sexta-feira, 4 de março de 2016

Frutas Anárquicas

Entro no mercado comprar frutas e verduras, de terça que tem maior variedade. Sempre sinto um certo incomodo por estar naquele lugar, não sei dizer o que exatamente. Seriam as embalagens coloridas, plásticas, contendo produtos artificiais, “comestíveis”, que além de não fazerem bem (isso é nutrirem) ainda fazem mal? Passo cada vez mais determinada e ilesa pelas prateleiras centrais, recheadas de açúcar. Quem busca um incentivo para isso aconselho assistir ao documentário That Sugar.

Acontece que mesmo na parte saudável do mercado o incomodo permanece. É como uma frustração, na minha lista de compras mental sempre tem:
- frutas
- legumes
- verduras

Não especifico, vou buscando variedade, de preços, qualidade e oferta, conforme a época e o tempo natural de cada espécie. Mas, encontro sempre tudo igual. O mamão no lugar do mamão, as bananas penduradas, maçã, manga, e as outras de mais de 10 reais o kilo que variam pouco. Legumes também, batata, cenoura, abobrinha, berinjela, tomate, cebola. O máximo da variação é se vai ter bons xuxus ou pepino, mas nada tão surpreendente. Saio quase sempre com o mesmo, me perguntando como fazer pratos variados com mais do mesmo. Me sinto um tanto frustrada quando desejo um abacaxi que custa 8 reais a unidade. Aperta a saudade das poucas bancas de produtores genuínos da feira do produtor, sábado de manhã, no Cassino.

Mas, nem tudo é saudade. Muito bom morar uma ilha tropical extremamente fértil!!! Assim que cheguei o que me chamou atenção foi o exorbitante tamanho das árvores. Mangueiras astronômicas! E em novembro elas estavam carregadas, e jogavam seus frutos numa abundância desconcertante. O asfalto de modo implacável fazia com que cada uma se estraçalhasse no chão. De modo que um fruto tão nutritivo se transformasse num estorvo, melecado e fedorento. O asfalto a impedir a vida.

Acontece que algumas mangas caem na terra. Sempre haverá a terra para as sementes brotarem! Pudemos comer manga por todo dezembro. Para cada pé em terra ou grama uma sacola, e depois de chupar todas quanto desejávamos, congelávamos a poupa. Pura, ou em sucos, frapes, e mousses, refrescantes, doces, nutritivas, amarelas. Menores e mais saborosas que as do mercado!
Até que aquela árvore altona, que já havia me chamado a atenção por seus frutos engraçados, passa a me oferecer a oportunidade de provar mais um sabor. A Jaca.

Não sei qual sua origem. Indonesia ou India, me disseram uma vez. Sei que se adaptou muito bem no clima tropical brasileiro. É muito abundante a quantidade de pés, da dura e da mole. A quantidade de frutas por pé é de uma generosidade impressionante. Como se não bastasse, cada fruta é impossível de ser consumida por uma pessoa só, mesmo pelas mais avarentas. Foi assim que muito feliz fui introduzida no mundo da Jaca. Aprendi a comer refogada com cebola e azeite, usei o miolo da mole e a poupa da dura, aprendi a tirar o grude com óleo. Fiz receitas doces, bolo do caroço, torta de massa podre, conserva. Além de comê-la crua, pura. Ganhei muitas, pois descobrimos que tantas vitaminas e nutrientes eram especialmente benéficos para gestantes. Não parei mais de ganhar jacas! Além das que colhia por aí.

É tão livre, o modo como elas crescem nas ruas, ao alcance de todos, é tanto nutriente disponível sem cobrar sequer um centavo em troca, é simplesmente uma ofensa ao individualismo capitalista. É o anarquismo vivo saindo das entranhas da terra para nos alimentar!
Mas, já não podemos mais encontrar aquele raro saquinho espinhudo grudado nos troncos. E quando chego no emprego não encontro mais um peculiar geóide sobre a mesa. As jacas discretamente vão saindo de cena. Mas, assim como foi com as mangas, uma delicia nutritiva dá lugar a outra. E já não é só um aroma no ar, as goiabeiras estão ofertando os mais deliciosos frutos, nutritivos, seriam as vitaminas adequadas para o fim de verão e inicio de inverno? Os pés carregam, sem fertilizante nem defensivo.


