quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

A compaixão seletiva

Fiquei bastante confusa esses dias, vamos ver se consigo nesse espaço mágico me esclarecer. 
Pelo facebook soube que um cinegrafista foi atingido em uma manifestação. Não é o primeiro, meu estomago sempre se contorce e um frio sobe minha espinha, devo confessar que pelo costume direcionei minha raiva à PM. Com o tempo soube que foi um manifestante que acendeu o rojão que atingiu o cinegrafista. 
Nesse mesmo tempo, soube que um jovem foi torturado e preso pelo pescoço num poste, com um cadeado de bicicleta, nu. E que uma jornalista apoiou a ação em nome da segurança, e enalteceu os mentores compreendendo a ação dos cidadãos de bem, dos justiceiros.
Em tempo, "existem cerca de 170 mil pessoas removidas por conta das obras da Copa, atingidas em seus mais elementares direitos humanos. Cinco trabalhadores da construção civil morreram nas obras, por causa da urgência, mas fundamentalmente das condições de trabalho, as mesmas precariedades já denunciadas nas obras do PAC."
Advinha qual dessas situações é mais comentada pela mídia, e consequentemente inspira maior compaixão?
Pelo google uma buscadinha por notícias me fornece, aproximadamente:


Só para constar, busquei notícias de Amarildo e obtive 5.000 resultados, em 0,47 segundos.
Well, o que isso pode nos dizer?

Independentemente de posições políticas. Supondo que você odeie o Black Bloc, que ame o sistema capitalista, que acredite piamente que seja o melhor sistema possível no momento. Que você acredite firmemente que a pobreza reside na falta de vergonha de alguns vagabundos que preferem morar em favelas do que trabalhar, ao contrário do dedicado "cidadão de bem". Imagine que você não tenha dúvidas de que o crime é fruto unicamente da índole dos cidadãos, de que o meio não exerce influência alguma. Que todos tem oportunidades iguais e o que os diferencia é unicamente o esforço e a dedicação com que se entregam ao trabalho. Suponha que tudo isso que eu disse é a mais puríssima verdade, farei um esforço sobre humano para essa suposição, mas vamos lá.

Nesse caso, de fé no sistema, desaprovamos qualquer sugestão radical de mudança, quer dizer, até devem haver alguns ajustes, talvez uma punição mais ágil no caso de crimes, a diminuição de impostos, a menor intervenção do Estado no mercado que se auto-regula, quem sabe? Tudo o que pode ser conquistado naturalmente por meio da diplomacia dos que estão no poder, não por ganância, claro, mas por competência técnica e capacidade altruística de buscar o melhor para todos.

Com esse cenário montado, você vê em algum lugar um nome escrito Amarildo. Que diabos, vc pensa, o que isso tem haver com uma manifestação contra o aumento da passagem de ônibus? Aí vc fica sabendo que o Amarildo era um rapaz que, apesar de ser pobre e morar numa favela, trabalhava de pedreiro e foi sumido pela polícia (representante do Estado, aquele que toma as decisões visando o bem estar da sociedade). O que você sente? Me diz, pelo amor da Deusa que vc sente compaixão, sente um frio no estomago, por favor, me diz que você pensa que isso foi injusto. Que vc concorda que não é papel da polícia julgar, executar, sequestrar, torturar, nem pobre, nem preto e legalmente nem bandido que rouba, mata, estupra, nem que seja pedófilo, a polícia não tem poder legal para fazer isso. A mesma lei que impede o tráfico e o roubo, impede que a polícia mate. E por isso vc fica indignado com a morte trágica e cruel de um pedreiro o qual a família nem sequer pode velar. Aí vc lembra do filme que vc assistiu no cinema, que era baseado em fatos reais, onde isso (tortura e assassinato) é mostrado como uma prática normal da polícia. E pensa que talvez nem todos que foram para o saco eram bandidos, alguns podiam estar indo à escola (lembrando, mesmo que fossem todos traficantes, violentos, assassinos, estupradores, não é função da polícia julgar e executar pena, conforme a mesma lei que proíbe o tráfico, roubo, etc).

