sábado, 30 de agosto de 2014

Cachoeira Proibida

Todo dezembro a família se reunia na casa da vó, interior de Minas. Com minha prima a relação era mais próxima. Mal nos víamos e eu já me colava a ela. Ficávamos pelo quintal ou pela rua, só entrávamos em casa para comer e dormir. E tomar banho quando alguém se dava conta de nos forçar.

Fonte: clica aqui.
Minha prima tinha o corpo pequeno, no entanto a coragem e a audácia eram grandes. Falava o que pensava, tanto fosse pra uma criança ou adulto. Naquele dia saímos cedo. “Vamos ver onde é a cachoeira que você encontrou na internet.” Ela me disse decidida enquanto calçava um sapato fechado no lugar dos habituais chinelos de dedo. Fiz o mesmo.
Rabiscamos um mapa com base no google earth e fomos seguindo. Caminhamos muito, o sol estava forte e a sede começava a incomodar. Eu oscilava entre a vontade de tomar banho de cachoeira e o receio de nos perdermos. Imagens do meu esqueleto esturricando no sol povoavam minha cabeça. Mas minha prima estava convicta demais com o sucesso de nossa jornada, eu preferi deixa-la assim feliz e não compartilhei as possibilidades macabras que vez por outra invadiam minha tela mental.
Até que nos deparamos com uma cerca de pau e três linhas de arame farpado.
- A gente já deve tá perto – ela disse enquanto se esquivava pelos arames. Minhas pernas congelaram. Aquilo era invasão de propriedade. - Vamos! Mal posso esperar pra me refrescar.
- Eu num sei não, Pri. E se o dono não gostar?
- Que? Que dono? Ah, o da cerca! Ele não vai se incomodar, nem aqui deve estar.
- Eu não vou pular uma cerca, invadir uma propriedade. E se tem cachorro? Capanga com arma, se chama a polícia? Se eu for presa minha mãe morre de desgosto, ela odeia preso. Acho que me mata!
- Ara, vai... – ela se virou e seguiu farejando o caminho provável.
Fiquei um tempo parada, olhando-a se afastar com passos decididos como se dona da terra. O brilho do Sol se refletia nos seus cachos negros, por um momento quis ser como ela. Segurei no arame, ergui a perna. Eu não era como ela. Eu era eu, e precisaria começar a respeitar e aceitar essa diferença. Abaixei a perna de volta no lugar, soltei o arame e voltei cabisbaixa para casa. A volta foi triste, a sede perdeu espaço para o desanimo. Fiquei no quintal sozinha vendo as galinhas ciscarem durante toda tarde. Uma hora tive impressão de ouvir a voz de minha prima na oficina do vô, mas quando cheguei ele estava só.
- E você? Num qué nada?
Murmurei algo semelhante a um “não” e saí.
Na manhã seguinte a primeira coisa que vi foram os grandes olhos negros de minha prima. E ouvi sua voz, demasiado grave para sua idade e gênero, me preguntando excitada:
- Preparada para um maravilhoso banho de cachoeira? Então, se arruma que eu dei um jeito.
Me joguei da cama contagiada pelo animo dela. Calcei minhas botas e segui correndo com ela pelo mesmo caminho do dia anterior. Achei que ela poderia ter encontrado um desvio. Mas, no lugar onde deveria ter uma cerca, havia uma cerca arrebentada. Minha prima sorria triunfante e me explicou absolutamente orgulhosa de sua ideia maravilhosa:
- Pronto. Agora você não precisa invadir cerca, nem propriedade nenhuma. Basta seguir sua marcha!
- Você tá louca? Isso é crime! Depredou a coisa de outro.
- Olha, eu só quero tomar banho numa cachoeira. O cara cerca uma parte imensa da terra pra ele, tira toda a mata enfia umas vacas vez por outra. Se ele quer estuprar essa porção da natureza o problema é dele, eu só quero me refrescar. Quem é o louco criminoso? Vou indo que esse calor tá me matando. Se você qué vim, vem. Senão num posso fazer mais nada. Só digo que a cachu é perfeita!
Com meus conservadores 12 anos de idade eu não tinha capacidade de tecer críticas à propriedade privada, à concentração de rendas, exploração e apropriação de terras e recursos naturais. Eu tinha sido doutrinada a respeitar a propriedade acima de tudo e que quem desrespeitasse isso minimamente era ladrão, vagabundo que não valia nada, sem moral nem ética. Mas, o que eu conseguia compreender perfeitamente naquele momento era que não podia haver nenhum crime ou ameaça no fato de duas criança tomarem banho de cachoeira. Além do mais, o dia anterior (como criança que respeitou o limite da cerca) tinha sido terrivelmente chato. Enquanto me decidia podia ver minha prima caminhando lentamente pelo pasto. Foi então que pensei no que ela havia feito por mim. Ela rompeu uma cerca em respeito a minha limitação. Ela tinha abusado dos valores morais dela para que eu não entrasse em crise com minha consciência sozinha. De alguma forma ela se igualara a mim. Se eu teria que lidar com o fato de cruzar um cerca, ela teria que conviver com a lembrança do alicate em suas mãos rompendo a cerca. Não poderia deixa-la sozinha, isso havia sido um pacto de cumplicidade. Não há crime maior do que se apropriar do bem comum.
- Me espera! Eu também vou.

