segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Mulheres têm escolha?

Do alto da minha rasa experiência no feminismo, identifiquei um conflitinho básico. Pelo menos entre as feministas de facebook e blog. É o fato de buscar-se uma identificação entre as feministas.

Fica no ar uma ideia de que feminista que é feminista não pode se depilar, tem que ter parto normal, ou nem ter filho, deve trabalhar fora, repugnar sutiã. 

Bem, só de ler a frase acima você já sentiu como soam absurdas essas exigências não é mesmo? E ao meu ver toda e qualquer exigência que se imponha a uma mulher é machista. Sempre que rola um post no face tratando de pelos em axila feminina é o maior bafafá, existem até ofensas. E normalmente não é um post que use um verbo no imperativo "deixe as axilas peludas" ou "não depile", nada disso, é simplesmente uma alusão à possibilidade de se fazer isso. 

Num post no blog da Lola, uma mãe que trabalha fora optou por realizar cesária e se sentiu ofendida pela luta das feministas pró parto normal. Nessa resposta uma ativista explica que o problema não é optar por realizar cesária com base em informações confiáveis, variáveis e de qualidade, o problema é que uma esmagadora de mulheres são levadas a optar por esse modo mais rápido e prático, para o médico.

O problema não é a sua escolha em si, mas o porque de você ter feito essa escolha. E esse motivo está diretamente relacionado à acesso de informação, e o direito a ter escolhas.

Algumas mulheres afirmam que depilação é uma questão de higiene! No buço? No braço, na perna? E essa afirmação é baseada em alguma pesquisa científica? Será que a concentração de bactérias é maior em regiões com pelos? Mesmo quando me depilo preciso usar desodorante, então há bactéria, igualmente. E porque vc tem mais nojo do pelo feminino que do masculino?

Seria então uma razão de estética, mas é um padrão seu? É claro que não, pois se fosse vc não veria problema em deixar os pelos crescerem e ir a público e ver se de fato acha mais ou menos feio... Afinal, cabelo é pelo, escorre durante o banho, cai na comida, fica oleoso ao longo do dia, mas não há depilação nessa área.

Então, depilar é uma escolha que já foi feita, antes de você saber o que era isso. Não há opção.

E isso talvez seja um efeito de termos sido criadas para sermos bonitas. E nós mesmas contribuímos com essa educação ao não resistirmos de elogiar a beleza de uma guriazinha, invés de perguntarmos a respeito do que ela pensa. O que fica bem ilustrado nesse texto:

Como conversar com meninas

Eu fui a um jantar na casa de uma amiga na semana passada, e encontrei sua filha de 5 anos pela primeira vez. A pequena Maya tinha os cabelos castanhos e cacheados, olhos escuros, e estava adorável em seu vestidinho rosa e brilhante. Eu queria gritar, “Maya você é tão fofa! Veja só! Dê uma voltinha e desfile esse vestidinho rosa, sua coisinha linda!”
Mas eu não fiz isso. Eu me contive. Como sempre me contenho quando conheço garotinhas, negando meu primeiro impulso, que é dizer o quão fofas/lindas/bonitas/bem vestidas/de unhas feitas/cabelo arrumado elas são/estão.
“O que há de errado nisso? É a conversa padrão de nossa cultura para quebrar o gelo com as meninas, não é? E por que não fazer-lhes um elogio sincero para elevar suas auto-estimas? Porque elas são tão lindas que eu simplesmente quero explodir de tanta fofura quando as encontro, sinceramente.”
Guarde este pensamento por um tempo.
Esta semana a ABC News informou que quase metade das meninas de 3 a 6 anos se preocupam por estarem gordas. No meu livro, Think: Straight Talk for Women to Stay Smart in a Dumbed-Down World, eu revelo que 15 a 18% das meninas com menos de 12 anos usam rímel, delineador e batom regularmente; distúrbios alimentares estão em alta e a auto-estima está em baixa; e 25% das jovens mulheres americanas prefeririam vencer o America’s Next Top Model a ganhar o prêmio Nobel da Paz. Até universitárias inteligentes e bem sucedidas dizem que preferem ser ‘gostosas’ a serem inteligentes. Recentemente uma mãe de Miami morreu durante uma cirurgia estética, deixando dois filhos adolescentes. Isso não pára de acontecer, e isso parte o meu coração.
Ensinar as meninas que a aparência delas é a primeira coisa que se nota ensina a elas que o visual é mais importante do que qualquer outra coisa. Isso as leva a fazer dieta aos 5 anos de idade, usar base aos 11, implantar silicone aos 17 e aplicar botox aos 23. Enquanto a exigência cultural de que as garotas sejam lindas 24 horas por dia se torna regra, as mulheres têm se tornado cada vez mais infelizes. O que está faltando? Um sentido para a vida, uma vida de ideias e livros e de sermos valorizadas por nossos pensamentos e realizações.
Eu me esforço para falar com as meninas assim:
“Maya,” eu disse, me ajoelhando até ficar da sua altura, olhando em seus olhos, “prazer em conhecê-la”.
“O prazer é todo meu,” ela disse, com a voz já bem treinada e educada para falar com adultos como uma boa menina.
“Hey, o que você está lendo?” Perguntei, com um brilho nos olhos. Eu amo livros. Sou louca por eles. Eu deixo isso transparecer.
Seus olhos ficaram maiores, e ela demonstrou uma empolgação genuína, mas contida, sobre o assunto. Ela pausou, no entanto, tímida por estar com um adulto desconhecido.
“Eu AMO livros,” eu disse. “E você?”
A maioria das crianças gosta de livros.
“SIM,” ela disse. “E agora eu consigo ler sozinha!”
“Que incrível!” eu disse. E é incrível, para uma menina de 5 anos.
“Qual é o seu livro preferido?” perguntei.
“Vou lá pegar! Posso ler pra você?”
Purplicious foi a escolha de Maya, um livro novo para mim, e Maya se sentou junto a mim no sofá e leu com orgulho cada palavra em voz alta, sobre a nossa heroína que adora rosa mas é perturbada por um grupo de garotas na escola que só usam preto. Infelizmente, o livro era sobre garotas e o que elas vestiam, e como suas escolhas de roupas definiam suas identidades. Mas depois que Maya virou a última página, eu conduzi a conversa para as questões mais profundas do livro: meninas más e pressão dos colegas, e sobre não seguir a maioria. Eu contei pra ela que minha cor preferida é o verde, porque eu amo a natureza, e ela concordou com isso.
Em nenhum momento nós discutimos sobre as roupas, o cabelo, o corpo ou quem era bonita. É surpreendente o quão difícil é se manter longe desses tópicos com meninas pequenas, mas eu sou teimosa!
Eu falei para ela que eu tinha acabado de escrever um livro, e que eu esperava que ela escrevesse um também, algum dia. Ela ficou bastante empolgada com essa ideia. Nós duas ficamos muito tristes quando Maya teve que ir pra cama, mas eu disse a ela para da próxima vez escolher outro livro para lermos e falarmos sobre ele. Ops! Isso a deixou animada demais para dormir, e ela levantou algumas vezes…
Aí está, um pouquinho de oposição a uma cultura que passa todas as mensagens erradas para as nossas meninas. Um empurrãozinho em direção à valorização do cérebro feminino. Um breve momento sendo um modelo a ser seguido, intencionalmente. Meus poucos minutos com a Maya vão mudar a multibilionária indústria da beleza, os reality shows que diminuem as mulheres, a nossa cultura maníaca por celebridades? Não. Mas eu mudei a perspectiva de Maya por pelo menos aquela noite.
Tente isto da próxima vez que você conhecer uma garotinha. Ela pode ficar surpresa e incerta no começo, porque poucos perguntam sobre sua mente, mas seja paciente e insista. Pergunte-a o que ela está lendo. Do que ela gosta ou não gosta, e por quê? Não existem respostas erradas. Você apenas está gerando uma conversa inteligente que respeita o cérebro dela. Para garotas mais velhas, pergunte sobre eventos atuais: poluição, guerras, cortes no orçamento para educação. O que a incomoda no mundo? Como ela consertaria se tivesse uma varinha mágica? Você pode receber algumas respostas intrigantes. Conte a ela sobre suas ideias e conquistas e seus livros preferidos. Mostre para ela como uma mulher pensante fala e age.
essa versão eu encontrei no blog L'objet Trouné, nesse link.

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