segunda-feira, 3 de março de 2014

Ecologia da evolução de mim mesma e como fiz as pazes comigo

Tenho repetido e me convencido da certeza absoluta de que esses anos de mestrado me transformaram, total, profunda e radicalmente!

De fato, foram leituras, aulas e trabalhos intensos, conceitos novos, e para mim uma forma de ver a história totalmente nova. Bem, sabe, meus pais sentem falta dos belos tempos da ditadura, e com muito custo me mantiveram num dos colégios mais caros da cidade, desenhado para atender as demandas da elite local. E eu sentia que não me encaixava muito bem aí. Mas, não identificava exatamente o que tanto me incomodava. Passei a ser crítica das aparências e ter asco de patricinhas, enquanto ao mesmo tempo internalizava conceitos trôpegos de que "ser contra o sistema" é coisa de idiota que busca uma desculpa para justificar sua vadiagem, que a dignidade do ser humano está no quanto este trabalha (e trabalho aqui no sentido de atividade profissional remunerada), que o objetivo máximo é acumular bens, que a pobreza existe devido a malevolência de pessoas irresponsáveis, acomodadas, ingratas e aproveitadoras por aí a fora.

Assim, quando me apresentaram algumas leituras sociais fiquei maravilhada, textos tão lindos e tão revoltantes desnudavam uma injustiça histórica, na qual eu meio sem certeza me posicionava do lado do opressor ou de modo míope e parcial do lado do oprimido, mas sem fundamento e sem que a decisão fosse realmente minha. Bem, não foi só isso que me levou a uma mudança de paradigma. Mas, o fato é que essa que eu percebia como uma "nova Keith" (pós mestrado) passou a sentir pela "Keith antiga", e vez por outra eu pensava nas conversas que não tive, nas pessoas de quem não me aproximei, e nas que posso ter influenciado, nos opressores que defendi, nas opressões que incitei e participei (ainda que no discurso da opinião leviana). Eu também lembrava de mim com momentos intensos e profundos de melancolia, ousaria dizer depressão, o que agora julgo ser devido a contradição de ter a ideia de um bem espiritual em conflito com o social, do tipo: "ame seu próximo como a ti mesmo" vs "bandido bom é bandido morto".

Na semana retrasada, passei por uma "intervenção" na FURG, era da matéria de "arqueologia do capitalismo". Foi uma vivência muito intensa. Inicialmente se escolhia um nome aleatoriamente numa caixinha, a menina me disse:
- Vc vai ter que achar essa pessoa.
Eu sorri extremamente empolgada com o jogo, fiz comentários de alegria e a menina séria não deu muita trela e se afastou.
A primeira salinha estava forrada de saco de lixo preto, era escura, abafada com cheiro de polietileno (sei lá), com uma voz narrando seus momentos de tortura, uma tv com imagens preto e branco, fiquei com medo de ver alguma cena forte, olhei furtivamente para tela, enquanto tentava entender o que estava acontecendo, eram exibidas imagens dos locais de tortura, vazios. Incomodada, preferi não procurar o rapaz do papel por lá. Eu me senti mesmo com medo, não sei dizer exatamente, tive medo de ter que ficar mais tempo naquele lugar horrível. Saí rápido.
Logo na outra sala havia um projetor, com fotos, nome, idade, ocupação e data de desaparecimento, graças a ditadura militar. Meu medo, que era um embrulho no estomago virou um nó na garganta. Me obriguei a esperar pela foto do rapaz. Estudante, 32 anos. Senti um pouco de raiva por terem me envolvido em algo que eu nunca quis de verdade saber. Depois lembrei do black bloc e de como eu gostaria de estar nas manifestações de rua hoje, e como de alguma forma eu estava naquela época e naquele  papel poderia estar o meu nome. E então senti uma afinidade com os jovens das fotos projetadas.
Na próxima sala era um quarto vazio, arrumadinho com livros e máquina de escrever. Nesse momento senti vergonha de todas as vezes que pensei e falei algo pró-ditadura, mesmo por ter sido desinformada, sob influência. Senti culpa. E mais uma vez, culpei uma "Keith antiga", que me defendi para mim mesma, "não existe mais".