Fonte: link aqui
 

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Ordem

Nasça, teste, obedeça, olhe.

Aprenda, pule, assista, ande.

Brinque, chore, escute, associe.

Imite, ria, aceite, suje.

Sinta, queira, procure, escolha.

Beba, cresça, beije, corra.

Mude, saia, dance, experimente.

Leia, abuse, descubra, brilhe.

Mande, conquiste, tenha, compre.

Faça, controle, case, dirija.

Engravide, fume, pareça, cuide.

Mostre, emagreça, trabalhe, invista.

Deleite, peça, aprecie, perdoe.

Esqueça, relaxe, aposente, deite.

Reze, apague, ensine, arrependa.

Desista, resista, expie, morra.

SEJA simplesmente SEJA



 
 

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Noiva do capital

Essa semana a empresa de transporte público provou que seu lema é "lucra bem para lucrar mais".


Curiosamente, os pontos de descida foram removidos. O ponto em que mais se descia gente, onde formava uma certa muvuca, foi o que mais causou estranhamento. De um dia para o outro o ponto não tava mais lá. "Vai descer" grita a galera do fundão. "Num tem mais ponto" responde o motorista mau humorado, emendando um "parece burro".

Simples assim. Que eu tenha conhecimento, dois pontos de descida foram subtraídos sem aviso, sem explicação. Deixando uma enorme distância a ser percorrida. Passageiro descendo não dá lucro, o lucro é com quem sobe. E afinal, conspiração de minha parte, a região do Guanabara vem investindo fortemente numa limpeza social. Afastando os pobres, tirando da vista. Muda a rodoviária, subtrai um ponto.

Na semana passada descobrimos que o ônibus das 12:50 agora é das 12:55. Ontem, chegamos na rodoviária e às 12:55 nada de ônibus (cassino - furg). Ia saindo um para o centro, perguntamos ao motorista "Deve estar chegando" e foi-se embora. Melhor pedir informação: "Num tem mais esse ônibus porque é férias". Simples assim, na quarta tem ônibus, na quinta não. Entramos no centro, digo o que chama Cassino, mas curiosamente vai para o centro. Ao longo do caminho sobe ao menos 13 estudantes que não sabiam, mas estavam de férias. Estudante já paga meia, para dar (muito) lucro precisa de estudante pra caramba. Com isso todos ficaram sem almoço...

Na volta decidimos nem arriscar esperando o furg-cassino. Fomos na faixa e pegamos o Cassino que aí sim, de fato vai para o cassino... Lo-ta-do. Respirei fundo, e me enfiei tentando achar algum espaço. E o motorista curiosamente segue parando nos pontos e apanhando gente. "Tá lotado motora". Começa a massa amontoada se manifestar. "Só mais cinco" responde o motorista para minha enorme surpresa. E não é que entra mais 5 mesmo? E dos grandes!

Só que é humanamente impossível e extremamente desagradável atravessar o ônibus para descer. E então, as pessoas que estão desconfortavelmente exprimidas na parte da frente se esforçam para alcançar a catraca, pasmem, pagam sua passagem, giram a catraca e descem pela frente, a cobradora grita "girei pra moça"! Essa é uma metodologia que não faz absolutamente nenhum sentido para mim!

