terça-feira, 2 de dezembro de 2014

A vida e as coisas.

Quanto menos assisto televisão menos capaz de assisti-la me torno. E isso seria um motivo de orgulho se conseguisse transpor os momentos sociais em que todos olham para TV. Não consigo. Então fico no meio das pessoas tentando me passar por torta frita. O bom do locus social que me encontro é que o sofá é confortável, a sala tem ar condicionado, a refeição é farta, o ruim é que parece que nada do que penso e sinto faz sentido. Muito embora cada vez me torno mais convicta da  minha coerência.

Por alguma razão a rede globo resolveu pregar acerca da depredação dos ônibus. Seria tudo bem se a matéria do fantástico não começasse com dois adolescentes assassinados por policiais durante um baile funk (possivelmente único momento de lazer de jovens da periferia). E então o repórter me diz em tom de horror "jovens queimaram um ônibus, porque acreditam que policiais tenham matado dois traficantes". Bem, que tenham sido assassinados por policiais, isso é uma suspeita, mas que eram traficantes não resta dúvida. O julgamento já foi feito, várias vezes embora nenhum juiz tenha participado. Foram julgados e condenados a pena de morte executada de imediato sem advogado de defesa, pelos policiais. E novamente julgados pelo repórter.

Mas, ao que parece esse não é o problema! O problema, e o drama todo reside no ônibus queimado. Sim, caros amigos, o ônibus. Essa é a vítima principal da ocorrência, o foco de nossa atenção e compaixão, o motivo de nossa revolta, nós membros da classe média.

Ainda estou um tanto incomodada com essa reportagem, e olha que faz semanas. Imaginem que entrevistaram uma funcionária da empresa de ônibus. E ela disse o valor do ônibus. Pois, uma informação séria tem que ter números. E eu não me lembro o valor porque estava pensando "Por que o senhor atirou em mim?". Imagens de horror de um ônibus vazio vagando pela noite eram exibidas, enquanto o motorista narrava o medo que sente de ser abordado. Outra voz disse que estava num ônibus que foi queimado "Eles mandaram a gente sair - desce, desce". Outro número foi exibido, que também não tenho certeza, mas acredito que era algo como: desde o início do ano 45 ônibus foram queimados. Nessa hora meu estomago embrulhou e calculei que seriam 90 assassinados nas periferias da cidade, 3 salas de aula inteiras. Se extrapolarmos o caso narrado para os demais.

Desses jovens nenhum tem nome. Nenhum tem mãe sendo entrevistada. Nenhum tem voz. Possivelmente não saberíamos de suas mortes, não haveria notícia se não fosse pelo pobre e querido ônibus queimado. A preocupação é com o patrimônio. O ônibus de 3 reais a passagem. A coisa que atropela a vida até no lúdico, na narrativa.

A colega do meu lado, confortavelmente deitada em seu sofá, fica assustada. "nossa, que absurdo, depois reclamam do preço da passagem". Meu coração bate forte, como falar sem gritar sacudindo-a pelos braços? "dois adolescentes foram assassinados" e vem a resposta 'eram traficantes' como se isso justificasse. Como se fosse legítimo assassinar todo e qualquer suspeito de tráfico que more na periferia. O coração continua batendo forte, meu inconformismo dificulta meu raciocínio, sinto o namorado me cutucar, de novo, cada vez mais forte. Devo me calar? Não posso, parece que seria trair a mim mesma, parece o mínimo que posso fazer por toda injustiça é me posicionar numa conversa informal. Na dúvida me permito um último e fugaz argumento, digo então rapidamente: "esse não é o papel da polícia". E então volto a posição torta frita, ignorando todo o resto, olhos parados fingindo ver tv, por dentro um turbilhão.

Estou condicionada, depois de 28 anos adestrada, a colocar o individual acima do coletivo. - Eu não mereço ser estuprada! E as outras? - Me incomoda sobremaneira o cutucão, esqueço dos jovens na periferia. Nas conversas individuais com o namorado sempre concordamos com o absurdo da injusta luta de classe, mas num momento como esse ele me cutuca, me oprime, me abandona, controla o que posso ou não dizer? Não confia que eu consigo conversar sem destruir vínculos familiares? Eu consigo? E de modo covarde, que dissesse "bem tenho uma opinião sobre isso, mas o mais adequado seria cada um guardar sua opinião para si", ai então também seria julgado.

Característico de mim mesma rumino, rumino, e rumino sobre isso. Controle. Não quero que ele me controle, mas isso não seria controla-lo? Proibi-lo de me cutucar: uma advertência agora, dá próxima é suspensão. Não. Só posso controlar a mim mesma, o que sinto e faço com o que me afeta. Não existe a menor possibilidade de controlar ao próximo, não quero isso, sou incapaz disso. Gostaria de não receber um discreto 'fica quieta' de quem gostaria de receber explicito apoio. Mas, a verdade é que acima de tudo não quero que ninguém me obedeça, que seja menos livre só para me satisfazer. Só cabe a mim decidir o que fazer com as próximas cutucadas. E decido que irei ignorar, não é bem um 'foda-se' é mais como um 'puxa, seja lá o que eu quiser dizer preciso moderar o tom para que ninguém se ofenda', e então seguir dizendo. Afinal, foi uma luta muito grande para que as mulheres tivessem voz, e me calar seria uma verdadeira traição.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

A Maconha e os valores burgueses

Estamos no ano de 2014, quase 2015. Existe uma espécie vegetal proibida nascer. Existem masmorras onde pessoas se acumulam sem dignidade pelo fato de ter tido alguma relação com a planta proibida. Existem pessoas sofrendo por diversas doenças, que poderiam ter seu sofrimento amenizado, mas são proibidas, são obrigadas a sofrer. Existem cultos religiosos que não podem ser executados. E uma atividade da muito socializadora é criminalizada.

Está em trâmite um projeto de legalização da maconha. Mas, a resistência do conservadorismo brasileiro é grande.

Eu tenho inúmeras teorias conspiratórias para proibição da maconha, além da mais conhecida (que nem é mais teoria, é realidades estatística), que seria a discriminação social, racial, uma vez que não existe bota na porta e policial de fuzil invadindo casa de classe média. Penso, é inegável que com seu consumo há uma expansão da consciência, tendência de socialização, troca de ideias, afloração de sentimentos, satisfação interna que diminui a necessidade do consumo - algo inaceitável na sociedade calcada no produtivismo. Mas, isso é uma impressão muito pessoal e pontual. Não é pauta aberta em debate "legalizem a maconha para que possamos nos satisfazer mais e consumir menos" ou "não podemos legalizar, pois se legalizarmos a maconha as pessoas deixaram de consumir e haverá um colapso econômico". Logo esse argumento teoricamente não existe e é coisa da minha cabeça. Então passaremos para argumentos mais presentes e sólidos: os valores burgueses.

A responsabilidade burguesa consiste em trabalhar muito e ascender economicamente, não pensar em relações extraconjugais e educar os filhos para obedecerem essa mesma linha de comportamento. Essa moral envolve também obedecer as leis, embora burlar impostos não seja tão grave assim. É comum que pessoas que consomem maconha se desvirtuem desse roteiro. Tendem a não sacrossantificar o trabalho nem o matrimonio. Ponho então duas questões, que na verdade são uma só:

Será que consumir maconha faz com que a pessoa não se prenda aos valores burgueses?

Nesse caso, a bancada evangélica age de modo coerente ao abominar a legalização! Sim, porque eles temem que essa seja a responsável pela "desvirtuação" da moral humana. E que os valores burgueses são absolutamente bons, e se desvirtuar deles é absolutamente ruim. Isso deve ser mesmo muito inquietante. Eles então estariam tentando salvar as pessoas desse desvio.

Ou

Será que a pessoa por não se prender aos valores burgueses não encontra problemas em consumir maconha?

Esse modo de pensar a questão tira a responsabilidade da maconha e passa ao indivíduo o poder de discernimento. O qual opta por ter uma experiência, uma sensação psíquica independente do terrorismo que existe sobre isso. O incomodo aqui é que traz o seguinte ponto: nesse caso os valores burgueses são passíveis de serem questionados. E assumir isso põe em "risco" todos os outros valores.

Um dia uma amiga me disse "é difícil ser mãe, esse mundo tá todo errado". Achei um pouco dramático o comentário, mas tive que concordar, o que eu não sabia era o que a levava a pensar assim. Mas, para minha infelicidade ela completou: "tem casal morando junto sem casar, tá cheio de gay, é muita droga solta por aí..."

É interessante pq se concordei que o mundo tá errado é justamente pelo contrário. Pelo fato de o juiz ou o padre ter que autorizar a manifestação do amor - o que anda meio em baixa, eba. É ruim ter gente que busca controlar a vida sexual alheia, e plantas proibidas de existir.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014


Mutacio kaj Libereco
Beleza
Exploração e exclusão
Diversão
Opressão
Inveja e admiração
Ostentação
Tedioso
Inspirador e emocionante
Maldade e violência
Injustiça e rebeldia
Era esforçada e dedicada
Alienada...

terça-feira, 21 de outubro de 2014

E se o PT tiver meta e estratégia?

