terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Saber morrer


Li certa vez que o propósito da vida, para os budistas, pode ser resumido em aprender a morrer. Isso estava inserido num texto longo, com letras destacadas. A ideia me chocou, não tive tempo de ler o texto todo. Fiquei matutando sobre essa frase. Justificar a vida pela morte, como isso é possível? A vida é muito mais que a morte, a morte é um aspecto negativo, é o fim, é o horror. Para todos os lados que olho só vejo vida, não há espaço para morte que é ignorada sistematicamente. Conclui então, que esse era um conceito muito simplista da vida, além de macabro, pessimista e desencorajador. Minha fascinação pelo budismo diminuiu e segui exaltando a vida e ignorando a morte.

Mas ignorar não altera o fato de ela existir. E no fim desse ano ela fez questão de me lembrar disso. Primeiro um cachorro, grande e amarelo que, velho, arfava na cozinha. Depois uma avó, muito vaidosa e rica, colecionava fotos das mais diversas viagens sempre com belas roupas caras e volumosos cabelos loiros. Foi ficando esquecida, sentada num sofá olhando para televisão, repetia uma palavra ou outra, sem saber onde e com quem estava. Por vezes chorava dizendo ter apanhado de sua mãezinha. Da última vez que "conversei" com ela, me repetia "tem que ser firme. é firme. firme".
Às vezes me punha a me perguntar se era bom ou ruim não ter consciência da aproximação do momento final, da hora da estrela. Mas o fato é que penso que ela na verdade sabia o que se passava, mas não podia expressar. E então, se aproximando ainda mais, a internação do sogro, que com quase 70 havia recém tirado uma metástase do cérebro. Agora ele recebeu alta e encontra-se estável. O hospital onde fui visita-lo por toda a última semana é exclusivo para sêniores, muitas pessoas vivem seus últimos dias lá. Sem objetos pessoais, conhecidos, com história. Um quarto estéril, neutro com luz fria e cheiro de doença. Com agulhas enfincadas na pele, recebendo comida pelo nariz e ar artificial. Sendo assistido por desconhecidos que rotineiramente tocam para monitoramentos que machucam. Sem poder de decisão sobre seu próprio corpo e destino. Até onde devemos afastar a morte? 

Já nesse início de 2015, outra avó se foi. Me tornei próxima dela ao procura-la para ouvir sua história. Ela também estava enfrentando um câncer que lhe tirava as energias. Tanto que esse ano ela não pode se banhar no bravio mar, mas até 2013 se banhava todo o verão. A lucidez dela, beirando os 90, me espantava. O brilho no olhar quando sobre política, luta contra as injustiças. Mesmo dos seus anos presa, por causa da ditadura, conseguia exprimir as experiências sem drama, com serenidade e dignidade. Presa por atentado contra União ela era educadora de uma escola pequena que vinha apresentando resultados positivos. Os quais até hoje ela não vê igual. Ainda! Na educação o golpe foi duro. Em dezembro conversávamos por horas, enquanto me ensinava a fazer ambrosia, caminhávamos ou enquanto ela se encostava com o corpo cansado o peito chiando mas a alma serelepe saindo pela boca, se exibindo no brilho dos olhos. Em janeiro, houve uma piora no seu quadro físico e dentro de 5 dias já não usava mais o velho corpo.

Ao acompanhar todas essas experiências minha perspectiva muda. Tenho medo da morte, muito medo, mas tenho ainda mais medo de como isso pode ocorrer. O desconforto físico de perder a capacidade de caminhar, excretar, se comunicar. Agulhas furando a fina camada de pele para estourar veias ainda mais finas e sensíveis. Somando isso ao desconforto imaterial, rancores, mágoas, remorso e arrependimento. Essa transição pode se tornar uma árdua e torturante expiação, que estamos acostumados a observar em nossa cultura ocidental. Mas será que pode ser um processo natural, tranquilo e quem sabe até bonito?

Passei a me questionar como construir alguma estrutura para que essa experiência ocorra de forma positiva. Percebi então, que mesmo sem me dar conta, a morte já vem guiando meus passos. E tudo o que considero de grande valor, e pelo que me dedico, é justamente o que pode me proporcionar uma morte suave e tranquila.

Conhecer
O desconhecido é sempre temido. O que é a morte? O que é matéria? O que temos/somos de imaterial? Essa parte imaterial morre? Essas e outras tantas questões me levam a leituras diversas. E não encontro na ciência essas investigações, corro então pra religião e misticismo. Embora, devo reconhecer, encontro muito mais sobre a vida do que sobre a morte em todas as leituras, ainda assim, estão sendo de grande valia.
Com esse conhecimento consigo ver a transição de pessoas queridas com uma certa tranquilidade, e em alguns momentos posso até pensar na minha sem o pânico aterrador.

No corpo físico
É bem verdade que hábitos saudáveis aumentam nossa qualidade de vida. O que por si só já basta, mas alguns malefícios vem a longo prazo. O açúcar, a gordura, parecem inocentes saborosos. Horas e mais horas de cadeira no ar condicionado - lendo, estudando, trabalhando, assistindo, brincando - passam rápido. Mas é nos 80 que as articulações travam, o rim reclama, o hospital vira favorito no gps, e a coisa só piora...

Relações humanas
Aqui tem duas partes que se mesclam, mas separei. Uma mais individualista, que tem dois pontos, e outra holística, que pus abaixo.
Primeiro ponto, não é uma fada madrinha que vai por pessoas na sua volta. Cheias de amor, admiração e carinho. Esses sentimentos devem ser conquistados, nutridos, fortificados.
Um outro ponto é não ter rancores, arrependimentos e frustrações. Acho que devemos analisar esses sentimentos, identificar sua causa e transmutar as experiências negativas! Conseguir aceita-las como parte de nossa história e extrair as lições positivas.

Sentir dignidade na vida
Possivelmente, no processo da morte faremos um retrospecto do passado. E, analisando o mundo agora, com toda minha sanidade e capacidade moral e intelectual, me parece que "trabalhei e eduquei meus filhos" não é suficiente. As relações pessoais são importantes, como apontado acima, só que somos indivíduos dentro de uma sociedade. Não exercemos influência apenas dentro de nossa família e círculo social, exercemos influência na sociedade e ambiente ao compramos algo que satisfaz um desejo pessoal, mas explora e oprime outras pessoas e extirpa os bens (recursos) naturais. A ânsia por ter (coisas e experiências pessoais) ignorando seus efeitos impactos, mesmo com acesso a informação, pode agravar uma crise de consciência tardia.

Acho, então, que minha primeira analise do conhecimento budista é que foi supérflua. Aprender a morrer é muito desafiador e possivelmente menos individualista do que parece numa primeira analise.

Espero que todos possamos chegar a esse momento saudáveis, satisfeitos e felizes.

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