E as cinco pessoas grandes que haviam entrado, logo (uns 5 pontos depois) vão descendo. "Eeeeei, mas vocês pagaram a passagem?" silêncio. Gritando para cobradora "Você cobrou desses cinco?" "Só recebi da menina e da senhora". Não me contive "Deixa descer, eles nem entraram no ônibus". Segui argumentando com 2 homens que pareciam concordar "não faz falta, essa empresa já lucra os tubos na nossa costa". Alguém pagou as passagens, possivelmente um cidadão de bem que acredita que a caridade é a salvação...

A cobradora pareceu ficar meio de cara comigo e dava indiretas dizendo que já tinha espaço no fundo, fica na frente porque quer, quer atrapalhar mesmo, resmungava. Não consegui ver o espaço atrás, apesar de ter ouvido bastante gente descer, e nem consegui identificar porque eu deveria passar pra trás. De todo modo eu fui, afinal queria ficar perto do meu companheiro. "Tem que ter mais ônibus, esse horário é sempre cheio, fica ruim até pra vocês, mto estresse" falei no tom mais simpático que consegui achar. "Num sei porque tá cheio, ontem mesmo veio vazio" respondeu mais calma.

Depois de ter passado o dia inteiro desejando que o presidente dessa joça fosse afetado de alguma forma. Imaginar o iate dele naufragando e deixando ele com frio e fome por uma semana. Depois de mentalizar todos os escritórios pegando fogo, graças a molotov. Depois de sentir vontade de tacar fogo naquele ônibus. Depois de desejar ardentemente que cada realzinho de lucro que entrasse no bolso algum tonto trouxesse um desagrado. Enfim, depois de mirar encima comecei a pensar porque razão os motoristas e cobradores fazem tanta questão de assegurar o lucro do patrão?

Imaginei o condicionamento mental que paira pela empresa. "Num dá pra por 'lotado', pensa naquelas pessoas no ponto, elas esperam pelo transporte para chegar nas suas casas." Ou ainda "tem muita gente ignorante e mal educada que pega o ônibus". Só pode de algum modo haver uma coação muito grande que faz com que o trabalhador se identifique mais com o patrão que com os usuários. E comecei a desejar algo muuuito mais interessante do que uma doença maligna num idiota qualquer. Comecei a imaginar os e as motoristas, e os e as cobradoras passando a adquirir consciência de classe. Imaginei eles/elas de alguma forma se apropriando de Marx, pensando de maneira crítica seu papel na sociedade.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

O Islã, a mesquita e a ignorância

Fica tudo muito confuso quando antes de conhecer somos bombardeados por conceitos prontos, supostamente embasados, amplamente aceitos e prontamente repetidos. Fica pior quando não há espaço para sentir, só para pensar presa na razão e na lógica.

O que é liberdade? Como manifesta-se o machismo?

Mulheres de burca e coberta por panos sempre me deram arrepios. Não é difícil imaginar porque, a primeira vez que tive contato com isso foi pela TV e elas sempre estavam associadas a opressão, sofrimento, violência. Me era mostrado como um costume medieval de sujeição, e narra-se longas histórias de apedrejamento, e costumes cruéis. O discurso defendido era de que as mulheres devem ser livres para se vestirem como quiserem.

Quando cruzava por uma nos bairros comerciais de São Paulo me sentia desconcertada. Precisariam elas de alguma ajuda? Mas elas não estavam de cabeça baixa caminhando atrás de um homem, como a TV narrava ser o costume. Elas pareciam decididas e confiantes, andando sozinhas pelas ruas, administrando lojas. E eu já não sabia como uma adolescente poderia ajuda-las. Já não sabia se devia continuar sentindo pena. Mas ainda insistia em associar tal vestimenta ao símbolo máximo da opressão machista. Nós ocidentais cristãs é que temos sorte de usufruirmos nossa liberdade nata.

Depois de experiências, leituras, conversas, observação, contato com grupos feministas, fui me convencendo que existe machismo, e muito, nas Américas. Vejo como a mulher é usada como objeto decorativo, como somos incentivadas (e cobradas) a sermos bonitas. Como a presença histórica de mulheres importantes é apagada, ignorada, subestimada, e as que restam são subjugadas a papéis secundários, cuja importância se resume ao papel de mãe do cara ou esposa do cara. E eu já não sei o quanto as mulheres exibem seus corpos por liberdade ou por coação. Afinal existe um único tipo de corpo a ser exibido, jovem e torneado, essa suposta liberdade morre na praia. E deveria essa liberdade, de se despir, ser imposta? Estaria lindo a lei francesa que proíbe o uso de burcas e do tal lenço? Seria essa lei uma busca pela liberdade das mulheres ou uma perseguição religiosa?

