quinta-feira, 15 de agosto de 2013

A diversidade de 3 itens.

Estamos sempre atentos, e assim fica fácil e até gostoso conectar as informações naturalmente interconectadas. Quer dizer, gostoso por esse trabalho de detetive amador, mas a realidade que vamos encontrando é bastante desanimadora, acho que é por isso que o termo "radical" ganhou uma conotação negativa. Sendo que um dos significados no meu dicionário é ir à raiz do problema. Pois é, parece que o senso comum alienador não é muito chegado em profundidades. E cada vez fico mais espantada como as palavras mais belas são as mais distorcidas.

Nesse fim de semana fui à um sítio, o Sítio Amoreza, fazer uma oficina de culinária natural. Com o intuito claro de despertar nossa consciência para o impacto socioambiental da nossa alimentação cotidiana. Além do fato de prejudicar nossa própria saúde, pois os alimentos industrializados são ricos em gordura, sódio, conservantes, aromatizantes, e diversos produtos químicos, paupérrimos em nutrientes e fibras, levando nosso querido organismo a desenvolver as mais loucas e tristes doenças, o que é muito positivo para indústria farmacêutica! Mas, não tão positivo para quem depende do SUS para ter acesso à essa indústria.

Falsa Cornucópia, diversidade de 5 ingredientes.
A mais chocante descoberta do fim de semana foi graças ao documentário Comida S.A., basicamente, toda cornucópia de alimentos atrativamente expostos nas vitrines dos supermercados nada mais são do que combinações diversas de milho, trigo e soja. Sim, nossa diversidade de alimentos se restringe a 3 tipos de plantação. As mesmas que alimentam as "fábricas" de proteína animal. Esses cereais são utilizados inclusive nas mais inusitadas receitas, como fabricação de tinta, cola e protetor solar. Num primeiro instante talvez seja difícil reconhecer o tamanho do "buraco" em que estamos nos metendo. Mas, vamos falar mais sobre isso.

Inicialmente, essa tendência de enxugar a diversidade está relacionada à números, relativos a lucro, fácil de entender em gráficos. Ninguém na Hellman´s se preocupa se a população está mais saudável, mais feliz, mais nutrida, ou (sinto muito dizer isso, pois imagino que algumas pessoas pensem que sim, mas eles não se preocupam se existem mais pessoas) morrendo de fome. Eles são uma empresa, e como toda boa empresa se preocupa em gerar lucros e cortar gastos. O cultivo intensivo é (ilusoriamente) mais barato, usa-se grandes áreas e para não promover um bloom de organismos que naturalmente alimentam-se de milho, ou para evitar o alastramento de doenças, o que é comum em grande concentrações de qualquer espécie, usa-se quantidades brutais de agrotóxico. É tanto agrotóxico que nem o próprio pé de milho suportaria. Pois então, desenvolve-se o "melhoramento genético", sob o discurso de que é justamente para desenvolver milhos que não precisem de agrotóxico ou fertilizantes, que brotem no deserto do Saara, que extingam a fome do mundo, só que não é bem esse o objetivo real.

Soja em terras indígenas do MT. Fonte: Axa
E então as imensas lavouras de milho, soja e trigo vão crescendo por tudo, dominando vastas áreas de terra fértil, extinguindo espécies nativas e variedades de alimentos saudáveis e expulsando o pequeno agricultor. Aliás, a vida desse agricultor primeiramente foi estratégica e maquiavelicamente ficando terrivelmente difícil, com boicote deliberado em sua infraestrutura e propagandas maciças e enganosas da maravilhosa vida na cidade, onde de fato há algum investimento em infraestrutura, e como o homem do campo é burro e não serve para nada, que o que importa é a educação e uma criança sem educação está fadada a ser tão repugnante e infeliz quanto o próprio pai. Assim, fica fácil imaginar como as favelas e periferias dos centros urbanos se formaram e como surgiram grandes proprietários de terra. Ou como os camponeses resistentes foram se (des)informando e passaram a cultivar milho e soja, uma vez que os incentivos fiscais eram brutos. (incentivo fiscal nunca visa sustentabilidade social e ambiental, o mesmo ocorreu com a pesca)

Injustiça social é travestida de crescimento
econômico. Fonte: Pratos Limpos.
A produção de milho, soja e trigo tem o bônus de ser praticamente totalmente mecanizada, o que é ótimo, pois o trabalho no campo é duro. Acontece que essa mecanização não é para que o homem tenha mais tempo livre, para a cultura e lazer, é novamente para cortar custos e aumentar o lucro. Toda essa modernização, esse progresso, esse desenvolvimento faz do Brasil um grandíssimo exportador desses grãos, deixando nossa balança comercial muito "bem na fita". Afina, de números e gráficos nossos economistas entendem. E se tem um indicador que põe um sorriso na cara (de pau) dos dirigentes é o tão querido "crescimento econômico".

