mas não pode deixar de repudiar que uma Assembleia Universitária, a nosso ver tão significativa para estes ex-alunos, tenha sido utilizada para manifestações que visaram denegrir a imagem da Unidade que desempenhou seu papel de servir nosso país ao propiciar a estes indivíduos a obtenção dos títulos acadêmicos de engenheiros mecânicos.

Por fim, em nome da Escola de Engenharia, esta Direção deseja que todos estes novos engenheiros, incluindo aqueles que escolheram a Escola para continuar seus estudos em pós-graduação, alcancem o sucesso profissional e acadêmico, assim como espera dos mesmos uma reflexão madura sobre os fatos ocorridos.

Prof. Dr. Cezar Augusto Burkert Bastos
Diretor em exercício da Escola de Engenharia
25 de março de 2014

Qualquer ser humano que tenha tido alguma conversa franca com qualquer estudante de engenharia pode ter no mínimo umas 5 bizarrices para contar de professores tiranos e desumanos. No caso em especial, temos uma matéria que não faz parte de nenhum currículo de engenharia mecânica no país, é obrigatória na FURG. Ressalta-se, que esse número de 8 na verdade são 11, mas alguns pegaram transferência para PUC para se formar sem a tal da matéria. Desde o início do ano, tendo em vista o histórico da disciplina e que muitos dos estudantes estavam fazendo pela segunda ou terceira vez, procuraram a direção, sugerindo outro professor, outro método de avaliação, que se tornasse optativa.

- Calma, tá muito cedo, vcs tem o ano todo para estudar e passar na matéria. Ela é um diferencial do curso.

E assim seguiu o terror. Estudando como se pode, na prova vinha conteúdo do próximo semestre! As duas questões da prova ofereciam 3 possíveis resultados: 0, 5 ou 10. O questionamento da correção deveria ser feito a um professor inacessível tanto fisicamente, raramente estava na universidade, quanto espiritualmente (não acho uma palavra mais a contento dos materialistas, mas acho que vcs conseguem conceber alguém que está ao seu lado mas sua postura a torna inacessível?!). Acumulados zeros a turma volta à diretoria:

- Ah, mas agora está muito encima, não dá pra fazer nada.

Eu e acredito que a totalidade dos formados e formandos, repudiamos a carta de repúdio do Honorável e Respeitável Professor Doutor Diretor Bastos. E novamente fica claro e óbvio o vício em crucificar quem deveria ser aplaudido, e a negação sistemática de uma auto-avaliação crítica.

Certamente nada vai mudar. Talvez mesmo que fosse ateado fogo em pneus, nada tão pouco mudaria dentro da estrutura do curso. Mas, esse discurso teve um impacto fundamental em algo mais sutil, para mim de extrema importância, o estado emocional dos estudantes envolvidos. Ouvir publicamente de alguém que não tem nada a ganhar com isso (pelo contrário) que se seu filho não está lá não é porque ele é incapaz, porque ele é pior que os outros, mas por uma injustiça cometida por um professor tirano e prepotente e encoberta pelo corporativismo que rege essa escola, faz uma grande diferença para muitas mães desesperadas. Ver alguém começando uma carreira de engenheiro ciente de que existem outras pessoas no universo, que o mérito é muitas vezes a maquiagem da injustiça, e com outros objetivos além de conquistas pessoais me dá uma feliz sensação de leveza e vislumbre de dias melhores!

Agora, professor doutor diretor, de fato as emoções superam o limite da razão! Sugiro que tentes, e que ajude seus colegas a superarem também seus limites. É essa limitação que lhes tem impedido de ver o mundo e o ser humano em sua totalidade, ou próximo disso. O que sempre comentei talvez um auxilio psicológico pudesse ser positivo...

segunda-feira, 24 de março de 2014

A formatura em direito

Turma UFPE (Federal de PERNAMBUCO), 2003.
Faz um tempo fui prestigiar uma amiga que terminava seu curso em direito. As formaturas da FURG são realmente espetaculares, como não poderia deixar de ser na Sociedade do Espetáculo. Tudo bem, tudo lindo, é um passo importante, deixemos o espetáculo em paz.

