quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Respeitável público

O que pensar da prestação de serviço realizada pelos professores usando a universidade pública?

Eu nunca me preocupei em pensar sobre esse assunto. Afinal, me pareceria "picuinha" ficar me intrometendo na vida dos professores que eu tanto admiro. Cabe a mim julgar se o salário é suficiente? E afinal, existe a demanda por parte do empreendedor, existe o conhecimento do professor e existe o equipamento e espaço da universidade. Melhor para nós enquanto sociedade que esse trabalho seja feito por profissionais competentes do que por um picareta qualquer.

Pois bem, acontece que me formei. E ou eu me aventuro numa metrópole, ou azar o meu, o mercado de trabalho na minha área na amada Rio Grande não está fácil. Nesse momento passei a refletir no primeiro impacto de se ter professores prestando serviço de consultoria. Quem seria capaz de competir com a FURG? Que empresa pode competir com essa prestadora de serviço que não paga imposto, não paga salário, usa mão de obra qualificada de mestres e doutores pagos como bolsista sem carga tributária, não paga aluguel e tem modernos equipamentos?

E então, juntando o útil com o interessante, deixei a consultoria para os doutos e ingressei no mestrado. Fugindo um pouco da ciência dura, entrei num mestrado mais soft, e tive a oportunidade de aprender um pouco sobre a atual crise social, mais chamada de ambiental. Assim, fui formando um olhar mais crítico da sociedade, basicamente me assumindo com uma libertária de extrema-esquerda. E então meus amigos, quem se propõe a abrir os olhos é obrigado a ver muita dor e sofrimento. Nossa sociedade está doente e a universidade sorri como uma ilha de conhecimento científico formando um abismo entre si e o conhecimento popular a sua volta. E esse abismo é cúmplice na expropriação social.

Por isso toda universidade tem a política de promover ações de extensão. É só dar uma pesquisadinha onde relaciona extensão e universidade para ter acesso a informações lindas, como:

"políticas acadêmicas de extensão, comprometido com a transformação social para o pleno exercício da cidadania e o fortalecimento da democracia" (site RENEX)
ou
"um processo educativo, cultural e científico que articula o Ensino e a Pesquisa de forma indissociável e viabiliza a relação transformadora entre Universidade e Sociedade...
fluxo que promove a troca de saberes acadêmicos e populares, tendo como conseqüência a produção do conhecimento resultante do confronto com a realidade, a democratização do conhecimento acadêmico e a participação efetiva da comunidade na atuação da Universidade" (site da FURG, na aba extensão)

Assim fica claro a intensão e a necessidade da extensão. Que consiste em estudar, entender e propor melhorias à comunidade, que venha a se apropriar do conhecimento a ponto de caminharem rumo seu empoderamento e emancipação. E exige um retorno à sociedade.

Mas, não é o que costuma ocorrer em muitos projetos de extensão. Essa semana pude ler um que se constituía numa prestação de serviço à um empreendedor local, o Porto (SUPRG). E outros 2 denominados "projeto de pesquisa" o qual também se constitui numa prestação de serviço, à SUPRG e à Leal Santos.

Como eu disse, me recuso entrar no mérito de quanto os professores vão ganhar nesses projetos, pois isso de fato não me incomoda nenhum pouco. O problema é que na mesma reunião em que esses projetos foram aprovados discutia-se sobre uma disciplina que não tinha nenhum professor disponível para administrar. O problema é que é comum que professores não tenham tempo e energia suficiente de orientar alunos. O problema é que a sociedade segue a margem do conhecimento concentrado na universidade, tão perto e tão longe da Vila Maria.

Existem lindos projetos de extensão sendo realizados pela FURG, o NUDESE é um ótimo exemplo. Mas no caso da reunião que presenciei do IO como representante dos alunos do mestrado me senti decepcionada em ver todo o potencial de intervenção social que tem esse instituto resumido a prestações de serviço tão básicas. Como monitoramento e auditoria interna.

É consideravelmente diferente um projeto de pesquisa, onde o pesquisador com base em leituras e teorias busca um empreendimento para realizar um estudo, adquirindo um caráter inovador e visando o bem da comunidade, de uma prestação de serviço, quando esse empreendedor tem a necessidade de cumprir certas normas ambientais e procura o professor. O qual consequentemente, diminui seu esforço na pesquisa e ensino, para realizar esse trabalho (que poderia ser realizado pelos graduados e mestres que são constrangidos a trabalhar como bolsistas quando poderiam estar conquistando mais autonomia).