O que eu aprendi do Islã pela TV é que são sanguinários e pretendem matar todo mundo, em especial aos EUA, pois eles são totalmente contra a liberdade. Demorou muito para eu me dar conta desse espesso véu de ignorância que foi posto sobre mim. Sinto uma necessidade enorme de saber quem somos nós, o que significa nossa vida, se existe e o que é alma. A ciência não é capaz de suprir essa necessidade, busco então na religião, lendo, ouvindo, conversando, meditando e mantendo a mente aberta. Li dois livros, meio fantasiosos como romance que abordavam o Alcorão. Me encantei com "Seu Ibrahin e as Flores do Corão" e "Habibi".

Já nesse processo de amadurecimento, no qual um choque cultural não resultaria em atrito, foi que a conheci. Quando a vi envolta em panos não senti a aversão de outrora. Para minha surpresa uma enorme excitação percorreu todo meu corpo. Milhares de perguntas começaram a se formular na minha cabeça. O que ela pensa que é alma? Acredita em espírito? Porque usa esses panos? Acredita em Jesus? Achei indelicado começar uma entrevista desse modo. "Estamos atrapalhando seu jantar." E para minha sorte ela já entrou no tópico que eu queria. "É que estamos no mês do Ramadã, Fazemos jejum de quando o sol nasce até que se põe." Engatilhei diversas perguntas: o que é Ramadã?, existe uma dieta especial? e por fim, quando ela me disse que faziam 5 orações por dia, em todo o mundo no mesmo horário e no mesmo idioma, iniciando às 6 da manhã eu não pude me segurar. Foi uma vontade arrebatadora, eu precisava participar dessa oração. Pedi para me juntar, ela disse, pelo que consegui entender pois a comunicação não era de todo clara, que essa era uma oração mais íntima, mas às 19:45 havia uma oração na mesquita a qual eu poderia acompanha-la, se quisesse.

"Pai, qual a diferença entre árabe e muçulmano?" "Não sei." Passei pelo google para entender que muçulmano é quem segue o Islã, uma das religiões com mais fiéis no mundo e a que mais se expande, especialmente entre as mulheres! Vesti minha calça mais larga e às 19:30 estava na entrada o hotel esperando por ela.

Fomos caminhando, enquanto eu fazia muitas perguntas, tantas que nem conseguia entender as respostas, tinha receio de ofende-la. E porque usar o pano? Nas imagens católicas também tem. É para se preservar, como pureza? É. E os homens não usam? Vai da fé de cada um. Nesse momento passamos por um carro de onde descia um jovem bonito, envolto em lenços com um turbante. Achei que iriamos parar para cumprimenta-lo, afinal nas religiões em que andei era fácil confundir o rituais com um evento social. Mas qual, apertamos o passo e entramos por uma portinha estreita numa longa escadaria. Nas mesquitas grandes as entradas de homens e mulheres é separada. Preferi deixar para depois meus julgamentos, achei que seria desrespeitoso e me impediria de conhecer. Ela parecia apressada, você tira o sapato rápido e entra com ele na mão. Putz, estava calçando um tênis tipo botina trekking, difícil de descalçar. Fui tomada por uma espécie de desespero, não queria desrespeitar ninguém. Tive que me concentrar para não gargalhar, afinal parecia meio cômico um desespero para não ser vista por homens. Finalmente o tênis saiu, quase arrancando meu pé junto.

As mulheres ficavam juntas atrás de um pano, que as separava dos homens. Elas pareciam a vontade com isso. Só podem frequentar a mesquita no mês do Ramadã, exceto quando menstruada, nessa situação não devem rezar, e ficam devendo as rezas para outra ocasião. As orações eram em árabe. 5 sessões com intervalos. Eu poderia ficar a noite toda, mas minha anfitriã parecia demasiado insistente quando dizia que eu poderia ir, iria ficar cansativo para mim que não entendo. Achei que ela preferia que eu fosse. Gostaria de conversar mais.