Os discursos eram lindos. Sobre como são colegas e amigos, sobre como importa a felicidade e fazer o que gosta, sobre o investimento do dinheiro público na formação deles e como deveriam contribuir com a sociedade. Tudo muito lindo.

MAS, a observação mais repetida, todos que pegaram no microfone fizeram, as vezes mais de uma vez foi: "Essa é a melhor turma da história da FURG" sim eu também me contorci na cadeira, se prepara pq aí vem a justificativa "foi a maior porcentagem de aprovados na OAB"... Cuma?

Oh yeah, baby, somos amigos e nos amamos, só tenho que dizer, me desculpe seu perdedor, se vc não foi capaz de passar em um exame, eu passei, sou melhor e fui fundamental para marcar nossa turma na história da universidade. Inicia sua carreira com esse fracasso sendo esfregado sete vezes na sua fuça, durante o memorável momento de formatura. E não se esqueça devemos ser felizes, amar ao próximo e trabalhar em prol da sociedade!

Tirando esse lapso discurso/ideologia, endeusar de tal forma um exame... Eu não consigo concordar que quem passou no exame: apto a advogar, competente, bom advogado; quem não passou: inapto, incapaz de exercer a profissão, não aprendeu nada durante o curso, mas depois de pagar novamente e estudar para uma prova aí sim do dia para noite ele se torna capaz. Como pode uma avaliação assim tão importante ser feita por uma prova que gera lucros a uma empresa privada, que não precisa prestar contas.

Sigamos no relato da formatura desse importante curso para sociedade atual. Vocês são livres e devem fazer o que quiserem para serem felizes! Clap, clap, clap. Eu aplaudi emocionada. Agora vamos entregar a bolsa para os melhores alunos. Hein?

Ah é, me lembrei de minha amiga ter comentado porque ela ficava tão furiosa com os colegas que colavam. Os que tem o maior índice ganham uma bolsa para um cursinho para um concurso de um cargo público absurdamente bem remunerado. Essa é a liberdade de ser o que vc quiser ser pois o direito lhe abre um leque de oportunidades (como foi dito no discurso). Mas o que vc pode querer ser se todos aplaudem o grande campeão que vai ter a chance de tentar ganhar o mais alto salário da categoria?

Eu senti vontade de chorar. Pra mim nada disso faz o menor sentido. Salários exorbitantemente altos, isso afasta ainda mais (quem sempre esteve afastado) dos necessitados. E mascara o concurso público, todos podem, mas uns podem mais, uma vez que pagaram 5 mil por mês num cursinho preparatório, para o qual puderam se dedicar exclusivamente. E isso é o que vc tem que querer e o que aplaudimos feito macacos, repita o mantra "dinheiro", "status", "poder", enquanto claro, fala exatamente o oposto... Ninguém é premiado por participação na transformação social.

Não preciso dizer que no palco só haviam brancos com traços e sobrenomes europeus, preciso? Se na turma de Pernambuco é isso que vemos imagina no RS, eitcha, mas lhe digo se tem algo que ofende mais os gaúchos do que chamar sua piucha de fantasia é dar a entender a algum negro politizado que não existem negros no rio grande do sul. Eu cheguei bem perto de sentir meu pescoço ser esgoelado ao fazer isso uma vez. Aprendi bem, a invisibilidade é uma das formas mais cruéis de preconceito, os negros são sistematicamente varridos para baixo do tapete em profissões de pouco destaque, onde possamos seguir nossos dias desconhecendo sua existência. E o colega branco, classe média (ou média alta nessa nova classificação doida) ,descendente de europeus do meu lab insiste na máxima "no Brasil não tem negros". Depois de sentir desejo de gritar, trazer argumentos (De acordo com os relatórios da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), existem mais de 91 milhões de negros/pardos  no Brasil. Com isso, entende-se a porcentagem de negros no Brasil em mais de 50% - fonte) e sugerir documentários, internalizei que na verdade nesse caso isso não era um argumento, mas um teste de paciência. Quando é dito novamente algo do tipo abro um sorriso de miss, cara de paisagem, faço que sim com a cabeça, ouço durante 20 segundos (contados), e me volto para o computador.

