sexta-feira, 8 de março de 2013

Desmistificando Gandhi

Mais um gostoso presente do hábito de bisbilhotar a biblioteca da facul foi descobrir um pouco mais sobre essa pessoa fantástica chamada Gandhi.

Primeiro eu li a biografia, depois eu assisti ao filme, e acabei de terminar a leitura da autobiografia.
No auge de minha ignorância eu esperava ler sobre uma pessoa transcendental, não sei explicar bem, mas eu imaginava ele como alguém iluminado a quem as respostas chegam de maneira miraculosa. Fiquei imensamente surpresa em encontrar nas páginas escritas o reflexo de uma pessoa comum, bem, basicamente comum. O que diferencia Gandhi dos demais mortais não é nada miraculoso, é apenas sua sincera e incansável busca pela verdade (o que o levou a desenvolver o Satyagraha). Foi fácil me dar conta de que esse "apenas" é muita coisa.

Mas o que quero dizer é que ele não foi um enviado divino com discursos e condutas impecáveis, pronto à guiar todos os seres rumo a boa conduta moral. Ele foi se moldando e se formando com o tempo. Se formou em direito em Londres e por algum tempo exerceu a profissão na Índia, lá na Africa sofreu um "choque de realidade" ao reconhecer como eram desprezados os indianos. A partir de então passou a ter uma participação cada vez mais ativa para reverter esse cenário. Defendendo causas de interesse social de graça, escrevendo a jornais etc. Tudo o que ele defendia ele acreditava a ponto de viver isso (o que tem sido raro encontrar nas pessoas de hoje que defendem ações completamente contrárias a seu modo de vida, por uma razão ou outra, como ditos comunistas podem viver de modo opulento ao lado de miseráveis famintos é algo que me perturba...).

Aliás, a autobiografia foi escrita aos poucos em capítulos. Sua dedicação à comunidade chegou a tal ponto que o tempo dedicado a si era ínfimo. Como haviam solicitado que escrevesse à um jornal e amigos de confiança pediam para que registrasse a parte não pública de seus feitos políticos na forma de uma autobiografia, ele foi escrevendo os capítulos no periódico.

É engraçado que em algumas passagens fiquei impressionada pelo fato de ele se revelar tão estrategista, ele identificava atores chave e estudava a maneira ideal de abordá-los para conquistar suas causas. Também costumava articular ideias com vários amigos. Essa é uma dificuldade do livro citação constante de diversos nomes indianos e árabes que nunca ouvi dizer.

Ao longo do livro ele aborda questões como alimentação, ele comeu carne escondido um período de sua adolescência se deixando levar pela influência de um "amigo". Mas manteve-se vegetariano, até que optou por deixar temperos, sal e por fim até legumes e vegetais. O que parece ter causado certos problemas intestinais. Com essa dieta ao se hospedar com amigos reconheceu que causava certo desconforto entre os anfitriões, que dispunham enorme variedade de frutas e castanhas, acabou por considerar comer apenas 5 exemplares por dia!

Quanto a prática religiosa, ele leu a bíblia e o corão, conversou honestamente com católicos e muçulmanos, mas seus princípios se afinavam mais com o hinduísmo  E lia regularmente a Gita, e permanecia em oração em todo momento de sua vida. Nesse sentido eu comprei um outro livro fabuloso denominado "A roca e o calmo pensar", com trechos de cartas, discursos e artigos do Gandhi sobre a prática e importância da oração.

Enfim, vai sendo narrado de forma simples e humilde, passagens de sua vida e os fatores que o levaram a realiza-los. Nota-se que uma série de vivências e opções foram lapidando esse ser humano aparentemente livre de ego. É interessante notar as grandes conquistas políticas alcançadas com ações totalmente livres de violência (pautadas em boicote, greves - verdadeiras, não-cooperação, desobediência civil - considerando a existência de uma lei superior a nosso ser, a voz da consciência).

Em trecho ressalta que "civilidade não significa mera gentileza e fala cortês, mas amabilidade intrínseca e desejo sincero de fazer o bem ao oponente".

Vou citar parte do capítulo final:
"Tem sido um esforço incessante descrever a verdade como ela se apresentou a mim, e o exato modo como a alcancei. Esse exercício tem me proporcionado uma inefável paz mental. Minha experiência me convenceu de que não há outro Deus senão a Verdade. E se todas as páginas desse capítulo não proclamarem ao leitor que o único meio para a realização da Verdade é o ahimsa (não-violência em todos os aspectos, pensamento, sentimento e ação), devo concluir que todo meu trabalho foi em vão. E, mesmo que meus esforços sejam infrutíferos, quero que os leitores saibam que foi o veículo, e não o grande princípio, que falhou. Depois de tudo, por mais sincera que tenha sido minha busca pelo ahimsa, ela não deixa de ser imperfeita e inadequada. Mas posso assegurar que como resultado de minhas experiências, uma perfeita compreensão da Verdade só pode resultar da completa percepção do ahimsa.
Para ver face a face o Espírito da Verdade universal o indivíduo deve amar a mais insignificante criatura como a si próprio. E um homem que quer chegar a isso não pode permanecer fora de nenhum campo da vida. É por isso que minha devoção à Verdade me levou ao campo da política. E posso afirmar, sem a menor hesitação e ainda assim humildemente, que aqueles que dizem que religião não tem nada a ver com política não sabem o que significa religião.
A identificação com tudo o que existe é impossível sem uma autopurificação. Sem ela, a observação do ahimsa permanece um sonho vazio. A autopurificação, portanto, deve implicar a ascese em todos os aspectos da vida. Para atingi-la, o indivíduo tem de se tornar absolutamente livre de paixões em pensamento, palavras e ações. Precisa elevar-se acima das correntes opostas de apego e ódio. Sei que ainda não tenho dentro de mim essa pureza, por isso que os elogios do mundo não me comovem, na verdade com muita frequência me doem.
Conquistar essas paixões sutis me parece mais difícil que a conquista física do mundo pela força dos braços. Tenho tido experiências com paixões latentes, escondidas em meu interior, o conhecimento delas fez com que me sentisse humilhado, mas não vencido. Sei que tenho um caminho difícil a transpor. Devo reduzir-me a zero. Enquanto o homem não se colocar por livre e espontânea vontade como a última de todas as criaturas não há salvação para ele. O ahimsa é o limite máximo da humildade."

Não é fantástico que ele exponha se modo tão sincero seus monstros, e que também ele estivesse em constante esforço pelo aprimoramento pessoal? Acho que o primeiro e principal passo é nos esforçarmos em busca do aprimoramento moral. O que me faz lembrar a citação que li num e-mail hoje "Somos o que fazemos, mas somos principalmente o que fazemos para mudar o que somos".

É até divertido pensar na vida como um jogo de vídeo-game, no qual iniciamos com certos defeitos dos quais devemos nos libertar ao longo das fases! Mas um jogo muito mais dinâmico, onde defeitos que pareciam ter sido superados retornam com maior amplitude, e outros são vencidos sem nos darmos conta, pois são superados ao nos focarmos em outros assuntos que não o defeito em si, como ações comunitárias.

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