Até que esse fim de semana, terminei meu segundo diário! Desde 2007 tenho escrito com certa constância. E nesse processo emocionante de troca de diário acabei juntando coragem e dando uma lida no início do primeiro. Tive um pouco de medo de quem eu veria naquelas páginas, mas me entreguei a essa leitura.

O que notei é que em realidade não se tratava de uma completa imbecil. E fiquei bastante surpresa em ler constatações que me impressionaram, com a consonância com a posição que assumo hoje. Digamos que tratava-se de uma anarquista em potencial. As leituras indicadas no mestrado me salvaram de um ciclo vicioso, elevaram meu patamar de discussão, me dotaram de argumentos, mas de algum modo eu já estava nesse caminho. Só estava um pouco embolada em um labirinto, dando voltas na montanha sem mudar de altitude.

Parece tudo cada vez mais dinâmico, e já sinto como se estivesse completando mais uma volta, nessa mesma altura, me adaptado ao novo angulo de visão, e começo a me aborrecer com a monotonia da paisagem. Mas, onde estará a trilha para subir mais um pouquinho? Talvez esteja eu apressada demais.

Enfim, deixando minha filosofia barata um pouco mais palpável, apesar de eu ter consciência de estar me sentindo mais livre, plena e feliz agora eu não era totalmente desprezível, "antes". E descrevo no diários dias bastante agradáveis, e sentimentos bastante puros e justos! Claro que eu controlo e manipulo o que escrever no diário, e ideias suicidas (que penso em juntar "material" para um post exclusivo) costumavam ser calculadamente escondidas, bem como alguns julgamentos alheios mais "cruéis". Mas, o fato é que estou em processo de me entender mais que me julgar, e fazer as pazes comigo mesma.

 Decidi me "expor" dessa forma, principalmente porque reparei essa situação num querido amigo. Que mudou fisicamente, e vive repetindo como ele era isso e aquilo. Eu concordava e ajudava na tiração de sarro (alias tirar sarro por muito tempo foi um inconveniente hobbie meu). Mas, depois de me dar conta de que na verdade ele era o que deu base para ele ser, mudei meu discurso, ainda sem saber muito o que dizer, comentei:
- ah, vamos lá não era tão ruim assim...
foi um comentário perdido, na roda de amigos, dentre tantos consensuais que não deixaram de apontar, com um certo prazer, as "falhas" do "antigo" amigo. Ainda vou melhorar esse discurso e na próxima oportunidade convencê-lo, e a mim mesma, de que somos um e nosso passado integra o que somos no presente, ainda temos o que aprimorar, e julgar e "xingar" nosso suposto passado pode nos fazer temer a implacabilidade do julgamento do eu futuro. E principalmente, essa evolução linear é ilusória, nosso aprimoramento é bem mais complexo, e o eu antigo alcançava reflexões que superam as do eu atual e futuro, ele vive em nós, apenas selecionamos quais partes dele gostaríamos de carregar, e paulatinamente abandonamos as que julgamos não nos servir!

Seria uma seleção natural de qualidades minuciosamente identificadas no eu atual, somada a identificação de características consideradas por eu mesma desagradáveis e o trabalho diário (esse sim referente a "cuidado ou esmero empregado na feitura de uma obra") do cultivo das qualidades somadas ao contorno das características desagradáveis. Informação e experiências auxiliam na identificação e seleção do que cultivar e o que polir! Como o que a "Natureza" faz com a Vida, selecionando, adaptando, excluindo, criando, buscando a complexidade. E nesse caso, sustento que (como comigo), a evolução não teria sido oriunda de mutações ao acaso jogadas a esmo e que teriam repercussão dependendo unicamente do sucesso reprodutivo, mas orientada pela seleção rigorosa de um Inteligência que direciona os sistemas à complexidade.

Tal configuração complexa teria permitido a manifestação da consciência e alguns teorizam que


uma das vantagens evolutivas conferidas a nós pela consciência é a flexibilidade, sensibilidade e criatividade(Searle)

sendo nossa evolução um caminhar ao aperfeiçoamento dessas três características. Isso corrobora a sensação que tenho de ter evoluído especialmente nos últimos dois anos, pois foi o período em que assisti um aprimoramento substancial na minha flexibilidade, sensibilidade (em especial) e criatividade (essa última menos intensa).

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