sábado, 3 de setembro de 2022

 São 18 horas de um domingo, nem frio, nem quente e eu acabo de protocolar o meu pedido de exoneração. Agora é assim, sem nenhum contato humano eu abro um site preencho e pronto. Exoneração do cargo de orientadora social da casa dos conselhos.

Desde a volta das férias que essa ideia voltou a estar absurdamente latente. Durante as férias passei cantando, passeando e contando histórias pra uma criança muito alegre e amorosa que eu tenho a honra de chamar de filho. Durante as férias eu soube da audiência pública sobre a criação da escola cívico militar. Não houve consulta nem diálogo ao conselho municipal de educação. 

Já avisei toda a equipe, que foram extremamente atenciosos e acolhedores. Eu avisei do meu estado, mas ainda não tinha feito o pedido. Preferia que houvesse a possibilidade de haver alguma outra pessoa que ficasse no meu lugar. 

E então houve um outro absurdo ainda mais grave, um decreto cancelando a reserva de Castelhanos foi aprovado na câmara municipal. Novamente sem consulta alguma ao conselho municipal das comunidades tradicionais. E então o que é isso? Que a gente gosta de chamar de democracia? De organização social? É um delírio coletivo?

terça-feira, 30 de agosto de 2022

A luta de nós todos

Sonhei que estava submersa. Afundando. Como aquele instante em que o impulso do pulo nos afunda enquanto o empuxo se contrapõe e sabemos que inevitavelmente voltaremos a superfície. No sonho esse instante se demorava. Pois o sonho iniciou, ou a consciência do sonho começou exatamente dentro da água. Não no alto observando a superfície da água, calculando a hora e o modo de me atirar. Não. Foi de baixo d'água, e enquanto estava lá, eu pensei que para estar afundando a tanto tempo deveria ter pulado de muito alto, e me perguntei como tive coragem. 

Estamos submersos e uma força grande e desconhecida nos faz afundar quando o natural seria o empuxo nos levar para superfície. Ouvi o termo "contra-revolução preventiva". O mínimo esboço de avanço é combatido de formas diversas com uma força imensa. Como os bebês de berçário que param de chorar por não serem atendidos, um estado apático cresce conforme mais consciência da amplidão da biopolítica, do agravamento e das possibilidades remotas de superação.

De ante mão já sabemos que não adianta. Já sabemos as limitações e as repressões, às vezes nos surpreendem por serem mais brutas e mais drásticas do que calculávamos. E então é isso, pra cada ação, por mais insignificante, reações. Mais bárbaras quanto maior a consciência de quem pratica. E a racionalidade ao contrário de nos fazer avançar, nos prostra, mais e mais. 

Pode assistir televisão, jogar video-game e comer da indústria, usando remédios para domesticar o corpo rebelde. Quem não pode assistir televisão, porque não é branco o bastante, pode querer assistir televisão, pode querer um celular melhor, com internet e joguinhos. É isso que o sistema capitalista tem a oferecer, distrações pasteurizadas, corpos inertes, mentes letárgicas. Esse é o fluxo hegemônico da inercia que a tudo arrasta. Para viver o não isso é preciso enorme esforço, buscar e fazer acontecer, com pouco espaço, nulos recursos, e atenção, muita atenção com a linha. Além de desapego com os resultados. Os problemas que enfrentamos são enormes, mudança climática, déficit hídrico e energético. 80% da energia usada nos EUA vão para o departamento de defesa, uma hora de voo de um caça emite tanto gás de efeito estufa quanto 30 anos de um carro popular. O que nos liberta de exercer ações coercitivas entre nós. Cancelar o colega que tem uma banheira... O "fazer a sua parte" toma uma outra dimensão. Uma vez que nossas ações individuais não terão um impacto real na macro política estamos libertos do fazer com essa obrigação. Nós podemos fazer por, com prazer! Esse prazer em desfrutar das relações humanas, com que está do nosso lado, materialmente. 

