sexta-feira, 2 de agosto de 2013

O calabouço da montanha.

Crédito Marcelo Petaz
Era uma vez, uma velejadora. Ela tinha o coração muito puro, o que facilitava sua compreensão sobre o mundo que a cercava.

Ela velejava pois gostava do mar e da dinâmica. Mas, gostava ainda mais de conhecer novas praias, novos povos, novas culturas.

Certa manhã, essa velejadora chegou a uma ilha. Era uma ilha bastante bonita e a população a acolheu sorridente.

Ela logo sentiu que as pessoas tinham o coração bondoso e se sentiu muito a vontade. No entanto, parecia que algo estava errado. A velejadora sentia no fundo do coração dela uma pontinha de angústia. Não sabia dizer do que era. Aquele povo era muito bom, e estavam sempre empenhados em mostrar-lhe as paisagens mais bonitas da ilha, os espetáculos mais coloridos e vibrantes, liam textos profundos e tocantes, ofereciam frutas doces e suculentas.

Mas, apesar das distrações, a angústia ainda estava lá, presente, insistente em seu coração. Impedindo que ela desfrutasse plenamente de tudo o que os ilhéus ofereciam.

E por mais que seus olhos vissem a beleza do brilho e da cor do que lhe mostravam, ela estava sempre atenta a qualquer dica que apontasse a causa de sua angústia.

Certo dia, viu alguém sendo carregado desacordado. Perguntou o que havia acontecido. "Não se preocupe, tudo está em ordem. Veja aquele pássaro, suas asas vermelhas indicam que o céu abençoa nosso amor."

Mas, aquilo a preocupou, e a asa vermelha do pássaro, outrora tão digna de sua admiração, agora não atraia sua atenção, apenas seu olhar vago. Enquanto sua cabeça buscava a verdade.

Perguntou a outros que lhe disseram. "Foi apenas um desmaio, as pessoas que passam por isso são tratadas." Outros se mostravam incomodados com a pergunta "Deixe disso, não há nada". Outros não acreditaram. Outros diziam que algumas pessoas precisam de tratamento especial, pois só assim todos podem ser felizes.

Nenhuma das respostas a satisfazia, e sua angústia aumentava. Passou a se afastar dos espetáculos. E caminhar sozinha por lugares isolados. Foi quando encontrou um ilhéu diferente. Ele estava sozinho e não usava penas coloridas e pedras brilhantes em suas roupas.

Ela não hesitou, e mesmo sem conhecer esse senhor de barbas brancas perguntou "Porque me sinto tão angustiada?" Como se esperasse por aquela pergunta, o maltrapilho lhe deu as costas e disse "Me acompanhe."

Seguiram por uma trilha fechada. Se depararam com uma montanha, o senhor removeu umas folhagens e revelou uma caverna. Entraram silenciosos. A velejadora sentia seu coração sendo oprimido, sem saber porque. Não estava curiosa, estava triste, cada passo que davam para dentro daquela caverna úmida e sombria, sentia seu coração mais e mais angustiado, desesperado, triste e oprimido.

A escuridão era tal que não podiam ver nada. Sentiu a certo instante o braço do senhor impedindo sua caminhada. Parou e passou a ouvir uns gemidinhos baixo. Sentiu que vinham de um lugar mais amplo.

Num dado momento chegou uma luz. Aos poucos foi definindo em seu campo visual que a trilha em que estavam havia chego na parede de um amplo salão, na entranha daquela montanha.

Aproximou-se da beirada de modo a ver sem ser vista. Viu inúmeras pessoas nuas e sujas, a luz vinha de uma tocha carregada por um ilhéu, outros traziam baldes com frutas velhas e iam despejando entre a multidão de famintos, que se agachavam para comer as frutas, mecanicamente, sem brigas nem interação alguma. Um ilhéu identificou um cadáver no chão, o colocou friamente sobre um carrinho. Depois de todos os baldes esvaziados e todos os cadáveres recolhidos, afastaram-se, tão silenciosos quanto haviam entrado.

Retornando a absoluta escuridão e tristes ruídos. Sentiu que o velho passou a seguir a trilha para saída da caverna. A velejadora chocada com o que havia assistido, seguiu trôpega e confusa.

A saída da caverna foi dolorosa, a luz cegava seus olhos, e seu coração batia forte, entregou-se a um choro compulsivo. Arfava meio sem ar, gritava de dor, e lágrimas vertiam de seus olhos como rios. O velho a observava, inundado numa paz indecifrável. Passado esse momento de maior desespero, o senhor os conduziu à beira de um rio de águas muito cristalinas. Onde a velejadora lavou suas lágrimas e tomou um pouco de água.

"Quem são?"

"Os indesejados. Pessoas que apresentam alguma característica física não aceita. Pelos muito escuros, barbas grossas. Ou que tenham hábitos desagradáveis, não queiram trabalhar, não gostem da roda da fogueira, ou questionem os deuses."

"Todos concordam com esse tratamento?"

"Alguns ignoram totalmente. Outros não suportam pensar no que se passa. Se entregam as distrações. Outros temem ser capturados. E a maioria acredita que essa seja a vontade dos céus, e que se os indesejados forem expostos ao Sol, esse ficará tão horrorizado que jamais voltará a brilhar novamente."

A velejadora ficou a pensar. Ela sabia que o Sol não se incomodava com pessoas de pelos negros pois já havia visitado muitas praias. E via que as pessoas de pelos negros se expunham ao Sol e que este voltava a brilhar no dia seguinte, independente de qualquer coisa!

