quarta-feira, 18 de março de 2015

Servidora doméstica

Um tema que cada vez me incomoda mais e mais, e tem se tornado quase insuportável. É quanto a servidão entre os cidadãos ordinários. A relação com empregada doméstica, garçom, faxineiros sempre foi algo que me incomodou muito. Fica um clima esquisito, que dá pra perceber no olhar, no gesto das mãos. Não é como conversar com uma amiga, no ponto de ônibus. É um clima, me dá a sensação de que algo está errado, me dá vergonha. Tenho vergonha de cumprimentar, de não cumprimentar, todo papo parece inadequado. Falar como se fosse amiga me parece pior que como (amiga da) patroa. Coação ou coerção.

Num livro baseado no diário da empregada da Virginia Woolf, nas primeiras páginas a autora diz que vai descrever como "a admiração se transfora em decepção, o respeito em repulsa". Fechei o livro e enfiei no armário. Achei pesado e sombrio. Queria uma história leve, que me inspirasse justamente o oposto! Onde as relações se fortifiquem e não se desgastem.

Aí então, desempregada e pensando na próxima fatura do cartão, fui trabalhar de babá para conseguir fechar as contas. Por um lado eu queria mais essa experiência do que de fato fechar as contas (que eu poderia facilmente fazer emprestando sem juros dos pais, burguesa que sou). Sabe é meio engraçado ir com diploma de mestrado e passaporte italiano trabalhar de babá, nem a patroa sabia muito como agir. Percebi que a relação com a empregada da sogra (que gentilmente me hospeda) mudou, me revelando segredos sórdidos do mundo dos subalternos, as babás do playground conversavam comigo de modo mais fluido, não como quando eu descia com as sobrinhas. É que agora eu sei em primeira pessoa como é entrar no prédio pelo portão dos empregados e no apartamento pela porta de serviço, como é usar o banheiro de empregados que destoa do resto da decoração, como é lavar uma roupa que não é tua e educar (pq qndo me dei conta que não era para educar, mas só para manter viva a criança o trampo já tinha terminado) uma criança que vc não conhece, comer sozinha o que restar do almoço, nem pensar em sentar no sofá ou ligar a TV. A Nini não tem paciência com crianças, ela trabalha das 8 às 18, faz a faxina do duplex e cuida da Bia de 2 anos. Quer mesmo é trabalho de escritório. A Fafá recém casou e sonha em cuidar da própria filha.

Não acredito que alguém realmente queira servir. Que goste de ser empregada doméstica. Nesse caso haveriam cursos, especializações, congressos. "Sonho em ser empregada doméstica desde que era menina, enquanto não consigo a tão sonhada vaga estou me especializando". Ou ainda, se fosse um desejo natural fruto do acaso, porque só animaria as classes pobres? É razão da circunstância, que alguém se sujeita para fugir da miséria do desemprego.

Seria justo se aproveitar dessa situação? Se beneficiar da miséria alheia? Ao terceirizar o trabalho necessário, mas não lucrativo, pode-se dedicar ao lucro, ao estudo, à promoção. Que será repassada? "Meu salário e de minha esposa aumentaram 10%, vamos aumentar 10% do teu também".

Tirei o livro do armário. Talvez o mais digno seja mesmo essa transformação infeliz nesse tipo de relação. Quando ano depois de ano, limpando a privada, dobrando cuecas, se repara que não há nada além disso. Quando se dá conta de que nunca haverá amizade, apesar da convivência, nunca haverá igualdade, nem diálogo, quando a preocupação com sua doença se resume a encontrar um substituto, mesmo tendo dividido o mesmo teto anos e anos, é natural que surja certa repulsa... No caso da Inglaterra de 1920/50 as empregadas dormiam nas casas, elas moravam sem usufruir do espaço, da companhia, das conversas, do conhecimento.

Assim foi também com a Paula, governanta de Freud, segundo o livro baseado nos seus relatos. Relato é diferente de diário. E a empregada se diz fiel aos patrões, por medo de perder o reconhecimento, o emprego, o lar torna-se obsessiva. Ignora problemas de saúde, físico e social, para servir, temerosa de ser substituída. Por sua vez ela é mais incluída na família, quando é isolada pela Gestapo numa ilha a patroa torca cartas, manda dinheiro que apesar da recomendação "gaste com você", Paula usa comprando presentes aos patrões e seus amigos. No entanto, não há de modo algum sinais de possível igualdade, pois mesmo tendo estado por décadas sob o mesmo teto dos maiores psicanalistas da história, ela sabe menos sobre o tema do que eu. Não senta na mesa junto, não participa das discussões. Serve para servir.

Enquanto nos negarmos a dignidade dos trabalhos domésticos, não haverá coerência nas súplicas por justiça, igualdade e se quer fim da corrupção. Pois é corromper alguém, usar o poder do dinheiro para convencê-lo a abrir mão de sua dignidade, ao fazer um trabalho que o pagador não faria... Não há respeito possível nesse tipo de relação. Por mais polido que se busque ser, usar alguém obviamente mais pobre para limpar sua sujeira, para que possas morar numa casa maior que não se conseguiria limpar sozinho e trabalhar, é desrespeitoso, abusivo, e isso não tem valor pago capaz de extinguir. O contentamento verdadeiro em fazer esse serviço para terceiros, saudáveis e capazes, não pode ser comprado, pague-se quanto pagar, haja a lei que houver, discurse-se o que se discursar. A relação já se inicia corrompida, corrompendo.

Babá chama atenção de criança enquanto pai
faz selfie da família (Imagem: Eduardo Nunomura)

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