Eu não estava embaixo d'água. Eu estava sonhando que estava embaixo d'água, e segurava minha respiração. Quer dizer, meu corpo segurava a respiração e foi meu corpo indômito que tomou o ar, e no sonho eu respirei embaixo d'água. Ainda tinha medo de me afogar, por isso respirei bem pouquinho, pensando estar sorvendo a porção de oxigênio dissolvida e com esse pouquinho de ar parei de esperar pelo empuxo e fui nadando para superfície, onde poderia respirar todo o ar que meus pulmões são capazes de sorver.

A gente só precisa de vencer uma vez. A vitória é absoluta. Os fracassos, por serem pontuais e temporários serão muitos. 


sexta-feira, 15 de julho de 2022

Abençoada é a memória do filho de todos

Muitas mentes criam um sonho. Como um vaso de cerâmica feito por muitas mãos. E também os sonhos se quebram. Os pedaços não podem ser varridos e descartados. Eles pairam nesse espaço, “não espaço” de nossa nuvem psíquica. Como satélites inutilizados que orbitam a exosfera. Só que os pedaços de sonho são tão preciosos, se relacionam entre si, tem memória. As exosferas das psiques se juntam, e os sonhos orbitam de uma para outra.

Quando eu menos esperava me deparei com o mesmo sonho, velho, antigo, quebrado, ali, a mesma forma, completa, pairando no meu “não espaço”. Ainda é tão lindo, mesmo com tantas rachaduras. A mesma forma. Com a diferença que não era uma peça só, os cacos não estavam fixos, apenas juntos. Achei que jamais assumiriam a mesma forma. Mas, lá estavam eles,  pedaços de um mesmo sonho unidos pela memória do que foram.

A surpresa me paralisa, não tenho reação, só olho. E choro. Eu não sei. Não sei se gosto, não sei se preferia não ter participado da criação desse sonho. É tão bonito. Não tenho a cola capaz de fixar esses cacos. Se tivesse uma brilhante, que não escondesse a junta. Eles vão se separar. Me resta confiar nos cacos, em como eles sabem dançar pelas psiques, se exibir para as que os reconhecem. Quero perceber cada movimento. Quem sabe se juntem em outra forma. E possamos aparar as arestas, construir novos pedaços, encaixes. Gostaria de não estar só.

Por ora vou mesmo sentir o preenchimento que o sonho traz. A forma, a rachadura, o afiado das pontas quebradas. A beleza do encaixe perfeito, a diversidade dos cacos.  




quarta-feira, 22 de junho de 2022

Força militar em Ilhabela

Algo que nos contentamos sobremaneira da vida na Ilhabela é a segurança. A sensação de segurança. Saio a qualquer hora da noite com a plena certeza que voltarei para casa. Adolescentes saem para paquerar e crianças vão sozinhas de bicicleta à escola.

Entretanto, com o efeito da pandemia o contingente populacional aumentou sem um mínimo preparo estrutural. Serviço de internet, tratamento de esgoto, ampliação de ciclovia, de leitos no hospital, quadro de funcionários, vagas em escolas são os mesmos para a população que pode ter aumentado um terço. 

E como se fosse impossível escapar da "metropolização" assistimos atônitos o aumento da violência policial. Vazou um vídeo de uma abordagem policial desnecessariamente agressiva com um cidadão. E em paralelo o meio de comunicação publica imagens de pessoas detidas incitando comentários de ódio e de admiração aos policiais militares nas mídias sociais.

Acontece que não há heróis. Especialmente quando estamos imersos num limbo, que normaliza a violência, o ódio, o medo e as violações. Já sabemos as mazelas das metrópoles, das quais fogem os que aqui vem, em busca de se aproximar do bem viver. A polícia militar brasileira é a que mais mata, e também a que mais morre, inclusive por suicídio, dado o estresse da atividade a condição do trabalho, não há heroísmo nenhum. A lógica militar é criada para ser usada num sistema de guerra, onde há um (suposto) inimigo que deve ser brutalmente eliminado. 

