segunda-feira, 17 de maio de 2021

do prazer de ser

é tão lindo crianças correndo, mulheres parindo, olhos apaixonados. é tão gostoso corpos livres que transam e separam, e tão lindo adultos que cuidam crianças. não faz o menor sentido colocarmos a dinâmica da vida em lados opostos e excludentes. em especial para mulher! não se cabe nas cabeças pequenas a mulher que gesta, pari, cuida e educa diligentemente, com amor, carinho e respeito. ao mesmo tempo em que beija seus amantes apaixonada. aquela que recusa a maternidade como punição, aquela que vê na maternidade mais uma rica face da vida pulsante, e materna com tanto prazer quanto vive as paixões, com tanto prazer quanto que nos oferece a vida. o prazer de acordar, de banhar, de comer, de conversar demoradamente, cantar, contar histórias, plantar, cozinhar, tantos são os prazeres que a vida oferece para que queiramos estar aqui, para que queiramos estar vivos e dar vida à outros seres humanos. é o prazer de estar vivos que nos mantém. não é a ganância, o dinheiro, a carreira, a família, é o prazer. e esse prazer quanto mais verdadeiro tão mais nos satisfaz num grau de profundidade que se instala e reverbera por tanto tempo. e por isso que busco e me relaciono com seres humanos, pelo prazer das miradas, não só o prazer sexual, que sim é muito gostoso, tem outros prazeres da relação materna, amizade com mulheres que são das mais intensas com sororidade, com colegas, com camaradas. o prazer das relações. múltiplas, diversas, coloridas que podem ser tão mais desfrutadas quanto menos utilitarista, sem base de troca, dominação e poder, sem julgamento, avalição e críticas implacáveis. quanto mais acolhimento, apoio, escuta, cooperação tão melhor. 

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Portas estreitas

 O processo de me identificar como classe trabalhadora tem sido a autoleitura real, me percebo amadurecendo. E envolve tantas autopercepções, é como se também fosse aceitando minha condição humana. É bruto e árduo, abandonar o lugar de princesa protegida (um nada, silenciado e oprimido) para ir assumindo o lugar de mulher, um ser humano adulto, que tocou viver em uma sociedade rachada. E que fora do imaginário, não tenho lugar na realeza. O principal foi deixar de querer estar nesse lugar, e lutar pra sair desse castelo psíquico. Esse lugar que ainda ocupo em alguns imaginários. Vou aos poucos botando meus pés no chão, e percebendo as miradas de quem nasceu fora do castelo. Nessas miradas vou cuidando de construir morada.

Tenho vínculos dentro do castelo, tenho miradas que me são caras. São as vozes que me alertaram que as sólidas paredes abrigam, mas excluem e separam. Eu gosto dessas pessoas. Mas, não gosto de entrar no castelo, mesmo que seja para discorrer sobre como quebra-lo. Quem sabe o castelo só possa ser quebrado de fora pra dentro. Aqui fora busco as miradas, alguns ignoram o castelo, alguns admiram, há quem conheça os porões e por isso temem. Esse castelo domina a paisagem, rouba o sol, faz sombra, eu digo segurando uma marreta. Há quem esteja com a marreta na mão, pronto pra usar. Mas somos poucos e conhecemos a espessura das paredes, há entre nós quem conheça a pontaria dos soldados que protegem o castelo. 

O castelo permanece. Ereto, sombrio, com muita parede e pouca porta. 

Eu já não quero estar nos seus jardins mais sublimes - e inacessíveis. Eu já não quero reproduzir esses jardins imaginários que poderiam elevar os excluídos. Eu quero a mata selvagem que aparecerá quando o sol bater no chão.



terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Um pedido de natal

O tio Hugo é um homem forte de espírito sólido. É isso que ele simboliza pra mim. Acontece que me tocou viver numa sociedade capitalista, na qual a luta de classes é invisibilizada, especialmente no meio em que cresci: Entre a porção da classe trabalhadora que delira  (uma porção de gente que sonha todos os dias em se tornar burguesia - classe capitalista) e a porção da classe trabalhadora bem remunerada (que não produz mercadoria, lumpen, ou o que se convencionou chamar classe média). Foi nesse meio de gente que fui crescendo e ouvindo as faltas dos meus ancestrais, ouvindo dia a dia uma ladainha que me fragilizava. Que fragilizava  a imagem do meu tio e escondia sua força e sabedoria.

