sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Mendigando nossa própria riqueza

Um artigo me chocou. Trata-se da gestão de uma Área de Proteção Ambiental nas Filipinas, mais especificamente em Apo Island. A área foi estipulada porque o coral estava em perigo e a pesca diminuindo, e então a comunidade local com auxilio inicial da universidade criou algumas regras para proteger o ecossistema, estipulou-se um comitê e a gestão era feita pela própria comunidade, o coral se recuperou e a pesca voltou a ser abundante, tornando esse modelo de gestão uma referência mundial. O que pode ser confirmado nesse e nesse vídeo. Até que, entrando na moda e obedecendo sugestão da ONU o país estabeleceu um Plano Nacional Integrado de Áreas Protegidas. E assim, a gestão dessas áreas passou a ser realizada pelo poder federal.

O processo aconteceu repentinamente sem o consenso da comunidade. Os poucos que "participaram" do processo não compreenderam muito bem, uma vez que esse foi feito em inglês e não no idioma local. Esse novo modelo de gestão desconsidera totalmente a opinião da população, prioriza o turismo e não realiza nenhuma melhoria social. Mas trouxe algo de bom! Gerou "emprego". "Women t-shirt sellers said that they had started selling t-shirts to supplement their husbands’decreasing incomes from fishing." (vendedoras de camiseta disseram que passaram a vender camiseta para complementar a queda do rendimento na pescaria de seus maridos). Uau, nada como crescer na vida, arranjar um job e poder vender camisetas, talvez possam até tomar coca-cola.

Antes o recurso usado para a gestão da área protegida era oriundo de doações dos ilhéus. Agora advém de taxas e multas, sendo portanto um valor consideravelmente maior! É uma pena que esse recurso tenha que ir primeiro ao governo federal, para depois teoricamente retornar a fração que cabe a ilha, 75%. O "teoricamente" não foi posto como figura de linguagem, o dinheiro demora meses para retornar e só depois de muita insistência o que causa uma estranha sensação nos ilhéus "the people of the island feel the agony of being slaves and beggar[s] of their own money and resources." (o povo da ilha sente a agonia de serem escravos e mendigos de seu próprio dinheiro e recurso).

Essa sensação estranha não é exclusividade deles. Eu peço que você assista a esse pesado documentário O Pesadelo de Darwin. É absurdamente triste e vai te dar vontade de vomitar, mas mostra tantas facetas de nossa sociedade que deve ser assistido, faça uma prece depois para a Tanzânia. Mostra como de alguma maneira surreal os africanos exportam todo seu recurso, inclusive o maldito peixe que é muito apreciado na europa, enquanto a população literalmente morre de fome e vive na miséria absoluta. A quantidade de peixe extraída seria suficiente para alimentar 2.000.000 de pessoas, mas é exportada em aviões que chegam vazios ou carregados de armas que sustentam as guerras mais sangrentas do mundo. A ONU, mais especificamente a FAO se preocupa muito com a questão, e em jornais e noticiários locais é dito que esta tem buscado auxílio, procurando juntar 17 mi dólares para fornecer ajuda humanitária. Uma vez que devido a falta de chuva a fome se agrava. Eu posso estar enganada, mas nessa troca (vender armas e comprar peixe barato para revender caro) a europa deve lucrar muito mais que 17 mi dólares e ainda ficar com um big fish.

E se você acha que mendigar pelo próprio recurso é algo exclusivo das Filipinas ou da Tanzânia, so sorry, mas temos o privilégio de estar na mesmíssima canoa furada. Esse videozinho é bem curtinho e ilustra um pouco o drama. 200 anos atrás os países mais ricos possuíam 3x mais riqueza, hoje são 80x mais ricos. Isso porque, apesar da gentileza com que eles oferecem um auxílio de 130 bilhões de dólares, suas multinacionais lucram mais de 900 bi dólares nas negociações esquisitas como o caso da perca do nilo, ou exploração de pré-sal, ou ainda com a realização de megaeventos como a copa. Sem esquecer que existe uma dívida a ser paga, o que transporta 600 bi dólares de países subdesenvolvidos aos "desenvolvidos". O que pode ser confirmado no Orçamento Geral da União, que destina 42% de seu montante para juros e amortização da dívida. Ademais, existe um lucro com a utilização de subempregos, ou de "escravos que mendigam seu próprio recurso".

Eu não pretendo nem de longe alimentar xenofobias, ou qualquer tensão entre "nórdicos" e "tupiniquins". Mesmo porque conversando e fuxicando no face eu sei que a coisa tão pouco está legal na Europa, muito embora longe de se aproximar do melhor dos sonhos dos africanos retratados no documentário, a saúde para a população tem deixado a desejar e cortes na educação vem sendo realizados. Porque também por lá uns oprimem aos demais.


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