segunda-feira, 15 de julho de 2013

uma anarquia

É engraçado como algumas coisas tão banais nos convidam a reflexões mais profundas.

Ontem estava no meu quarto lendo o melhor livro do mundo (O reino de Deus está em vós - Tolstói). Quando ouço um roc-roc vindo da sala. Na hora já imaginei que fosse meu cachorro mais gorduchinho, o Jacques, comendo a caixinha de bis que havíamos deixado no sofá. Pois eu me lembro de ter deixado um chocolate uma vez no sofá que sumiu misteriosamente, além disso mesmo sem ele "nunca" ter comido chocolate quando ele sente que estamos comendo fica maluco pedindo. Assim, sai do quarto já pronta para dar uma ralhada nele, seria uma bronca surpreendente e enérgica da qual ele jamais esqueceria.

Caminhando bem silenciosamente para dar o flagrante, saio do quarto, passo pelo outro cachorro, o Gurila que finge não estar sabendo de nada. E quando olho para o sofá, lá está ele! O cachorro gorduchinho se deliciando. A cena é tão cômica que quando abro a boca, pensando que vai sair um grito raivoso, como seria de se esperar, sai uma gargalhada interminável... a qual apaga da minha mente a imagem de mim mesma com uma mão na cintura e outra apontado para a fuça dele, gritando argumentos irrefutáveis capazes de fazer qualquer ser vivo se sentir envergonhado, humilhado, frustrado e desamparado.

É interessante pensar que a primeira atitude que me veio na cabeça nada mais foi do que um modo de reproduzir um padrão de comportamento. Depois eu fiquei pensando em todos os argumentos que endossariam uma bronca. O alimento faz mal, dá dor de barriga, e cáries. Exatamente os mesmos efeitos que tem sobre mim! Porque eu poderia comê-lo mas meu mascote não? Porque a medicina canina é menos desenvolvida? Porque ele não escova os dentes? Todos esses argumentos são válidos, mas nenhum justifica uma bronca enérgica no meu amigão do qual sou responsável pelo bem estar. O adequado seria que eu parasse de comer alimentos assim ou que cuidasse para quando comesse tirasse do alcance dele. Afinal o bis que ele havia comido já estava lá dentro, no máximo eu poderia presenteá-lo com uma congestão.

Penso ainda o quão anarquista não foi essa minha atitude de abrir mão da minha autoridade opressora. Anarquia! Palavrinha tão mal empregada que faria com que muitas pessoas julgassem que a anarquia da cena consiste no "cachorro roubando chocolate encima do sofá", uma bagunça!...

Muitos podem achar desumano comparar animais com seres humanos, mas eu creio que essa cena pode representar uma sociedade. Na qual alguns não tem condição de satisfazer suas vontades, e os que tem essa condição não compartilham, apenas acumulam e exibem. E se essa linha (posse) é cruzada existe punição e repressão. Onde poderia haver o riso fácil dos que amam, onde poderia haver uma reflexão autocrítica.

Nenhum crime se justifica, assim como nenhuma ostentação num mundo de fome e miséria.

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