Mas, mesmo sabendo disso, ainda supostamente achamos que isso é uma falha pontual, e não sistêmica. Aliás, isso justifica o próximo caso, o dos "justiceiros" que em busca de proteger o cidadão de bem espancaram, torturaram e prenderam em via pública um jovem (advinha a etnia e classe social? preto e pobre! bingo) por suspeita de furto, isso porque a violência seria oriunda da falta de medidas mais firmes. Bem, é claro, que vc, um ser humano dotado de compaixão e que já refletiu sobre o caso do Amarildo, reconhece que sendo falha ou não, existe lei (lembra, a mesma lei que classifica que usar crack e furtar é crime e vc gosta dessa lei, pq vc também é contra furtos), e que pela lei o bandido pego em flagrante não é torturado, espancado em praça pública, ele é tratado como uma pessoa e encaminhado à uma delegacia, onde será aberto um processo. Então, vc, dotado de compaixão, ainda que supostamente acreditando que quem furta é um mau caráter que simplesmente foge das responsabilidades do trabalho honesto, sente pelo jovem. Você no fundo do seu coração, se põe por alguns instantes sendo espancado e preso nu pelo pescoço, por quem definitivamente não precisaria fazer isso. Novamente eu peço que por favor, pelo amor da Deusa, vc me diga que não sente prazer em ver alguém amarrado nu pelo pescoço, sem uma orelha, por favor, me diga que vc reconhece que vc não exerce a função de juiz e que portanto, como cidadão que se defronta com uma cena dessas vc não julga, nem que o bandido mereceu, nem que a culpa é do sistema capitalista, voce simplesmente sente compaixão por outro ser humano, dotado de sentimentos, assim como você ele sente dor, sente medo, sente humilhação. E acaba de passar por uma experiência profundamente traumatizante.

Você também fica sabendo que pedreiros morreram nas obras da copa, e que pessoas (familias para quem se toca mais com esse termo) perderam o pouco que tinham (uma casinha, com uma história, uma identidade, vizinhos conhecidos) para obras de um campeonato de futebol. E mesmo achando que futebol é legal pra caramba, mesmo supostamente achando que a copa vai trazer dinheiro para o país, e oportunidades sei lá eu quais, eu diria prostituição infantil, mas tá, que seja no turismo, enfim. Ainda assim, me diga por favor que você sente por essas pessoas. Apesar de a maioria ser negra e ter uma feição que lembra a pobre, seria um distante parente indígena? e mesmo supostamente, sendo pobre sinônimo de malandro e vagabundo. Por favor, me diga que vc sentiu muito. Sentiu por serem seres humanos numa situação ruim.

E justamente por isso as manifestações continuam, e vc continua não gostando delas. Não mais por não saber quem é o Amarildo, ou todos os seres humanos injusta, ilegal e inapropriadamente assassinados todos os dias pelo Estado. Ah vc já sabe disso, sabe muito bem, já leu manchete dizendo "por que o senhor atirou em mim". E vc sente por isso, sente compaixão por esses seres humanos, lembra? Você não gosta das manifestações, não tanto pela pauta, mas pelo modo com que elas são conduzidas. Você simplesmente desaprova o modo hostil de alguns manifestantes, assim como desaprova o modo hostil com que o BOPE entra em uma comunidade carente, não é mesmo? Ainda que a relação de poder seja invertida (quem exerce mais poder na sociedade bancos ou manifestantes, braço armado do estado ou favelados), ainda assim, sua desaprovação é igual.

Você fica sabendo de um cinegrafista que foi atingido por um rojão, por favor, me diga que sua compaixão já começou aqui, por favor, me diga que ela não aumentou quando vc soube que quem acendeu o rojão foi um manifestante. Me diga que sua compaixão não depende de quem pratica a injustiça, me diga que sua compaixão é com o injustiçado. Me diga que como eu, quando você pensa na morte do cinegrafista vc sente por sua família, não pela morte pois essa é algo natural, mas pelo modo brusco, violento e precoce com que ela ocorreu. Por favor, me diga que sua indignação contra quem acendeu o pavio não é maior do que contra quem assassinou o Amarildo, ou o "senhor" que atirou no jovem. Me diga, que vc tem consciência que se o movimento deve ser criminalizado,questionado e repensado por essa morte também a PM deve ter sua existência questionada, criticada, repensada pelas inumeráveis mortes diárias, que o futebol que perdeu um integrante da sua torcida por um rojão é igualmente passível de críticas e reflexões.

Por favor, só não me diga que sua compaixão depende da cor, classe social e ocupação do injustiçado e de quão próximo ele está da sua realidade social. Eu te peço, só não me diga isso.

E obrigada por acompanhar o desabafo afoito e levemente desesperado.

Um comentário:

  1. Quanto a parcialidade de indignação e compaixão nas mortes dos protestos, e a respeito da grandiosíssima ideia da lei antiterrorismo:

    http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/152720-os-vivos-e-os-mortos.shtml

    "Como nada foi feito a respeito das exigências de melhores serviços sociais, contra os gastos absurdos para a realização da Copa do Mundo, por democracia efetiva, melhor pedir para senadores do porte moral de Renan Calheiros (PMDB-AL) que aprovem uma lei antiterrorista."

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