Me posicionava absolutamente contra o PT, dizendo o que todos dizem, que são corruptos, direita enrustida, e por aí a fora. É que idealizo uma sociedade anarquista, sem Estado, principalmente sem apropriação dos recursos e meios de produção, com núcleos de autogestão. Amo essa ideologia, e sim acredito ser possível e viável, pois baseada no único ser humano que conheço internamente considero a natureza humana boa =)

Muito bem. Acontece que por acaso estou tendo que ler mais do que filósofos, e teóricos. Estou estudando de cabo a rabo a Assistência Social brasileira. Tive que me despedir da minha ignorância e reconhecer que assistência social não é esmola, não é compra de votos, não é sustento de vagabundo. É, ou intenta ser, um conjunto de ações com o objetivo de garantir os direitos constitutivos de todo cidadão. Temo que se a direita for coerente e fiel a sua ideologia as questões sociais terão peso ínfimo no governo tucano. Fornecer segurança social depende de uma gama enorme de profissionais, de infraestrutura, pois um programa sério necessita (como está previsto na política nacional da assistência social) constante pesquisa, informação, monitoramento, capacitação de profissionais, elaboração de aplicativos para integrar e disponibilizar informação, métodos de garantia da transparência e etc. O que me faz pensar ser coerente, justa e necessária (dado o modelo atual de sociedade) um Ministério do Desenvolvimento Social e Combate a Fome.

Para toda essa política funcionar necessita-se de dinheiro, que obviamente vem dos impostos. Uma vez que todos que vivem nos limites territoriais estão sob a mesma constituição temos que ter em mente que para garantir os direitos previstos naquele textinho de 1988 precisamos de dinheiro. Pois o textinho, que nos rege a todos, não diz: terão direito a saúde, educação, dignidade os que puderem pagar, os que não podem azar, mudem-se à Cuba, e acima de tudo não se reproduzam. O discurso hegemônico que demoniza a quantidade de imposto deve ser visto com cautela, muita cautela.

Mas o ponto que eu realmente queria chegar, o que me fez vir até "aqui" é o seguinte. A principal crítica que eu tenho ao PT, e que fazia com que me mantivesse fiel a minha ideologia anarquista e mandasse as eleições ao carajo é que nesses 12 anos de governo o PT foi muito suave e benevolente com o "grande capital", foi companheiro do "poder hegemônico".

Não sei se comentei em outro post. Com o auxilio de uma socióloga maravilhosa identifiquei que a situação que levou à Revolução Francesa e outras, não poderia ser fome e miséria, como em algum ponto da minha catequização direitosa fui levada a crer. Pois justamente que quem está a morrer de fome pouco quer e nada pode discutir de política. É necessário um mínimo de segurança e estabilidade para se pensar além de suas necessidades pessoais básicas. Será que o levante de julho não é em grande parte devido aos programas sociais (por favor, antes de criticar um programa ou projeto social leia ele, e veja em sua cidade um efeito real dele)? Não houve um avanço nas questões LGBT, feminismo, e racismo? A mim parece claro que sim, vejo negros na universidade, um espaço historicamente branco, vejo casais homoafetivos legitimando sua relação, vejo a criminalização da violência doméstica.

Contudo, tenho total consciência, e gostaria muito que nesse momento você estivesse me xingando com o seguinte argumento: é justo precisarmos de programas sociais, de leis para defender os que não tem poder politico-economico? Com o desenho atual da sociedade, esses programas e leis são um remédio que aplacam um sintoma mas não tem poder de atacar a causa. Sim! A causa estaria ligada a desigual distribuição de recursos, a detenção do meio de produção, que gera uma hierarquia primária.

Governos anteriores, recentes, quiseram ir por si diretamente na causa. Jango já tinha estruturada e aprovada diversas reformas estruturais, ele tinha enorme apoio do povo, o poder hegemônico se fez mais ostensivo para apagar qualquer possível ameaça, e recebemos o golpe militar que fez o favor de estripar a qualidade do ensino público (e assim, eu particularmente não sou reformista e defendo uma sociedade sem escola, como disse é o meu mais alto ideal anárquico, mas dada a atual situação defendo que se é pra ser uma vida com base no dinheiro advindo da educação formal que tenham todos acesso ao ensino de qualidade), e enfim, fez aquelas grandes maravilhas que nós sabemos.
Um outro exemplo, próximo temporal e espacialmente foi o de Salvador Allende no Chile, que foi ainda mais longe, ele, caros amigos, chegou a nacionalizar as minas de cobre, reativar e nacionalizar industrias paradas, nacionaliza bancos. Em seus 3 anos de governo o Estado chega a controlar 60% da economia, se isso poderia ser bom ou ruim não dá pra saber pois, apesar de agir em absoluta conformidade com as leis do país, e ter o apoio de grande parte da população mesmo com os cruéis e desumanos boicotes e sabotagens, não apenas dos EUA como da elite chilena (que não tava assim feliz de perder seus privilégios de lucrar sozinha com minas de cobre e propriedade de terras). A brincadeira termina com armamentos pesados, banho de sangue, e volta a "ordem" em conformidade com o poder hegemônico.

O que eu quero dizer é que, enquanto libertária eu não quero votar. Mas que não tenho a menor ideia de como superar o modelo social vigente, baseado na escassez e exploração, que alimenta as piores injustiças e esta detonando com o planeta (e a possibilidade de vida fora do capital, ninguém vive sem água, e só tem na prateleira do mercado). E que, sendo de extrema esquerda, antes o rosa do que o violeta, me agarro na esperança de que em verdade o PT saiba que a qualquer ameaça mais visível corremos o risco de a opressão se tornar mais ostensiva. E então, agindo dentro dos limites, trata de dar suporte para que o povo promova a revolução suave e pacífica rumo a sociedade verdadeiramente justa, que pretendia Allende de dentro do Estado.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Cansado do PT? Porque?

Tenho o privilégio de fazer parte desse microuniverso chamado classe média branca. É um enorme e infeliz privilégio por várias razões: a mídia não me estereotipa de bandida, subalterna, horrorosa e ignorante. Não tenho medo de ter a casa invadida, o pai sequestrado pelo Estado. Me sinto pertencente a locais públicos, como universidade, shoppings etc.

Por outro lado, viver nesse universo me deixa cara a cara com opiniões e posições um tanto desconfortáveis. Agora em época de eleição a ignorância política/social de nossa classe fervilha. Eu me incluo nessa ignorância toda, pois seja por desinteresse, seja por incapacidade cognitiva não sei nada de política partidária. O que para mim tá tudo certo, uma vez que me assumi como anarquista e no fatídico domingo de eleições pretendo ir a praia, nem votar, nem anular, nem justificar. Me sinto a vontade com essa decisão porque não acredito no sistema eleitoral, sinceramente, você pesquisou todos os candidatos e propostas? De todos os cargos? E sabe qual é a função de cada um desses cargos, e acompanhará o desempenho de cada candidato eleito? E sente-se representada por tal criatura? Acho que pode ser que sim! Ótimo, mas o que tenho escutado me deixa confusa e chateada.

O maior argumento da classe média que vem falar de política comigo é que não vai votar na Dilma porque ninguém aguenta mais o PT! Cuma? Simples assim, saiu de moda, ficou cafona. A cada estação muda-se a estampa na vitrine do shopping, a cada eleição deve-se renovar o presidente! Tá mas você viu que bem ou mal houve enorme progresso na qualidade de vida da população carente, Planos e Políticas para adolescentes em risco social e pessoal, aprimoramento na Lei de Assistência Social, e essas coisas?

Acho que no auge do choramingo "classe média sofre" talvez seja justamente por isso que PT "saiu de moda". E aí vem a proposta da nova política.

E eu fico realmente confusa. Que inovação toda essa gente quer?! Aqui eu meio que me identifico, porque também quero revolução. "Eu, candidato pretendo romper com valores capitalistas, e acabar com toda e qualquer hierarquia. Ao longo do meu governo buscarei empoderar as pessoas de modo que a massa se desfaça em seres apropriados de si, que pensam de modo crítico. E juntos diminuiremos os poderes de bancos, empreiteiras, montadoras e demais multinacionais monopolizadoras." Mas, sinceramente, acho bem difícil que seja essa a inovação buscada por quem está "cansado do PT".

