sexta-feira, 19 de abril de 2013

Carga horária excessiva

Sempre fico assustada quando reparo o quanto meus cunhados trabalham. Em São Paulo é assim, se você não faz tem quem faça. As jornadas de trabalho extrapolam o limite da razão e é comum um trabalhador chegar do trabalho na madrugada, se sujeitando a sequestros (não é sensacionalismo meu, é um fato que ocorreu). Lembro de ter ouvido um professor comentar que hoje trabalha-se mais do que no período feudal. Acho que eles nem recebem hora extra para isso, mas o salário compensa, foi o que me disse minha irmã.

Mesmo em casos normais, me parece uma jornada de oito horas algo bastante excessivo. A principio tenho receio de defender essa posição e parecer meio folgada. Mas, tenho a possibilidade de auto-controlar minha "jornada de trabalho" no mestrado e percebo que nas semanas que me puxo, chego em casa sem vontade de fazer nada, chego a assistir televisão e comer um lanche. Quando chego mais cedo, cozinho, ponho uma música, me aprofundo em temas políticos, consigo ler um livro e debater ideias com meu companheiro, dá até para passear com os cachorros. Se tivesse cumprido uma jornada de quatro horas, com a tarde toda livre, nossa! Teria tempo e disposição para cuidar da horta, planejar movimentos sociais, realizar trabalhos voluntários, aprender um dote artístico, meditar, enfim, desfrutar e contribuir. Pude aliviar a impressão de "folgada"?

Vim pensando muito nisso. A ponto de imaginar que o desemprego seria muito suavizado com a redução da carga horária, e encontrei inclusive um post de um economista (link) do estadão sobre como a adoção dessa jornada reduzida tem gerado impactos positivos na Alemanha, no lugar de medidas de austeridade para contornar a crise. Acho que no Brasil é dispendioso contratar mais pessoas por menos tempo por ficar a cargo do patrão pesados encargos tributários, o que poderia ser estudado uma forma de dividir isso com o estado, por exemplo garantindo saúde de qualidade a todos não haveria a necessidade de planos de saúde.

Jornadas excessivas são extremamente negativas para o meio ambiente. Como eu disse, com mais tempo livre poderíamos nos inteirar mais e em maior profundidade sobre os assuntos, como a crise ambiental e poderíamos nos identificar com causas que preenchesse nossa vida de sentido e nos levasse a atuar. Pois como dá para notar nesse vídeo muito interessante (link) o que nos motiva mais do que dinheiro é uma causa na qual acreditemos, e a liberdade para atuar nela. No relatório "o estado do mundo" (não me lembro o ano, vale a pena ler todos), o autor sustenta que longas jornadas estão associadas a hábitos menos ambientais e mais fast, usar secadora invés de estender roupa no varal, consumir comidas prontas, aliás consumir tudo, pois gera o que se necessita, um prazer fast e imediato.

Outro ponto a favor do meio período é que o trafego seria menos intenso no horário de pico. Digo inclusive a respeito do transporte público, ficaria menos abarrotado, poderia se usar a bicicleta, com mais tempo. Permitiria uma relação mais próxima de pais e filhos, proporcionando a educação (aquela educação de valores, que os pais passam para a escola a escola rebate para as babás, as babás não sabem o que dizer e a criança se educa sozinha sem orientação), prática de esportes e hábitos mais saudáveis.

No início da revolução industrial a tecnologia parecia vir a simbolizar a diminuição da carga horária e de fato em alguns momentos na Europa fez isso, mas os prêmios em hora extra pareceram se tornar mais interessantes ao longo do tempo. E vendeu-se o tempo livre, a possibilidade de se desenvolver como ser humano, para empresas que não pararam de crescer e aumentar sua produção. Até o ponto em que nos encontramos atualmente. Não houve movimento social capaz de reduzir a marcha, mas, o limite físico parece ser capaz de fazer isso. Não dá para aumentar a produção e não queremos que ela aumente.

Enfim, imagino que um dos pontos essenciais para o alcance da sustentabilidade, e do qual não ouço falar é a redução da jornada de trabalho e utilização adequada do tempo livre. Não dá para separar questão ambiental, de política, de social, de economia, de psicologia, a mudança de um depende e gera mudança em outro. E ao que tudo indica ações ecológicas, sustentáveis exigem mudanças profundas em todos os setores, e são mudanças meus amigos, extremamente positivas e valiosas. Não há a menor razão em temer ou elaborar artimanhas esquizofrênicas para evitar um decrescimento econômico, isso só nos levará a um colapso ambiental, que é ligeiramente mais catastrófico pois sai totalmente de qualquer controle humano.

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