As ideias não precisam de palavras. Elas entram pelas miradas. Eu mirava, mais do que era mirada, e isso foi o bastante pra fortalecer o meu espírito, sem que eu nem sequer imaginasse. Caí no mundo sem a potência que eu intuitivamente sabia ter. A racionalidade me fechava a porta. E quando se tratava da minha história eu era posta no lugar frágil da falta. 

E assim como no natal um enorme patriarca fantasiado silencia o homem corajoso que inspira mentes por séculos, as palavras "violência, loucura, promiscuidade, alcoolismo, pobreza, homicídio, feiura, vulnerabilidade, tortura" foram postas na minha história e silenciaram a força, a potência, a resistência, a camaradagem, a coragem, a autenticidade dos meus ancestrais. Mas esses valores são maiores que quaisquer palavras justapostas numa narrativa hegemônica e me chegaram, como um legado, me entraram pela mirada corajosa do espírito que quer vida. 

E eu resisto, resisto e desfruto. Desfruto do prazer de me reconhecer classe trabalhadora, e por isso mirar os iguais e ser mirada pelos corajosos. Anseio pelo dia em que nos reconheceremos fortes para juntos nos libertarmos dessa ardilosa opressão.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Fugir da sombra

Enquanto conversávamos entre um mate e outro, ia ouvindo e falando. Ela me dizia sobre a depressão e eu contando e lembrando dos meus momentos sombrios.

Hoje, enquanto na madrugada o som da tempestade me perturbava o sono, senti medo da corda com nó de forca que me ocupava a cama, sua imagem me perseguia pela casa. Eu tenho medo dos pensamentos que posso vir a ter nos momentos de tristeza. Dos pensamentos que já tive.

Acho que tudo bem as pessoas que não querem entrar em suas próprias sombras. Dói demais. É compreensível o uso de analgésicos, jogos, tecnologia, consumo, drogas, viagem. Mas ela está lá. A zona inexplorada, evitada. E ela cresce e torna-se mais hostil e assustadora, quanto mais desconhecida.

No natal eu fui pra lá. Meu coração acelerou, eu me concentrei em respirar, em não ter uma crise de pânico. E então criei esse lugar. Jung trabalha com mandalas. É mais encorajador me ver indo ao centro do que para o fundo. Eu saí da borda, e escorreguei por uma das portas a qual me permiti abri, que eu senti a enorme necessidade de abrir, porque eu sou assim, me quero pertencer por inteira. Então estava lá, era escuro e sombrio, era frio. Minhas amigas me deram uma canoa, um remo e um lampiãozinho. Seria bem mais sofrido sem esse apoio. Eu estive lá, conhecendo minha zona sombria, tendo consciência de sua dimensão. Tentei remar para o centro, onde acredito estar a luz essencial, o Eu verdadeiro, mas haviam alguns monstros que eu não me senti preparada para encarar. Me perdi, e remei assustada procurando pela borda.

Estou aqui, agora, na conhecida e iluminada borda. Mas eu sei que tem um centro desconhecido, ainda mais iluminado, com uma luz pura, mas pra chegar até ele tem muito lodo e alguns monstros.

Resultado de imagem para mandala

sábado, 27 de outubro de 2018

O perigo da Sororidade

Ouviram minha história. Num sábado, sem muita pretensão fui a um encontro com mulheres. A proposta linda foi sugerida por uma mulher forte e sensível, que eu muito admiro, a Tata. Criou uma chamada no face, no grupo de whatsapp "Mulher, quero ouvir tua história", um encontro de cuidado no qual uma mulher recebe cuidado das outras, enquanto fala sua história.

Reconhecendo a extrema carência social desses momentos de cuidado a proposta me cativou. E como ninguém se prontificava a começar eu aceitei. Claro que eu branquinha de classe média, toda privilegiada, com as contas em dia, em um relacionamento estável não preciso de cuidado, imagina!! Rá! Mas tão boa pessoa que sou, queria mesmo era servir, e do alto da minha "bem resolvidisse" percebi que os encontros só rolariam se alguém começasse, eu não gosto de falar e amo ouvir, o que aumenta o altruísmo do meu gesto! Não faria por mim, faria pelas outras!!!