Acho que no auge de sua ignorância sociológica, de direitos humanos, despidos dos valores de Igualdade, Liberdade e Fraternidade, no topo de seu interesse mesquinho pela busca incessante de mais conforto, poder de compra e satisfação de prazeres sociais, de ampliar sua rede de servos, eles querem uma mudança chamada austeridade e retrocesso. Deus abençoe suas incapacidades de articulação, amém.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Os biscoitos

Me lembro quando minha concepção de mundo começou a mudar radicalmente. Era fim de outubro, me lembro porque usava meu iPad novo, que tinha ganho no dia das crianças. Eu estava deitada na cama, minha mãe bateu e entrou. Continuei concentrada na minha TL. Ela sentou-se na cadeira, possivelmente olhando para mim, aquela sensação incomoda de ter alguém te olhando.
- O que você quer, mãe? - perguntei sem tirar os olhos do iPad.
- Bem, é meu domingo de folga, o dia está bom, acho que a gente pode dar uma volta pela orla.
Exercendo meu papel de adolescente, demonstrei meu desagrado com a ideia bufando alto.
- Vai, vamos lá, quero conversar com você. E deixa esse troço ai.
Me calcei e saímos. O sol brilhava e o vento soprava moderadamente de nordeste. Caminhamos um pouco pela Henrique Pancada e nos sentamos em um banco voltado para lagoa.
- Você sabe que sua avó se matou, né?
- Aham... Eu fui no enterro – falei com tom de “é óbvio que sim”.
- Pois é. – pausa – no dia do velório seu avô me falou que eles sempre tiveram uma vida tão dura – ela foi dar um sorriso, mas acabou saindo um soluço e lágrimas começaram a se formar em seus olhos. Eu começava a me sentir muito desconfortável, e preferia estar trancada no meu quarto, com a simplicidade de meu iPad, sem lágrimas nem sentimentos alheios.
Sem saber o que fazer nem o que dizer, fiquei esperando que ela continuasse.
Link da imagem
- Eu nunca soube! Quer dizer, eu sabia que não podíamos comprar muitas coisas e que eu era a única aluna da turma que não tinha sapato, mas eu nunca desconfiei que a nossa vida era dura. Minha mãe assava biscoitos com sorrisos, ela inventava mil e uma brincadeiras comigo, nós dançávamos, eu pescava com meu pai, todo fim de aula no verão pulava na lagoa com os amigos. Eu me sentia tão feliz, amada, completa. Nunca desconfiei. Sabe, Rita, quando me mudei para Porto não foi fácil. Trabalhar e fazer a faculdade, ter que escolher entre o almoço ou o aluguel. Realmente não é uma vida feliz, como aquela que minha mãe se esforçava para me dar apesar de suas preocupações internas tão cruéis. Meu pai disse que eles constantemente eram ameaçados de despejo. Que se não fossem as galinhas, a doação do leite da nossa vizinha Nini não teríamos o que comer. Os pescados de meu pai mal davam para manter a casa – ela ergueu seu olhar, mirando o horizonte – Eu só queria ter dito a ela que minha infância foi deliciosamente feliz.
- Mãe, isso não teria mudado as coisas. Não foi culpa sua!
- Rita, tenho te fornecido tudo para facilitar sua vida. Quero que seu ingresso na vida adulta seja sem nenhuma privação. Mas, desdaquele dia, que seu vô me falou aquilo, eu fiquei pensando, será que eu tenho te passado a felicidade, a despreocupação e o amor que eu vivenciei na minha infância? Eu nem te conheço. Fui tão ausente na tua infância, sem biscoitos contentes... – conseguimos rir da entonação de importância que ela deu aos biscoitos. Foi um riso triste, mas cheio de cumplicidade. Um riso meio desesperado que se transformou num choro soluçante. Juntas, abraçadas, choramos nossa tristeza, nossa desgraça, nossos pesares e a saudade de nós mesmas.
Link da foto
Não falamos muito depois desse momento. Nos acalmamos aos poucos, assistimos ao por do sol. E voltamos caminhando. Tentamos fingir que nada havia acontecido, eu seguia interpretando meu papel de adolescente entediada. Mas, todo domingo de folga dela assávamos biscoitos em dia frio, íamos ao Cassino em dias quentes, ou caminhávamos juntas, visitávamos meu avô.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

O direito de matar

Eis que me deparo com esse inquietante post:
Pensei, curti, descurti, naveguei um pouco, voltei e curti, aí eu descurti, aí eu passei um tempão pensando nisso, no que eu tinha sentido, o que eu realmente pensava.

Sou vegetariana, simpática ao veganismo. Mas, evito o máximo possível doutrinar os outros. As vezes não resisto de me expressar, esses dias a irmã de uma amiga disse (sem muita convicção) que tinha parado de comer carne, não resisti em expressar meu apoio "isso ai, bate aqui". De todo modo, essa é uma conversa que eu evito iniciar e me policio em participar. Pq é chato ter alguém palpitando em algo tão individual, como o que se come. É como o sermão do cigarro. A plantação de tabaco é uma monocultura, expulsa o camponês, altamente tóxica, usa e abusa de subemprego, adiciona-se um monte de veneno e causa um monte de doença, fede, a bituca fica pela rua etc. Mas, parar de fumar é uma decisão que só cabe ao fumante. Ainda que a monocultura de fumo afete a todas as espécies. Então, mesmo que se tenha o direito de fumar, existe a necessidade do debate sobre isso.

O que me incomodou no post, que não consegui curtir foi a comparação escravos/judeus/mulheres/animais. Faz pouco tempo que resolvi parar de comparar a humanidade a animais, sério eu tinha esse hábito de sempre que tinha alguma dúvida pegar um exemplo animal. Cuidado parental, por exemplo. Porque romanticamente eles parecem estar mais "conectados a sábia mãe natureza". E então, animais vivem livres, as aves são admiravelmente anarquistas, ai como os admiro. Só que de algum modo existe uma diferença crucial entre os animais em geral e animais humanos. A consciência de si (tenha sido isso uma evolução ou um erro), o uso da escrita, a busca eterna por conforto, sei lá, algo nos distingue. E mesmo que possamos aprender muito com os mais diversos e admiráveis animais, ainda é ofensivo chamar um ser humano de macaco. Comparar os grupos humanos historicamente inferiorizados com animais foi uma estratégia um tanto infeliz.

Outra ideia implícita que me impediu de curtir foi uma sugestão de linearidade e evolução da luta. Do tipo: conseguimos a libertação dos escravos, salvamos os judeus, e as mulheres tem uma delegacia especifica, agora no nosso mundo cor de rosa podemos nos ater as vaquinhas. Bem, dizer que superamos a escravidão é muito ingênuo, ainda existem relações de trabalho claramente escravagistas e outras não tão claras pelo simples fato de não haver uma prisão física, mas muita gente, em sua maioria negros, trabalham de manhã para comer a noite. Ainda existe perseguição religiosa e mulheres sofrem muita violência, não só física.

Agora, porque depois de descurtir eu tornava a curtir? Para mim é inegável que alguém se apegar ao seu hábito de comer carne a ponto de usar um argumento desse para não se questionar, soa como nos demais exemplos. Sou dono da fazenda e escravos são ótimos para mim, não quero me questionar, não quero mudar, só quero progredir e ser bem sucedido. Gosto de churrasco, e pensar no modo de produção, no impacto socioambiental e no sofrimento animal não me gera vantagens nem lucro, não quero mudar, fim de papo. Eu to bem assim e o resto que se lasque. Não tem uma semelhançazinha fascista pró satus quo, individualista e prepotente?

sábado, 30 de agosto de 2014

Cachoeira Proibida

Todo dezembro a família se reunia na casa da vó, interior de Minas. Com minha prima a relação era mais próxima. Mal nos víamos e eu já me colava a ela. Ficávamos pelo quintal ou pela rua, só entrávamos em casa para comer e dormir. E tomar banho quando alguém se dava conta de nos forçar.