Tenho muita vontade de conhecer mais que julgar. O Islã, em especial sua linha esotérica Sufi, parece ter muitos ensinamentos interessantes. Dizer que separar homens de mulheres, proibi-las de entrar no templo, é errado e machista sem conhecer as razões disso é ignorante e desrespeitoso com outras crenças. Somos sempre levados a julgar o Islã, e o pior, com base em casos estapafúrdios e cruéis. Como se não existisse pedofilia entre cristãos, como se não houvesse entre fiéis cristãos casos de intolerância, opressão, coação, violência. Oportunidade de conhecer o Islã são pouquíssimas. Eu ainda não sei o que penso disso tudo, quer dizer penso que cada um deve ser livre para ter a crença que quiser. Repetidas vezes encontro em literaturas espiritualistas diversas um alerta sobre o ego e sua manifestação primária, a vaidade. Assim me parece razoável que algum profeta tenha chegado a conclusão de que se cobrir toda é uma forma de não alimentar essa vaidade, ou raspar a cabeça e se vestir igual. Se isso é eficaz eu não sei, porque nunca tentei e não conheço intimamente quem tenha tentado.

O que eu não sei é até quando confiar na veracidade da existência de grupos muçulmanos fundamentalistas terroristas violentos contra a liberdade a democracia e os EUA, que atacam pelo simples fato de acreditarem que o mal reside na democracia, a qual os EUA tem o heroísmo de defender...

segunda-feira, 7 de julho de 2014

A árdua e interminável luta íntima contra preconceitos

Não me canso de admirar como a destruição de preconceitos é lenta, exige esforço, disposição e principalmente atenção! Mas é uma destruição bonita de se acompanhar.

Imagine que fiquei sabendo de um curso de "conversation" na universidade, ministrado por uma legitima americana. Topei na hora. E minha maior surpresa foi ver uma jovem engajada trazendo temas interessantes e extremamente críticos! Como a manipulação da mídia, construção de estereótipos, aliás indico um vídeo chocante (a conversation about race).

E não é que com essa história de copa, um amigo lança o comentário: "futebol é a única coisa que dá dinheiro e os americanos não estão envolvidos". Putz é mesmo, eu pensei como se essa fosse uma constatação muito genial. Sem me questionar o que eu entendia por "os americanos" eu fui. Oh yeah, eu fiz isso. Compartilhei o comentário na conversation. Na frente da americana e de todos os outros estudantes. Estupidamente abri minha boca e lancei essa observação rasa. E só comecei a me questionar "qual é o problema" depois que a professora imitou um barulho de bateria. Do tipo circense, depois de uma intervenção do palhaço.

Como eu posso ter dito isso a uma americana, que está no Brasil, e como eu é uma crítica ferrenha do consumismo, da coisificação e namora a revolução? E porque eu fiquei tão surpresa com o posicionamento crítico dela, pensando que isso seria contraditório vindo de uma americana? Carregada de preconceitos, eu me vi. De alguma forma na minha cabeça eu associei capitalismo e EUA de um modo simplificado, generalizado, superficial. Tanto que normalmente não me dou conta de que "os americanos" envolve uma gama extremamente complexa de seres humanos, dos quais certamente uma grande e significativa porção é crítica ferrenha do capitalismo selvagem, e uns outros tantos são anarquistas. Eu já sabia disso, já tinha reparado nisso, mas ainda assim não consegui flagrar prontamente. E fiz uma vítima do meu preconceito.

Acho que esse é o processo de destruição de preconceitos para construção de conceitos mais justos, profundos, complexos. Primeiro temos que nos abrir, isso é, simplesmente não pensar "o que esse idiota está falando, defendendo esse bando de vagabundos" ou no meu caso "que estúpida a reação dela, a verdade dói mesmo". Morei em São Paulo. Não achava graça em piadas de "baianos" (termo que inclui todos os imigrantes da enorme região norte e nordeste), mas eu ri da mulher tentando falar "youtube". E eu me achava muito boa pessoa.

Aqui em Rio Grande, estamos recebendo imenso contingente de imigrantes. Em sua maioria vindo de situação precária (suposição minha). Nesse momento, um pouco mais madura, identifico o baita preconceito que eles sofrem e isso me incomoda muito. Mas, mesmo assim...

