segunda-feira, 15 de julho de 2013

O ego emburrece

Me lembro que tinha verdadeiro pânico de falar em público, ainda sinto desconforto, mas não é mais tão apavorante. O que deve ter ajudado, entre outras coisas, foi que leio o jornalzinho local em voz alta para o Thiago enquanto ele dirige para universidade. Peguei gosto e confiança de ler alto.

Num grupo de estudos a facilitadora disse que cada um teria que ler um trecho do livro. E eu fiquei prestando atenção ao que o colega dizia! Me surpreendi! (e deixei de prestar atenção por uns segundos para pensar) Na minha adolescência o pânico de ter que ler em público me deixava cega e surda, e burra! Não conseguia prestar atenção em mais nada, meu coração batia forte, e tinha que me concentrar simplesmente em não ter um piripaque. Achava eu que isso era timidez, insegurança. Agora penso que são nomes distintos de um mesmo mal, o ego.



O fato de me preocupar mais com meu "desempenho" do que com o conteúdo estudado revela muita coisa. O ego tem o poder de emburrecer. Há quem entre numa discussão para apresentar os melhores argumentos da maneira mais eloquente e persuasiva, só para "vencer" e não para crescer, para aumentar seu conhecimento, compartilhar informação, criar junto. Mesmo inconscientemente essa "cegueira" pode se apropriar de nós e nesse instante deixamos de ver tudo ao redor, preocupados apenas com nosso desempenho. Nos habituamos a viver nesse mundo egóico, incentivados por aparelhos pessoais que nos desligam do mundo real e alimentam apenas nosso ego.

Vidrados nesse novo mundo virtual, dinâmico e onde podemos selecionar ver só o que nos interessa não nos damos conta das cores do dia, se esse ano foi mais quente, se aquele prédio de 20 andares na beira da praia está tapando o sol do bairro inteiro e está contrariando o plano municipal, não percebemos que as ruas são feias cada vez mais cheias de carros, que as pessoas tem feições tristes, cansadas e mal humoradas, não notamos que o arroio foi retilinizado, canalizado e que por cima dele agora há uma rodovia asfaltada e que os pescadores que viviam dele agora tem empregos desgastantes e desagradáveis e compram seus peixes contaminados em supermercados de capital estrangeiro. Não vivemos os momentos, apenas enfeitamos eles com sorrisos e maquiagens para postar no facebook e contar quantas curtidas conseguimos. E para isso tem-se filhos, para serem os mais fofos bebês a receberem as curtidas em nossas páginas sociais.

Se alguém comenta de um livro fingimos não ouvir, não por desinteresse genuíno, mas por medo de demonstrar qualquer sinal de ignorância e sermos mal julgados. Afinal, com tantas distrações que enchem nossos egos nos tornamos burros, muito burros ou alienados, como quiserem. E esse mesmo ego nos impede de reconhecer tal burrice. Tenho a impressão de que muitos pesquisadores morrem de medo que encontrem os possíveis erros de suas pesquisas, quando na verdade deveria expor todas as suas dúvidas e inseguranças afim de sana-las e assim deixar para academia um trabalho de qualidade.

O mesmo ocorre no importante campo da política. Parlamentares votam leis e projetos, se candidatam e bolam planos mirabolantes para reeleição com o intuito de obedecer seu ego. Artistas não buscam muito além de alimentar seu ego. E esse modo de agir, ser e pensar, incentivado e reproduzido incessantemente vem atrapalhando o progresso da humanidade e as realizações pessoais de cada indivíduo.

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