sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Terceira crise.

Faltando dois dias para encerrar minha licença maternidade, impossível não me perguntar 

“como me meti nisso?”

Tentei desesperadamente, ao longo desses 4 (sim, míseros 4) meses ignorar o fim da intima convivência com meu filho. Mas chegou. Juntei 15 dias de amamentação, com 30 de férias, como se fosse um divino presente do qual eu devesse ser muito grata, mas acabou. Segunda feira volto a rotina, 1 hora de deslocamento, 1 de almoço, 8 de “trabalho” e lá se vão 10 horas do meu dia. 10 horas longe do meu bebe, que ainda é extremamente dependente de mim. Estive esperando por um milagre, que ele fosse um prodígio que se alimentasse sozinho e não precisasse do cheiro, da voz e do ritmo cardíaco do casulo que lhe gerou a vida. Mas não, ele não é nenhum prodígio, é um bebe de cinco meses e meio que fica assustado longe da mãe, procura o peito para se alimentar e não consegue dormir sem se sentir absolutamente seguro. Cada vez que eu olho as horas um arrepio frio percorre minha coluna e se concentra nesse enorme nó formado na minha garganta, penso “eu já teria saído” e “eu ainda não teria chego”, enquanto ele mama, me olha, me toca, me cheira, me ri, me chora, me dói, me escorrem as lágrimas graves, espessas. Eu deveria ficar feliz que ele vai poder ficar com o pai, mas só consigo sentir revolta.

Eu, formada em oceanologia, mestre em gerenciamento costeiro, vou voltar para o CRAS, no meu emprego de nível médio, ganhando 2 salários mínimos. E volto a me perguntar, 

como cheguei aqui? 

Retomo todas as escolhas que me guiaram para tentar descobrir se vale a pena seguir nesse "caminho que eu mesma escolhi".

Oceanologia, excêntrico! Foi por me sentir tão deslocada da sociedade. Estranha na família, estranha com amigos, sem saber lidar com pessoas, sem ver sentido na sociedade, e achando que o problema era eu. Que curso maravilhoso, interessantíssimo, com colegas maravilhosos e um buraco. Aprendi a usar a biblioteca, criei gosto por estudar. Mas, depois de formada fiquei meio perdidona sem saber bem o que fazer com aquele papel bonito, chamado diploma. 

Primeira crise.

Mestrado é o que (quase) todos fazem. Eu queria esperar meu companheiro se formar, gostava da nossa rotina, da nossa casa, do nosso bairro, de acampar no mato. Gerenciamento Costeiro foi uma opção menos academicista. Li Paulo Freire, Henri Ascelrad, Pierre Clastres, Henry Thoreao, Tolstoi, Gandhi, La Boétie, clube de roma, me envolvi com a turma de Educação Ambiental, grupo de estudo sobre o poder, fiz teatro, coral, vi a revolta contra a copa. Tapei o buraco, meu ser político acordou com uma fome monstruosa, comendo tudo a sua volta. Minha dissertação se transformou num caderno vermelho que objetivamente desacreditava o “selo verde” de “pesca sustentável”, e entendi o horror por trás da palavra Mercado. 

Segunda crise.

O papel bonito perdeu todo sentido, não me identifiquei como oceanologa, não alimentava meu ser politico, me distanciava do que eu precisava. Pensei cursar sociologia, talvez devesse. Mas o pânico de seguir eternamente desempregada – o que dificulta sentir a segurança necessária à uma taurina para constituir uma família – me fez buscar um emprego em algo social. Orientadora social! Concurso de nível médio. Quanto mais eu lia sobre a Política Nacional de Assistência Social mais me apaixonava, me identificava. Fui tomada por uma vontade incontrolável de passar meus dias juntando prática com teoria e de forma lúdica, prazerosa e criativa empoderar as massas oprimidas que se amontoam na periferias. Pimba! Vim parar em Ilhabela. Enredada numa politica confusa. Passados 12 meses não empoderei porra nenhuma, talvez tenha até perdido um pouco do poder sobre eu mesma. Terei que voltar pra esse cenário onde o poder é totalmente desarticulado da execução, não há escuta, há uma gestão top down, aparentemente sem plano nem conhecimento técnico, teórico. E o pior, às custas da saúde emocional do bebe que me foi confiado. 

Terceira crise.

Hoje, depois do seu primeiro (e desesperadamente precoce) banho de mar, ouvi encantada a gestante, mãe de uma guria loira de 2 anos, que nadava nua e se entrosava com todo mundo da praia, como era sua vida no sítio, sem escola, sem emprego, sem internet. Com tempo, com vínculo, com Vida.

Nesse cenário me pergunto aflita, com as costas tensa, a garganta rota, os olhos marejados. Será que eu ainda acredito na Politica Nacional de Assistência Social? Será que eu ainda acredito em uma revolução suave partindo do Estado? Ainda mais depois do impeachment? Será que tenho outras opções? 

Tenho medo da mãe que o cansaço pode me tornar, muito medo, da mãe que eu não quero ser, medo da saudade da mãe que eu sou e dos momentos que não viverei, dos momentos que o bebe não viverá. Tento juntar forças para lutar. Lutar por 6 meses de licença, lutar pela humanização do Estado. Mas me vem uma dúvida, vale a pena? É possível? Talvez a única coisa real seja o alimento crescendo no solo e os momentos vividos com vínculo e liberdade.

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