quinta-feira, 11 de setembro de 2014

O direito de matar

Eis que me deparo com esse inquietante post:
Pensei, curti, descurti, naveguei um pouco, voltei e curti, aí eu descurti, aí eu passei um tempão pensando nisso, no que eu tinha sentido, o que eu realmente pensava.

Sou vegetariana, simpática ao veganismo. Mas, evito o máximo possível doutrinar os outros. As vezes não resisto de me expressar, esses dias a irmã de uma amiga disse (sem muita convicção) que tinha parado de comer carne, não resisti em expressar meu apoio "isso ai, bate aqui". De todo modo, essa é uma conversa que eu evito iniciar e me policio em participar. Pq é chato ter alguém palpitando em algo tão individual, como o que se come. É como o sermão do cigarro. A plantação de tabaco é uma monocultura, expulsa o camponês, altamente tóxica, usa e abusa de subemprego, adiciona-se um monte de veneno e causa um monte de doença, fede, a bituca fica pela rua etc. Mas, parar de fumar é uma decisão que só cabe ao fumante. Ainda que a monocultura de fumo afete a todas as espécies. Então, mesmo que se tenha o direito de fumar, existe a necessidade do debate sobre isso.

O que me incomodou no post, que não consegui curtir foi a comparação escravos/judeus/mulheres/animais. Faz pouco tempo que resolvi parar de comparar a humanidade a animais, sério eu tinha esse hábito de sempre que tinha alguma dúvida pegar um exemplo animal. Cuidado parental, por exemplo. Porque romanticamente eles parecem estar mais "conectados a sábia mãe natureza". E então, animais vivem livres, as aves são admiravelmente anarquistas, ai como os admiro. Só que de algum modo existe uma diferença crucial entre os animais em geral e animais humanos. A consciência de si (tenha sido isso uma evolução ou um erro), o uso da escrita, a busca eterna por conforto, sei lá, algo nos distingue. E mesmo que possamos aprender muito com os mais diversos e admiráveis animais, ainda é ofensivo chamar um ser humano de macaco. Comparar os grupos humanos historicamente inferiorizados com animais foi uma estratégia um tanto infeliz.

Outra ideia implícita que me impediu de curtir foi uma sugestão de linearidade e evolução da luta. Do tipo: conseguimos a libertação dos escravos, salvamos os judeus, e as mulheres tem uma delegacia especifica, agora no nosso mundo cor de rosa podemos nos ater as vaquinhas. Bem, dizer que superamos a escravidão é muito ingênuo, ainda existem relações de trabalho claramente escravagistas e outras não tão claras pelo simples fato de não haver uma prisão física, mas muita gente, em sua maioria negros, trabalham de manhã para comer a noite. Ainda existe perseguição religiosa e mulheres sofrem muita violência, não só física.

Agora, porque depois de descurtir eu tornava a curtir? Para mim é inegável que alguém se apegar ao seu hábito de comer carne a ponto de usar um argumento desse para não se questionar, soa como nos demais exemplos. Sou dono da fazenda e escravos são ótimos para mim, não quero me questionar, não quero mudar, só quero progredir e ser bem sucedido. Gosto de churrasco, e pensar no modo de produção, no impacto socioambiental e no sofrimento animal não me gera vantagens nem lucro, não quero mudar, fim de papo. Eu to bem assim e o resto que se lasque. Não tem uma semelhançazinha fascista pró satus quo, individualista e prepotente?

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