domingo, 8 de setembro de 2013

Tem uma criança triste na sala

Conta-se uma história de que quando europeus ensinaram futebol para indígenas começou-se uma partida. Um time marcava, todos comemoravam, aí o outro time virava e assim ia. Até que passado um certo tempo os europeus falaram que o jogo havia terminado. O time que seria vencedor recusou-se de toda forma, pois seria absolutamente indigno parar agora que eles estavam ganhando, seria uma covardia. E então o jogo seguiu até que, quando todos já estavam cansados, houve o gol do empate, a alegria foi geral, o gol mais comemorado de todos encerrou a partida com comemoração geral.

Acho que faz muito mais sentido se divertir junto do que querer ganhar. Na diversão todos ganham, a vitória é multiplicada. É fácil torcer pelo outro e faz mais sentido. Como você pode se sentir feliz por ter ganhado quando o outro time se sente triste por ter perdido?

Mas, não teríamos chegado tão longe (sem entrar do mérito de ser bom ou ruim esse "longe") sem a competição, ah e sem o dinheiro, não é mesmo? As pessoas só conseguem agir motivadas pela intenção de ganhar mais dinheiro ou de ser melhor que alguém! Será mesmo? É isso que te motiva? A mim não, e apesar de as vezes desconfiar que eu tenha nascido com alguma coisa, poderia ser chamado de doença, penso que não sou a única. Acredito que muitas pessoas compartilham da minha visão de que o bem estar da humanidade, do planeta, a justiça, a liberdade dos oprimidos são motivações mais fortes, mais duradouras, e pelas quais muitas pessoas morreram lutando, muitas tem ido as ruas, mesmo com a forte repressão policial. Elas não estão nas ruas para serem promovidas, ou receber um aumento. Elas querem, desesperadamente, justiça, elas tem um propósito a meu ver muito nobre. E afinal, como poderiam não querer justiça?

Como é possível conviver com a opressão e injustiça? Bom, digamos que nossa sociedadezinha doente tem se empenhado fortemente em facilitar esse convívio. Muitas são as distrações que tornam a nossa volta uma verdadeira matrix surreal, o que distância de nossa vida burguesa a realidade dos espoliados, oprimidos. As distorções, caracterizando um duplipensar bizarro em nossas mentes, que desapropriam palavras importantes do seu real significado também contribuem.

Assim, além de não vermos a verdade, a pouca que vemos não decodificamos adequadamente.
Mas, pare de se enganar, a verdade é que você não suporta ver alguém sofrendo. Pior que isso, você não suporta sequer pensar que existe alguém sofrendo. Podem tentar te convencer que é um sofrimento justo. Mas, sinto te dizer, na realidade, no fundo da tua alma, não interessa se mereceu, ou não, ainda assim, seu coração vai doer com o sofrimento alheio. Ainda que esse sofrimento venha fantasiado de outro motivo e você acredite estar triste por causa da TPM.

Tenho a oportunidade de trabalhar com crianças. Elas são deliciosamente incontroláveis, o que era uma agonia contraditória para mim. Pois apesar de ter me descoberto anarquista, a "ordem e progresso" ainda estão muito enraizadas no meu íntimo. Até que assisti uma palestra de um livro do "observatório dos conflitos urbanos" da FURG, onde pessoas entravam, saiam, conversavam, mudavam de lugar, e aparentemente eu era a única incomodada pensando na "falta de educação" das pessoas. Parei de reparar no movimento periférico para me focar nos autores (que em nenhum momento reprimiram a "bagunça"), e foi muito produtivo. Enfim, me libertei um pouquinho mais da afixação por ordem e obediência que me foi inculcada.

Nessa sexta, as crianças resolveram empilhar as cadeiras para sentar encima. tinha menos "pilha" que crianças, quando uma saía para fazer a atividade outra roubava o lugar. E um reclamou comigo, eu falei que era assim que estava funcionando, um saía outro sentava, mas ele continuou protestando, eu disse que tinha outra pilha ali, mas ele ainda queria aquela, eu disse que se ele queria implicar precisaria de outro argumento porque se fosse pela cadeira não estava funcionando. Sem argumentos, mas ainda extremamente chateado ele sentou-se no chão, encolhidinho num cantinho da sala. Antes de começar a outra atividade fui chamá-lo, saia lágrimas de seus olhinhos, o que me tocou:
- Vem sentar com a gente para eu contar a historinha!
- Não tem lugar.
Ih, é mesmo, as mesas também estavam empilhadas. Com um pouco de relutância as crianças da mesa abriram um espaço e ampliamos os lugares. Mas, ele ainda não iria querer vir. E as crianças da mesa tagarelavam sobre assuntos diversos.
- Pessoal! Vocês notaram que tem uma pessoa triste na sala?
Houve um silêncio meio constrangedor. Uns desviaram os olhos, outros fizeram que sim com a cabeça me lançando um olhar de "por favor, nos ajude a lidar com essa situação".
- Vamos sentar com ele para ouvir a historinha?
Talvez por fazer sentido, ou pela simples alegria de se sentar no chão todos prontamente fizeram uma rodinha envolta dele. E a partir daí eu senti que o clima de cooperação e amizade foi potencializado. Lembro de ter dito "se importar com as pessoas é a melhor lição que podemos aprender".

Fiquei pensando depois, como pude ter essa ideia genial (digo genial comparando a mim mesma e minhas atitudes passadas, talvez seja uma atitude óbvia, ou talvez haja quem vislumbre saídas muito melhores para essa situação, tornando a "genialidade" medíocre). Tento acreditar que fui guiada por um mestre superior, mas não consigo. Não consigo não acreditar que esse pensamento não tenha sido fruto da minha relativamente recente imersão nas questões sociais.

E penso ainda, como podemos estar sentados a mesa falando de futilidades enquanto tem uma "criança triste na sala". É esse sentimento de culpa invisível que nos impede a felicidade plena. Só isso. Não é porque sua infância foi assim ou assada, porque vc usa carro, porque seu emprego é chato, está acima do peso ou pelo o que quer que seja. Nosso mal estar vem do convívio com a injustiça crônica, e negar isso só retarda sua cura. Acredite nos tem sido difícil sequer identificar a injustiça, mas com um pouco de empenho é possível sair da "matrix" e ver claramente quem são os "vândalos e bandidos" da realidade.

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