sexta-feira, 1 de abril de 2016

O pré-natal pelo SUS de Ilhabela.

Minha menstruação atrasou, no quinto dia passamos na farmácia comprar um exame de urina. Fui por farra, pois tinha cá comigo que sentia até as cólicas. No entanto, o exame deu positivo e eu mergulhei num mundo a parte. Não fiquei exatamente feliz e nem tão pouco frustrada, fui transportada para uma tênue linha entre esses dois estados emocionais. Fiquei lá, de perna bamba e braços estendidos tentando me equilibrar. Em verdade eu estava bem habituada a esse “lugar”, é onde costumava ficar quando o assunto era filhos. Nem queria, nem desqueria.

Na mesma manhã fomos ao postinho. Falei meio desconcertada na recepção que o exame de urina tinha dado positivo. Atualizaram meu cadastro do SUS e já fui encaminhada para o que seria minha primeira consulta pré-natal. A enfermeira atenciosa e um tanto divertida me pediu para fazer outro exame de urina. “É isso mesmo, vc está grávida! Quando foi sua última menstruação?” Devo ter continuado com aquela cara de quem se equilibra num slicke line muito alto, mas acho que ninguém reparou, a conversa seguiu como se estivéssemos tomando um chá discutindo sobre a novela. Fui pesada, mediram a pressão, tomei vacina, encaminharam um pedido de exame de sangue, urina e fezes. Ao final, peguei uma declaração pra levar no trabalho. Quando li na declaração consulta pré-natal senti um nó na garganta, ainda não tinha processado adequadamente essa informação, as pessoas mais queridas não sabiam de nada, mas a chefia já saberia, naquele mesmo dia. Por sorte o drama na minha voz enquanto repeti alto o “pré-natal” não foi ignorado, e a recepcionista fez outra declaração mais discreta.

Pensei algumas vezes, comigo mesma, se deveria mesmo levar aquilo adiante, ainda me equilibrando. Só que esses pensamentos não tiveram espaço, pq meu relacionamento com meu companheiro é tão lindo e tão gostoso. Eu amo ele, e gerar um filho com ele é uma possibilidade divina. Tenho emprego e suporte da família. Porque eu ainda estava pé ante pé, me equilibrando?! Os problemas do mundo, o desejo de não ter nascido, qual o propósito da vida, essas questões paralisam. Foi numa aula de teatro, dentro da ONG Pés no Chão, todos sentados/deitados em roda no chão falando sobre a peça, nesse momento eu acreditei. Olhando aqueles olhos jovens e brilhantes, sentindo a energia dos que fazem algo por gosto, sem visar lucro, dos que riem fácil. Cada um e todos tinham nascido, havia uma mãe que tinha aceitado parir cada um deles. Se não, não haveria teatro, não haveria olhos brilhantes que acreditam na beleza do mundo, cabeças apoiadas nas barrigas, as costas no chão. Certo, aceito e agradeço. Acredito no mundo e no ser humano. Minha decisão foi tomada, eu aceito! Sai da fina linha para explorar o espaço da gestante feliz.

Liguei no RH para perguntar do convênio, não lembro o valor, mas pra quem põe 50% do salário no aluguel, era alto. Além do mais o período de carência para parto é 10 meses. Dado que eu não sou uma baleia, isso significava simplesmente que não iriam cobrir o parto de quem não se planejou. No caso eu. Ah mas quer saber de uma coisa? Quem não quer contribuir com o lucro dessa empresa sou eu. Usufruir desse privilegiosinho, fomentar a desigualdade. E afinal, como funcionária pública que atua dentro de um órgão público eu vejo pessoas que buscam excelência no desempenho de sua função, até mais do que em frias empresas privadas. Além disso, mamíferos dão a luz todos os dias nos recônditos dessa exuberante natureza sem gastar um tostão furado, e nascem filhotes fortes de mães saudáveis.

A próxima consulta foi com a médica. Não foi no postinho, foi na santa casa. Cheguei as oito e meia, uns 15 minutos depois fui pesada, pressão medida. E logo fui atendida. O atendimento foi mais rápido e impessoal do que eu gostaria. Enquanto a médica preenchia minha carterinha de gestante eu bolava algumas perguntas para aproveitar o máximo da oportunidade, questionei se tinha problemas andar de bicicleta ou ser vegetariana, sem problemas, para minha alegria. A resposta foi rápida e curta, sem contato visual, afinal tinham mais umas 10 gestantes esperando fora do consultório. Minha mãe estava comigo e ficou impressionada, gostou do tempo curto de espera, gostou do local e da médica, ela comparou com as consultas caras e particulares da minha irmã em São Paulo e me disse sorrindo, “lá ficamos mais tempo esperando e as consultas não são muito diferentes”. Isso me deixou confiante de minha decisão, e escondi minhas críticas lá no fundo.

A partir daí fomos seguindo um mês com a enfermeira engraçada, um mês com a médica apressada. Senti falta de ser informada, de conversarem comigo olhando nos meus olhos, interessadas pelo que eu teria a dizer ou a ouvir. Nada sobre as fases do desenvolvimento do feto, sobre como eu poderia vir a me sentir, nenhum conselho sobre alimentação ou explicações mais atenciosas sobre minhas dúvidas. Talvez haja um trabalho mais especifico nesse sentido com o grupo de mães, realizado no PEI. É público, mas não fui informada dos horários de reunião “porque você trabalha e não poderia ir”.

Os exames de sangue são feitos num local bastante agradável, por enfermeiras atenciosas, e apesar do número de pessoas assustar a espera é pouca. Outro dia presenciei algo interessante:
- Pra fazer o exame de sangue...?
- Precisa pegar uma senha.
- É particular!
- Precisa pegar uma senha.

Ao ligar na santa casa para agendar uma consulta - porque as agendas do mês são abertas na última semana do mês anterior, então as vezes não conseguia sair de uma consulta com a próxima marcada – me perguntaram algo curioso: “é particular ou convênio?”. Hum, seria o acesso a um atendimento mais atencioso?!

Os exames de ultrassom tiveram variação de tempo para marcar. No morfológico eu quase perdi o período adequado. Que ainda não sei afinal qual diferença desse exame para os outros. A sala do exame é pouco agradável, tem um equipamento enorme ocupando quase a sala toda repousando eternamente sob um lençol branco. O tratamento é bem impessoal, quase 30 gestantes são marcadas para o mesmo horário, e por isso passamos mais de uma hora esperando.

Sobre o parto, aguardemos. A obstetra que é a chefe da maternidade me garante, sempre que eu tento conversar sobre os procedimentos do parto me garante que o hospital trabalha com um atendimento humanizado. “todas as equipes?” “Sim, se não, não é nem contratado”. E exatamente nessa semana a maternidade entrou em reforma. Ainda não entendi bem o propósito dessa ampliação, uma vez que vai continuar com apenas um quarto de parto. Os leitos passarão de 8 pra 11, mas isso eu não sei se faz tanto sentido...


Nesse momento final as consultas passaram a ser exclusivamente com a médica e quinzenais. Acredito que em alguma consulta receberei um atendimento mais atencioso, talvez elucidando detalhes dos procedimentos do parto e do cuidado com o bebê. 

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