domingo, 3 de janeiro de 2016

Calar e sorrir

Em sua boca devidamente (exaustivamente) bem cuidada um belo e doce sorriso. As poucas palavras que dizem são amorosas para concordar ou demonstrar interesse entusiasmado pelo que escuta. E tudo assim está em ordem. Não se ofende quando respostas ríspidas dão a entender a estupidez de sua pergunta, apenas sorri. E assim faz se a harmonia. A custa de suas palavras não ditas, de seus sentimentos sufocados no peito, de seus sentimentos anulados e reprimidos. À isso chamam-se paz, da qual a oprimida é proibida de participar.

Em uma sala com 7 mulheres e três homens, observei um tanto incomodada, como a palavra era pronunciada pelo sexo masculino em 90% do tempo. Ele discursava defendendo o feminismo, sem abrir espaço para manifestação feminina. A cada vez que uma de nós tentava pegar a palavra e participar da conversa, não havia escuta. Eu sentia minha boca sendo esmurrada diversas vezes, perdia os argumentos e as histórias e experiências que gostaria de narrar com o propósito de enriquecer a conversa e participar. Isso me deixava tão nervosa que as poucas coisas que consegui dizer sairam num tom histérico e agressivo, enxugado e resumido para poder ser concluído nos poucos segundos de atenção que eu receberia.

Raros são os espaços em que me sinto escutada. Enquanto por outro lado sou firmemente obrigada a escutar com atenção, interesse e respeito a todo o momento, todas as pessoas. Mesmo quando as ideias proferidas me ofendem. Calar e sorrir, em nome da harmonia. Se porventura me arrisco a manifestar alguma discordância logo me sinto reprimida, deliberadamente ou sutilmente. É difícil colocar isso na mesa, dizer: pare de me oprimir, se interesse pelo que tenho a dizer.  Os opressores num tem nenhum interesse em saber o significado da palavra opressão.

Em alguns períodos, talvez por influência da lua abro mão do silêncio, me empodero, passo a falar e expor minhas ideias começo a perceber que vou gerando um certo desconforto, vai se criando um clima tenso, como se minha presença provocasse uma imensa desordem, um caos vibracional interceptivo aos sentidos da matéria. Me sinto transportada à um cabo de guerra, um jogo de forças invisível, que só se ameniza quando retorno à posição que me é imposta: calar e sorrir e escutar. Ainda em 2016 não se espera de uma jovem que possa ter ideias interessantes, uma opinião que valha a pena ser ouvida, informação nova, nada, a não ser que o assunto seja dicas de beleza, moda e decoração. Espera-se apenas um rosto bonito, um sorriso agradável e ouvidos que escutem interessados e admirados nos assuntos importantes que fogem de seu raciocínio próprio.

No meu meio social o machismo não se mostra. Fica bem oculto. Não há espancamentos, e eu, enquanto mulher de união estável, sem perfil de hollywood não me sinto posta como objeto sexual, mas recebo diariamente inúmeros murros na boca, tão intensos que sou mesmo levada a crer que não tenho nada a dizer de tão desinteressante que sou, mal gosto que tenho e desinformada. Me parece mesmo que nesse tempo e no espaço em que vivo a atitude mais feminista e subversiva que existe é escutar com interesse uma moça. Algo que de tão raro só encontro entre moças do meu círculo social.

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