domingo, 20 de janeiro de 2013

Miopia Social - o mal de todos os males.

Aparentemente o cerne de problemas sociais são políticas públicas inadequadas. Era o que eu achava, que a culpa era de um Estado incapaz de investir de uma vez por todas em educação/cultura, não apenas construindo escola, mas bibliotecas, garantir acesso a internet e por ai afora. Na minha visão a educação resolve grande parte dos nossos problemas sociais. Uma educação digna e completa, onde as crianças carentes, em estado de vulnerabilidade social, pudessem desfrutar de aulas de música, dança, esporte, artes, filosofia. Isso, ao meu ver seria capaz de diminuir significativamente o envolvimento destas com drogas, e outras atividades menos dignas. Para mim, isso faz muito sentido, e eu relaciono a pobreza, a violência e outras poluições sociais à falta de cultura, que é privilégio de poucos. Não acho que o maior problema resida na desigualdade do capital, o dinheiro não deve ser a razão de tudo. Acho que o problema, no caso do Brasil, é que não se chega educação aos menos favorecidos. E o problema é que não é culpa exatamente apenas do Estado.
Tenho percebido a preocupação do governo em estabelecer medidas de inclusão. O problema é o plano sair do papel e enfrentar a realidade. E a realidade é que nossa sociedade está tão doente por ser povoada de míopes sociais.
Pessoas que se julgam boas, mas te olham de cima a baixo, analisam a roupa que você está usando, o contexto em que está inserida para então lhe dar o tratamento "adequado". Pensam que não cometer crimes e pagar impostos é o suficiente para serem considerados boas pessoas e excelentes cidadãos, sem considerar que isso não é mais que obrigação para o convívio civilizado. Os míopes pensam que o fato de algumas pessoas terem uma vida mais confortável nada mais é do que uma combinação de um pouco de sorte e muito esforço, e assim, ficam tranquilos em sua posição, quero dizer, tranquilos em sempre querer subir de posição sem se importar com os demais. Eles passam os dias se preocupando com o trabalho, bolando estratégias para se sobressaírem, com a aparência ou comprando, para poder mostrar isso para os demais e ganhar status. Desconfio de que ter pessoas com menor poder aquisitivo os deixe numa posição maior, e assim, consigam aceitar essa desigualdade com naturalidade.
Para mim é muito estranho pois eu acredito que essa desigualdade, essa opressão não é natural e nem saudável. E defendo investimento em infraestrutura de regiões periférica, algum míope social contra-argumenta:
- Não considero que a existência de melhor estrutura e oportunidade diminuiria a incidência em crimes. Acho que as pessoas são más e preguiçosas, e por isso optam pelo crime. Meus parentes vieram da Europa e trabalharam muito para crescer. Eles poderiam fazer o mesmo.
Esse argumento choca tanto vocês quanto chocou a mim? Uma criança que cresce em uma favela, num ambiente familiar instável, que frequenta uma escola feia e desinteressante, com contato diário com o crime como algo natural, sem acesso a locais da "alta sociedade" a qual a vê com desdém, noje e repulsa, que assiste na televisão um apelo diário ao consumo, com propaganda de itens que ela nunca viu, essa criança, tem alguma possibilidade de comparação com imigrantes europeus? Os quais vieram com educação e cultura consideráveis, fugidos de um período ruim, com ofício praticamente garantido.
Eu fiquei extremamente chocada com esse argumento, não é exagero dizer que dormi mal por algumas noites. Porque em minha visão ele explica porque a sociedade está tão ruim como está. E fiquei estarrecida em notar esse pensamento em tantas outras pessoas. Esse raciocínio faz com que além de as pessoas não cobrarem soluções, ainda desincentivem, ações sociais governamentais, reivindicando investimentos em ações mais elitistas.

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