quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Artigo: Por que querer uma ciclovia?

Foi com muita emoção que na segunda feira vi meu nome escrito no jornal! Não na página policial, claro. Foi um artigo que enviei ao jornal local. Vou dizer um pouco da "história" do artigo:

Em 2007 quando nos mudamos para Rio Grande eu e meu namo ficamos impressionados com o potencial da cidade para a utilização de bicicleta como meio de transporte. É tudo plano! Claro, viemos a descobrir que por vezes o vento forte exerce o papel de "subida". De nosso bairro até a faculdade existe apenas 15Km de uma enorme estrada. Fizemos o trajeto de bicicleta e apesar de demorar tanto quanto de ônibus, a aventura pareceu meio arriscada, isso porque não existe acostamento em diversos trechos e nos trechos em que existe não é calçado, o movimento de carro e ônibus é intenso. Apesar de o art. 201 do código de trânsito exigir que os carros ultrapassem ciclistas à uma distância mínima de 1,5 m  (link) nunca vi alguém obedecer.

 A coisa ficou ainda pior quando duplicaram a rodovia. Sim, pior (!) Pois, não houve a menor consideração com qualquer outro meio de transporte que não os carros particulares. Imaginem que ao lado da estrada colocaram guias, como em ruas!!! E os pontos de ônibus tem um recuo menor do que uma vaga, assim estes tem que usar a rodovia para frear e acelerar. O símbolo máximo do absurdo é representado pela placa do "ciclista voador". Colocaram uma placa pedindo para que o ciclista se mantivesse à direita... sobre a guia ou no mato, não conseguimos entender muito bem (ps.: a placa foi sorrateiramente retirarada para a temporada de veraneio).

Acidente fatal na RS-734 provoca manifestação.
Em agosto de 2012 o inevitável aconteceu e um ciclista foi atropelado e faleceu. Organizou-se através das redes sociais uma manifestação (link 1link 2), da qual eu e meu namorado participamos. Paramos a rodovia, acendemos velas, pintou-se o asfalto, distribuiu-se folhetos (link) e prendeu-se a "bike fantasma" triste. Alguns dos motoristas se mostraram impacientes, mas a maioria apoiou a manifestação.

A partir de então, o movimento ganhou força. Embora a petição não tenha alcançado 2.000 assinaturas. E a partir de então, no último domingo do mês, cidadãos simpáticos a causa se reúnem e fecham uma faixa da rodovia para fazer uma manifestação pacífica na forma de passeio. Na primeira manifestação muitas pessoas se reuniram, mas o retorno obtido pelas autoridades foi pouco e o movimento foi perdendo um pouco a força. Vou ressaltar que em todas as manifestações a polícia rodoviária esteve presente, podando um pouco o alcance do impacto, e sempre se mostrando bastante confusa quando a resposta para a pergunta "quem é o responsável, quem está liderando o movimento?" era um simples, e as vezes seco "ninguém!".

Primeira pedalada Massa Crítica e placa do "ciclista voador"
Ao ler um post no blog do Wagner Passos (RS-734 A estrada do ciclista voador - link) me empolguei e mandei diveeersos e-mails. A um deles obtive resposta, o deputado Adilson Troca ligou no meu celular dizendo que estava lutando por essa causa, que ele havia se articulado e conseguido o financiamento com o Banco Mundial para ciclovia do Cassino até o Bolaxa e que estava buscando meios e contatos de conquistar uma ciclovia por toda a estrada.

Eu não consegui dizer muita coisa, uma vez que ele falava bastante e eu ainda estava tentando realizar o fato de ter recebido uma ligação de um deputado. Mas, quando desliguei o telefone, pensei que o texto estava convincente e decidi mandá-lo para o jornal. Alterei algumas coisas, no e-mail eu citava votos e apelava para o ocorrido em Sta Maria, numa tentativa de dizer "ei, também somos universitários, podem nos dar atenção e prevenir que morramos atropelados". Achei que para o jornal não precisaria dessa parte, uma vez que o mais preocupante para mim são os trabalhadores que não tem outra opção de meio de transporte, e a intenção era despertar a comunidade para a necessária "revolução da sustentabilidade" (citando o livro Limites do Crescimento).

Por fim, me concentrei em 3 argumentos que considero o mais importante ao sair de casa e reivindicar por ciclovia:
1º) justiça social (é um meio de transporte barato);
2º) meio ambiente (o impacto ambiental é muito baixo, se concentra na extração de matéria prima e descarte de peças, que possuem longa vida) e;
3º) saúde e bem estar (exercício físico consiste em medicina preventiva).
No final o texto ficou assim:

Por que querer uma ciclovia?

 Évellin Keith*

A reivindicação por uma ciclovia na rodovia RS-734 já culminou em diversas manifestações, muitas das quais eu participei. No entanto, muitas pessoas não conseguiram entender porque consideramos tão necessária uma ciclovia (embora um acostamento já ajudaria). Bom, cada um dos manifestantes possui sua própria necessidade e argumentação, tentarei nesse breve espaço trazer o que me motiva.
 Apesar do crescente movimento na rodovia, poucos são os que podem (ou querem) possuir um veículo próprio. O transporte público além de desagradável, demorado e limitado, não pode ser pago por certos cidadãos. Eu me sinto muito mal em realizar alguma atividade sabendo que outras pessoas não podem contar com a mesma sorte. Ademais, a indústria automobilística, e mesmo o funcionamento de empresa de ônibus, são atividades concentradoras de renda. Aqui temos uma motivação referente à justiça social.
 Já se torna consenso de todos a preocupação com o meio ambiente. Combustíveis fósseis é uma fonte de energia limitada e não renovável, deveríamos utilizá-lo com muita cautela em atividades mais nobres, além de causarem poluição atmosférica em sua combustão, que por sua vez passa ao solo e à água, e outros impactos ao longo de sua cadeia produtiva (extração, refino, transporte). A fabricação de veículos também gera enorme impacto ambiental, como através da mineração, e produção de efluentes químicos.
 Gostaria de acrescentar mais um argumento, que se refere à saúde, não apenas na diminuição da poluição atmosférica, mas em relação à atividade física. Sabemos o benefício do esporte na prevenção de diversas doenças físicas (principalmente relacionadas ao sistema circulatório) e psicológicas (através da liberação de endorfina, sentimento de liberdade, independência e empoderamento). Muitos não podem pagar academia, dos que podem tantos não querem ou não tem tempo, a educação (no que diz respeito a acesso a informação e capacidade cognitiva) não chega a todos, e muitas pessoas carentes não reconhecem a importância da atividade física na saúde, mas, estes reconhecem a praticidade e economia de se locomover de bicicleta!
No entanto, atualmente, pedalar em uma estrada (ou seria avenida?) como a RS-734 é praticamente impossível. Já houve acidentes fatais sem que nenhuma medida fosse tomada. Muitos universitários se arriscam diariamente na rodovia, e inúmeros anseiam pela possibilidade de se locomoverem como exige sua consciência.
 Abraçar a causa e brigar por uma ciclovia vai muito além de proporcionar bem estar e lazer a população. Tal causa vai de encontro à sustentabilidade ambiental, inclusão social, melhora a saúde pública de maneira preventiva. A bicicleta representa de maneira simples e humilde essa revolução da sustentabilidade, não apenas por vontade, mas por necessidade de uma geração que atinge os limites da capacidade de suporte do planeta. Prepare sua magrela e venha fazer parte desse grupo de pessoas que acredita em um Rio Grande mais humano. Maiores informações: massacriticarg.wordpress.com
*Integrante do Massa Crítica Rio Grande

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