Fonte: clica aqui.
Minha prima tinha o corpo pequeno, no entanto a coragem e a audácia eram grandes. Falava o que pensava, tanto fosse pra uma criança ou adulto. Naquele dia saímos cedo. “Vamos ver onde é a cachoeira que você encontrou na internet.” Ela me disse decidida enquanto calçava um sapato fechado no lugar dos habituais chinelos de dedo. Fiz o mesmo.
Rabiscamos um mapa com base no google earth e fomos seguindo. Caminhamos muito, o sol estava forte e a sede começava a incomodar. Eu oscilava entre a vontade de tomar banho de cachoeira e o receio de nos perdermos. Imagens do meu esqueleto esturricando no sol povoavam minha cabeça. Mas minha prima estava convicta demais com o sucesso de nossa jornada, eu preferi deixa-la assim feliz e não compartilhei as possibilidades macabras que vez por outra invadiam minha tela mental.
Até que nos deparamos com uma cerca de pau e três linhas de arame farpado.
- A gente já deve tá perto – ela disse enquanto se esquivava pelos arames. Minhas pernas congelaram. Aquilo era invasão de propriedade. - Vamos! Mal posso esperar pra me refrescar.
- Eu num sei não, Pri. E se o dono não gostar?
- Que? Que dono? Ah, o da cerca! Ele não vai se incomodar, nem aqui deve estar.
- Eu não vou pular uma cerca, invadir uma propriedade. E se tem cachorro? Capanga com arma, se chama a polícia? Se eu for presa minha mãe morre de desgosto, ela odeia preso. Acho que me mata!
- Ara, vai... – ela se virou e seguiu farejando o caminho provável.
Fiquei um tempo parada, olhando-a se afastar com passos decididos como se dona da terra. O brilho do Sol se refletia nos seus cachos negros, por um momento quis ser como ela. Segurei no arame, ergui a perna. Eu não era como ela. Eu era eu, e precisaria começar a respeitar e aceitar essa diferença. Abaixei a perna de volta no lugar, soltei o arame e voltei cabisbaixa para casa. A volta foi triste, a sede perdeu espaço para o desanimo. Fiquei no quintal sozinha vendo as galinhas ciscarem durante toda tarde. Uma hora tive impressão de ouvir a voz de minha prima na oficina do vô, mas quando cheguei ele estava só.
- E você? Num qué nada?
Murmurei algo semelhante a um “não” e saí.
Na manhã seguinte a primeira coisa que vi foram os grandes olhos negros de minha prima. E ouvi sua voz, demasiado grave para sua idade e gênero, me preguntando excitada:
- Preparada para um maravilhoso banho de cachoeira? Então, se arruma que eu dei um jeito.
Me joguei da cama contagiada pelo animo dela. Calcei minhas botas e segui correndo com ela pelo mesmo caminho do dia anterior. Achei que ela poderia ter encontrado um desvio. Mas, no lugar onde deveria ter uma cerca, havia uma cerca arrebentada. Minha prima sorria triunfante e me explicou absolutamente orgulhosa de sua ideia maravilhosa:
- Pronto. Agora você não precisa invadir cerca, nem propriedade nenhuma. Basta seguir sua marcha!
- Você tá louca? Isso é crime! Depredou a coisa de outro.
- Olha, eu só quero tomar banho numa cachoeira. O cara cerca uma parte imensa da terra pra ele, tira toda a mata enfia umas vacas vez por outra. Se ele quer estuprar essa porção da natureza o problema é dele, eu só quero me refrescar. Quem é o louco criminoso? Vou indo que esse calor tá me matando. Se você qué vim, vem. Senão num posso fazer mais nada. Só digo que a cachu é perfeita!
Com meus conservadores 12 anos de idade eu não tinha capacidade de tecer críticas à propriedade privada, à concentração de rendas, exploração e apropriação de terras e recursos naturais. Eu tinha sido doutrinada a respeitar a propriedade acima de tudo e que quem desrespeitasse isso minimamente era ladrão, vagabundo que não valia nada, sem moral nem ética. Mas, o que eu conseguia compreender perfeitamente naquele momento era que não podia haver nenhum crime ou ameaça no fato de duas criança tomarem banho de cachoeira. Além do mais, o dia anterior (como criança que respeitou o limite da cerca) tinha sido terrivelmente chato. Enquanto me decidia podia ver minha prima caminhando lentamente pelo pasto. Foi então que pensei no que ela havia feito por mim. Ela rompeu uma cerca em respeito a minha limitação. Ela tinha abusado dos valores morais dela para que eu não entrasse em crise com minha consciência sozinha. De alguma forma ela se igualara a mim. Se eu teria que lidar com o fato de cruzar um cerca, ela teria que conviver com a lembrança do alicate em suas mãos rompendo a cerca. Não poderia deixa-la sozinha, isso havia sido um pacto de cumplicidade. Não há crime maior do que se apropriar do bem comum.
- Me espera! Eu também vou.

Fonte: link aqui
 

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Ordem

Nasça, teste, obedeça, olhe.

Aprenda, pule, assista, ande.

Brinque, chore, escute, associe.

Imite, ria, aceite, suje.

Sinta, queira, procure, escolha.

Beba, cresça, beije, corra.

Mude, saia, dance, experimente.

Leia, abuse, descubra, brilhe.

Mande, conquiste, tenha, compre.

Faça, controle, case, dirija.

Engravide, fume, pareça, cuide.

Mostre, emagreça, trabalhe, invista.

Deleite, peça, aprecie, perdoe.

Esqueça, relaxe, aposente, deite.

Reze, apague, ensine, arrependa.

Desista, resista, expie, morra.

SEJA simplesmente SEJA



 
 

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Noiva do capital

Essa semana a empresa de transporte público provou que seu lema é "lucra bem para lucrar mais".


Curiosamente, os pontos de descida foram removidos. O ponto em que mais se descia gente, onde formava uma certa muvuca, foi o que mais causou estranhamento. De um dia para o outro o ponto não tava mais lá. "Vai descer" grita a galera do fundão. "Num tem mais ponto" responde o motorista mau humorado, emendando um "parece burro".

Simples assim. Que eu tenha conhecimento, dois pontos de descida foram subtraídos sem aviso, sem explicação. Deixando uma enorme distância a ser percorrida. Passageiro descendo não dá lucro, o lucro é com quem sobe. E afinal, conspiração de minha parte, a região do Guanabara vem investindo fortemente numa limpeza social. Afastando os pobres, tirando da vista. Muda a rodoviária, subtrai um ponto.

Na semana passada descobrimos que o ônibus das 12:50 agora é das 12:55. Ontem, chegamos na rodoviária e às 12:55 nada de ônibus (cassino - furg). Ia saindo um para o centro, perguntamos ao motorista "Deve estar chegando" e foi-se embora. Melhor pedir informação: "Num tem mais esse ônibus porque é férias". Simples assim, na quarta tem ônibus, na quinta não. Entramos no centro, digo o que chama Cassino, mas curiosamente vai para o centro. Ao longo do caminho sobe ao menos 13 estudantes que não sabiam, mas estavam de férias. Estudante já paga meia, para dar (muito) lucro precisa de estudante pra caramba. Com isso todos ficaram sem almoço...

Na volta decidimos nem arriscar esperando o furg-cassino. Fomos na faixa e pegamos o Cassino que aí sim, de fato vai para o cassino... Lo-ta-do. Respirei fundo, e me enfiei tentando achar algum espaço. E o motorista curiosamente segue parando nos pontos e apanhando gente. "Tá lotado motora". Começa a massa amontoada se manifestar. "Só mais cinco" responde o motorista para minha enorme surpresa. E não é que entra mais 5 mesmo? E dos grandes!

Só que é humanamente impossível e extremamente desagradável atravessar o ônibus para descer. E então, as pessoas que estão desconfortavelmente exprimidas na parte da frente se esforçam para alcançar a catraca, pasmem, pagam sua passagem, giram a catraca e descem pela frente, a cobradora grita "girei pra moça"! Essa é uma metodologia que não faz absolutamente nenhum sentido para mim!

E as cinco pessoas grandes que haviam entrado, logo (uns 5 pontos depois) vão descendo. "Eeeeei, mas vocês pagaram a passagem?" silêncio. Gritando para cobradora "Você cobrou desses cinco?" "Só recebi da menina e da senhora". Não me contive "Deixa descer, eles nem entraram no ônibus". Segui argumentando com 2 homens que pareciam concordar "não faz falta, essa empresa já lucra os tubos na nossa costa". Alguém pagou as passagens, possivelmente um cidadão de bem que acredita que a caridade é a salvação...

A cobradora pareceu ficar meio de cara comigo e dava indiretas dizendo que já tinha espaço no fundo, fica na frente porque quer, quer atrapalhar mesmo, resmungava. Não consegui ver o espaço atrás, apesar de ter ouvido bastante gente descer, e nem consegui identificar porque eu deveria passar pra trás. De todo modo eu fui, afinal queria ficar perto do meu companheiro. "Tem que ter mais ônibus, esse horário é sempre cheio, fica ruim até pra vocês, mto estresse" falei no tom mais simpático que consegui achar. "Num sei porque tá cheio, ontem mesmo veio vazio" respondeu mais calma.

Depois de ter passado o dia inteiro desejando que o presidente dessa joça fosse afetado de alguma forma. Imaginar o iate dele naufragando e deixando ele com frio e fome por uma semana. Depois de mentalizar todos os escritórios pegando fogo, graças a molotov. Depois de sentir vontade de tacar fogo naquele ônibus. Depois de desejar ardentemente que cada realzinho de lucro que entrasse no bolso algum tonto trouxesse um desagrado. Enfim, depois de mirar encima comecei a pensar porque razão os motoristas e cobradores fazem tanta questão de assegurar o lucro do patrão?

Imaginei o condicionamento mental que paira pela empresa. "Num dá pra por 'lotado', pensa naquelas pessoas no ponto, elas esperam pelo transporte para chegar nas suas casas." Ou ainda "tem muita gente ignorante e mal educada que pega o ônibus". Só pode de algum modo haver uma coação muito grande que faz com que o trabalhador se identifique mais com o patrão que com os usuários. E comecei a desejar algo muuuito mais interessante do que uma doença maligna num idiota qualquer. Comecei a imaginar os e as motoristas, e os e as cobradoras passando a adquirir consciência de classe. Imaginei eles/elas de alguma forma se apropriando de Marx, pensando de maneira crítica seu papel na sociedade.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

O Islã, a mesquita e a ignorância

Fica tudo muito confuso quando antes de conhecer somos bombardeados por conceitos prontos, supostamente embasados, amplamente aceitos e prontamente repetidos. Fica pior quando não há espaço para sentir, só para pensar presa na razão e na lógica.

O que é liberdade? Como manifesta-se o machismo?

Mulheres de burca e coberta por panos sempre me deram arrepios. Não é difícil imaginar porque, a primeira vez que tive contato com isso foi pela TV e elas sempre estavam associadas a opressão, sofrimento, violência. Me era mostrado como um costume medieval de sujeição, e narra-se longas histórias de apedrejamento, e costumes cruéis. O discurso defendido era de que as mulheres devem ser livres para se vestirem como quiserem.

