sexta-feira, 24 de maio de 2013

Liberdade de opressão

O CQC foi novamente alvo judicial de "politicamente corretos", dessa vez depois de expor o senso comum de que portugueses são racionalmente limitados.

Fonte: http://ryotiras.com/

Eu sempre achei frescura isso de "censurar" piadas. Minha família só se comunicava por meio de piadas, e tiração de sarro. Não tinha essa de não gostar "rasgou perdeu a razão". Eu sou a caçula, constantemente motivo de piadas. Também fazia muitas piadas, me considero boa nisso. Tirava sarro de todos, e todos tiravam de mim. Talvez isso tenha contribuído com minha insegurança e senso de inferioridade que muito me deprimiram na adolescência. Mas para mim isso era normal, legal, o modo de se relacionar com as pessoas. Maliciávamos tudo o que era dito, os típicos comentários "desculpa pôr (colocar) tudo", "desculpa (deixar) as bolas foras", etc eram comum com qualquer um em qualquer idade e tinha que ser esperto, se ligar e mandar uma resposta a altura. Era assim que funcionava.

Até que no cursinho, me apaixonei fui correspondida e comecei a namorar um gatinho. Passado o período de tudo lindo, comecei a notar que havia alguma coisa errada... Prestando bem atenção, vi que ele não ria quando era zoado. Ih... será que isso mostra a prepotência dele?  Orgulho, vaidade, se melindrava a toa? Os pensamentos não eram tão claros assim, eram mais sentimentos indefinidos. Passei a encarar um conflito interno. A minha posição era de que ele deveria mudar, mas para evitar embates passei a tentar evitar fazer chacotas com ele.

Na facul, passei a reparar que ninguém era tão malicioso quanto eu. No início me senti um máximo, sou a mais ligeira! Mas, o tempo foi passando, como uma observadora nata, fui observando, reparando como me sentia mal depois de zoar alguém em público. Reparei como o clima na casinha com meu namorado era melhor sem tiração de sarro. Até que, o ápice da minha transformação foi assistir ao documentário "O Riso dos Outros". UAU. Eu já vinha trabalhando eu mesma no sentido de maneirar nas piadas, me esforçar para nunca ofender ninguém, tratar os demais com o máximo de respeito. Não para ser louvada no reino dos céus, mas para deixar a vivência mais agradável, quando se sente respeitada a pessoa se sente mais a vontade, mais segura e expõe o melhor de si. Esse documentário me orientou demais. 

Alguns criticam que hoje tudo é bullying, antes todos tinham apelido, ninguém reclamava e eram felizes. Eram mesmo? No caso da minha família eu não cogitava nem a hipótese de questionar. Quando eu chorava era muito pior, eu aprendi a engoli, a ser "forte", a fingir uma felicidade por falta de opção, assumir um estado depressivo só afastaria ainda mais as pessoas me deixando ainda mais depressiva. É isso que pode deixar acontecer se não estivermos sempre atentos, nos transformarmos num "casca grossa" de miolo oco. 
Pus o documentário para meu pai, irmão e namorado assistirem, idealizando que tocassem a todos como tocou a mim. Em seguida debateríamos o tema, nos amaríamos e respeitaríamos em profundidade. Numa das primeiras cenas meu pai disse "ah, eu vou deitar, ver esse veado falando esse monte de abobrinha não dá"... Meu irmão ficou até o fim. Ele teve uma vida agitada depois de nossa convivência na infância, juventude. Morou no Uruguai, em Londres, passando perrengues inimagináveis. Tem uma cabeça bastante aberta e apesar de certas divergências consigo conversar com ele. Na Europa ninguém fica rindo a toa, zoando os outros, fazendo piadas de política, classes e etnias. Ele me disse, apoiando essa atitude.

Aqui não. Depois de comentar um post do Tas, dizer que me parece cruel zoar alguém e não aceitar nenhuma reação além de gargalhada e aprovação ele me respondeu: 
"Obrigado, Évellin, mas cruel mesmo para mim é a seriedade com que tratamos as coisas absolutamente triviais, como patrulhar piadas, enquanto o mundo desaba à nossa frente." 
Não sei se fui bem clara na minha argumentação. Respeito ao próximo não é nada trivial. Fortificar a ideia de rivalidade, de superioridade não é trivial, é quase uma tortura psicológica. Se por algum motivo nossa sociedade menospreza de maneira aberta sentimentos mais complexos, eu sinto muito, mas não significa que são triviais. Ainda mais nessa questão que envolve nacionalidades, relações diplomáticas, onde tudo interfere nas relações comerciais. A questão não é "patrulhar piadas", é buscar mudar um senso comum injusto e secular. Vocês sabiam que "gaúcho" era um termo pejorativo no Rio Grande do Sul, dado a uma grupo de excluídos  antes da farroupilha? Ademais, o Tas tem consciência de que o "mundo desaba na nossa frente" e fica fazendo piadas estereotipantes?!  Eu tenho consciência de que assuntos mais graves devem circular no sistema judiciário. Nesse sentido tenho duas colocações, uma é que deveria haver uma outra ferramenta para esse tipo de crime, e a outra é que não sejamos ingênuos minimizando a gravidade e profundidade do assunto. Tudo está interligado e tem um efeito em cadeia, ainda mais atualmente que pouco se entende de sentimentos. Opressão gera um mal estar, raiva, ódio, que pode se manifestar de outra forma, de maneira crônica, e não linearmente numa revolta dos portugueses que foram taxados de burros...

O ponto defendido na charge que o Tas postou e nas outras respostas foi o de que em Portugal se faz piada de brasileiros (?) Ai é que a coisa ficou totalmente obscura para meu modo de raciocínio, talvez pouco usual. Bem, então existem piadas que fortalecem a imagem de que brasileiras são putas, e por isso ganhamos o direito de fazer piadas que portugueses são burros?! Eu não entendi, quem defende esse argumento se ofende ou não com as piadas que brasileiros sofrem em Portugal? A sensação que fiquei é que as pessoas não apenas são preconceituosas, mas elas tem orgulho disso, e querem ter direito de serem e expressar todo seu preconceito, por mais que seja um preconceito supostamente de mentira, só para dar risada. Se o preconceito não existe, qual é a graça?

Por fim, imagino que devemos ter garantida nossa tão louvada liberdade de expressão, só não temos liberdade de opressão. O que é mais assustador ainda, chegamos no ponto em que é raro quem consiga conversar sem oprimir, sem ofender. É raro quem consiga falar em público sem ser processado. É raro quem consiga fazer humor sem usar os mesmos esteriótipos de centenas de anos. E é comum quem sinta falta disso e tenha que buscar auxílio psicológico.

Mas, imagino que a coisa vai mudando, a sociedade vai amadurecendo. Ideias comuns de outrora são encaradas como absurdos atualmente, pelo menos para a maioria das pessoas. E viva a metamorfose ambulante que eu mesma experimentei e relatei aqui! Vamos seguindo, aprimorando conceitos, refinando a relação e nos abrindo para as novas ideias e opiniões alheias!

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