domingo, 19 de maio de 2013

O feminismo e eu

É assim, uma coisa puxa a outra. Quem é inquieta e dinâmica, vai buscando e fuçando, pesquisando e aprendendo, lendo e pensando, sempre tentando aprimorar seu próprio sentido de humanidade. E isso depende de reconhecer a ignorância tão logo ela se desenhe em uma conversa, agarrá-la pelos cabelos e se meter num computador em busca de auxílio para, de uma primeira informação, buscar outra aprimorando sempre conceitos e ampliando o conhecimento.
Nascemos todos ignorantes de tudo, e o maior prazer da vida é esse jogo de identifica e mata essa ignorância. O que é o feminismo? Aos 12 ou 13 anos de idade eu e minhas amigas imitávamos as Spice Girls, catávamos com microfones de desodorante, dançávamos na frente da TV, fazíamos as mesmas poses das fotos, e nos sentíamos motivadas o bastante para ler algumas revistas. E ver a Geri, em especial, defendendo o Girl Power, e falando um pouco de feminismo. Se eu gostava das Spice Girls, e as Spice Girls eram feministas, então eu era feminista fim de papo.

Passou o tempo e meio sem saber muito bem o que era o feminismo, e como o machismo me oprimia segui minha vida. Lembro de uma conversa que teve na aula de coral sobre a marcha das vadias que teria em rio grande. Uma colega disse, ai que nome horrível, isso é a mulher se desvalorizando. Em outro momento meu namo, que eu considero naturalmente mais feminista do que eu disse, penso que se as mulheres querem lutar pelo direito de fazer sexo com todos sem serem rotuladas, como os homens, isso seria nivelar por baixo, não acho legal o feminismo, vocês são melhores que isso e lutarem para ser iguais é querer descer um degrau. Segui numa confusão mental, de fato não acho legal pensar num movimento que lute por oba-oba,  eu até posso acreditar que de fato todos tem direito de se relacionar como quiser, mas fazer um movimento só para isso? E meu irmão, a pessoa mais machista que conheço, e isso porque na minha família todos são machistas, diz que é um absurdo, perdeu isso de a mulher gostar de casa e dos filhos, ela não estão nem ai, assim não dá, etc.

Assisti à um documentário O Riso dos Outros, que me foi libertador em muitos aspectos, mas o que gostaria de destacar aqui é que em um trecho aborda sobre a "piada" do Rafinha Bastos. Ele diz que sempre que vê notícia de estupro a mulher é tão feia que o estuprador merece um abraço. Na época em que ouvi sobre essa piada passou batido, pois cresci num ambiente em que "perdia-se uma amizade mas não uma piada" (por isso o documentário foi tão libertador que sinto necessidade de um post só sobre isso). Mas o documentário se aprofundou e tratou o assunto com seriedade e eu fui convidada a saber mais sobre estupro e feminismo no blog da Lola.

Fonte: O Machismo Nosso De Cada Dia
Estamos imersos em uma sociedade ainda, machista e patriarcal que alimenta a cultura do estupro. Tendemos a culpabilizar a vítima do estupro, eu pensava assim. E ainda me pego tendo que ruminar alguns casos antes de expor minha opinião. O caso da Nicole Bahls do pânico deixou isso extremamente claro, foi praticamente unanime a pessoas que defenderam a ação do cara, porque a bonitona estava de mini-saia e fazia fotos sexuais, digo, sensuais. Ontem mesmo, uma amiga contou de uma história que a guria foi para um banho terapêutico, o rapaz disse para que ela tirasse a roupa (uma vez que ela tinha ganho o banho pois não tinha levado biquini para entrar na piscina termal com o pessoal), ela tirou e ele passou a mão nela (isso é considerado estupro), a outra colega disse "mas que trouxa, porque ela tirou". Essa foi a primeira reação instintiva dela, ela não disse "que cara escroto, porque ele fez isso". Somos levados a culpabilizar a vítima tanto que é mais comum ensinar as meninas a prevenir um abuso (não andar sozinha a noite, não dar papo para estranho, não usar essa roupa) do que ensinar os meninos a respeitarem, a não ficarem parecendo animais quando existe um decote por perto.

