quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Um lapso de felicidade

Nesse carnaval fiz a maior aventura da minha vida! Pedalei 220 Km pela maior praia do Brasil.
Muitas pessoas julgam esse tipo de atividade como imbecil, acreditam ser um risco e esforço desnecessário.  De fato, na praia não pega celular e nem tem ambulância, e isso torna a aventura ainda mais saborosa. Saí com o namorido e um grupo de amigos, os detalhes mais técnicos estão no blog do Bizzi (Trio Rio Grande). Aqui gostaria de expor minhas impressões, que devido minha natureza são mais sutis.

Eu topei a aventura por estar na busca do auto-conhecimento, para mim seria praticamente uma viagem espiritual. Meu cunhado lendo a biografia do Steve Jobs disse que para ele tudo tinha uma conotação espiritual, acho que estou quase assim! Eu não queria fazer, para dizer eu fiz, ou para ter história para contar, ou para superar limites do meu condicionamento físico. Eu queria mesmo é passar por essa experiência, acho mesmo que é disso que se faz a vida. Sabe, ir a shoppings, e cinemas, assistir televisão, sambar na avenida, são coisas legais, mas parecem muito superficiais.

O primeiro trecho foi ótimo, diversas gaivotas animando o passeio. A dificuldade começou ao vermos nossa primeira parada. Eu ainda estava de óculos de grau e consegui ver o farol Sarita, pedalei mais rápido, durante algum tempo e nada... parecia tão perto, mas pedalamos muito até chegar, foi um sufoco. Essa parada foi para o almoço, comi pouco. No segundo trecho a dor era imensa, meus músculos doíam muito, meu joelho, os dedos das mãos, costa, pescoço, bunda e para piorar, cada pedalada fornecia uma dor de cabeça lancinante. Comecei ficar para trás. Passei a ter muita pena de mim, do meu corpo... mas fui pensando que parar não era uma alternativa, o grupo estava bem e muito afim de dormir num lugar abrigado (no próximo farol). Então, parei de prestar atenção nas dores, de checar a cada 5 segundos cada cantinho do meu corpo para definir qual doía mais. Me lembrei do objetivo espiritual da minha viajem, e resolvi me desapegar do meu corpo! Passei a me focar na mente, e trabalhar os pensamentos para que melhorassem meu humor. Sem saber bem como consegui pedalar mais forte, e me juntar ao grupo. Brincava passando ao lado do Biz: "e eis que surrge a forrrrça!". Nesse momento eu me senti realmente feliz. Foi uma felicidade 100% desprendida de qualquer coisa material, até do meu próprio corpo. Acho que temos confundido frequentemente felicidade com conforto, e percebi que uma coisa não tem nada a ver com a outra (ousaria dizer que até pelo contrário).

Descobrir essa felicidade tão cedo me ajudou na viagem, mas não eliminou toda dificuldade. A todo momento eu tinha que trabalhar intensamente minha mente, percebi que pensar em qualquer coisa fora daquele momento me atrapalhava, mesmo que fossem coisas boas. Eu tinha que estar 100% ali, focada. Por outro lado também não podia deixar que minha atenção se concentrasse nas dificuldades, isso parecia aumentá-las, dar uma proporção bem maior, e me fazia ter vontade de parar. Busquei me focar na paisagem, embora monótona, cada onda é diferente das outras, ainda mais para uma oceanógrafa! Dava para perceber as que subiam mais, não era de vento, era gravitacional.

A quantidade de lixo na praia, e rejeitos de pesca também era um pouco desanimadora. Mas, evitei lamentar isso o tempo todo.

Foi estranho ver tanta gente na praia do Hermenegildo... Como se para eles toda aquela extensão se resumisse aquele trechinho limitado.

Por fim, foi uma experiência incrível! Me esforcei, percebi que tenho subestimado meu corpo, que não preciso de muito para viver, que minha dignidade não depende do meu cheiro (hahaha). Foi algo profundo e transformador, do tipo que vai trazer um "que" diferente nos olhares cruzados de quem passou por isso junto, vcs sabem o que digo? Uma cumplicidade e admiração mútua e genuína.

Fantástico, e que venha a próxima aventura!

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