quarta-feira, 26 de março de 2014

A formatura em engenharia

Aproveitando a onda da última postagem, hoje vou narrar as maravilhas da engenharia. Bem, é uma área de exatas, diferentemente do direito, há quem diga se tratar da porção "desumana" de nossa ciência (em oposição às ciências humanas), e em muitos aspectos isso é uma grande verdade.

Mas, aparentemente essa desumanização é um processo longo e demorado. Mesmo estando 5 anos (em raríssimos casos) ou mais dentro de uma sala de aula com professores autoritários que muitas vezes utilizam de terrorismo psicológico, alguns engenheiros insistem em ser humanos. E mesmo estando no espetacular palco do CIDEC, atravessando o grande portal que deixa o universo FURG para trás, não puderam engolir a injustiça sofrida por colegas que, em sua maioria, por merecimento deveriam estar também sobre o palco compartilhado daquele momento.

"Hoje 8 formandos não puderam estar aqui desfrutando essa data tão esperada por nós durante anos. Oito amigos, 8 filhos, 8 jovens que não são menos engenheiros do que nós que aqui estamos. Por causa de uma disciplina mal administrada no nosso curso[...] Não é o primeiro ano que um professor arrogante e despreocupado com os alunos reprova vários formandos."

(não estou conseguindo adicionar o vídeo, o link é https://www.youtube.com/watch?v=6S7l2SRw-As)

Fiquei especialmente tocada, pelo fato de o meu companheiro estar entre esses 8. Senti que de alguma forma eles criaram um vínculo, e que os que estavam no palco, embora felizes por terem concluído o curso não puderam desfrutar o momento de modo pleno, por terem vivido e reconhecido uma injustiça. Essa capacidade de ter o prazer diminuído, a felicidade retraída devido ao sentimento de compaixão, ao reconhecimento que não foi puramente o mérito que te deu aquele momento, mas também a sorte e o acaso, num processo onde sorte e acaso não deveriam fazer parte da equação, esse sentimento é raro e a exposição dele é nobre.

O mais comum é posar bem na foto, exaltar suas conquistas e que se foda o resto. Que se foda quem não passou no exame da ordem, quem não foi agraciado pela correção duvidosa do professor tirano de uma matéria que não existe em nenhum outro curso. Que se foda quem não está na posição que eu estou, quem não conquistou o que eu conquistei. Mas, para essa turma, o "que se foda" vai para quem não quer ouvir a verdade, para quem quer que nos calemos em forma de apoio ao status quo.

É claro que um discurso dessa profundidade sendo proferido no espetacular momento de solenidade, não haveria de ficar por isso mesmo. E o que vemos é um texto bizarro sendo publicado na página da FURG, com destaque em vermelho. Um texto assinado por um professor doutor diretor que poucos viram e raros conhecem:

25/03/2014 - 2071 acessos
Nota da Escola de Engenharia referente à Assembleia Universitária realizada dia 22 de março
A Escola de Engenharia da FURG remonta à criação desta Universidade e há 58 anos vêm formando engenheiros para nosso país, primando pela qualidade acadêmica e pelo compromisso de formar, acima de tudo, verdadeiros cidadãos. A cada ato de formatura se orgulha dos novos engenheiros que coloca a disposição da sociedade para a construção de uma vida melhor para todos.

Entretanto, é com pesar que nesta nota vem a repudiar as acusações proferidas contra essa Escola, na Assembleia Universitária de 22 de março último, por aqueles hoje egressos do curso de Engenharia Mecânica de nossa Instituição, e prestar os devidos esclarecimentos a comunidade acadêmica e sociedade em geral. Tal nota se faz necessária pelo respeito que a Direção da Escola de Engenharia tem pelos docentes, técnicos administrativos em educação e discentes que a integram.

Na manifestação de tais egressos, através de seu orador, engenheiro D. S. L., a Escola de Engenharia foi nominada de “omissa em todas suas instâncias” e “corporativista” no que diz respeito à situação de reprovação de alguns alunos na condição de expectativa de ser formando (condição esta definida pela Resolução 11/2006 do Conselho Universitário).