É tão absurda e surreal essa situação que sinto vontade de deixar esse texto no meio e sair correndo e gritando. Mas, deixa eu continuar. Então, bem, temos o lucro dessas megacorporações, que acredito que no fundo sejam a mesma, isso é, já tenham se comprado entre si, mas mesmo que não, temos a indústria de sementes lucrando, a de fertilizantes, agrotóxicos, tratores, roçadeiras, colheitadeiras, caminhões. São empresas estrangeiras.  E o dono da terra provavelmente nunca pisou com sua bota num pedaço de terra. Esses grãos são colhidos, colocados em caminhões (e aqui temos que agradecer muito, muito mesmo, pois olha que lindo, eles deram emprego aos nossos caminhoneiros, e esta aí mais um dirigente sorrindo, empregos!!!) e levados ao porto para serem escoados oceano a fora.

Mas, precisamos de mais, precisamos ser mais competitivos no mercado da soja (isso é, precisamos dar mais lucro para os corruptores corromperem os dirigentes em busca de mais lucro) e a bola da vez é o "custo Brasil". As estradas não estão muito boas, a gasolina está cara, o caminhoneiro tem muito direito, e olhem o preço do pedágio, aliás, a empresa do pedágio também é estrangeira, no caso da Ecosul italiana! Afinal, é preciso uma tecnologia e um know-how muito sofisticado para administrar pessoas sentadas em cabines recolhendo dinheiro de automóveis e caminhões, tivemos que "importar" uma empresa com tamanho conhecimento, e certamente nenhum governador ganha dinheiro com isso, ele de fato se preocupa com a condição de nossas estradas. E por fim, temos que diminuir as tarifas portuárias, e claro, a corrupção também está acabando com o lucro de muitos empresários.

Prefiro acreditar que nossos industrializados são feitos totalmente aqui, isso é que não exportemos milho para importar xarope de milho. De todo modo, esse milho, ou soja, cheio de agrotóxico é processado industrialmente com muito produto químico e o que não vira tinta vira lasanha congelada e afins. Se transveste numa embalagem bonitinha, é anunciado com muitos sorrisos e pessoas bonitas e saudáveis, por empresas ecológicas nos anos 90 e sustentáveis agora, que tem preocupações socioambientais, e que promovem a felicidade e a qualidade de vida!

Para ficar claro como existem vários modos de ver a mesma coisa, um corresponde aos que vivem na matrix e são incapazes de perceber a perversidade do sistema, copio o trecho do trabalho de Clarissa Barreto disponível na internet:

"A revolução socioeconômica e tecnológica desencadeada pela soja é enaltecida por  aqueles que participam de sua cadeia produtiva. Para eles, a soja é vista como desbravadora de fronteiras, levando progresso e desenvolvimento, a “uma região despovoada e desvalorizada [Centro-Oeste], acelerou a urbanização dessa região, foi responsável pela interiorização da população brasileira (bastante concentrada no Sul, Sudeste e litoral) e impulsionou e interiorizou a agroindústria nacional, patrocinando o deslanche da avicultura e suinocultura brasileiras” (EMBRAPA, op. cit.).
Outra visão revela que o modelo através do qual foram implantadas culturas comerciais no Brasil, inclusive a soja, excluiu produtores familiares, concentrou a posse de terras e aumentou o tamanho das propriedades. Este modelo foi a chamada modernização conservadora que resultou na modernização dos processos produtivos mantendo a estrutura agrária vigente, isto é, os latifúndios e a produção patronal (EHLERS, 1994)."

Não tenha medo de questionar e criticar o sistema e não tenha preconceitos com quem o faz, isso é atualmente muito importante. Estamos chegando a um ponto crítico. Esse modo de pensar TUDO como se fosse um produto e todas as relações como se fosse comércio não é somente insuportável para seres dotados de alguma sensibilidade, os quais são excluídos a décadas e rotulados de subversivos, radicais, vagabundos, sonhadores, entre outros, esse sistema atingiu limites físicos e objetivos. E precisa ser repensado.

Se você não defende os oprimidos você está do lado dos opressores.

2 comentários:

  1. Topa parar de comprar produtos Nestle e Coca? Não vai ser fácil e teremos de pesquisar se uma genérica "Chocolate de sabão Cri-cri" não é fachada da empresa Suíça ou da norte americana. ;)

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    1. Eita, topo sim!!!
      Eu já venho tentando fazer isso com produtos chineses, né?! O que força invariavelmente a diminuição do consumo...
      Acho que o mais difícil vai ser identificar essa fachada mesmo. por exemplo: os salgadinhos fofura, lucky e torcida são da pePSICO =O
      Imagino que chegaremos a conclusão de que só produtos locais artesanais direto do fabricante são justos. Mas, ainda assim, a matéria-prima pode não estar totalmente isenta de injustiça e opressão...

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