Como é possível que essa seja a melhor lógica para conduzir a educação de crianças? Se sustenta no frágil argumento sobre a "qualidade" das poucas escolas militares que existem. Desconsiderando os INUMERAVEIS modelos de sucesso educacional ao redor do mundo. Existe escola sem aula onde os estudantes são guiados pelo prazer ao conhecimento, e assim desenvolvem coletivamente suas consciências, com respeito e apreço à vida, construindo relações humanas saudáveis e de confiança.

Eu sou filha de militares, e acho fofo, é dizer, eu entendo o orgulho que meus pais sentem em se perceber parte de uma corporação. É o desejo de pertencimento à um coletivo, que irá te amparar, apoiar e compreender, algo que faz sentir orgulho de si. Só que esse "clubinho" boia sobre uma lastimável piscina de sangue. Que sem dúvida alguma não precisa existir e pode muito bem ser evitada com outras políticas.

terça-feira, 14 de junho de 2022

A mulher branca como sustentáculo do sistema de opressão e acumulação

Em um programa de TV chamado “É de casa” a mulher branca entrega um tabuleiro de cocada para única mulher preta do lugar com a ordem “agora você vai servir todo mundo”, senta-se para esperar e após ser servida retribui com um abraço supostamente carinhoso, como reforço positivo. A equipe bolsonarista aposta na bela Michelle como propaganda eleitoral. Enquanto a Faria Lima tenta emplacar a candidatura de Simone Tebet como uma “nova” forma de manter vigente o sistema de acumulação.

As mulheres brancas, usadas como modelo hegemônico de existência, dedicam toda sua libido na manutenção da coesão familiar. Algo que é intrinsecamente prazeroso e instintivo torna-se um papel social limitado e eterno: “mãe”. Esse papel social nos seduz, e nos confunde, porque enquanto seres sociais que somos queremos e precisamos de afeto, carentes de carinho, atenção, alguém que nos veja, que acompanhe a dinâmica da vida, nos sentir parte do bando, buscamos que as crianças tenham referências para além de nós e nossos vícios, para que se constituam adultos capazes de lidar com maiores complexidades. Crendo na impossibilidade de viver momentos de respeitosa intimidade fora de um casamento investimos tudo na coesão familiar, o trabalho passa a ser um apêndice dessa vida, é incrementar renda, trazer assunto, servir de exemplo pra filho, e quem sabe botar respeito. A descrição do perfil de mídia social da já citada pré-candidata neoliberal começa com “Mãe”.

Estamos assim, servindo de sustentáculo à um seleto grupo de capitalistas que acumulam. Dentro desse sistema a família não tem outra função que não essa. Por mais que sejam verdadeiramente constituídas pelo amor recíproco haverá esse pano de fundo. O problema não é a família em si. Vem de dentro do nosso útero esse querer profundo de estar próximo, de gestar, parir e manter uma parceria, se acarinhar, cochichar, admirar e ser admirada, desejada. Mas que dentro dum sistema de opressão há a apropriação desse arranjo, o despojando de sua autenticidade. Tornando o arranjo artificial e protocolar a ponto de sempre haver dúvida. O convívio compulsório deixa de ter base no prazer e se torna coercitivo, é corrompido.

A menor das questões é sexo ou a manutenção ou não do arranjo social em família. Tanto faz se transa ou não, como, com quem, se tem gênero, tanto faz se casou, separou, se tá aberta ou fechada a relação, se ele ficou com outra depois de te jurar amor. Isso pode doer na hora, mas é pequeno, a gente supera. A questão, manas, é atentarmos à não manter e reproduzir os adoecidos valores que sustentam o regime de acumulação capitalista. Sabendo que estamos há séculos sujeitas à um sistema que nos despoja, e que nesse sistema além de espectadora do espectador somos também um sustentáculo em nossas micro-ações, rompamos! Recusamos. Como numa "Grande Recusa".

Atentas à como conduzir nossas relações afetivas, cientes que são relações sociais, para além da nossa satisfação individual imediata e egóica.