A Escola de Engenharia realizou TODOS os encaminhamentos pertinentes às ações reclamatórias dos alunos realizados dentro dos princípios da educação e respeito, estabelecendo revisão de provas e até mesmo procedimentos avaliativos substitutivos conforme acordo entre alunos, Pró-Reitoria de Graduação (PROGRAD) e Direção da Escola de Engenharia, resultante do abaixo assinado processo 23116.001564/2014-71. A Escola sempre se prontificou em receber os alunos numa situação de diálogo, desde que este fosse regrado pelo respeito mútuo e educação. Cabe ainda destacar que a Direção também recebeu pais de aluno reprovado em cordial reunião realizada conjuntamente com a PROGRAD. Nestes termos a Escola de Engenharia comprovadamente se defende da condição de omissa na reflexão e busca de soluções ao problema apontado.

Já a infundada acusação de “corporativismo” ofende uma Direção que tem gerido seus docentes e técnicos em respeito ao Estatuto desta Universidade e ao Código de Ética Profissional do Servidor Público Federal (Decreto nº 1.171, de 22/6/1994).

A Escola de Engenharia entende que por vezes a emoção supera os limites da razão, mas não pode deixar de repudiar que uma Assembleia Universitária, a nosso ver tão significativa para estes ex-alunos, tenha sido utilizada para manifestações que visaram denegrir a imagem da Unidade que desempenhou seu papel de servir nosso país ao propiciar a estes indivíduos a obtenção dos títulos acadêmicos de engenheiros mecânicos.

Por fim, em nome da Escola de Engenharia, esta Direção deseja que todos estes novos engenheiros, incluindo aqueles que escolheram a Escola para continuar seus estudos em pós-graduação, alcancem o sucesso profissional e acadêmico, assim como espera dos mesmos uma reflexão madura sobre os fatos ocorridos.

Prof. Dr. Cezar Augusto Burkert Bastos
Diretor em exercício da Escola de Engenharia
25 de março de 2014

Qualquer ser humano que tenha tido alguma conversa franca com qualquer estudante de engenharia pode ter no mínimo umas 5 bizarrices para contar de professores tiranos e desumanos. No caso em especial, temos uma matéria que não faz parte de nenhum currículo de engenharia mecânica no país, é obrigatória na FURG. Ressalta-se, que esse número de 8 na verdade são 11, mas alguns pegaram transferência para PUC para se formar sem a tal da matéria. Desde o início do ano, tendo em vista o histórico da disciplina e que muitos dos estudantes estavam fazendo pela segunda ou terceira vez, procuraram a direção, sugerindo outro professor, outro método de avaliação, que se tornasse optativa.

- Calma, tá muito cedo, vcs tem o ano todo para estudar e passar na matéria. Ela é um diferencial do curso.

E assim seguiu o terror. Estudando como se pode, na prova vinha conteúdo do próximo semestre! As duas questões da prova ofereciam 3 possíveis resultados: 0, 5 ou 10. O questionamento da correção deveria ser feito a um professor inacessível tanto fisicamente, raramente estava na universidade, quanto espiritualmente (não acho uma palavra mais a contento dos materialistas, mas acho que vcs conseguem conceber alguém que está ao seu lado mas sua postura a torna inacessível?!). Acumulados zeros a turma volta à diretoria:

- Ah, mas agora está muito encima, não dá pra fazer nada.

Eu e acredito que a totalidade dos formados e formandos, repudiamos a carta de repúdio do Honorável e Respeitável Professor Doutor Diretor Bastos. E novamente fica claro e óbvio o vício em crucificar quem deveria ser aplaudido, e a negação sistemática de uma auto-avaliação crítica.

Certamente nada vai mudar. Talvez mesmo que fosse ateado fogo em pneus, nada tão pouco mudaria dentro da estrutura do curso. Mas, esse discurso teve um impacto fundamental em algo mais sutil, para mim de extrema importância, o estado emocional dos estudantes envolvidos. Ouvir publicamente de alguém que não tem nada a ganhar com isso (pelo contrário) que se seu filho não está lá não é porque ele é incapaz, porque ele é pior que os outros, mas por uma injustiça cometida por um professor tirano e prepotente e encoberta pelo corporativismo que rege essa escola, faz uma grande diferença para muitas mães desesperadas. Ver alguém começando uma carreira de engenheiro ciente de que existem outras pessoas no universo, que o mérito é muitas vezes a maquiagem da injustiça, e com outros objetivos além de conquistas pessoais me dá uma feliz sensação de leveza e vislumbre de dias melhores!

Agora, professor doutor diretor, de fato as emoções superam o limite da razão! Sugiro que tentes, e que ajude seus colegas a superarem também seus limites. É essa limitação que lhes tem impedido de ver o mundo e o ser humano em sua totalidade, ou próximo disso. O que sempre comentei talvez um auxilio psicológico pudesse ser positivo...

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