E já com esse olhar mais crítico, qual não foi a minha surpresa ao passar um tempo no Uruguai e perceber que lavar louça, cozinhar, alimentar o cachorro e limpar a casa é uma atividade única e exclusivamente feminina. No país o desemprego é mais acentuado do que aqui, e normalmente o homem tem mais facilidade para se empregar. Imagino que isso seja uma sorte, pois desconfio que as que tem emprego devem igualmente trabalhar no lar. Essa imposição rígida de tarefas é medonha. Meus pais são assim, mas ver casais da minha idade em que o marido chega, dá um beijinho, se senta no sofá, pede seu whiskey, e espera pelo jantar é um pouco desconcertante. Quando as meninas viram o Thiago lavando louça, me perguntaram, "ele te ajuda na sua casa" eu de modo muito machista respondi que sim. Pois na verdade ele não me ajuda coisíssima nenhuma, ele nunca me ajudou, nós dividimos democraticamente as tarefas. Parece ser óbvio que se existe uma mulher presente ela tem maior dever de lavar a louça e fazer a comida. Não entra na minha cabeça como tantos homens se mostram absolutamente incapazes de lavar a louça? Parece alguma síndrome, uma doença psiquiátrica, é como se pusesse em dúvida a masculinidade deles.

Outro tema que notei comum na causa feminista é a respeito do corpo feminino. Mulher é esculturalmente digna de comercial de cerveja, as outras "coisas" não são mulheres, são as que pensam. Pois o senso comum de que as vaidosas de academia, que cuidam do cabelo não podem se inteligente também impera. E esse corpinho, desenhado por Deus, tem o obrigação natural de satisfazer aos homens e foi para isso que ele chegou ao mundo, assim sendo, cenas de parto são repugnante, quanto mais machista o camarada, e jamais se amamenta em público. Pois os machistas de plantão não podem sonhar em associar o corpo feminino a qualquer outra coisa que não sexo. O que faz com que muitas mulheres machistas optem por cesária e algumas recusem amamentar. Minha vizinha, que eu nem sei o nome, um dia conversou comigo, com sua filha no colo. Disse que queria parto normal, mas depois ficou em dúvida e optou pela cesária. Ela narrou com um sorriso que seu marido lhe disse "ai que bom, assim você não estragou meu brinquedinho". Essa de associar mulher a corpo é motivo de infindáveis conflitos com quem tem que passar por mastectomia. Fomos criadas a depositar nossa feminilidade ao seio, teria então se tornado menos mulher quem passa por uma cirurgia dessa? Angelina Jolie, novamente sendo citada nos meus post, fez a cirurgia, pois teria alta probabilidade de apresentar câncer, como contra o qual sua mãe lutou por 10 anos. A atitude da atriz despertou diversas piadas infelizes...

Enfim, eu nem sequer cheguei a abrir um livro (ainda), mas minha ignorância sobre o feminismo está menos turva. Feminismo não são mulheres ávidas por sexo, que querem poder fazer muito sexo sem ser rotulada, é quase o contrário, a garantia do direito de recusar e o reconhecimento que esse processo precisa de ser uma decisão tomada a dois, sinceramente. Não é contrário de machismo, tentar dar mais poder ao homem, mas sim, a busca por um equilíbrio harmônico. Não é guerra dos sexos, existem louváveis homens feministas e infelizes (e ignorantes, como era o meu caso) mulheres machistas. Estou encontrando minha própria posição nos debates, e identificando atitudes machistas e opressoras. O que é muito empoderador. Sabe quando tem um comentário que de repente nos deixa mal sem nos darmos conta, o que na sua adolescência poderia desencadear uma crise depressiva?! Agora, com alguma informação posso identificar uma situação machista e me sinto mais segura de colocar meu ponto de vista numa atitude do tipo "aqui não, violão". Gostaria que todas as pessoas pudessem identificar e analisar o machismo em suas vidas, e provavelmente se libertar dele com um aberto sorriso nos lábios.  Aliás, os homens também devem se libertar do machismo, pois também os aprisiona em um comportamento padrão. Sair dos padrões pré-estabelecidos e agir de forma consciente consonante com suas próprias ideologias e não por uma imposição social é caminho certeiro para a felicidade e realização!

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