sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Como Nossos Pais

A arte, a cultura, a música, a criatividade! Eis as mais importantes criações humanas. Fazer críticas profundas, radicais, ferozes, transformadoras e libertadoras na forma de desenho, poemas, música é um delicioso dom divino. E as críticas ficam lá, escondidinhas, ansiosas por serem descobertas unicamente por almas corajosas e inquietas, capazes de ver além. Cada alma retém o que é capaz e o que necessita no momento, muitas totalmente fechadas para qualquer mudança simplesmente repassam a mensagem, cantarolando vez por outra, sem significado.

Como Nossos Pais! 

Que alegria profunda (re)descobrir essa música e desvendar um novo significado, um significado meu, que veio me resgatar de uma tempestade sinistra. Já faz um tempo.

A música sempre vinha e ia. Ouvia e gostava, sem mais. No ano passado iniciei no coral da FURG. A dica foi: "cantem, busquem uma música que gostem e tentem deixar sua voz se tornar uma com a da cantora". Que delícia cantar com Elis, a voz flui sem impedimento algum, é porque ela canta de dentro, ela sente lá no coração as palavras que são ditas, ela acredita na mensagem, e tem técnica musical. E assim, Como Nossos Pais se tornou meu repertório favorito para a hora do banho, para a infelicidade dos vizinhos, certamente!

Nessa cantoria desenfreada comecei a prestar atenção na letra, depois de ter ouvido e repetido tantas vezes. PIMBA! Nossa, é isso mesmo! Essa música me deu a dica mais importante que recebi nos últimos tempos. A dica mais importante que todo e qualquer acadêmico deveria receber. Mais importante do que "como fazer seu artigo ser aceito em uma revista conceituada".

O mais incrível é que a crítica original é traçada aos intérpretes, como Elis. Mas, com algumas adaptações a carapuça serve a todos.

Não quero lhe falar, meu grande amor, das coisas que aprendi nos discos. Quero lhe contar como eu vivi e tudo o que aconteceu comigo.

Muita bagagem teórica vamos acumulando através das leituras de livros, artigos, trabalhos acadêmicos. Mas, quem é você? O que você fez com esse conhecimento acumulado? De que adiantou? Como você viveu? Porque ninguém parece se importar com essas questões, e você se sente como um número na multidão, como se não importasse a sua vida, apenas seus artigos publicados.

Viver é melhor que sonhar. Eu sei que o amor é uma coisa boa. Mas, também sei que qualquer canto é menor do que a vida de qualquer pessoa.

É importante a realização de pesquisa, das mais diversas. Mas, é importante ver o contexto e o objetivo de sua pesquisa. Esse artigo pode parecer a coisa mais importante do mundo, mas ele é menor do que a vida de qualquer pessoa. Isso, a vida de qualquer pessoa, é o que realmente importa. Pode sonhar que sua pesquisa sobre o aquecimento global vai salvar a humanidade, mas viver a melhora da humanidade é melhor que sonhar.

Por isso cuidado meu bem, há perigo na esquina. Eles venceram e o sinal está fechado para nós, que somos jovens.

Pode parecer estúpido se preocupar mais com o bem estar de outros seres humanos do que com nosso progresso acadêmico. Essa é uma armadilha perigosa. Foi assim que a maioria dos pesquisadores admirados se tornaram renomados, ignorando a compaixão. E o sinal está fechado, para pesquisadores que buscam mudar esse paradigma e aproximar a pesquisa ao serviço de servir o bem estar da humanidade. Quem fomenta a pesquisa são empresas privadas ou o Estado. Ambos tem interesses.

Para abraçar seu irmão e beijar sua menina, na rua, é que se fez o seu canto, os seus lábios e a sua voz.

Na rua! Um local público, onde todos tem igual acesso. Viemos desenvolvendo ao longo de nossa graduação uma incrível capacidade de ler, interpretar, entender e elaborar os mais bem escritos textos. Podemos usar essa capacidade para entender a mãe, o pai. Escrever uma carta, longa, coerente, profunda e sincera no aniversário do amigo. É para isso que serve todo nosso intelecto, fomentar o amor e a harmonia. Seja através da pesquisa, seja através das relações sociais.

E a música continua. Profunda, forte, disponível para as maiores lições. Livre para que cada um veja o que for capaz, o que mais precisar no momento, o que tiver força de suportar. Minha libertação foi parar de me martirizar sobre a possível qualidade da minha pesquisa acadêmica e reconhecer que eu sou mais do que isso. Sou mais do que o número de artigos publicados no meu Lattes, e que eu nem quero que esse número seja grande, mas que ele seja consoante com o que eu acredito, com quem eu sou e com o melhor de mim, não tecnicamente, mas no sentido de auxiliar na promoção de uma evolução!

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