E como forma de retribuição, vou me dedicando a guardar sementes, e com um esforço desmedido produzir mudas que darão árvores para nutrir outras gerações!!! Provando a todos que não existe inflação. O custo dos alimentos é exatamente o mesmo de 5 mil anos atrás, uma porção de Sol, solo fértil e um bocado de água. Todos tem acesso e podem colher, desempregados desesperados ou por malandragem, o mocinho e o vilão, a virgem e a puta, criança e idoso, nutridos e saudáveis só esticar o braço e morder.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

A Beleza


Quase não podia acreditar nos meus olhos. Era uma visão muito bonita. Estonteante. A mais bonita que já vi? E a água fresca, límpida, pura, pura, pura, que se movia num redemoinho perfeito. Precisei ficar muito tempo, paradinha, só absorvendo, vivendo. Toda aquela mata, as andorinhas brincando, rápidas, ágeis, livres. A visão do mar, a altura. O som! Nenhum pouco agressivo, não era uma cachoeira furiosa. A água fluía, escoando harmônica por uma rocha arredondada como um enorme elefante. Sem perigo, sem adrenalina, era espaço de ocitocina.

Estranho ter vivenciado isso e me sentir tão inquieta e irritadiça. Depois de um dia desses, com caminhada na mata eu deveria estar relaxada, desejando o repouso tranquilo. Mas não. Me mexia em casa, sem saber bem o que fazer. Tirava as coisas do lugar e tornava a por. Não queria papo. Tentei uma meditação guiada e por pouco não atiro o celular na parede, que chato. Yoga, e abre a pélvis e mexe que mexe, e deita levanta. E bufo. Deito na rede abro o livro, um capítulo parece uma tortura.

O que está acontecendo?

Não pude escapar de uma auto analise. Tive o dia mais maravilhoso que podia imaginar e porque me sinto assim?

Pensar que a cachoeira está lá com aquela beleza indescritível. E aqui, a cidade, essas ruas, essas paredes, esses tetos. São feios, feios, feios. Essas mulheres de revista, podem produzir o quanto for, cirurgia, artes plásticas, feias, feias, feias. Estou obcecada com a beleza daquele lugar. Sem lógica, sem plano, sem fibonacci obviamente visível. Quantos lugares não são assim e nunca verei, nunca viverei? Quantas águas fluem nas paisagens mais divinas e jamais porei meus pés para sentir sua temperatura, a brisa fresca e admirar a beleza. Real. Quantas outras não deram lugar a cidades feias, feias, feias. Por mais que houvesse alguma boa vontade com paisagismo e lagos. Quantos rios não viraram desertos verdes, de eucalipto e outras monoculturas feias, cercadas e feias.


Me incomoda não estar lá, não olhar aquele horizonte, não ouvir aquele som. Ver paredes, mesa, computador, ouvi motores acelerando, sentir um frescor falso do ar condicionado. Feios, chatos, claustrofóbicos, mentirosos, mortos e agressivos. Nesse momento, só de existirem me agridem.

domingo, 3 de janeiro de 2016

Calar e sorrir

Em sua boca devidamente (exaustivamente) bem cuidada um belo e doce sorriso. As poucas palavras que dizem são amorosas para concordar ou demonstrar interesse entusiasmado pelo que escuta. E tudo assim está em ordem. Não se ofende quando respostas ríspidas dão a entender a estupidez de sua pergunta, apenas sorri. E assim faz se a harmonia. A custa de suas palavras não ditas, de seus sentimentos sufocados no peito, de seus sentimentos anulados e reprimidos. À isso chamam-se paz, da qual a oprimida é proibida de participar.

Em uma sala com 7 mulheres e três homens, observei um tanto incomodada, como a palavra era pronunciada pelo sexo masculino em 90% do tempo. Ele discursava defendendo o feminismo, sem abrir espaço para manifestação feminina. A cada vez que uma de nós tentava pegar a palavra e participar da conversa, não havia escuta. Eu sentia minha boca sendo esmurrada diversas vezes, perdia os argumentos e as histórias e experiências que gostaria de narrar com o propósito de enriquecer a conversa e participar. Isso me deixava tão nervosa que as poucas coisas que consegui dizer sairam num tom histérico e agressivo, enxugado e resumido para poder ser concluído nos poucos segundos de atenção que eu receberia.

Raros são os espaços em que me sinto escutada. Enquanto por outro lado sou firmemente obrigada a escutar com atenção, interesse e respeito a todo o momento, todas as pessoas. Mesmo quando as ideias proferidas me ofendem. Calar e sorrir, em nome da harmonia. Se porventura me arrisco a manifestar alguma discordância logo me sinto reprimida, deliberadamente ou sutilmente. É difícil colocar isso na mesa, dizer: pare de me oprimir, se interesse pelo que tenho a dizer.  Os opressores num tem nenhum interesse em saber o significado da palavra opressão.