Cheguei num espaço arrumado, com comidinhas saudáveis (do jeito que havia dito que gostava), chá quente, e haviam mulheres e crianças. Conversamos a toa, até que fomos conduzidas ao propósito: me escutar. 

Por alguma estranha razão sempre achei que pensar em mim fosse algo muito feio a se fazer, como se me tornasse uma pessoa má e egoísta! Fui por anos me arrastando pela vida, me ignorando. Recebendo um feedback bastante positivo, ninguém a minha volta parecia mostrar qualquer interesse pelos meus sentimentos. Por isso foi bastante estranho reconhecer que sim, aquelas mulheres realmente estavam dispostas e interessadas em "desperdiçar" seu tempo me ouvindo, não pra me julgar e espalhar fofocas por aí, mas por sororidade. Achei que pudesse falar cinco minutos, onde nasci, onde morei e o que estudei e pronto, estaria livre para ouvir as amenidades. Mas não foi assim, não escapei do mergulho profundo, com muito talento a Tatá colocou uns papeis na mesa e faria uma linha do tempo da minha vida. Conforme eu falava ela desenhava. E haviam perguntas. Foi muito, muito, muito inusitado ser vista, por outras e por mim mesma.

A narrativa foi truncada, travada, difícil. Eu achei que depois das seções de terapia eu conseguiria falar fluentemente sobre minha história. Mas não! Eu me esquecia, quando resgatava um momento vinham sentimentos que eu nem sabia que tinha sentido, a frieza e a racionalidade com que eu via a minha vida ficaram inibidas. "O que vc gosta de fazer? Que música vc gosta? Qual sua comida favorita?" Eu, constrangida, respondia qualquer coisa, mas o que eu pensava era "não tenho a menor ideia", como se eu não existisse. Eu senti pena de mim, a compaixão que eu me esforçava para sentir pelas outras apareceu! Empatizei comigo mesma. Vazia. Uma pessoa vazia (emocionalmente) com um porão cheio. Cade aquela "bem resolvidisse" que minhas autoanalises me indicavam?   Foi muito inquietante reconhecer que a mulher "bem resolvida", boa samarita, movida unicamente por altruísmo era uma distorcida projeção. Com um discurso de empoderamento e liberdade, eu me anulava, me submetia, ignorando minhas opiniões e sentimentos. Uma criança ferida precisando de cuidado, frágil e vulnerável. Que imagem...

Percebi que as mulheres foram contagiadas pela grave introspecção com que eu me acostumei a viver. Mesmo depois de encerrada a confusa narrativa, não se retomou a conversa fácil e fluida de antes. Acho que alguma coisa acontecia na minha alma, fusionada às almas presentes e ausentes. Tudo é um processo, mas em alguns momentos o processo se desenvolve de modo mais rápido e intenso. O encontro durou muito mais tempo do que havíamos planejado, alguma coisa nos mantinha naquela conexão, uma coisa muito misteriosa que eu não estou certa de como nomear, cura, talvez...

Depois de anos sem conseguir cantar, naquela noite eu dancei no banheiro, sozinha e pelada, cantando no chuveiro, rebolando de um lado pro outro, sentindo prazer e alegria em ser. Eu tenho certeza que aquele momento me fortaleceu, me motivou a existir! A assumir o papel central da minha história, a roteirista/protagonista. Viver o discurso do empoderamento. O discurso é fácil e lindo, todo mundo aplaude! Mas sua materialização não é tão simples, é bastante caótica e complexa. E nós não fomos educadas na complexidade do caos, nossa sociedade não acolhe o caos. O caminho para a felicidade verdadeira passa por rupturas que podem nos levar a uma confusão tão forte que sem suporte beira a loucura. E isso que chamo de suporte não tem receita, não é algo estruturado, certo e seguro. É essa magia de encontros como esse, de amizades acolhedoras.

A sororidade é de uma potencia revolucionária, avassaladora. Extremamente perigosa, ela é a força capaz de romper os padrões que nos afastam de nossa essência, da plenitude.

"O que você falaria pra Évellin adolescente?"
"Acredita, confia em você!"
"E pra Évellin de agora?"

Sorri e me senti motivada para finalmente fazer isso. 
Ouvir meu corpo e meus sentimentos.