(A professora americana nos pediu para criar um blog, só pra treinar o inglês. Empolgada com as analises de música que ela faz, tive uma ideia, fazer o mesmo só que ao contrário. Explicar, ao menos tentar, nossas músicas com crítica social no idioma do Império. Eis que surge num inglês medonhamente macarrônico, mas cheio de boas intenções A Subversive Brazil. A última música que pus foi Admirável Gado Novo.)

Mas, mesmo assim, mesmo depois de me reconhecer cheia de preconceitos e me identificar como defensora dos migrantes, você não acredita. Num é que eu passei direto e reto pelo trecho "É duro tanto ter que caminhar"? Estou acostumada a ver tudo: filmes, músicas, programas, notícias, voltadas para minha classe social, ainda que não para o meu gênero, mas isso não é problema pois fui adestrada a me encontrar em "os homens". Empolgada por ter me visto no livro admirável mundo novo nem me dei conta de que a música, praticamente homônima não era para "mim".

Só me dei conta e voltei para acrescentar um comentário na postagem quando já passava da metade da leitura de Vinhas da Ira, um livro muito envolvente, sobre uma família americana expulsa do campo por tratores e pés de algodão, que migra de modo muuuito (corajoso e) precário para Califórnia, como se não bastasse todo drama e dificuldade elas terão que enfrentar esse sombrio e cruel monstro chamado preconceito. O livro (nobel) inspira tamanha simpatia por esse grupo de pessoas - pobres, sem educação formal, com assassino ex-presidiário, mãe solteira. Nos envolve de modo a sentir as dores na pele, não é como viver, mas é próximo disso, dependendo da sensibilidade do leitor, muito próximo. Pensei em todos os imigrantes que conheci na minha adolescência paulista e com muito pesar, sinto vergonha em reconhecer que de alguma forma sempre me julguei superior a eles, minha "amizade" foi dada como caridade.

Nesse instante eu lembro da senhora falando "iutubiu" e me sinto extremamente idiota. Como paulista posso dizer que seria interessante, muito interessante, todos nós que nascemos e fomos criadas no estado mais """rico""" do país conferíssemos se não existe um morro de prepotência sob nossos pés. Donos do sotaque (e cultura e aparência e modelo econômico e roupas) adequado/ideal. Não, aquele vídeo não choca pela ignorância de uma mulher que não consegue dizer o nome de um site num idioma estrangeiro. Aquele vídeo choca pela risada do filho do patrão. Eu sei que estou desenterrando o tal do vídeo, mas sinto latente essa ordem estabelecida que põe o sotaque nordestino subserviente. Associando à ignorância e à valores desonrosos. Pois são nessas situações que eles aparecem nas novelas. Sinto como fui idiota em achar que estava bem o vídeo, por mostrar uma interação rara, eu achei legal da parte dele reconhecer a existência da pessoa que limpa suas sujeiras.

Fico triste por reconhecer tanta ignorância e preconceito em mim. E sei (e torço) que se daqui a 10 anos voltar a ler esse texto vou reconhecer uma dúzia de preconceitos e crueldades, torço para reconhece-los pois isso significa um passo para superá-los.

Você, que escreve, fala, canta, interpreta, dança, pinta, contra o preconceito, seu trabalho não é em vão. Me sinto muito, muito agradecida pela existência daqueles que (em oposição aos que constroem e nutrem) destroem preconceitos e salvam Almas. Nesse caso em particular, muito obrigada Zé Ramalho e John Steinbeck, e me desculpem por suas obras ainda serem consideradas transformadoras...
"Vinham famintos e ferozes, tinham a esperança de encontrar um lar, e só encontraram ódio. Okies... os proprietários odiavam-nos porque sabiam que eram covardes e que os Okies corajosos, e que eram bem nutridos e que os Okies passavam fome. E talvez os proprietários tivessem ouvido seus avós contarem como era fácil a alguém roubar terras a um homem fraco quando esse alguém era feroz e faminto e estava armado. Os proprietários odiavam-nos. E os donos das casas comerciais das cidades odiavam-nos também, pois que eles não tinham dinheiro para gastar. Não há caminho mais curto para se obter o desprezo de um negociante. Os homens das cidades, pequenos banqueiros, odiavam os Okies porque eles nada lhes deixavam ganhar. Eles nada possuíam. E os trabalhadores odiavam os Okies porque um homem esfomeado tem que trabalhar, e quando precisa trabalhar e não tem onde trabalhar, automaticamente trabalha por um salário menor, e aí todos têm que trabalhar por salários menores."