Em alguns períodos, talvez por influência da lua abro mão do silêncio, me empodero, passo a falar e expor minhas ideias começo a perceber que vou gerando um certo desconforto, vai se criando um clima tenso, como se minha presença provocasse uma imensa desordem, um caos vibracional interceptivo aos sentidos da matéria. Me sinto transportada à um cabo de guerra, um jogo de forças invisível, que só se ameniza quando retorno à posição que me é imposta: calar e sorrir e escutar. Ainda em 2016 não se espera de uma jovem que possa ter ideias interessantes, uma opinião que valha a pena ser ouvida, informação nova, nada, a não ser que o assunto seja dicas de beleza, moda e decoração. Espera-se apenas um rosto bonito, um sorriso agradável e ouvidos que escutem interessados e admirados nos assuntos importantes que fogem de seu raciocínio próprio.

No meu meio social o machismo não se mostra. Fica bem oculto. Não há espancamentos, e eu, enquanto mulher de união estável, sem perfil de hollywood não me sinto posta como objeto sexual, mas recebo diariamente inúmeros murros na boca, tão intensos que sou mesmo levada a crer que não tenho nada a dizer de tão desinteressante que sou, mal gosto que tenho e desinformada. Me parece mesmo que nesse tempo e no espaço em que vivo a atitude mais feminista e subversiva que existe é escutar com interesse uma moça. Algo que de tão raro só encontro entre moças do meu círculo social.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

A família, habitação e drogas.

Foram momentos intensos esses de capacitação profissional! Adoro assistir alguns conceitos firmemente consolidados se encher de dúvidas.
Em um dos dias o tema foi Família...

Inicialmente cada um deveria escrever a palavra que lhe viesse a mente quando se falava em família. Pensei conflito. Mas ouvindo os colegas comentando amor, amizade, proteção, preferi mudar para convivência. Comentei com uma amiga que por sorte me disse: eu tinha pensado em ilusão, mas preferi escrever aprendizado. E assim não destoamos muito da opinião pública.
E então a outra etapa foi fazer um desenho do que nos representa a família, e explicar para todos o porque. Lá estava eu, com meus quatro meses de gestação, olhando uma folha em branco, lembrando de meus pais e tentando identificar algum sentimento passível de ser desenhado. O tempo correndo. "Fiz uma casa por ser o espaço onde se materializa a relação familiar", que ficou meio perdida em meio a tantos corações e elos de corrente. Puxa, já estava me sentindo uma bandida sem coração, sendo tão crítica de uma instituição tão indiscutivelmente amada.
Só que dentro de um CRAS, as famílias atendidas são bastante diferentes de um comercial de margarina. E esse era justamente o pulo do gato. Nosso querido facilitador nos divide em subgrupos, entrega cartolinas e diz, em uma metade desenha a família ideal, na outra a real. O grupo começou discutindo como representar o amor, respeito, confiança, seria um coração com luzinha? E então nossa mestre Yoda, lançou o cutucão: e vocês acham que não precisa de papai, mamãe e filhinho? Se não fosse ela eu provavelmente pensaria "lógico que não" e fim de papo. Uma do grupo defendeu firmemente que não. Dizia ela, dos casos de filhos que são bem tratados por pais viúvos. E perguntei meio assustada: e isso é o ideal?! Que a mãe morra? Passaram a dizer das crianças que são adotadas por gays amorosos. E novamente é esse o ideal? A criança ser afastada dos pais por algum fator bastante negativo para depois entrar num lar harmonioso? Mas então, nesse caso estaria eu defendendo a família tradicional brasileira? Talvez fosse melhor ter ficado nos termos abstratos e indiscutíveis, a família ideal é aquela que fornece proteção, amor, carinho, respeito, diálogo. A Yoda interveio novamente: não digo de gênero, mas com dois adultos fica muito mais leve dividir as responsabilidades e somatizar as alegrias. A outra colega, que não contou com auxilio presencial do companheiro na criação de seus dois filhos confirmou que é muito difícil formar a família sozinha, ter que organizar a casa, cuidar da saúde, alimentação, educação, tomar todas as decisões, etc. Então desenhamos duas silhuetas grandes e uma pequena, envolta por um coração com aberturas para o mundo exterior, com setas de acesso à unidades de saúde, lazer, educação, cultura, esporte, ambiente saudável. Do lado real ficou uma mulher com diversos filhos, sendo uma gestante, casinha de palafita no alto do morro, sem acesso a transporte, educação, saúde, com lixo e esgoto nas ruas, e violência verbal. Um pouco estereotipada, seria como a soma das vulnerabilidades das famílias atendidas.