Quando cruzava por uma nos bairros comerciais de São Paulo me sentia desconcertada. Precisariam elas de alguma ajuda? Mas elas não estavam de cabeça baixa caminhando atrás de um homem, como a TV narrava ser o costume. Elas pareciam decididas e confiantes, andando sozinhas pelas ruas, administrando lojas. E eu já não sabia como uma adolescente poderia ajuda-las. Já não sabia se devia continuar sentindo pena. Mas ainda insistia em associar tal vestimenta ao símbolo máximo da opressão machista. Nós ocidentais cristãs é que temos sorte de usufruirmos nossa liberdade nata.

Depois de experiências, leituras, conversas, observação, contato com grupos feministas, fui me convencendo que existe machismo, e muito, nas Américas. Vejo como a mulher é usada como objeto decorativo, como somos incentivadas (e cobradas) a sermos bonitas. Como a presença histórica de mulheres importantes é apagada, ignorada, subestimada, e as que restam são subjugadas a papéis secundários, cuja importância se resume ao papel de mãe do cara ou esposa do cara. E eu já não sei o quanto as mulheres exibem seus corpos por liberdade ou por coação. Afinal existe um único tipo de corpo a ser exibido, jovem e torneado, essa suposta liberdade morre na praia. E deveria essa liberdade, de se despir, ser imposta? Estaria lindo a lei francesa que proíbe o uso de burcas e do tal lenço? Seria essa lei uma busca pela liberdade das mulheres ou uma perseguição religiosa?

O que eu aprendi do Islã pela TV é que são sanguinários e pretendem matar todo mundo, em especial aos EUA, pois eles são totalmente contra a liberdade. Demorou muito para eu me dar conta desse espesso véu de ignorância que foi posto sobre mim. Sinto uma necessidade enorme de saber quem somos nós, o que significa nossa vida, se existe e o que é alma. A ciência não é capaz de suprir essa necessidade, busco então na religião, lendo, ouvindo, conversando, meditando e mantendo a mente aberta. Li dois livros, meio fantasiosos como romance que abordavam o Alcorão. Me encantei com "Seu Ibrahin e as Flores do Corão" e "Habibi".

Já nesse processo de amadurecimento, no qual um choque cultural não resultaria em atrito, foi que a conheci. Quando a vi envolta em panos não senti a aversão de outrora. Para minha surpresa uma enorme excitação percorreu todo meu corpo. Milhares de perguntas começaram a se formular na minha cabeça. O que ela pensa que é alma? Acredita em espírito? Porque usa esses panos? Acredita em Jesus? Achei indelicado começar uma entrevista desse modo. "Estamos atrapalhando seu jantar." E para minha sorte ela já entrou no tópico que eu queria. "É que estamos no mês do Ramadã, Fazemos jejum de quando o sol nasce até que se põe." Engatilhei diversas perguntas: o que é Ramadã?, existe uma dieta especial? e por fim, quando ela me disse que faziam 5 orações por dia, em todo o mundo no mesmo horário e no mesmo idioma, iniciando às 6 da manhã eu não pude me segurar. Foi uma vontade arrebatadora, eu precisava participar dessa oração. Pedi para me juntar, ela disse, pelo que consegui entender pois a comunicação não era de todo clara, que essa era uma oração mais íntima, mas às 19:45 havia uma oração na mesquita a qual eu poderia acompanha-la, se quisesse.

"Pai, qual a diferença entre árabe e muçulmano?" "Não sei." Passei pelo google para entender que muçulmano é quem segue o Islã, uma das religiões com mais fiéis no mundo e a que mais se expande, especialmente entre as mulheres! Vesti minha calça mais larga e às 19:30 estava na entrada o hotel esperando por ela.

Fomos caminhando, enquanto eu fazia muitas perguntas, tantas que nem conseguia entender as respostas, tinha receio de ofende-la. E porque usar o pano? Nas imagens católicas também tem. É para se preservar, como pureza? É. E os homens não usam? Vai da fé de cada um. Nesse momento passamos por um carro de onde descia um jovem bonito, envolto em lenços com um turbante. Achei que iriamos parar para cumprimenta-lo, afinal nas religiões em que andei era fácil confundir o rituais com um evento social. Mas qual, apertamos o passo e entramos por uma portinha estreita numa longa escadaria. Nas mesquitas grandes as entradas de homens e mulheres é separada. Preferi deixar para depois meus julgamentos, achei que seria desrespeitoso e me impediria de conhecer. Ela parecia apressada, você tira o sapato rápido e entra com ele na mão. Putz, estava calçando um tênis tipo botina trekking, difícil de descalçar. Fui tomada por uma espécie de desespero, não queria desrespeitar ninguém. Tive que me concentrar para não gargalhar, afinal parecia meio cômico um desespero para não ser vista por homens. Finalmente o tênis saiu, quase arrancando meu pé junto.

As mulheres ficavam juntas atrás de um pano, que as separava dos homens. Elas pareciam a vontade com isso. Só podem frequentar a mesquita no mês do Ramadã, exceto quando menstruada, nessa situação não devem rezar, e ficam devendo as rezas para outra ocasião. As orações eram em árabe. 5 sessões com intervalos. Eu poderia ficar a noite toda, mas minha anfitriã parecia demasiado insistente quando dizia que eu poderia ir, iria ficar cansativo para mim que não entendo. Achei que ela preferia que eu fosse. Gostaria de conversar mais.

Tenho muita vontade de conhecer mais que julgar. O Islã, em especial sua linha esotérica Sufi, parece ter muitos ensinamentos interessantes. Dizer que separar homens de mulheres, proibi-las de entrar no templo, é errado e machista sem conhecer as razões disso é ignorante e desrespeitoso com outras crenças. Somos sempre levados a julgar o Islã, e o pior, com base em casos estapafúrdios e cruéis. Como se não existisse pedofilia entre cristãos, como se não houvesse entre fiéis cristãos casos de intolerância, opressão, coação, violência. Oportunidade de conhecer o Islã são pouquíssimas. Eu ainda não sei o que penso disso tudo, quer dizer penso que cada um deve ser livre para ter a crença que quiser. Repetidas vezes encontro em literaturas espiritualistas diversas um alerta sobre o ego e sua manifestação primária, a vaidade. Assim me parece razoável que algum profeta tenha chegado a conclusão de que se cobrir toda é uma forma de não alimentar essa vaidade, ou raspar a cabeça e se vestir igual. Se isso é eficaz eu não sei, porque nunca tentei e não conheço intimamente quem tenha tentado.

O que eu não sei é até quando confiar na veracidade da existência de grupos muçulmanos fundamentalistas terroristas violentos contra a liberdade a democracia e os EUA, que atacam pelo simples fato de acreditarem que o mal reside na democracia, a qual os EUA tem o heroísmo de defender...

segunda-feira, 7 de julho de 2014

A árdua e interminável luta íntima contra preconceitos

Não me canso de admirar como a destruição de preconceitos é lenta, exige esforço, disposição e principalmente atenção! Mas é uma destruição bonita de se acompanhar.

Imagine que fiquei sabendo de um curso de "conversation" na universidade, ministrado por uma legitima americana. Topei na hora. E minha maior surpresa foi ver uma jovem engajada trazendo temas interessantes e extremamente críticos! Como a manipulação da mídia, construção de estereótipos, aliás indico um vídeo chocante (a conversation about race).

E não é que com essa história de copa, um amigo lança o comentário: "futebol é a única coisa que dá dinheiro e os americanos não estão envolvidos". Putz é mesmo, eu pensei como se essa fosse uma constatação muito genial. Sem me questionar o que eu entendia por "os americanos" eu fui. Oh yeah, eu fiz isso. Compartilhei o comentário na conversation. Na frente da americana e de todos os outros estudantes. Estupidamente abri minha boca e lancei essa observação rasa. E só comecei a me questionar "qual é o problema" depois que a professora imitou um barulho de bateria. Do tipo circense, depois de uma intervenção do palhaço.

Como eu posso ter dito isso a uma americana, que está no Brasil, e como eu é uma crítica ferrenha do consumismo, da coisificação e namora a revolução? E porque eu fiquei tão surpresa com o posicionamento crítico dela, pensando que isso seria contraditório vindo de uma americana? Carregada de preconceitos, eu me vi. De alguma forma na minha cabeça eu associei capitalismo e EUA de um modo simplificado, generalizado, superficial. Tanto que normalmente não me dou conta de que "os americanos" envolve uma gama extremamente complexa de seres humanos, dos quais certamente uma grande e significativa porção é crítica ferrenha do capitalismo selvagem, e uns outros tantos são anarquistas. Eu já sabia disso, já tinha reparado nisso, mas ainda assim não consegui flagrar prontamente. E fiz uma vítima do meu preconceito.

Acho que esse é o processo de destruição de preconceitos para construção de conceitos mais justos, profundos, complexos. Primeiro temos que nos abrir, isso é, simplesmente não pensar "o que esse idiota está falando, defendendo esse bando de vagabundos" ou no meu caso "que estúpida a reação dela, a verdade dói mesmo". Morei em São Paulo. Não achava graça em piadas de "baianos" (termo que inclui todos os imigrantes da enorme região norte e nordeste), mas eu ri da mulher tentando falar "youtube". E eu me achava muito boa pessoa.