Resta saber se não existem empresas e laboratórios capazes de oferecer esse serviço na cidade porque a FURG monopolizou o mercado, ou se a FURG presta esse serviço porque não existe empresa do seu nível. E se, quem tem a faca e o queijo na mão está disposto abrir mão e assumir seu papel PÚBLICO. Outro detalhe é que existe na universidade a empresa júnior de consultoria ECOSERVICE, que é absolutamente desconsiderada por todos os professores que poderiam encaminhar à ela os trabalhos de consultoria que lhes são solicitados. Se os defensores da prestação de serviço pela universidade pública alegam que essa seria uma maneira de o estudantes terem contato com o mercado de trabalho creio que outros modos seriam mais adequados.

Segue abaixo breve descrição dos três "projetos" citados. E cabe o detalhe de que muitos "projetos" são picotados em valores menores. Pois valores que ultrapassam 1.000.000 são retidos e a burocracia aumenta. Mas, ainda não tenho nenhuma comprovação de que algum deles seja o caso.

2.1 – PE: Monitoramento do ciclo de dragagem no canal Miguel da Cunha e do canal de acesso ao Porto do Rio Grande
Relatório: O Diretor do Instituto emitiu carta de aprovação para o PE: Monitoramento do ciclo de
dragagem no canal Miguel da Cunha e do canal de acesso ao Porto do Rio Grande, de responsabilidade
da interessada. O projeto tem por objetivo o monitoramento da qualidade da água na área a ser dragada e ao longo do canal de acesso ao Porto, além de monitorar a geoquímica do sedimento e macroinvertebrados bentônicos, além de executar testes ecotoxicológicos. Além da interessada, que dispensará o total de 48 (quarenta e oito) ao projeto, participam também, os Profs.... Todos dispensarão o total de 96 (noventa e seis) horas ao projeto que está orçado em R$ 253.103,32 (duzentos e cinqüenta e três mil, cento e três reais e trinta e dois centavos), financiados pela SUPRG – Superintendência do Porto do Rio Grande. Teve início em OUT2013 e término previsto para ABR2014 e está cadastrado no SIGProj sob o número
162355.711.156046.18092013.

2.2 – PP: Auditoria ambiental e implementação do Sistema de Avaliação de Monitoramento do Desempenho da Gestão Ambiental portuária no Porto do Rio Grande, Rio Grande do Sul, Brasil
Relatório: O Diretor do Instituto recebeu da interessada o PP: Auditoria ambiental e implementação do
Sistema de Avaliação de Monitoramento do Desempenho da Gestão Ambiental portuária no Porto do
Rio Grande, Rio Grande do Sul, Brasil, de responsabilidade da interessada. O projeto tem por objetivo
realizar a auditoria ambiental de caráter interno no Porto Velho e Porto Novo e implementar um Sistema
de Avaliação e Monitoramento do Desempenho da Gestão Ambiental para área do porto organizado
do Rio Grande. Além da interessada, participam também as Profas.... Todas dispensarão 4 (quatro) horas semanais ao projeto, que está orçado em R$ 952.486,04 (novecentos e cinqüenta e dois mil, quatrocentos e oitenta e seis reais e quatro centavos), financiados pela SUPRG – Superintendência do Porto do Rio Grande. Os docentes serão remunerados pelo projeto que terá início em NOV2013 e término previsto para OUT2015.

2.3 – PP: O bonito listrado (Katsuwonus pelamis) e as condicionantes ambientais: Uma nova abordagem
Relatório: O Diretor do Instituto recebeu o PP: O bonito listrado (Katsuwonus pelamis) e as condicionantes ambientais: Uma nova abordagem, de responsabilidade do interessado. O projeto tem por objetivo a aquisição, interpretação e disponibilização de dados relativos à distribuição e abundância do bonito listrado (Katsuwonus pelamis) e de variáveis ambientais que condicionam os deslocamentos deste espécie no Atlântico Sul Ocidental e o monitoramento das operações de iscagem dos atuneiros com anchoita, no intuito de quantificar a demanda por isca, a disponibilidade e distribuição da frequência de comprimento das anchoitas em diferentes épocas do ano. Além do interessado, que disponibilizará 4 (quatro) horas semanais ao projeto, participam também, o Prof..., o Ocean.... e o Acad. ... O primeiro disponibilizará 4 (quatro) horas semanais ao projetos e os demais 6 (seis). Todos serão remunerados pelo projeto, que está orçado em R$ 312.000,00 (trezentos e doze mil reais), financiados por Indústrias Alimentícias Leal Santos Ltda. e terá início em OUT2013 e término previsto para SET2015. Está cadastrado na ProPesP sob o número 295.944/2013.

Proposta: Como os projetos têm financiamento externo, o Diretor propõe que o projeto seja homologado nesta reunião e que conste do plano de atividades do Instituto e dos participantes.

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