segunda-feira, 24 de março de 2014

A formatura em direito

Turma UFPE (Federal de PERNAMBUCO), 2003.
Faz um tempo fui prestigiar uma amiga que terminava seu curso em direito. As formaturas da FURG são realmente espetaculares, como não poderia deixar de ser na Sociedade do Espetáculo. Tudo bem, tudo lindo, é um passo importante, deixemos o espetáculo em paz.

Os discursos eram lindos. Sobre como são colegas e amigos, sobre como importa a felicidade e fazer o que gosta, sobre o investimento do dinheiro público na formação deles e como deveriam contribuir com a sociedade. Tudo muito lindo.

MAS, a observação mais repetida, todos que pegaram no microfone fizeram, as vezes mais de uma vez foi: "Essa é a melhor turma da história da FURG" sim eu também me contorci na cadeira, se prepara pq aí vem a justificativa "foi a maior porcentagem de aprovados na OAB"... Cuma?

Oh yeah, baby, somos amigos e nos amamos, só tenho que dizer, me desculpe seu perdedor, se vc não foi capaz de passar em um exame, eu passei, sou melhor e fui fundamental para marcar nossa turma na história da universidade. Inicia sua carreira com esse fracasso sendo esfregado sete vezes na sua fuça, durante o memorável momento de formatura. E não se esqueça devemos ser felizes, amar ao próximo e trabalhar em prol da sociedade!

Tirando esse lapso discurso/ideologia, endeusar de tal forma um exame... Eu não consigo concordar que quem passou no exame: apto a advogar, competente, bom advogado; quem não passou: inapto, incapaz de exercer a profissão, não aprendeu nada durante o curso, mas depois de pagar novamente e estudar para uma prova aí sim do dia para noite ele se torna capaz. Como pode uma avaliação assim tão importante ser feita por uma prova que gera lucros a uma empresa privada, que não precisa prestar contas.

Sigamos no relato da formatura desse importante curso para sociedade atual. Vocês são livres e devem fazer o que quiserem para serem felizes! Clap, clap, clap. Eu aplaudi emocionada. Agora vamos entregar a bolsa para os melhores alunos. Hein?

Ah é, me lembrei de minha amiga ter comentado porque ela ficava tão furiosa com os colegas que colavam. Os que tem o maior índice ganham uma bolsa para um cursinho para um concurso de um cargo público absurdamente bem remunerado. Essa é a liberdade de ser o que vc quiser ser pois o direito lhe abre um leque de oportunidades (como foi dito no discurso). Mas o que vc pode querer ser se todos aplaudem o grande campeão que vai ter a chance de tentar ganhar o mais alto salário da categoria?

Eu senti vontade de chorar. Pra mim nada disso faz o menor sentido. Salários exorbitantemente altos, isso afasta ainda mais (quem sempre esteve afastado) dos necessitados. E mascara o concurso público, todos podem, mas uns podem mais, uma vez que pagaram 5 mil por mês num cursinho preparatório, para o qual puderam se dedicar exclusivamente. E isso é o que vc tem que querer e o que aplaudimos feito macacos, repita o mantra "dinheiro", "status", "poder", enquanto claro, fala exatamente o oposto... Ninguém é premiado por participação na transformação social.

Não preciso dizer que no palco só haviam brancos com traços e sobrenomes europeus, preciso? Se na turma de Pernambuco é isso que vemos imagina no RS, eitcha, mas lhe digo se tem algo que ofende mais os gaúchos do que chamar sua piucha de fantasia é dar a entender a algum negro politizado que não existem negros no rio grande do sul. Eu cheguei bem perto de sentir meu pescoço ser esgoelado ao fazer isso uma vez. Aprendi bem, a invisibilidade é uma das formas mais cruéis de preconceito, os negros são sistematicamente varridos para baixo do tapete em profissões de pouco destaque, onde possamos seguir nossos dias desconhecendo sua existência. E o colega branco, classe média (ou média alta nessa nova classificação doida) ,descendente de europeus do meu lab insiste na máxima "no Brasil não tem negros". Depois de sentir desejo de gritar, trazer argumentos (De acordo com os relatórios da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), existem mais de 91 milhões de negros/pardos  no Brasil. Com isso, entende-se a porcentagem de negros no Brasil em mais de 50% - fonte) e sugerir documentários, internalizei que na verdade nesse caso isso não era um argumento, mas um teste de paciência. Quando é dito novamente algo do tipo abro um sorriso de miss, cara de paisagem, faço que sim com a cabeça, ouço durante 20 segundos (contados), e me volto para o computador.

Bem, passado o momento do espetáculo. Consegui garimpar uns momentos bonitos nos discursos para elogiar de modo simpático durante a comemoração. E lá fomos nós. Depois do jantar no momento dos doces, novos discursos, dessa vez vindos da família. A palavra-chave foi... "topo". Quando apontavam para cima eu buscava o que o dedo estaria destacando mas só via teto e lâmpada. "Quando você estiver no topo" "quando chegar ao topo" "não se esqueça de nós quando estiver lá encima"... e a coisa continuava.

Rumo ao "topo" misterioso.
Minha amiga linda em seu penteado e maquiagem especiais sorria sem saber muito o que dizer para não soar prepotente. Eu só conseguia ver um jovem assustada, recém formada atualmente desempregada, sem aval da venerável OAB, sendo esmagada por um monte de expectativas desconexas e sem base, que incluíam o cume de uma montanha isolada, com gelo e nuvens, representando altos cargos repleto de status e salários exorbitantes tão ou mais inalcançáveis quanto o cume da montanha. Expectativas baseadas no senso comum, na lógica "do que se deve querer", sem diálogo, sem espaço para outros quereres. Essa lógica mordaz faz com que qualquer outro topo que não envolva salário de 5 dígitos, poder e prestígio se torne um vergonhoso fracasso, e seu alpinista um pária social em potencial.

Para salvar a seção discursos meu amigo, e noivo da formanda fez questão de se levantar e dizer, em suma, que estava muito orgulhoso dela e independente do que ela decidisse fazer daria apoio total. Quando tive a oportunidade comentei com eles, que bom, gostei do que vc falou, tava muita pressão essa história de "topo", para minha surpresa ele pareceu preocupado "não era esse meu objetivo, eu não queria soar grosseiro, pareceu grosseiro?". Tranquilizado o amigo, sorri para ela e tentei desconstruir a imagem do assombroso "topo", o topo seria sua felicidade e auto-realização. Não sei se minha intervenção foi positiva ou se soei meio babaca, pois não ter como objetivo principal aumentar o salário faz de mim alguém bastante diferente de todos os seres humanos.

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