Aqui em Rio Grande, estamos recebendo imenso contingente de imigrantes. Em sua maioria vindo de situação precária (suposição minha). Nesse momento, um pouco mais madura, identifico o baita preconceito que eles sofrem e isso me incomoda muito. Mas, mesmo assim...

(A professora americana nos pediu para criar um blog, só pra treinar o inglês. Empolgada com as analises de música que ela faz, tive uma ideia, fazer o mesmo só que ao contrário. Explicar, ao menos tentar, nossas músicas com crítica social no idioma do Império. Eis que surge num inglês medonhamente macarrônico, mas cheio de boas intenções A Subversive Brazil. A última música que pus foi Admirável Gado Novo.)

Mas, mesmo assim, mesmo depois de me reconhecer cheia de preconceitos e me identificar como defensora dos migrantes, você não acredita. Num é que eu passei direto e reto pelo trecho "É duro tanto ter que caminhar"? Estou acostumada a ver tudo: filmes, músicas, programas, notícias, voltadas para minha classe social, ainda que não para o meu gênero, mas isso não é problema pois fui adestrada a me encontrar em "os homens". Empolgada por ter me visto no livro admirável mundo novo nem me dei conta de que a música, praticamente homônima não era para "mim".

Só me dei conta e voltei para acrescentar um comentário na postagem quando já passava da metade da leitura de Vinhas da Ira, um livro muito envolvente, sobre uma família americana expulsa do campo por tratores e pés de algodão, que migra de modo muuuito (corajoso e) precário para Califórnia, como se não bastasse todo drama e dificuldade elas terão que enfrentar esse sombrio e cruel monstro chamado preconceito. O livro (nobel) inspira tamanha simpatia por esse grupo de pessoas - pobres, sem educação formal, com assassino ex-presidiário, mãe solteira. Nos envolve de modo a sentir as dores na pele, não é como viver, mas é próximo disso, dependendo da sensibilidade do leitor, muito próximo. Pensei em todos os imigrantes que conheci na minha adolescência paulista e com muito pesar, sinto vergonha em reconhecer que de alguma forma sempre me julguei superior a eles, minha "amizade" foi dada como caridade.

Nesse instante eu lembro da senhora falando "iutubiu" e me sinto extremamente idiota. Como paulista posso dizer que seria interessante, muito interessante, todos nós que nascemos e fomos criadas no estado mais """rico""" do país conferíssemos se não existe um morro de prepotência sob nossos pés. Donos do sotaque (e cultura e aparência e modelo econômico e roupas) adequado/ideal. Não, aquele vídeo não choca pela ignorância de uma mulher que não consegue dizer o nome de um site num idioma estrangeiro. Aquele vídeo choca pela risada do filho do patrão. Eu sei que estou desenterrando o tal do vídeo, mas sinto latente essa ordem estabelecida que põe o sotaque nordestino subserviente. Associando à ignorância e à valores desonrosos. Pois são nessas situações que eles aparecem nas novelas. Sinto como fui idiota em achar que estava bem o vídeo, por mostrar uma interação rara, eu achei legal da parte dele reconhecer a existência da pessoa que limpa suas sujeiras.

Fico triste por reconhecer tanta ignorância e preconceito em mim. E sei (e torço) que se daqui a 10 anos voltar a ler esse texto vou reconhecer uma dúzia de preconceitos e crueldades, torço para reconhece-los pois isso significa um passo para superá-los.

Você, que escreve, fala, canta, interpreta, dança, pinta, contra o preconceito, seu trabalho não é em vão. Me sinto muito, muito agradecida pela existência daqueles que (em oposição aos que constroem e nutrem) destroem preconceitos e salvam Almas. Nesse caso em particular, muito obrigada Zé Ramalho e John Steinbeck, e me desculpem por suas obras ainda serem consideradas transformadoras...
"Vinham famintos e ferozes, tinham a esperança de encontrar um lar, e só encontraram ódio. Okies... os proprietários odiavam-nos porque sabiam que eram covardes e que os Okies corajosos, e que eram bem nutridos e que os Okies passavam fome. E talvez os proprietários tivessem ouvido seus avós contarem como era fácil a alguém roubar terras a um homem fraco quando esse alguém era feroz e faminto e estava armado. Os proprietários odiavam-nos. E os donos das casas comerciais das cidades odiavam-nos também, pois que eles não tinham dinheiro para gastar. Não há caminho mais curto para se obter o desprezo de um negociante. Os homens das cidades, pequenos banqueiros, odiavam os Okies porque eles nada lhes deixavam ganhar. Eles nada possuíam. E os trabalhadores odiavam os Okies porque um homem esfomeado tem que trabalhar, e quando precisa trabalhar e não tem onde trabalhar, automaticamente trabalha por um salário menor, e aí todos têm que trabalhar por salários menores."

quinta-feira, 3 de julho de 2014

essência

não Sou feia
não Sou magra
não Sou branca
Esses termos rasos delimitam 
a aparência do meu corpo.

não Sou o que penso
não Sou o que faço
não Sou o que digo
não Sou o que sinto
não Sou o que tenho
não Sou o que escrevo
Esse verbos só descrevem 
algumas ações daquilo que sou. 

não Sou feliz
não Sou burra
não Sou comunista
não Sou competente
não Sou honesta
não Sou chata
Adjetivos não me definem

não Sou brasileira
não Sou católica
não Sou mulher 
até Ser humana
não é o que Sou
porque me limita.

Sei disso 

Pois que é quando fecho os olhos*
que chego mais perto do que Sou
 
Nesse momento então
não há corpo,
não há ações,
não há limites,
não há qualidades.

Só há o calor do Sol     
que se funde com a pele,   
há sua luminosidade            
vermelhando minhas pálpebras,
há o som das ondas e do vento
entrando pelos ouvidos,        
envolvendo tudo por dentro
unindo ao fora,               
há o cheiro da maresia
completando a fusão.
 
Eis aí o que compreendo que sou.
Livre das limitações das palavras,
armadas de preconceitos que     
prendem nas correntes dos rótulos.


*"Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos" (Saint-Exupéry)

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Julguemos a opressão

A Lei Maria da Penha está aí, para defender as mulheres agredidas. Mas, as mulheres violentadas muitas vezes não denunciam. Qual seria o problema? Seria o medo da retaliação, a dependência econômica, emocional? Porque elas agem assim?

Soube num seminário, existe um certo conflito ideológico no feminismo. Deveríamos defender o direito a não se prostituir - considerando que essa decisão seja tomada como uma medida extrema, na qual as prostitutas preferiam estar atuando em outra área - ou deveríamos lutar pelo direito de se prostituir - levando em consideração que essa seja uma decisão consciente, e que essa é uma profissão tão digna quanto qualquer outra? Então nos perguntamos Porque as mulheres se prostituem?

Os estupros acontecem, e muitos consideram que andar desacompanhada seja a causa. Ou usar roupas "provocantes", beber na festa da turma. Enfim, várias atitudes das mulheres provocariam os estupros.

A mulher não deve engravidar se não quiser ter filhos. Caso ocorra uma gravidez acidental então temos calorosos debates pró e contra a decisão do aborto.

Ser ou não mãe também é uma pauta que dá ibope e gera longas discussões. Trabalhar fora ou não.

É sempre sobre nós! Nosso comportamento é pauta de debate. E sempre tem alguma revista, algum comentarista, todos tem uma opinião, um palpite de como deveria ser o comportamento feminino.

Uma mulher agredida, fisicamente, já está numa situação terrivelmente delicada, e é constantemente pressionada à denunciar e à não denunciar. Mas, será que existe pressão sobre o homem? Traçar o perfil dos que agridem e investir em campanhas de conscientização, em revistas, cartazes, televisão?

Afinal, porque se utiliza de serviços sexuais? Porque os homens procuram por isso? É uma atitude nobre, de elevada moral? Não seria o pagamento a compensação por um estupro? A compra do consentimento? A aceitação do consumo do corpo feminino como mercadoria?

Porque os homens estupram? Nesse ponto eu tenho uma sugestão. Deles é cobrado isso. Anúncios provocantes aumentam a libido masculina a todo instante. Estão sempre sendo excitados.

Ainda, toda criança abortada tem um pai. O homens abortam aos milhares, eles abortam muito mais, abortam crianças vivas.

Existem milhões de matérias voltadas ao público feminino, em site, revista, programa de televisão, sobre como fazer unha, como se depilar, limpar a pele, se maquiar, o que comer, quanto pesar, qual o cabelo adequado, como trepar, etc. Mas é muuuito raro ver um programa de televisão dando dicas de como fazer a barba, um programa doméstico apresentado por homem, onde se ensina a se comportar, o que dizer, o que pensar, o que vestir, como agradar a esposa, se deve ou não depilar o peito, isso simplesmente não é pauta. As dicas direcionadas à eles referem-se sobre como agir no emprego, isso em mídias muito específicas. As revistas voltadas ao público masculino trazem notícias, informações, mulheres nuas.