Bem, passado o momento do espetáculo. Consegui garimpar uns momentos bonitos nos discursos para elogiar de modo simpático durante a comemoração. E lá fomos nós. Depois do jantar no momento dos doces, novos discursos, dessa vez vindos da família. A palavra-chave foi... "topo". Quando apontavam para cima eu buscava o que o dedo estaria destacando mas só via teto e lâmpada. "Quando você estiver no topo" "quando chegar ao topo" "não se esqueça de nós quando estiver lá encima"... e a coisa continuava.

Rumo ao "topo" misterioso.
Minha amiga linda em seu penteado e maquiagem especiais sorria sem saber muito o que dizer para não soar prepotente. Eu só conseguia ver um jovem assustada, recém formada atualmente desempregada, sem aval da venerável OAB, sendo esmagada por um monte de expectativas desconexas e sem base, que incluíam o cume de uma montanha isolada, com gelo e nuvens, representando altos cargos repleto de status e salários exorbitantes tão ou mais inalcançáveis quanto o cume da montanha. Expectativas baseadas no senso comum, na lógica "do que se deve querer", sem diálogo, sem espaço para outros quereres. Essa lógica mordaz faz com que qualquer outro topo que não envolva salário de 5 dígitos, poder e prestígio se torne um vergonhoso fracasso, e seu alpinista um pária social em potencial.

Para salvar a seção discursos meu amigo, e noivo da formanda fez questão de se levantar e dizer, em suma, que estava muito orgulhoso dela e independente do que ela decidisse fazer daria apoio total. Quando tive a oportunidade comentei com eles, que bom, gostei do que vc falou, tava muita pressão essa história de "topo", para minha surpresa ele pareceu preocupado "não era esse meu objetivo, eu não queria soar grosseiro, pareceu grosseiro?". Tranquilizado o amigo, sorri para ela e tentei desconstruir a imagem do assombroso "topo", o topo seria sua felicidade e auto-realização. Não sei se minha intervenção foi positiva ou se soei meio babaca, pois não ter como objetivo principal aumentar o salário faz de mim alguém bastante diferente de todos os seres humanos.

segunda-feira, 17 de março de 2014

Os miseráveis (trabalhadores dos EUA)


“Miséria à americana: vivendo de subempregos nos Estados Unidos” nos conta como vive a massa trabalhadora dos EUA.  A escritora com PhD em biologia começou a se questionar como os pobres conseguem fechar as contas? Como é possível viver com um salário de garçonete?
É interessante lembrar que isso já passou pela minha cabeça, trabalhar de garçonete nos EUA, aprender inglês, ter uma experiência e ganhar alguns trocados. Afinal, quem teria medo de trabalhar na potência norte americana? Certamente, na minha cabeça adolescente seria uma tarefa muito fácil!
Pois bem, B. Ehrenreich fez isso. Deixou sua casa, seu carro, seu marido para “se fazer de pobre”, foi apenas com um capital inicial de 2 mil dólares (ou quase isso), e foi viver três meses um em cada estado diferente. Se permitiu em todos os empregos alugar um carro velho, e se recusou a morar nele, esses seriam seus “luxos”. Segue um trecho conclusivo:


“Quando o desemprego provoca pobreza, sabemos como expor o problema – tipicamente, “a economia não está crescendo com suficiente rapidez” – e sabemos qual é a solução liberal tradicional – “pleno emprego”. Mas quando temos emprego pleno ou quase pleno, quando há empregos disponíveis para quem quer que os procure e possa chegar até eles, o problema se aprofunda e começa a atingir a rede de expectativas que forma o “contrato social”. Segundo uma recente pesquisa de opinião realizada pela Jobs for the Future [...] 94% dos americanos acreditam que “quem trabalha em horário integral deveria ganhar o suficiente para manter sua família fora da pobreza”. Cresci ouvindo repetidas vezes, a ponto de causar tédio, que o “trabalho duro” era o segredo do sucesso: “Trabalhe duro e você vai em frente”, ou “É o trabalho duro que nos trouxe até onde estamos”. Ninguém jamais disse que seria possível trabalhar duro – mais ainda do que jamais se pensou possível – e ainda assim ver-se afundando cada vez mais na pobreza e nas dívidas.
Quando mães solteiras pobres tinham a opção de permanecer fora da força de trabalho recebendo pensão do governo (poderíamos comparar com o Bolsa Família?!), as classes média e alta tendiam a vê-las com certa impaciência, para não dizer nojo. Os pobres que dependiam da previdência eram atacados por sua preguiça, sua teimosia de se reproduzirem em circunstancias desfavoráveis, seus supostos vícios e, acima de tudo, por sua “dependência”. Ali estavam, contentes de viver de “presentes do governo” em vez de procurar a “autossuficiência”, como todo mundo, por meio de um emprego. Precisavam ajeitar as coisas, aprender a dar a corda no despertador, sair de casa e ir trabalhar. Mas agora que o governo acabou com a maior parte de seus “presentes”, agora que a maioria avassaladora dos pobres saiu e está labutando na Wal-Mart ou no Mac Donald’s – bem, o que vamos sentir por eles? Desaprovação e condescendência não servem mais, então que sentimento fará sentido?
Culpa, você deve estar pensando, cauteloso. Não é o que deveríamos estar sentindo? Mas a culpa não leva a lugar algum; a emoção apropriada é vergonha – vergonha de nossa própria dependência que, neste caso, é do trabalho mal pago de outras pessoas. Quando alguém trabalha por menos do que precisa para viver – quando por exemplo, passa fome para que você possa comer mais barato e com maior conforto – essa pessoa faz um grande sacrifício por você, deu-lhe de “presente” uma parte de seu talento, de sua saúde e de sua vida. Os “pobres trabalhadores”, como com aprovação os chamam, na verdade são os maiores filantropos de nossa sociedade. Negligenciam os próprios filhos para que os filhos de outros sejam bem cuidados; vivem em habitações péssimas para que outros lares fiquem brilhantes e perfeitos; suportam privações para que a inflação seja baixa e o preço das ações, alto. Ser um pobre trabalhador é ser um doador anônimo, um benfeitor sem nome, para todas as outras pessoas.
Algum dia, é claro – e não vou fazer previsões sobre quando, exatamente – eles estão destinados a se cansar de receber tão pouco em troca e exigir que sejam pagos pelo que valem. Haverá muita raiva quando este dia chegar, e greves e destruição. Mas o céu não vai cair e no final estaremos todos em melhor situação.”