A recordação do sofrimento daquelas pessoas a incomodava. E reparava que havia entre a maioria dos ilhéus um medo constante, um desconforto, uma culpa, que era dissimulada. Ignoravam as verdadeiras causas dos que desapareciam, e por isso temiam. Sem questionar, pois os que questionavam sumiam. Alguns rumores diziam que eram duramente castigados pelos céus. Assim, não sabiam se temiam aos castigos, ou aos céus, apoiando os castigos.

Muito atenta a velejadora ficou, analisando a todos, simulando o mesmo contentamento que via nos rostos aflitos. Até que reparou em uma ilhéu, que escondida esfregava um maço de ervas em sua perna. Essa ilhéu era uma amiga sua. Tentou aproximar-se de modo a não assustá-la. Foi em vão. Passado o susto e tendo sido as ervas jogadas longe, a velejadora questionou

"Porque faz isso?"

"Acho que meus pelos são muito negros. Minha mãe sempre me disse para esfregar essas ervas neles."

"Você sabe o que acontece com quem exibe pelos negros?"

A moça negou com a cabeça, e a velejadora sentindo que podia confiar totalmente na moça e que ela compreenderia, contou tudo o que havia visto e sentido. E explicou sobre as outras praias, onde pessoas com espessos pelos negros se bronzeiam sob o Sol brilhante.

A moça não chorou desesperadamente. Ela cerrou os dentes com raiva. E falou

"isso tem que acabar".

Então, bolaram um plano. A moça deixaria seus pelos negros crescerem escondidos e no dia de "graça aos céus e ao Sol" iria mostrar a todos que seus pelos haviam sido expostos ao Sol e no entanto, este continuava a agraciá-los com seu brilho.

Assim, o plano seguiu. Embora a moça tenha sentido muito medo de ser descoberta. Inscreveu uma apresentação especial para o dia, uma declamação, que foi aceita pela comissão organizadora, e seria exposta ao meio dia.

No dia de "graça ao céus e ao Sol" toda comunidade festejava contente, cantando seus hinos, e louvando aos céus e ao Sol. Diversos espetáculos se faziam presente.

Ao meio dia, todos voltaram sua atenção ao palco principal, pois a moça e a velejadora fizeram uma propaganda muito boa sobre essa declamação.

E assim, em frente a todos os olhares curiosos. A moça começou sua declamação.

"Ao longo desses anos, temos tido muita graça proporcionada pelos céus e pelo Sol. Acreditamos que somos felizes pois nos empenhamos em manter a ordem. E que o Sol jamais brilharia sobre nós se permitíssemos que pessoas diferentes de nós tivessem os mesmos privilégios e direitos."

O silêncio era dominante, todos olhavam assustados, pois em verdade, os ilhéus não sabiam exatamente como funcionava o Sol e o que exatamente separava os desejáveis dos indesejáveis. Eles tinham medo de falar e pensar sobre isso. E começaram a se perguntar se a moça estava fazendo algo bom ou ruim. Esse assunto nunca havia sido dito de forma aberta.

A moça vendo que os ilhéus musculosos, que carregavam desmaiados, começavam a se direcionar ao palco, fez mais forte sua voz.

"Pois em verdade eu vos digo, meus pelos espessos e negros estão a semanas expostos ao Sol, e ele brilha inalterável sobre mim, nesse momento."

Dizendo isso a moça tirou a fantasia de penas e brilhantes que escondia seus pelos e mostrou para toda a gente ver que o Sol não se incomodava com pelos negros.

O pânico se espalhou. Alguns gritavam, outros aplaudiam, outros desmaiavam, ninguém conseguia entender muito bem o que se passava.

Os homens musculosos retiraram a moça do palco. E essa seguia gritando

"Todos podem viver no Sol, não há distinção, o Sol não quer que ninguém mais sofra, libertem-se do medo. Amem-se, pessoas sofrem e morrem por causa do nosso temor ao Sol. Libertem-se!!!"

A velejadora gritava

"É verdade! Eu visitei muitos lugares e o Sol brilha em todos eles, sobre as mais diversas pessoas. Existe nessa ilha um calabouço onde pessoas vivem em condições degradantes por causa que vocês tem medo de perderem o Sol. Mas, isso é uma ilusão. O Sol brilha. E brilha melhor ainda quando não há medo, nem opressão".

A velejadora também foi levada sob o olhar incrédulo de todos.

Elas foram banidas da ilha. Tiveram que assinar um contrato alegando que não seriam assassinadas, por terem infligido a lei de Blasfêmia, desde que jamais voltassem a pisar na ilha ou ser vistas em seus arredores.

O povo ficou em sua maioria muito chocado, e consideraram um terrível e absurdo desrespeito o que a moça e a velejadora armaram. Consideraram uma afronta aos céus e um verdadeiro desrespeito à crença deles. Todos concordaram que não eram necessárias atitudes tão extremas assim. Alguns achavam que a o moça e a velejadora deveriam ter sido queimadas.

Outros começaram a pensar em tudo o que foi dito. E espera-se que algum dia, o calabouço da montanha deixe de existir, as pessoas sejam libertadas e possam pensar e ser como bem entenderem e que ninguém mais tenha medo de viver sem o Sol.


"Não confunda a reação do oprimido com a violência do opressor" Paulo Freire.

Um comentário:

  1. Ihihihihi é com muita alegria que digo que este texto foi premiado no 2º Concurso Literário da FURG!
    Na categoria conto, como "menção honrosa".
    Fiquei muito feliz, tem um link para provar o que estou afirmando:
    http://pt.calameo.com/read/000337975c67ab7edae5e
    =)

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