Dizer que é o que dá ibope eu acho muito controverso. Seria como garantir que as mulheres naturalmente se interessam por futilidades e precisam de um "manual de instrução" de como viver, enquanto que os homens são mais ávidos por informações "úteis" e já sabem como se comportar não precisando ninguém para lhes dizer. Bom, meu n-amostral é relativamente pequeno, mas eu diria que não existe essa relação, mesmo nesse cenário, em que somos constantemente e mais arduamente incentivadas a sermos fúteis, não posso dizer que as mulheres são mais superficiais. O que vejo é que elas sentem essa pressão. A impressão que tenho é que são elas as mais inseguras e deprimidas, e não penso que seja por uma natureza mais sensível. Aliás, eu nem acredito nessa distinção biológica de sensibilidade, basta ver os inúmeros poetas, autores, compositores masculinos sensíveis. Me desculpem, mas o carinho, amor, sensibilidade, altruísmo não é exclusividade nossa.

E reconheço nesse ponto o comportamento masculino vira pauta de julgamento. Existe um senso comum de que é necessário ser bruto, rude para não ser taxado de gay. Mesmo que isso seja demodé, e ninguém assuma publicamente essa posição, ainda permanece no ar essa sugestão. Acontece que um ser rude e insensível não encontra problemas em bater na esposa, estuprar, assediar e abusar dos serviços sexuais.


sexta-feira, 6 de junho de 2014

Greve Geral

Minha sensibilidade é um pouco exacerbada, não me resta dúvida, mas analisaremos a situação dos trabalhadores brasileiros (e certamente de todos os outros países globalizados). No melhor dos casos, isso é quando se recebe um salário adequado que supera as contas, se tem uma propriedade privada, estabilidade razoável, consegue-se adquirir bens, livros, tem férias remunerada e décimo terceiro, enfim, no caso da classe média alta que pode pagar 20 reais no cinema todo fim de semana. Esses que estão como eu disse muuuuito bem, saem de suas casas por volta das 6/7 hs da manhã, enfrentam um transito dos diabos em seus carros, e voltam normalmente depois das 22 hs. Obviamente não resta muito tempo e energia mental para livros, cultura, conversas profundas, busca do aprimoramento do caráter, do espírito, filosofar, meditar. Só dá para seguir com mais do mesmo.

Existe ainda os pobres, ou nova classe média. Que recebem um salário mínimo, pagam aluguel (numa favela do Rio algo semelhante a uma casa custa por mês 500 reais), a passagem de ônibus é absurda (sendo 3 reais, gasta-se por mês 120 reais), alimentam-se com o básico (não que os de cima se alimentem muito melhor uma vez que no mercado só se vende porcaria industrializada com gosto esquisito abarrotado de sal e açúcar, com zero valor nutricional) e não deve sobrar dinheiro para livros, filmes, viagens etc. Os bairros que mais recebem investimento são mais nobres, restando aos pobres ausência de rede de esgoto, ruas pavimentadas, praças, parques, paisagismo, metrô. E a mais nova onda, possibilidade latente de desapropriação. Claro, sem contar a pacífica abordagem policial. Relembrando os casos famosos e recentes de Amarildo e Cláudia, ou ainda a inquietante pergunta "Porque o senhor atirou em mim?". Outro fator menos lógico e objetivo que oprime essa classe é o status social, lixeiros não são vistos, cobradores não são admirados, funções de submissão são vistas com desprezo subentendido como falta de capacidade, dedicação, esforço, são associadas a pessoas de pouco mérito e valor, isso repercute, sem dúvida alguma, no self de cada um. Por isso lutar por Fraternidade não me pareceu algo estúpido.

O que eu sinto é que vivemos uma falta de liberdade devido normas sociais castradoras de uma população altamente doutrinada a aceitar o status quo. Claro que sentir não serve para nada, posso então tronar mais lógico e objetivo esse "sentir", mais científico e acadêmico, Maquiavel aconselha em O Príncipe que uma população que vive sob o guarda-chuva da liberdade... não tem jeito, tem que ser dizimada, ou mais pra frente te trarão problemas, sempre tendo esse conceito a lhes encorajar:
"Quem se faz senhor de uma cidade por tradição livre e não a destrói, por ela se verá destruído. Estas cidades trazem sempre por bandeira, nas revoltas, a liberdade e suas antigas leis, que jamais esquecem, nem com o passar do tempo nem com a influência dos benefícios recebidos. Por muito que se faça, sejam quais forem às precauções tomadas, não sendo promovido o dissídio e a desagregação dos habitantes, não deixam eles de recordar aqueles princípios, e em qualquer oportunidade, em qualquer situação, recorrem aos mesmos. "
Em Discurso Sobre a Servidão Voluntária, novamente um louvor à liberdade, sem ela tudo o mais perde o gosto, pois essa seria a natureza do ser humano, algo intrínseco a ele. Mas, como fazer os humanos abdicarem de sua natureza livre para servir pacífica e voluntariamente? Através da ilusão dos prazeres fugazes oferecidos na cidade, comida, jogos, espetáculos.

Não li, mas a socióloga que dirige nosso grupo de estudos já adiantou, Marx e outros, vão dizer que o poder se dá ou pela:
Coação/ideologia, [onde vemos o discurso retumbante "o trabalho é nobre", "Deus ajuda quem cedo madruga", e os apelos comerciais compre, compre, compre, para ser mulher precisa comprar esmalte, comprar gilete, comprar maquiagem, jóias, cabeleireiro, depilação, salto alto, seios fartos (compre um par), se não não se é nada, os homens precisam de carro, relógio, camisas, pinto grande, e ser descolado, bem informado, tem que ter dinheiro, balada cara, bebida a rodo, viagem, cinema, compras. A mídia desempenha papel preponderante, podemos também pensar nas escolas] ou pela
Coerção/força, [sem servir você simplesmente morre de fome, existe latente e exacerbadamente a criminalização da pobreza, falta de serviços públicos básicos, infra-estrutura em bairros pobre. Esse papel o Estado parece assumir com certa maestria].

Não é novidade que a exploração humana alcance limites insuportáveis. Ainda que, reconheço tenhamos, enquanto humanidade, vivido poderes mais tenebrosos e condições mais lastimáveis. Agora, o limite da capacidade de tolerar explorações foi ultrapassado para um grande número de pessoas (pois convém relembrar muitas sempre estiveram gritando o quão absurda é essa relação de poder e essa estrutura social, sempre gritaram sob cassetetes e prisões arbitrárias).

A copa conseguiu servir de estopim! E foi tão ridícula que uma teoria me instiga a mente, não teria sido exatamente essa a intenção? Assume-se o poder e se reconhece: Não há jeito de melhorar pelo Estado, estamos dominados por interesses corporativistas, vamos então deixar a coisa tão absurda, tão injusta, tão desumana e insuportável, que a única resposta possível seja o levante popular. A internet mais difundida, mesmo nas periferias, ainda relativamente livre, traz informações sobre revoltas e levantes, e afasta o estigma de "brasileiro é passivo, sempre foi, sempre será, amém", podemos acessar documentários com profundas críticas sociais que nos inspiram e transformam, baixar livros, trocar ideias, mas isso só para quem tem o tempo livre necessário para filosofar, para quem pode abrir mão de jornadas extenuantes de trabalho. E para quem conseguiu sair da Matrix ["informações" produzidas por televisão, revista, livro de livraria de shopping - que produzem uma realidade falsa e ilusória]. E como expor o descontentamento com a exploração e a degradação da qualidade de vida?

Os professores estão de greve, metroviários, CET, PRF, já assistimos aos lixeiros do Rio cruzarem os braços, policiais militares. E ensaia-se uma greve geral, em plena copa! Ao meu ver nada parece mais coerente e justo. Convenhamos, mais de 90% das pessoas trabalham única e exclusivamente para terem acesso ao que o dinheiro permite (saúde, educação, segurança, cultura, lazer, habilidades, alimentação...).

Greves gerais já foram realizadas diversas vezes (a história parece não mudar, sempre houve quem se deleitasse na exploração do trabalho/vida do corpo alheio e sempre houve quem repugnasse tal atitude, podemos chama-los anarquistas - e se em alguma sociedade não era assim, então não há informação sobre ela). No Brasil, encontrei duas referências de greves gerais, uma de 1907 (4 de maio) e outra de 1917.

Poucas informações achei sobre a greve de 1907, ainda mais porque se confundem com uma greve francesa de 1906. As reivindicações eram por jornadas de 8 horas (pois eram de 13 hs), proibição do trabalho infantil, férias e salários decentes. A greve foi brutalmente reprimida pelas graças de Washington Luis. Mas, como não haviam celulares com câmaras as imagens são raras...