A autora iniciou sua "pesquisa" na Florida, onde tentou por 2 vezes trabalhar de arrumadeira em hotéis, mas acabava sempre sendo enviada para atuar como garçonete, devido sua tez e sotaque “apresentáveis”. Quando as contas insistiram em não fechar e ela não via mais como economizar, tentou trabalhar em 2 lugares simultaneamente e conseguiu trabalhar de arrumadeira. 
No Maine trabalhou numa agência de faxineiras. A agência recebia 25 dólares por hora, enquanto as faxineiras 6,65. Para tentar fechar as contas,  trabalhava num asilo durante os finais de semana.
Em Minnesota, foi impossível encontrar moradia, como ela diz quando ricos e pobres competem por espaço, os últimos levam a pior. Teve que passar um tempo num hotel muito simples, sem cozinha, nem trava na porta, nem ventilador. Aqui descreve um pouco sobre as maravilhas de se trabalhar no Wal-Mart, uma empresa francamente assustadora. Quando, por ter passado o tempo combinado em seu hotel horroroso ela precisa mudar e fica temporariamente em outro até achar uma moradia adequada, passa a pagar muito caro para trabalhar, e o projeto precisa acabar antes do tempo, com essa triste conclusão: “não é preciso um diploma em economia para ver que os salários são baixos demais e os alugueis altos demais [...]muita gente ganha muito menos do que precisa para continuar vivendo”.
Quanto mais pobre se é mais pobre tende a se ficar, sem a possibilidade do capital inicial para arranjar moradia menos ruins (que exigem um antecipado), acaba-se aceitando locais mais caros e mais longes do local de trabalho e sem cozinha para preparo da alimentação. Tendo que gastar ainda mais (dinheiro, tempo e energia) no transporte, alimentação e moradia.
No inicio Barbara se preocupava em como conseguiria esconder seu PhD em biologia, mas o fato é que não foi notada grande diferença entre ela e suas colegas que mal conseguiram terminar um ensino fundamental fraco.  Os trabalhos eram mecânicos e fisicamente desgastantes. Podemos desperdiçar ao longo de gerações grandes mentes, poetas, artistas, físicos, inventores, sem nem nos darmos conta... E quando não há espaço ou incentivo para criatividade ou inovação "todos os gatos são pardos", e todos erguem igualmente um aspirador de quase 5 Kg nas costas...
Sempre havia um gerente para reprimir qualquer possível “roubo de tempo”, ao longo das 8 horas de serviço, tirando as pausas de 15 minutos, não se pode sentar, comer, beber água, conversar, ou ir ao banheiro.  O custo de manter essa repressão (salario de gerente, câmeras), bem como os exames antidrogas (quando a empresa fornece) é certamente uma pressão ainda maior pra manter os salários baixos.
Existe forte pressão contra qualquer possibilidade de revolta, o Wal-Mart apresentava cartazes contra a "maldade" do sindicato. Dificultava-se ao máximo qualquer contato entre os funcionários. Somado ao esforço em fazer os funcionários se sentirem suficientemente desvalorizados para acreditarem que o quanto ganham é o quanto merecem, e não se rebelarem jamais, o que não é muito difícil, pois mesmo testes com animais revelam que macacos e ratos “forçados a um estado de subordinação em seus sistemas sociais adaptam em conformidade a química de seu cérebro, tornando-se “deprimidos”.
Além de não terem acesso a planos de saúde ou a um sistema público eficiente, é comum o trabalho pesado e repetitivo causar lesões a longo prazo, as dores incentivarem o consumo de analgésicos (baratos de qualidade duvidosa), com os baixos salários a alimentação se restringi a itens baratos, ou cestas de auxílio, sem vegetais ou frutas frescas, mas cheios de gordura e açúcar (o que me leva crer que os que não sentem fome estão subnutridos), e bairros e moradias mais acessíveis são comumente insalubres. O pobres trocam por míseros salários, não apenas seu tempo, como sua saúde. Para que possamos ter o prazer de poder comprar roupas baratíssimas na renner, tirar peças de arara e cabide e deixar por aí, ou provar e simplesmente abandoná-las no provador, acreditando que a fada madrinha se encarregue de magicamente por tudo em ordem na nossa ausência.
Dois pontos me deixaram um pouco assustada. Um é ver a grande nação, o Império dos EUA, como um país pobre, mas coberto com uma espessa camada de maquiagem.
E segundo, como nós classe média (que sim, também não estamos bem como deveríamos) exploramos diariamente de um modo cruel e desumano milhares de trabalhadores miseráveis. Cada cafezinho que vc toma para aumentar seu rendimento, teve mãos miseráveis no transporte dos grãos, no plantio, na colheita, na aplicação dos produtos químicos, para fazer o café, para lavar a xícara, e você mal olha nos olhos de quem lhe atende. Semana passada fui na renner, precisava comprar um top, peguei 2 fui ao provador no andar de baixo, na saída pedi para a moça "eu posso guardar esse aqui", ela pareceu extasiadamente feliz "jura? muito obrigada!", a arara de devoluções estava gigante. Não doeu colocar um top no cabide e devolver para arara que eu tinha tirado. Aliás, achei isso de um anarquismo extremo. E hoje, buscando o carro de uma manutenção, fui pegar um cafezinho, era tão arrumadinho, desconfiei "posso pegar um?" perguntei para senhora encarregada de lavar as xícaras "claro". Tinha tantas opções... "qual a senhora mais gosta?" ela me olhou, talvez achando tudo aquilo muito inusitado "eu não sei, os funcionários não podem tomar". Fazia tempo que não me sentia tão sem graça, não consegui fazer nada além de engolir um capucino e sair correndo desconcertada...