Acontece que a capacitação continuou e os temas foram mudando e numa certa manhã falou-se de adolescência. E do fato de o Brasil ser um dos países com maior índice de homicídio entre meninos. Isso sendo permitido e incentivado pela guerra contra o tráfico. Aliás essa é a principal ocupação dos casos de trabalho infantil. Isso me deixou incomodada. Não é uma informação inédita, mas sempre incomoda.

Logo em seguida, não sei bem como entramos no tema da habitação. Na Ilhabela os aluguéis são exorbitantes e me revolto toda vez que estou nos cafundéu de uma viela escura e fedorenta, preenchendo um cadastro e a pessoa diz que paga 500/700 reais de aluguel. Isso é quase um salário mínimo!!!

E então me veio uma conclusão óbvia na cabeça.
Seria melhor legalizar e regulamentar a venda de drogas e proibir a cobrança de aluguel para moradia.
Enquanto isso seguiremos enxugando gelo...

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Querer ou não querer o Parque Natural Municipal das Tartarugas?

Eis a pergunta que eu trouxe para casa nessa chuvosa segunda-feira! A convite da amiga e sentindo o peso da responsabilidade da oceanografia e gerenciamento costeiro que pesam sobre meus ombros, tive que comparecer na "devolutiva da consulta pública".

Pegar o bonde andando apesar de incomodo pode ser bem positivo. Devido ao fato de que não estou com o lado tomado. O encontro começou com quase uma hora de atraso, teve uma explicação sucinta das vantagens e maravilhas da criação do parque por parte do secretário e passou para a resposta às questões levantadas na audiência, por um técnico ambiental. Nesse momento não conseguia entender bem porque haveria uma ameaça a cultura tradicional, em especial a pesca. Se fosse só esse o problema, o secretário se adiantou em deixar claro que existe a possibilidade de licenças exclusivas. E a gestão do parque deve ter 50% de seus membros da comunidade civil. Houve a interrupção diversas vezes de um senhor bem exaltado e falador, foi diminuído a "tumultuador, interessado em votos". E eu confusa, sem saber se concordava, afinal o bate-boca atrasa a conversa, torna pesado e cansativo o debate, num leva a nada, vira uma disputa de egos.

Outro ponto defendido na devolutiva foi o da participação, que para o secretário se resume a audiência pública (ou apresentação do estudo técnico e propaganda da proposta) e essa devolutiva como auge, por não ser obrigatória!

Bem, um parque é uma Unidade de Proteção Integral, o que é diferente de uma Área de Uso Sustentável, como uma RESEX (Reserva Extrativista). Pensei que isso poderia ser uma boa resolução para o conflito apresentado, afinal permite o uso dos recursos e é gerida pela comunidade. Fui conversar com o jovem caiçara, primeiro da platéia a ter a palavra. Os argumentos brevemente exposto por ele foram:

-> Já temos leis, em especial o Plano de Gerenciamento Costeiro que se encarregam do manejo da pesca e uso da área marinha. Os quais se adequadamente aplicados dão conta de manutenção da vida marinha, sem a geração de gasto público desnecessário.
->Nessa região não tem exploração ou ameaça às espécies em risco de extinção. E nem há importância ecológica para o ciclo de vida das tartarugas.
->Toda energia e dinheiro gasto nesse plano deveriam ter sido aplicados no tratamento de esgoto há muito tempo atrás, se houvesse uma real preocupação com a vida marinha.
-> Não há estudos que comprovem impactos positivos na criação de unidades de conservação, tanto do ponto de vista ambiental quanto social.

O que me assustou na reunião foi a intensa polarização nós contra eles, pró e contra o parque. Isso torna superficial a discussão, entra num embate de vaidades pela razão e esvazia a discussão. Continuo sem um lado, e penso que algumas questões devem ser priorizadas no tema:

Porque criar um parque?
        Se for pelas tartarugas, esse lugar é de relevância ecológica no seu desenvolvimento?
                                              o parque vai realmente protegê-las, a pesca artesanal é uma ameaça real,                                               maior que o porto, o esgoto, embarcações?