As pautas continuaram latente e os anarco-sindicalistas inquietos. O Brasil atuou como exportador de alimentos para a manutenção da primeira guerra mundial, o que reduziu a oferta de alimentos para abastecimento interno.  O cenário de 1917 apresentava alto custo (sem parcelamento) de vida, incompatível com os baixos salários, ampla exploração do trabalho infantil, jornadas extenuantes, e forte repressão policial a articulações proletárias. Até que em 9 de julho a repressão estatal fez uma vítima fatal José Martinez, no dia de seu velório milhares de operários acompanharam se corpo e iniciou-se nova Greve Geral. Os grevistas tomaram a cidade por 30 dias! O comércio fechou, os transportes pararam. Suas reivindicações eram:
Funeral José Martinez - São Paulo
não criminalização do movimento (liberação de presos políticos, não punição aos participantes),
abolição do trabalho infantil (menor de 14 anos),
abolição do trabalho noturno para menores de 18 e mulheres,
aumento salarial,
jornada de 8 horas e semana inglesa (dias de semana e meio período no sábado) e
pagamento de hora extra.
O movimento não ficou restrito à São Paulo, influenciando outros estados, em especial Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro (Insurreição Anarquista de 1918).

Pois é, cá estamos nós diante de uma "efervescência social" por razões ligeiramente diferentes das de 1906, 1917, e das que crucificaram Jesus Cristo eu diria. Alguns se irritam, outros temem, muitos não conseguem entender. É porque nos faltou sociologia na escola, nas conversas, na TV, na revista. Eu não vejo razão para temer, aliás meu único temor é a repressão armada do Estado, os robocops recém chegados do treinamento no Haiti, os que agem na favela, esse é o meu único temor. Jovens de preto quebrando vidros, esses não me assustam. Grevistas atrapalhando o jogo, esses me inspiram.


quarta-feira, 4 de junho de 2014

A cachorra da pick up

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Sinto que no Cassino a relação humano-cachorro é especial,
parece que a sensibilidade dessa relação é mais comum e geral.
Em São Paulo, sinto ser a minoria de pessoas que se interessariam por uma conversa sobre essa relação.
A maioria acharia isso coisa de gente esquisita, ou simplesmente um tema chato de mais.
Aqui se fala de cachorro, com desconhecidos, os cães de rua tem nome, e é comum ver alguém conversando com um cachorro.

Fiquei muito feliz ontem por ver a Mel na caçamba da pick up do vizinho novamente.
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Sua história é um pouco triste.
A primeira vez que a vi seu pelo reluzia, e ela andava contente para todo lugar que o vizinho ia, quando ele chegava, abria a caçamba e ela descia ao lado dele.

Poucas coisas agradam mais aos cachorros que moram comigo do que macumbas.
Quando eles as encontram a festa é completa, 3 em 1, derrubam a vela, comem do arroz e se esfregam na galinha.
Eu tenho essa mania inconveniente de deixá-los sair sem coleira, como modo de tranquilizar minha consciência, me convencer de que vivem conosco por opção.
Eu sei que eles não tem opção de verdade, não depois de terem sido educados, criados, doutrinados nos limites de uma casa comendo ração, e tudo o mais.
De todo modo, fico mais tranquila deixando-os para que se quiserem possam correr para longe e nunca mais voltar.

Então, como os nossos cães, a Mel também estava voltando para casa fedendo a carniça. O vizinho comentou comigo, numa das poucas conversas que tivemos:
- Bah, eu não sei o que é, mas a Mel tá com um cheiro esquisito, parece que carniça.
- Ah é, o Jacques e o Gurila também. Acho que é por causa da macumba.
Ele desconversou e logo entrou em sua casa.

A Mel começou a ficar pela rua, seus pelos começaram a cair, parecia com sarna.
Latia sem razão, parecendo esquizofrênica.
O caso é que o vizinho é evangélico, nunca mais falou comigo.
Pode ser a "pressa" da rotina, ou o habito extremamente individualista que impera nesses tempos.
A Mel pode ter sido simplesmente largada de escanteio devido a chegada da filha do casal.

Ou realmente o fato de eu ter citado a palavra macumba num diálogo pode ter sido cataclísmico para Mel.
E eu senti por isso.
Até que ver ela novamente na pick up me elevou o moral.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Paredes Imaculadas

Objetivamente pretendo dissertar um pouco sobre paredes. Isso é "obra, ger. de alvenaria, que fecha as partes externas de um edifício e estabelece suas divisões internas" segundo Houaiss (2009). Eis que meses atrás as paredes do DCE que eram imaculadamente monocolores e estéreis começaram a exibir palavras, frases, desenhos e coisas do tipo, primeiro por dentro, depois do lado de fora a frase "FURG aristocrática" acabou imersa num mar de reivindicações, protestos e descontentamento. Ideias, por meio de frases e palavras de diversas letras, cores e sentimentos passaram a "decorar" e cobrir as estéreis paredes do prédio do Movimento Estudantil.

Me senti emocionadamente feliz! Quer dizer, na realidade fiquei só um pouquinho frustrada, pois tenho diversas sugestões, e acho que deve ser uma sensação muito tri expor uma ideia numa parede, fiquei triste de não ter participado, ainda dá tempo, quem sabe? Adorei, pela primeira vez, ficar na imensa fila do RU lendo e refletindo sobre cada mensagem exposta. Até que tive contato com o mundo real e acordei:

- Nossa, vc viu o que fizeram com o prédio do DCE?
Abri um sorriso imenso e satisfeito, antes de responder o interlocutor continua:
- Que horrível, não pode isso, pixar é crime, está depredando um bem público...
As queixas continuaram enquanto eu tentava entender o que estava acontecendo. Ao que parece palavras em paredes deixam as pessoas realmente furiosas e indignadas. Será que elas leram o que estava escrito?
- Nossa, que horror, nossa universidade é tão linda, imagina o que as pessoas vão pensar quando vierem aqui e ver esse prédio?
- Se quer reclamar tudo bem, mas que fizessem uma arte, um graffiti, aí sim!
- Foi um grupo pequeno que impôs sua vontade de maneira tirânica.
- Imagina se fosse na sua casa?
- Ninguém gostou.
E a lista de queixas se prolonga. As conversas foram praticamente monopolizadas, sobre o horror da pixação.

Ao que tudo indica a aparência é fundamental, e tudo tem que parecer bonito e comportado, em conformidade com padrões vigentes, não pode fugir a regra, e a regra é clara: tudo muito estéril e controlado como shopping center ou casa de novela.

Um ponto interessante que me informaram é que o DCE (cuja chapa eleita chama-se Contra-Corrente) pretendia fazer um graffiti no prédio, foram se informar sobre como proceder e descobriram uma burocracia do tamanho de um bonde que envolvia apresentação prévia da arte para aprovação do engenheiro (espero que não seja o mesmo indivíduo que nos deixa tomando chuva e cheirando fossa na fila do restaurante, bem como nos obriga a fazer curvas e manobras desnecessárias que aumentam o trajeto...) o que além de autoritário demoraria muito.

Latuff passou pelo ME!
Em uma nota o DCE afirma que as intervenções internas partiram de uma oficina de stencil (ou estêncil, uma arte de pixar com modelos pre-concebidos, tipo carimbo), e que as manifestações explícitas não representam o interesse dos membros dessa gestão, que a principal participação no ato teria sido a não coibição.

É bem interessante como o belo e o feio, a arte e o crime se confundem conforme a posição ideológica. Eu tenho profunda admiração por diversas mensagens pixadas pela cidade. O ciclista voador, "Você já acordou hoje?", "O que estamos fazendo", "Só o capital é livre", "Aqui jaz" (sobre a plaquinha de identificação de uma arvore que foi de maneira inexplicada cortada), "A burguesia fede", "mais amor por favor". Na minha concepção são intervenções que furam o "véu de Ísis" e rompem com o mecanicismo com o qual conduzimos nossa rotina. E o que mais me agrada: ninguém está lucrando!

Pedir que se façam uma arte de protesto é estranho, pq não se pode chamar essa intervenção de arte? Eu confesso que algumas frases me desagradam. Mas não é para mim, não é sobre a minha pessoa, é sobre um coletivo e seus diversos posicionamentos. E isso torna lindo. A capacidade de ver além da aparência. Minha mãe dizia que amava ver aquelas lindas chaminés soltando fumaça, ah sim, ela poderia tirar foto, pois para ela aquilo representava o progresso, uma nova possibilidade de vida, um mundo com trabalho menos duro. Bem, acredito que concordamos sobre o quão repugnante e revoltante é ver uma chaminé tóxica e fedorenta poluindo nossa atmosfera e liberando câncer e doenças diversas em potencial...
A beleza do progresso ou o horror da destruição?

Ademais, estamos falando de um prédio do Movimento Estudantil. Que tinha cara de postinho de saúde do SUS... Houve uma apropriação do espaço, que exibe agora a dinâmica e a irreverência que se propõe o espaço. Os frequentadores que já eram, em sua maioria subversivos, sentem-se mais a vontade no espaço, e consequentemente se expressam de modo mais livre, dando vida ao Movimento. Os que reclamam, pelo menos para mim, nunca entraram e possivelmente nunca entrarão nesse prédio, nem "perderão" seu precioso tempo com discussões sobre direito dos estudantes e questionamentos sobre o papel da universidade na sociedade, ao interesse de quem ela tem servido, pelo menos não de modo engajado e contínuo.